O QUE FIZ DE MIM E NÃO SEI – Imagem: arte da artista
visual canadense Elly Smallwood. - No
topo de um imenso morro, um cenário paradisíaco: o regato, as matas, o encontro
do mar, será o fim do mundo? Como cheguei aqui nem o que fazia agora, não sabia.
Mais parecia um filme, eu o protagonista perdido numa linda paisagem que não
sei se amanhecia ou se preparava o anoitecer, o Sol escondido apenas seus raios
no céu, tudo parecia parado, embora uma brisa fresca me envolvesse. Procurei
identificar aquelas paragens, não era a Serra da Prata nem da Russa, as mais
próximas, nem nenhuma das que já tivesse passado, porém familiar. Inquieto, não
parava de me perguntar como fui parar nesse ponto do mundo, e me desesperava
porque não sabia como sair dali. Fiz a volta em torno de mim mesmo, não havia
caminhos por onde pudesse ter chegado ou pudesse voltar. Parei no mesmo ponto
de antes, fitei todos os limites e uma voz soou do nada: Lindo cenário. Era uma
voz que não era desconhecida e não havia ninguém. Arrepiei e tornei a procurar
ao meu redor, intrigado. Sabe você quem é? Estava próximo de mim, não conseguia
ver quem era. Sabia ali, não visível. Veja ali você ontem, disse-me. E de
repente vinha alguém no matagal denso, e via perfeitamente, andando, à procura
de algo que não consegui distinguir. Ontem? Sim, na eternidade, um dia é igual a
todo tempo de uma encarnação. Ao dizer-me isso, uma cobra enorme e ameaçadora
passou-me entre as pernas em direção àquele outro eu que subia investigando
todos os lugares que pisava. Fiquei assustado. Não se assuste, olhe ali seus
familiares. Ao virar, constatei uma reunião de muitas pessoas desconhecidas: Não
conheço ninguém ali. Sim, você não se lembra nada do que fez ontem, não há como
rememorar as tantas coisas feitas, nem a família, os amigos, os prazeres, os
caprichos, nada, mesmo assim você é hoje o que fez ontem. Ao dizer-me isso,
percebi que a serpente alojou-se justamente em local que aquele eu se
aproximava, ela pronta pro bote. Tentei gritar, avisando. Não adianta, disse-me
a voz invisível. E dali a pouco presenciei o ataque: a víbora voou ao pescoço
daquele eu, enroscou-se ao tronco coibindo qualquer ação dos braços e desferiu
golpes às mordidas na jugular, até vê-lo cair imóvel à sua sanha venenosa. Como
pode? Você não pode fazer nada. Dois estranhos apareceram naquele instante e
avistaram aquele eu sendo atacado. A malacatifa logo se desenrolou daquele eu e
fugiu rastejando. Logo tentaram socorrê-lo e gritaram por ajuda. Os estranhos
que se reuniam lá embaixo, logo se dirigiram subindo ao encontro dos outros
dois que tentavam reanimá-lo. Foram vindos homens, mulheres e crianças, todos
que nunca tinha visto, choravam e se lamentavam agarrados ao morto que, após
algum tempo, foi levado morro abaixo para onde não sei. Acompanhei a descida, quando
a voz me disse: Aquele ali é você anteontem. Anteontem? Sim. Onde? Ali. E me
virei e era aquele eu remando desesperado pela corredeira, sozinho escapando de
não sei quê. Você não se lembra do que fez anteontem. Não, não me lembrava de
nada, mesmo, nem daquele eu tão agoniado para salvar-se. Da mesma forma, não se
lembra dos parentes, achegados, vitórias e derrotas, luxúria e malquerenças,
não há de ter a menor noção, porque hoje você é o que foi ontem e anteontem. Impressionado
eu acompanhava a pugna com as águas revoltas, a noite escura, nenhum lugar. Só muito
depois que vi o voo, a cachoeira, um corpo em queda, uma jangada desgovernada
que caía e um remo que levitava para se enterrar no chão, ao lado de um corpo
inchado e sem vida. Quando vi direito, aquele eu boiava na margem, até ser encontrado
por pessoas estranhas: Esses são seus familiares de anteontem. Também não
reconheci. A voz então disse: Hoje você está aqui, se lembra do que fez hoje?
Virei-me, ninguém do lado, respondi assim mesmo negativamente, não recordava de
nada. Quer ver seu futuro? Abri os olhos espantados esperando uma resposta. Por
um instante não disse nada, um silêncio absoluto tomou conta de tudo por ali. Um
porco rosnou distante, pássaros em revoada, um cheiro de rosa, um vulto de
mulher passou rente, mãos apertadas, olhos no vazio, faces perdidas. Então, ele
me falou: Não, não há mais futuro, chegou a hora. Vamos. Baixei a cabeça e não
sabia o que fazer. Como de um sonho, acordei; e estava tão desencontrado quanto
perdido. Apenas me sabia vivo. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quarta-feira, junho 20, 2018
DESBORDES-VALMORE, KITARO, PERNIOLA, VOLTAIRINE DE CLEYRE, BLANCHOT, NICOLE KIDMAN, ELLY SMALLWOOD & FÁBIO DE CARVALHO
O QUE FIZ DE MIM E NÃO SEI – Imagem: arte da artista
visual canadense Elly Smallwood. - No
topo de um imenso morro, um cenário paradisíaco: o regato, as matas, o encontro
do mar, será o fim do mundo? Como cheguei aqui nem o que fazia agora, não sabia.
Mais parecia um filme, eu o protagonista perdido numa linda paisagem que não
sei se amanhecia ou se preparava o anoitecer, o Sol escondido apenas seus raios
no céu, tudo parecia parado, embora uma brisa fresca me envolvesse. Procurei
identificar aquelas paragens, não era a Serra da Prata nem da Russa, as mais
próximas, nem nenhuma das que já tivesse passado, porém familiar. Inquieto, não
parava de me perguntar como fui parar nesse ponto do mundo, e me desesperava
porque não sabia como sair dali. Fiz a volta em torno de mim mesmo, não havia
caminhos por onde pudesse ter chegado ou pudesse voltar. Parei no mesmo ponto
de antes, fitei todos os limites e uma voz soou do nada: Lindo cenário. Era uma
voz que não era desconhecida e não havia ninguém. Arrepiei e tornei a procurar
ao meu redor, intrigado. Sabe você quem é? Estava próximo de mim, não conseguia
ver quem era. Sabia ali, não visível. Veja ali você ontem, disse-me. E de
repente vinha alguém no matagal denso, e via perfeitamente, andando, à procura
de algo que não consegui distinguir. Ontem? Sim, na eternidade, um dia é igual a
todo tempo de uma encarnação. Ao dizer-me isso, uma cobra enorme e ameaçadora
passou-me entre as pernas em direção àquele outro eu que subia investigando
todos os lugares que pisava. Fiquei assustado. Não se assuste, olhe ali seus
familiares. Ao virar, constatei uma reunião de muitas pessoas desconhecidas: Não
conheço ninguém ali. Sim, você não se lembra nada do que fez ontem, não há como
rememorar as tantas coisas feitas, nem a família, os amigos, os prazeres, os
caprichos, nada, mesmo assim você é hoje o que fez ontem. Ao dizer-me isso,
percebi que a serpente alojou-se justamente em local que aquele eu se
aproximava, ela pronta pro bote. Tentei gritar, avisando. Não adianta, disse-me
a voz invisível. E dali a pouco presenciei o ataque: a víbora voou ao pescoço
daquele eu, enroscou-se ao tronco coibindo qualquer ação dos braços e desferiu
golpes às mordidas na jugular, até vê-lo cair imóvel à sua sanha venenosa. Como
pode? Você não pode fazer nada. Dois estranhos apareceram naquele instante e
avistaram aquele eu sendo atacado. A malacatifa logo se desenrolou daquele eu e
fugiu rastejando. Logo tentaram socorrê-lo e gritaram por ajuda. Os estranhos
que se reuniam lá embaixo, logo se dirigiram subindo ao encontro dos outros
dois que tentavam reanimá-lo. Foram vindos homens, mulheres e crianças, todos
que nunca tinha visto, choravam e se lamentavam agarrados ao morto que, após
algum tempo, foi levado morro abaixo para onde não sei. Acompanhei a descida, quando
a voz me disse: Aquele ali é você anteontem. Anteontem? Sim. Onde? Ali. E me
virei e era aquele eu remando desesperado pela corredeira, sozinho escapando de
não sei quê. Você não se lembra do que fez anteontem. Não, não me lembrava de
nada, mesmo, nem daquele eu tão agoniado para salvar-se. Da mesma forma, não se
lembra dos parentes, achegados, vitórias e derrotas, luxúria e malquerenças,
não há de ter a menor noção, porque hoje você é o que foi ontem e anteontem. Impressionado
eu acompanhava a pugna com as águas revoltas, a noite escura, nenhum lugar. Só muito
depois que vi o voo, a cachoeira, um corpo em queda, uma jangada desgovernada
que caía e um remo que levitava para se enterrar no chão, ao lado de um corpo
inchado e sem vida. Quando vi direito, aquele eu boiava na margem, até ser encontrado
por pessoas estranhas: Esses são seus familiares de anteontem. Também não
reconheci. A voz então disse: Hoje você está aqui, se lembra do que fez hoje?
Virei-me, ninguém do lado, respondi assim mesmo negativamente, não recordava de
nada. Quer ver seu futuro? Abri os olhos espantados esperando uma resposta. Por
um instante não disse nada, um silêncio absoluto tomou conta de tudo por ali. Um
porco rosnou distante, pássaros em revoada, um cheiro de rosa, um vulto de
mulher passou rente, mãos apertadas, olhos no vazio, faces perdidas. Então, ele
me falou: Não, não há mais futuro, chegou a hora. Vamos. Baixei a cabeça e não
sabia o que fazer. Como de um sonho, acordei; e estava tão desencontrado quanto
perdido. Apenas me sabia vivo. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.segunda-feira, dezembro 18, 2017
BARTHES, GEORGE SAND, KUROSAWA, KITARO, ECOSOFIA, SAINKHO, SONIA COUTINHO, DORA MAAR, PAUL KLEE & MEIO AMBIENTE
CIDADANIA &
MEIO AMBIENTE: A TERRA SOMOS NÓS – Imagem: Highways and Byways (1929),
do pintor e poeta suíço naturalizado alemão Paul Klee (1879 - 1940). - Ao assumir a
Coordenadoria de Estudos e Pesquisas da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba
Filho, na gestão do poeta Juareiz Correya, no início dos anos oitenta, realizei
a palestra A atividade artística como função alternativa para o progresso do
município, no Teatro Cinema Apolo, em Palmares. Entre outras propostas,
defendia a arborização, humanização e instalação de equipamentos que possibilitassem
a revitalização e valorização do Rio Una, como também ações idênticas no Rio
Pirangi. Evidente que à época não encontrei eco no seio da sociedade, afinal
Ecologia & Meio Ambiente ainda era um tema incipiente, coisa de doido e
abestalhado metido a cheio das pregas. Anos depois assumi a presidência do
Conselho da FCCHBF, quando pude formalizar a criação, em parceria com o
Professor João da Silva, da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Mata
Sul, desenvolvendo uma série de projetos por meio de articulações com
organizações públicas e privadas, oportunizando a nossa participação na
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD),
preparatória para a ECO-RIO/1992 & Cúpula da Terra. A partir de então
escrevi poema, canções e peças teatrais que abordassem a temática, engajando-me
nessa bandeira. Com a minha transferência para Maceió, pude escrever livros
infantis e realizar recreações e palestras sobre a temática da Cidadania
& Meio Ambiente, apresentando-me em escolas e outras instituições
pública, culminando com o convite recebido do Projeto Protejo, promovido pelo Ministério
da Justiça & Fundação Darcy Ribeiro, no Programa Nacional de Segurança
Pública com Cidadania (PRONASCI), pelo qual pude realizar inúmeras palestras a
respeito. Já no curso de Psicologia, foi a Professora Drª Daniela Botti, na
disciplina de Estágio Básico, que acatou a realização do Projeto PsicoAmbiental
na Comunidade do Riacho Salgadinho, em Maceió, articulando intervenção
nas áreas de Educação Ambiental, Direito Ambiental e Psicologia Ambiental, nas
comunidades limítrofes da nascente à foz do citado recurso hpidrico. Durante a
realização dessas atividades, tive a honra de receber apoio de graduandos das
mais diversas áreas do conhecimento, que assinalaram a temática na realização
dos seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), fato que possibilitou um maior
incentivo e amplitude nos trabalhos, bem como na intervenção de autoridades das
três esferas governamentais, quanto a essa questão. Nessa mesma leva, ao participar
das edições da Festa Literária de Marechal Deodoro (FLIMAR) e da campanha Folia
Caeté, promovida pelo então empresário Marcos Alexandre Martins Palmeira,
inseri a Lagoa Manguaba no campo de atuação, compondo frevo e atividades
artísticas para realização de apresentações perante as comunidades de Pilar e
Marechal Deodoro, inclusive, escrevendo o livro infantil As águas do Alvoradinha,
ainda hoje inédito. Ao longo desses anos todos tenho insistido sobre a temática,
agora voltada também para o Vale do Rio Una, que envolve comunidades de cerca
de mais de cinquenta municípios que são vítimas da poluição de suas águas e das
suas enchentes periódicas. Pensar no ambiente com cidadania requer iniciativas
preventivas e de conscientização, tendo em vista que há um marco legal
específico para tal, todo um aparato de ações educativas e necessidade da
adoção de comportamentos que se insiram sob a perspectiva da sustentabilidade e
da qualidade de vida e do meio ambiente equilibrado e sadio para todos. Eu
acredito nisso, a Terra é nossa casa. © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais aqui.sábado, maio 14, 2016
TAGORE, HERMES, BLAVATSKY, KITARO, EWA GAWLIK & JOVANA RIKALO
EM
MIM A VIDA & O ESTOURO DOS CONFINS DE TUDO - O meu coração pulsa e com ele tudo é
pulsante na Terra que sou eu com todas as rotações e translações do planeta a
cumprir a sua missão entre as sístoles e diástoles e em consonância com o
movimento cósmico vibratório de todo Universo. O meu coração pulsa e com ele
toda galáxia gira e vibra em torno do Sol como um fogo que é vivo e que é vida.
E mais pulsa com o milagre das águas até o espetáculo das cachoeiras que formam
brejos, lagos, lagoas, rios e sou até a imensidão dos mares que banham e me
lavam na festa da vida, por sinapses com as sementes que sou brotando do chão pras
raízes, troncos, galhos, folhas e flores e frutos na imensidão de todas as
matas e florestas com todas as cores da vida. E pulsa nos ventos que sopram as
águas e as árvores levando a vida pelos interstícios das fissuras na distinção
dos continentes do Oriente ao Ocidente, que em dois foram formados pelo corte do
corpo caloso e sou desorioentado de meus hemisférios agora perdido entre os
quatro pontos cardeais, pra ser retalhado em muitas redomas da lei de cada país.
E sou até minha América do meu coração pele vermelha asteca, maia, inca e tupi,
disposto em postas da Groenlandia até a Patagonia, com o abraço da brancura do
cara pálida e a doçura da negra pra recompor os fragmentos equatoriais da minha
carne tropical Brasil de todos os sons, danças e loucuras paradoxais, de
Colônia preada para um Império de sopapos e República de amorfa banana pegando
carona nos trens atrasados das chegadas e partidas e à deriva pelo elo perdido
do fio da meada do desvario humano, até que um dia um porto seguro possa
discernir entre as tantas trilhas que se desbravam das tão poucas veredas no
horizonte escancarado, até ser-me apenas um coração que pulsa quase mínimo grão
invisível no coração do Universo que sou eu e todas as coisas. © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais aqui. domingo, maio 03, 2015
FLORENCE AUBENAS, AN NAHAR, NÉLIDA PIÑON, SHELLEY, OSWALD DE ANDRADE & CAROLINA NABUCO
O SONHO & A
DECEPÇÃO DE CAROLINA – Carolina nasceu filha de fazendeiro e neta de
barão, no Rio de Janeiro, na Belle Époque – leia-se final do século 19,
mas passou quase toda sua infância em Petrópolis. Como era filha do diplomata do
império e um dos criadores da Academia Brasileira de Letras, educou-se na
Europa e passou a sua adolescência nos Estados Unidos, onde seu pai era
embaixador. Retornou ao Brasil com formação linguística e literária, verdadeira
senhorinha da sociedade que dialogava tanto no francês como no inglês. Aos 38
anos publicou seu primeiro livro: uma biografia paterna que foi premiada pela
ABL. A partir daí quase viveu no céu, não fossem duas coisinhas um tanto desagradáveis:
a primeira era que seu pai foi um político daqueles que contribuíram ativamente
para o Fecamepa e, a outra, a polêmica do seu livro A sucessora e
a Rebecca da Daphne du Maurier, este último, inclusive, que virou
peça teatral, em 1939, e, posteriormente, um filme pelas mãos de nada mais que Hitchcock,
em 1940. Seguinte: Carolina, segundo ela própria conta noutra de suas obras, o Oito
décadas, traduzira o seu polêmico romance para o inglês, enviando-o para
uma agência literária de New York e outra da Inglaterra, na esperança de vê-lo
publicado por lá. Depois de muitas tentativas e alguns desleixes, certo dia ela
compra um livro e, ao ler, viu que era a sua obra, mas com outro título e outra
autora que não ela. Ora! Investigações daqui, outras celeumas dali, até que o New
York Times Book Review destacou a semelhança entre os dois romances. E quando o
filme foi lançado no Brasil, os advogados da United Artists fizeram uma proposta
para ela sobre as badaladas coincidências, oferecendo-lhe compensação
financeira. Ela bateu o pé e negou-se a tal. Isso porque o seu romance A
sucessora fora escrito em 1934, enquanto o da Rebecca foi escrito em
1937, conforme detectou Nina Auerbach, da Universidade da Pensilvânia. O escândalo
deu pano pras mangas e parece que ficou o dito pelo não dito. Tanto é que em 1978,
a TV Globo adaptou A sucessora para televisão. Passaram-se os anos e Carolina
tornou-se tradutora, escritora, crítica literária, católica fervorosa, nunca se
casou nem teve filhos e levou uma vida bastante discreta. Escreveu romances,
contos, biografias e uma história da literatura estadunidense. Aos 91 anos de idade
ela faleceu no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Com ela foi-se
tudo o mais. Veja mais abaixo e mais aqui, aqui, aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS - O Brasil havia sido Império e conservava (ou pelo menos conservou até
recentemente) muito da feição do regime patriarcal que vigorava então. Eu, neta
de fazendeiros senhores de escravos, guardava muito da mentalidade de uma
sinhazinha, mentalidade que transmiti à minha heroína Marina... Palavras da
escritora e tradutora Carolina Nabuco (Maria Carolina Nabuco de Araújo (1890-1981),
em seu livro Oito décadas – memórias (1973 - Nova Fronteira, 2000), em
referência à personagem do seu plagiado livro A Sucessora (Companhia
Editora Nacional, 1934), no qual ela expressa que: [...] Marina vinha de
outro meio. O Brasil dela era o velho Brasil agreste dos antepassados
fazendeiros. Roberto tinha sangue estrangeiro, tinha avós vindos da Flandres,
emigrantes de terceira classe. Os de Marina haviam sido por muitas gerações
proprietários de Santa Rosa, a fazenda mais antiga do Estado do Rio. [...].
Este livro une prosa intimista e psicológica ao dar voz a uma protagonista
feminina: Marina, jovem criada na fazenda que se casa com o viúvo Roberto
Steen. Ao mudar-se para a mansão dele, no Rio de Janeiro, Marina se depara com
o retrato de Alice, a falecida esposa, e passa a sentir a presença dela. Sobre a
obra a crítica literária Nelly Novaes Coelho expressa: [...] se mesclam
atitudes, tendências ou ideais contrastantes que expressam bem o processo de
modernização no Brasil da década de 1930, processo em que se defrontam os
valores aristocratizantes da sociedade tradicional em declínio (a dos grandes
proprietários de terra e suas legiões de trabalhadores-escravos) e da sociedade
moderna em ascensão (a dos industriais e alto comércio, construída
principalmente pelos imigrantes que passam a ser os novos ricos). Essas duas
classes – a da aristocracia rural brasileira e a dos novos ricos urbanos –
estão representadas no romance por Roberto (descendente de imigrantes e novo
rico), casado em segundas núpcias com Mariana (descendente da aristocracia
rural empobrecida). [...]. Conta-se que o romance em comento alcançou muito
sucesso com a publicação de Rebecca, da escritora inglesa Daphne du
Maurier, publicado em 1938, texto que deu origem ao filme de Hitchcock. Por
conta disso, o seu romance A sucessora teria sido plagiado e deu motivo a
debate jornalístico, porque a escritora inglesa copiou não somente o enredo,
como situações e diálogos da obra, detectado, inclusive, pela imprensa e críticos
estadunidenses. Carolina Nabuco é autora de obras como A Vida de Joaquim
Nabuco (1929), Chama e Cinzas (1947), Meu Livro de Cozinha
(1977), O Ladrão de Guarda-Chuva e Dez Outras Histórias (contos), Oito
décadas (memórias), Santa Catarina de Siena (biografia), Virgílio
de Melo Franco (biografia) e Retrato dos Estados Unidos à luz da sua
literatura (ensaio). Ela recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia
Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.
ALGUÉM FALOU: Um emprego em tempo integral, com um
salário decente, contrato indefinido e férias pagas hoje é uma quimera... Esta foi a conclusão a que chegou a
jornalista francesa Florence Aubenas, com a experiência de escrever e
publicar o seu livro El muelle de Ouistreham (Editorial Anagrama, 2011).
A
jornalista coletou neste livro sua experiência por seis meses como candidata a
emprego. Para obter as informações necessárias, fingiu ser uma mulher de 48
anos sem trabalho, recém-separada e sem experiência de trabalho, disposta a
fazer nada. Durante esse meio ano, ela trabalhou por horas como faxineira em
uma balsa que atravessa o Canal de La Mancha, em um acampamento e em prédios de
escritórios com salários abaixo do salário mínimo.
ALGUÉM MAIS
FALOU: Os homens fazem a
guerra. As mulheres dão vida a quem faz a guerra, a quem nos mata, a quem nos
viola. Sofremos as consequências, preservando a vida... De um jornalista libanês do An Nahar.
Tu és Aton, tu és Eterno...
PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do Programa Brincarte
do Nitolino, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação
de Isis Corrêa Naves. Na programação Turma da Mônica, Sandra
Fayad, Turminha do Tio Marcelo, Meimei Corrêa, A criancinha que consertou o
homem e o mundo, As pererecas sapecas, Valores éticos e morais no contexto do
cotidiano das crianças, Patati & Patatá, Doutora July & muita música,
muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Logo
após a apresentação, acontece a programação do Domingo Romântico com reprise de
todos os programas da semana. E também é o momento de participar da promoção
Brincarte do Nitolino aqui. Para conferir o programa ao vivo e online é só ligar
aqui e aqui.
MANIFESTO PAU BRASIL – No Dia do Pau Brasil, nada mais justo
que trazer aqui o Manifesto Pau-Brasil
(Correio da Manhã, 1924), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo
brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954):
A poesia existe nos fatos. Os casebres de
açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos
estéticos. O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil.
Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica
rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. Toda a
história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado
citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na
Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases
feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil. O lado doutor.
Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas
selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de
dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo.
Esquecemos o gavião de penacho. A nunca exportação de poesia. A poesia anda
oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária. Mas
houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram
como borrachas sopradas. Rebentaram. A volta à especialização. Filósofos
fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha. A
Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem. Tinha havido a
inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre
morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens
de lei, gordos e dourados como Corpus Juris. Ágil o teatro, filho do
saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a
poesia. A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança. Uma sugestão de
Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a
manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na
direção oposta ao vosso destino. Contra o gabinetismo, a prática culta da vida.
Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das
idéias. A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A
contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. Não há
luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros. Uma
única luta - a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia
Pau-Brasil, de exportação. Houve um fenômeno de democratização estética nas
cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de
carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário
oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a
pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina
fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da
misteriosa genialidade de olho virado - o artista fotógrafo. Na música, o piano
invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram
pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia
eslava compôs para a pleyela. Stravinski. A estatuária andou atrás. As
procissões saíram novinhas das fábricas. Só não se inventou uma máquina de
fazer versos - já havia o poeta parnasiano. Ora, a revolução indicou apenas que
a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases:
1º) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário.
De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 2º) o lirismo, a apresentação
no templo, os materiais, a inocência construtiva. O Brasil profiteur. O Brasil
doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de
reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil. Como a época é miraculosa, as leis
nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos. A síntese O
equilíbrio O acabamento de carrosserie A invenção A surpresa Uma nova
perspectiva Uma nova escala. Qualquer esforço natural nesse sentido será bom.
Poesia Pau-Brasil O trabalho contra o detalhe naturalista - pela síntese;
contra a morbidez romântica - pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento
técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa. Uma nova perspectiva. A
outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética.
Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é
de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e
naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual,
irônica, ingênua. Uma nova escala: A outra, a de um mundo proporcionado e
catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo
letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da
aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e
tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos
fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte. A reação contra o
assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo
monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma
aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido. Nossa época anuncia a
volta ao sentido puro. Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes
sob a luz. A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com
passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo
uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o
presente. Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com
olhos livres. Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raça
crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da
mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem
pegá" e de equações. Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas
turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de
vista o Museu Nacional. Pau-Brasil. Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus
e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A
hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de
aviação militar. Pau-Brasil. O trabalho da geração futurista foi ciclópico.
Acertar o relógio império da literatura nacional. Realizada essa etapa, o
problema é outro. Ser regional e puro em sua época. O estado de inocência
substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito. O
contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica. A reação
contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O
melhor de nossa demonstração moderna. Apenas brasileiros de nossa época. O
necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido.
Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências
livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia. Bárbaros,
crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a
escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação.
Pau-Brasil. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
MEDEIA – A tragédia Medeia (431aC), poeta trágico grego Eurípedes (480-460aC), foi apresentada nas Grandes Dionísias, apresenta
uma história que se passa em Corinto, trazendo o retrato psicológico de uma
mulher na condição de esposa repudiada e estrangeira perseguida que rejeita o
conformismo tradicional, a ponto de matar os filhos para vingar-se do marido
infiel que se casa com Glauce, a filha de Creonte, o rei de Corinto. Dessa peça
teatral destaco o trecho a seguir: (Entra Medeia.) Medeia: Saí de casa, ó mulheres de
Corinto, para que nada me censurei. Porque eu sei que muitos dentre os mortais
são arrogantes, uns longe da vista, outros à porta de casa; outros,
atravessando a vida com passo tranqüilo, hostil fama ganharam de vileza. Porque
não há justiça aos olhos dos mortais, se alguém antes de bem conhecer o íntimo
do homem, o odeia só de o ver, sem ter sido ofendido. Força é que o estrangeiro
se adapte à nação; tampouco louvo do cidadão que é acerbo para os outros, por
falta de sensibilidade. Sobre mim este feito inesperado se abateu, que a minha
alma destruiu. Fiquei perdida e tenho de abandonar as graças desta vida para
morrer,, amigas. Aquele que era tudo para mim (ele bem o sabe) no pior dos
homens se tornou - o meu esposo. De quanto há aí dotado de alma e de razão,
somos nós, mulheres, a mais mísera criatura. Nós, que primeiro temos de
comprar, à força de riqueza, um marido e de tomar um déspota do nosso corpo -
dói mais ainda um mal do que o outro. E nisso vai o maior risco, se o tomamos
bom ou mau. Pois a separação para a mulher é inglória, e não pode repudiar o
marido. Entrada numa raça e em lei novas, tem de ser adivinha, sem ter
aprendido em casa, de como deve tratar o companheiro de leito. E quando o
conseguimos com os nossos esforços, invejável é a vida com um esposo que não
leva o jugo à força; de outro modo antes a morte. O homem, quando o enfadam os
da casa, saindo, liberta o coração do desgostos. Para nós, força
é que contemplemos uma só pessoa. Dizem: como nós
vivemos em casa uma vida sem risco, e ele a combater com a lança. Insensatos!
Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha a ser uma só vez mãe! Mas a vós e a mim não serve a
mesma argumentação. Vós tendes aqui a vossa cidade e a casa paterna, a posse do
bem-estar e a companhia dos amigos. E eu, sozinha, sem pátria, sou ultrajada
pelo marido, raptada duma terra bárbara, sem ter mãe, nem irmão, nem parente,
para me acolher desta desgraça. Apenas isto de vós quero obter: se alguma
solução ou processo eu encontrar para fazer pagar ao meu marido a pena deste
ultraje, guardai silêncio. Aliás, cheia de medo é a mulher, e vil perante a
força e à vista do ferro. Mas quando no leito a ofensa sentir, não há aí outro
espírito que penda mais para o sangue. Coro: Assim farei. Com justiça castigarás o
teu marido, ó Medeia. Não me admiro que deplores a tua sorte. Mas vejo também
Creonte, o príncipe desta terra, que se aproxima, mensageiro de novas
deliberações. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
BELFAGOR, O ARQUIDIABO – O conto Belfagor, o arquidiabo (1549), do escritor, filósofo, historiador e
dip0lomata italiano Nicolau Maquiavel
(1469-1527), conta as desventura do diabo mandado à terra como ser humano para
verificar o matrimônio, criticando a corrupção dos costumes e defendendo a
liberdade com a visão do autor da sociedade medieval. Da obra destaco o trecho:
[...] foi-se
Belfagor ao mundo e, devidamente provido de cavalos e acompanhantes, entrou ele
em Florença com o maior aparato. Escolhera esta cidade para domicílio, entre
todas as demais, por lhe parecer a mais plausível para quem quisesse viver
empregando o seu dinheiro em negócios. Fez-se chamar Rodrigo de Castela e
alugou uma casa no bairro de Todos os Santos [Ognissanti]. Para que não pudessem descobrir-lhe os
antecedentes, disse ter partido da Espanha ainda criança; dali fora à Síria e a
Alepo, onde ganhara tudo o que possuía; de lá viajara para a Itália, a fim de
se casar num lugar mais humano e mais conforme à vida civilizada e à sua
própria índole. Era Rodrigo um moço formoso, que aparentava trinta anos. Em
poucos dias demonstrara ele quantas riquezas tinha e dera provas da sua
liberalidade e humanidade; logo vários cidadãos nobres, providos de muitas filhas
e pouco dinheiro, lhe ofereceram os seus préstimos. Entre todas, Rodrigo
escolheu uma belíssima donzela chamada Honesta, filha de Américo Donati, que
tinha mais três filhas, quase em idade de se casar, e três filhos já adultos.
De família muito nobre e tido em bom conceito em Florença, era no entanto muito
pobre, levando-se em conta a sua numerosa prole e a sua condição. Rodrigo
celebrou as suas núpcias com esplendor e grandeza, não descuidando de nada que
seja necessário em tais circunstâncias, pois entre as obrigações que lhe foram
impostas ao sair do Inferno, estava a de sujeitar-se a todos os caprichos
humanos; assim, logo passou a deleitar-se com as honrarias e pompas do mundo e
a gostar de ser louvado entre os homens, coisas que o levaram a grandes gastos.
Por outro lado, não tardou muito a apaixonar-se perdidamente por sua D. Honesta
e quase não conseguia viver quando a encontrava triste ou aborrecida. Com a sua
nobreza e formosura, a senhora Honesta levara consigo para a casa de Rodrigo um
orgulho tão desmesurado que mesmo Lúcifer não o tivera igual. Rodrigo, que
podia comparar um e outro, considerava o da sua mulher infinitamente superior,
e consta que ainda chegou a ser maior quando percebeu o amor que seu marido
sentia por ela. Imaginando ser por todas as maneiras a dona absoluta, dava as
suas ordens sem consideração ou piedade, e se ele relutasse a fazer as suas
vontades, desatava em recriminações e injúrias, o que era para o pobre Rodrigo
motivo de viva pena e aflição. Sem dúvida, por consideração ao seu sogro, aos
seus cunhados e demais parentes, por respeito aos deveres do casamento e pelo
amor que dedicava à esposa, sofria os seus males com a maior paciência. Quero
passar em silêncio sobre os grandes gastos a que era obrigado para contentá-la,
vestindo segundo os novos costumes e as modas mais recentes, que a nossa cidade
varia por hábito natural; nem lembrarei que, para ela o deixar em paz, teve ele
de ajudar o sogro a casar as outras filhas, o que lhe fez despender também
considerável importância. Depois, querendo manter-se em boa paz com a mulher,
consentiu em mandar um dos irmãos dela ao Oriente com casimira, e outro para o
Ocidente levando sedas, ao passo que para o terceiro irmão abriu em Florença
uma oficina de ourives, em que despendeu a maior parte do dinheiro que possuía.
Além disso, nas festas de Carnaval e de S. João, celebradas pela cidade inteira
segundo tradição antiga, quando grande número de cidadãos nobres e ricos se
honravam uns aos outros com magníficos banquetes, D. Honesta, para não ficar
atrás de outras damas, queria que o seu Rodrigo superasse a todos os demais com
as suas festas. Tudo isto, suportava-o Rodrigo pelos motivos supracitados;
apesar de gravíssimas, nem graves as teria achado se houvessem introduzido a
paz em sua casa, permitindo-lhe aguardar em sossego o momento de sua própria
ruína. Mas foi o contrário o que aconteceu, pois a índole insolente da esposa,
além das despesas insuportáveis, carrearam-lhe inúmeros aborrecimentos. Nenhum
criado a aguentava, não digo por muito tempo, mas nem sequer por alguns dias.
Para Rodrigo era o mais duro dos incômodos não possuir um criado que tivesse
amor à sua casa. Os próprios diabos que trouxera consigo como domésticos
preferiram voltar aos fogos do Inferno a viver no mundo sob as ordens daquela
mulher [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.
FUNDADOR – O romance Fundador (Labor, 1976), da escritora Nélida Piñon, envolve uma narrativa labiríntica e investigativa
sobre religião, filosofia, história e acontecimentos do personagem Fundador e
Monja, no qual destaco o trecho: [...] Ptolomeu analisou aquele rosto. O semblante de Johanus e Fundador. O
mesmo hábito de reclamar ou proclamar a inconsistência. A história avançando em
suas feições. Quase Ptolomeu lhe confessando que devia, sim, partir
imediatamente, também fundar sua cidade, ou descobrir as razões do sangue
débil e impreciso. Morrer toma tempo, pensou Ptolomeu apressado. Joe
movimentou-se para partir. Reservava com o mais alto dos poderes a imagem do
amigo. Esquivando-se a contatos mais comoventes. Receava a precipitação dos
sentimentos albergados tanto tempo. Bem podiam viver sem eles. Acompanhou-o à
porta. Olharam-na então. Ptolomeu convencia-se da frágil vitória. Estivera
certo por tempo demasiado, e merecia agora silêncio. – Johanus chegou onde eu
quis, disse o velho, mais parecendo delirar. – Johanus? De quem se trata? Joe
contraía-se, como se aceitasse o malogro de toda ação futura. – Eu lhe prometi
Jerusalém, agora sei que conseguiu chegar. Joe tomou-o pelos ombros,
insistente. Convertendo em caricia o gesto inicialmente mais forte. Mas,
Ptolomeu esquivava-se. Embora com amizade. Não pretendia transbordar a taça. –
Cansaço, apenas, murmurou débil. E se desligou. Joe ainda o viu entrando na
loja. Começava a fechar a primeira das três portas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
AURÉLIO: O PAI DOS BURROS - No eu tempo de ginásio, eu gritava na
sala de aula: - Dá meu Pai dos Burros, cara! E era de todos os tamanhos: meu
pai comprou um Aurelião pra ele, um Aurélio pra mim e um Aurelinho que era
revezado por minhas irmãs – uma estudava de manhã; a outra, de tarde. Eu mesmo
surrupiava o Aurelião dele e impava de empáfia desfilando rua acima e entre as
bancas da escola. Brincava até de caçar palavras, quando encontrava alguém e pedia para que dissesse uma bem estrambólica, do tipo daquelas bem estranhas que eu pinçava quando, com 10 anos de idade, virei copista no cartório e transcrevia as sentenças do juiz num livro denominado Tombo de Registro de Sentenças. Eu me deleitava quando flagrava uma que eu não sabia e corria lá folheando pra saber o significado. Era bom demais saber o que os doutos falavam. Findei ficando com o Aurelião pra mim, ainda hoje o tenho na
estante. Essa minha homenagem ao dicionarista, lexicógrafo, filólogo e ensaísta
Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira
(1910-1989). Veja mais aqui.
LES QUATRE CENTS COUPS – O premiado drama Les quatre cents coups (Os incompreendidos, 1959), do cineasta
francês e fundador da Nouvelle Vague François
Truffaut (1932-1984), foi um dos filmes que mais assisti na minha adolescência,
quando eu mandava ver pintando o sete. Trata-se de uma história quase
autobiográfica e inspirada na experiências da infância e adolescência do
cineasta, contando a história de um garoto que se rebela contra o autoritarismo
da escola e o desprezo de sua mãe e padrasto. Sentindo-se rejeitado, ele passa
a gazear aulas, frequentando cinemas e conversando com amigos (ôpa, essa
história é minha!). Daí, então, ele passa a vivenciar descobertas e cometendo
pequenos delitos até ser preso num reformatório como punição dos próprios pais.
O filme ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes (1959). Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a vontade de tom...
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PRIMEIRO DE MAIO - O melhor dia de trabalho é o primeiro de maio porque é feriado, isso quando não cai num dia de domingo, senão é mesmo...
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A arte do cartunista e ativista político Carlos Latuff . MOVIMENTO SINDICAL NO BRASIL - Os sindicatos são organizações cria...
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Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...


























