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quarta-feira, junho 20, 2018

DESBORDES-VALMORE, KITARO, PERNIOLA, VOLTAIRINE DE CLEYRE, BLANCHOT, NICOLE KIDMAN, ELLY SMALLWOOD & FÁBIO DE CARVALHO


O QUE FIZ DE MIM E NÃO SEI – Imagem: arte da artista visual canadense Elly Smallwood. - No topo de um imenso morro, um cenário paradisíaco: o regato, as matas, o encontro do mar, será o fim do mundo? Como cheguei aqui nem o que fazia agora, não sabia. Mais parecia um filme, eu o protagonista perdido numa linda paisagem que não sei se amanhecia ou se preparava o anoitecer, o Sol escondido apenas seus raios no céu, tudo parecia parado, embora uma brisa fresca me envolvesse. Procurei identificar aquelas paragens, não era a Serra da Prata nem da Russa, as mais próximas, nem nenhuma das que já tivesse passado, porém familiar. Inquieto, não parava de me perguntar como fui parar nesse ponto do mundo, e me desesperava porque não sabia como sair dali. Fiz a volta em torno de mim mesmo, não havia caminhos por onde pudesse ter chegado ou pudesse voltar. Parei no mesmo ponto de antes, fitei todos os limites e uma voz soou do nada: Lindo cenário. Era uma voz que não era desconhecida e não havia ninguém. Arrepiei e tornei a procurar ao meu redor, intrigado. Sabe você quem é? Estava próximo de mim, não conseguia ver quem era. Sabia ali, não visível. Veja ali você ontem, disse-me. E de repente vinha alguém no matagal denso, e via perfeitamente, andando, à procura de algo que não consegui distinguir. Ontem? Sim, na eternidade, um dia é igual a todo tempo de uma encarnação. Ao dizer-me isso, uma cobra enorme e ameaçadora passou-me entre as pernas em direção àquele outro eu que subia investigando todos os lugares que pisava. Fiquei assustado. Não se assuste, olhe ali seus familiares. Ao virar, constatei uma reunião de muitas pessoas desconhecidas: Não conheço ninguém ali. Sim, você não se lembra nada do que fez ontem, não há como rememorar as tantas coisas feitas, nem a família, os amigos, os prazeres, os caprichos, nada, mesmo assim você é hoje o que fez ontem. Ao dizer-me isso, percebi que a serpente alojou-se justamente em local que aquele eu se aproximava, ela pronta pro bote. Tentei gritar, avisando. Não adianta, disse-me a voz invisível. E dali a pouco presenciei o ataque: a víbora voou ao pescoço daquele eu, enroscou-se ao tronco coibindo qualquer ação dos braços e desferiu golpes às mordidas na jugular, até vê-lo cair imóvel à sua sanha venenosa. Como pode? Você não pode fazer nada. Dois estranhos apareceram naquele instante e avistaram aquele eu sendo atacado. A malacatifa logo se desenrolou daquele eu e fugiu rastejando. Logo tentaram socorrê-lo e gritaram por ajuda. Os estranhos que se reuniam lá embaixo, logo se dirigiram subindo ao encontro dos outros dois que tentavam reanimá-lo. Foram vindos homens, mulheres e crianças, todos que nunca tinha visto, choravam e se lamentavam agarrados ao morto que, após algum tempo, foi levado morro abaixo para onde não sei. Acompanhei a descida, quando a voz me disse: Aquele ali é você anteontem. Anteontem? Sim. Onde? Ali. E me virei e era aquele eu remando desesperado pela corredeira, sozinho escapando de não sei quê. Você não se lembra do que fez anteontem. Não, não me lembrava de nada, mesmo, nem daquele eu tão agoniado para salvar-se. Da mesma forma, não se lembra dos parentes, achegados, vitórias e derrotas, luxúria e malquerenças, não há de ter a menor noção, porque hoje você é o que foi ontem e anteontem. Impressionado eu acompanhava a pugna com as águas revoltas, a noite escura, nenhum lugar. Só muito depois que vi o voo, a cachoeira, um corpo em queda, uma jangada desgovernada que caía e um remo que levitava para se enterrar no chão, ao lado de um corpo inchado e sem vida. Quando vi direito, aquele eu boiava na margem, até ser encontrado por pessoas estranhas: Esses são seus familiares de anteontem. Também não reconheci. A voz então disse: Hoje você está aqui, se lembra do que fez hoje? Virei-me, ninguém do lado, respondi assim mesmo negativamente, não recordava de nada. Quer ver seu futuro? Abri os olhos espantados esperando uma resposta. Por um instante não disse nada, um silêncio absoluto tomou conta de tudo por ali. Um porco rosnou distante, pássaros em revoada, um cheiro de rosa, um vulto de mulher passou rente, mãos apertadas, olhos no vazio, faces perdidas. Então, ele me falou: Não, não há mais futuro, chegou a hora. Vamos. Baixei a cabeça e não sabia o que fazer. Como de um sonho, acordei; e estava tão desencontrado quanto perdido. Apenas me sabia vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, música e mult-instrumentista japonês Kitaro: Live in America, Live na Enchanted Evening, Daylught Moonlight Live & Oasis & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] E quando todos tenham passado novamente através de mim, porque embora eu não me lembre, eles já passaram uma vez; e além de outras considerações, quando todos tenham passado de novo através de mim, será uma imensa satisfação, porque eu lhes poderei dizer a todos que são o primeiro, que aquelas coisas que faço com eles não as fiz nunca com ninguém [...]. Pensamento extraído da obra Tiresia (Silva, 1968), do filósofo italiano Mario Perniola (1941-2018), que noutra obra, Do sentir (Presença, 1993), expressa: [...] Não nos devemos deixar arrebatar pelo impulso exterior e devemos refletir com tempo e deixar que o repouso acalme completamente a emoção! [...]. Veja mais aqui.

SONHO & SEMELHANTE – [...] O sonho é o despertar do interminável [...]. O sonho toca a região onde reina a pura semelhança. Tudo nele é semelhante, cada figura nele é uma outra, é semelhante a outra, e ainda a uma outra, e esta a uma outra. Procura-se o modelo original, quer-se ser remetido a um ponto de partida, a uma revelação inicial, mas nada disso existe: o sonho é o semelhante que remete eternamente ao semelhante. […] Viver um acontecimento em imagem não é ter desse evento uma imagem nem tampouco dar-lhe a gratuidade do imaginário. O acontecimento, nesse caso, tem lugar verdadeiramente e, no entanto, terá ele lugar “verdadeiramente”? O que acontece nos arrebata, como nos arrebataria a imagem, ou seja, nos despoja, de si e de nós, mantém-nos de fora, faz desse fora uma presença em que o “Eu” não “se” reconhece. [...] Essa duplicidade não é tal que se possa pacificá-la por meio de um ou isto ou aquilo, capaz de autorizar uma escolha e de apagar da escolha a ambiguidade que a torna possível. Essa duplicidade remete ela própria a um duplo sentido sempre mais inicial. [...] Aqui, o sentido não escapa para um outro sentido, mas para o outro de todo sentido e, por causa da ambiguidade, nada tem sentido, mas tudo parece ter infinitamente sentido: o sentido não é nada além de uma aparência, a aparência faz com que o sentido se torne infinitamente rico. [...]. Trechos extraídos da obra L’espace littéraire (Galimard, 1955), do escritor, ensaísta e crítico de literatura Maurice Blanchot (1907-2003). Veja mais aqui e aqui.

AÇÃO DIRETA – Do ponto de vista daquele que se julga capaz de discernir uma rota constante para o progresso humano, e segue por ela, e desenha tal rota no mapa de sua mente, certamente resolverá indicá-la aos outros; fazê-los ver as coisas como ele vê; convencê-los com argumentos claros e simples que expressem seus pensamentos -- diante disso é um sinal de pesar e de confusão de espírito o fato da frase «Ação Direta» adquirir de repente na mente das pessoas em geral um significado circunscrito, que não tem, e que certamente nunca teve, nem mesmo no pensamento de seus adeptos. Porém, essa é mais uma ironia que o Progresso lança naqueles que se julgam capazes de fixar metas e lutar por alcançá-las. Inúmeras vezes, nomes, frases, lemas, divisas, palavras de ordem, são viradas ao avesso, colocadas de cabeça para baixo. [...] Logo após a chegada dos Quakers em Massachusetts, os Puritanos os acusaram de “aborrecer todo mundo com seus discursos”. Os Quakers não aceitavam jurar submissão a governo algum e nem admitiam que sua igreja pagasse impostos. (Fazendo essas coisas eles eram praticantes da ação direta, coisa que poderíamos chamar de ação direta negativa.) Assim, os Puritanos, sendo ativistas políticos, aprovavam leis para excluir, deportar, multar, encarcerar, mutilar, e finalmente, até mesmo para enforcar os Quakers. Todavia, os Quakers continuaram praticando suas idéias (que era ação direta positiva); há registros na história que depois de enforcarem quatro Quakers e de arrastarem Margaret Brewster presa ao para-choques de um carro pelas ruas de Boston, “os Puritanos desistiram de tentar silenciar os missionários; a persistência e não-violência quacre acabou prevalecendo”. [...] pessoas que perderam o hábito de lutar por si mesmas enquanto indivíduos, pessoas que se submetem a toda injustiça esperando que uma maioria seja formada, são metamorfoseadas em humanos de alto poder explosivo por um mero processo de empacotamento! Eu concordo totalmente que as fontes da vida, e toda a riqueza natural da terra, e as ferramentas necessários à produção cooperativa, tem que estar livremente acessíveis a todos. [...]. Trechos extraídos de The Voltairine De Cleyre Reader (AK Press, 2004), da escritora e ativista anarquista estadunidense Voltairine de Cleyre (1866-1912). Veja mais aqui.

A SINCERA - Você quer comprar? / Coração à venda. / Você quer comprar, / Sem ter que brigar? / Deus o fez de aço; / E você que o renda; / Deus o fez de aço / Para um só abraço! / Eu decido o preço; / Você quer saber? / Eu decido o preço; / Não fique surpreso. / Você tem o seu? / Dê! ganhe meu ser. / Você tem o seu, / Pra pagar o meu? / Se seu não é mais, / Só tenho um desejo; / Se seu não é mais, / Pra mim não há paz. / O meu seguirá, / Cerrado sem pejo; / O meu seguirá, / E Deus o terá! / Pois para a paixão, / A vida é tão rara; / Pois para a paixão, / Não há duração. / A alma só corre / Como a água clara; / A alma só corre, / Só ama! e morre. Poema da poeta maldita francesa Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859). Veja mais aqui.

A ARTE DE NICOLE KIDMAN
A arte da sempre linda e extremamente talentosa atriz australiana Nicole Kidman. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Fábio de Carvalho & banda em show & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte da artista visual canadense Elly Smallwood.
Veja mais aqui.
&
A poesia de Fábio de Carvalho aqui e aqui.
&
A bolsa da vera bandoleira, Civilização e barbárie de Jean-François Mattei, a poesia de Marceline Desbordes-Valmore, a ação direta de Valtairine de Cleyre, a Venus Aphrodite Callipyge & a música do OuroBa aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

segunda-feira, dezembro 18, 2017

BARTHES, GEORGE SAND, KUROSAWA, KITARO, ECOSOFIA, SAINKHO, SONIA COUTINHO, DORA MAAR, PAUL KLEE & MEIO AMBIENTE

CIDADANIA & MEIO AMBIENTE: A TERRA SOMOS NÓS – Imagem: Highways and Byways (1929), do pintor e poeta suíço naturalizado alemão Paul Klee (1879 - 1940). - Ao assumir a Coordenadoria de Estudos e Pesquisas da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, na gestão do poeta Juareiz Correya, no início dos anos oitenta, realizei a palestra A atividade artística como função alternativa para o progresso do município, no Teatro Cinema Apolo, em Palmares. Entre outras propostas, defendia a arborização, humanização e instalação de equipamentos que possibilitassem a revitalização e valorização do Rio Una, como também ações idênticas no Rio Pirangi. Evidente que à época não encontrei eco no seio da sociedade, afinal Ecologia & Meio Ambiente ainda era um tema incipiente, coisa de doido e abestalhado metido a cheio das pregas. Anos depois assumi a presidência do Conselho da FCCHBF, quando pude formalizar a criação, em parceria com o Professor João da Silva, da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Mata Sul, desenvolvendo uma série de projetos por meio de articulações com organizações públicas e privadas, oportunizando a nossa participação na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), preparatória para a ECO-RIO/1992 & Cúpula da Terra. A partir de então escrevi poema, canções e peças teatrais que abordassem a temática, engajando-me nessa bandeira. Com a minha transferência para Maceió, pude escrever livros infantis e realizar recreações e palestras sobre a temática da Cidadania & Meio Ambiente, apresentando-me em escolas e outras instituições pública, culminando com o convite recebido do Projeto Protejo, promovido pelo Ministério da Justiça & Fundação Darcy Ribeiro, no Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), pelo qual pude realizar inúmeras palestras a respeito. Já no curso de Psicologia, foi a Professora Drª Daniela Botti, na disciplina de Estágio Básico, que acatou a realização do Projeto PsicoAmbiental na Comunidade do Riacho Salgadinho, em Maceió, articulando intervenção nas áreas de Educação Ambiental, Direito Ambiental e Psicologia Ambiental, nas comunidades limítrofes da nascente à foz do citado recurso hpidrico. Durante a realização dessas atividades, tive a honra de receber apoio de graduandos das mais diversas áreas do conhecimento, que assinalaram a temática na realização dos seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), fato que possibilitou um maior incentivo e amplitude nos trabalhos, bem como na intervenção de autoridades das três esferas governamentais, quanto a essa questão. Nessa mesma leva, ao participar das edições da Festa Literária de Marechal Deodoro (FLIMAR) e da campanha Folia Caeté, promovida pelo então empresário Marcos Alexandre Martins Palmeira, inseri a Lagoa Manguaba no campo de atuação, compondo frevo e atividades artísticas para realização de apresentações perante as comunidades de Pilar e Marechal Deodoro, inclusive, escrevendo o livro infantil As águas do Alvoradinha, ainda hoje inédito. Ao longo desses anos todos tenho insistido sobre a temática, agora voltada também para o Vale do Rio Una, que envolve comunidades de cerca de mais de cinquenta municípios que são vítimas da poluição de suas águas e das suas enchentes periódicas. Pensar no ambiente com cidadania requer iniciativas preventivas e de conscientização, tendo em vista que há um marco legal específico para tal, todo um aparato de ações educativas e necessidade da adoção de comportamentos que se insiram sob a perspectiva da sustentabilidade e da qualidade de vida e do meio ambiente equilibrado e sadio para todos. Eu acredito nisso, a Terra é nossa casa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o músico, compsoitor e multi-instrumentista japonês Kitaro: Heaven & Earth Ost; a cantora russa Sainkho Namtchylak & Ethno Orchestra: Alpha Co; a Música Ambiental Instrumental de Kevin MacLeod & Deep Sleep da Tibetan Meditation Music. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – O ser humano surgiu há 2 milhões de anos na Terra [...]. em cerca de apenas 200 anos, a sociedade – especialmente a ocidental -, com seu estilo de vida, conseguiu criar uma crise ambiental de proporções planetárias. O consumo exacerbado de energia e água, as devastações florestais, o lixo excessivo, a explosão demográfica, entre outras questões, são resultado da relação desigual desenvolvida com a natureza depois da Revolução industrial e ao longo do século XX. [...] Pobreza crescente e consumo desenfreado: estas na verdade seriam as maiores causas da degradação ambiental da atualidade. [...]. A sustentabilidade dos recursos está intimimamente ligada aos cuidados com o meio ambiente e à erradicação da pobreza. A qualidade de vida deve fazer parte do desenvolvimento econômico, e este casamento passa pelo uso sustentável dos recursos naturais. Todos os povos devem ter acesso a esses recursos, e usá-los de forma sustentada. [...]. Trechos extraídos da obra Transversalidade e inclusão: desafios para o educador (Senac, 1009), de Rosane Carneiro, Nely Wyse Abaurre, Mônica Armon Serrão et al. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ECOSOFIA, ECOFILOSOFIA & ECOLOGIA PROFUNDA – [...] Nosso mundo está com problemas por causa do comportamento humano fundamentado em mitos e costumes que estão causando a destruição da natureza e provocando as mudanças climáticas. Podemos agora deduzir a mais simples teoria cientifica da realidade: a estrutura ondulada da matéria no Espaço. Ao compreendermos como nós e tudo o que nos cerca está interconectado com o Espaço, podemos deduzir soluções para os problemas fundamentais do conhecimento humano em Física, Filosofia, Metafísica, Teologia, Educação, Saúde, Evolução e Ecologia, Política e Sociedade. Esta é a profunda nova maneira de pensar que Albert Einstein descreveu, que existimos como estruturas espaciais estendidas do universo. Uma mera ilusão de sermos corpos separados. Isto apenas confirma as intuições de antigos filósofos e místicos. [...]. Trecho extraído da obra Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy (David Rothenberg, 1989), do filósofo e ecologista norueguês Arne Naess (1912-2009), que criou a Ecologia Profunda, também conhecida como Ecosofia ou Ecofilosofia, estabelecendo oito princípios de plataforma: O bem-estar e o florescimento da vida humana e da não-humana sobre a terra têm valor em si próprios (sinônimos: valor intrínseco, valor inerente). Esses valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para propósitos humanos; a riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desses valores e são valores em si mesmas; os humanos não têm nenhum direito de reduzir essa riqueza e diversidade exceto para satisfazer necessidades humanas vitais; o florescimento da vida humana e das culturas é compatível com uma substancial dimimuição na população humana. O florescimento da vida não-humana exige essa diminuição; a interferência humana atual no mundo não-humano é excessiva, e a situação está piorando rapidamente; as políticas precisam ser mudadas. Essas políticas afetam estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas básicas. O estado de coisas resultante será profundamente diferente do atual; a mudança ideológica é basicamente a de apreciar a qualidade de vida (manter-se em situações de valor intrínseco), não a de adesão a um sempre crescente padrão de vida. Haverá uma profunda consciência da diferença entre grande e importante; aqueles que subscrevem os pontos precedentes têm a obrigação de tentar implementar, direta ou indiretamente, as mudanças necessárias. Esses princípios embasam q filosofia de harmonia ou equilíbrio ecológico, defendendo que todos os seres vivos têm direito a ser respeitados como tais, eles têm valor em si mesmo quer os humanos pensem assim quer não. Por conta disso, a ecofosofia representa uma nova maneira de ver o mundo e de se relacionar com ele, respeitando a diferença, agindo de modo benevolente, evitando suntuosidade, procurando aproximar-se da natureza exterior aos nossos corpos físicos, na medida do possível.

A LÍNGUA, O DIZER E A ALIENAÇÃO – [...] a língua implica uma relação fatal de alienação. Falar, e com maior razão discorrer, não é comunicar, como se repete com demasiada frequência, é sujeitar [...] Mas a língua, como desempenho de toda a linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer. [...] a língua, portanto, servidão e poder se confundem inelutavelmente [...] A semiologia seria, desde então, aquele trabalho que recolhe o impuro da língua, o refugo da lingüística, a corrupção imediata da mensagem: nada menos do que os desejos, os temores, as caras, as intimidações, as aproximações, as ternuras, os protestos, as desculpas, as agressões, as músicas de que é feita a língua ativa [...] . Trechos extraídos da obra Aula (Cultrix, 1980), do escritor, sociólogo, filósofo, semiólogo e crítico literário francês, Roland Barthes (1915-1980), discutindo as relações de poder dentro da sociedade, entendendo que o poder está impregnado em todas as relações sociais, por mais ínfimas que sejam, sendo a sua manifestação suprema e inescapável seria a linguagem, ou seja, a própria estrutura da língua refletiria imposições sociais e relações de poder estabelecidas, moldando as mensagens formuladas nela. Veja mais aqui.

O PALHAÇO DAS PERDIDAS ILUSÕES - [...] Eu, o escritor, acho que foi exatamente aí. Sim, foi aí que Caio tomou a decisão. Ou o Outro, que o habitava, tomou-a por ele. Estava espantado, perplexo, jamais imaginara que faria isso. Mas, com um quase riso nos lábios, por causa da amúsica que acabara de cantar, viu a si mesmo – que o Outro conduzia – pisar numa cadeira e passar as pernas por cima do corrimão da varanda. O que se seguiu foi um corpo em voo improvável, que se estatelou no cimento do playground do prédio, 12 andares abaixo. Trecho da ficção da escritora, jornalista e tradutora Sonia Coutinho (1939-2013).

CARTA DE AMOR – Estou muito animada para dizer-lhe que tenho / Eu entendi muito bem a outra noite que você teve / sempre um desejo louco de fazer um pouco / de dança. Eu mantenho a memória / de amor e eu gostaria que fosse / Esta é uma prova de que eu posso ser amada por você / com toda a força. Estou pronta para mostrar-lhe o meu / carinho desinteressado, sem cálculo / burro e se você quiser me ver também / desvendar minha alma sem qualquer artificialidade / completamente nua, venha me visitar. / Vamos conversar com franqueza, como bons amigos. / Eu vou provar para você que eu sou a mulher /sincera capaz de oferecer-lhe o carinho / mais profundo do que a mais estreita / amizade, em suma, a melhor prova / que você possa sonhar porque a sua / alma é gratuita. Você acha que a solidão que / o morcego é longo, duro e grosso / difícil. Então, refletindo sobre isso, eu tenho a alma / inchada. Volte logo e venha até mim / esquecer com esse amor em que eu quero / coloque tudo em mim. Poema da escritora e memorialista George Sand (Amandine Aurore Lucile Dupin – 1804-1876).

DERSU USALA
O filme Dersu Uzala (1975), do cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998), é baseado na obra de Vladimir Arsenyev, contando a história de um explorador (líder de uma expedição de levantamento topográfico na Sibéria) do exército russo, que é resgatado na Sibéria por um caçador nanai (Dersu Uzala) que passa a servir-lhe de guia, dando início a uma forte amizade. Quando o explorador decide levar o caçador para a cidade, seus costumes se confrontam de forma esmagadora com o modo de vida burocrático na cidade, fazendo-o questionar diversos padrões da sociedade. Dersu é um exemplo de humildade e sabedoria, e o filme mostra de maneira poética e sensível as diferenças culturais entre ele e o pesquisador russo. O diretor de fotografia aproveitou ao máximo as imponentes paisagens naturais da Sibéria e as registrou em belas imagens. Numa das cenas inesquecíveis do filme, Dersu e o explorador russo se encontram em local aberto, uma estepe, quando uma nevasca os atinge. No frio siberiano (que pode atingir até 60º negativos), o russo se abate, quase que como entregue à morte certa. Dersu o convence a recolher os arbustos da estepe. Mesmo sem entender direito o significado do ato, este, cambaleante, faz o que Dersu lhe pede, até o esgotamento. Dersu então, continua recolhendo a vegetação rala, que mais tarde se transformará numa pequena cabana, cavada na terra. Uma cena digna das melhores do cinema com relação ao embate entre natureza e sobrevivência. A história aborda, na verdade, a majestade da vida natural, em detrimento do ritmo frenético do progresso. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Palestra: Cidadania & Meio Ambiente aqui.
Apresentação de LAM & Nitolino em Agrestina aqui & aqui.
A literatura de Jane Austen aqui.
A poesia de Olavo Bilac aqui.
O pensamento de Paracelso aqui e aqui.
A literatura de Érico Veríssimo aqui, aqui e aqui.
A literatura de Marguerite Yourcenar aqui e aqui.
Livros do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, poesia e pintora francesa Dora Maar (1907-1997).
Veja mais aqui.
 

sábado, maio 14, 2016

TAGORE, HERMES, BLAVATSKY, KITARO, EWA GAWLIK & JOVANA RIKALO



EM MIM A VIDA & O ESTOURO DOS CONFINS DE TUDO - O meu coração pulsa e com ele tudo é pulsante na Terra que sou eu com todas as rotações e translações do planeta a cumprir a sua missão entre as sístoles e diástoles e em consonância com o movimento cósmico vibratório de todo Universo. O meu coração pulsa e com ele toda galáxia gira e vibra em torno do Sol como um fogo que é vivo e que é vida. E mais pulsa com o milagre das águas até o espetáculo das cachoeiras que formam brejos, lagos, lagoas, rios e sou até a imensidão dos mares que banham e me lavam na festa da vida, por sinapses com as sementes que sou brotando do chão pras raízes, troncos, galhos, folhas e flores e frutos na imensidão de todas as matas e florestas com todas as cores da vida. E pulsa nos ventos que sopram as águas e as árvores levando a vida pelos interstícios das fissuras na distinção dos continentes do Oriente ao Ocidente, que em dois foram formados pelo corte do corpo caloso e sou desorioentado de meus hemisférios agora perdido entre os quatro pontos cardeais, pra ser retalhado em muitas redomas da lei de cada país. E sou até minha América do meu coração pele vermelha asteca, maia, inca e tupi, disposto em postas da Groenlandia até a Patagonia, com o abraço da brancura do cara pálida e a doçura da negra pra recompor os fragmentos equatoriais da minha carne tropical Brasil de todos os sons, danças e loucuras paradoxais, de Colônia preada para um Império de sopapos e República de amorfa banana pegando carona nos trens atrasados das chegadas e partidas e à deriva pelo elo perdido do fio da meada do desvario humano, até que um dia um porto seguro possa discernir entre as tantas trilhas que se desbravam das tão poucas veredas no horizonte escancarado, até ser-me apenas um coração que pulsa quase mínimo grão invisível no coração do Universo que sou eu e todas as coisas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte da pintora polonesa Ewa Kienko Gawlik. Veja mais aqui e aqui.

 Curtindo o álbum Gaia Onbashira (Domo Records General, 1998), do compositor, músico e multi-instrumentista Kitaro. Veja mais aqui.

PESQUISA
Ísis sem véu: Uma chave-mestra para os mistérios da Antiga e Moderna Ciência e Teologia (1877), obra da filosofia esotérica da escritora e ocultista russa Helena Blavatsky (1831-1891). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
O livro O jardinheiro do amor (Thesaurus, 1983), do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] agora, é necessário que laceres pouco a pouco a túnica que te reveste, o tecido da corrupção, o suporte da malícia, a cadeia da corrupção, a prisão tenebrosa, a morte vivente, o cadáver sensível, a tumba que levas para todos os lados contigo, o assaltante que habita em tua casa, o companheiro daquelas coisas que ama te odeia e pelas coisas que te odeia, tem ciúme de ti. Tal é o inimigo que revestiste como uma túnica, que te estrangula e atira sob si, de modo que, tendo elevado os olhos e contemplado a beleza da verdade e o bem que nela reside, venhas a odiar a malícia do inimigo, tendo compreendido todas as ciladas que preparou contra ti, tornando insensíveis os órgãos dos sentidos que não aparecem e não são tidos por tal, tendo-os obstruído pela massa da matéria e preenchido de uma voluptuosidade desgostante, a fim de que não possuas oouvidos para as coisas que deves ouvir, nem visão para as coisas que precisas ver.
Extraído do capítulo VIII – O maior dos males entre os homens constitui a ignorância relativamente a Deus -, da obra Corpos Hermeticum: discurso de iniciação / A Tábua de Esmeralda (Hemus, 1978), de Hermes Trismegistus. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais Eurídice, Alan Watts, Mário de Andrade, Augusto de Campos, Pedro Kilkerry, Machado de Assis, Doris Lessing, Walter Hugo Khouri, Jean-Baptiste Camille, Joseph Edgar Boehm, Willibald Gluck, Patrick Nicholas, Vera Fischer & Meimei Correa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa Jovana Rikalo.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

domingo, maio 03, 2015

FLORENCE AUBENAS, AN NAHAR, NÉLIDA PIÑON, SHELLEY, OSWALD DE ANDRADE & CAROLINA NABUCO

 


O SONHO & A DECEPÇÃO DE CAROLINA – Carolina nasceu filha de fazendeiro e neta de barão, no Rio de Janeiro, na Belle Époque – leia-se final do século 19, mas passou quase toda sua infância em Petrópolis. Como era filha do diplomata do império e um dos criadores da Academia Brasileira de Letras, educou-se na Europa e passou a sua adolescência nos Estados Unidos, onde seu pai era embaixador. Retornou ao Brasil com formação linguística e literária, verdadeira senhorinha da sociedade que dialogava tanto no francês como no inglês. Aos 38 anos publicou seu primeiro livro: uma biografia paterna que foi premiada pela ABL. A partir daí quase viveu no céu, não fossem duas coisinhas um tanto desagradáveis: a primeira era que seu pai foi um político daqueles que contribuíram ativamente para o Fecamepa e, a outra, a polêmica do seu livro A sucessora e a Rebecca da Daphne du Maurier, este último, inclusive, que virou peça teatral, em 1939, e, posteriormente, um filme pelas mãos de nada mais que Hitchcock, em 1940. Seguinte: Carolina, segundo ela própria conta noutra de suas obras, o Oito décadas, traduzira o seu polêmico romance para o inglês, enviando-o para uma agência literária de New York e outra da Inglaterra, na esperança de vê-lo publicado por lá. Depois de muitas tentativas e alguns desleixes, certo dia ela compra um livro e, ao ler, viu que era a sua obra, mas com outro título e outra autora que não ela. Ora! Investigações daqui, outras celeumas dali, até que o New York Times Book Review destacou a semelhança entre os dois romances. E quando o filme foi lançado no Brasil, os advogados da United Artists fizeram uma proposta para ela sobre as badaladas coincidências, oferecendo-lhe compensação financeira. Ela bateu o pé e negou-se a tal. Isso porque o seu romance A sucessora fora escrito em 1934, enquanto o da Rebecca foi escrito em 1937, conforme detectou Nina Auerbach, da Universidade da Pensilvânia. O escândalo deu pano pras mangas e parece que ficou o dito pelo não dito. Tanto é que em 1978, a TV Globo adaptou A sucessora para televisão. Passaram-se os anos e Carolina tornou-se tradutora, escritora, crítica literária, católica fervorosa, nunca se casou nem teve filhos e levou uma vida bastante discreta. Escreveu romances, contos, biografias e uma história da literatura estadunidense. Aos 91 anos de idade ela faleceu no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Com ela foi-se tudo o mais. Veja mais abaixo e mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 

DITOS & DESDITOS - O Brasil havia sido Império e conservava (ou pelo menos conservou até recentemente) muito da feição do regime patriarcal que vigorava então. Eu, neta de fazendeiros senhores de escravos, guardava muito da mentalidade de uma sinhazinha, mentalidade que transmiti à minha heroína Marina... Palavras da escritora e tradutora Carolina Nabuco (Maria Carolina Nabuco de Araújo (1890-1981), em seu livro Oito décadas – memórias (1973 - Nova Fronteira, 2000), em referência à personagem do seu plagiado livro A Sucessora (Companhia Editora Nacional, 1934), no qual ela expressa que: [...] Marina vinha de outro meio. O Brasil dela era o velho Brasil agreste dos antepassados fazendeiros. Roberto tinha sangue estrangeiro, tinha avós vindos da Flandres, emigrantes de terceira classe. Os de Marina haviam sido por muitas gerações proprietários de Santa Rosa, a fazenda mais antiga do Estado do Rio. [...]. Este livro une prosa intimista e psicológica ao dar voz a uma protagonista feminina: Marina, jovem criada na fazenda que se casa com o viúvo Roberto Steen. Ao mudar-se para a mansão dele, no Rio de Janeiro, Marina se depara com o retrato de Alice, a falecida esposa, e passa a sentir a presença dela. Sobre a obra a crítica literária Nelly Novaes Coelho expressa: [...] se mesclam atitudes, tendências ou ideais contrastantes que expressam bem o processo de modernização no Brasil da década de 1930, processo em que se defrontam os valores aristocratizantes da sociedade tradicional em declínio (a dos grandes proprietários de terra e suas legiões de trabalhadores-escravos) e da sociedade moderna em ascensão (a dos industriais e alto comércio, construída principalmente pelos imigrantes que passam a ser os novos ricos). Essas duas classes – a da aristocracia rural brasileira e a dos novos ricos urbanos – estão representadas no romance por Roberto (descendente de imigrantes e novo rico), casado em segundas núpcias com Mariana (descendente da aristocracia rural empobrecida). [...]. Conta-se que o romance em comento alcançou muito sucesso com a publicação de Rebecca, da escritora inglesa Daphne du Maurier, publicado em 1938, texto que deu origem ao filme de Hitchcock. Por conta disso, o seu romance A sucessora teria sido plagiado e deu motivo a debate jornalístico, porque a escritora inglesa copiou não somente o enredo, como situações e diálogos da obra, detectado, inclusive, pela imprensa e críticos estadunidenses. Carolina Nabuco é autora de obras como A Vida de Joaquim Nabuco (1929), Chama e Cinzas (1947), Meu Livro de Cozinha (1977), O Ladrão de Guarda-Chuva e Dez Outras Histórias (contos), Oito décadas (memórias), Santa Catarina de Siena (biografia), Virgílio de Melo Franco (biografia) e Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura (ensaio). Ela recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

 

ALGUÉM FALOU: Um emprego em tempo integral, com um salário decente, contrato indefinido e férias pagas hoje é uma quimera... Esta foi a conclusão a que chegou a jornalista francesa Florence Aubenas, com a experiência de escrever e publicar o seu livro El muelle de Ouistreham (Editorial Anagrama, 2011). A jornalista coletou neste livro sua experiência por seis meses como candidata a emprego. Para obter as informações necessárias, fingiu ser uma mulher de 48 anos sem trabalho, recém-separada e sem experiência de trabalho, disposta a fazer nada. Durante esse meio ano, ela trabalhou por horas como faxineira em uma balsa que atravessa o Canal de La Mancha, em um acampamento e em prédios de escritórios com salários abaixo do salário mínimo.

 

ALGUÉM MAIS FALOU: Os homens fazem a guerra. As mulheres dão vida a quem faz a guerra, a quem nos mata, a quem nos viola. Sofremos as consequências, preservando a vida... De um jornalista libanês do An Nahar.

 

Imagem da artista plástica Nina Kozoriz. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

HINO AO SOL.
Akhenaton (Amenhotep ou Amenófis IV)

Bela é a tua alvorada, oh Aton vivo, Senhor da eternidade!
Tu és brilhante, tu és belo, tu és forte!
Grande e profundo é o teu amor; os teus raios cintilam nos olhos de todas as criaturas; a tua pele espalha a luz que faz os nossos corações viver.
Tu encheste as Duas Terras com o teu amor, oh belo Senhor, que a ti mesmo te criaste, que criaste a Terra inteira e tudo o que nela se encontra: os homens, os animais, as árvores que crescem no chão.
Levanta-te para lhes dar vida, pois tu és a mãe e o pai de todas as criaturas.
Os seus olhos voltam-se para ti, quando ascendes no firmamento.
Os teus raios iluminam toda a Terra; o coração de cada um enche-se de entusiasmo, quando te vê, quando tu lhe apareces como seu Senhor.
Quando te pões no horizonte ocidental do céu, as tuas criaturas adormecem como mortos; obscurecem-lhes os cérebros, tapam-se-lhes as narinas, até que de manhã se renova o teu brilho no horizonte oriental do céu.
Então, os seus braços imploram o teu Ka, a tua beleza acorda a vida e renasce-se!
Tu ofereces-nos os teus raios e toda a Terra está em festa; canta-se, toca-se música, soltam-se gritos de alegria no pátio do castelo do Obelisco , o teu templo de Akhenaton, a grande praça que tanto te agrada, onde te oferecem alimentos como homenagem...
Tu és Aton, tu és Eterno...
Tu criaste o longínquo céu para aí te elevares e veres as coisas que criaste.
Tu és único e, no entanto, dás vida a milhões de seres, é de ti que as narinas recebem o sopro da vida.
Quando vêem os teus raios, todas as flores vivem, essas mesmas que crescem no chão e se abrem quando tu apareces.
Com a tua luz se embriagam.
Todos os animais se levantam de um salto, os pássaros que estavam nos seus ninhos abrem as suas asas, para fazerem preces a Aton, fonte da vida.
(Referência: CHIANG, Sing. Nefertiti e os mistérios sagrados do Egito. São Paulo: Conhecimento, 2006). Veja mais aqui.

Ouvindo o álbum From the Full Moon Story (Polydor, 1979), do compositor, músico e multi-instrumentista Kitaro. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do Programa Brincarte do Nitolino, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação de Isis Corrêa Naves. Na programação Turma da Mônica, Sandra Fayad, Turminha do Tio Marcelo, Meimei Corrêa, A criancinha que consertou o homem e o mundo, As pererecas sapecas, Valores éticos e morais no contexto do cotidiano das crianças, Patati & Patatá, Doutora July & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Logo após a apresentação, acontece a programação do Domingo Romântico com reprise de todos os programas da semana. E também é o momento de participar da promoção Brincarte do Nitolino aqui. Para conferir o programa ao vivo e online é só ligar aqui e aqui.

MANIFESTO PAU BRASIL – No Dia do Pau Brasil, nada mais justo que trazer aqui o Manifesto Pau-Brasil (Correio da Manhã, 1924), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954): A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil. O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho. A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária. Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram. A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha. A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem. Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris. Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia. A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança. Uma sugestão de Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino. Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias. A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros. Uma única luta - a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação. Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado - o artista fotógrafo. Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski. A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas. Só não se inventou uma máquina de fazer versos - já havia o poeta parnasiano. Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 1º) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 2º) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva. O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil. Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos. A síntese O equilíbrio O acabamento de carrosserie A invenção A surpresa Uma nova perspectiva Uma nova escala. Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil O trabalho contra o detalhe naturalista - pela síntese; contra a morbidez romântica - pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa. Uma nova perspectiva. A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua. Uma nova escala: A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte. A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido. Nossa época anuncia a volta ao sentido puro. Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz. A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente. Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações. Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil. Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil. O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional. Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época. O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito. O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica. A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna. Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia. Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.  

MEDEIA – A tragédia Medeia (431aC), poeta trágico grego Eurípedes (480-460aC), foi apresentada nas Grandes Dionísias, apresenta uma história que se passa em Corinto, trazendo o retrato psicológico de uma mulher na condição de esposa repudiada e estrangeira perseguida que rejeita o conformismo tradicional, a ponto de matar os filhos para vingar-se do marido infiel que se casa com Glauce, a filha de Creonte, o rei de Corinto. Dessa peça teatral destaco o trecho a seguir: (Entra Medeia.) Medeia: Saí de casa, ó mulheres de Corinto, para que nada me censurei. Porque eu sei que muitos dentre os mortais são arrogantes, uns longe da vista, outros à porta de casa; outros, atravessando a vida com passo tranqüilo, hostil fama ganharam de vileza. Porque não há justiça aos olhos dos mortais, se alguém antes de bem conhecer o íntimo do homem, o odeia só de o ver, sem ter sido ofendido. Força é que o estrangeiro se adapte à nação; tampouco louvo do cidadão que é acerbo para os outros, por falta de sensibilidade. Sobre mim este feito inesperado se abateu, que a minha alma destruiu. Fiquei perdida e tenho de abandonar as graças desta vida para morrer,, amigas. Aquele que era tudo para mim (ele bem o sabe) no pior dos homens se tornou - o meu esposo. De quanto há aí dotado de alma e de razão, somos nós, mulheres, a mais mísera criatura. Nós, que primeiro temos de comprar, à força de riqueza, um marido e de tomar um déspota do nosso corpo - dói mais ainda um mal do que o outro. E nisso vai o maior risco, se o tomamos bom ou mau. Pois a separação para a mulher é inglória, e não pode repudiar o marido. Entrada numa raça e em lei novas, tem de ser adivinha, sem ter aprendido em casa, de como deve tratar o companheiro de leito. E quando o conseguimos com os nossos esforços, invejável é a vida com um esposo que não leva o jugo à força; de outro modo antes a morte. O homem, quando o enfadam os da casa, saindo, liberta o coração do desgostos. Para nós, força é que contemplemos uma só pessoa. Dizem: como nós vivemos em casa uma vida sem risco, e ele a combater com a lança. Insensatos! Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha a ser uma só vez mãe! Mas a vós e a mim não serve a mesma argumentação. Vós tendes aqui a vossa cidade e a casa paterna, a posse do bem-estar e a companhia dos amigos. E eu, sozinha, sem pátria, sou ultrajada pelo marido, raptada duma terra bárbara, sem ter mãe, nem irmão, nem parente, para me acolher desta desgraça. Apenas isto de vós quero obter: se alguma solução ou processo eu encontrar para fazer pagar ao meu marido a pena deste ultraje, guardai silêncio. Aliás, cheia de medo é a mulher, e vil perante a força e à vista do ferro. Mas quando no leito a ofensa sentir, não há aí outro espírito que penda mais para o sangue. Coro: Assim farei. Com justiça castigarás o teu marido, ó Medeia. Não me admiro que deplores a tua sorte. Mas vejo também Creonte, o príncipe desta terra, que se aproxima, mensageiro de novas deliberações. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

BELFAGOR, O ARQUIDIABO – O conto Belfagor, o arquidiabo (1549), do escritor, filósofo, historiador e dip0lomata italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527), conta as desventura do diabo mandado à terra como ser humano para verificar o matrimônio, criticando a corrupção dos costumes e defendendo a liberdade com a visão do autor da sociedade medieval. Da obra destaco o trecho: [...] foi-se Belfagor ao mundo e, devidamente provido de cavalos e acompanhantes, entrou ele em Florença com o maior aparato. Escolhera esta cidade para domicílio, entre todas as demais, por lhe parecer a mais plausível para quem quisesse viver empregando o seu dinheiro em negócios. Fez-se chamar Rodrigo de Castela e alugou uma casa no bairro de Todos os Santos [Ognissanti]. Para que não pudessem descobrir-lhe os antecedentes, disse ter partido da Espanha ainda criança; dali fora à Síria e a Alepo, onde ganhara tudo o que possuía; de lá viajara para a Itália, a fim de se casar num lugar mais humano e mais conforme à vida civilizada e à sua própria índole. Era Rodrigo um moço formoso, que aparentava trinta anos. Em poucos dias demonstrara ele quantas riquezas tinha e dera provas da sua liberalidade e humanidade; logo vários cidadãos nobres, providos de muitas filhas e pouco dinheiro, lhe ofereceram os seus préstimos. Entre todas, Rodrigo escolheu uma belíssima donzela chamada Honesta, filha de Américo Donati, que tinha mais três filhas, quase em idade de se casar, e três filhos já adultos. De família muito nobre e tido em bom conceito em Florença, era no entanto muito pobre, levando-se em conta a sua numerosa prole e a sua condição. Rodrigo celebrou as suas núpcias com esplendor e grandeza, não descuidando de nada que seja necessário em tais circunstâncias, pois entre as obrigações que lhe foram impostas ao sair do Inferno, estava a de sujeitar-se a todos os caprichos humanos; assim, logo passou a deleitar-se com as honrarias e pompas do mundo e a gostar de ser louvado entre os homens, coisas que o levaram a grandes gastos. Por outro lado, não tardou muito a apaixonar-se perdidamente por sua D. Honesta e quase não conseguia viver quando a encontrava triste ou aborrecida. Com a sua nobreza e formosura, a senhora Honesta levara consigo para a casa de Rodrigo um orgulho tão desmesurado que mesmo Lúcifer não o tivera igual. Rodrigo, que podia comparar um e outro, considerava o da sua mulher infinitamente superior, e consta que ainda chegou a ser maior quando percebeu o amor que seu marido sentia por ela. Imaginando ser por todas as maneiras a dona absoluta, dava as suas ordens sem consideração ou piedade, e se ele relutasse a fazer as suas vontades, desatava em recriminações e injúrias, o que era para o pobre Rodrigo motivo de viva pena e aflição. Sem dúvida, por consideração ao seu sogro, aos seus cunhados e demais parentes, por respeito aos deveres do casamento e pelo amor que dedicava à esposa, sofria os seus males com a maior paciência. Quero passar em silêncio sobre os grandes gastos a que era obrigado para contentá-la, vestindo segundo os novos costumes e as modas mais recentes, que a nossa cidade varia por hábito natural; nem lembrarei que, para ela o deixar em paz, teve ele de ajudar o sogro a casar as outras filhas, o que lhe fez despender também considerável importância. Depois, querendo manter-se em boa paz com a mulher, consentiu em mandar um dos irmãos dela ao Oriente com casimira, e outro para o Ocidente levando sedas, ao passo que para o terceiro irmão abriu em Florença uma oficina de ourives, em que despendeu a maior parte do dinheiro que possuía. Além disso, nas festas de Carnaval e de S. João, celebradas pela cidade inteira segundo tradição antiga, quando grande número de cidadãos nobres e ricos se honravam uns aos outros com magníficos banquetes, D. Honesta, para não ficar atrás de outras damas, queria que o seu Rodrigo superasse a todos os demais com as suas festas. Tudo isto, suportava-o Rodrigo pelos motivos supracitados; apesar de gravíssimas, nem graves as teria achado se houvessem introduzido a paz em sua casa, permitindo-lhe aguardar em sossego o momento de sua própria ruína. Mas foi o contrário o que aconteceu, pois a índole insolente da esposa, além das despesas insuportáveis, carrearam-lhe inúmeros aborrecimentos. Nenhum criado a aguentava, não digo por muito tempo, mas nem sequer por alguns dias. Para Rodrigo era o mais duro dos incômodos não possuir um criado que tivesse amor à sua casa. Os próprios diabos que trouxera consigo como domésticos preferiram voltar aos fogos do Inferno a viver no mundo sob as ordens daquela mulher [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.

AOS HOMENS DA INGLATERRA – No livro Complete Poetical Works (1901), da poeta, tradutora e ensaísta do Romatismo inglês Percy Bysse Shelley (1792-1822), destaco o poema Aos homens da Inglaterra: Homens da Inglaterra, por que arar / para os senhores que vos mantêm na miséria? / Por que tecer com esforço e cuidado / as ricas roupas que vossos tiranos vestem? / Por que alimentar, vestir e poupar / do berço até o túmulo, / esses parasitas ingratos que / exploram vosso suor – ah, que bebem vosso sangue? / Por que, abelhas da Inglaterra, forjar / muitas armas, cadeias e açoites / para que esses vagabundos possam desperdiçar / o produto forçado de vosso trabalho? / Tendes acaso ócio, conforto, calma, / abrigo, alimento, o bálsamo gentil do amor? / Ou o que é que comprais a tal preço / com vosso sofrimento e com vosso temor? / A semente que semeais, outro colhe. / A riqueza que descobris, fica com outro. / As roupas que teceis, outro veste. / As armas que forjais, outro usa. / Semeai – mas que o tirano não colha. / Produzi riqueza – mas que o impostor não a guarde. / Tecei roupas – mas que o ocioso não as vista. / Forjai armas – que usareis em vossa defesa. Veja mais aqui & aqui.

FUNDADOR – O romance Fundador (Labor, 1976), da escritora Nélida Piñon, envolve uma narrativa labiríntica e investigativa sobre religião, filosofia, história e acontecimentos do personagem Fundador e Monja, no qual destaco o trecho: [...] Ptolomeu analisou aquele rosto. O semblante de Johanus e Fundador. O mesmo hábito de reclamar ou proclamar a inconsistência. A história avançando em suas feições. Quase Ptolomeu lhe confessando que devia, sim, partir imediatamente, também fundar sua cidade, ou descobrir as razões do sangue débil e impreciso. Morrer toma tempo, pensou Ptolomeu apressado. Joe movimentou-se para partir. Reservava com o mais alto dos poderes a imagem do amigo. Esquivando-se a contatos mais comoventes. Receava a precipitação dos sentimentos albergados tanto tempo. Bem podiam viver sem eles. Acompanhou-o à porta. Olharam-na então. Ptolomeu convencia-se da frágil vitória. Estivera certo por tempo demasiado, e merecia agora silêncio. – Johanus chegou onde eu quis, disse o velho, mais parecendo delirar. – Johanus? De quem se trata? Joe contraía-se, como se aceitasse o malogro de toda ação futura. – Eu lhe prometi Jerusalém, agora sei que conseguiu chegar. Joe tomou-o pelos ombros, insistente. Convertendo em caricia o gesto inicialmente mais forte. Mas, Ptolomeu esquivava-se. Embora com amizade. Não pretendia transbordar a taça. – Cansaço, apenas, murmurou débil. E se desligou. Joe ainda o viu entrando na loja. Começava a fechar a primeira das três portas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

AURÉLIO: O PAI DOS BURROS - No eu tempo de ginásio, eu gritava na sala de aula: - Dá meu Pai dos Burros, cara! E era de todos os tamanhos: meu pai comprou um Aurelião pra ele, um Aurélio pra mim e um Aurelinho que era revezado por minhas irmãs – uma estudava de manhã; a outra, de tarde. Eu mesmo surrupiava o Aurelião dele e impava de empáfia desfilando rua acima e entre as bancas da escola. Brincava até de caçar palavras, quando encontrava alguém e pedia para que dissesse uma bem estrambólica, do tipo daquelas bem estranhas que eu pinçava quando, com 10 anos de idade, virei copista no cartório e transcrevia as sentenças do juiz num livro denominado Tombo de Registro de Sentenças. Eu me deleitava quando flagrava uma que eu não sabia e corria lá folheando pra saber o significado. Era bom demais saber o que os doutos falavam. Findei ficando com o Aurelião pra mim, ainda hoje o tenho na estante. Essa minha homenagem ao dicionarista, lexicógrafo, filólogo e ensaísta Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (1910-1989). Veja mais aqui.

LES QUATRE CENTS COUPS – O premiado drama Les quatre cents coups (Os incompreendidos, 1959), do cineasta francês e fundador da Nouvelle Vague François Truffaut (1932-1984), foi um dos filmes que mais assisti na minha adolescência, quando eu mandava ver pintando o sete. Trata-se de uma história quase autobiográfica e inspirada na experiências da infância e adolescência do cineasta, contando a história de um garoto que se rebela contra o autoritarismo da escola e o desprezo de sua mãe e padrasto. Sentindo-se rejeitado, ele passa a gazear aulas, frequentando cinemas e conversando com amigos (ôpa, essa história é minha!). Daí, então, ele passa a vivenciar descobertas e cometendo pequenos delitos até ser preso num reformatório como punição dos próprios pais. O filme ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes (1959). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,  aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Water Nymph (1856) do pintor alemão Otto Lingner (1856-1917).
Veja mais aqui & aqui.


Veja mais sobre:
Maria Esperantina, orgasmo de uma noite & nunca mais, a poesia de Ascenso Ferreira, O sexo na história de Reay Tannahill, a literatura de Ulrike Marie Meinhof, Oropa, França & Bahia de Alceu Valença, Trem das Alagoas de Guazzelli & a arte de Xenia Hausner aqui.

E mais:
A função do orgasmo de Wilhelm Reich, La rebelión de las masas de José Ortega y Gasset, a poesia de Ascenso Ferreira, a música de Alexander Scriabin, a pintura de Renato Alarcão, a arte de Pablo Garat, Orgazmo & O orgasmo de Esperantina aqui.
O suicídio de Karl Marx, As caçarolas de Tolinho & Bestinha, A primavera de Ginsberg & Padre Bidião aqui.
Salmo da Cana, Os doze trabalhos de Peisândro de Rodes, Os trabalhos e os dias de Hesíodo, Germinal de Émile Zola, O operário em construção de Vinicius de Moraes, a gravura de Cândido Portinari, O informe de Brodie de Jorge Luis Borges, a escultura de Auguste Rodin, a música de Chico Buarque, o teatro de Nelson Rodrigues, Tempos modernos de Chaplin, a arte de Magda Mraz & Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL aqui.
Quando ela dança tangará no céu azul do amor, A condição pós-moderna de Jean-François Lyotard, A estética da desaparição de Paul Virilio, a música de Anna-Sophia Mutter, a pintura de Eloir Junior & Alex Alemany, David Peterson, Luciah Lopez, a arte de Carlos Zemek & Magnum Opus de Isabel Furini aqui.
Elucubrações das horas corrida, O pensamento comunicacional de Bernard Miège, O outro por si mesmo de Jean Baudrillard, a pintura de Vicente Romero Redondo & Edilson Viriato, a coreografia de Doris Uhlich, a arte de Efigênia Rolim, Meu delírio de Érica Christieh, a música de Sarah Brasil, a arte de David Lynch & Sandra Hiromoto aqui.
Se não vai de um jeito, vai de outro, A marcha da insensatez de Barbara Tuchman, A educação com carinho de Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, a música de Kyung-Wha Chung, a pintura de Joan Miró & Eugène Leroy, a arte de Anna Dart & Eugene J. Martin, Remando no éden de Bárbara Lia, a fotografia de Faisal Iskandar, Revista Poética Brasileira & Mhario Lincoln aqui.
Palco da vida, A terceira mulher de Gilles Lipovetsky, A vida mística de Jesus de Harvey Spencer Lewis, Toda palavra de Viviane Mosé, a música de Andersen Viana, a pintura de Maria Szantho & Maxime des Touches, a arte de Katia Kimieck & Vavá Diehl, Roseli Rodrigues & Balé Teatro Guaíra aqui.
Do raiar do dia aos naufrágios crepusculares, A metafísica da realidade virtual de Michael R. Heim, História dos hebreus de Flavio Josefo, a música de Milton Nascimento & Fernando Brant, a poesia de Helena Kolody, a fotografia de André Brito, a arte de Rollandry Silvério, a pintura de George Grosz & Fernando Rosa, Estilhaços da catarse de Carla Torrini aqui.
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  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...