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segunda-feira, junho 16, 2025

HAN KANG, ALIZÉE DELPIERRE, KARINA SACERDOTE & RECIFE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Apu: Poema Sinfônico para Orquestra (2017), Concertino Cusqueño (2012), Elegia Andina (2000), Escaramuza (2010), Cinco Cenas (2015), Karnavaliango (2013), Lendas: Uma Caminhada Andina -orquestra de cordas (2001), Manchay Tiempo - Tempo de Medo (2005), Peregrinos (2009), Raíces (2012), Requiem for a Magical America: El Día de los Muertos (versão orquestral) (2012), Três Danças Latino-Americanas (2004), Dois Retratos Americanos (2008), Duas Danças Peruanas - para orquestra de cordas iniciante (2015) e Walkabout: Concerto para Orquestra  (2016), da pianista e compositora estadunidense Gabriela Lena Frank.

 

Oito anos quase segundos... – Mais de 20 anos depois – na verdade, quase 30 mesmo – eu retornava. Era meia noite, como se fugisse. E foi mesmo! Ainda anteontem o que era moradia tornou-se um ermo cercado pela tamponagem do interdito. Sim, estava salvo no dia seguinte, escapava por pouco, ufa! Passado o susto, um sentimento de passos sobre pedras falsas. A alvissareira perspectiva: rever os amigos, matar as saudades. Comecei pelos locais do afeto: uma manhã inteira num chá de cadeira e um quase pleno arrependimento de ter comprado uma briga 40 anos atrás, coisas para aprender, ou quase. Nunca mais voltei lá, nem pretendo voltar. Felizmente, o que valeu daquele dia de tamanho desapontamento foi a primeira mão estendida – uma amizade que bateu de cara e me fez esquecer a decepção no meio da tarde perdida: inaugurava uma residência voluntária, até duradoura, ou quase. Graças! Ali o único local de abrigo que restava para um estrangeiro em seu próprio chão. O reencontro quase festivo: uma frieza jamais sentida de forasteiro na esguelha: uma fotografia desbotada duma parede em ruínas. Outra mão estendida, mais uma, alguns dos laços mais estreitos tomados pela idade avançada, um desconhecido pros deslembrados; outros, haviam partido desta para melhor; os sobreviventes, tanto como os parentes restantes e outros quase, de soslaio e bem distantes. A cidade, apesar de ser a mesma desde antes e sempre, agora teimava em ser outra ou quase. A província apequenou-se, como de resto tantos municípios limpinhos e asfaltados, porém desumanos pelo Brasilzão afora. Uns miúdos agrados aqui e ali, conversas com os da mesma laia, descompasso dos diálogos, mesmo assim lavava aos poucos a alma & um tanto de sacrifício, na força da munheca e na garra. Não fossem os gatos pingados, outra seria para desistir definitivamente. Insisti, persisti, queria perseverar, mesmo na desgraça que nunca viria sozinha. Resiliência recorrente para saída da mesmice das quebra-de-braço – já me sentia completamente rejeitado e devidamente defenestrado duma vez por todas do convívio conterrâneo, salvei-me pela ancestralidade e a primeira plenitude, sarando feridas, sangramento estancado para alívio de cicatrizes e talhos renovados. Aí, pálin! E o que era para ser feito: foi. Persistência reiterada, resistir era e continua sendo mais que preciso. E sempre. Se fracassei, fiz o melhor que pude. Não me calei, nem me senti vencido: tirante as doidices, tudo nos conformes, ou quase. Percepção de que estava passando da hora. Aí, minha gratidão para os que comigo estiveram; aos demais, meu aceno. Quem sabe um dia voltarei pra Catuama – queria muito era que minhas cinzas fossem jogadas no Una. Do contrário, mais realista: para onde eu for lá estarei. Até mais ver.

 

Karen Blixen: Eu conheço uma cura para tudo: água salgada... de uma forma ou de outra. Suor, lágrimas ou o mar salgado... Veja mais aqui.

Nathalie Gassel: Da insignificância, foi necessário criar sentido, significância; derrubá-la... Veja mais aqui & aqui.

Lídia Jorge: O teatro ensina o que não ensina a vida... Qualquer paraíso é demasiado belo para que junto da árvore da vida a pessoa possa entreter-se com futilidades... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

TANGENTE - Lá \ no meu ponto de tangência \ Os silêncios estão concentrados \ As culpas são agrupadas \ Meu pai fecha os olhos \ Os meus dedos corrompem-se. \ Estou a chorar num canto outra vez. \ as luzes rasgam \ E você \ Mesmo aí. \ Você está vindo do infinito, então eu não sou eu \ E você está indo embora \ Vais-te embora outra vez.

IMPUGNAÇÃO - Eu me recusei a dizer \ Eu nego inédito. \ Eu disse a ele. \ para me deixar cair a ruína \ Para olhar para baixo o desafio \ Eu me recusei a dizer \ Eu oponho-me. \ para a murcha \ resignar-me à decadência \ Eu me levanto à deterioração da palavra \ E os olhos de fogo \ e a língua bisturi \ e beijos de lábios \ Opôs-me ao anjo. \ Para o anjo escuro que me cerca \ Eu disse a ele sem grito sem sálvia sem selvagem \ Eu disse a ele sublime, corajoso e corajoso \ E tal era a minha certeza. \ E tal era a mentira de sua glória \ Mansamente baixou o olhar \ E ainda me sitiando \ e jurando nunca me deixar \ Ele caiu de joelhos. \ E ele pediu desculpa para mim.

Poemas da escritora experimentalista, ilustradora e editora argentina Karina Sacerdote, criadora do fórum literário Blue and Words, fundou a Revista Axolotl, coordena o Axolotl e o Blessed Erato, o ciclo de leituras literárias de Picadas e Eros Aires.

 

NÓS NÃO NOS SEPARAMOS - [...] Às vezes, com alguns sonhos, você acorda e sente que o sonho está acontecendo em outro lugar. [...] Pode ser difícil distinguir tolerância de resignação, tristeza de reconciliação parcial, coragem de solidão. Pensei em como pode ser difícil distinguir essas emoções com base em expressões faciais e gestos, em como a pessoa em questão pode ter dificuldade em distinguir esses sentimentos em si mesma. [...] Lembro-me da sensação de amor doloroso, como ele penetrava na minha pele. Entupindo a medula dos meus ossos e murchando meu coração... foi então que percebi. Que o amor era uma agonia terrível. [...] Como suportar isso? Sem um fogo queimando no peito, Sem um você para quem retornar e abraçar. [...]. Trechos extraídos da obra We Do Not Part (Hogarth Press, 2025), da escritora sul-coreana Han Kang. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

EXPLORAÇÃO DOURADA: EMPREGADOS & RICAÇOS [...] "Exploração dourada" é um oximoro que me ajuda a explicar que os empregados estão em uma situação de exploração porque trabalham de forma ilimitada, mas, ao mesmo tempo em que trabalham muito, também ganham muito. Eu mesma vi como, apesar de eu ser uma empregada apenas meio período, os patrões me pediam para trabalhar muito mais do que havíamos combinado. Então, os empregados que trabalham todos os dias nas casas dos ricos, que dormem lá — porque essa é uma condição para trabalhar para os ricos —, trabalham o dia inteiro e também à noite. Por exemplo, as mulheres que cuidam das crianças quase não dormem. Elas precisam dormir nas camas ou nos quartos das crianças, então não dormem bem à noite. E durante o dia têm que cozinhar para as crianças, sair com elas, etc. É um tipo de exploração, porque não têm tempo para fazer outra coisa além de trabalhar. [...] A exploração dourada é um sistema que funciona assim: quanto mais dinheiro e presentes os ricos dão aos seus empregados, mais legitimados se sentem para exigir que eles trabalhem ainda mais. Cria-se, então, uma espécie de dívida. Os empregados sentem que precisam trabalhar para compensar tudo o que receberam — o salário alto, os presentes, os privilégios. [...] Nas casas dos ricos, os empregados não podem circular por todas as áreas. Não podem usar a piscina, não podem ir para as partes da casa onde os ricos se reúnem com seus amigos. Não têm liberdade de circulação. Nas casas maiores que vi, há corredores diferentes para os empregados e para os patrões, para que os patrões não vejam os empregados o tempo todo. Outra forma de os patrões imporem distância é mudando os nomes dos empregados. Se o seu nome é Juan, podem te chamar de Joseph, por exemplo. E há uma racialização nessa mudança de nome. Quando os empregados são estrangeiros — o que é o caso de muitos atualmente — os patrões trocam seus nomes por um nome francês. Isso é uma violência simbólica, como diria Pierre Bourdieu. Há patrões que sempre colocam o mesmo nome para todos os seus empregados. Por exemplo, a babá se chama sempre Maria. Se chega uma nova babá, também será chamada Maria. É uma maneira de demonstrar a superioridade do rico sobre as outras pessoas, que são despersonalizadas. [...] Se um empregado decidisse recorrer à Justiça, os ricos sairiam ganhando, porque seus amigos são advogados, têm muito capital social. Sabem que são intocáveis. Sabem que nada pode acontecer com eles. Nos poucos casos que encontrei na Justiça em que um empregado processou seu patrão, quem ganhou foi o patrão. Então, não, eles não têm medo dos empregados. [...] Trechos da entrevista concedida à BBC News Mundo (08/06/2025), pela socióloga francesa Alizée Delpierre, autora da obra Servir les riches - Les domestiques chez les grandes fortunes (La Decouverte, 2022) e co-autora da coletânea Les femmes de ménage dans l'intimité du domicile: Une relation de travail complexe (Téraèdre, 2023).

 

O RECIFE: IMAGENS DA CIDADE SEREIA

[...] O Recife não é uma cidade que agrade ao forasteiro à primeira vista, faz-se necessário penetrar no seu âmago, na alma alegre de sua gente, para entender as suas características únicas e a formação do ideário nativista do seu povo. [...]

Trechos extraídos do livro O Recife: imagens da cidade sereia (PFR/Comunigraf, 1998), do historiador Leonardo Dantas Silva (1945-2023), autor de obras tais como Recife: uma história de quatro séculos (1975), Pequeno calendário histórico-cultural de Pernambuco (1977), Ritmos e danças - frevo (1978), Cancioneiro pernambucano (1978), O Piano em Pernambuco (1987), Arruando pelo Recife (2021), entre outros.

&

A POESIA ABSOLUTA DE TONY ANTUNES

Veja mais Tony Antunes aqui, aqui, aqui & aqui.

&

O MACHADO POÉTICO DE SYDIA

Veja mais Sydia Araújo aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

&

Arte na Escola aqui & aqui.

Diário TTTTT aqui.

Poemagens aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 



segunda-feira, junho 22, 2020

NATHALIE GASSEL, DAMIANO COZZELLA, CLARICE ASSAD, AL HIRSCHFELD & LILISSAKAR



DIÁRIO DE QUARENTENA – UM COCHICHO, NÃO É PARA ESPALHAR! - Quem tinha a pá ciência, nem sabia direito: para despreparado nem o absurdo, disparates de quem para educar deseduca, tudo desdiz, desfaz, ou o duplipensar de Orwell, será? Os caras nem sabem o beabá, quanto mais! Nada mais que ridículos sectários que tangem uma manada festiva pro seu cercadinho. Só estupidez, nada mais mesmo. Parece mais obra de encomenda, não tem quem abra mão ou dê o braço a torcer, quem estiver do outro lado da corda que se arrisque ou vá às favas, situação nada comezinha. Ainda bem que ele enfatiza: Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante. Principalmente neste tempo de mentira fabricada como verdade absoluta no varejo e no atacado, montada numa negação reiterada que serve apenas ao fascismo oficial travestido de democrata. Eu, hem!

DOIS OU MAIS, DOS PARADOXOS: NÃO HÁ LÓGICA – Não há só A ou B, o resto do alfabeto, outro objeto, afora o estado de superposição: tudo flui aleatoriamente, vibra, pulsa, em todas as direções. E tem mais: o Gato de Schrödinger, o bootstrap de Chew, o paradoxal de Agostinho e lá vai teibei! Melhor Hermeto Pascoal: A Terra é um sonho infinito. Tudo é som! A música nasce como uma flor no jardim. Ainda bem que se disserem que endoidei, hahahahaha, na verdade, desendoideci. Vamos nessa!

TRÊS VEZES LUTO, LUTO! – Quem perde, enluta: a negação e o isolamento. Não há como ser diferente, parece faltar chão diante da ausência dos que foram arrebatados pela nuvem prateada de Tânato e seguiram pros Campos Elísios de Hades. Não há quem possua a astúcia de Sísifo ou o poder de Herácles, aos mortais não há saída, a não ser se recolher para elaborar, entorpecido, perturbado de raiva. Tudo é muito difícil de lidar, nenhuma justificativa plausível. A esperança é uma barganha que segue entre a depressão e a resiliência. No estágio final de Elisabeth Kübler-Ross, a aceitação: a paz distante e fim. Ah, não, a morte anunciada das democracias não é nada fácil, como jamais será qualquer perda. Não cruzo os braços, nem posso me conformar: luto e luto, quero um mundo melhor! Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Um corpo feminino preto, infinito em musculatura, nem cruzado nem tocado, nem visto de outra maneira em um papel revestido, cortado de uma revista, colocado em meu diário, vastidão e vertigem que contemplo diariamente. O que distingue esses corpos admirados um do outro, o que nesta unidade de sucesso dá a cada um deles sua sedução? Ela está vestindo uma camisa vermelha. É de tamanho médio, feito de veias salientes, cubos abdominais, um sorriso largo; a cabeça dele está no escuro, as pernas, os braços, seu torso incomumente maciço. Não podemos dizer ou saber nada sobre sua cavidade muscular, paisagem de pedras e fendas. Oh, contemplação sonhadora onde eu mergulho. Abrace nossos corpos, músculo contra músculo, em um movimento que estende todos eles, sem combate, no entanto, sem ofensa. Numa aposta com corpos e com carne brutal de corpos. Expondo cada veia inchada. Tendões divinos, tendões que eu transo com ela pernas, veias salientes. Direito anterior que parece emergir da pele, que não há energia sem restrições, livre e bonito como um espelho. Eu passo minha língua por esta vida, oh força, nesse louvor de um corpo inteiro, até o músculo costureiro pula, brota ao mínimo movimento com a solidez de um carvalho. Deltóide como montanhas, que eu bato, que eu bloqueio contra as minhas, abraço simétrico, onde todo um jogo de força exulta no silêncio dos corpos. Nossas bocas, sua pele fresca e áspera, sua língua quente, ainda extasiada com essa reunião. [...]. Trecho extraído do livro Èros androgyne (L’Acanthe, 2000), da escritora e fotógrafa Nathalie Gassel.

OS ARRANJOS CORAIS DE DAMIANO COZZELLA
A música do compositor, arranjador e professor Damiano Cozzella (1929-2018), signatário do Manifesto Música Nova, arranjador do Coral da USP e fundador do Departamento de Música da Unicamp, em 1970, além de autor de trilhas sonoras para diversos filmes brasileiros. O livro Arranjos Corais de Damiano Cozzella (Edusp, 2017), organizado por Alberto Cunha, traz uma compilação dos cerca de trezentos arranjos de 40 anos de música popular brasileira, traduzindo sambas, choros, marchinhas, canções, todos a capella para o idioma coral, apresentando parcela da produção artística que rompe barreiras entre o erudito e o popular, compartilhando laboratório de trabalho do compositor.
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A MÚSICA DE CLARICE ASSAD
A música da premiada compositora, pianista, cantora e arranjadora Clarice Assad, integrante da família musical Assad, bacharel em música pela Roosevelt University em Chicago e mestrado em composição pela Universidade de Michigan. A sua discografia é formada pelos indispensáveis álbuns Convite (2004), Amor tudo o que é (2008), Início (2012), Imaginarium (2014), Relíquia (2016) e Clarice Assad & Friends: Live at the Feer Head Inn (2016). Veja mais aqui.

A ARTE DE AL HIRSCHFELD
Tudo o que sei é que quando a coisa funciona, eu estou ciente, mas como deu certo, não sei. Através dos julgamentos, você elimina os erros e chega então à linha pura, que comunica a quem vê. O último desenho que se faz deve ser o melhor desenho.
AL HIRSCHFELD - A arte do ilustrador estadunidense Al Hirschfeld (1903-2003), que desenhou e inspirou estrelas de Holluwood e do mundo inteiro. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A música e arte do compositor indígena Lilissakar, que apresenta os rituais da cultura da tribo fulniô.
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A obra do jornalista e escritor Geneton Moraes Neto (1956-2016) aqui.
A poesia de Valmir Jordão aqui.
O espetáculo teatral Homens e caranguejos, da Cia Duas de Criação & Coletivo Cênico Joanas Incendeiam (SP) aqui.
O curta-metragem Loja de Répteis, de Pedro Severien aqui.
A música do compositor e maestro Dery Nascimento (1968-2018) aqui.
Dominando a acentuação gráfica de Arantes Gomes aqui.
&
Sirinhaem aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, julho 12, 2013

LUKÁCS, GASSEL, RIZAL, DAZAI, RENIA SPIEGEL & LITERÓTICA

DOIS POEMETOS DE AMOR DEMAIS PARA ELA – I – BEIJU - Ela dá de ombros e eu só escombros nos assomos dela. É quando revela secreta, peito nu, alma aberta, toda delícia, verdadeira sevícia no meu bocejo. Ela me dá um beijo e se mostra atiçada e vem toda ouriçada pra cima de mim. E assim acende o beiju abalando Bangu e toda redondeza. E se faz minha presa e, também, a caçadora, a total predadora e rendida de graça. Quando meu beijo perpassa, ela rasteja lagartixa que bem muito se espicha sobre meu território. E no seu envoltório, se arrasta, rasteja, arrebata, viceja e me faz mais feliz. II - GULA VORAZ - Quando ela quer, em mim se advinha: o ventre em colher larga a sianinha. Ela então se aninha, ficando de conchinha, em marcha-à-ré. É quando ela quer, olhos de oásis. Nada mal-me-quer, nem para análise. E quando ela quer e seus lábios de espera vencem a primavera e todo verão. Tudibão! E quando ela quer de manhã - que mulher! - ela cunhã vem com todo terém, manda ver. Benzadeus, seu ser: uma gracinha. Quando as linhas da sua palma envolvem minhas mãos até minha alma. E logo de chegada dá logo um treino: me beija como quem quer me dar todo o seu reino, ah que talento nato. E me faz de novato, marinheiro de primeira viagem. E cai na vadiagem de invadir meus recantos. Dou-lhe asa enquanto ela se faz mais mulher. É quando mais ela quer com o dorso agoniado. E dos seus flancos alados se faz deusa que dança. Balança estrutura, lança, vence e apura, convence e arromba todas as fechaduras, sou todo seu por abrigo. E diz que esse é o castigo, domado da vontade ao postigo que vai dar na sua inquietude de quem perdeu latitude, tudo o mais e que só eu sou todo seu ademais. Zas-trás! Grudo nela, ah, tudo nela a ver comigo. E maldigo, erramos a conta, nem damos conta que arrasou geral. No mais alto astral ela se esparrama e se lambuza na lama do meu corpo, verdadeiro mar revolto que nunca foi tão maravilhoso eito, nunca antes do maior proveito, que jamais dissipasse toda permanência e, por coincidência, lavasse o fogo na face e mais se debatesse quando irrompesse o gozo, a única atmosfera. É ela na vera toda louvada e lavada grata e sem nexo. Até ser no meu sexo crucificada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aquiaqui.

 


DITOS & DESDITOS - Aquele que muito ama também tem muito que sofrer. Os que estão morrendo não precisam de remédios, os que ficam, sim. O exemplo pode encorajar outros que apenas temem começar. O gênio não tem país. Floresce em todos os lugares. O gênio é como a luz, o ar. É a herança de todos. Morro sem ver a aurora iluminar minha terra natal. Você que tem que ver, dê as boas-vindas - e não se esqueça daqueles que caíram durante a noite! Pensamento do escritor, jornalista, oftalmologista e revolucionário nacionalista filipino José Rizal y Alonso (1861-1896). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU - Contanto que eu possa fazê-los rir, não importa como, eu ficarei bem. Se eu conseguir, os seres humanos provavelmente não se importarão muito se eu permanecer fora da vida deles. A única coisa que devo evitar é me tornar ofensivo aos olhos deles: Eu devo ser nada, o vento, o céu. Pensamento do escritor japonês Osamu Dazai (1909-1948), Veja mais aqui.

 

ARTE, ESTÉTICA & SOCIEDADE – [...] Se estamos em condições de reconhecer o percurso do gênero humano e utilizá-lo para nosso desenvolvimento individual, devemos isto à arte, às realizações do reflexo artístico; do mesmo modo, não seriamos capazes de avançar individualmente se nosso desenvolvimento não estivesse fixado, interpretado, criticado pela nossa memória individual e pela consciência que emerge desta base. [...] As forças sociais que o artista apreende, figurando o seu caráter contraditório, devem aparecer como traços característicos dos personagens representados, ou seja, devem possuir uma intensidade de paixão e uma clareza de princípios que não existem na vida burguesa cotidiana; e ao mesmo tempo, devem se manifestar como características individuais de um indivíduo concreto. [...]. Trechos extraídos da obra Arte e Sociedade: escritos estéticos 1932-1967 (EdUFRJ, 2009), do filósofo, crítico literário e pensador marxista húngaro Georg Lukács (1885-1971), que em outra de suas obras, Introdução a uma estética marxista (Civilização Brasileira, 1970), acrescenta que: [...] A vida reproduz sempre o velho, produz incessantemente o novo, a luta entre o velho e o novo penetra em todas as manifestações da vida [...] Já que a arte representa sempre e exclusivamente o mundo dos homens, já que em todo ato de reflexo estético o homem está sempre presente como elemento determinante, já que na arte o mundo extra-humano aparece apenas como elemento de mediação nas relações, ações e sentimentos dos homens, deste caráter objetivamente dialético do reflexo estético, de sua cristalização na individualidade da obra de arte, nasce uma duplicidade dialética do sujeito estético, isto é, nasce no sujeito uma contradição dialética que, por sua vez, revela também o reflexo de condições fundamentais do desenvolvimento da humanidade. Trata-se aqui da relação entre homem e humanidade. [...], Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

CORPO PORNOGRÁFICO – […] O corpo não obriga o espírito, ele o dá um contexto de expressão […] Eu invisto sobre a zona da carne, invisto e conquisto o que eu não poderia ter feito sem o músculo, o prazer viril do vigor. Eu quero uma afirmação mais absoluta, ainda jovial, um culto de mim, uma existência revolta frente aos outros, tangível, inevitável, visível, dessa visibilidade que salta aos olhos — vontade de dominação sexual que se exprime, cola na pele, nas formas. [....] Possuída da necessidade de modificar meu corpo pela potência, de criar para mim uma armadura de sedução de beleza dura e severa [...]. Eu encontrei instantaneamente em certos autores o compartilhamento espontâneo dessa característica de certa volúpia: Mishima, Montherlant, Nietzsche [...] Não saber aprender era uma faca de dois gumes que, nessa idade, me salvava do pior. A postura inconfortável da debilidade era um desastre menor do que a aprendizagem fastidiosa para meus impulsos mais íntimos. Conhecer a história da humanidade numa idade muito tenra era aceitar esses preceitos contra minha identidade e me acusar de uma existência anti-natural, invertida, culpada e que deveria ser consertada. Eu preferia não ouvir, para que as mensagens me contaminassem o menos possível. [...] Eu escrevo uma poética moderna de corpos andróginos e eu utilizo meus deleites. Ele nunca foi sujeito, esse corpo de mulheres viris na nossa literatura ou na nossa filosofia. Sua criação é contemporânea, ela soa como a chegada de um desejo por muito tempo impossível. É o motivo da festa ser considerável — cada vez que esse corpo se encontra em uma confrontação sensual — e não cessa de procurar para si uma ilustração retumbante. Nós chegamos a quebrar as clivagens, não somente nas estruturas de pensamento mas naquelas dos corpos, e o mundo finalmente se organiza para abrigas esses novos eventos. Como prova, começam a aparecer nas diferentes notícias esportivas, no interior de nossas casas, sobre as telas de tv, essas mulheres do futuro. [...] A ação disciplinada do corpo se esmigalha com o envelhecimento, a alma é que importa ser trabalhada. É o que permanece. Eu me confronto com essa dificuldade de exprimir corpo e palavras. Nos corpos como nos livros estão confinadas energias. Podemos nos perguntar se o que faz sentido hoje terá sentido amanhã. Antigamente tínhamos por perspectiva a perenidade das obras. Hoje, conhecemos a sucessão de seus mortos, nos vimos mitos desmoronarem e se instalarem montanhas efêmeras substituídas por outras, também falsas. A reflexão sobre o corpo e o texto fala também sobre a ambição: se o instinto quer que deixemos nossos traços na areia do mundo, precisamos nos confrontar com o que mina a validade desse instinto, o ultrapassar contínuo da vida. Nos resta apostar sobre um eternal humano que se revisitará através de nós, que se amará e se trairá nos retratos que o mostramos, essas imagens que nos nutrem. [...] Por que eu escolhi uma escrita que passa pelo simbolismo do sexo? Para que o pensamento tenha esse lado hard, para que ele faça parte de uma fantasmagoria estética [...] Eu acaricio esse corpo volumoso no texto, eu acaricio escrevendo meus músculos salientes. Eu acaricio o ombro, a nuca, o peitoral. Eu acaricio a pele firme, dura e tenra. Eu acaricio sua constrição em torno da fibra muscular, eu acaricio as veias que passam, atravessam o corpo, emergem em certos locais e depois mergulham no invisível, na opacidade da carne. Viva aparência que eu não hesitarei em exibir para gozar dela. Eu apareço ainda, escrevendo esse texto sem espelho, na ausência de espelhos mirando entretanto através dos conceitos uma imagem do meu corpo no que ele se assemelha a esse mesmo corpo real, físico. Beleza sem transparência do sangue que percorre o azul das veias. Beleza no rigor sombrio do músculo. E no traçado negro, anguloso das formas como um desenho em ponta seca que dirá somente a língua do desejo, onde cada figura será expressão de vontade, de fome, de tentação, de apetite, onde tudo seria reino da carne e o império colossal da distração regozijante. E quem diz prazer diz amplitude, força, maestria de onde explode o gozo. [...]. Trechos extraídos da obra Construction d’un corps pornographique. (Cercle d’Art, 2005), da escritora e fotógrafa Nathalie Gassel. Veja mais aqui.

 

UM POEMA - Mais uma vez a vontade de chorar toma conta de mim \ Quando me lembro dos dias que costumavam ser \ As tílias, a casa, as cegonhas e as borboletas \ Longe... em algum lugar... muito longe para os meus olhos \ Eu vejo e ouço o que sinto falta \ O vento que costumava embalar velhas árvores \ E ninguém mais me diz \ Sobre a névoa, sobre o silêncio \ A distância e a escuridão fora da porta \ Eu sempre vou ouvir essa canção de ninar \ Veja nossa casa e lagoa colocadas por \ E tílias contra o céu... Poema extraído do Diário (1942-2012), da escritora polonesa Renia Spiegel (1924-1942), impressionante narrativa da vida de um jovem judeu durante a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas invadiram a Polônia e os soviéticos pelo leste, deportando, aprisionando e assassinando judeus nas cidades como Przemsyl, onde Spiegel viveu e morreu. Sua história ficou conhecida devido ao seu diário pessoal, escrito entre seus 15 e 18 anos, onde conta a experiência de ser uma adolescente e viver na cidade, onde a situação do povo judeu rapidamente se deteriorou após a invasão. Ela foi levada para a rua junto dos pais de Zygmunt e eles foram executados a tiros em 30 de julho. Os pais e a irmã de Renia sobreviveram à guerra e emigraram para os Estados Unidos. Ela começou a escrever o diário em 31 de janeiro de 1939, quando tinha 15 anos de idade, com quase 700 páginas que foram mantidas em segredo e foi feito em um caderno escolar costuradas juntas. Em seus escritos, fala de seu dia a dia na escola, a vida em família, a dor de ficar separada da mãe, seu namoro com Zygmunt Schwarzer, o medo crescente da guerra e o medo de se mudar para o gueto. No diário constam escritos e pensamentos, desenhos e poemas, dos quais destaco mais os trechos: [...] Meu querido diário, meu bom e amado amigo! Passamos por momentos terríveis juntos e agora o pior momento está sobre nós. Eu poderia sentir medo agora. Mas Ele não nos deixou, e nos ajudará hoje. Ele vai nos salvar. Ouça, ó, Israel, salve-nos, ajude-nos. Você me manteve a salvo de balas e bombas, de granadas. Ajude-me a sobreviver! E você, minha querida mamãe, reze por nós hoje, reze muito. Pense em nós e que seus pensamentos sejam abençoados. [...] Poemas são algo extraordinário e único, eles conectam almas e enobrecem, elevam o amor. O passado não se foi há muito tempo; está presente em nossos corações, em nossas ações e nas lições que ensinamos a nossos filhos [...].

 

PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição deste 14 de julho, a partir das 10hs na Cidade FM 87,9,  traz as comemorações de mais de 3 mil membros no grupo do programa no Facebook com muitas atrações, confira: Taiguara, Toquinho & Vinicius & Maria Creuza, Adriana Calcanhoto, Vangelis & Jon Anderson, Chico Buarque, Paul McCartney, Vinicius Cantuária, Emerson & Lake & Palmer, João Bosco, Banda de Pau e Corda, Oswaldo Montenegro, Djavan, Vanessa da Mata, Jimi Cliff, Maria Gadu, Rita Lee, Coldplay, Mariza Monte, Kenny G, Evanescence, Renato Russo, Caetano Veloso, Beto Guedes, Milton Nascimento, Elba Ramalho, Paula Fernandes, Sonia Mello, Roberta Sá, Marquinhos Cabral, Ozi dos Palmares, Mácleim, Taís Feijão, Fred Cury & Reynaldo Moysés & Companhia Original Soul of Blues, Claudia Jung, Eduardo Knaip & Sandra Regina Alves Moura, Adilson Ramos & Hermê Teixeira, Paulynho Duarte, Luiz Vieira & Mauro Henrique Salles, Charlie Bronw Junior, Barry White e Luciano Pavarotti, Nico Fidenco, Dalida e Alain Delon &  muito mais! Participe, comente, curta online & abrilhante a nossa festa neste 14 de julho, na programação da Cidade FM 87,9, a partir das 10hs. Veja mais aqui.

SERVIÇO:
O que? Programa Domingo Romântico.
Quando? Neste domingo, 14/07, a partir das 10hs.
Onde? Cidade FM Apresentação Meimei Corrêa.
Veja outras edições do Domingo Romântico .

Veja mais sobre:
Folia Caeté na Folia Tataritaritatá, Ascenso Ferreira, Chiquinha Gonzaga, Nelson Ferreira, Adolphe William Bouguereau, José Ramos Tinhorão, Agostino Carracci, Frevo, Maracatu, Teatro & Carnaval, Dias de Momo As Puaras, Peró Batista Andrade, Baco & Ariadne aqui.

E mais:
Fevereiro, carnaval & frevo, Galo da Madrugada, Roberto DaMatta, Mauro Mota, Capiba, Orquestra Contemporânea de Olinda, Mário Souto Maior, Valdemar de Oliveira, Zsa Zsa Gabor, Helena Isabel Correia Ribeiro, Rollandry Silvério & Márcio Melo aqui.
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