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terça-feira, junho 23, 2020

HITCHENS, LOLITA PILLE, MÜNCHHAUSEN, ENZENSBERGER, MILLES, ELIAS DE CARVALHO & O LOBO ATRÁS DA PORTA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: PROCURA DA POESIA - O verbo, a vida e o olhar, tempo despoético, inumano. Da pedra, a dor: unhas nas paredes. A voz rouca estrangulada num crucifixo. O coração lacrimeja, sangra com os que se foram, chora pelos indiferentes e o risco uma lâmina afiada. Voo com Anna Akhmatova: Eu, como um rio, Fui desviada por estes duros tempos. Deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir num curso diferente, passando pela minha outra vida, e eu já não reconhecia minhas próprias margens. Somos unos na dor; o doer é poetar.

DUAS: DA CLAUSURA EM TEMPOS DE PESTE – A poesia foi sufocada entre o desgoverno e a pandemia, quem dera sobreviver além das nuvens, ou incólume como um rio. Do meu quarto os confins do mundo: tenho os dias e as noites nos olhos, o Sol amanheceu em minhas mãos. Suplanto o escuro, respiro fundo e todo cuidado é pouco, não há muito o que se possa fazer além de viver. Que o diga João do Rio: só no quarto humilde é que pôde chorar, chorar longamente não ter sabido guardar integralmente o princípio da vida - a ilusão... Dedilho a lira, solfejo tons e uma canção traduz a esperança.

TRÊS: DOS QUE SE VALEM DO ÓDIO – Insisto: dói o canto diante da desumanidade! Perseverar mais que nunca, mesmo que estúpidos batam o pé com os suas certezas na fúria da caixa dos peitos, afinal, são estúpidos, mesmo que tudo seja traduzido no Paradoxo de Pinóquio: a mentira é uma verdade, só que desviada – depende de quem pode e quer. Nada mais, só deformação. Vou de Sartre: A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Como sou de paz e dela me valho, ele me cai bem ao ouvido: Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo. Há, enfim, o que se possa fazer, nunca é tarde, peito aberto, braço firme, o luto e a luta. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Noite com gatos escaldados. O Bundespresseamt convida uma série de autores latino-americanos. O funcionário responsável desenvolve um programa de visitas que quase não difere do das delegações soviéticas. Há os pequenos vouchers habituais para o café da manhã e o jantar, intermináveis passeios de ônibus para ver vacas de Holstein ou uma fábrica de automóveis. Também foram previstas entrevistas, colóquios e recepções. A composição da “delegação” é curiosa. Os participantes se empenham em ser gentis, mas não é só o caso de Padilla que está latente aqui. Outros contrastes políticos são ainda piores. Um secretário argentino pálido, de pele acinzentada, parece representar a ditadura militar. Três brasileiros se mantêm ostensivamente reservados. Mas também há algumas estrelas: Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez, velhos conhecidos e rivais, que levam suas diferenças com um humor cáustico. Como eu falo um pouco de espanhol, proponho uma noite em minha casa para relaxar e, de fato, uma dúzia de convidados aceita meu convite. Há o suficiente para beber. Literatura é o assunto menos falado. Depois de uma hora, como se tivessem combinado, os chatos se levantam, entre eles Asturias, que não consegue se livrar do estigma do seu Prêmio Nobel, e se despedem. Música toca na vitrola, passa um baseado na roda, alguns se deitam no chão. Estão todos aliviados. Por algumas horas eles escaparam do programa. [...]. Trecho extraído da obra Tumulto (Todavia, 2019), do escritor, tradutor e editor alemão Hans Magnus Enzensberger, que também se assina sob uma diversidade de pseudônimos, como Andreas Thalmayr, Linda Quilt, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang. Neste livro, o autor que é considerado um dos mais representativos nomes vivos da literatura alemão, traz suas memórias dos anos 1960, época cuja agitação política prenunciava uma revolução não só nos regimes de governo, mas também na cultura de diversos países, tratando desde literatura à política, da história à sociologia, narrativa das experiências vividas no circuito da oficialidade militante, em que o seu olhar preciso e irônico revela as contradições entre utopia e autoritarismo que marcaram o espírito daquele tempo. Veja mais aqui e aqui.

 

OUTROS DITOS

É melhor ser indiferente e digno do que infeliz e patético... No meu coração tolo, a idiotice canta a plenos pulmões... Desiludida antes do tempo, vomito na artificialidade dos sentimentos...

Pensamento da escritora francesa Lolita Pille, que no seu livro Hell (Intrínseca, 2003), ela expressou que: [...] Eu sou uma artista e meu trabalho sou eu. [...] Anseio por um futuro de tédio e sofrimento, já que sou covarde demais para pôr fim aos meus dias. Vou continuar: baladando, cheirando, bebendo e perseguindo os tolos do mundo. [...]. Trata-se de um relato sobre a juventude parisiense do terceiro milênio. Já no seu livro Bubble Gum (Intrínseca, 2004), ela assinala que:

[...] numa vida esvaziada de sentido, a destruição de um ser inocente é um projeto de vida que faz tanto sentido quanto qualquer outro. Graças a ele, Manon realiza o sonho de brilhar como modelo e atriz, mas ao preço da dependência de antidepressivos, cocaína e outros vícios. Mas logo se dá conta da armadilha em que caiu e planeja uma vingança. [...]. Neste romance ela combina incoerência ultrajada com o pacto faustiniano maléfico, no qual a protagonista se entrega em troca do brilho enganoso dos refletores. Por fim, no seu romance Crépuscule Ville (Grasset 2008), ela diz: [...] As névoas que estavam na origem do mal pareciam ter engrossado naquela noite e suas estratos esbranquiçados estavam descendo ao auge de um homem como se mostrassem sua simpatia pelo caos. Apesar de sua localização, no coração do antigo centro, poupada pela urbanização insalubre que atingiu em todos os outros lugares [...], no qual ela expõe códigos de gênero abordando temas como totalitarismo, eugenia, desinformação, o apocalipse, a vigilância e cibertecnologia.

 

MORTALIDADE, DE CHRISTOPHER HITCHENS

[...] À pergunta idiota "Por que eu?", o cosmos mal se dá ao trabalho de responder: por que não? [...] O homem que ora é aquele que pensa que Deus arrumou tudo errado, mas que também pensa que pode instruir Deus sobre como consertá-lo. [...] Para mim, recordar a amizade é recordar aquelas conversas que parecia pecado interromper: aquelas que tornavam o sacrifício do dia seguinte trivial. [...].

Trechos extraídos da obra Mortality (Atlantic, 2012), do escritor, jornalista e crítico literário britânico Christopher Hitchens (Christopher Eric Hitchens – 1949-2011), autor de obras tais como: Hitch 22: A Memoir (2010), The Portable Atheist: Essential Readings for the Nonbeliever (2007), God Is Not Great: How Religion Poisons Everything (2007) e Letters to a Young Contrarian (2001). Veja mais aqui.

 

BARÃO DE MUNCHAUSEN

O militar e senhor rural alemão Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen (1720-1797), conhecido como Barão de Münchhausen casou-se inicialmente com Jacobine von Duher (1726-1790). Enviuvou em 1790, e, posteriormente casou-se com Bernardine Friederike Louise Brunsich vun Brunn (1773-1839), 53 anos mais nova, que viveu em Bad Pyrmont por conta de uma doença em que era acometida e gostava de dançar. Por conta disso, o barão teve sua honra de nobre insultada. Do casal nasceu a filha Maria Wilhermina (1795-1969), não reconhecida pelo pai, tornando-se Maria Wilhemina Enz. Ele tornou-se famoso pela obra Narrativa do Barão Munchausen de Suas Maravilhosas Viagens e Campanhas na Rússia (1975), publicada pelo escritor alemão Rudolf Erich Raspe (1736-1794). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

O LOBO ATRÁS DA PORTA
Investigando a história original, vi que as versões não batiam. A realidade do filme é subjetiva para cada personagem, levando assim não somente a uma única verdade, mas a verdades diferentes e conflitantes.
O LOBO ATRÁS DA PORTA - O premiado longa-metragem O lobo atrás da porta (2013), dirigido e escrito por Fernando Coimbra, é inspirado num caso policial da Fera da Penha, em que uma mulher assassina uma garota após um envolvimento extraconjugal com o pai da menina que desaparece e faz com que seus pais sigam para a delegacia, interrogados separadamente pelo delegado e a descoberta de uma rede de mentiras, amor, vingança e ciúmes envolvendo o trio. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
A arte do escultor sueco Carl Milles (1875-1955). Veja mais aqui & aqui.



PERNAMBUCULTURARTES
Caro leitor, nesses versos / Farei uma descrição / Referente ao corpo humano, / Sobre aspectos e formação, / Cujo ser é semelhança / Do Autor da Criação / Quero descrever do mesmo / As partes mais conhecidas. / Falar das várias matérias / Que estão nele contidas. / E mostrar a estrutura / Sobre as partes divididas. / Em cabeça, tronco e membros / É o corpo dividido. / Na cabeça: crânio e face, um ponto bem conhecido. / O crânio tem oito ossos, pelos quais é construído. [...].
Trecho do cordel O ABC do Corpo Humano – pequeno tratado da anatomia humana (1981), do poeta e enfermeiro Elias Alves de Carvalho, artista de múltiplas facetas, pois também sanfoneiro emérito, versejador e repentista. Veja mais aqui.
&
A música do violonista e compositor Henrique Annes aqui.
Tramações: linha, da artista visual Jaci Borba aqui.
A obra de Bertoldo Kruse aqui.
Ela Musa Artista aqui.
A arte da escritora Gerusa Leal aqui.
Violinistas de Palmares aqui.
&
Maraial aqui & aqui.


sexta-feira, julho 06, 2018

GOETHE, JOÃO DO RIO, CASAIS MONTEIRO, SCHELER, ALBERTO NEPOMUCENO, MÔNADAS DE LEIBNIZ & FABRIZIO CASSETTA


GOETHE, PAIXÃO & ARTE – Imagem: Goethe, art by Fabrizio Cassetta – De um bisavô ferreiro a um avô alfaiate e um pai conselheiro imperial para filho com uma vida de oitenta e três anos. Dizia dever ao pai a perspectiva de vida e a mãe o gosto de contar história. Disso, muitas lendas: se rebelou de Deus aos seis anos, duvidou da justiça dos homens aos sete, compôs aos oito um ensaio comparando a sabedoria dos pagãos aos cristãos, escreveu aos onze uma novela cosmopolita em sete línguas, apaixonou-se pela primeira vez aos quatorze, era ela Gretchen de Francforte, adolescente provinciana do desespero e melancolia como peso horrível no coração. Seria mais fácil influenciar árvores e pedras que chama-lo à razão. Aos dezessete escrevia as imoralidades e adultérios, o sofístico Die Mitschuldigen: “Como quase todos somos culpados, o melhor é perdoarmos e esquecermos”. Intoxicado de juventude, ao invés de douto jurista, preferia o trato com as Musas e a contemplação das formosas moças de Lipsia. Era a vida um redemoinho e, qual Spinoza, tudo era amável e divino em cada pessoa que encontrasse. Vivia para cantar Götz von Berlichingen, o Robin Hood germânico, e se transformava em um egoísta rebelde no jogo do amor - se o matrimônio era uma síntese impossível, as mulheres eram o vaso de eleição onde ainda podia ser colocado o ideal -, o bárbaro do amor para genial na arte. Ao se apaixonar pela jovem dama Lottchen, ela já estava comprometida, lamentavelmente, pensou até em suicidar-se. Era o nascimento de Werther, uma elegia sobre a tristeza da vida e um hino à alegria da morte. Bebeu de Confúcio e foi pra alquimia, o Opus Mago Cabalisticum de Welling, a Aurea Catena Homeri de Paracelso, para entender que “Somente o homem que foi o mais sensível pode tornar-se o mais frio e o mais duro, pois tem que cercar-se de uma couraça dura... e, às vezes, ele mesmo, ressente-se do peso dessa couraça”. Confinou-se aos livros para alimentar o seu rebelde espírito, tornou-se o mais submisso dos cortesãos. E amou, amou Frederica Brion inspirando os lieders de Estrasburgo, amou a delicada Carlota Buff que aumenta o seu pesar, a fascinante Maximiliana de La Roche, a graciosa Lili Schönemann, a virtuosa matrona Mme. Stein a quem escreve mil e quinhentas cartas, a musa amante que morre de ciúmes da atriz Corona Schröter, e transformou o flerte no divertimento da moda: “Nós todos somos um pouco doidos aqui e fazemos o próprio jogo do diabo”. Escreveu Stella, a convivência com a esposa e a amante, sem saída, uma bala na cabeça, até ver-se compondo versos sobre os ombros de morena beleza da florista Cristina Vulpius, o amor e valor do seu diário. Enamorou-se por Minna Herzlieb, apaixonou-se por Mariana de Willemer. Para todas perguntava: “Sentes, em meus poemas / que sou dois em um só?”. Não queria mais destruir o mundo, agora queria compreendê-lo, amava apaixonadamente as criaturas humanas: “Nunca expressei nada que não houvesse sentido... componho canções de amor porque tenho amado muito... como poderei então escrever cantos de guerra sem nunca ter odiado?”. A vida pagã com o culto da beleza. Com Schiller, a rebelião da arte. Aos sessenta e quatro anos apaixonou-se violentamente como a primeira vez pela juventude radiante de Ulrica de Levetzow, a quem desposa e com ela, a Elegia de Marienbad e os sofrimentos de Werther envelhecido: “À boca dadivosa eles me alçaram / E, ao separar-me dela, me arrasaram”. Gênio e demônio: “Todos os teus ideais não me impedirão de ser verdadeiro, isto é, de ser bom e mau como a natureza”. Os dois Faustos – o do amor de Margarida salva e a paixão do erro, e o que foi ao paraíso: “Cantemos em coro, Da vitória a palma, O ar está puro: Respire esta alma!”. Também a Ifigênia condenada pelo próprio pai e poupada pela deusa Diana para ser sacerdotisa em Tauride. Depois a Erótica Romana: “A mulher é a eterna salvação do homem”. No fim de certa manhã, queria mais luz: “Nem sempre estou disposto para os grandes sentimentos e, sem eles, nada sou”. Depois, registra Emil Ludwig, recostado comodamente na sua poltrona, desapareceu na sua hora natal, ao meio-dia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, pianista, organista e regente Alberto Nepomuceno (1864-1920): Série Brasileira, Sinfonia em Sol Menor, Serenata para Cordas & Quarteto e Cordas nº 1 em Si Menor & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A alteração deste mundo dos bens modifica o sentido e o significado do bom e do mau. Dado que a história nos mostra que este mundo de bens está submetido a uma alteração constante e a um movimento continuo, o valor moral do querer e dos seres humanos participariam também do destino deste mundo [...] o homem bom, que age espontaneamente realizando aquilo que seu discernimento apontava como bom, coloca-se na defensiva diante de um conteúdo que tome a forma imperativa, resultando daí uma tendência ao mau [...]. Trechos extraídos de Ética: nuevo ensayo de fundamentación de um personalismo ético. (Revista do Ocidente, 1948), do filósofo alemão Max Ferdinand Scheler (1874-1928), autor da frase: Em época alguma foram as opiniões sobre a essência e a origem do homem tão incertas, tão indeterminadas como a nossa... Dentro de uma história de aproximadamente dez mil a nos, somos a primeira época em que o homem se tornou completamente ‘problemático’ para si mesmo; na qual ele não sabe mais o que é, mas ao mesmo tempo sabe que não sabe. Veja mais aqui.

AS MÔNADAS – As mônadas, por não terem partes, não podem ser formadas nem desfeitas. Não podem começar nem acabar naturalmente e, portanto, duram tanto como o universo, que será mudado, mas não destruído. Não podem ter figuras; de outro modo, teriam partes. Por conseguinte, uma mônada em si mesma, e no instante, só pode diferençar-se de outra pelas qualidades e ações internas, as quais são tão-só as suas percepções (isto é, as representações do composto, ou do que é exterior no simples) e as suas apetições (isto é, as suas tendências de se mover de uma percepção para outra) que são os princípios da mudança. Pois a simplicidade da substância não impede a multiplicidade das modificações que se devem encontrar juntas nesta mesma substância simples, e devem consistir na variedade das relações com as coisas que fora dela estão. Tal como num centro ou ponto, embora de todo simples, existe uma infinidade de ângulos formados pelas linhas que nele convergem. Tudo na natureza está cheio. Em toda a parte há substâncias simples, efetivamente separadas umas das outras por ações próprias, que modificam, sem cessar, as suas relações; e cada substância simples ou mônada individual, que constitui o centro de uma substância composta (como, por exemplo, de um animal) e o princípio da sua unicidade, está rodeada de uma massa formada por uma infinidade de outras mônadas, que constituem o corpo próprio dessa mônada central; de acordo com as afecções dele representa ela, como numa espécie de centro, as coisas que lhe são exteriores. E este corpo é orgânico, quando forma um espécime de autômato ou de máquina da natureza, que é máquina não só no todo, mas ainda nas mínimas partes que se fizerem notar. E, como em virtude da plenitude do mundo, tudo está ligado e cada corpo age sobre qualquer outro corpo, mais ou menos conforme a distância, e é por ele afetado por reação, segue-se que cada mônada é um espelho vivo, ou dotado de atividade interna, representando o universo segundo o seu ponto de vista, e é tão ordenado como o próprio universo. As percepções das mônadas nascem umas das outras pelas leis dos apetites ou das causas finais do bem e do mal, que consistem nas percepções observáveis, ordenadas ou desordenadas, tal como as mudanças dos corpos e os fenómenos externos nascem uns dos outros em virtude das leis das causas eficientes, ou seja, dos movimentos. Existe assim uma harmonia perfeita entre as percepções da mônada e os movimentos dos corpos, preestabelecida inicialmente entre o sistema das causas eficientes e o das causas finais. E nisso consiste o acordo e a união física da alma e do corpo, sem que nenhum deles consiga alterar as leis do outro. [...]. Trecho extraído da obra Princípios da natureza e da graça (Caleidoscópio, 2001), do filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 – 1716). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO – [...] vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social. [...] Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. [...] Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam. Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrario. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. [...]. Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. [...] Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional. – Só caso se o senhor tomar juízo. – Mas que chama você juízo? – Ser como os mais. – Então você gosta de mim? – E por isso é que só caso depois. Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido. Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão”. Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo. – Traz algum relógio? – Trago a minha cabeça. – Ah! Desarranjada? - Dizem-no, pelo menos. - Em todo o caso, há tempo? – Desde que nasci. – Talvez imprecisão na montagem das peças. [...] – E o senhor fica com a minha cabeça? – Se a deixar. – Pois aqui a tem. Conserte-a. o diabo é que não posso andar sem cabeça... – Claro. Mas, enquanto arranjo, empresto-lhe uma de papelão. – Regula? – É de papelão! [...] Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antonia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. [...]. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão [...]. Trecho do conto extraído da obra Homem da cabeça de papelão (Hedra, 2012), do jornalista, escritor, tradutor e teatrólogo João do Rio (1881-1921). Veja mais aqui.

AURORA - A poesia não é voz - é uma inflexão. / Dizer, diz tudo a prosa. No verso / nada se acrescenta a nada, somente / um jeito impalpável dá figura / ao sonho de cada um, expectativa / das formas por achar. No verso nasce / à palavra uma verdade que não acha / entre os escombros da prosa o seu caminho. / E aos homens um sentido que não há / nos gestos nem nas coisas: / voo sem pássaro dentro. Poema extraído da obra Voo sem pássaro dentro (Ulisseia, 1954), do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Veja mais aqui e aqui.

GOETHE (1749-1832)
O verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo.
Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora.
Quanto mais um homem se aproxima de suas metas, tanto mais crescem as dificuldades.
Nada é mais repugnante do que a maioria, pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer.
As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam ideias.
Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.
Pensamentos do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Veja mais:

O IV Congresso Nacional de Formação de Professores (CNFP) integrado ao XIV Congresso Estadual Paulista Sobre Formação de Educadores (CEPFE) & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte de Fabrizio Cassetta. 
Veja mais aqui.
&
Dia internacional do beijo aqui, aqui, aqui & aqui.
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A festa dos beijos & muitos beijos, a literatura de Juan Rulfo, Presente do mar de Anne Morrow Lindbergh, a música do Yes, a fotografia de Clarence Hudson White, Luciah Lopez & Marcos Alexandre Martins Palmeira aqui.
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Ela acolheu meu desterro, Os mímicos de Naipaul, A música de Keith Jarret, Sueli Costa, Eumir Deodato & Rita Lee; a arte de Ewa Ludwiczak & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


segunda-feira, dezembro 25, 2017

JOÃO DO RIO, ANDRÉ GIDE, BACHELARD, DEWEY, PELÓPIDAS SOARES, NINA KOZORIZ & CRONIQUETA DE NATAL

CRONIQUETA DE NATAL - Imagem da artista plástica russa Nina Kozoriz. – Respeitável público! Senhoras e senhores dêem licença, peço aqui a sua prestimosa atenção pra contar algumas poucas coisas daqui: sou do rincão em que o verão dura o ano inteiro. Não é bem assim; vez ou outra, quando em vez chega o mês de julho, das portas do céu escancarar pra chuvarada até dezembro, não antes elevar as águas de transbordarem varrendo abrigos, honras e poderes do chão, avalie. Respeite o dilúvio de levar a saparia a se atrepar na serra toda reunida, a rezar de joelhos na maior das ladainhas, pras nunvens pararem de mijar o maior aguaceiro dentro das calças de Maiakovski, pra não apagar a fogueira, nem acabar com a quadrilha do casamento matuto nos festejos juninos. A coisa é séria, arrebentando além dos oito a oitenta. Além do mais, aqui tem tudo: todo tipo de brebote e personalidade do Paraguay, trambiqueiro metido a inglês, galego-de-água-doce que nunca foi à Espanha, safados de Portugal, anão dentuço menor que o próprio tamanho da piroca grande como atração na prefeitura, piratas de Ali Babá na Câmara dos Vereadores, Et Deputado, profeta comerciante, Gengis Khan como médico, cobras como professores, cego como motorista, alcoviteira como justiça, hotel no espaço, cana escocesa, mosqueiro americano, tem até a Lapônia feita pelos duzentos quilos de banha de Joab Jabão depois de tomar uns gorós e, completamente biritado, pegar no empurrão já de saco cheio, aos soluços e sopapos, a puxar uns guenzos rua afora pra jogar moedas de antanho tapiando a garotada e os bestas, hô, hô, hô. Isso até ele parar encostado e resfolegante numa palmeira, acendendo a lamparina pra fazê-la árvore de Natal. Pois é, repito: aqui tem de tudo: se o chão tremer, não dá em nada, terremeto ou erosão, é soltar um rojão e cair no maior rastapé; tsunami, maremoto, muito menos, do Cocão do Padre a coisa é regulada: depende da ingresia religiosa – avisa pra eles que Deus não é surdo! -; e pode vir ventania, pé-de-vento, corisco, tornado ou tufão, moleza: vai dar asa pra soltar pipa ou mandar ver no catavento! Vulcão, incêndio, apocalipse, aqui é maior brinquedo! É todo dia e o dia todo o maior queima nas lojas do comércio! Quer mais? Passou nas quatro, pois é à prova de fogo, água, terra e ar – de bala, é covardia, né? Sem contar a fuxicagem, pechincha e por favor; a carteirada, calaboca e sim, senhor; finda em festa de virar o pote, quebrar botija e atiçar pra briga; e por via das dúvidas, tudo se joga nas três, até o que é dos outros: cuspe, pulha e pedra! E se alguém viu, ninguém sabe, só vale boataria pro circo pegar fogo! Conversa é só arenga, quantos ofendidos; dinheiro invisível feito mato, isso pros buchudos com deus na pança; se não for briga, a correria é o maior burburinho que só a má notícia, até pinotar ou ter um troço e bater as botas, só sabe se não morreu de morte morrida, ou de morte matada, precisa conferir quem saiu se já voltou ou vai ver se estou lá na esquina, depois junta o quebra-cabeça, tá? E pra encurtar a história toda que a coisa é muita e demais, o mundo todo é aqui! Se não é, está aqui! Mas é natal! É natal, gente! Vamos maneirar e aprumar a conversa, ora! É natal, tudo nasce, renasce e torna a nascer todo dia na aleatória pulsação das coisas: a amanhã e o Sol, a noite e as estrelas, a terra e o chão, a brisa e o vento, a areia e o seixo, a semente e o fruto, as folhas e os galhos, o zangão e as flores, as águas e as margens, a fonte e o regato, a correnteza dos rios e as ondas do mar, os caminhos e as estradas, as chegadas e as partidas, afora os bichos miúdos e os mais desproporcionados, os mansos e indomáveis, as peçonhentas e os domesticáveis, os que rastejam e as que voam, os que cantam e as que gritam, os que choram e as que riem, isso sem puxar a corda carnavalizante de gente: branco, preto, amarelo, vermelho, pardos, tudo muito misturado e quem mais vier de dentro e de fora dos planetas, das galáxias, da imensidão do universo! Afinal é natal, tudo nasce e renasce no esplendor da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A edição de hoje é dedicada à artista plástica russa Nina Kozoriz. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS – Os verdadeiros bem-estares têm um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova. Mas a grande planta de pedra, que é a casa, cresceria mal se não tivesse em sua base a água dos subterrâneos. Pensamento do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta, é preciso dizer de novo. Pensamento do escritor francês Prêmio Nobel de Literatura de 1947, André Gide (1869-1951). Veja mais aqui e aqui.

AMEAÇAS DE ONTEM & HOJE - [...] A séria ameaça à nossa democracia não é a existência de Estados totalitários [...]. É a existência, em nossas próprias atitudes pessoais e dentro de nossas próprias instituições, das condições que deram vitória à autoridade externa, à disciplina, à uniformidade e à dependência do líder nos países estrangeiros. De acordo com isso, o campo de batalha é aqui também – dentro de nós mesmos e de nossas instituições. [...]. Trechos extraídos da obra Liberalismo, liberdade e cultura (Cia. Editora Nacional, 1970), do filósofo e pedagogo estadunidense John Dewey (1859-1952). Veja mais aqui, aqui & aqui.

VELHOS COCHEIROS – Outro dia, ao saltar de um tílburi no antigo Largo do Paço, vi na boléia de um vis-à-vis pré-histórico a ventripotência colossal de um velho cocheiro. As duas mãos gorduchas à altura do peito como quem vai rezar, enfiado numa roupa esverdinhada, o automedonte roncava. Seria uma recordação literária ou a memória de uma fisionomia de infância? Seria o cocheiro da Safo, o irmão mais velho de Simeon, ou simplesmente um velho cocheiro que eu tivesse visto na doce idade em que todas as emoções são novas? Era difícil adivinhar. Para os cérebros cheios de literatura, a verdade obumbra-se tanto que é sempre preciso perguntar por ela como o fez Poncius Pilatos diante de Deus. Fui para perto do vis-à-vis, bati na perna do velho. Estava feio. O ventre, um ventre fabuloso, parecia uma talha que lhe tivessem entalhado ao tronco; as pernas, sem movimento, pendiam como traves; os braços, extremamente desenvolvidos, eram quase maiores que as pernas; e a caraça vermelha, com tons violáceos, lembrava os carões alegres do Carnaval. Abriu, entretanto, uma das pálpebras com mau humor e resmungou: – Pronto! – Então você não me conhece mais? – Eu não, senhor. – Pois eu conheço a você desde menino. Ele abriu de todo as pálpebras pesadas, um sorriso de alegre bondade passou-lhe pelo lábio. – Saiba vossa senhoria que bem pode ser! Toda essa gente importante de hoje eu conheci meninos de colégio! Não sei por que estava meio emocionado. – E já fez ponto na Estrada de Ferro? – Há vinte anos, eu e o Bamba. Encostei-me à boléia do antigo vis-à-vis. Havia vinte anos sim, havia vinte anos que no passar pela estação de carros os meus olhos de criança se fixaram curiosamente na fisionomia jocunda de um velho, que já naquele tempo era velho e já naquele tempo gravemente roncava na boléia de um carro! Havia vinte anos. É como lhe digo, afirmava ele. Conhece a filha do barão de Cotegipe? Eu vi aquela santa criatura menina. Conhece o filho do grande ministro João Alfredo? É meu amigo, dá-me dinheiro sempre que vem ao Rio. Olhe, há de conhecer o Dr. Fernando Mendes de Almeida e mais o irmão Dr. Cândido. Pois quando eu servia o pai, eles eram meninos de colégio. Há meses eu disse ao Dr. Fernando tudo isso e ele foi dar um passeio no meu carro e deu-me doces, vinho do Porto, dinheiro. Estava admirado e ria... – Como se chama você? – Braga, eu sou o Braga. Pobre velho cocheiro a quem se dá como às crianças doces de confeitaria! Eu continuava encostado ao vis-à-vis, imensamente triste e com a mesma curiosidade de criança. – Trabalho neste ofício desde 1870. Tinha vinte anos, quando comecei. Toda a minha mocidade foi acabada aqui. – E não estás rico?! – Rico? Soltou uma gargalhada sonora que lhe balançou o ventre e envermelheceu mais. Os seus olhos pequenos olhavam-me da boléia com superioridade compassiva. É difícil encontrar um cocheiro de carro que tenha feito fortuna. Enriquecem os de carroça, os de caminhões. De carro, se citam dois ou três em trinta anos. O ofício, longe de tornar ágeis os corpos, faz lesões cardíacas, atrofia as pernas, hipertrofia os braços, de modo que quinze anos de boléia, de visão elevada do mundo, ao sol e à chuva, estragam e usam um homem como a ferrugem estraga o aço mais fino. O Braga era um velho trapo encharcado. Tanto ádipo dava-me a impressão de que o pobre velho devia ter água nos tecidos. Eu continuava a ouvi-lo. Naquela boléia falava um cultor do quietismo, um renanista que tivesse compreendido o nirvana. Nem uma ambição, nem um ódio: apenas um sorriso de quem não se rala com a vida e vem para a rua almejando não encontrar fregueses, para dormir mais à vontade. – Ah! este carro! murmurei. Quanta história podia você contar. Quantas cenas de amor, quantos beijos, quantas angústias e quantos crimes! – Este carro não; outros, ou antes, eu. Fui de cocheira, fui de casa particular e trabalhei por minha conta. Quando caiu o ministério João Alfredo fui eu quem o levou ao Paço. Agora essas coisas de beijos – noutro tempo era nas berlindas. – Tinha vontade de saber a sua opinião. Ele arregalou muito os olhos. – A respeito de beijos? Sei lá! – Não, a respeito da Monarquia e da República. Ele sorriu, pensou. – A Monarquia tinha as suas vantagens. Era mais bonito, era mais solene. Não vá talvez pensar que eu sou inimigo da República. Mas recorde por exemplo um dia de audiência pública do imperador. Que bonito! Até era um garbo levar os fregueses lá. Ó Braga, onde estiveste? Fui à Boa Vista! Hoje todo o mundo entra no palácio do Catete. Não tem importância... É verdade que o Obá entrava no Paço. Mas era príncipe. E então para conhecer homens importantes! Não precisava saber-lhes o nome. Os ministros tinham uma farda bonita, o imperador saía de papo de tucano. Bom tempo aquele! Hoje a gente tem de suar para conhecer um ministro. Parecem-se todos com os outros homens. – Talvez não sejam, Braga. – Quanto às capacidades não digo nada...Mas veja. Por estar perto da secretaria é que conheço o Müller, um magro, que reforma a cidade. E de todo o ministério só ele. Se isso era possível em 1880! Depois, quer saber? A República trouxe a Bolsa, uma porção de cocheiros estrangeiros, uns gringos e ingleses de cara raspada, com uns carros que até nem eu lhes sabia o nome! Despegou as mãos de sobre o peito. – E vão morrendo todas as pessoas notáveis, já não há mais ninguém notável. Só restam o sr. visconde de Barbacena, o sr. marquês de Paranaguá e mais dois outros. Houve uma longa pausa. Como este cocheiro estava do outro lado da vida! Quinze anos apenas tinham levado o seu mundo e o seu carro para a velha poeira da história! Ele falava como um eco, e estava ali, olhando o boulevard reformado, pensando nos bons tempos das missas na catedral e das moradas reais, hoje ocupadas pela burocracia republicana. . . – O Braga é o mais velho cocheiro do Rio? – Não senhor; é o Bamba, que começou em 1864. Neste momento, outros cocheiros moços, limpos, de grandes calças abombachadas foram aproximando os carros, com vontade de saber o que retinha um cavalheiro tanto tempo a prosar com o velho. Logo se fez um barulho de rodas e de vozes. – Ó Braga, ó velho, despacha o freguês! tem aqui um carro bom, vossa senhoria! O Braga, posso servir? Braga cruzou outra vez as mãos no peito, com um sereno olhar indiferente. Que dor o havia de trespassar! Murmurei com pena: – Bom, adeus, meu Braga. E onde pára o Bamba? – Na Estrada, pára na Estrada. Às ordens do menino, respondeu ele do alto. Já agora era impossível deixar de ver o outro, de conhecer o mais antigo cocheiro do Rio! Tomei um bonde da Central. A tarde morria em lento e vermelho crepúsculo. No céu brilhava a primeira estrela trêmula e luminosa, e os combustores acendiam a sua luz azul quando saltei na Praça da Aclamação. E foi um grande trabalho. Eu ia de carro em carro. – Pode informar onde pára o Bamba? Uns diziam que o Bamba caíra e fora para o hospital, outros, os moços, riam de que se fosse procurar um cocheiro inútil como o Bamba, outros asseguravam que o velho não trabalhava mais. Afinal, quase defronte da porta do Quartel, encontrei um landau empoeirado, desses que parecem arcas e acomodam à vontade seis pessoas. Da boléia um mulato velho falava para um gordo ancião, muito gordo, muito estragado... – Sabe você dizer quem é e onde está o Bamba? O mulato riu. – É este, patrão... O gorduchão abriu a boca, onde faltavam os dentes. – Já não trabalho de noite: tenho 70 anos. Não vejo. Desde 1864 que estou no serviço. Outro dia quase morro; caí da boléia. Tenho as pernas duras. – Bamba, meu velho... – Sou o primeiro cocheiro, o mais velho, não há nenhum mais velho... Eu voltei-me para o mulato, interroguei-o quase em segredo: – Mas que diabo vem ele fazer aqui, assim? O mulato sorriu com tristeza. – Sei lá! É o cheiro, vossa senhoria, é o cheiro! Quando a gente começa nesta vida, não pode viver sem ela... É o cheiro. A praça vibrava numa estrepitosa animação, os combustores reverberavam em iluminações fantásticas, e, só, no céu calmo, como uma hóstia de tristeza, a velha lua esticava a triste foice do seu crescente. Conto extraído da obra A alma encantadora das ruas (Companhia das Letras, 2008), do jornalista, escritor, tradutor e teatrólogo João do Rio (1881-1921). Veja mais aqui e aqui.

O PIRANGI – O que o rio estampa? / Irrefletido espelho / de aço perdido / e estrelas náufragas / sob a gosma parda / da calda fétida / rio sem a memória / das imagens das margens / despejo canavieiro / descendo moribundo / no seu leito de morte. Poema do escritor Pelópidas Soares (1922-2007). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!!
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quinta-feira, agosto 31, 2017

INÊS BOGÉA, JOÃO DO RIO, BIBLIOTECA & INCLUSÃO, ARTE & ENTREVISTA DE VILMAR ANTÔNIO CARVALHO

ZANGÃO NA COLMÉIA – Sou zangão na colméia: nasci das lágrimas do deus Ra pra ser fóssil no âmbar do Báltico; sou as jóias do túmulo de Childerico I, sou antiga moeda grega, sou Melissa - a ninfa que criou Zeus na gruta de Ida e participei da ressurreição do apiário de Aristeu após o ataque vingativo de Orfeu pela morte de Eurídice que esquivara dos seus galanteios e sedução intrometida; sou a palavra dos hebreus e estou na boca do leão de Mitra: sou seu verbo; estou ao lado do junco coroando o cartucho de Tutmés III; estou entre as mil colméias na Ática de Péricles e as castas de Aristóteles, sou a inteligência divina nas Geórgicas de Virgílio, sou padroeiro Ambrósio salvo pelo mel nos lábios, sou os estudos de Brunetto Latini, as constatações de Koelreuter e Darwin; sou o estandarte do império napoleônico, o simbolismo de Champollion e dos valores humanitários, o Summum Bonum de Robert Fludd, a sabedoria e a unidade espiritual pra Lucien Besson e testemunha ecológica do bem-estar da humanidade hoje e amanhã. Sou apenas um zangão atraído pelo néctar das folhas do ingá para polinização. Sou apenas um zangão pelo séquito de devotadas operárias na colméia pra fecundar a rainha, é preciso alimentá-la e lambê-la pro voo nupcial. Sou apenas um zangão, a sugar os líquidos dos pulgões e cigarrinhas pro melaço; sou apenas um zangão, sou pro outro o que somos juntos, um pro outro, a coesão pro ninho na solidariedade e as nossas interações pelos sinais táteis, químicos, vibratórios no universo dos alvéolos e da geléia real. Sou apenas um zangão na colméia, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

BIBLIOTECA INCLUSÃO
Projeto de Inclusão, da Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em reunião realizada com o diretor da Biblioteca João Paulo & Sil Neves (SEMED). Veja mais sobre o tema aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

LETRADOS & UFANOS - [...] Os clubes literários pós-monarquistas foram aprisionados na figura impar da Academia Brasileira de Letras e de suas seções estaduais (a Academia Pernambucana de Letra foi fundada em 26 de janeiro de 1901). Instancias que herdaram as inúmeras associações mirins que as precederam nos ideais literatos. Uma grande academia canonizada definitivamente sob o manto da cultura letrada, para defender a norma culta gramatical e o vernáculo nacional, a obra e o autor imortal, as cadeiras e os patronos que, certa vez, começaram as tradições letradas do país. Ali a circularidade entre oralidade e literalidade foi escamoteada, fazendo prosperar, da mesma matriz dos preconceitos étnicos, lingüísticos e culturais, a ideia da suposta superioridade do discurso acadêmico sobre outras falas, palavras e gestos. Nesse clube que deixou de ler e escrever e ganhou um salão de festas e jogos, silenciaram as pretensões literárias que a mocidade boemia sonhava. Realkengo, o Club Litterario de Palmares não escreveu mais. O sonho literário adormeceu post-scriptum. [...] Aquela ilha de letrados morreria, marcando o tempo e o espaço que se transformou em lenda urbana, memora e história de Palmares. Trecho de Letrados e ufanos: história do Club Litterario de Palmares (1882-1910) (Bagaço,. 2011), do historiador, poeta e professor Vilmar Antonio Carvalho. Veja mais aqui e aqui.

A DANÇA PELO MUNDO – Agarrada aminha mala, contente pela viagem, fui para o aeroporto. Cada vez mais a minha vida seria cheia de vôos, malas, novos países, novas línguas. O mundo inteiro era meu, e nada era meu. Para qualquer lugar que fosse – de um lado a outro do Brasil e fora do país também -, ia só para dançar. Fazia um ano que dançava no Grupo Corpo. Quando a gente viaja mais de seis meses por ano, os hotéis passam a ser a nossa casa. Um quarto num canto do mundo, com fotos, roupas e objetos, torna-se um lugar conhecido, no meio do desconhecido. Mas, para o bailarino, sua casa mesmo é o palco. De dentro, os palcos são uns; da plateia, outros. Por mais diferentes que sejam, se transformam no nosso espaço de sempre. Luzes, tapetes, coxias, cenários: tudo vai sendo montado para o espetáculo. E, depois do primeiro ensaio, já ficam do jeito habitual. Todos os palcos têm histórias. [...]. Trecho extraído da obra O livro da dança (Companhia das Letras, 2002), da bailarina, escritora e professora Inês Bogéa.

MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL - [...] A identidade nacional não pode mais ser pensada somente a partir de uma instancia, q1ue seria o Estado, nem de uma classe social nacional. [...] a identidade nacional, quanto a sua geração de sentido, que atua em um cenário global, deve ser vista como um discurso hierarquizado a partir das complexas re3lações de formas que atuam neste cenário e que se relacionam, em torno de seus interesses, a partir de mecanismos de controle. [...] o pensamento sociológico deve ser capz de assumir os mais diferentes artífices na conformação identitária naci0onal, também deve perceber que a relação deve enxergar na fragmentação dos atores operantes a ausência de poder ou o descontrole. [...]. Trecho do livro Música brasileira e identidade nacional na mundialização (Fapesp/Annablume, 2009), de Michel Nicolau Neto.

IMPRENSA & COMUNICAÇÃO - [...] Definir o comportamento ético é um pouco como definir arte, e a maioria de nos segue a regra do eu-o-conheço-quando-o-vejo. Colecionar histórias de horror sobre os delitos jornalísticos é fácil, mas avançar na direção de uma cura racional para os problemas da profissão é muito mais difícil. As ocorrências são tão variáveis que frequentemente parece não haver recurso se não manejá-las uma de cada vez, à medida que aparecem. [...] Mas o aperfeiçoamento deve começar em alguma parte, e se não puder começar nesse nível simples e fundamental, talvez os jornalistas deveriam encarar a possibilidade de que não pode ser alcançado de modo algum. A imparcialidade, o equilíbrio, a objetividade e a defesa de métodos incomuns são vazios sem capacidade básica de reunir e relatar os fatos. Seu jornal deve-lhe ao menos isso. Trecho extraído da obra A ética no jornalismo: um guia para estudantes, profissionais e leitores (Forense Universitaria, 1989), de Philip Meyer. Veja mais aqui.

AS MULHERES MENDIGAS - A mendicidade é a exploração mais regular, mais tranqüila desta cidade. Pedir, exclusivamente pedir, sem ambição aparente e sem vergonha, assim à beira da estrada da vida, parece o mais rendoso oficio de quantos tenham aparecido, e a própria miséria, no que ela tem de doloroso e de pungente, sofre com essa exploração. É preciso estudar a sociedade complicada e diversa dos que pedem esmola, adivinhar até onde vai a verdade e até onde chega a malandrice, para compreender como polícia descura o agasalho da invalidez e a toleima incauta dos que dão esmolas. Entre os homens mendigos há irmãos da opa, agentes de depravação viciados, profissionais de doenças falsas, mascarando um formidável cenário de dores e de aniquilamento. Só depois de um longo convívio é que se pode assistir à iniciação da maçonaria dos miseráveis, os estudos de extorsão pelo rogo, toda a tática lenta do pedido em nome de Deus que, às vezes, acaba em pancada. [...] Do fundo desse emaranhamento de vício, de malandragem, de gatunice, as mulheres realmente miseráveis são em muito maior numero do que se pensa, criaturas que rolaram por todas as infâncias e já não sentem, já não pensam, despidas da graça e do pudor. Para estas basta um pão enlameado e um níquel, basta um copo de álcool para as ver taramelar, recordando a existência passada. [...].Trecho de As mulheres mendigas, extraído da obra A alma encantadora das ruas (Companhia das Letras, 2008), do jornalista, escritor, tradutor e teatrólogo João do Rio (1881-1921).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina, escritora e professora Inês Bogéa.
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EPÍLOGO
Dizem os parentes mais velhos que,
Mesmo numa família de gente branca,
Meu avô foi um homem de cor...
Um sujeito amistoso,
Querido porque tocava violão de um jeito
Que o mais duro ouvido
Baixava guarda para admirar
Sua música melancólica...
Dizem que ganhou respeito ao consertar
As porteiras e as cercas do engenho da família...
Consertou tudo com a mesma fúria
De quem outrora escravizou, explorou e matou?
Como saber?
Dizem que a única coisa que exigia do clã,
Era o esquecimento da história de Cristina.
Ainda perturbava-lhe a lembrança do roseiral
Esculpido do lado de fora da janela do bordel.
Poema da obra Bordel barroco: alegorias de Epicuro Soares (Bagaço, 2011), do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho. Veja a entrevista dele aqui.

 

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...