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sexta-feira, julho 06, 2018

GOETHE, JOÃO DO RIO, CASAIS MONTEIRO, SCHELER, ALBERTO NEPOMUCENO, MÔNADAS DE LEIBNIZ & FABRIZIO CASSETTA


GOETHE, PAIXÃO & ARTE – Imagem: Goethe, art by Fabrizio Cassetta – De um bisavô ferreiro a um avô alfaiate e um pai conselheiro imperial para filho com uma vida de oitenta e três anos. Dizia dever ao pai a perspectiva de vida e a mãe o gosto de contar história. Disso, muitas lendas: se rebelou de Deus aos seis anos, duvidou da justiça dos homens aos sete, compôs aos oito um ensaio comparando a sabedoria dos pagãos aos cristãos, escreveu aos onze uma novela cosmopolita em sete línguas, apaixonou-se pela primeira vez aos quatorze, era ela Gretchen de Francforte, adolescente provinciana do desespero e melancolia como peso horrível no coração. Seria mais fácil influenciar árvores e pedras que chama-lo à razão. Aos dezessete escrevia as imoralidades e adultérios, o sofístico Die Mitschuldigen: “Como quase todos somos culpados, o melhor é perdoarmos e esquecermos”. Intoxicado de juventude, ao invés de douto jurista, preferia o trato com as Musas e a contemplação das formosas moças de Lipsia. Era a vida um redemoinho e, qual Spinoza, tudo era amável e divino em cada pessoa que encontrasse. Vivia para cantar Götz von Berlichingen, o Robin Hood germânico, e se transformava em um egoísta rebelde no jogo do amor - se o matrimônio era uma síntese impossível, as mulheres eram o vaso de eleição onde ainda podia ser colocado o ideal -, o bárbaro do amor para genial na arte. Ao se apaixonar pela jovem dama Lottchen, ela já estava comprometida, lamentavelmente, pensou até em suicidar-se. Era o nascimento de Werther, uma elegia sobre a tristeza da vida e um hino à alegria da morte. Bebeu de Confúcio e foi pra alquimia, o Opus Mago Cabalisticum de Welling, a Aurea Catena Homeri de Paracelso, para entender que “Somente o homem que foi o mais sensível pode tornar-se o mais frio e o mais duro, pois tem que cercar-se de uma couraça dura... e, às vezes, ele mesmo, ressente-se do peso dessa couraça”. Confinou-se aos livros para alimentar o seu rebelde espírito, tornou-se o mais submisso dos cortesãos. E amou, amou Frederica Brion inspirando os lieders de Estrasburgo, amou a delicada Carlota Buff que aumenta o seu pesar, a fascinante Maximiliana de La Roche, a graciosa Lili Schönemann, a virtuosa matrona Mme. Stein a quem escreve mil e quinhentas cartas, a musa amante que morre de ciúmes da atriz Corona Schröter, e transformou o flerte no divertimento da moda: “Nós todos somos um pouco doidos aqui e fazemos o próprio jogo do diabo”. Escreveu Stella, a convivência com a esposa e a amante, sem saída, uma bala na cabeça, até ver-se compondo versos sobre os ombros de morena beleza da florista Cristina Vulpius, o amor e valor do seu diário. Enamorou-se por Minna Herzlieb, apaixonou-se por Mariana de Willemer. Para todas perguntava: “Sentes, em meus poemas / que sou dois em um só?”. Não queria mais destruir o mundo, agora queria compreendê-lo, amava apaixonadamente as criaturas humanas: “Nunca expressei nada que não houvesse sentido... componho canções de amor porque tenho amado muito... como poderei então escrever cantos de guerra sem nunca ter odiado?”. A vida pagã com o culto da beleza. Com Schiller, a rebelião da arte. Aos sessenta e quatro anos apaixonou-se violentamente como a primeira vez pela juventude radiante de Ulrica de Levetzow, a quem desposa e com ela, a Elegia de Marienbad e os sofrimentos de Werther envelhecido: “À boca dadivosa eles me alçaram / E, ao separar-me dela, me arrasaram. Gênio e demônio: “Todos os teus ideais não me impedirão de ser verdadeiro, isto é, de ser bom e mau como a natureza”. Os dois Faustos – o do amor de Margarida salva e a paixão do erro, e o que foi ao paraíso: “Cantemos em coro, Da vitória a palma, O ar está puro: Respire esta alma!”. Também a Ifigênia condenada pelo próprio pai e poupada pela deusa Diana para ser sacerdotisa em Tauride. Depois a Erótica Romana: “A mulher é a eterna salvação do homem”. No fim de certa manhã, queria mais luz: Nem sempre estou disposto para os grandes sentimentos e, sem eles, nada sou”. Depois, registra Emil Ludwig, recostado comodamente na sua poltrona, desapareceu na sua hora natal, ao meio-dia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, pianista, organista e regente Alberto Nepomuceno (1864-1920): Série Brasileira, Sinfonia em Sol Menor, Serenata para Cordas & Quarteto e Cordas nº 1 em Si Menor & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A alteração deste mundo dos bens modifica o sentido e o significado do bom e do mau. Dado que a história nos mostra que este mundo de bens está submetido a uma alteração constante e a um movimento continuo, o valor moral do querer e dos seres humanos participariam também do destino deste mundo [...] o homem bom, que age espontaneamente realizando aquilo que seu discernimento apontava como bom, coloca-se na defensiva diante de um conteúdo que tome a forma imperativa, resultando daí uma tendência ao mau [...]. Trechos extraídos de Ética: nuevo ensayo de fundamentación de um personalismo ético. (Revista do Ocidente, 1948), do filósofo alemão Max Ferdinand Scheler (1874-1928), autor da frase: Em época alguma foram as opiniões sobre a essência e a origem do homem tão incertas, tão indeterminadas como a nossa... Dentro de uma história de aproximadamente dez mil a nos, somos a primeira época em que o homem se tornou completamente ‘problemático’ para si mesmo; na qual ele não sabe mais o que é, mas ao mesmo tempo sabe que não sabe. Veja mais aqui.

AS MÔNADASAs mônadas, por não terem partes, não podem ser formadas nem desfeitas. Não podem começar nem acabar naturalmente e, portanto, duram tanto como o universo, que será mudado, mas não destruído. Não podem ter figuras; de outro modo, teriam partes. Por conseguinte, uma mônada em si mesma, e no instante, só pode diferençar-se de outra pelas qualidades e ações internas, as quais são tão-só as suas percepções (isto é, as representações do composto, ou do que é exterior no simples) e as suas apetições (isto é, as suas tendências de se mover de uma percepção para outra) que são os princípios da mudança. Pois a simplicidade da substância não impede a multiplicidade das modificações que se devem encontrar juntas nesta mesma substância simples, e devem consistir na variedade das relações com as coisas que fora dela estão. Tal como num centro ou ponto, embora de todo simples, existe uma infinidade de ângulos formados pelas linhas que nele convergem. Tudo na natureza está cheio. Em toda a parte há substâncias simples, efetivamente separadas umas das outras por ações próprias, que modificam, sem cessar, as suas relações; e cada substância simples ou mônada individual, que constitui o centro de uma substância composta (como, por exemplo, de um animal) e o princípio da sua unicidade, está rodeada de uma massa formada por uma infinidade de outras mônadas, que constituem o corpo próprio dessa mônada central; de acordo com as afecções dele representa ela, como numa espécie de centro, as coisas que lhe são exteriores. E este corpo é orgânico, quando forma um espécime de autômato ou de máquina da natureza, que é máquina não só no todo, mas ainda nas mínimas partes que se fizerem notar. E, como em virtude da plenitude do mundo, tudo está ligado e cada corpo age sobre qualquer outro corpo, mais ou menos conforme a distância, e é por ele afetado por reação, segue-se que cada mônada é um espelho vivo, ou dotado de atividade interna, representando o universo segundo o seu ponto de vista, e é tão ordenado como o próprio universo. As percepções das mônadas nascem umas das outras pelas leis dos apetites ou das causas finais do bem e do mal, que consistem nas percepções observáveis, ordenadas ou desordenadas, tal como as mudanças dos corpos e os fenómenos externos nascem uns dos outros em virtude das leis das causas eficientes, ou seja, dos movimentos. Existe assim uma harmonia perfeita entre as percepções da mônada e os movimentos dos corpos, preestabelecida inicialmente entre o sistema das causas eficientes e o das causas finais. E nisso consiste o acordo e a união física da alma e do corpo, sem que nenhum deles consiga alterar as leis do outro. [...]. Trecho extraído da obra Princípios da natureza e da graça (Caleidoscópio, 2001), do filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 – 1716). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO – [...] vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social. [...] Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. [...] Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam. Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrario. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. [...]. Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. [...] Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional. – Só caso se o senhor tomar juízo. – Mas que chama você juízo? – Ser como os mais. – Então você gosta de mim? – E por isso é que só caso depois. Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido. Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão”. Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo. – Traz algum relógio? – Trago a minha cabeça. – Ah! Desarranjada? - Dizem-no, pelo menos. - Em todo o caso, há tempo? – Desde que nasci. – Talvez imprecisão na montagem das peças. [...] – E o senhor fica com a minha cabeça? – Se a deixar. – Pois aqui a tem. Conserte-a. o diabo é que não posso andar sem cabeça... – Claro. Mas, enquanto arranjo, empresto-lhe uma de papelão. – Regula? – É de papelão! [...] Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antonia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. [...]. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão [...]. Trecho do conto extraído da obra Homem da cabeça de papelão (Hedra, 2012), do jornalista, escritor, tradutor e teatrólogo João do Rio (1881-1921). Veja mais aqui.

AURORA - A poesia não é voz - é uma inflexão. / Dizer, diz tudo a prosa. No verso / nada se acrescenta a nada, somente / um jeito impalpável dá figura / ao sonho de cada um, expectativa / das formas por achar. No verso nasce / à palavra uma verdade que não acha / entre os escombros da prosa o seu caminho. / E aos homens um sentido que não há / nos gestos nem nas coisas: / voo sem pássaro dentro. Poema extraído da obra Voo sem pássaro dentro (Ulisseia, 1954), do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Veja mais aqui e aqui.

GOETHE (1749-1832)
O verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo.
Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora.
Quanto mais um homem se aproxima de suas metas, tanto mais crescem as dificuldades.
Nada é mais repugnante do que a maioria, pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer.
As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam ideias.
Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.
Pensamentos do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Veja mais:

O IV Congresso Nacional de Formação de Professores (CNFP) integrado ao XIV Congresso Estadual Paulista Sobre Formação de Educadores (CEPFE) & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte de Fabrizio Cassetta
Veja mais aqui.
&
Dia internacional do beijo aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A festa dos beijos & muitos beijos, a literatura de Juan Rulfo, Presente do mar de Anne Morrow Lindbergh, a música do Yes, a fotografia de Clarence Hudson White, Luciah Lopez & Marcos Alexandre Martins Palmeira aqui.
&
Ela acolheu meu desterro, Os mímicos de Naipaul, A música de Keith Jarret, Sueli Costa, Eumir Deodato & Rita Lee; a arte de Ewa Ludwiczak & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


sábado, dezembro 26, 2015

SÁBADO PRA VIVER, NEPOMUCENO, TERÊNCIO, AMOEDO, EGITO, ARTEMÍSIA & MUITO MAIS!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? É SÁBADO PRA VIVER - É sábado. E porque hoje é sábado, como diz Vinicius de Morais no Dia da Criação, amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o mar. E se é sábado, seja do hebraico Shabat ou das satúrnias, eu vou com o raio do Sol pra viver. Durante o dia sou todo vigília e a noite foi feita  pra sonhar! E como sou noitedia, vigília e sonhos são uma coisa só. Desculpei a tudo e todos, perdoei até o que não devia – porque o perdão é com a consciência de cada um, não comigo nem com a vítima da desfaçatez -, mesmo sabendo que tem palavras que não se retiram e escritos que não apagam. De manhã vou como um Neandertal solitário rabiscando nas paredes duma caverna insondável, com a contundente teimosia da sinceridade enjaulada no escuro e com todos os símbolos acumulados na memória. E articulo minha linguagem num solilóquio que só eu mesmo posso entender, vez que minhas narrativas jamais servirão por herança porque são palimpsestos que não resistem a qualquer simples sopro inexorável das horas, se evaporando instantaneamente logo depois de pensadas e escritas. Já me perdi das lendas e mitos que fundaram as civilizações, estou tal como um elo perdido sem saber das assembleias retóricas e dialéticas. Não uso de artificio algum para falar e escrever, e me perdi na amplitude heterogênea da imaginação e no intransponível abismo entre o pensado e o percebido no barulho da realidade, que não me deixa sequer pensar, vez que é nada mais que postiça sobre todo o automatismo coletivo que não distingue o verdadeiro ou falso. Vou com meu acervo de erros além da redoma do tempo e do espaço, devassando o véu do futuro nessa manhã entre ensolarada e chuvosa, pra diante de situações terríveis, como na queda de quem caiu em desgraça pelas risadarias desordenadas pelo ridículo, me prostrar diante da perplexidade de proclamações e brados inúteis que não me deixam o sono sossegado no meu isolamento abismal. É que o amor também erra – e feio! O que me faz de um bufão cercado de burlas e farsas por todos os lados. É tudo assustadoramente complexo se sobrepondo sobre aqueles que pensam pobres, estreito ou deficitário sobre si e todas as coisas, com os seus medos de alarmes imprecisos na combinação entre os olhares e gestões, palavras vagas ou retumbantemente temperamentais de preocupações ou arrependimentos. Vou a reboque das genuínas aleivosias e da vulgaridade maciça que não possui modos e que é dolorosa e desnecessária, além de que se saiba ou se suspeite de nada disso no esforço canhestra das suposições volatizadas na poeira de hoje pela tirania de Saturno tão despótica quanto ignorada, ostensivamente estampada nas notícias, nos acenos, nos afetos e nas relações. De manhã vou pra tarde para me embevecer da noite de um novo amanhecer domingo. E quando as lembranças doem e atormentam, é chegada a hora da virtude do esquecimento. Até lá vou no meu voo sobre o sábado que anuncia que não há fim e sim um outro dia de domingo pra viver. E aprume a conversa aqui.

PICADINHO


Imagem: Reclining Female, do artista plástico húngaro Mikos Mihalovits (1888-1940)


Curtindo a Sinfonia em Sol Menor (1893), do compositor, pianista, organista e regente Alberto Nepomuceno (1864-1920), gravada ao vivo no Teatro Municipal de São Paulo pela Orquestra Sinfônica Brasileira com regência do maestro Edoardo de Guarnieri. Veja mais aqui.

EPÍGRAFEHomo sum: humani nihil a me alienum puto, verso do poeta e dramaturgo cômico romano Publius Terentius Afer – Terêncio (185ª.C – 159ª.C), que expressa os sentimentos humanistas em voga no Renascimento e que significa Sou homem: nada de humano me é estranho. Veja mais aqui , aqui e aqui.

O HOMEM PÓS-ORGÂNICO - No livro O homem pós-orgânico (Relume-Dumará, 2002), da ensaísta e pesquisadora argentina Paula Sibilia, encontro que: O corpo humano, em sua antiga configuração biológica, estaria se tornando obsoleto. Intimidados pelas pressões de um meio ambiente amalgamado com o artificio, os corpos contemporâneos não conseguem fugir das tiranias (e das delícias) do upgrade. Um novo imperativo é internalizado, num jogo espiralado que mistura prazeres, saberes e poderes; o desejo de atingir a compatibilidade total com o tecnocosmos digitalizado. Para efetivar tal sonho é necessário recorrer à atualização tecnológica permanente: impõem-se, assim, os rituais auto-upgrade cotidiano. Veja mais aqui.

O CONTO DOS DOIS IRMÃOS – Na literatura do Egito antigo chegou até o presente reunida em textos que contemplam inscrições religiosas, mortuárias, profanas, cenas da vida corrente e diversas outras como em narrações de batalhas, as sagrações, os jubileus dos faraós, os contos e máximas, as histórias morais, as decisões judiciárias, os poemas de amor, entre outros. Entre os poemas de amor, foi recolhido por Visconde de Rougé (Otto Pierre, 1978), numa tradução feita a partir do papiro de Orniney, o célebre O conto dos dois irmãos: Multiplicaram-se os dias e os dois irmãos estavam no campo. O primogênito enviou seu irmão caçula dizendo: vai à cidade e traze-nos grãos. O jovem encontrou a mulher de seu irmão a trançar os cabelos. Disse-lhe: - Levanta-te! Dá-me sementes para que eu possa voltar aos campos, pois meu irmão me espera. Não demores. Ela lhe responde: - Vai, abre o celeiro e toma o que desejas, meus cabelos cairiam no caminho. O jovem foi ao estábulo e apanhou o vaso grande, pois queria levar muitos grãos; encheu-o de cevada e de trigo, saindo depois, com sua carga. A mulher lhe diz: - Tens umas cinco medidas de grãos nos ombros. O jovem concorda e ela continua: - Como és forte! Notei tua coragem. E desejou conhece-lo como homem. levantou-se, provocou-o e disse: - Vem! Depois do prazer dormiremos uma hora. Quero-te: também pus minha roupa mais bonita. O jovem torna-se furioso como uma pantera escutando esse discurso e ela começa a ter medo. Disse0lhe: - Sempre te considerei como minha mãe, e teu marido, como meu pai, pois sendo o irmão mais velho, me educou [...] Quando a noite chegou, o mais velho voltou para casa e o caçula seguiu os bois. Carregado de todas as boas produções dos campos, conduzia os animais diante de si para dormirem no estábulo. Sua cunhada estava inquieta, com o que ele poderia ter dito ao irmão. Tomou a aparência de uma mulher que foi violentada, querendo dizer a seu marido: - Foi o teu irmão mais moço que me fez isto. À noite o marido volta como costumava fazer todos os dias. Chegando, encontra a mulher estendida, como se estivesse morta pela violência. Não veio, como de costume, lavar-lhe as mãos e a casa ficou às escuras.... ela permanecia deitada e despojada de suas vestes. E seu marido lhe diz: - Sou eu quem te fala. – Não me fales mais – lhe diz ela. – Teu irmão, quando veio apanhar os grãos me encontrou só e me disse: “Deitemo-nos uma hora juntos. Ele me falava, mas eu não escutava. Não sou tua mãe, e teu irmão mais velo não é como teu pai? Eu lhe falava assim. Então ele teve medo e me violentou para que não te dissesse nada. Também, se o deixas viver eu me matarei. Pois escuta, quando ele voltar esta noite e eu contar esta perversa história, fará com que ela pareça limpa. [...]. Veja mais aqui.

TRES POEMAS DE CATULO – No livro ABC da Literatura (Cultrix, 1977), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972), encontro três poemas do sofisticado e controverso poeta romano Caio Valério Cátulo ou Catulo, os quais destaco: I – Vivamos, minha Lésbia, e amemos, / e as graves vozes velhas / - todas - / valham para nós menos que um vintém. / Os sóis podem morrer e renascer: / quando se apaga nosso fogo breve / dormimos uma noite infinita. / Dá-me pois mil beijos, e mais cem, / e mil, e cem, e mil, e mil e cem. / Quando somarmos muitas vezes mil / misturaremos tudo até perder a conta: / que a inveja ponha o olho de agouro / no assombro de uma tal soma de beijos. II – Tão caro a mim quanto à moça / de pernas ágeis (dizem) / a maçã de ouro / graças à qual desatou a cintura / longamente ligada. III – Salve, moça de nariz não mínimo, / de pé não lindo, / de olhos não negros, / de dedos não longos, / de boca não breve, / de linguagem não muito distinta, / amiga do debochado Formiano. / A ti, beleza de província, / comparam minha Lésbia? / O século sem graça e sem raça. Veja mais aqui e aqui.
 
TEATRO RENASCENTISTANa obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: O Brasil também conheceu esse drama teatral didático e religioso na época da colonização, através dos autos do jesuíta e poeta espanhol José de Anchieta (1534-1597). Instrumento de catequização o teatro jesuíta apoiava-se nas lendas dos mártires e dos santos, incluindo histórias do Velho Testamento e da mitologia clássica, mostrando em cenas horripilantes as consequências da heresia e da maldade. Veja mais aqui e aqui.

HISTÓRIA DO OLHAR – O drama Histórias do olhar (2002), dirigido pela cineasta Isa Albuquerque, tem como pano de fundo a cidade do Rio de Janeiro, na qual se sucedem encontros entre amigas em uma livraria. Os sentimentos de quatro mulheres, em fases diferentes da vida, em quatro episódios divididos entre os temas da inveja, do rancor, do medo e do amor. O destaque é duplo, pois vão para as atrizes Joana Medeiros e Fernanda Maiorano. Imperdível. Veja mais aqui.

COISAS DO CHICO: A CENA - O cara entra no bar e vê de cara Chico Buarque e começa a esculhambar: - Filho da puta, odeio suas música, você canta ruim e ainda por cima apoia a porra da Dilma. Sabe de uma cara: odeio você! E o Chico, geminianamente respondeu: - Você não gosta de mim, mas sua filha gosta! Ponto final. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do pintor, desenhista, decorador e professor Rodolfo Amoedo (1857-1941). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à artesã alagoana Artemísia Barroso. Veja aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016
Confira os signos e simpatias aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.
 

domingo, julho 06, 2014

INGER-MARI AIKIO, ERMA BOMBECK, JOANNA RUSS, POE & FRIDA KAHLO

 

SOMOS TODOS LOUCOS, MABEL... - Estamos deslocados no meio dessa desprezível normose, atolados na lama da sobrevivência, carregados desconfortavelmente pela desgraça das horas. Que seja doidona a pular num pé só diante pelas adversidades, que seja lunática porque o que resta é sair pela noite e encher as ruas de pernas e à primeira porta aberta, o consolo do copo às tragadas, os drinques e o barato ao canto em busca de emoção bêbada. Ninguém nos dá as horas, relógios egoístas fogem assustados de quem só tem os filhos e nada mais. O que é o trabalho senão o castigo de sobreviver, o que é dentro de casa quando ser feliz é uma coisa muito estranha, apesar das tentativas insistentes, não conseguimos ser felizes e isso torna a nossa vida uma bagunça. Na noite perdida a tropa chega sem aviso pendurados pela irônica ópera. A casa com suas repartições angulares exultam fantasmaas líricos nas vozes trágicas e todos se envolvem La Boheme, como se estivéssemos na mansarda em pleno natal parisiense, a posteridade não valendo a pena salvar obras ao frio. Quem não penhorou os livros e o aluguel atrasado na cobrança, com uma jovem pálida e bela, a chave e a vela apagada às mãos, desmaiando na poltrona. É a poesia e o verdadeiro amor que morre nos braços do poeta e todos se engraçam na cena, aos aplausos. Aída e o desconforto do reprimível desagradável, os desencontros à mesa, os convidados, situações desagradáveis. A gente quer contar a nossa história na rua, ninguém se interessa, não há interlocução. Todo médico é um vampiro e a morte do cisne no quintal. Ao redor da mesa todos olham pra nós. A gente não se encaixa na conversa normal. A piada ofende, ninguém sabe mais brincar. Resta falar sozinha com seus tiques nervosos assustando e o colapso a deteriora ao pânico. É a calmaria e a tempestade, ninguém sabe como, imprevisível e desregrada, e se guarda descompensada com toda frustração, sandices, encurralada até o limite. A mãe não durará para sempre, quem não sabe. Melhor brincar de dançar o Lago dos Cisnes e as fantasias se esvaindo com a família até que a morte os separe no meio da conspiração entre o que seria amor, amizade, conforto... cinco e nada, apenas os dedos e o reencontro é difícil, nunca se sabe o que fazer com as saudades, ninguém apoiará, ninguém saberá o que queremos. Não saberíamos jamais, ao certo, do que seríamos capazes na nossa solidão claustrofóbica. O sorriso disfarça o ódio e a fala é a raiz do desentendimento, o que há de normal na nossa estranheza. O amor não tem explicação: ninguém nem nós mesmos nos entendemos, somos exíguos na nossa distância e nos perdemos com aproximação. E que seja você mesma, somos todos loucos. Veja mais abaixo, aqui e aqui.

 

DITOS & DESDITOS - Morrer em uma Terra agonizante – eu viveria, nem que fosse para chorar. A arte minoritária, a arte vernácula, é arte marginal. Somente nas margens ocorre o crescimento. Pensamento da escritora e ativista estadunidense Joanna Russ (1937-2011). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade. Pensamento do escritor estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1840). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

IMAGINAÇÃO POÉTICA & INSANIDADE – [...] Há uma estrutura da vida psíquica que é tão claramente reconhecível como aquela do corpo físico. A vida sempre consiste na interação de um corpo vivo com um mundo exterior que constitui o seu meio. Sensações, percepções e pensamentos têm origem no jogo constante de estímulos externos. Procedem também mudanças no estado afetivo à base de um sentimento geral. Os sentimentos evocam volições e conflitos de desejo e vontade. Volições resultam em ações externas da vontade, entre elas as mais poderosas são aquelas que são contidas em estados corporais- tais como o impulso da autoconservação, a necessidade de alimento, o impulso da reprodução e o amor à prole. Quase tão poderosos são a necessidade de estima e os instintos sociais, que estão contidos na vontade. Outras volições produzem mudanças internas na consciência. A hierarquia do reino animal está baseada nessa estrutura.  [...]. Trechos da aula Imaginação poética e insanidade (1886), do filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833-1911), autor de obras como A poética (1887), A construção do mundo histórico nas ciências do espírito (1910) e Os tipos de concepções do mundo a sua formação nos sistemas metafísicos (1911). Veja mais aqui.

 

FAMILIA – [...] Dos pouco menos de um milhão de elegíveis que circulam por aí, 5% não conhecem o seu sinal e nem sequer se importam. Outros 5% estão ligados às suas mães por uma fixação alimentar. Isso deixa apenas 20% que estão à procura de uma garota que pegue suas roupas, prepare seus banhos, queime os dedos descascando seus ovos de três minutos, faça suas tarefas, dê à luz um filho todos os anos, pareça uma modelo, cuide as suas necessidades quando estão doentes e mantêm um emprego a tempo inteiro fora de casa para pagar o seu barco. [...]. Trecho extraído da obra Family - The Ties That Bind...And Gag! (Fawcett, 1988), da escritora e humorista estadunidense Erma Bombeck (1927-1996), que também expressa: Quando eu estiver diante de Deus no final da minha vida, espero não ter mais nenhum talento sobrando e poder dizer: Usei tudo o que você me deu. Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - QUEIMANDO - pela manhã eu te desejo \ mas os convidados ainda não chegaram \ você tem que aspirar lavar o chão \ eu me ajoelho o esfregão na mão \ você viria atrás \ Eu preparo a massa para o pão na mesa da cozinha \ você veio aqui também antes de dispersar a farinha \ você e o seu sempre em mente. CENTENAS - e se todos os meus homens estavam se reunindo \ ao meu redor ao mesmo tempo, \ os mortos também, jovem pela manhã, à noite, \ assim como eles são ou seria se eles vivessem \ o que eles diriam ou fariam? \ o que eu faria? \ quem iria me querer? \ quem eu faria? \ e os que eu dormi na minha solidão ou meu tesão? \ aqueles que eu realmente amei? \ as sementes dos sentimentos, \ dos homens nublado cem vezes misturado cem vezes, \ cem que deixaram cair seus chifres. Poema da escritora finlandesa Inger-Mari Aikio.

 


UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA – O filme A Woman Under the Influence (Uma Mulher sob Influência, 1974), escrito e dirigido pelo cineasta e ator estadunidense John Cassavetes (1929-1989), estrelado por Gena Rowlands e Peter Falk, conta a história de um casal composto por uma dona-de-casa de classe média baixa estadunidense, mãe de três filhos e casada com um trabalhador braçal. Ela apresenta-se fragilizada mental e emocionalmente, demonstrando sinais de descontrole, o que a levará a ser internada num hospício pelo marido. Este casal se configura com o comportamento de um lunático pacífico que se torna histérico e violento, e uma mulher depressiva, ansiosa, bipolar e com diversos tiques nervosos. Veja mais aqui e aqui.

 

OUTRAS DIC’ARTES MAIS

 

Imagem: foto de Frida Kahlo (1932), por Guillermo Kahlo (1871-1941).

FRIDA KAHLO – A pintora mexicana Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón (1907-1954), foi vitimada pela poliomielite aos seis anos de idade e sofreu de uma série de doenças, acidentes, lesões e operações ao longo de toda sua vida, sendo, por isso apelidada de Frida perna de pau, o que a fez se vestir de calças compridas e saias longas (a imagem acima A coluna partida, é uma das suas pinturas sobre seus acidentes). Começou a pintar logo cedo e depois de um grave acidente, passou a compor suas obras. Em 1928 filiou-se ao Partido Comunista mexicano, ocasião em que conheceu o grande amor da sua vida: o muralista Diego Rivera. A partir de então, passou a procurar na sua arte a afirmação da identidade nacional mexicana, utilizando-se de temas folclóricos e da arte popular. Sua vida atribulada e cheia de incidentes que envolviam tumultos conjugais, bissexualidade, casos amorosos, tentativas de suicídio. Ao ser encontrada morta, um bilhete continha as seguintes palavras: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar - Frida". Sua tumultuada existência foi transportada para o cinema em 1986, pelas mãos do diretor Paul Leduc com o filme Frida Kahlo, naturaleza viva. Em 2002, o diretor Julie Taymor encenou Frida. Veja mais aqui e aqui.


Curtindo a Sinfonia em sol menor (1893), do compositor e regente brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), pela Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, regida por Benito Juarez.

ALBERTO NEPOMUCENO – O compositor, pianista, organista e regente brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), é considerado o pai do nacionalismo da música erudita brasileira, autor de óperas, obras pianísticas e orquestrais, música de câmara, orquestral e vocal, bem como música sacra, tornando-se parceiro de Machado de Assis, Coelho Neto e Olavo Bilac, entre outros.  Experimentou a politonalidade interessado pela literatura brasileira e valorização da língua nacional. Dele escreveu o poeta Olavo Bilac: “Tens uma fibra de artista e admirável / E tens do nosso povo o voto eterno / Que o título de artista e de notável / Não nasce dos favores do governo”. Veja mais aqui.


LUCIAH LOPEZ - A campanha Todo dia é dia da mulher homenageia no dia de hoje a escritora Luciah López pela passagem do seu aniversário. Por isso, desejamos nossos parabéns para a poetamiga Luciah López. Confira a nossa homenagem aqui.


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