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segunda-feira, outubro 28, 2019

DARCY RIBEIRO, TITANE, JANE BOTALIA NUNES, IZABEL MARQUES & SANTA DYMPHNE, FEARP & PINTANDO NA PRAÇA


O QUE ROLOU? UMA: PINTANDO NA PRAÇA – No último sábado eu saí das minhas atividades livroterápicas & de solidariedade aos chilenos que foram para a rua protestar contra o governo chileno, marcando presença no palco do “Pintando na Praça”. Pintamos na maior! Zé Linaldamigo abriu a festa, como sempre, com o seu carisma & talento de sempre! Arretado, sou fã desse cara! Depois, subi ao palco e lavei a alma cantando a minha Nênia de Abril & outros dedilhamentos trastejados & desafinados, ô, meu, não tomo jeito, mesmo. Pelo menos, para mim, foi um êxtase ver e rever tanta gente, daqui e de fora, coroando de êxito a iniciativa do poetamigo Paulo Profeta. Bão demais descer do palco, presenciar o poetamigo Adriano Sales, quanticamente inspirado, mandar ver na poesia violada; o poetamigo e artesão Zé Ripe encantar a plateia com suas canções de terra e amor; e sair conferindo cada pincelada dos artistas que estavam lá expressando suas ideias pictóricas. Como sempre, o destaque vai para o pintor Isaac Vieira; o imaginauta Ghugha Távora - que fez um cenário improvisadamente lindo e aprontou das suas boas tiradas e traquinadas; a poetamiga Rute Costa com sua leiturada na praça; o poetamigo e pintor paisagista, José Durán y Durán; a conversada com a educadora Sil Neves, poeta Vilmar Carvalho, bibliotecáriamigo João Paulo, a bicicletada engajada de Calheiros e tanta & muita gente nas tendas, passantes e curiosos. E para fechar com chave de ouro o evento, conheci pessoalmente a fotógrafa Natalí Paiva. A festa foi linda, apoteótica. O IbaValeUna & o Funcultura de parabéns! Veja mais aqui. DUAS? SIM, FEARP! BÃO DEMAIS! – Aí, de noite, o paradisíaco momento do Festival de Artes do Engenho Paul, começando pelo aplaudidíssimo monólogo Mulher da Sombrinha, com a atriz Paula Mendes. Depois, recitais de Adriano Sales, Ricardo Cordel e de integrantes do Grucalp. Em seguida, a minha vez de cantar, recitar e contar histórias. Fechando a noite, a banda Os Seres da Mata arrasaram e botaram os presentes para dançar. Outros destaques, a exposição Barrofino, do artista Flávio Rufino e outros integrantes do IbaValeUna, a exposição de artesanatos e o reencontro com o cantor e compositor Ozi dos Palmares. Veja mais aqui. AH, TEM QUE TER A TERCEIRA, ORA SE, LÁ VAI: Ah, essa é boa! Seguinte: o artistamigo dos bons, Rivail Tavares, me fez uma encomenda assim: Ô, Nito, rapaz, quando tu tiver sem fazer nada, cara, faz uma música pra mim, ô? Hehehehehe! Tem amigo safado quem pode. Topo. Estou fazendo umas trilhas melódicas prum ótimo projeto do amigimaginauta Ghugha Távora, Una-se (Veja aqui, aqui e aqui), e vou fazer uma música que penso intitulá-la de Agrestina (veja aqui, aqui & aqui), e dedicá-la ao Riva & o povinho bom de lá. Mas o quero mesmo é integrar o arretado grupo Imaginauta! Será que o eletricartista Ghugha aceitará entre os dos seu grupo um véio alquebrado que, acima de tudo, é baixim, buchudim, tronchim & bunitim que nem que eu na tchurma? Acho que não, melhor eu ocupar minha insignificância de metido a besta e cheio de nó pelas costas. Vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Levo muito a sério esse negócio de santidade! Veja só e acompanhe a minha linha de raciocínio... sim, porque eu a exercito todos os dias, impreterivelmente. Agora mesmo tive um lampejo enquanto teclava e queria escrever a palavra do nosso vernáculo do verbo exercitar em primeira pessoa do singular: exercito ! E o corretor talvez muito acostumado a esses tempos vividos por nós ,teimava em sapecar: exército! Eu exercito, ele exército! E foi com muito custo que agora estou me exercitando no meu mote de hoje, que é falar de Santos! Talvez por ter sido criada com uma avó austera e católica extremada e ter dividido com ela o quarto até os sete anos... quarto esse que era decorado com duas camas e uma cômoda imensa de Sucupira, já centenária na época da minha meninice , abarrotada de Santos... Era o coração de Jesus ao Centro, do outro o de Nossa Senhora na parede e sobre o supracitado móvel os Santos! Razão do meu deleite infantil e uma soberba devoção pra ela! E tome reza pra tudo! Alguém enchia o saco dela? Ela sapecava um: "minha filha , minha vingança é rezar," já contei esse causo por aqui... E triste daquele embuste abusante dela... se atolava, todinho! Assim foi! E muito triste quando ela começou a conhecer os pretendentes que eu arranjava, todos sem exceção pobres com um violão na mão... Oh, muié pra gostar de vagabundo de viola era Eu... Vovó se vingava da minha afronta na reza! E não é que meus namoros acabavam? Até noivado... acabou! Até hoje tô aqui solteira sem namorado e sem serenata aos ouvidos... acho que vovó em algum lugar continua achando que nada do que me chega é suficientemente bom pra neta dela! Agora, meus namoros não chegam a durar quatro luas... ou menos , pra eu finalmente concordar com ela. Mas vejam só minhas três leitoras, enchi tanta linguiça no meu texto, misturei banana com desodorante, exército com exercício, Santos com namoro e terminei sem falar do que eu queria mesmo.... que era saber se alguém sabe o protetor dos doidos? Pois São Roque protege os cachorros, Santa Luzia os nossos olhos, Santa Apolónia os dentes e os dentistas e os doidos? É quem? Beijos estalados nas bochechas de todos vocês! Bom Domingo. Texto Banana com desodorante, da escritora Izabel Marques que, segundo ela mesma, Foi desinformada no Curso de Letras apagadas na Universidade Caótica! É arteterapeuta por formação. Terapeuta Holística Contadora de histórias e estórias. Cantriz aposentada Vagabunda de Deus. Artista arte recicladora, na confecção de bonecos e estatuetas em Machê e Mulungu.

SANTA DYMPHNE – [...] os doentes chegavam aqui e eram conduzidos a um pequeno barracão construído ao lado da igreja conhecido por quarto dos doentes ou “Líber Innocentium”, onde permaneciam por nove dias, sob ‘tratamento’. Terminada a novena, independente do doente estar ‘curado’ ou não, ele voltava para sua família ou permanecia alojado, albergado ou internado junto às famílias e aos próprios moradores da vila [...]. Em muitos casos, os pacientes passaram a viver aqui definitivamente, criando assim, de maneira espontânea, uma alternativa para os então tenebrosos tratamento que eram aplicados aos enfermos-da-mente. Em 1861, 700 doentes vivam ‘integrados’ à comunidade de uns 10 mil habitantes. [...]. Trechos extraídos da obra Dymphne, a santa protetora dos loucos (Clepto, 2000), de Ezio Flavio Bazzo, tratando sobre a Santa Dimpna, Santa Dinfna ou Santa Dymphna do século XIII, sobrevivente da tradição oral muito antiga e em persistentes histórias de curas milagrosas e inexplicáveis de pessoas acometidas por doenças mentais, cujo dia é comemorado pelas Igreja Católica e Igreja Ortodoxa em 15 de maio. Após a morte de sua mãe assassinada por seu próprio pai, ele queria casar-se com ela que fugiu com o sacerdote Gereberno e desembarcou em Antuérpia, atualmente Bélgica. Ficou refugiada na aldeia de Geel. Os mensageiros de seu pai, no entanto, descobriram o seu paradeiro, e ele dirigiu-se para lá e renovou sua oferta, ordenando seus servos para matar o padre, enquanto ele degolava a cabeça de sua filha. Os cadáveres foram colocados em um sarcófago e sepultado em uma caverna onde foram encontrados mais tarde.

A MÚSICA DE TITANE
Tradição e modernidade parecem coisas opostas. Mas, pelo menos dentro de mim, não são. Isto me parece mais uma falsa questão ou, no mínimo, uma contradição superada. Vivo, sinceramente, envolvida por uma simultaneidade de tempos, de culturas, de significados que chega a me sufocar. Chego a duvidar da existência de uma força gravitacional em meio a tantos fragmentos se movimentando em tantas direções. Minha carreira ganha com isto um público que, mesmo querendo se entreter, se divertir, quando me ouve, aciona o seu lado que é inquieto e curioso como eu.
TITANE – Trecho de entrevista concedida ao jornalista Eduardo Tristão Girão (Pensar, Estado de Minas, 27/jun/2009), pela cantora Titane que possui uma discografia extensa: Titane e o Campo das Vertentes (2012), Sá rainha (2000), Verão de 2001 (1999), Titane (1999), Prato feito (1997), Inseto raro ao vivo (1996), Titane (1986) e Arraial (1985). Ela começou sua carreira no grupo Mambembe, em 1979. Em 1981 ela participou do disco Travessia, da Fundação Clóvis Salgado. A partir de então, começou a trabalhar seus álbuns e a realizar shows, além de lançar o livro, em 2015, Titane e o campo das vertentes. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual pop Jane Botalia Nunes. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE DARCY RIBEIRO
Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.
A obra do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997) aqui e aqui.


sexta-feira, janeiro 11, 2019

DARCY RIBEIRO, MARIA POLYDOURI, MISS.TIC & SOLILÓQUIO MATUTINO.


SOLILÓQUIO MATUTINO – Para quem já vai tarde, vou agora: fim ou recomeço, tanto faz, a qualquer parte alguma ou nenhuma. Vou a bordo da solidão, a partida deslizando meu corpo na navalha afiada pela encosta de ilhas submersas. Sentir só meu o Sol que partilhei e deram as costas ou negaram para que eu me desfizesse aos pedaços com uma facada no flanco, punhalada nas costas, uivando cão noturno na manhã ensolarada. Não me sigam, fiquem onde estão, é mais seguro, porque ergo pedras insustentáveis, músculos exaustos e esmagados, a tentar preencher as lacunas do tempo para subsistir onde nada sobra por desespero, arrastado ao lodo e o vazio perpetuo nas vozes dos mortos pelas brechas, mãos estranhas e eu despedaçado lambendo o próprio sangue, quem sabe, amanhã melhor sorte, sabe-se lá, juízes que me julguem como quiserem pros que riem de mim pelo delírio da minha carne em postas nas trevas da estrada deserta. Entre os dentes o que falei de amor e só ouviram o próprio passado, quem jamais amou, quem jamais sucumbiu ao amor, quem há de amar de verdade, estilhaçado coração, vazio olhar. Não me deixa dormir as almas desunidas, não me atreveria sequer velá-las. Passei a vida como quem errou, também era meu destino, assim o quis sem saber massacrado pela queda sem escutar das emboscadas homicidas, porque não confesso a mão ferida por espinhos das rosas que colhi e as perdi de cada vez, sangrando, e outra dor a cada dia, nada demais. Os pesares se dissolvem, nunca fui poeta para exorcizar os tormentos em versos mágicos, apenas revolvo cinzas de maio como se os dedos da mulher amada alisassem minha carne e me fizesse vivo ao toque, a me ensinar da entrega na ausência, ajoelhado silêncio. Guardo os lábios úmidos do amor à mulher nua desejada e fugitiva dúbia, ama e desama, olhos grandes. Depus todos os haveres e posses, nenhum navio sobrou, nenhum piso ou teto, nenhuma espera, até a última jangada, a única que restava, deixei-a ir sozinha correnteza afora, para nunca mais. Náufrago, braçadas na utopia dalguma ilha perdida por aí, deitar a cabeça ao chão, o céu frio por cobertor estrelado e a vida que resta no esquecimento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] A concatenação das revoluções tecnológicas e dos processos civilizatórios com as respectivas formações socioculturais permite falar de um processo civilizatório global, diversificado em etapas sucessivas, que, mesmo cumprindo-se em povos separados uns dos outros no tempo e no espaço, promoveu reordenações da vida humana em áreas cada vez mais amplas e sua integração em entidades étnicas e políticas cada vez maiores, até unificar toda a humanidade num só contexto interativo. Através desse processo, a espécie humana, que era originalmente pouco numerosa e largamente diferencia em etnias, se foi multiplicando demograficamente e reduzindo o número de complexos étnicos, tanto no plano racial, quanto no cultural e linguístico. Este movimento parece conduzir, em termos milenares, à unificação de todo o humano em uma só ou muito poucas variantes raciais, culturais e linguísticas, até que um dia, em futuro remoto, a redução do patrimônio genético torne qualquer casal capaz de reproduzir qualquer fenótipo e cada pessoa capaz de entender-se com as outras, à base de um amplo patrimônio cultural coparticipado. [...] Nada autoriza a supor que tenha limites a flexibilidade até agora revelada pelo homem para ajustar-se às condições mais diversas. É de perguntar-se, porém, se o condicionamento cada vez mais opressivo a ambientes culturais não pode pôr em risco a propria sobrevivência humana. As ameaças que já hoje pesam sobre a humanidade levam a temer que estejamos alcançando esses limites, arriscando ultrapassar a linha fatal, se não forem desenvolvidas formas racionais de controle da vida social, econômica e política que habilitem os povos ao comando científico de todos os fatores capazes de afetar seu equilíbrio emocional e sua sobrevivência sobre a Terra. [...].
Trechos extraídos da obra O processo civilizatório: etapas da evolução sociocultural (Civilização Brasileira, 1975), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE MARIA POLYDOURI
Eu canto só porque já fui amada / por ti em outros dias; / e à chuva e ao sol de um pressago verão, /e à neve e à ventania, / eu canto só porque já fui amada. / Só porque me tomaste nos teus braços / uma noite e me beijaste a boca, / só por isso eu sou bela como um lírio aberto / e um arrepio ficou-me na alma louca, / só porque me tomaste nos teus braços. / Só porque me fitaste certa vez / com a alma no olhar, / a minha vida fez-se altiva e ornei-me / de um diadema singular, / só porque me fitaste certa vez. / Só porque por mim passaste indiferente / e em teus olhos, de passagem, / vi minha sombra, comum sonho, tristemente / passar, sofrida imagem, / só porque por mim passaste indiferente. / Só porque hesitei quando chamaste / e me estendeste a mão / e trazias os olhos amorosos / repletos de paixão - / só porque hesitei quando chamaste. / Só porque, só porque eu te agradava / é que a minha passagem foi tão linda, / como se a toda parte me seguisses / e junto a ti eu estivesse ainda, / só porque, só porque eu te agradava. / Só porque fui amada é que eu nasci / e ao teu amor dei minha vida. / Uma vida incompleta, sem prazer, / mas não perdida, não perdida; / só porque fui amada é que eu nasci. / Só por causa do teu amor de eleito / nas mãos floriu-me uma rosa de arminho / e a noite pôs estrelas nos meus olhos / para um instante aclarar teu caminho, / só por causa do teu amor de eleito. / Só porque fui amada assim por ti / pude um dia viver / nos belos sonhos onde tu reinavas, / e é-me doce morrer / só porque fui amada assim por ti.
Poema Porque fui amada, da poeta grega Maria Polydouri (1902-1930). Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual e de rua francesa Miss.Tic.
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sexta-feira, setembro 07, 2018

THIAGO DE MELLO, JOÃO UBALDO, PAULO FREIRE, DARCY RIBEIRO, SEBASTIÃO SALGADO & BRASIL


QUE BRASIL É ESTE? - Ainda ontem perguntaram: que droga de país é este, mas diziam como se fosse esse, coisa de não ter nada a ver. Pra quem disse assim, o problema era só meu, não era dele, só daquele, e insistia pra mim: é seu! E mais dizia: Você e todos não sabem votar! Tenho dito! Será o Benedito? Isso entrava noite pelo dia, maior o esculacho, metendo bronca a pacutia. Em riba da fivela, insistia o soberbo: se fosse eu resolvia na sola, pena de morte, só degola, coisa certa no corte, sem pantim. Ah, se fosse assim, garantia, seria outra coisa, não sobraria raposa pra farra no galinheiro. A culpa é do brasileiro – e ele que exaltava a si, assim não se achava, ôôôôôô. Esse o Brasil do vitupério e nunca foi levado a sério por quem quer que seja, ou que pragueja por ter dado de bandeja o que era e o que não era de seu, ôôôôôô. Onde tudo escureceu porque afanaram sem escarcéu, todas as estrelas do céu, de ficar só no hora veja, no aperto até gagueja, sem conseguir enganar nem a si mesmo, pintando todo de escorreito, só no deixa disso, ôôôôôô. Esse é o país do reboliço, de burlar o compromisso e qualquer avença aquiliana, feito fizeram com Mariana ou no Alto Xingu, pra todos tomarem... café, ôôôôôô, sem saber que são carniça pronta só pra urubu, ôôôôôô. Tudo é só caroço no angu para maior congestão, vale só corrupção a pisar todos os mortos, aos trancos e barrancos, de só pegar se for ao arranco das noticias fabricadas, ôôôôôô, pras comemorações de nada a requebrar de felicidade urgente efêmera, ôôôôôô, como se durasse o final feliz da telenovela e a juntar bufunfa escusa no pé do cipa, enquanto muitos choraram a desdita com a cabeça pelas tabelas, ôôôôôô. O país que tudo se leva no bico ou nas coxas, aos esparros porque tem a coisa roxa, a dançar qualquer batuque na lata, cantarolando que nem saci na academia e corredores do Arroio ao Chuí, porque é sempre carnaval e daí ou coisa correlata, seja por bem ou por mal, ôôôôôô, isso aqui ôôôôôôô é isso aqui. Mas que Brasil é este do incêndio de museu e o que toma o que é meu ou seu como se dele fosse, quando a má notícia trouxe de que tudo se perdeu com a plataforma P36 da Petrobras, a sair abanando o rabinho atrás, enquanto a gente espreme entre as pernas, coisa que agora vira eterna para nunca mais, ôôôôôô. O que é que a gente faz se podres poderes levam a geringonça, com tantas mãos tão sonsas de quase nem adivinhar o sangue da canela à rótula, se tudo é na força da espórtula, seja guerra, seja paz, ôôôôôô. E tanto faz se caeté exterminado ou qualquer tupi-guarani despejado terrafora, com pretos e gringos excluídos, a perder os possuídos em cada passo alvissareiro que o país desce a ribanceira, falta freio na ladeira, viva o povo brasileiro, ôôôôôô. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música de Chico Buarque, Maria Rita, Gal Costa, Leila Pinheiro, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, A Cor do Som, Caju & Castanha, Capital Inicial, Auri Viola & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio. [...] Há uma pluralidade nas relações do homem com o mundo, na medida em que responde à ampla variedade dos seus desafios. Em que não se esgota num tipo padronizado de resposta. A sua pluralidade não é só em face dos diferentes desafios que partem do seu contexto, mas em face de um mesmo desafio. No jogo constante de suas respostas, altera-se no próprio ato de responder. Organiza-se. Escolhe a melhor resposta. Testa-se. Age. Faz tudo isso com a certeza de quem usa uma ferramenta, com a consciência de quem está diante de algo que o desafia. Nas relações que o homem estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. E há também uma nota presente de criticidade. [...] Mas, infelizmente, o que se sente, dia a dia, com mais força aqui, menos ali, em qualquer dos mundos em que o mundo se divide, é o homem simples esmagado, diminuído e acomodado, convertido em espectador, dirigido pelo poder dos mitos que forças sociais poderosas criam para ele. Mitos que, voltando-se contra ele, o destroem e aniquilam. É o homem tragicamente assustado, temendo a convivência autêntica e até duvidando de sua possibilidade. Ao mesmo tempo, porém, inclinando-se a um gregarismo que implica, ao lado do medo da solidão, que se alonga como “medo da liberdade”, na justaposição de indivíduos a quem falta um vínculo crítico e amoroso, que a transformaria numa unidade cooperadora, que seria a convivência autêntica. [...] encarávamos e encaramos a educação como um esforço de libertação do homem e não como um instrumento a mais de sua dominação. [...] que a palavra seja compreendida pelo homem na sua justa significação: como uma força de transformação do mundo. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que o homem, embora analfabeto, descobrindo a relatividade da ignorância e da sabedoria, retira um dos fundamentos para a sua manipulação pelas falsas elites. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que, implicando em todo este esforço de reflexão do homem sobre si e sobre o mundo em que e com que está, o faz descobrir “que o mundo é seu também, que o seu trabalho não é a pena que paga por ser homem, mas um modo de amar — e ajudar o mundo a ser melhor”. [...]. Trecho extraído Educação como prática da liberdade (Paz e Terra, 1967), do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui.

O POVO BRASILEIRO - [...] A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente. A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação. [...] Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos rústicos de ser dos brasileiros, que permitem distinguilos, hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalobrasileiros, teutobrasileiros, nipobrasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população. [...] O povonação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável. Nessas condições, exacerbase o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnicocultural e da unidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em consequência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois lusobrasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente. A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de 160 milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber. O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, "democracia racial", raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpôlo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povomassa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis. Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão. [...]. Trechos da obra O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (Companhia das Letras, 1995), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais aqui.

VIVA O POVO BRASILEIRO – [...] Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres, portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração [...] Levantaram as imagens nos altares [...] Depois da doutrina das mulheres, que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens, sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes. [...] Na doutrina da tarde, às vezes se ensinava a aprisionar em desenhos intermináveis a língua até então falada na aldeia, como consequência de que, pouco mais tarde, os padres mostravam como usar apropriadamente essa língua, corrigindo erros e impropriedades. [...] Mas estaria aqui mesmo, esse orixá? Que vinha fazer tão longe de seus terreiros e de seu povo [...] Zé Popó resolveu que estava pensando bobagens, dando corda demais ao pensamento. [...] Dia bonito, felizmente, dia claro, até podia dizer cheiroso. Mas os matos, que há nos matos? Se é Oxóssi nos matos, que faz ele nesses matos? [...] Zé Popó pulou para atender a um chamado do oficial e, a caminho, viu um grupo de soldados saindo às carreiras da floresta. [...] chiou e explodiu uma espécie de rojão, soou o toque de chamada ligeira, soldados formigaram de todos os cantos desfazendo os sarilhos como se fossem de palitos [...] os oficiais começaram a gritar [...]. Veio a República e ela pregou que tanto fazia como tanto fez, que nem rei nem presidente estava pensando no povo e podiam esperar até vida pior. Como de fato foi o que se viu depois, a seca piorando, as terras sendo tomadas dos pobres, a escravidão pior do que antes, o coronel mandando mais que o imperador de Roma, o povo de cabeça baixa, os despossuídos cada vez mais despossuídos e os possuídos cada vez mais despossuídos, por isso se dizendo que a República trouxe a lei do Cão. [...] – Estamos aqui em missão oficial, com o objetivo de reprimir uma rebelião contra os integrantes da República. A República, uma conquista do povo brasileiro, [...]. Os senhores não devem fidelidade à Coroa de Bragança, como desobedientemente, sediciosamente professam, violando a lei e afrontando a autoridade [...]. – Não devemos nada a ninguém, todos nos devem! – disse uma voz de mulher vinda do canto escuro do salão. [...] – Deixe estar - disse. – É dona Maria da Fé. – O povo brasileiro não deve nada a ninguém, tenente. [...] Que nos dá a República? Dá-nos mais pobreza. Que nos manda a República? Manda seu exército nos matar. A história de vocês sempre foi de guerra contra o próprio povo de sua nação [...]. Aqui neste sertão, morrerão muitos desses heróis, mas o povo não morrerá, porque é impossível que o povo morra [...]. Vocês são traidores do seu povo e assim deveriam morrer. E vão morrer. [...], porque ainda não será esta expedição que esmagará o povo de Canudos. [...] Viva o povo brasileiro! Viva a nós! [...]. Trechos extraídos da obra Viva o povo brasileiro (Nova Fronteira, 1984), do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Veja mais aqui.

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA – Peço licença para algumas coisas. / Primeiramente para desfraldar / este canto de amor publicamente. / Sucede que só sei dizer amor / quando reparto o ramo azul de estrelas / que em meu peito floresce de menino. / Peço licença para soletrar, / no alfabeto do sol pernambucano, / a palavra ti-jo-lo, por exemplo, / e poder ver que dentro dela vivem / paredes, aconchegos e janelas, / e descobrir que todos os fonemas / são mágicos sinais que vão se abrindo / constelação de girassóis gerando / em círculos de amor que de repente / estalam como flor no chão da casa. / Às vezes nem há casa: é só o chão. / Mas sobre o chão quem reina agora é um homem / diferente, que acaba de nascer: / porque unindo pedaços de palavras / aos poucos vai unindo argila e orvalho, / tristeza e pão, cambão e beija-flor, / e acaba por unir a própria vida / no seu peito partida e repartida / quando afinal descobre num clarão / que o mundo é seu também, que o seu trabalho / não é a pena que paga por ser homem, / mas um modo de amar — e de ajudar / o mundo a ser melhor. Peço licença / para avisar que, ao gosto de Jesus, / este homem renascido é um homem novo: / ele atravessa os campos espalhando / a boa-nova, e chama os companheiros / a pelejar no limpo, fronte a fronte, / contra o bicho de quatrocentos anos, / mas cujo fel espesso não resiste / a quarenta horas de total ternura. / Peço licença para terminar / soletrando a canção de rebeldia / que existe nos fonemas da alegria: / canção de amor geral que eu vi crescer / nos olhos do homem que aprendeu a ler. Poema extraído da obra Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar (Civilização Brasileira, 1965), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui.

O BRASIL DE SEBASTIÃO SALGADO
Fotos da série Serra Pelada, do fotógrafo Sebastião Salgado. Veja mais aqui e aqui.

AGENDA
O Brasil & muito mais na Agenda aqui.
&
Quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
&
Fecamepa de 7 de setembro aqui.
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Brasil a sério, não ria!, Murilo Mendes, Darcy Ribeiro, Zhu Hongyu, A verdade de Hans-Georg Gadamer, Princípio da responsabilidade de Hans Jonas, Mentir de David Livingstone Smith, Gustav Holst, Alisa Weilerstein, Nelson Ayres & Mona Gadelha aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


quinta-feira, setembro 07, 2017

MURILO MENDES, HANS JONAS, DARCY RIBEIRO, GADAMER, LIVINGSTONE SMITH, ZHU HONGYU & MUITO MAIS!!!

BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA! - Quando nasci já era carnaval no Brasil e salve salve vida nossa patriamada. Era mais de sessenta ao redor da televisão, os olhos pregados nas cenas da tela noite adentro de se perder hora e tempo na fumaça da escuridão. Só quando eu dei por mim já falavam de um país que ia pra frente, cantando o progresso e todos fora dele, não sabia como, mas era. Não sabia o porquê das botas e armas no corredor da minha casa, aos cochichos que o vizinho sumira de uma hora pra outra pra nunca mais e nunca mais era já e eu não sabia nas aulas de Moral e Cívica, nos desfiles do dia 7, e nunca mais era a cidade o Moscouzinho e nem soubera porque era um pega pra capar comunista salvando as criancinhas pra festa da padroeira dia 8. Assim era, ah, já era entressafra de maio pra comemorar a emancipação política no mês seguinte, com outras marchas juvenis pra quem agradava a si e ao suposto país entre golpes e marmeladas, pacotes e carestias e racismo e mamatas e compras de votos nos currais eleitorais a mando da botada da usina que anunciava a pejada só pro ano que vem e era nunca mais porque já era dos anos sessenta pros setenta e pros oitenta, vinte e cinco anos de tristeza com bandeira a meio pau da venta, sem festa nem alforria, enquanto politicólogos se enrolavam na TFP que organizava o desfile com seus fogos de artifício na marcha da pátria e da família, e tinha gente passando fome no canavial e gente presa torturada em nome da segurança nacional que nos dava maior insegurança e o Brasil pedia bis nos festivais de música e não havia amanhã pro futuro, nunca mais era só um milagre de mentirinha imitando estrangeiros e todo mundo levou a sério, como se sério fosse qualquer piada sem graça a esconder a verdade pra jamais ter coragem para justiçar os mortos, nem pra reforma agrária, nem pra verdade de nada, nem cidadania, nem dignidade nem nada porque a felicidade era urgente e pra nunca nunca mais e o que passou passou não voltaria mais pros vivos mais mortos que enterrados cadáveres na injustiça de sempre pra nunca mais e só restava cantar uma Nênia de Abril. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: The Planets Suite, St. Paul’s Suit & Symphony in F Major The Cotswolds, do compositor, arranjador e professor inglês Gustav Holst; a interpretação da violoncelista estadunidense Alisa Weilerstein para o Concerto in D Major 1 de Haydn, Variations on a Rococo Theme op. 33 de Tchaikovsly & Hindemith Cellokonzert HR Sinfonieorchester; os álbuns Perto do coração, Mantiqueira, Só Xote e Música Popular Brasileira Contemporânea do produtor musical, arranjador, instrumentista, regente e compositor Nelson Ayres; e os álbuns Cidade Blues Rock nas Ruas & Salve a beleza da cantora, compositora e jornalista Mona Gadelha. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE - [...] O homem é o único ser vivente que pode assumir responsabilidade diante do que faz, e com esse ‘pode’ já é de fato responsável [...] Por repensar o conceito de responsabilidade e sua extensão, nunca antes concebido, sobre o comportamento de nossa espécie inteira em relação à natureza, a filosofia dará o primeiro passo em direção a assumir essa responsabilidade. É meu desejo para a filosofia que persevere nesse empenho, sem medo de qualquer eventual dúvida referente ao seu sucesso. O século que está chegando tem direito a essa perseverança [...]. Trechos extraídos da obra O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica (Contraponto, 2005), do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993). Veja mais aqui.

BRASIL AOS TRANCOS E BARRANCOS - [...] Ao predomínio das multinacionais sobre a economia brasileira, a seu domínio sobre os órgãos formadores de opinião pública, a seu controle das redes de comunicação de massa, correspondem uma descaracterização progressiva de nossa cultura e uma alienação também crescente de nossa consciência nacional. Atitudes de desprezo para com o nosso país e de descaso para o nosso povo, que são inerentes à condição dos agentes das empresas que nos exploram, se difundem aos executivos brasileiros, por ela cooptados, e, destes, a camadas mais amplas, generalizando-se assim uma consciência espúria, fundada em valores estranhos e hostis a nós, que converte muitos dos brasileiros mais influentes em agentes ativos da recolonização do Brasil. São os que detestam os pobres, os pretos, os mulatos, os nordestinos, os gaúchos, culpando-os de sua penúria. Uma nova civilização começa a surgir debaixo dos nossos narizes. Ainda sem cara visível, ela já põe em causa todos os modos humanos a ser e de pensar, mesmo os aparentemente mais estáveis: o machismo e a feminilidade, a religião e a política, a juventude e a velhice, a beleza e a feiúra. Que seremos amanhã, nós, pessoas, poços, raças, na forma que temos hoje? Só sabemos ao certo que vamos ser outros; tão diferentes de nós, ou ainda mais do que nós somos de nossos ancestrais mais arcaicos. [...]. Trecho extraído da obra Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu (Guanabara, 1985), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais aqui e aqui.

A VERDADE, SOMENTE A VERDADE? – [...] O fenômeno da compreensão e da maneira correta de se interpretar o que se entendeu não é apenas, e em especial, um problema da doutrina dos métodos aplicados nas ciências do espírito. Sempre houve também, desde os tempos mais antigos, uma hermenêutica teológica e outra jurídica, cujo caráter não era tão acentuadamente científico e teórico, mas, muito mais, assinalado pelo comportamento prático correspondente e a serviço do juiz ou do clérigo instruído. Por isso, desde sua origem histórica, o problema da hermenêutica sempre esteve forçando os limites que lhe são impostos pelo conceito metodológico da moderna ciência. Entender e interpretar os textos não é somente um empenho da ciência, já que pertence claramente ao todo da experiência do homem no mundo. Na sua origem, o fenômeno hermenêutico não é, de forma alguma, um problema de método. O que importa a ele, em primeiro lugar, não é estruturação de um conhecimento seguro, que satisfaça aos ideais metodológicos da ciência - embora, sem dúvida, se trate também aqui do conhecimento e da verdade. Ao se compreender a tradição não se compreende apenas textos, mas também se adquirem juízos e se reconhecem verdades. Mas que conhecimento é esse? Que verdade é essa? [...]. Trecho extraído da obra Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica (Vozes, 1998), do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002), discutindo a metodologia das ciências do espírito e da natureza na busca da verdade, à luz da ciência hermenêutica. 

POR QUE MENTIMOS? - No princípio havia a mentira [...] Mentimos para conseguir coisas que seriam mais difíceis de obter de outra forma [...] mentimos em qualquer circunstância na qual manipular o comportamento do outro pode ser vantajoso para nós [...]. Trechos extraídos do livro Por que mentimos: os fundamentos biológicos e psicológicos da mentira (Campus, 2006), do filósofo, psicólogo, professor PhD e historiador David Livingstone Smith, contando com as histórias de Adão e Eva, Rei Lear, Chapeuzinho Vermelho, histórias recheadas de invenções, são interessantes exatamente por satisfazerem a necessidade humana de mentir para observar que a mentira na raiz da herança cultural e a necessidade de enganar - inclusive a si mesmo - vai de um extremo a outro da cultura. Veja mais aqui e aqui.

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A MULHER DO DESERTO
A mulher de areia
Penteia os cabelos de folhas de palmeira,
Estende as mãos de cardo
Pedindo águas
Depois descansa as mãos de cardo
Na humildade da pedra.
A mulher do deserto
Pensa nos seus amores infelizes
Pensa nos seus amores
Que se evaporam quando o Sol nasceu,
Depois não pode mais pensar
Porque o tempo é pouco para pedir água.
Poema extraído da obra Melhores poemas (Global, 2000), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte de fotógrafo Zhu Hongyu.
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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