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sexta-feira, março 29, 2019

THIAGO DE MELLO, MARCELO GLEISER, PRISCILA ROXXO, AGLAÉ GIL, LUCIANA MALLON & DIAS QUE NÃO SEI!


DIAS QUE NÃO SEI – São mais de ontens nesse tempo de hoje, muitos anteontens seculares e nenhum amanhã possível. Não há como visualizar um túnel sequer para buscar a luz nesse breu vigente. Não me valho dos estandartes ameaçadores, mas há de convir, a cena é imprópria. O que se vê são bocas canhoneiras degoladas com suas ventas dilatadas, expondo sangue na saliva, armados de ódio e facas até os dentes nas cabeças de granadas, e delas ouvem-se os estrondos por dedos fuzilantes para inúteis como eu ou qualquer um. Pelo que se vê, os daqui vivem apenas dos boatos que chegam aos pelotões contaminando as ouças e a terra, nenhum gemido de arrependimento, enquanto os noturnos e solitários remorsos corroem o tino nas bandeiras hostis que drapejam: os algozes pensam que ficarão para sempre, e impunes, incólumes, e se gabam apenas das vozes ébrias de cívicos comensais, fieis aos cargos e cetros, donos da razão e fogo nas faces para gritos de terror no país que é só do azul ou cor de rosa, onde ou se é a favor ou do contra. Coisas que vão de lá para cá e vice-versa, porque o meu país é grande, tão gigantesco quanto inútil para quem dele vive – serve apenas a poucos, muito pouco, entretanto -, tão sujeito aos salteadores, tão vulnerável aos imprestáveis carregados de pólvora, nenhum valhacouto aqui. Há quem esteja feliz com tudo isso, não duvido. Em todo canto estão fechados os olhos das janelas, portas apagadas, muros insensíveis, como se emurchercesse a humanidade: mais bicho selvagem que gente com seus desmatados sorrisos de festas urgentes e efêmeras, olhares quais queimadas devastadoras com a arma escondida por trás da bandeira branca. Parece mais que todos viraram coveiros nas valetas dos instantes e fingem piedade na horagá, presos pelos testículos. Por isso, só importa o louro da vitória quando, na verdade, todos estão derrotados no meio de uma verdadeira festa de matanças invisíveis. Ainda se ouve: Caros senhores! E relincham em festas de gala, a se esbaterem famulentos na vulgaridade, como um punhado de lombrigas a se lambuzarem no repasto, cheirando vidas e sortes e nisso quantos esmagados pela cortesia dos falsos com as pálpebras fechadas da razão. Cada qual sua caverna e seu umbigo, senão. Sei e não se salva quase alma alguma entre os que se consolam com o embuste e o engodo para gozo dos fanfarrões: ouvem apenas o que dizem os alto-falantes dos carros de som barulhentos, assistem hipnotizados aos anúncios imperdíveis da tevê e acreditam piamente nos noticiários, sequer dão conta de quanto insulto nos capítulos novelescos desse inferno e tudo bem, apesar do dia ensolarado tudo é muito turvo e quase desespero pelas ofensas, venenos, estupidez tumultuada - catingas de inexistentes Américas mundializadas sobre cadáveres dançantes e desmiolados por pancadas e bumbos: tudo fede a luxo e lixo, quanta muleta para verter a última gota de sangue. Ninguém sabe. Estou pronto para ser enterrado vivo, acorrentado à minha cidade, pisoteado e insepulto. Morrerei de fome ou de passado, cabeça pendurada no esquecimento, ao lado dos que respiram ou não, tanto faz, não há vergonha para quem morre. O amor verdadeiro não cabe no céu, onde vigora o bom comportamento e a mentira. Não há suborno para a alma, dinheiro é ouro de tolo. Esses os dias que não sei, horas que são lâminas e retalham a carne, ainda é possível chorar pelo país, por enquanto; e o mundo, quem sabe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Várias ideias foram propostas nas duas últimas décadas, algumas delas extremamente inspiradas e belas. Entretanto, elas devem aguardar sua confirmação através de experimentos antes de serem aceitas pela comunidade científica. [...] Um dos aspectos agridoces da pesquisa científica é que a Natureza não revela seus segredos muito facilmente. [...] Algo mais é necessário, e várias ideias têm sido propostas para lidar com esses problemas de nossas teorias atuais. As ideias mais promissoras tentam combinar relatividade e mecânica quântica de uma forma ou outra. [...] Bem, perto da singularidade cosmológica, a própria geometria do Universo deve ser tratada através da mecânica quântica; com isso, os conceitos de tempo e espaço também se tornam nebulosos. [...].
Trechos extraídos da obra A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang (Companhia das Letras, 1997), do físico, astrônomo e escritor brasileiro Marcelo Gleiser. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da grafiteira, artista visual, militante feminista e ativista Priscila Roxxo. 
Veja mais aqui & aqui.

A POESIA DE AGLAÉ GIL
SUA CHUVA: Tenho sede / de água de chuva / de lágrima sua / com todo o sal / que puder haver. / Me dê  para beber / a água santa / da terra nua / e eu, / profana, / mato a sede / com o que choveu / de você, / em mim.
Poema da poeta e fotógrafa Aglaé Gil que é autora do livro Memórias de uma fruta madura (2015), é formada em Letras/Português e atua como revisora de textos. Veja mais aqui.
&
A ARTE DE LUCIANA ROCIO MALLON
A FLOR FUNCIONÁRIA TRABALHARÁ MAIS TEMPO PARA SE APOSENTAR: Era uma fez uma flor chamada Gazânia / Que é esforçada, guerreira e nada ordinária / Como ela sempre trabalhou oito horas por dia / Com sua alma batalhadora e espontânea / Esta flor recebeu o apelido de funcionária / Porém esta fama pode ser momentânea / Seu marido é o delicado e forte cravo / Que um dia já foi um sofrido escravo / Hoje os dois moram num jardim particular / Cada um tem uma nobre parte no doce lar / O problema é que com a reforma da aposentadoria / Agora a flor funcionária terá que trabalhar durante anos / Por isto ela ficará aberta mais de oito horas por dia / Para realizar todos os seus sonhos e planos / Agora talvez ela receba o apelido de escrava / Não por ser mulher de um escravo cravo / Ela trabalha no jardim e também em casa / Deixando seu marido todo confuso e parvo.
Poema da escritora Luciana do Rocio Mallon, que é autora do livro Lendas Curitibanas (2019), formada em Letras e atua como focalizadora do curso de Danças das Divas de Cinema e Novelas, realçando a ligação entre Dança e Poesia. Veja mais aqui.
&
A obra do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, setembro 07, 2018

THIAGO DE MELLO, JOÃO UBALDO, PAULO FREIRE, DARCY RIBEIRO, SEBASTIÃO SALGADO & BRASIL


QUE BRASIL É ESTE? - Ainda ontem perguntaram: que droga de país é este, mas diziam como se fosse esse, coisa de não ter nada a ver. Pra quem disse assim, o problema era só meu, não era dele, só daquele, e insistia pra mim: é seu! E mais dizia: Você e todos não sabem votar! Tenho dito! Será o Benedito? Isso entrava noite pelo dia, maior o esculacho, metendo bronca a pacutia. Em riba da fivela, insistia o soberbo: se fosse eu resolvia na sola, pena de morte, só degola, coisa certa no corte, sem pantim. Ah, se fosse assim, garantia, seria outra coisa, não sobraria raposa pra farra no galinheiro. A culpa é do brasileiro – e ele que exaltava a si, assim não se achava, ôôôôôô. Esse o Brasil do vitupério e nunca foi levado a sério por quem quer que seja, ou que pragueja por ter dado de bandeja o que era e o que não era de seu, ôôôôôô. Onde tudo escureceu porque afanaram sem escarcéu, todas as estrelas do céu, de ficar só no hora veja, no aperto até gagueja, sem conseguir enganar nem a si mesmo, pintando todo de escorreito, só no deixa disso, ôôôôôô. Esse é o país do reboliço, de burlar o compromisso e qualquer avença aquiliana, feito fizeram com Mariana ou no Alto Xingu, pra todos tomarem... café, ôôôôôô, sem saber que são carniça pronta só pra urubu, ôôôôôô. Tudo é só caroço no angu para maior congestão, vale só corrupção a pisar todos os mortos, aos trancos e barrancos, de só pegar se for ao arranco das noticias fabricadas, ôôôôôô, pras comemorações de nada a requebrar de felicidade urgente efêmera, ôôôôôô, como se durasse o final feliz da telenovela e a juntar bufunfa escusa no pé do cipa, enquanto muitos choraram a desdita com a cabeça pelas tabelas, ôôôôôô. O país que tudo se leva no bico ou nas coxas, aos esparros porque tem a coisa roxa, a dançar qualquer batuque na lata, cantarolando que nem saci na academia e corredores do Arroio ao Chuí, porque é sempre carnaval e daí ou coisa correlata, seja por bem ou por mal, ôôôôôô, isso aqui ôôôôôôô é isso aqui. Mas que Brasil é este do incêndio de museu e o que toma o que é meu ou seu como se dele fosse, quando a má notícia trouxe de que tudo se perdeu com a plataforma P36 da Petrobras, a sair abanando o rabinho atrás, enquanto a gente espreme entre as pernas, coisa que agora vira eterna para nunca mais, ôôôôôô. O que é que a gente faz se podres poderes levam a geringonça, com tantas mãos tão sonsas de quase nem adivinhar o sangue da canela à rótula, se tudo é na força da espórtula, seja guerra, seja paz, ôôôôôô. E tanto faz se caeté exterminado ou qualquer tupi-guarani despejado terrafora, com pretos e gringos excluídos, a perder os possuídos em cada passo alvissareiro que o país desce a ribanceira, falta freio na ladeira, viva o povo brasileiro, ôôôôôô. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música de Chico Buarque, Maria Rita, Gal Costa, Leila Pinheiro, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, A Cor do Som, Caju & Castanha, Capital Inicial, Auri Viola & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio. [...] Há uma pluralidade nas relações do homem com o mundo, na medida em que responde à ampla variedade dos seus desafios. Em que não se esgota num tipo padronizado de resposta. A sua pluralidade não é só em face dos diferentes desafios que partem do seu contexto, mas em face de um mesmo desafio. No jogo constante de suas respostas, altera-se no próprio ato de responder. Organiza-se. Escolhe a melhor resposta. Testa-se. Age. Faz tudo isso com a certeza de quem usa uma ferramenta, com a consciência de quem está diante de algo que o desafia. Nas relações que o homem estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. E há também uma nota presente de criticidade. [...] Mas, infelizmente, o que se sente, dia a dia, com mais força aqui, menos ali, em qualquer dos mundos em que o mundo se divide, é o homem simples esmagado, diminuído e acomodado, convertido em espectador, dirigido pelo poder dos mitos que forças sociais poderosas criam para ele. Mitos que, voltando-se contra ele, o destroem e aniquilam. É o homem tragicamente assustado, temendo a convivência autêntica e até duvidando de sua possibilidade. Ao mesmo tempo, porém, inclinando-se a um gregarismo que implica, ao lado do medo da solidão, que se alonga como “medo da liberdade”, na justaposição de indivíduos a quem falta um vínculo crítico e amoroso, que a transformaria numa unidade cooperadora, que seria a convivência autêntica. [...] encarávamos e encaramos a educação como um esforço de libertação do homem e não como um instrumento a mais de sua dominação. [...] que a palavra seja compreendida pelo homem na sua justa significação: como uma força de transformação do mundo. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que o homem, embora analfabeto, descobrindo a relatividade da ignorância e da sabedoria, retira um dos fundamentos para a sua manipulação pelas falsas elites. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que, implicando em todo este esforço de reflexão do homem sobre si e sobre o mundo em que e com que está, o faz descobrir “que o mundo é seu também, que o seu trabalho não é a pena que paga por ser homem, mas um modo de amar — e ajudar o mundo a ser melhor”. [...]. Trecho extraído Educação como prática da liberdade (Paz e Terra, 1967), do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui.

O POVO BRASILEIRO - [...] A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente. A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação. [...] Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos rústicos de ser dos brasileiros, que permitem distingui‐los, hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo‐brasileiros, teuto‐brasileiros, nipo‐brasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população. [...] O povo‐nação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável. Nessas condições, exacerba‐se o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnico‐cultural e da unidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em consequência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso‐brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente. A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de 160 milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber. O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, "democracia racial", raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô‐lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo‐massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis. Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão. [...]. Trechos da obra O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (Companhia das Letras, 1995), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais aqui.

VIVA O POVO BRASILEIRO – [...] Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres, portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração [...] Levantaram as imagens nos altares [...] Depois da doutrina das mulheres, que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens, sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes. [...] Na doutrina da tarde, às vezes se ensinava a aprisionar em desenhos intermináveis a língua até então falada na aldeia, como consequência de que, pouco mais tarde, os padres mostravam como usar apropriadamente essa língua, corrigindo erros e impropriedades. [...] Mas estaria aqui mesmo, esse orixá? Que vinha fazer tão longe de seus terreiros e de seu povo [...] Zé Popó resolveu que estava pensando bobagens, dando corda demais ao pensamento. [...] Dia bonito, felizmente, dia claro, até podia dizer cheiroso. Mas os matos, que há nos matos? Se é Oxóssi nos matos, que faz ele nesses matos? [...] Zé Popó pulou para atender a um chamado do oficial e, a caminho, viu um grupo de soldados saindo às carreiras da floresta. [...] chiou e explodiu uma espécie de rojão, soou o toque de chamada ligeira, soldados formigaram de todos os cantos desfazendo os sarilhos como se fossem de palitos [...] os oficiais começaram a gritar [...]. Veio a República e ela pregou que tanto fazia como tanto fez, que nem rei nem presidente estava pensando no povo e podiam esperar até vida pior. Como de fato foi o que se viu depois, a seca piorando, as terras sendo tomadas dos pobres, a escravidão pior do que antes, o coronel mandando mais que o imperador de Roma, o povo de cabeça baixa, os despossuídos cada vez mais despossuídos e os possuídos cada vez mais despossuídos, por isso se dizendo que a República trouxe a lei do Cão. [...] – Estamos aqui em missão oficial, com o objetivo de reprimir uma rebelião contra os integrantes da República. A República, uma conquista do povo brasileiro, [...]. Os senhores não devem fidelidade à Coroa de Bragança, como desobedientemente, sediciosamente professam, violando a lei e afrontando a autoridade [...]. – Não devemos nada a ninguém, todos nos devem! – disse uma voz de mulher vinda do canto escuro do salão. [...] – Deixe estar - disse. – É dona Maria da Fé. – O povo brasileiro não deve nada a ninguém, tenente. [...] Que nos dá a República? Dá-nos mais pobreza. Que nos manda a República? Manda seu exército nos matar. A história de vocês sempre foi de guerra contra o próprio povo de sua nação [...]. Aqui neste sertão, morrerão muitos desses heróis, mas o povo não morrerá, porque é impossível que o povo morra [...]. Vocês são traidores do seu povo e assim deveriam morrer. E vão morrer. [...], porque ainda não será esta expedição que esmagará o povo de Canudos. [...] Viva o povo brasileiro! Viva a nós! [...]. Trechos extraídos da obra Viva o povo brasileiro (Nova Fronteira, 1984), do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Veja mais aqui.

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA – Peço licença para algumas coisas. / Primeiramente para desfraldar / este canto de amor publicamente. / Sucede que só sei dizer amor / quando reparto o ramo azul de estrelas / que em meu peito floresce de menino. / Peço licença para soletrar, / no alfabeto do sol pernambucano, / a palavra ti-jo-lo, por exemplo, / e poder ver que dentro dela vivem / paredes, aconchegos e janelas, / e descobrir que todos os fonemas / são mágicos sinais que vão se abrindo / constelação de girassóis gerando / em círculos de amor que de repente / estalam como flor no chão da casa. / Às vezes nem há casa: é só o chão. / Mas sobre o chão quem reina agora é um homem / diferente, que acaba de nascer: / porque unindo pedaços de palavras / aos poucos vai unindo argila e orvalho, / tristeza e pão, cambão e beija-flor, / e acaba por unir a própria vida / no seu peito partida e repartida / quando afinal descobre num clarão / que o mundo é seu também, que o seu trabalho / não é a pena que paga por ser homem, / mas um modo de amar — e de ajudar / o mundo a ser melhor. Peço licença / para avisar que, ao gosto de Jesus, / este homem renascido é um homem novo: / ele atravessa os campos espalhando / a boa-nova, e chama os companheiros / a pelejar no limpo, fronte a fronte, / contra o bicho de quatrocentos anos, / mas cujo fel espesso não resiste / a quarenta horas de total ternura. / Peço licença para terminar / soletrando a canção de rebeldia / que existe nos fonemas da alegria: / canção de amor geral que eu vi crescer / nos olhos do homem que aprendeu a ler. Poema extraído da obra Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar (Civilização Brasileira, 1965), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui.

O BRASIL DE SEBASTIÃO SALGADO
Fotos da série Serra Pelada, do fotógrafo Sebastião Salgado. Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, dezembro 19, 2014

POEMAS DE THIAGO DE MELLO




É PRECISO FAZER ALGUMA COISA

Escrevo esta canção porque é preciso.
Se não a escrevo, falho com um pacto
que tenho abertamente com a vida.
E é preciso fazer alguma coisa
para ajudar o homem.
Mas agora.
Cada vez mais sozinho e mais feroz,
a ternura extraviada de si mesma,
o homem está perdido em seu caminho.
É preciso fazer alguma coisa
para ajudá-lo. Ainda é tempo.
É tempo.
Apesar do próprio homem, ainda é tempo.
Apesar dessa crosta que cultivas
com amianto e medo, ainda é tempo.
Apesar da reserva delicada
das toneladas cegas mas perfeitas
de TNT pousada sobre o centro
de cada coração — ainda é tempo.

No Brasil, lá na Angola, na Alemanha,
na ladeira mais triste da Bolívia,
nesta poeira que embaça a tua sombra,
na janela fechada, no mar alto,
no Próximo Oriente e no Distante,
na nova madrugada lusitana
e na avenida mais iluminada
de New Yoirk. No Cuzco desolado
e nas centrais atômicas atônitas,
em teu quarto e nas naves espaciais
— é preciso ajudá-lo.
Nas esquinas
onde se perde o amor publicamente,
nas cantigas guardadas no porão,
nas palavras escritas com acrílico,
quando fazes o amor para ti mesmo.
Na floresta amazônica, nas margens
do Sena e nos dois lados deste muro
que atravessa a esperança da cidade
onde encontrei o amor
— o homem está
ficando seco como um sapo seco
e a sua casa já se transformou
em apenas local de seu refúgio.

Lá na Alameda de Bernardo O′Higgins
e no sangue chileno que escorria
dos corpos dos obreiros fuzilados,
levados para a fossa em caminhões
pela ferocidade que aos domingos
sabe se ajoelhar e cantar salmos.
Lá na terra marcada como um boi
pela brasa voraz do latifúndio.

Dentro do riso torto que disfarça
a amargura da tua indiferença,
na mágica eletrônica dourada,
no milagre que acende os altos-fornos,
no desamor das mãos, das tuas mãos,
no engano diário, pão de cada noite,
o homem agora está, o homem autômato,
servo soturno do seu próprio mundo,
como um menino cego, só e ferido,
dentro da multidão.
Ainda é tempo.
Sei por que canto: se raspas o fundo
do poço antigo da tua esperança,
acharás restos de água que apodrece.
É preciso fazer alguma coisa,
livrá-lo dessa situação voraz
da engrenagem organizada e fria
que nos devora a todos a ternura,
a alegria de dar e receber,
o gosto de ser gente e de viver.

É preciso ajudar.
Porém primeiro,
para poder fazer o necessário,
é preciso ajudar-me, agora mesmo,
a ser capaz de amor, de ser um homem.
Eu que também me sei ferido e só,
mas aconchego este animal sonoro
que reina poderoso em meu peito.

OS ESTATUTOS DO HOMEM
(Ato Institucional Permanente - a Carlos Heitor Cony)


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.



FAZ ESCURO MAS EU CANTO

Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.

CANTO DE COMPANHEIRO EM TEMPO DE CUIDADOS

Contigo, companheiro que chegaste,
desconhecido irmão de minha vida,
reparto esta esmeralda que retive
em meu peito no instante fugitivo
mas infinito em que se acaba a infância,
porque a esmeralda não se acaba nunca.

Reparto, companheiro, porque chegas
a este caminho longo e luminoso
mas que também se faz áspero e duro,
onde as nossas origens se abraçaram
dissolvendo-se em paz as diferenças,
engendradas na vida pela força
feroz com que desune o mundo os homens
que feitos foram para cantar juntos
porque só juntos saberão chegar
para a festa de amor que se prepara.
Porque tudo é chegar, meu companheiro
desconhecido, meu irmão que plantas
o grão no escuro e nasce a claridão.

É chegar e seguir, os dois cantando,
os dois e a multidão num só caminho,
em direção ao sol que nos ensina
a ser mais cristalinos, parecidos
ao menino que fomos e que somos
de novo dentro do homem, desde que o homem
seja capaz de repartir seu canto
e um pedaço de sol bem luminoso
a esse desconhecido ser que chega
sem nada: traz apenas a esperança
de ver o amor de perto. E sem ter canto
no peito machucado, de repente
de coração contigo vai cantando,
e vai na vida, a vida desgraçada,
achando uma fé nova enquanto um gosto
de também repartir-lhe sobe na alma:
está no seu caminho e então reencontra
o menino que foi, quando a esmeralda
perdida no seu peito resplandece
de amor geral que se reparte e cresce.

Não sei se canto claro, companheiro.
Em tua vida vive o o povo inteiro:
antes jamais te vi, mas te sabia
perto de mim, quando aprendi na dor
da queimadura do noturno mundo,
que se alçava voraz contra a alegria
e entranhas devorava e em fome e febre
enrolava a vergonha das mulheres
e pela mão levava sob a lua,
de enferma claridade, as ambulantes
manchas de riso em cujo fundo a infância
era uma rosa sórdida já murcha.

O tempo é de cuidados, companheiro.
É tempo sobretudo de vigília.
O inimigo está solto e se disfarça,
mas como usa botinas fica fácil
distinguir-lhe o tacão grosso e lustroso
que pisa as forças claras da verdade
e esmaga os verdes que dão vida ao chão.
O tempo é de mentira. Não convém
deixar livre o menino da esmeralda.
Melhor é protegê-lo da violência
que amarra a liberdade em pleno vôo.
A sombra já desceu, e muitas fauces
famintas se escancaram farejando.
Cuidado, companheiro, esconde a rosa,
espanta a mariposa colorida,
é perigosa esta canção de amor.

Cada um no seu lugar, na sua vez,
não descuidar na espreita do inimigo,
que não dorme jamais e é cheio de olhos.
E derramar a luz, no instante certo,
sobre a garra soturna do seu rosto.
É uma espera que dói, mas o que vale
é ter o coração por cidadela,
acender uma tocha em cada metro
de terra conquistado e trabalhar
melhor, para que o chão floresça mais
e o trigo erga bem alto o seu pendão
para a festa de amor, larga e geral,
onde a fome afinal não vai dançar,
porque não comerão somente eleitos,
porque são todos os que comerão.
É por isso que estamos todos juntos:
a nossa força tem o sortilégio
da seiva torrencial da primavera,
e o nosso amor palpita como os ímpetos
das águas amazônicas profundas.

É cantar, companheiro, e repartir
o que é preciso ser do amor geral.
Ninguém será sozinho nunca mais,
nem na solidão, nem no poder.

Sempre contigo irei, e é quando canto
que te defendo, e deito em tua lâmpada
um azeite que dura a treva inteira
nesses tempos de cinza em que a vigília,
espada em flama erguida como a rosa,
só poderá cessar quando outra vez,
envergonhada, regressar a aurora,
que vai lavar de luz o chão amado,
e seremos de novo e simplesmente
meninos repartindo as esmeraldas.



NARCISO CEGO

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.

FAZ MORMAÇO NA FLORESTA

Não quero
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.

De dá diva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce

Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.

A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.

Firme a forquilha das ancas
a coluna se recurva:
faz mormaço na floresta.

Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.

Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.

Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço

Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria

É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.

Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos

nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.

Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.

Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.

Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.

Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.

ARTE DE AMAR

Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.


CANÇÃO DO AMOR ARMADO

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando — sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma — de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.
Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
que vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo — um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.


PARA OS QUE VIRÃO

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.


THIAGO DE MELO – O premiadíssimo e traduzido poeta Amadeu Thiago de Mello é natural do estado do Amazonas, foi preso durante a ditadura quando se exilou no Chile, encontrando-se com o poeta Pablo Neruda. É autor de vários livros e sua poesia permanece como canto de amor à vida e ao ser humano.

REFERÊNCIA
MELLO, Thiago. Poesia comprometida com a minha e a tua vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
______. Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
______. Vento geral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.


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