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quarta-feira, março 01, 2017

MAGDALENA, PABLO MILANÉS, RUTH KLIGMAN, JOSÉ CONDÉ, JOAQUÍN SABINA & CRÔNICA DA MULHER

Veja a Fanpage  aqui, os vídeos aqui e os poemas & canções aqui.

CRÔNICA DE AMOR PARA ELA – Foi ela, coração de mãe, quem me deu a vida quando eu não sabia nada, quem me deu sorriso quando eu tomava pé do mundo e das coisas, olhos grandes para tudo. Dela aprendi a lição do amor quando tudo era novo e eu dependente do seu jeito, agarrado ao cós da saia sem saber de onde vinha nem para onde ia. E me fiz menino atado ao seu estímulo, crescendo como dádiva dos que precisam. E virei garoto atento e fascínio aos 40 graus de curiosidade e perseguição. A nudez dela, alma de mulher, me levou pelas frestas das portas, olhos miúdos às fechaduras, escondido pelas brechas, entre combongós, pelas cumeeiras e basculantes, escondido por cima do muro no quintal da vizinha, até saber-me pronto para o deleite. Era ela sempre a minha festa com seus cabelos sedosos aos ventos, seus olhos de manha cheios de ternura, suas feições dóceis de pele macia, seus lábios salientes dos beijos mais expostos. Ela, meu porto seguro, sempre o meu refúgio nas horas perdidas por seus ombros aconchegantes, seus seios angelicais de todas as frutas do pomar, seu ventre de Sol alumiando meu destino e sina. Foi dela que recolhi todas as estrelas brilhantes que me encantavam os sonhos e a esperança, quando eu cantava Fonte como se não tivesse mais saída. Foi dela que aprendi a acolhida na cilada das horas, quando eu andava perdido saindo pra outra depois de um chega pra lá. Pra mim ela se fez meu tudo e eu grato dei meu coração e toda minha vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

UNA CANCIÓN PARA LA MAGDALENA
Si, a media noche, por la carretera que te conté,
detrás de una gasolinera donde llené,
te hacen un guiño unas bombillas azules, rojas y amarillas,
pórtate bien y frena.
Y, si la Magdalena pide un trago,
tú la invitas a cien que yo los pago.
Acércate a su puerta y llama si te mueres de sed
si ya no juegas a las damas ni con tu mujer.
Sólo te pido que me escribas, contándome si sigue viva
la virgen del pecado, la novia de la flor de la saliva,
el sexo con amor de los casados.
Dueña de un corazón, tan cinco estrellas,
que, hasta el hijo de un Dios, una vez que la vio, se fue con ella.
Y nunca le cobro la Magdalena.
Si estás más solo que la luna, déjate convencer,
brindando a mi salud, con uma que yo me sé.
Y, cuando suban las bebidas, el doble de lo que te pida
dale por sus favores, que, en casa de María de Magdala,
las malas compañías son las mejores.
Si llevas grasa en la guantera u un alma que perder,
aparca, junto a sus caderas de leche y miel.
Entre dos curvas redentoras la más prohibida de las frutas
te espera hasta la aurora, la más señora de todas las putas,
la más puta de todas las señoras.
Con ese corazón, tan cinco estrellas,
que, hasta el hijo de un Dios, una vez que la vio, se fue con ella.
Y nunca le cobro la Magdalena.
Música de Pablo Milanés & Joaquin Sabina, extraída do álbum 19 dias y 500 noches (BMG/Ariola, 1999), do cantautor espanhol Joaquín Sabina. Veja mais aqui.

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DESTAQUE: A VELHA SENHORA MAGDALA
[...] Estavam todos na sala de visitas, para onde foram levados os castiçais. Magdala sentia-se envolvida por um agradável torpor, em conseqüência do copo de vinho que havia bebido. Escutava, de uma das mulheres, a narrativa das aventuras da troupe ambulante. Há mais de três meses – contava a loura – que se encontravam fora do Rio, visitando cidades do interior de Minas Gerais e São Paulo. Regressavam agora ao ponto de partida. Era uma vida de sacrifícios. Fora um fracasso a temporada e voltavam mais pobres do que quando partiram. Acrescentou sua decisão firma de abandonar aquela existência errante e boêmia; já não era criança, precisava pensar no dia de amanhã. Foi interrompida pelas primeiras notas do acordeão. Uma polca. O homem cantava: Tive um amor na vida, / Um velho amor lá no sul. / E quando a tarde vem, Leontina... Todos entraram alegremente em coro. Magdala havia cerrado os olhos. O vento frio da noite atravessava as janelas abertas. E quando a tarde vem, Leontina... Magdala abre os olhos: bem à sua frente, sobre o consolo de jacarandá, parece contemplá-la a imagem do avô Felipe. Não o conhecera, é verdade. Mas pela descrição que dele costumava fazer o pai, facilmente lhe reconstituía os traços na memória. Via-o, assim, como nos velhos tempos, enchendo a fazenda de escravos, multiplicando as terras, arrancando riquezas do solo. Em poucos anos transformara os poucos alqueires de sua sesmaria, naquele mundo de serras, de vales e planícies  que as plantações de café e de cana-de-açúcar dominavam em dezenas e dezenas de léguas. A vasta casa-grande, quadrada, simples, fora erguida por ele. Também a capela. A música silenciara. – Que deseja ouvir agora? – indagou o homem do acordeão. Magdala pensou um pouco e pediu o Doce Amélia. Era uma cantiga triste e Magdala dançara muitas vezes. Também costumava cantá-la ao piano, acompanhada pela irmã Tereza. Oh! Doce Amélia / quem pode ver-te... Vieram-lhe lágrimas aos olhos. Sentia-se ainda tonta, e não sabia se era do vinho ou de emoção. Mentalmente, acompanhava a melodia, recordando os versos: a doce Amélia fora obrigada a casar-se com um velho conde, porque assim lhe ordenara o pai. Mas o grande amor de sua vida era o mancebo que todas as tardes passava à frente do sobrado e suspirava por lhe tocar nos longos cabelos negros. Um dia, por intermédio da mucama de confiança, conseguem ajustar a fuga para daí a três noites. O pai descobre o plano e manda assassinar o jovem. Amélia suicida-se, apertando entre os dedos o lenço de renda que o amado lhe remetera pouco antes de atingi-lo o punhal assassino. Oh! Doce Amélia / quem pode ver-te... As lágrimas escorrem pelas faces de Magdala. Não sabe se chora pela infeliz Amélia, ou por ela mesma – pelas suas lembranças. Soluça. Todo o seu corpo estremece como uma folha sacudida pelo vento. [...].
A velha senhora Magdala (1958), trecho de conto do escritor e jornalista José Condé (1917-1971). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora estadunidense Ruth Kligman (1930-2010), artista e musa de vários importantes artistas como Jackson Pollock e Willen de Kooning, entre outros.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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terça-feira, fevereiro 24, 2015

RITA JOE, ELIF SHAFAK, KAKÁ WERÁ & CATHERINE DENEUVE

 


NELA, O TRÂMITE: O QUE É DA VIDA SENÃO AMOR... - Não tenho asas e nem sei onde estou. Ela Boadicea me sorria para que não me sentisse recusado Manet no Le Havre et Guadaloupe, nem levado pelos mares tenebrosos de Conrad. Seu abraço de Ninfa surpresa juntou meus pedaços e vivi em suas feições marcantes o apaziguamento da minha perdição: era o afeto mais real que vinha de sua contumaz transparência, como quem caísse do telhado nua de céu. Jogava-me suas cartas como Aura de Fuentes e dos seus olhos escuros quão tardia indômita Melodia de Backer. Era Morisot elegantemente refinada entre violetas, com sua boca de véspera e eu mais que assíduo no seu jeito entreaberto. Insinuava-se tal gata de Nise no fio de Bastet: um olhar faminto na boca sedenta. Deu-me o sistro com a mão direta e, com a outra, a efígie com cabeça de leoa coroada pelo disco solar e serpente uraues: era a filha de Rá desvelando os segredos piramidais. E me fez Anúbis amante na assimetria das horas em plena madrugada, com sua nudez iluminada e o surpreendente nascia do quase impossível. Tudo nela onírica Dama do Lago de Cocaigne, no reino de Anaitis. E nela adormecia e sonhava tantas noites de outras vezes: a salvação era ela inopinada cheia de luz, fogos de artifícios nas minhas veias, trovões no meu coração. Desse no meio da solidão seria outro dia e mesmo que não tivesse para onde ir era nela: o amor valia a vida. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Pare de correr atrás das ondas. Deixe o mar vir até você... Todo amor e amizade verdadeiros são uma história de transformação inesperada. Se somos a mesma pessoa antes e depois de amar, isso significa que não amamos o suficiente... Pensamento da escritora turca Elif Shafak, que no seu livro The Forty Rules of Love: The magical tale of love and self-discovery from the bestselling author of The Island of Missing Trees (Penguin, 2009), expressa que: […] Aconteça o que acontecer em sua vida, não importa o quão preocupantes as coisas possam parecer, não entre na vizinhança do desespero. Mesmo quando todas as portas permanecerem fechadas, Deus abrirá um novo caminho somente para você. Seja grato! [...] Se somos a mesma pessoa antes e depois de amar, isso significa que não amamos o suficiente. [...] Não vá com o fluxo. Seja o fluxo [...] Como o amor pode ser digno de seu nome se alguém seleciona somente as coisas bonitas e deixa de fora as dificuldades? É fácil aproveitar o bom e não gostar do ruim. Qualquer um pode fazer isso. O verdadeiro desafio é amar o bom e o ruim juntos, não porque você precisa aceitar o áspero com o suave, mas porque você precisa ir além dessas descrições e aceitar o amor em sua totalidade. [...] Paciência não significa suportar passivamente. Significa ser clarividente o suficiente para confiar no resultado final de um processo. O que paciência significa? Significa olhar para o espinho e ver a rosa, olhar para a noite e ver o amanhecer. Impaciência significa ser tão míope a ponto de não conseguir ver o resultado. Os amantes de Deus nunca perdem a paciência, pois sabem que é preciso tempo para que a lua crescente fique cheia. [...] Como vemos Deus é um reflexo direto de como nos vemos. Se Deus traz à mente principalmente medo e culpa, significa que há muito medo e culpa acumulados dentro de nós. Se vemos Deus como cheio de amor e compaixão, nós também somos. [...].

 

ALGUÉM FALOU: É preciso ter liberdade e confiança absolutas para se expressar verdadeiramente. Eu me esforço para ser autêntica e fiel a mim mesmo, em vez de me conformar com as expectativas da sociedade. Eu encontro consolo e alegria na solidão. Ela me permite conectar com meu eu interior. Eu sei quem eu sou, como eu era. Eu não quero saber como eu serei porque ninguém sabe disso... É melhor não se preparar, porque o que você preparar sempre estará errado... Fortaleça sua mente em qualquer lugar e a qualquer hora. Acredito no poder do silêncio. Às vezes, as palavras podem diluir a essência de um momento. Gentileza e empatia são as verdadeiras medidas de caráter. Pensamento da atriz francesa Catherine Deneuve. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PERDI MINHA FALA - Perdi minha fala \ A fala que você levou embora. \ Quando eu era uma garotinha \ Na escola Shubenacadie. \ Você a arrebatou: \ Eu falo como você \ Eu penso como você \ Eu crio como você \ A balada embaralhada, sobre meu mundo. \ Duas maneiras de falar \ Ambos os caminhos eu digo, \ Seu jeito é mais poderoso. \ Então gentilmente ofereço minha mão e peço, \ Deixe-me encontrar minha fala \ Para que eu possa lhe ensinar sobre mim. Poema da escritora indígena canadense Rita Joe (1932-2007), membro da tribo Mi’kmaq, tendo aos 10 anos tornado-se órfã e aos 12 anos, entrado para uma escola indígena, onde as críticas destrutivas quanto à sua cultura de origem constantemente a incentivaram a começar a escrever como forma de resistência. O poema escrito em 1989, I Lost My Talk, foi destacado em uma entrevista que ela concedeu mencionando: Meu maior desejo é que haja mais escrita do meu povo, e que os nossos filhos a leiam. Eu já disse repetidas vezes que a nossa história seria diferente se tivesse sido expressa por nós mesmos...

 

A TERRA DOS MIL POVOS – [...] A palavra tem espírito [...] E nesse contar eu sou o espírito de cada folha, cada planta, cada brisa pronunciada. Eu sou cada pedra no caminho e cada vento, cada dia de sol e cada dia noite de lua e cada brisa; e cada brilho de cada estrela. Nesse contar eu sou o fluxo límpido da cachoeira e do rio, e de toda água que preenche o grande mar [...]. Trechos extraídos da obra A terra dos mil povos: história do Brasil contada por um índio (Peirópolis, 1998), do escritor, ambientalista e conferencista indígena tapuia, Kaká Werá Jecupé (Carlos Alberto dos Santos), que no livro Oré awé roiru’a ma - Todas as vezes que dissemos adeus (TRIOM, 2002), Kaká expressa:[...] É entre o sul e o norte que Mãe Terra expira as almas. Por estes quatro cantos flui a grande vida. Por estes quatro cantos os nomes descem à Terra. Por estes Quatro cantos as palavras encarnam, tornando-se gente. Apontava-me o Leste, o Norte, o Sul, o Oeste. - Por esta respiração sagrada o ‘espírito-nomeado’ contempla seu último desdobrar, indobrando-se na terra virando semente, depois é que a pequena mãe terrena concebe o corpo do nome na barriga. Quando Pai e Mãe abraçam o abraço de criar. Quando dois viram um. No abraço do ‘fogo-amor’, recomeça a magia do desdobrar da semente: vira música, vira dança, vira voo e passa a caminhar pelo chão da vida terrena. [...]. Já no livro Tupã Tenondé: a criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani (Peirópolis, 2001), Kaká traz esse belíssimo momento poético: Os fundamentos do ser foram concebidos \ Na origem da futura linguagem humana,\ Tecida da sabedoria contida em sua própria divindade\ E em virtude de sua sabedoria criadora\ Concebeu como primeiro fundamento o Amor.\ Antes de existir a terra,\ Em meio à Noite Primeira\ E antes de ter-se conhecimento das coisas,\ O amor era [...] O ser humano é percebido como “alma-palavra” – é o que se expressa mediante a linguagem e por meio do pensamento. Ser e som têm o mesmo sentido. Para essa percepção é necessário ampliar o nosso conceito de som para além da vibração sonora, percebê-lo como corpo-vida, princípio dinâmico da luz cuja forma denominamos “consciência” [...] uma tonalidade da Grande Música Divina colocada em pé, encarnada, dentro de um assento chamado corpo-carne, para entoar a criação no mundo terreno, para ser na Terra o que sua essência sagrada é no céu – escultor, tecelão, cantor e transformador da vida [...].  O grande movimento da vida é qualificado como Amor incondicional e Sabedoria. É com base na qualidade do amor e na sabedoria que o universo torna-se supraconsciente, consciente e subconsciente de si mesmo. Equilibra os mundos, sustenta as dimensões, gera o Cosmos. O Grande Espírito torna-se Música Celeste, ritmo e movimento. Desdobra-se em Espíritos Co-Criadores, chamados também de Seres-Trovões. Sonha e manifesta a morada terrena. Os Seres-Trovões estabelecem moradas espirituais nas quatro direções e agora recebem a responsabilidade de gerarem palavras-almas, tonalidades de suas essências, para encarnarem na Terra [...].

 

O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA – No livro Psicologia Social crítica como prática de libertação (EdiPucRS, 2009), o filósofo, sociólogo, professor e doutor em Psicologia Social, Pedrinho Guareschi, aborda no segundo capítulo a questão acerca do Mistério da consciência, expressando que: Somos seres limitados, em processo, não apenas imortais, mas eternos, em busca do infinito. O mistério é sempre invisível, intocável, inefável [...] Chega-se a ele através da contemplação, da meditação profunda, onde nossos olhos se fecham, nossos ouvidos se cerram, nossas mãos descansam, onde não necessitamos pronunciar palavras. Quem experimentou, sabe. [...] a consciência é a resposta que conseguimos dar às perguntas: quem sou eu: que são as coisas que me rodeiam? A consciência seria o quanto de resposta conseguimos dar a essas perguntas. Quando mais resposta, mais consciência. A consciência é, portanto, um processo infinito, de busca e de construção de respostas. Vamos crescendo em consciência na medida em que conseguimos respostas. [...] É a consciência que leva à liberdade. Isto é, que só é livre quem tem consciência. Através do processo de descoberta, investigação, reflexão meditação, contemplação, vamos identificando a r5azão de nós sermos o que somos e de por que as coisas que nos rodeiam são do modo que são. Esse seria o caminha para a liberdade, processo também infinito. [...] só é livre quem tem consciência; a consciência é um pressuposto indispensável para que alguém possa ser considerado livre. E a responsabilidade? [...] passa pelo caminho da consciência e da liberdade. Poderíamos então afirmar: a consciência conduz à liberdade; e a consciência e a liberdade conduzem à responsabilidade. O especifico do conceito de responsabilidade é que ele implica uma ação de resposta, um incentivo à ação: responsabilidade vem de resposta [...]. Veja mais aqui e aqui.

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui Logo mais, a partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá, com muita festa e a apresentação da querida Meimei Corrêa, com as seguintes atrações na programação: Egberto Gismonti, Duofel, Nando Lauria, Gal Costa & Caetano Veloso, Djavan, Geraldo Azevedo, Chico Buarque, Chico César, Sônia Mello, Roberto Toledo, Mazinho, Julia Crystal & Monica Brandão, Elisete Retter & Edward Brown, Irina Costa & Mácleim, Ricardo Machado, Ely Camargo & Reisado de Alagoas, Frederico Amitrano, Zé Linaldo & Ramanir, Zé Ripe & Paulo Profeta, Tirso Florence de Biasi & Banda Tres, Sóstenes Lima, Jan Cláudio & Eduardo Proffa, Ju Mota, Rusty Young, David Sylvian, Pedro Abrunhosa, Wilson Simonal, Daniel & muito mais! Veja mais aqui.

SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá
Quando? Hoje, terça, 24 de fevereiro, a partir das 21hs
Onde? No MCLAM - blog do Programa Domingo Romântico
Apresentação: Meimei Corrêa

Imagem do pintor norueguês Johan Christian Dahl (1788-1857)

Ouvindo Pablo Milanés ao vivo no Brasil (Philips, 1984) do cantor cubano Pablo Milanés. Veja mais aqui.

SE EU FOSSE PINTOR... – No livro Ilusões do mundo (Nova Aguilar, 1976), a escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964) traz a crônica Se eu fosse pintor, na qual ela se expressa assim: Se eu fosse pintor começaria a delinear este primeiro plano de trepadeiras entrelaçadas, com pequenos jasmins e grandes campânulas roxas, por onde flutua uma borboleta cor de marfim, com um pouco de ouro nas pontas das asas. Mas logo depois, entre o primeiro plano e a casa fechada, há pombos de cintilante alvura, e pássaros azuis tão rápidos e certeiros que seria impossível deixar de fixa-los, para dar alegria aos olhos dos que jamais os viram ou verão. Mas o quintal da casa abandonada ostenta uma delicada mangueira, ainda com moles folhas cor de bronze sobre a cerrada fronde sombria, uma delicada mangueira repleta de pequenos frutos, de um verde tenro, que se destacam do verde-escuro como se estivessem ali apenas para tornar a árvore um ornamento vivo, entre outros brancos, os pios vermelhos, o jogo das escadas e dos telhados em redor. E que faria eu, pintor, dos inúmeros pardais que pousam nesses muros e nesse telhados, e aí conversam, namoram-se, amam-se, e dizem adeus, cada um com seu destino, entre floresta e os jardins, o vento e a névoa? Mas por detrás estão as velhas casas, pequenas e tortas, pintadas de cores vivas, como desenhos infantis, com seus varais carregados de toalhas de mesa, saias floridas, panos vermelhos e amarelos, combinados harmoniosamente pela lavadeira que ali os colocou. Se eu fosse pintor, como poderia perder esse arranjo, tão simples e natural, e ao mesmo tempo de tão admirável efeito? Mas depois disso, aparecerem várias fachadas, que se vão sobrepondo umas às outras, dispostas entre palmeiras e arbustos vários, pela encosta do morro. Aparecem mesmo dois ou três castelos, azuis e brancos, e um deles tem até, na ponta da torre, um galo de metal verde. Eu, pintor, como deixaria de pintar tão graciosos motivos? Sinto, porém, que tudo isso por onde vão meus olhos, ao subirem do vale à montanha, possui uma riqueza invisível, que a distância abafa e desfaz: por detrás dessas paredes, desses muros, dentro dessas casas pobres e desses castelinhos de brinquedo, há criaturas que falam, discutem, entendem-se e não se entendem, amam, odeiam, desejam, acordam todos os dias com mil perguntas e não sei se chegam à noite com alguma resposta. Se eu fosse pintor, gostaria de pintar esse último plano, esse último recesso da paisagem. Mas houve jamais algum pintor que pudesse fixar esse móvel oceano, inquieto, incerto, constantemente variável que é o pensamento humano? Veja mais aqui, aquiaqui.


O PERU DA FESTA COM AS HISTÓRIAS QUE AS NOSSAS BABÁS NÃO CONTAVAM - Entre os humoristas brasileiros que mais apreciei, um deles foi o memorável humorista e ator Lírio Mário da Costa (1923-1995), mais conhecido como Costinha. Tive a oportunidade de adquirir quatro dos sete elepês que ele lançou com o título O Peru da Festa, como tive acesso as duas edições das Proibidas do Costinha, ler os livros As melhores do Costinha e O Humor de Costinha, bem como de assistir uma penca de filmes com participação dele na década de 1970, principalmente o Histórias que as nossas babás não contavam e o impagável Costinha, o Rei das Selvas, entre outros. Uma coisa posso dizer: morria de rir só com a cara dele. Uma maravilha! Daí a minha homenagem. Veja mais aqui.

CONQUISTA DO VOTO FEMININO NO BRASIL – O voto feminino no Brasil passou a ser garantido a partir da edição do Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Entretanto, o primeiro direito foi garantido cinco anos antes, quando a professora potiguar Celina Guimarães Viana adquiriu na Comarca de Mossoró (RN), o direito do registro para votar, tornando-a primeira mulher eleitora do país. O movimento tomou corpo por iniciativa da bióloga e ativista Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976) que acompanhou os movimentos feministas na Europa e nos Estados Unidos, participando no Brasil da criação da Liga para Emancipação Intelectual da Mulher e representar a Liga das Mulheres Eleitoras, criando a Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino, instituindo o movimento sufragista que conseguiu o grande êxito em 1932. Veja mais aqui


JE VOUS SALUE MARIE – Um dos inesquecíveis filmes que assisti foi indubitavelmente o polêmico filme Je vous salue, Marie (1985), do não menos polêmico e provocador cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard que tem um elenco de peso, notadamente a participação das atrizes Juliette Binoche e Myriem Roussel nas duas estórias paralelas narradas na película, a primeira que conta a história de uma estudante Maria que trabalha num posto de gasolina do pai, e de um jovem taxista José que descobre que sua namorada está grávida e ele a acusa de traição exigindo a separação, recendo aconselhamento e convencimento do anjo Gabriel a aceitar os planos divinos dela. Na segunda, envolve um professor de história que se envolve com uma das suas alunas. Ambas histórias mostram a difícil convivência entre o espírito e o corpo. Veja mais aqui, aquiaqui

Veja mais sobre:
A vida é uma canção de amor & Milo Manara aqui.

E mais:
Marquês de Sade, Karen Horney, Chico Buarque, Maria Clara Machado, Günter Grass, Larry Vincent Garrison, Angela Winkler, Luiz Edmundo Alves, Monica & Monique Justino aqui.
A saga do Padre Bidião aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a língua dá no dente do alcaguete, sai de riba que lá vem o enterro voltando aqui.
Pode até ser, mas se não for, nunca será, Lina Cavalieri, Chris Maher & Eloir Amaro Júnior aqui.
A desmedida correria para perder o bom da vida, Heitor Villa Lobos, Francis Bacon & Fúlvio Pennnacchi aqui.
O maravilhoso mistério da vida, Ana Torroja, Rebecca West, Alan Bridges, Marie-Louise Garnavault & Julie Christie aqui.
Quem quer diferente tem que fazer diferente, Cândido Portinari, Xiomara Fortuna, Marcus Garvey & Emmanuel Villanis aqui.
O prazer de amar e de ser amado, Joyce, Bigas Luna, Aitana Sánchez-Gijón & Luciah Lopez aqui.
Todo dia um novo ano, Egberto Gismonti, John Poppleton, Sy Miller & Jill Jackson aqui.
Betinho, Augusto de Campos, SpokFrevo Orquestra, Alan Parker, Graça Carpes, Rinaldo Lima, Bader Burihan Sawaya & Tempo de Morrer aqui.
Galileu Galilei & Bertolt Brecht, Nise da Silveira, Egberto Gismonti, Michelangelo Antonioni, Irena Sendler, Glória Pires, Anna Paquin & Charles André van Loo aqui.
Imre Madách & A tragédia humana, Pierre Rode, Robert Joseph Flaherty, Franz West, Vera Ellen, Anne Chevalie & Sarah Clarke aqui.
Adolfo Bécquer, Paulo Moura, Pedro Onofre, Antônio Miranda & Gárgula – Revista de Literatura, Marcos Rey & Marta Moyano, Mihaly von Zick, Associação de Blogs Literários do Nordeste (ABLNE), Virna Teixeira & Programa Tataritaritatá aqui.
Marlos Nobre, André Breton, Nikos Kazantzákis, Toni Morrison, Milos Forman & Natalie Portman, Adolf Ulrik Wertmüller & Tanussi Cardoso aqui.
Nicolau Copérnico, Carson McCullers, Alberto Dines & Observatório da Imprensa, Rogério Tutti, Capinam, István Szabó, Krystyna Janda & Max Klinger aqui.
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História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, outubro 18, 2007

PABLO MILANÉS, BEAUVOIR, JANNA LEVIN, GRAF DÜRCKHEIM, MOZART, SCHOPENHAUER & VERA INDIGNADA


VERA INDIGNADA: 
TÔ INGICADA QUE NEM HENRI THOREAU!!

“(...) Vi até que ponto podia confiar em meus conterrâneos como bons vizinhos e amigos; e percebi que sua amizade era apenas para os momentos de tranquilidade; senti que eles não têm grandes intenções de proceder corretamente; descobri que, tal como os chineses e malaios, eles formam uma raça diferente da minha, por causa de seus preconceitos e superstições; constatei que eles não arriscam a si mesmo ou a sua propriedade em seus atos de sacrifício pela humanidade; (...) e que só querem salvar suas almas, através de ações de feito, de algumas orações e da eventual observação dos limites particularmente estreitos e inúteis de um caminho de retidão...” (Henri Thoreau. Desobedecendo: a desobediência civil & outros escritos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987). Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - As paixões, sejam elas violentas ou não, nunca devem se expressar quando chegam a um ponto desagradável; a música, mesmo nas piores situações, nunca deve agredir aos ouvidos, mas sim cativá-los e continuar sempre música. Não consigo escrever poesia: não sou poeta. Não consigo dispor as palavras com tal arte que elas reflitam as sombras e a luz, não sou pintor... Mas consigo fazer tudo isso com a música... Eu agradeço a Deus por graciosamente me dar a oportunidade de entender que a morte é a chave que abre a porta da nossa verdadeira felicidade. Eu não ligo para nada do que os outros exaltam ou condenam. Eu simplesmente sigo meus próprios sentimentos. O necessário e mais difícil e mais importante na música é o ritmo. Quando estou completamente sozinho, completamente sozinho... ou durante a noite, quando não consigo dormir, é nessas ocasiões que minhas ideias fluem melhor e mais abundantemente. A música é minha vida e a minha vida é a música. Quem não entender isso, não é digno de Deus. Pensamento do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU - Todo mundo deve atuar no teatro de marionetes da vida e sentir o arame que nos mantém em movimento. Pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui.

A MÚSICA DO UNIVERSO - [...] A ideia: mantenha espelhos suspensos de modo que estejam livres para balançar paralelos ao chão e veja como são jogados pela onda gravitacional que passa. Mantenha controle sobre a distância entre eles, e seus movimentos vão registrar o formato mutante do espaço‑tempo. Como a velocidade da luz é constante, o tempo que a luz leva para fazer esse percurso mede o comprimento do percurso. Se o tempo de percurso é um pouco mais longo, é sinal de que a distância entre os espelhos foi esticada. Se o tempo de percurso da luz é um pouco menor, a distância entre os espelhos se comprimiu. Relógios de precisão não são suficientemente bons para distinguir variações minúsculas no tempo do percurso. [...]. Trecho extraído da obra A música do universo: ondas gravitacionais e a maior descoberta científica dos últimos cem anos (Companhia das Letras, 2016), da cosmóloga teórica e professora estadunidense Janna Levin.

CANÇÃO PELA UNIDADE DA AMÉRICA LATINA - O nascimento de um mundo foi adiado por um momento / Pouco tempo, do universo um segundo / No entanto, parecia que tudo ia acabar / Com a distância mortal que separou nossas vidas / Eles fizeram o trabalho de unir nossas mãos / E apesar de serem irmãos, olhamos um para o outro com medo / Quando os anos passaram, os rancores acumularam / Amores foram esquecidos, parecíamos estranhos / Que distância tão sofrida, que mundo tão separado / Eu nunca teria encontrado sem trazer novas vidas / Escravo, por um lado, servil elevado, por outro / É a primeira coisa que o último desencadeia / Explorar esta missão para ver tudo tão claro / Um dia ele foi liberal para esta revolução / Este não foi um bom exemplo para outros lançarem / A nova tarefa era isolar o bloqueio de toda a experiência / O que brilha com sua própria luz, ninguém pode desligá-lo / Seu brilho pode atingir a escuridão de outras costas / O que esse arrependimento pagará pelo tempo perdido. / Das vidas que custam, do que pode custar / Será pago pela unidade dos povos em questão / E quem negar esse motivo a história condenará / A história pega o carro dele e muitos nos montam / Acima vai passar de quem quiser negar / Bolívar lançou uma estrela que ao lado de Martí brilhou / Fidel a dignificou de andar por essas terras. Canção do cantor e guitarrista cubano Pablo Milanés Arias. Veja mais aqui.

A GATA E O RATO - Em uma casa, de um certo país, há um rato enorme e muito perigoso. Para libertar-se dele, o proprietário da casa apela para todos os mestres-gatos que ele conhece. O primeiro gato que se apresenta é umgrande atleta, um gato muito forte. Mas, para surpresa de todos, este ghato, que sempre fora vitorioso, é vencido pelo rato. Apresenta-se um outro gato que diz ao primeiro: “É perfeitamente normal que você tenha sido vencido,porque à sua força opôs=se uma outra força. É preciso se servir da força do inimigo para ele se autodestrua”. Este gato conhece bem as artes marciais. Entretanto, apesar de aplicá-las com toda competência, é vencido. Chega ainda um outro gato que diz: “Todos os meus predecessores não compreenderam. Este tipo de rato só pode ser vencido com o poder do espíroto. “Senta-se em uma postura adequada para hipnotizar e desruir o rato. Mas isso nada adianta. Então, eus que chega uma velha gata que não tem um ar extraordinário. Entra no quato, vai diratamente ao rato, pega-o pela pele do pescoço e joga-o fora. Todos os mestres-gatos lhe perguntam: “O que você fez? Qual foi a sua técnica? Quem é o seu mestre? Qual é a sua energia? Como isso é possível?” E ela lhes responde: - “Eu não tenho técnica. Quando entre neste quarto não tinha nenhuma ideia, nem sobre orato nem sobre o modo de vencê-lo. Simplesmente escutei o movimento do meu ventre, o movim,ento da vida em mim e fiz o que me pareceu certo”. Esta é a força do hara. E completa: - “Nada tenho de especial. Conheço, em um país vizinho, alguém que émuito mais forte do que eu. É um velho gato, muito gentil, que passa seus dias dormindo, deitado em um banco. Mas no país onde ele mora não existem ratos. Narrativa registrada pelo psicoterapeuta e mestre zen alemão, Karlfried Graf Dürckheim (1896-1988). Veja mais aqui.


O SEGUNDO SEXO DE BEAUVOIR - [...] O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade. Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o "seccionamento" da humanidade em duas categorias de indivíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta. Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciência que se consideram essenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Pôr a Mulher é pôr o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante. Na realidade concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-la inteiramente. Cada qual se afirmando único, a consequência é existir uma pluralidade de mitos incompatíveis e os homens permanecerem atônitos perante as estranhas incoerências da ideia de Feminilidade; como toda mulher participa de uma pluralidade desses arquétipos que, todos, pretendem encerrar sua única Verdade, os homens reencontram, assim, ante suas companheiras o velho espanto dos sofistas que mal compreendiam que o homem pudesse ser louro e moreno a um tempo. A passagem para o absoluto já se exprime nas representações sociais. As relações aí se fixam facilmente em classes, as funções em tipos, assim como na mentalidade infantil as relações fixam-se em coisas. Por exemplo, a sociedade patriarcal, apoiada na conservação do patrimônio, implica necessariamente, ao lado de indivíduos que detêm e transmitem os bens, a existência de homens e mulheres que os arrancam a seus proprietários e os fazem circular; os homens — aventureiros, vigaristas, ladrões, especuladores — são geralmente condenados pela coletividade; as mulheres, usando de sua atração erótica, têm a possibilidade de convidar os jovens, e até os pais de família, a dissiparem seu patrimônio sem sair da legalidade; apropriam-se de sua fortuna ou captam sua herança; sendo esse papel considerado nefasto, chamam "mulheres más" as que o desempenham. Na realidade, elas podem, ao contrário, apresentar-se em outro lar — o do pai, o do irmão, do marido ou do amante — como um anjo da guarda; tal ou qual cortesã, que explora ricos financistas, é um mecenas para pintores e escritores. A ambiguidade da personagem de Aspásia, de Mme de Pompadour torna-se facilmente compreensível numa experiência concreta. Mas, se se afirma que a mulher é a fêmea do louva-a-deus, a mandrágora, o demônio, confunde-se o espírito ao descobrir igualmente nela a Musa, a Deusa-Mãe, Beatriz. Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico. Não se deve confundir o mito com a apreensão de uma significação; a significação é imanente ao objeto; ela é revelada à consciência numa experiência viva ao passo que o mito é uma ideia transcendente que escapa a toda tomada de consciência. Quando, em Age d'homme, descreve sua visão dos órgãos femininos, Michel Leiris oferece-nos significações e não elabora nenhum mito. O deslumbramento ante o corpo feminino, a repugnância pelo sangue menstrual são apreensões de uma realidade concreta. Nada há de mítico na experiência que descobre as qualidades voluptuosas da carne feminina e não se passa ao mito quando se tenta exprimi-las mediante comparações com flores ou pedras. Mas dizer que a Mulher é a Carne, que a Carne é Noite e Morte, ou que é o esplendor do Cosmo, é abandonar a verdade da terra e alçar voo para um céu vazio. Porque o homem também é carne para a mulher; e esta é outra coisa além de um objeto carnal; e a carne assume, para cada um e em cada experiência, significações singulares. É, também, inteiramente verdade que a mulher — como o homem — é um ser arraigado na Natureza; ela é mais do que o homem escravizada à espécie, sua animalidade é mais manifesta, mas, nela como nele, o dado é assumido pela existência, pertence também ao reino humano. Assimilá-la à Natureza é um simples parti pris. Poucos mitos foram mais vantajosos do que esse para a casta dominante: justifica todos os privilégios e autoriza mesmo a abusar deles. Os homens não precisam preocupar-se em aliviar os sofrimentos e encargos que são fisiològicamente a parte da mulher, porquanto "são da vontade da Natureza"; eles se valem do pretexto para aumentar ainda a miséria da condição feminina, para denegar, por exemplo, à mulher, qualquer direito ao prazer sexual, para fazê-la trabalhar como um animal de carga. De todos esses mitos nenhum se acha mais enraizado nos corações masculinos do que o do "mistério" feminino. Tem numerosas vantagens. E primeiramente permite explicar sem dificuldades o que parece inexplicável; o homem que não "compreende" uma mulher sente-se feliz em substituir uma resistência objetiva a uma insuficiência subjetiva; ao invés de admitir sua ignorância, reconhece a presença de um mistério fora de si: é um álibi que lisonjeia a um tempo a preguiça e a vaidade. Um coração apaixonado evita, assim, muitas decepções; se as condutas da bem-amada são caprichosas, suas reflexões, estúpidas, o mistério serve de desculpa. Enfim, graças ao mistério, perpetua-se essa relação negativa que se afigurava a Kierkegaard infinitamente preferível a uma posse positiva; em face de um enigma vivo, o homem permanece só: só com seus sonhos, esperanças, temores, amor e vaidade; esse jogo subjetivo que pode ir do vício ao êxtase místico é para muitos uma experiência mais atraente do que uma relação autêntica com um ser humano. Em que bases assenta, pois, uma ilusão tão proveitosa? Seguramente, em certo sentido, a mulher é misteriosa, "misteriosa como todo mundo", na expressão de Maeterlinck. Cada um só é sujeito para si; cada um só pode apreender a si unicamente em sua imanência. Deste ponto de vista, o outro é sempre mistério. Aos olhos dos homens a opacidade do para-si é mais flagrante no outro feminino; eles não podem, por nenhum efeito de simpatia, penetrar-lhe a experiência singular. A qualidade do prazer erótico da mulher, os incômodos da menstruação, as dores do parto, eles estão condenados a ignorá-los. Na verdade, há reciprocidade do mistério; enquanto outro, e outro do sexo masculino, há no coração de todo homem uma presença fechada sobre si mesma e impenetrável à mulher; ela ignora o que representa o erotismo do macho. Mas, segundo a regra universal que verificamos, as categorias através das quais os homens encaram o mundo são constituídas, do ponto de vista deles, como absolutas: eles desconhecem, nisso como em tudo, a reciprocidade. Mistério para o homem, a mulher é encarada como mistério em si. A bem dizer, a situação dela a predispõe singularmente a ser considerada sob esse aspecto. Seu destino fisiológico é muito complexo; ela mesma o suporta como uma história estranha; seu corpo não é para ela uma expressão clara de si mesma; ela  sente-se nele alienada; o laço que em todo indivíduo liga a vida fisiológica à vida física, ou para melhor dizer, a relação existente entre a facticidade de um indivíduo e a liberdade que a assume, é o mais difícil enigma implicado pela condição humana: é na mulher que esse enigma se põe da maneira mais perturbadora. Mas o que se chama mistério não é a solidão subjetiva da consciência, nem o segredo da vida orgânica. É ao nível da comunicação que a palavra assume seu sentido verdadeiro: não se reduz ao puro silêncio, à noite, à ausência; implica uma presença balbuciante que malogra em se manifestar. Dizer que a mulher é mistério não é dizer que ela se cala e sim que sua linguagem não é compreendida; ela está presente, mas escondida sob véus; existe além dessas incertas aparições. Quem é ela? Um anjo, um demônio, uma inspirada, uma comediante? Ou se supõe que existem para essas perguntas respostas impossíveis de descobrir, ou antes, que nenhuma é adequada porque uma ambiguidade fundamental afeta o ser feminino; em seu coração, ela é para si mesma indefinível: uma esfinge. O fato é que ela se veria bastante embaraçada em decidir quem ela é; a pergunta não comporta resposta; mas não porque a verdade recôndita seja demasiado móvel para se deixar aprisionar: é porque nesse terreno não há verdade. Um existente não é senão o que faz; o possível não supera o real, a essência não precede a existência: em sua pura subjetividade o ser humano não é nada. Medem-no pelos seus atos. De uma camponesa pode-se dizer que se trata de uma boa ou má trabalhadora, de uma atriz que tem ou não talento; mas se se considera uma mulher em sua presença imanente, nada absolutamente se pode dizer, ela está aquém de qualquer qualificação. Ora, nas relações amorosas ou conjugais, em todas as relações em que a mulher é a vassala, o outro, é em sua imanência que é apreendida. É impressionante o fato de a companheira, a colega, a associada não terem mistério; em compensação, se o vassalo é masculino, se diante de um homem ou de uma mulher mais velhos do que ele, mais ricos, um rapaz se apresenta como o objeto inessencial, envolve-se ele também de mistério. E isso nos revela uma infraestrutura do mistério feminino que é de ordem econômica. Um sentimento também não ê nada. "No terreno dos sentimentos o real não se distingue do imaginário, diz Gide. E basta imaginar que se ama para amar, por isso basta dizer que se imagina amar, quando se ama, para amar um pouco menos..." Entre o imaginário e o real só há discriminação através das condutas. Detendo o homem neste mundo uma situação privilegiada, êle é que pode manifestar ativamente seu amor; muitas vezes sustenta a mulher ou a ajuda, Desposando-a, dá-lhe uma posição social; dá-lhe presentes; sua independência econômica e social permite-lhe iniciativas e invenções. Separado de Mme de Villeparisis, o Sr. de Norpois é quem fazia viagens de vinte e quatro horas para vê-la. Muitas vezes ele tem ocupações, ela não faz nada; o tempo que passa com Mme de Villeparisis êle o dá, ela o toma: com prazer, com paixão, ou simplesmente para se distrair? Aceita ela esses dons por amor ou por interesse? Ama o marido ou o casamento? Naturalmente as próprias provas que o homem dá são ambíguas: tal ou qual dom é feito por amor ou por piedade? Mas, enquanto normalmente a mulher encontra no comércio com o homem numerosas vantagens, o comércio com a mulher só beneficia o homem na medida em que ele a ama. Por isso, pelo conjunto de suas atitudes pode-se apreciar mais ou menos o grau de seu apego; ao passo que a mulher quase não tem meios de sondar o próprio coração; segundo seu temperamento, terá pontos de vista diferentes acerca de seus sentimentos, e enquanto os suportar passivamente nenhuma interpretação será mais verdadeira do que outra. Nos casos bastante raros em que ela detém os privilégios econômicos e sociais, o mistério inverte-se: o que demonstra que se liga não a este ou àquele sexo e sim a uma situação. Para grande número de mulheres os caminhos da transcendência estão barrados: como não fazem nada, não se podem fazer ser; perguntam-se indefinidamente o que poderiam vir a ser, o que as leva a indagar o que são: é uma interrogação vã; se o homem malogra em descobrir essa essência secreta é muito simplesmente porque ela não existe. Mantida à margem do mundo, a mulher não pode definir-se objetivamente através desse mundo e seu mistério cobre apenas um vazio. Demais, acontece que, como todos os oprimidos, dissimula deliberadamente sua figura objetiva; o escravo, o criado, o indígena, todos os que dependem dos caprichos de um senhor aprenderam a opor-lhe um sorriso imutável ou uma impassibilidade enigmática; escondem cuidadosamente seus verdadeiros sentimentos, suas verdadeiras condutas. À mulher também ensinaram desde a adolescência a mentir aos homens, a trapacear, a usar de subterfúgios. Chega-se a eles com máscara: é prudente, hipócrita, comediante. Mas o Mistério feminino tal qual o reconhece o pensamento mítico é uma realidade mais profunda. Em verdade, acha-se  ele implicado imediatamente na mitologia do Outro absoluto. Se se admite que a consciência inessencial é, ela também, uma subjetividade translúcida, capaz de operar o Cogito, admite-se que é, na verdade, soberana e retorna ao essencial. Para que toda reciprocidade se apresente como impossível, é preciso que o Outro seja para si um outro, que sua subjetividade mesma seja afetada pela alteridade. Essa consciência que seria alienada enquanto consciência, em sua pura presença imanente, seria evidentemente Mistério; seria Mistério em si pelo fato de que o seria para si; seria o Mistério absoluto. Assim é que há, para além do segredo que sua dissimulação cria um mistério do Preto, do Amarelo, enquanto considerados absolutamente como o Outro inessencial. Deve-se observar que o cidadão norte-americano, que desnorteia profundamente o europeu médio, não é entretanto considerado "misterioso": mais modestamente asseguram que não o entendem; do mesmo modo, a mulher nem sempre "compreende" o homem, mas não há mistério masculino; é que a América rica e o homem estão do lado do Senhor, e o Mistério é propriedade do escravo. Bem entendido, não se pode senão sonhar nos crepúsculos da má-fé acerca da realidade positiva do Mistério; como certas alucinações marginais, dissipa-se logo que se tenta fixá-lo. A literatura malogra sempre ao pintar mulheres "misteriosas". Elas podem somente surgir no início de um romance como estranhas, enigmáticas; mas, a menos que a história permaneça inacabada, terminam por revelar seu segredo e são então personagens coerentes e translúcidos. Por exemplo, o herói dos livros de Peter Cheney não cessa de se espantar com os imprevisíveis caprichos das mulheres: nunca se pode adivinhar como vão conduzir-se, fazem abortar todos os cálculos; na verdade, logo que os motivos de seus atos são desvendados ao leitor, elas se apresentam como mecanismos muito simples: uma era espiã, outra ladra; por hábil que seja a intriga, há sempre uma chave e não poderia ser de outro modo, ainda que o autor tivesse todo o talento e toda a imaginação do mundo. O mistério nunca passa de uma miragem, dissipa-se quando se tenta apreendê-lo. Vemos assim que o mito se explica em grande parte pelo uso que dele faz o homem. O mito da mulher é um luxo. Só pode surgir se o homem escapa à urgente imposição de suas necessidades; quanto mais as relações são concretamente vividas, menos se idealizam. O felá do antigo Egito, o camponês beduíno, o artesão da Idade Média, o operário contemporâneo, têm, nas necessidades do trabalho e da pobreza, relações demasiado definidas com a mulher singular que é sua companheira para enfeitá-la como uma aura fasta ou nefasta. São as épocas e as classes a que se concedem os lazeres do sonho que erguem as estátuas negras ou brancas da feminilidade. Mas o luxo tem também uma utilidade. Tais sonhos são imperiosamente dirigidos por interesses. Por certo, em sua maior parte, os mitos têm raízes na atitude espontânea do homem para com sua própria existência e o mundo que o cerca: mas a superação da experiência em direção à ideia transcendente foi deliberadamente operada pela sociedade patriarcal para fins de auto justificação; através dos mitos, ela impunha aos indivíduos suas leis e costumes de maneira sensível e por imagens; sob uma forma mítica é que o imperativo coletivo se insinuava em cada consciência. Por intermédio das religiões, das tradições, da linguagem, dos contos, das canções, do cinema, os mitos penetram até nas existências mais duramente jungidas às realidades materiais. Todos podem encontrar nesses mitos uma sublimação de suas modestas  experiências: enganado por uma mulher amada, um declara que ela é uma matriz danada; outro, obcecado pela impotência viril, encara a mulher como a fêmea do louva-a-deus; outro ainda compraz-se em companhia de sua mulher e ei-la Harmonia, Repouso, Terra nutriz. O gosto a uma eternidade barata, a um absoluto de bolso, que se depara na maioria dos homens, satisfaz-se com mito. A menor emoção, uma contrariedade, tomam o reflexo de uma ideia não temporal; essa ilusão lisonjeia agradàvelmente a vaidade. O mito é uma dessas armadilhas da falsa objetividade em que se lança temeràriamente o espírito de gravidade. Trata-se mais uma vez, de substituir a experiência vivida e os livres julgamentos que ela reclama por um ídolo imoto. A uma relação autêntica com um existente autônomo, o mito da Mulher substitui a contemplação imóvel de uma miragem. "Miragem! Miragem! Ê preciso matá-las porque não podemos apanhá-las; ou então tranquilizá-las, informá-las, dissipar-lhe o gosto pelas jóias, fazer delas nossas companheiras iguais, nossas amigas íntimas, associadas neste mundo, vesti-las de outro modo, cortar-lhes os cabelos, dizer-lhes tudo...", exclama Laforgue. O homem nada teria a perder, muito pelo contrário, se renunciasse a fantasiar a mulher de símbolo. Os sonhos, quando são coletivos e dirigidos, são bem pobres e monótonos ao lado da realidade viva: para o verdadeiro sonhador, para o poeta, a realidade viva é uma fonte muito mais fecunda do que um maravilhoso puído. As épocas que mais amaram as mulheres não foram a do feudalismo cortês nem o galante século XIX: foram as épocas em que — como no século XVIII — os homens encararam as mulheres como semelhantes; é então que se apresentam como verdadeiramente romanescas: basta ler Les Liaisons dangereuses, Le Rouge et le Noir, Adeus às Armas, para percebê-lo. As heroínas de Laclos, Stendhal, Hemingway não têm mistério; nem por isso são menos atraentes. Reconhecer um ser humano na mulher não é empobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de sua diversidade, de sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em sua intersubjetividade; recusar os mitos não é destruir toda relação dramática entre os sexos, não é negar as significações que se revelam autenticamente ao homem através da realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a aventura, a felicidade, o sonho: é somente pedir que as condutas, os sentimentos, as paixões assentem na verdade. "A mulher se perde. Onde estão as mulheres? As mulheres de hoje não são mulheres", viu-se qual o sentido desses slogans misteriosos. Aos olhos dos homens — e da legião de mulheres que veem por esses olhos — não basta ter um corpo de mulher, nem assumir como amante, como mãe, a função de fêmea para ser "uma mulher de verdade"; através da sexualidade e da maternidade, o sujeito pode reivindicar sua autonomia; "a verdadeira mulher" é a que se aceita como Outro. Há na atitude dos homens de hoje uma duplicidade que cria na mulher um dilaceramento doloroso; eles aceitam em grande medida que a mulher seja um semelhante, uma igual; e, no entanto, continuam a exigir que ela permaneça o inessencial; para ela, esses dois destinos não são conciliáveis; ela hesita entre um e outro sem se adaptar exatamente a nenhum e daí sua falta de equilíbrio. No homem não há nenhum hiato entre a vida pública e a vida privada: quanto mais êle se afirma seu domínio do mundo pela ação e pelo trabalho, mais revela viril; nele, os valores humanos e os valores vitais se confundem; ao passo que os êxitos autônomos da mulher estão em contradição com sua feminilidade, porquanto se exige da "verdadeira mulher" que se torne objeto, que seja o Outro. É muito possível que, neste ponto, a sensibilidade e até a sexualidade do homem se modifiquem. Uma nova estética já nasceu. Se a moda dos bustos chatos e das ancas magras — da mulher-efebo — durou pouco, não se voltou contudo ao ideal opulento dos séculos passados. Pede-se ao corpo feminino que seja carne, mas discretamente; deve ser esbelto e não empapado de banha; com músculos, flexível e robusto é preciso que indique a transcendência; preferem-no, não branco como uma planta de estufa, mas tendo enfrentado o sol universal, tostado como um torso de trabalhador. Tornando-se prático, o vestido da mulher não a fez parecer assexuada: ao contrário, as saias curtas valorizaram mais do que outrora as pernas e as coxas. Não se compreende por que o trabalho a privaria de sua atração erótica. Possuir a mulher ao mesmo tempo como personagem social e como presa carnal pode ser perturbador: em uma séria de desenhos de Peynet publicados recentemente, via-se um jovem noivo abandonar a noiva porque era seduzido pela bonita prefeita que se dispunha a celebrar o casamento. O fato de uma mulher exercer um "ofício viril" e ser ao mesmo tempo desejável foi durante muito tempo um tema de piadas mais ou menos livres. Pouco a pouco, o escândalo e a ironia se embotaram e parece que nova forma de erotismo está nascendo: talvez venha a engendrar novos mitos. O que é certo é que hoje é muito difícil às mulheres assumirem concomitantemente sua condição de indivíduo autônomo e seu destino feminino; aí está a fonte dessas inépcias, dessas incompreensões que as levam, por vezes, a se considerar como um "sexo perdido". E, sem dúvida, é mais confortável suportar uma escravidão cega que trabalhar para se libertar: os mortos também estão mais bem adaptados à terra do que os vivos. Como quer que seja, uma volta ao passado não é mais possível nem desejável. O que se deve esperar é que, por seu lado, os homens assumam sem reserva a situação que se vem criando; somente então a mulher poderá viver sem tragédia. Então poderá ver-se realizado o voto de Laforgue: "Ó moças, quando sereis nossos irmãos, nossos irmãos íntimos sem segunda intenção de exploração? Quando nos daremos o verdadeiro aperto de mãos?" Então "Mélusine não mais sob o peso da fatalidade desencadeada sobre ela pelo homem só, Mélusine libertada..." reencontrará seu "equilíbrio humano". Então ela será plenamente um ser humano "quando se quebrar a escravidão infinita da mulher, quando ela viver por ela e para ela, o homem — até hoje abominável — tendo-lhe dado a alforria". O SEGUNDO SEXO – O livro O segundo sexo: fatos e mitos, da escritora, filósofa existencialista e feminista francesa Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir (1908-1986), alcançou repercussão internacional e marcou toda uma geração interessada, como ela, na abolição do mito do éternel feminin. Tendo sofrido e vencido pela inteligência as limitações seculares imposta à mulher, expõe nessa obra suas reivindicações e denuncias, de modo que fica demonstrada sua forma lucidamente didática que contribuiu de forma decisiva para a expansão da consciência feminina na segunda metade do séc. XX. O livro trata de temos como os dados biológicos a visão psicanalítica, o ponto de vista do materialismo histórico, Montherlant ou o pão do nojo, D. H. Lawrence ou o orgulho fálico, Claudel e a serva do Senhor, Breton ou a poesia e Stendhal ou o romanesco do verdadeiro. REFERÊNCIA: BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970. Veja mais aqui, aqui e aqui.


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Leonardo Boff, a deusa Felicitas, Emerson, Lake & Palmer, Núbia Marques, Psicodrama & Teatro da Espontaneidade. Luchino Visconti, Laura Antonelli & Pedro Cabral Filho aqui.



CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU TATARITARITATÁ
 Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...