CRÔNICA DE AMOR
PARA ELA – Foi ela, coração de mãe, quem me deu a
vida quando eu não sabia nada, quem me deu sorriso quando eu tomava pé do mundo
e das coisas, olhos grandes para tudo. Dela aprendi a lição do amor quando tudo
era novo e eu dependente do seu jeito, agarrado ao cós da saia sem saber de
onde vinha nem para onde ia. E me fiz menino atado ao seu estímulo, crescendo
como dádiva dos que precisam. E virei garoto atento e fascínio aos 40 graus de
curiosidade e perseguição. A nudez dela, alma de mulher, me levou pelas frestas
das portas, olhos miúdos às fechaduras, escondido pelas brechas, entre combongós,
pelas cumeeiras e basculantes, escondido por cima do muro no quintal da
vizinha, até saber-me pronto para o deleite. Era ela sempre a minha festa com
seus cabelos sedosos aos ventos, seus olhos de manha cheios de ternura, suas
feições dóceis de pele macia, seus lábios salientes dos beijos mais expostos. Ela,
meu porto seguro, sempre o meu refúgio nas horas perdidas por seus ombros
aconchegantes, seus seios angelicais de todas as frutas do pomar, seu ventre de
Sol alumiando meu destino e sina. Foi dela que recolhi todas as estrelas
brilhantes que me encantavam os sonhos e a esperança, quando eu cantava Fonte como se não tivesse mais saída. Foi
dela que aprendi a acolhida na cilada das horas, quando eu andava perdido
saindo pra outra depois de um chega pra lá. Pra mim ela se fez meu tudo e eu
grato dei meu coração e toda minha vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui & aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quarta-feira, março 01, 2017
MAGDALENA, PABLO MILANÉS, RUTH KLIGMAN, JOSÉ CONDÉ, JOAQUÍN SABINA & CRÔNICA DA MULHER
CRÔNICA DE AMOR
PARA ELA – Foi ela, coração de mãe, quem me deu a
vida quando eu não sabia nada, quem me deu sorriso quando eu tomava pé do mundo
e das coisas, olhos grandes para tudo. Dela aprendi a lição do amor quando tudo
era novo e eu dependente do seu jeito, agarrado ao cós da saia sem saber de
onde vinha nem para onde ia. E me fiz menino atado ao seu estímulo, crescendo
como dádiva dos que precisam. E virei garoto atento e fascínio aos 40 graus de
curiosidade e perseguição. A nudez dela, alma de mulher, me levou pelas frestas
das portas, olhos miúdos às fechaduras, escondido pelas brechas, entre combongós,
pelas cumeeiras e basculantes, escondido por cima do muro no quintal da
vizinha, até saber-me pronto para o deleite. Era ela sempre a minha festa com
seus cabelos sedosos aos ventos, seus olhos de manha cheios de ternura, suas
feições dóceis de pele macia, seus lábios salientes dos beijos mais expostos. Ela,
meu porto seguro, sempre o meu refúgio nas horas perdidas por seus ombros
aconchegantes, seus seios angelicais de todas as frutas do pomar, seu ventre de
Sol alumiando meu destino e sina. Foi dela que recolhi todas as estrelas
brilhantes que me encantavam os sonhos e a esperança, quando eu cantava Fonte como se não tivesse mais saída. Foi
dela que aprendi a acolhida na cilada das horas, quando eu andava perdido
saindo pra outra depois de um chega pra lá. Pra mim ela se fez meu tudo e eu
grato dei meu coração e toda minha vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui & aqui.terça-feira, fevereiro 24, 2015
RITA JOE, ELIF SHAFAK, KAKÁ WERÁ & CATHERINE DENEUVE
NELA, O TRÂMITE: O QUE É DA VIDA SENÃO AMOR... - Não tenho asas e nem sei onde estou. Ela Boadicea me sorria para que
não me sentisse recusado Manet no Le
Havre et Guadaloupe, nem levado
pelos mares tenebrosos de Conrad. Seu abraço de Ninfa surpresa juntou meus
pedaços e vivi em suas feições marcantes o apaziguamento da minha perdição: era
o afeto mais real que vinha de sua contumaz transparência, como quem caísse do
telhado nua de céu. Jogava-me suas cartas como Aura de Fuentes e dos seus olhos
escuros quão tardia indômita Melodia de Backer. Era Morisot
elegantemente refinada entre violetas, com sua boca de véspera e eu mais que
assíduo no seu jeito entreaberto. Insinuava-se tal gata de Nise no fio de
Bastet: um olhar faminto na boca sedenta. Deu-me o sistro com a mão direta e,
com a outra, a efígie com cabeça de leoa coroada pelo disco solar e serpente
uraues: era a filha de Rá desvelando os segredos piramidais. E me fez Anúbis amante
na assimetria das horas em plena madrugada, com sua nudez iluminada e o
surpreendente nascia do quase impossível. Tudo nela onírica Dama do Lago de
Cocaigne, no reino de Anaitis. E nela adormecia e sonhava tantas noites de
outras vezes: a salvação era ela inopinada cheia de luz, fogos de artifícios
nas minhas veias, trovões no meu coração. Desse no meio da solidão seria outro
dia e mesmo que não tivesse para onde ir era nela: o amor valia a vida. Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS - Pare de correr atrás das ondas. Deixe o mar vir até você... Todo amor e
amizade verdadeiros são uma história de transformação inesperada. Se somos a
mesma pessoa antes e depois de amar, isso significa que não amamos o suficiente... Pensamento da escritora turca Elif
Shafak, que no seu livro The Forty Rules of Love: The
magical tale of love and self-discovery from the bestselling author of The
Island of Missing Trees (Penguin, 2009), expressa que: […] Aconteça o que
acontecer em sua vida, não importa o quão preocupantes as coisas possam
parecer, não entre na vizinhança do desespero. Mesmo quando todas as portas
permanecerem fechadas, Deus abrirá um novo caminho somente para você. Seja
grato! [...] Se somos a mesma pessoa antes e depois de amar, isso significa que
não amamos o suficiente. [...] Não vá com o fluxo. Seja o fluxo [...]
Como o amor pode ser digno de seu nome se alguém seleciona somente as coisas
bonitas e deixa de fora as dificuldades? É fácil aproveitar o bom e não gostar
do ruim. Qualquer um pode fazer isso. O verdadeiro desafio é amar o bom e o
ruim juntos, não porque você precisa aceitar o áspero com o suave, mas porque
você precisa ir além dessas descrições e aceitar o amor em sua totalidade. [...]
Paciência não significa suportar passivamente. Significa ser clarividente o
suficiente para confiar no resultado final de um processo. O que paciência
significa? Significa olhar para o espinho e ver a rosa, olhar para a noite e
ver o amanhecer. Impaciência significa ser tão míope a ponto de não conseguir
ver o resultado. Os amantes de Deus nunca perdem a paciência, pois sabem que é
preciso tempo para que a lua crescente fique cheia. [...] Como vemos
Deus é um reflexo direto de como nos vemos. Se Deus traz à mente principalmente
medo e culpa, significa que há muito medo e culpa acumulados dentro de nós. Se
vemos Deus como cheio de amor e compaixão, nós também somos. [...].
ALGUÉM FALOU: É preciso ter liberdade e confiança
absolutas para se expressar verdadeiramente. Eu me esforço para ser autêntica e
fiel a mim mesmo, em vez de me conformar com as expectativas da sociedade. Eu
encontro consolo e alegria na solidão. Ela me permite conectar com meu eu
interior. Eu sei quem eu sou, como eu era. Eu não quero saber como eu serei
porque ninguém sabe disso... É melhor não se preparar, porque o que você
preparar sempre estará errado... Fortaleça sua mente em qualquer lugar e a
qualquer hora. Acredito no poder do silêncio. Às vezes, as palavras podem
diluir a essência de um momento. Gentileza e empatia são as verdadeiras medidas
de caráter. Pensamento da
atriz francesa Catherine Deneuve. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
PERDI MINHA FALA - Perdi
minha fala \ A fala que você levou embora. \ Quando eu era uma garotinha \ Na
escola Shubenacadie. \ Você a arrebatou: \ Eu falo como você \ Eu penso como
você \ Eu crio como você \ A balada embaralhada, sobre meu mundo. \ Duas
maneiras de falar \ Ambos os caminhos eu digo, \ Seu jeito é mais poderoso. \ Então
gentilmente ofereço minha mão e peço, \ Deixe-me encontrar minha fala \ Para
que eu possa lhe ensinar sobre mim. Poema da escritora indígena canadense Rita Joe (1932-2007), membro da tribo Mi’kmaq, tendo aos 10 anos
tornado-se órfã e aos 12 anos, entrado para uma escola indígena, onde as
críticas destrutivas quanto à sua cultura de origem constantemente a
incentivaram a começar a escrever como forma de resistência. O poema escrito em
1989, I Lost My Talk, foi destacado em uma entrevista que ela concedeu
mencionando: Meu maior desejo é que haja mais escrita do meu povo, e que os
nossos filhos a leiam. Eu já disse repetidas vezes que a nossa história seria diferente
se tivesse sido expressa por nós mesmos...
A TERRA DOS MIL
POVOS – [...] A palavra tem espírito [...] E nesse contar eu sou o
espírito de cada folha, cada planta, cada brisa pronunciada. Eu sou cada pedra
no caminho e cada vento, cada dia de sol e cada dia noite de lua e cada brisa;
e cada brilho de cada estrela. Nesse contar eu sou o fluxo límpido da cachoeira
e do rio, e de toda água que preenche o grande mar [...]. Trechos extraídos
da obra A terra dos mil povos: história do Brasil contada por um índio (Peirópolis,
1998), do escritor, ambientalista e conferencista indígena tapuia, Kaká Werá
Jecupé (Carlos Alberto dos Santos), que no livro Oré awé roiru’a ma -
Todas as vezes que dissemos adeus (TRIOM, 2002), Kaká expressa:[...] É
entre o sul e o norte que Mãe Terra expira as almas. Por estes quatro cantos
flui a grande vida. Por estes quatro cantos os nomes descem à Terra. Por estes
Quatro cantos as palavras encarnam, tornando-se gente. Apontava-me o Leste, o
Norte, o Sul, o Oeste. - Por esta respiração sagrada o ‘espírito-nomeado’
contempla seu último desdobrar, indobrando-se na terra virando semente, depois
é que a pequena mãe terrena concebe o corpo do nome na barriga. Quando Pai e
Mãe abraçam o abraço de criar. Quando dois viram um. No abraço do ‘fogo-amor’,
recomeça a magia do desdobrar da semente: vira música, vira dança, vira voo e
passa a caminhar pelo chão da vida terrena. [...]. Já no livro Tupã
Tenondé: a criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral
Guarani (Peirópolis, 2001), Kaká traz esse belíssimo momento poético: Os
fundamentos do ser foram concebidos \ Na origem da futura linguagem humana,\ Tecida
da sabedoria contida em sua própria divindade\ E em virtude de sua sabedoria
criadora\ Concebeu como primeiro fundamento o Amor.\ Antes de existir a terra,\
Em meio à Noite Primeira\ E antes de ter-se conhecimento das coisas,\ O amor
era [...] O ser humano é percebido como “alma-palavra” – é o que se
expressa mediante a linguagem e por meio do pensamento. Ser e som têm o mesmo
sentido. Para essa percepção é necessário ampliar o nosso conceito de som para
além da vibração sonora, percebê-lo como corpo-vida, princípio dinâmico da luz
cuja forma denominamos “consciência” [...] uma tonalidade da Grande
Música Divina colocada em pé, encarnada, dentro de um assento chamado
corpo-carne, para entoar a criação no mundo terreno, para ser na Terra o que
sua essência sagrada é no céu – escultor, tecelão, cantor e transformador da
vida [...]. O grande movimento da
vida é qualificado como Amor incondicional e Sabedoria. É com base na qualidade
do amor e na sabedoria que o universo torna-se supraconsciente, consciente e
subconsciente de si mesmo. Equilibra os mundos, sustenta as dimensões, gera o
Cosmos. O Grande Espírito torna-se Música Celeste, ritmo e movimento.
Desdobra-se em Espíritos Co-Criadores, chamados também de Seres-Trovões. Sonha
e manifesta a morada terrena. Os Seres-Trovões estabelecem moradas espirituais
nas quatro direções e agora recebem a responsabilidade de gerarem
palavras-almas, tonalidades de suas essências, para encarnarem na Terra
[...].
O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA – No livro Psicologia Social crítica como prática de
libertação (EdiPucRS, 2009), o filósofo, sociólogo, professor e doutor em
Psicologia Social, Pedrinho Guareschi,
aborda no segundo capítulo a questão acerca do Mistério da consciência,
expressando que: Somos seres limitados,
em processo, não apenas imortais, mas eternos, em busca do infinito. O mistério
é sempre invisível, intocável, inefável [...] Chega-se a ele através da contemplação, da meditação profunda, onde
nossos olhos se fecham, nossos ouvidos se cerram, nossas mãos descansam, onde
não necessitamos pronunciar palavras. Quem experimentou, sabe. [...] a consciência é a resposta que conseguimos
dar às perguntas: quem sou eu: que são as coisas que me rodeiam? A consciência
seria o quanto de resposta conseguimos dar a essas perguntas. Quando mais
resposta, mais consciência. A consciência é, portanto, um processo infinito, de
busca e de construção de respostas. Vamos crescendo em consciência na medida em
que conseguimos respostas. [...] É a
consciência que leva à liberdade. Isto é, que só é livre quem tem consciência.
Através do processo de descoberta, investigação, reflexão meditação,
contemplação, vamos identificando a r5azão de nós sermos o que somos e de por
que as coisas que nos rodeiam são do modo que são. Esse seria o caminha para a
liberdade, processo também infinito. [...] só é livre quem tem consciência; a consciência é um pressuposto
indispensável para que alguém possa ser considerado livre. E a
responsabilidade? [...] passa pelo
caminho da consciência e da liberdade. Poderíamos então afirmar: a consciência
conduz à liberdade; e a consciência e a liberdade conduzem à responsabilidade.
O especifico do conceito de responsabilidade é que ele implica uma ação de
resposta, um incentivo à ação: responsabilidade vem de resposta [...]. Veja
mais aqui e aqui.
PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui. Logo mais, a partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá, com muita festa e a apresentação da querida Meimei Corrêa, com as seguintes atrações na programação: Egberto Gismonti, Duofel, Nando Lauria, Gal Costa & Caetano Veloso, Djavan, Geraldo Azevedo, Chico Buarque, Chico César, Sônia Mello, Roberto Toledo, Mazinho, Julia Crystal & Monica Brandão, Elisete Retter & Edward Brown, Irina Costa & Mácleim, Ricardo Machado, Ely Camargo & Reisado de Alagoas, Frederico Amitrano, Zé Linaldo & Ramanir, Zé Ripe & Paulo Profeta, Tirso Florence de Biasi & Banda Tres, Sóstenes Lima, Jan Cláudio & Eduardo Proffa, Ju Mota, Rusty Young, David Sylvian, Pedro Abrunhosa, Wilson Simonal, Daniel & muito mais! Veja mais aqui.
JE
VOUS SALUE MARIE – Um dos inesquecíveis filmes que assisti foi
indubitavelmente o polêmico filme Je vous
salue, Marie (1985), do não menos polêmico e provocador cineasta
franco-suíço Jean-Luc Godard que tem
um elenco de peso, notadamente a participação das atrizes Juliette Binoche e Myriem
Roussel nas duas estórias paralelas narradas na película, a primeira que
conta a história de uma estudante Maria que trabalha num posto de gasolina do
pai, e de um jovem taxista José que descobre que sua namorada está grávida e
ele a acusa de traição exigindo a separação, recendo aconselhamento e
convencimento do anjo Gabriel a aceitar os planos divinos dela. Na segunda,
envolve um professor de história que se envolve com uma das suas alunas. Ambas
histórias mostram a difícil convivência entre o espírito e o corpo. Veja mais aqui, aqui e aqui. quinta-feira, outubro 18, 2007
PABLO MILANÉS, BEAUVOIR, JANNA LEVIN, GRAF DÜRCKHEIM, MOZART, SCHOPENHAUER & VERA INDIGNADA
“(...) Vi até que ponto podia confiar em meus conterrâneos como bons vizinhos e amigos; e percebi que sua amizade era apenas para os momentos de tranquilidade; senti que eles não têm grandes intenções de proceder corretamente; descobri que, tal como os chineses e malaios, eles formam uma raça diferente da minha, por causa de seus preconceitos e superstições; constatei que eles não arriscam a si mesmo ou a sua propriedade em seus atos de sacrifício pela humanidade; (...) e que só querem salvar suas almas, através de ações de feito, de algumas orações e da eventual observação dos limites particularmente estreitos e inúteis de um caminho de retidão...” (Henri Thoreau. Desobedecendo: a desobediência civil & outros escritos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987). Veja mais aqui.
O SEGUNDO SEXO DE BEAUVOIR - [...]
O
mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que
importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as
condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário
determinar as relações que mantém com a realidade. Há diversas espécies de
mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o
"seccionamento" da humanidade em duas categorias de indivíduos, é um
mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na
experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à
significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente,
não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação
porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta. Assim, à
existência dispersa, contingente e múltipla das
mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a
definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das
mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres
não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da
experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem
sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é
concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de
reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo,
do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é
luta de consciência que se consideram essenciais, é reconhecimento de
liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à
cumplicidade. Pôr a Mulher é pôr o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando
contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante. Na realidade
concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos
mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-la inteiramente. Cada
qual se afirmando único, a consequência é existir uma pluralidade de mitos
incompatíveis e os homens permanecerem atônitos perante as estranhas
incoerências da ideia de Feminilidade; como toda mulher participa de uma
pluralidade desses arquétipos que, todos, pretendem encerrar sua única Verdade,
os homens reencontram, assim, ante suas companheiras o velho espanto dos
sofistas que mal compreendiam que o homem pudesse ser louro e moreno a um
tempo. A passagem para o absoluto já se exprime nas representações sociais. As
relações aí se fixam facilmente em classes, as funções em tipos, assim como na
mentalidade infantil as relações fixam-se em coisas. Por exemplo, a sociedade
patriarcal, apoiada na conservação do patrimônio, implica necessariamente, ao
lado de indivíduos que detêm e transmitem os bens, a existência de homens e
mulheres que os arrancam a seus proprietários e os fazem circular; os homens —
aventureiros, vigaristas, ladrões, especuladores — são geralmente condenados
pela coletividade; as mulheres, usando de sua atração erótica, têm a
possibilidade de convidar os jovens, e até os pais de família, a dissiparem seu
patrimônio sem sair da legalidade; apropriam-se de sua fortuna ou captam sua
herança; sendo esse papel considerado nefasto, chamam "mulheres más"
as que o desempenham. Na realidade, elas podem, ao contrário, apresentar-se em
outro lar — o do pai, o do irmão, do marido ou do amante — como um anjo da
guarda; tal ou qual cortesã, que explora ricos financistas, é um mecenas para
pintores e escritores. A ambiguidade da personagem de Aspásia, de Mme de
Pompadour torna-se facilmente compreensível numa experiência concreta. Mas, se
se afirma que a mulher é a fêmea do louva-a-deus, a mandrágora, o demônio,
confunde-se o espírito ao descobrir igualmente nela a Musa, a Deusa-Mãe,
Beatriz. Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais
definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma
propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a
madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a
Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou
carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou
aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em
cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas
necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os
valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no
lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo
existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem
um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua
vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na
imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma
vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se
claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher
ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às
mulheres um dever-ser categórico. Não se deve confundir o mito com a apreensão
de uma significação; a significação é imanente ao objeto; ela é revelada à
consciência numa experiência viva ao passo que o mito é uma ideia transcendente
que escapa a toda tomada de consciência. Quando, em Age d'homme, descreve sua
visão dos órgãos femininos, Michel Leiris oferece-nos significações e não
elabora nenhum mito. O deslumbramento ante o corpo feminino, a repugnância pelo
sangue menstrual são apreensões de uma realidade concreta. Nada há de mítico na
experiência que descobre as qualidades voluptuosas da carne feminina e não se
passa ao mito quando se tenta exprimi-las mediante comparações com flores ou
pedras. Mas dizer que a Mulher é a Carne, que a Carne é Noite e Morte, ou que é
o esplendor do Cosmo, é abandonar a verdade da terra e alçar voo para um céu
vazio. Porque o homem também é carne para a mulher; e esta é outra coisa além
de um objeto carnal; e a carne assume, para cada um e em cada experiência,
significações singulares. É, também, inteiramente verdade que a mulher — como o
homem — é um ser arraigado na Natureza; ela é mais do que o homem escravizada à
espécie, sua animalidade é mais manifesta, mas, nela como nele, o dado é
assumido pela existência, pertence também ao reino humano. Assimilá-la à
Natureza é um simples parti pris. Poucos
mitos foram mais vantajosos do que esse para a casta dominante: justifica todos
os privilégios e autoriza mesmo a abusar deles. Os homens não precisam
preocupar-se em aliviar os sofrimentos e encargos que são fisiològicamente a
parte da mulher, porquanto "são da vontade da Natureza"; eles se valem
do pretexto para aumentar ainda a miséria da condição feminina, para denegar,
por exemplo, à mulher, qualquer direito ao prazer sexual, para fazê-la
trabalhar como um animal de carga. De todos esses mitos nenhum se acha mais
enraizado nos corações masculinos do que o do "mistério" feminino.
Tem numerosas vantagens. E primeiramente permite explicar sem dificuldades o
que parece inexplicável; o homem que não "compreende" uma mulher
sente-se feliz em substituir uma resistência objetiva a uma insuficiência
subjetiva; ao invés de admitir sua ignorância, reconhece a presença de um
mistério fora de si: é um álibi que
lisonjeia a um tempo a preguiça e a vaidade. Um coração apaixonado evita,
assim, muitas decepções; se as condutas da bem-amada são caprichosas, suas
reflexões, estúpidas, o mistério serve de desculpa. Enfim, graças ao mistério,
perpetua-se essa relação negativa que se afigurava a Kierkegaard infinitamente
preferível a uma posse positiva; em face de um enigma vivo, o homem permanece
só: só com seus sonhos, esperanças, temores, amor e vaidade; esse jogo
subjetivo que pode ir do vício ao êxtase místico é para muitos uma experiência
mais atraente do que uma relação autêntica com um ser humano. Em que bases
assenta, pois, uma ilusão tão proveitosa? Seguramente, em certo sentido, a
mulher é misteriosa, "misteriosa como todo mundo", na expressão de
Maeterlinck. Cada um só é sujeito para si; cada um só pode apreender a si
unicamente em sua imanência. Deste ponto de vista, o outro é sempre mistério.
Aos olhos dos homens a opacidade do para-si é mais flagrante no outro feminino;
eles não podem, por nenhum efeito de simpatia, penetrar-lhe a experiência
singular. A qualidade do prazer erótico da mulher, os incômodos da menstruação,
as dores do parto, eles estão condenados a ignorá-los. Na verdade, há
reciprocidade do mistério; enquanto outro, e outro do sexo masculino, há no
coração de todo homem uma presença fechada sobre si mesma e impenetrável à
mulher; ela ignora o que representa o erotismo do macho. Mas, segundo a regra
universal que verificamos, as categorias através das quais os homens encaram o
mundo são constituídas, do ponto de vista
deles, como absolutas: eles desconhecem,
nisso como em tudo, a reciprocidade. Mistério para o homem, a mulher é encarada
como mistério em si. A bem dizer, a situação dela a predispõe singularmente a
ser considerada sob esse aspecto. Seu destino fisiológico é muito complexo; ela
mesma o suporta como uma história estranha; seu corpo não é para ela uma
expressão clara de si mesma; ela
sente-se nele alienada; o laço que em todo indivíduo liga a vida
fisiológica à vida física, ou para melhor dizer, a relação existente entre a facticidade
de um indivíduo e a liberdade que a assume, é o mais difícil enigma implicado
pela condição humana: é na mulher que esse enigma se põe da maneira mais
perturbadora. Mas o que se chama mistério não é a solidão subjetiva da
consciência, nem o segredo da vida orgânica. É ao nível da comunicação que a
palavra assume seu sentido verdadeiro: não se reduz ao puro silêncio, à noite,
à ausência; implica uma presença balbuciante que malogra em se manifestar.
Dizer que a mulher é mistério não é dizer que ela se cala e sim que sua
linguagem não é compreendida; ela está presente, mas escondida sob véus; existe
além dessas incertas aparições. Quem é ela? Um anjo, um demônio, uma inspirada,
uma comediante? Ou se supõe que existem para essas perguntas respostas
impossíveis de descobrir, ou antes, que nenhuma é adequada porque uma
ambiguidade fundamental afeta o ser feminino; em seu coração, ela é para si
mesma indefinível: uma esfinge. O fato é que ela se veria bastante embaraçada
em decidir quem ela é; a pergunta não
comporta resposta; mas não porque a verdade recôndita seja demasiado móvel para
se deixar aprisionar: é porque nesse terreno não há verdade. Um existente não é senão o que faz;
o possível não supera o real, a essência não precede a existência: em sua pura
subjetividade o ser humano não é nada.
Medem-no pelos seus atos. De uma camponesa pode-se dizer que se trata de uma
boa ou má trabalhadora, de uma atriz que tem ou não talento; mas se se
considera uma mulher em sua presença imanente, nada absolutamente se pode
dizer, ela está aquém de qualquer qualificação. Ora, nas relações amorosas ou
conjugais, em todas as relações em que a mulher é a vassala, o outro, é em sua
imanência que é apreendida. É impressionante o fato de a companheira, a colega,
a associada não terem mistério; em compensação, se o vassalo é masculino, se
diante de um homem ou de uma mulher mais velhos do que ele, mais ricos, um
rapaz se apresenta como o objeto inessencial, envolve-se ele também de
mistério. E isso nos revela uma infraestrutura do mistério feminino que é de
ordem econômica. Um sentimento também não ê
nada. "No terreno dos sentimentos o real não se distingue do imaginário,
diz Gide. E basta imaginar que se ama para amar, por isso basta dizer que se
imagina amar, quando se ama, para amar um pouco menos..." Entre o imaginário
e o real só há discriminação através das condutas. Detendo o homem neste mundo
uma situação privilegiada, êle é que pode manifestar ativamente seu amor;
muitas vezes sustenta a mulher ou a ajuda, Desposando-a, dá-lhe uma posição
social; dá-lhe presentes; sua independência econômica e social permite-lhe
iniciativas e invenções. Separado de Mme de Villeparisis, o Sr. de Norpois é
quem fazia viagens de vinte e quatro horas para vê-la. Muitas vezes ele tem
ocupações, ela não faz nada; o tempo que passa com Mme de Villeparisis êle o dá, ela o toma: com
prazer, com paixão, ou simplesmente para se distrair? Aceita ela esses dons por
amor ou por interesse? Ama o marido ou o casamento? Naturalmente as próprias
provas que o homem dá são ambíguas: tal ou qual dom é feito por amor ou por
piedade? Mas, enquanto normalmente a mulher encontra no comércio com o homem
numerosas vantagens, o comércio com a mulher só beneficia o homem na medida em
que ele a ama. Por isso, pelo conjunto de suas atitudes pode-se apreciar mais
ou menos o grau de seu apego; ao passo que a mulher quase não tem meios de
sondar o próprio coração; segundo seu temperamento, terá pontos de vista
diferentes acerca de seus sentimentos, e enquanto os suportar passivamente
nenhuma interpretação será mais verdadeira do que outra. Nos casos bastante
raros em que ela detém os privilégios econômicos e sociais, o mistério
inverte-se: o que demonstra que se liga não a este ou
àquele sexo e sim a uma situação. Para grande número de mulheres os caminhos da
transcendência estão barrados: como não fazem
nada, não se podem fazer ser;
perguntam-se indefinidamente o que poderiam vir
a ser, o que as leva a indagar o que são: é
uma interrogação vã; se o homem malogra em descobrir essa essência secreta é
muito simplesmente porque ela não existe. Mantida à margem do mundo, a mulher
não pode definir-se objetivamente através desse mundo e seu mistério cobre
apenas um vazio. Demais, acontece que, como todos os oprimidos, dissimula
deliberadamente sua figura objetiva; o escravo, o criado, o indígena, todos os
que dependem dos caprichos de um senhor aprenderam a opor-lhe um sorriso
imutável ou uma impassibilidade enigmática; escondem cuidadosamente seus
verdadeiros sentimentos, suas verdadeiras condutas. À mulher também ensinaram
desde a adolescência a mentir aos homens, a trapacear, a usar de subterfúgios.
Chega-se a eles com máscara: é prudente, hipócrita, comediante. Mas o Mistério
feminino tal qual o reconhece o pensamento mítico é uma realidade mais
profunda. Em verdade, acha-se ele
implicado imediatamente na mitologia do Outro absoluto. Se se admite que a
consciência inessencial é, ela também, uma subjetividade translúcida, capaz de
operar o Cogito,
admite-se que é, na verdade, soberana e retorna ao essencial. Para que toda
reciprocidade se apresente como impossível, é preciso que o Outro seja para si
um outro, que sua subjetividade mesma seja afetada pela alteridade. Essa
consciência que seria alienada enquanto consciência, em sua pura presença
imanente, seria evidentemente Mistério; seria Mistério em si pelo fato de que o
seria para si; seria o Mistério absoluto. Assim é que há, para além do segredo
que sua dissimulação cria um mistério do Preto, do Amarelo, enquanto
considerados absolutamente como o Outro inessencial. Deve-se observar que o
cidadão norte-americano, que desnorteia profundamente o europeu médio, não é
entretanto considerado "misterioso": mais modestamente asseguram que
não o entendem; do mesmo modo, a mulher nem sempre "compreende" o
homem, mas não há mistério masculino; é que a América rica e o homem estão do
lado do Senhor, e o Mistério é propriedade do escravo. Bem entendido, não se
pode senão sonhar nos crepúsculos da má-fé acerca da realidade positiva do
Mistério; como certas alucinações marginais, dissipa-se logo que se tenta
fixá-lo. A literatura malogra sempre ao pintar mulheres
"misteriosas". Elas podem somente surgir no início de um romance como
estranhas, enigmáticas; mas, a menos que a história permaneça inacabada,
terminam por revelar seu segredo e são então personagens coerentes e
translúcidos. Por exemplo, o herói dos livros de Peter Cheney não cessa de se
espantar com os imprevisíveis caprichos das mulheres: nunca se pode adivinhar
como vão conduzir-se, fazem abortar todos os cálculos; na verdade, logo que os
motivos de seus atos são desvendados ao leitor, elas se apresentam como
mecanismos muito simples: uma era espiã, outra ladra; por hábil que seja a
intriga, há sempre uma chave e não poderia ser de outro modo, ainda que o autor
tivesse todo o talento e toda a imaginação do mundo. O mistério nunca passa de
uma miragem, dissipa-se quando se tenta apreendê-lo. Vemos assim que o mito se
explica em grande parte pelo uso que dele faz o homem. O mito da mulher é um
luxo. Só pode surgir se o homem escapa à urgente imposição de suas
necessidades; quanto mais as relações são concretamente vividas, menos se
idealizam. O felá do antigo Egito, o camponês beduíno, o artesão da Idade
Média, o operário contemporâneo, têm, nas necessidades do trabalho e da pobreza,
relações demasiado definidas com a mulher singular que é sua companheira para
enfeitá-la como uma aura fasta ou nefasta. São as épocas e as classes a que se
concedem os lazeres do sonho que erguem as estátuas negras ou brancas da
feminilidade. Mas o luxo tem também uma utilidade. Tais sonhos são
imperiosamente dirigidos por interesses. Por certo, em sua maior parte, os
mitos têm raízes na atitude espontânea do homem para com sua própria existência
e o mundo que o cerca: mas a superação da experiência em direção à ideia
transcendente foi deliberadamente operada pela sociedade patriarcal para fins
de auto justificação; através dos mitos, ela impunha aos indivíduos suas leis e
costumes de maneira sensível e por imagens; sob uma forma mítica é que o imperativo
coletivo se insinuava em cada consciência. Por intermédio das religiões, das
tradições, da linguagem, dos contos, das canções, do cinema, os mitos penetram
até nas existências mais duramente jungidas às realidades materiais. Todos
podem encontrar nesses mitos uma sublimação de suas modestas experiências: enganado por uma mulher amada,
um declara que ela é uma matriz danada; outro, obcecado pela impotência viril,
encara a mulher como a fêmea do louva-a-deus; outro ainda compraz-se em
companhia de sua mulher e ei-la Harmonia, Repouso, Terra nutriz. O gosto a uma
eternidade barata, a um absoluto de bolso, que se depara na maioria dos homens,
satisfaz-se com mito. A menor emoção, uma contrariedade, tomam o reflexo de uma
ideia não temporal; essa ilusão lisonjeia agradàvelmente a vaidade. O mito é
uma dessas armadilhas da falsa objetividade em que se lança temeràriamente o
espírito de gravidade. Trata-se mais uma vez, de substituir a experiência
vivida e os livres julgamentos que ela reclama por um ídolo imoto. A uma
relação autêntica com um existente autônomo, o mito da Mulher substitui a
contemplação imóvel de uma miragem. "Miragem! Miragem! Ê preciso matá-las
porque não podemos apanhá-las; ou então tranquilizá-las, informá-las,
dissipar-lhe o gosto pelas jóias, fazer delas nossas companheiras iguais,
nossas amigas íntimas, associadas neste mundo, vesti-las de outro modo,
cortar-lhes os cabelos, dizer-lhes tudo...", exclama Laforgue. O homem
nada teria a perder, muito pelo contrário, se renunciasse a fantasiar a mulher
de símbolo. Os sonhos, quando são coletivos e dirigidos, são bem pobres e
monótonos ao lado da realidade viva: para o verdadeiro sonhador, para o poeta,
a realidade viva é uma fonte muito mais fecunda do que um maravilhoso puído. As
épocas que mais amaram as mulheres não foram a do feudalismo cortês nem o
galante século XIX: foram as épocas em que — como no século XVIII — os homens
encararam as mulheres como semelhantes; é então que se apresentam como
verdadeiramente romanescas: basta ler Les Liaisons
dangereuses, Le Rouge et le Noir, Adeus às Armas,
para percebê-lo. As heroínas de Laclos, Stendhal, Hemingway não têm mistério;
nem por isso são menos atraentes. Reconhecer um ser humano na mulher não é
empobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de sua diversidade, de
sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em sua intersubjetividade;
recusar os mitos não é destruir toda relação dramática entre os sexos, não é
negar as significações que se revelam autenticamente ao homem através da
realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a aventura, a felicidade,
o sonho: é somente pedir que as condutas, os sentimentos, as paixões assentem
na verdade. "A mulher se perde. Onde estão as mulheres? As mulheres de
hoje não são mulheres", viu-se qual o sentido desses slogans misteriosos. Aos
olhos dos homens — e da legião de mulheres que veem por esses olhos — não basta
ter um corpo de mulher, nem assumir como amante, como mãe, a função de fêmea
para ser "uma mulher de verdade"; através da sexualidade e da
maternidade, o sujeito pode reivindicar sua autonomia; "a verdadeira
mulher" é a que se aceita como Outro. Há na atitude dos homens de hoje uma
duplicidade que cria na mulher um dilaceramento doloroso; eles aceitam em
grande medida que a mulher seja um semelhante, uma igual; e, no entanto,
continuam a exigir que ela permaneça o inessencial; para ela, esses dois
destinos não são conciliáveis; ela hesita entre um e outro sem se adaptar
exatamente a nenhum e daí sua falta de equilíbrio. No homem não há nenhum hiato
entre a vida pública e a vida privada: quanto mais êle se afirma seu domínio do
mundo pela ação e pelo trabalho, mais revela viril; nele, os valores humanos e
os valores vitais se confundem; ao passo que os êxitos autônomos da mulher
estão em contradição com sua feminilidade, porquanto se exige da
"verdadeira mulher" que se torne objeto, que seja o Outro. É muito
possível que, neste ponto, a sensibilidade e até a sexualidade do homem se
modifiquem. Uma nova estética já nasceu. Se a moda dos bustos chatos e das
ancas magras — da mulher-efebo — durou pouco, não se voltou contudo ao ideal
opulento dos séculos passados. Pede-se ao corpo feminino que seja carne, mas
discretamente; deve ser esbelto e não empapado de banha; com músculos, flexível
e robusto é preciso que indique a transcendência; preferem-no, não branco como
uma planta de estufa, mas tendo enfrentado o sol universal, tostado como um
torso de trabalhador. Tornando-se prático, o vestido da mulher não a fez
parecer assexuada: ao contrário, as saias curtas valorizaram mais do que
outrora as pernas e as coxas. Não se compreende por que o trabalho a privaria
de sua atração erótica. Possuir a mulher ao mesmo tempo como personagem social
e como presa carnal pode ser perturbador: em uma séria de desenhos de Peynet
publicados recentemente, via-se um jovem noivo abandonar a noiva porque era
seduzido pela bonita prefeita que se dispunha a celebrar o casamento. O fato de
uma mulher exercer um "ofício viril" e ser ao mesmo tempo desejável foi
durante muito tempo um tema de piadas mais ou menos livres. Pouco a pouco, o
escândalo e a ironia se embotaram e parece que nova forma de erotismo está
nascendo: talvez venha a engendrar novos mitos. O que é certo é que hoje é
muito difícil às mulheres assumirem concomitantemente sua condição de indivíduo
autônomo e seu destino feminino; aí está a fonte dessas inépcias, dessas
incompreensões que as levam, por vezes, a se considerar como um "sexo
perdido". E, sem dúvida, é mais confortável suportar uma escravidão cega
que trabalhar para se libertar: os mortos também estão mais bem adaptados à
terra do que os vivos. Como quer que seja, uma volta ao passado não é mais
possível nem desejável. O que se deve esperar é que, por seu lado, os homens
assumam sem reserva a situação que se vem criando; somente então a mulher
poderá viver sem tragédia. Então poderá ver-se realizado o voto de Laforgue:
"Ó moças, quando sereis nossos irmãos, nossos irmãos íntimos sem segunda
intenção de exploração? Quando nos daremos o verdadeiro aperto de mãos?"
Então "Mélusine não mais sob o peso da fatalidade desencadeada sobre ela
pelo homem só, Mélusine libertada..." reencontrará seu "equilíbrio
humano". Então ela será plenamente um ser humano "quando se quebrar a
escravidão infinita da mulher, quando ela viver por ela e para ela, o homem —
até hoje abominável — tendo-lhe dado a alforria". O SEGUNDO SEXO – O
livro O segundo sexo: fatos e mitos,
da escritora, filósofa existencialista e feminista francesa Simone
Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de
Beauvoir (1908-1986), alcançou repercussão internacional e marcou toda uma
geração interessada, como ela, na abolição do mito do éternel feminin. Tendo sofrido e vencido pela inteligência as
limitações seculares imposta à mulher, expõe nessa obra suas reivindicações e
denuncias, de modo que fica demonstrada sua forma lucidamente didática que
contribuiu de forma decisiva para a expansão da consciência feminina na segunda
metade do séc. XX. O livro trata de temos como os dados biológicos a visão
psicanalítica, o ponto de vista do materialismo histórico, Montherlant ou o
pão do nojo, D. H. Lawrence ou o orgulho fálico, Claudel e a serva do Senhor,
Breton ou a poesia e Stendhal ou o
romanesco do verdadeiro. REFERÊNCIA: BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo:
fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970. Veja mais aqui, aqui
e aqui.VEJA MAIS:
João Antonio, John Coltrane, Milton Nascimento, Massaud Moisés, Sarah Bernhardt, Miklos Mihalovits, Madonna & Vilmar Antônio Carvalho aqui.
NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS
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