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quinta-feira, janeiro 30, 2020

TEOLINDA GERSÃO, WORDSWORTH, FLORENCIO SÁNCHEZ, RAQUEL GLOTTMAN & JOSÉ CONDÉ

CARTA PRELÚDIO & EPÍLOGO - Órfão desde a infância nas montanhas de Cumberland, travesso menino a subir no penhasco do corvo e o suicida boiava no lago rasgando as minhas veias nórdicas ascéticas, a me dar conta do patíbulo dos enforcados. Assim cresci até adolescer no redemoinho da revolução e tudo de pernas pro ar: um verso rebelde diante do Reinado do Terror. Por isso cantei Annette e o valor das paixões, o filho anônimo nos braços dela, a poesia ardorosa do discípulo de Vênus nos mistérios do amor. Tive que desertar para sobreviver e tudo se dissipou com a juventude no curso diurno da Terra. Por isso cantei Dorothy, minha irmã, a quem dou graças por recobrar a minha sanidade mental. Encostei a minha alma na relva e nas flores, cantei a beleza de Mary e tudo era outro cenário: a poesia em comunhão. Foi daí que perdi a amizade do mágico tecedor de versos na ablução emocional e na profunda sublimação diante de toda deformidade do mundo humano: a face da humanidade é a imperfeita e perturbada efígie de Deus. Um humano falava aos humanos, quem me escutava apesar de nenhuma fraseologia aparatosa e inútil, só coisas comuns e simples além da vida e da morte. Poucas palavras e um poema singelo: a solidão do sobrevivente do passado e a mãe, coração na mão, esperava por décadas o retorno do filho único que insistia em não voltar. Chorei por quem não conhecia. As escritas da mudez e do silêncio, a esperança que não morreu nem morrerá, porque algo sempre será: ou somos livres ou morremos! Renunciei a tudo e fiquei mudo, imperturbável. Tudo arrefeceu das paixões obstinadas na propensão do senso da honra e o do meu vergonhoso moralismo, me perdoem. Peço perdão por me tornar indiferente e desinteressado, só eu sei: o líder perdido pede reiteradamente perdão agora por não ter tomado ciência da minha decadência palpável e disfarçada. Dei-me a grandes silêncios, calei de vez meu coração e encontrei Deus nas selvas, o governo da quietude e era a minha peregrinação pelos cenários nativos da serenidade na luz do Sol poente e a descoberta do que estava por trás das folhas das árvores, das pétalas das flores, rochas e rios, estrelas e astros: tudo é um grande poema épico e todas estas coisas eu canto nas baladas líricas, o meu prelúdio e epílogo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O que quer que dissesse, parecia dizê-lo sempre alegremente. Gostava de rir, e por vezes, se os alunos estavam cansados, suspendia a aula e mandava-os falar à toa, do que quisessem, só por falar. A certa altura interrompia-os, no meio de uma frase, e aí estavam de novo concentrados, prontos a seguir o seu raciocínio, para onde quer que ele agora os levasse. [...] Era verdade que o tempo parecia ter sido terrivelmente encurtado (Kant, Platão, Wittgenstein em dezesseis minutos, prometiam nas bancas livros magros como folhetos). Mas os livros aconteciam no tempo. Como a música. Os romances, sobretudo. Eram, como a música, uma forma de medir e de organizar o tempo. Poderia falar-se, pelo menos a prazo, da morte do leitor? Ela gostaria de pensar que o leitor era como o escritor, de certa maneira a sua outra face, disse a mulher: Aceitava os mesmos riscos, passava as mesmas noites em claro […] Reinventava o livro, como o intérprete tocando a partitura. […] O leitor, como o escritor, tornara-se uma personagem rara –ia continuar mas o entrevistador interrompeu-a. Parecia agora fascinado pelas mãos: Havia pessoas que conduziam máquinas, transportavam pedras, tratavam doentes, assentavam ladrilhos – não seriam essas mãos mais úteis? […] Ela vivia debruçada sobre um teclado. [...]. O piano era uma armadilha que a apanhava de surpresa. Julgava brincar com o teclado mas era o teclado que brincava com ela. No meio de uma frase, um acidente reduzia a metade a distância à nota seguinte, ou, pelo contrário, aumentava-a, uma diferença mínima, que no entanto arrastava pesadas consequências, como se o bater de asas de um inseto fizesse rebentar uma tempestade à distância. [...]. Trechos extraídos da obra Os teclados: três histórias com anjos (Sextante, 2012), da escritora portuguesa Teolinda Gersão. Veja mais aqui.

OS AMORES DE WORDSWORTH - O poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850) era irmão da poeta Dorothy Wordsworth que esteve sempre presente na sua vida como equilibradora da sua vida emocional. Durante a Revolução Francesa, ele teve sua primeira paixão: a jovem francesa Annette Vallon (1766-1841) que foi romanceada em livro, por meio da obra Annette Valon (HarperCollins, 2007), de James Tripton. O casal teve uma filha por nome Caroline. Problemas financeiros e as tensas relações da Grã-Bretanha com a França obrigaram-no a retornar à Inglaterra, na esperança de depois levá-las, mãe e filha, para lá. Anos se passaram e com a Paz de Amiens, Wordsworth e sua irmã Dorothy visitaram Annette para que ele conhecesse a filha Caroline em Calais e para quem ele escreveu o soneto É uma noite bonita, calma e livre, recordando um passeio à beira-mar com Caroline, de 9 anos, que ele nunca tinha visto antes daquela visita. Em seguida, ele casou-se com Mary Hutchinson (1770-1859), uma amiga órfã de sua irmã Dorothy, com quem teve vários filhos. O poeta publicou a obra Lyrycal Ballads, em 1798, e sua obra-prima é o The Prelude, um poema autobiográfico que faz referências à sua vida e amizade com poeta Samuel Taylor Coleridge. Veja mais aqui e aqui.

MÃO SANTA, DE FLORENCIO SÁNCHEZ
ATO ÚNICO - No quarto de cortiço habitado por Carlos e Luísa. Porta única ao fundo. Cama de casal de ferro, guarda-roupa, criado mudo, lavatório e outros móveis amontoados quase à direita. A metade esquerda, ocupada por uma mesa, uma cômoda com pratos e cristaleira, em cima uma máquina de costura, cadeiras, braseiro e utensílios de cozinha. Nas paredes, em lugar de honra, um grande retrato de Karl Marx e diversas figuras e alegorias socialistas. CENA I - MARIA LUÍSA - MARIA LUÍSA (Com o cabelo solto a ponto de enfeitar-se para sair, colocando com pressa alguns pratos e recipientes com comida sobre a mesa.) Ai! Uma hora já... Mas esse Carlos não pensa vir? Que aborrecimento!... (Indo às vezes até a porta. ) Menino!... Torito!... Quer chegar até o armazém e ver se está meu marido? Sim, vamos.. Vou te dar um níquel. Rapidinho, hein? Se estiver, diz-lhe que a comida se esfria... Que faz uma hora que está servida. (Voltando-se.) E se não estiver, que se dane. (Diante o espelho, terminando o penteado.) Eu é que não perco a consulta hoje. Já me custou três vezes em vão, e todas por chegar tarde. (Buscando algo.) Agora, onde deixei a peineta? Não digo? Se todos são inconvenientes! (Impacientando-se.) Mas se agora mesmo a tive nas mãos... Aqui... Aqui mesmo a coloquei com os grampos e o perfume... (Busca sobre a mesa, confere a cômoda, a máquina, cada vez mais irritada.) Não digo? Se não é para perder a cabeça!... Ufff!... E Carlos que não chega... Comerá tudo frio... Mas a peineta... Depois não querem que a gente se adoeça... Senhor! Há duendes em casa? (Confere de novo por diferentes lugares, jogando roupas e objetos no chão.) Ufff! Que raiva! (Compungida.) E agora, com o que prendo o cabelo? Vamos ver! Com que?... Me dá vontade de romper as mexas duma vez... e de não ir a lugar algum. (Leva as mãos à cabeça, nervosamente.) Não digo? Depois dirão que não é coisa de irritar. Ela estava na minha cabeça... E perdendo o tempo... (Com um gesto violento atira a peineta no chão.) [...].
FLORENCIO SÁNCHEZ - Trecho da peça teatral Mão Santa Sainete (1905), extraída da obra Florencio Sánchez – Teatro (Montevideo, 1975), do dramaturgo e jornalista uruguaio Florencio Sánchez (1875-1910), considerado uma das principais figuras do teatro rio-platense e do anarquismo uruguaio. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Penso em minhas imagens como fragmentos de um sonho que expressa reinos inconscientes simbólicos arquetípicos.
RAQUEL GLOTTMAN - A arte da fotógrafa estadunidense Raquel Glottman, que explora processos fotográficos alternativos com exploração de sonhos, sexualidade, natureza e mortalidade. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A literatura de José Condé (1917-1971) aqui.
A música do maestro, arranjador e oboísta Maestro Duda aqui
A arte de Alice Vinagre aqui.
A poesia de Edjane Leal aqui.
A arte do artesão Epifanio Bezerra aqui
&
O município de Altinho aqui & aqui.
 

quarta-feira, março 01, 2017

MAGDALENA, PABLO MILANÉS, RUTH KLIGMAN, JOSÉ CONDÉ, JOAQUÍN SABINA & CRÔNICA DA MULHER

Veja a Fanpage  aqui, os vídeos aqui e os poemas & canções aqui.

CRÔNICA DE AMOR PARA ELA – Foi ela, coração de mãe, quem me deu a vida quando eu não sabia nada, quem me deu sorriso quando eu tomava pé do mundo e das coisas, olhos grandes para tudo. Dela aprendi a lição do amor quando tudo era novo e eu dependente do seu jeito, agarrado ao cós da saia sem saber de onde vinha nem para onde ia. E me fiz menino atado ao seu estímulo, crescendo como dádiva dos que precisam. E virei garoto atento e fascínio aos 40 graus de curiosidade e perseguição. A nudez dela, alma de mulher, me levou pelas frestas das portas, olhos miúdos às fechaduras, escondido pelas brechas, entre combongós, pelas cumeeiras e basculantes, escondido por cima do muro no quintal da vizinha, até saber-me pronto para o deleite. Era ela sempre a minha festa com seus cabelos sedosos aos ventos, seus olhos de manha cheios de ternura, suas feições dóceis de pele macia, seus lábios salientes dos beijos mais expostos. Ela, meu porto seguro, sempre o meu refúgio nas horas perdidas por seus ombros aconchegantes, seus seios angelicais de todas as frutas do pomar, seu ventre de Sol alumiando meu destino e sina. Foi dela que recolhi todas as estrelas brilhantes que me encantavam os sonhos e a esperança, quando eu cantava Fonte como se não tivesse mais saída. Foi dela que aprendi a acolhida na cilada das horas, quando eu andava perdido saindo pra outra depois de um chega pra lá. Pra mim ela se fez meu tudo e eu grato dei meu coração e toda minha vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

UNA CANCIÓN PARA LA MAGDALENA
Si, a media noche, por la carretera que te conté,
detrás de una gasolinera donde llené,
te hacen un guiño unas bombillas azules, rojas y amarillas,
pórtate bien y frena.
Y, si la Magdalena pide un trago,
tú la invitas a cien que yo los pago.
Acércate a su puerta y llama si te mueres de sed
si ya no juegas a las damas ni con tu mujer.
Sólo te pido que me escribas, contándome si sigue viva
la virgen del pecado, la novia de la flor de la saliva,
el sexo con amor de los casados.
Dueña de un corazón, tan cinco estrellas,
que, hasta el hijo de un Dios, una vez que la vio, se fue con ella.
Y nunca le cobro la Magdalena.
Si estás más solo que la luna, déjate convencer,
brindando a mi salud, con uma que yo me sé.
Y, cuando suban las bebidas, el doble de lo que te pida
dale por sus favores, que, en casa de María de Magdala,
las malas compañías son las mejores.
Si llevas grasa en la guantera u un alma que perder,
aparca, junto a sus caderas de leche y miel.
Entre dos curvas redentoras la más prohibida de las frutas
te espera hasta la aurora, la más señora de todas las putas,
la más puta de todas las señoras.
Con ese corazón, tan cinco estrellas,
que, hasta el hijo de un Dios, una vez que la vio, se fue con ella.
Y nunca le cobro la Magdalena.
Música de Pablo Milanés & Joaquin Sabina, extraída do álbum 19 dias y 500 noches (BMG/Ariola, 1999), do cantautor espanhol Joaquín Sabina. Veja mais aqui.

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DESTAQUE: A VELHA SENHORA MAGDALA
[...] Estavam todos na sala de visitas, para onde foram levados os castiçais. Magdala sentia-se envolvida por um agradável torpor, em conseqüência do copo de vinho que havia bebido. Escutava, de uma das mulheres, a narrativa das aventuras da troupe ambulante. Há mais de três meses – contava a loura – que se encontravam fora do Rio, visitando cidades do interior de Minas Gerais e São Paulo. Regressavam agora ao ponto de partida. Era uma vida de sacrifícios. Fora um fracasso a temporada e voltavam mais pobres do que quando partiram. Acrescentou sua decisão firma de abandonar aquela existência errante e boêmia; já não era criança, precisava pensar no dia de amanhã. Foi interrompida pelas primeiras notas do acordeão. Uma polca. O homem cantava: Tive um amor na vida, / Um velho amor lá no sul. / E quando a tarde vem, Leontina... Todos entraram alegremente em coro. Magdala havia cerrado os olhos. O vento frio da noite atravessava as janelas abertas. E quando a tarde vem, Leontina... Magdala abre os olhos: bem à sua frente, sobre o consolo de jacarandá, parece contemplá-la a imagem do avô Felipe. Não o conhecera, é verdade. Mas pela descrição que dele costumava fazer o pai, facilmente lhe reconstituía os traços na memória. Via-o, assim, como nos velhos tempos, enchendo a fazenda de escravos, multiplicando as terras, arrancando riquezas do solo. Em poucos anos transformara os poucos alqueires de sua sesmaria, naquele mundo de serras, de vales e planícies  que as plantações de café e de cana-de-açúcar dominavam em dezenas e dezenas de léguas. A vasta casa-grande, quadrada, simples, fora erguida por ele. Também a capela. A música silenciara. – Que deseja ouvir agora? – indagou o homem do acordeão. Magdala pensou um pouco e pediu o Doce Amélia. Era uma cantiga triste e Magdala dançara muitas vezes. Também costumava cantá-la ao piano, acompanhada pela irmã Tereza. Oh! Doce Amélia / quem pode ver-te... Vieram-lhe lágrimas aos olhos. Sentia-se ainda tonta, e não sabia se era do vinho ou de emoção. Mentalmente, acompanhava a melodia, recordando os versos: a doce Amélia fora obrigada a casar-se com um velho conde, porque assim lhe ordenara o pai. Mas o grande amor de sua vida era o mancebo que todas as tardes passava à frente do sobrado e suspirava por lhe tocar nos longos cabelos negros. Um dia, por intermédio da mucama de confiança, conseguem ajustar a fuga para daí a três noites. O pai descobre o plano e manda assassinar o jovem. Amélia suicida-se, apertando entre os dedos o lenço de renda que o amado lhe remetera pouco antes de atingi-lo o punhal assassino. Oh! Doce Amélia / quem pode ver-te... As lágrimas escorrem pelas faces de Magdala. Não sabe se chora pela infeliz Amélia, ou por ela mesma – pelas suas lembranças. Soluça. Todo o seu corpo estremece como uma folha sacudida pelo vento. [...].
A velha senhora Magdala (1958), trecho de conto do escritor e jornalista José Condé (1917-1971). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora estadunidense Ruth Kligman (1930-2010), artista e musa de vários importantes artistas como Jackson Pollock e Willen de Kooning, entre outros.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

quarta-feira, junho 24, 2015

VIVA SÃO JOÃO, ASCENSO, CONDÉ, AZEVEDO, ÂNGELO, GONZAGÃO, BARBOSA & BRINCARTE DO NITOLINO!


VIVA SÃO JOÃO – (Imagem: Festa Junina, óleo sobre tela da artista plástica Rosangela Borges). A moagem começava entre os fins de agosto e início de setembro e se prolongava até os meses de abril ou maio. E quando chegava o mês de junho, aí a festa era toda voltada para a abundância e prosperidade da colheita na safra canavieira. Era o momento dos festejos juninos e da entressafra sucroalcooleira. Nesse período eu, Marquinhos & Marcelo – o trio do maior trupé de traquinagem na meninice de bundacanasca– aprontávamos das nossas. Eis que um dia, a gente jogando pedra a esmo na direção onde desse o nariz, maínha fez a gente armar uma fogueira. Foi a única vez que ela decidiu por isso. Fez a gente fazer – como quem arranja uma lavagem de roupa da boa – porque que já lhe consumíamos o juízo com nossas presepadas. E era ajuntar todo tipo de lenha e graveto para dar vez a uma fogueira e agradecer aos céus as boas colheitas e boas vindas à invernada que não agitasse o rio numa cheia medonha. Lá foi a gente à cata das coisas exigidas. Bem depois do meio da tarde, o monturo estava feito. Marquinhos mais velho e mais afoito era o organizador. Eu e Marcelo, seus serviçais. Ordem prali, bota aqui, ajeita assim e lá vai. Por volta das cinco da tarde, estava aquele arranha-céu mais parecendo com as ventas da gente: uma desarrumação só. Marquinhos foi de afoito e deu banho de querosene na madeira e tascou fogo. O fogaréu comeu no centro de atrapalhar a passagem dos pedestres e veículos. Mas tinha um detalhe: se a fogueira se desarrumasse espalhada no terreiro, era atraso de vida pro dono da casa. Agouro dos brabos. Destá. A coisa se acomodou a contento sem desastres, a ponto dele pegar um cotoco de pau aceso em brasa e ficar se amostrando. Marcelo que não perdia a vez dele, logo pegou outro graveto e ficou com o fogaréu soltando dos seus peidinhos: um jato danado saía dos seus borborigmos. Eu, mais medroso e não querendo brincadeira com fogo, ficava olhando no meu alvoroço. Aí Marquinhos desafiava Marcelo pra aproximar mais e fazer que nem ele: botar um jato bom na flatulência. Arrepara só, a presepada. Isso vai e vem, os dois apostando, Marcelo alinhou a caixa dos peitos e anunciou soltar o maior de todos. Resultado: um buraco queimado na bunda do calção. Três dias encarriados e de bruços no ai oi só à base de Hipoglós. Do lado de fora, eu e Marquinhos só fazendo coro ao Gonzagão: [...] Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo [...] O céu estava azul em festa pois era noite de São João [...]. Veja mais aqui.
 Imagem: Festa Junina, da artista plástica Valquíria Barros.


Curtindo Viva Gonzagão! É forró, é xote, é baião (BMG, 1994), numa homenagem ao Rei do Baião Luiz Gonzaga com Alceu Valença, Dominguinhos, Chico Buarque, Sivuca, Geraldo Azevedo, Oswaldinho, Quinteto Violado, Gonzaguinha, Fagner & Marinês, Alcione, Zé Ramalho e Forró Mastruz com Leite. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: REPRISE DO PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpaticíssima Ísis Corrêa Naves. A programação conta com apresentação de poesias, músicas, brincadeiras, informações, dicas e muito entretenimento para a garotada. Além do mais, no blog do Brincarte do Nitolino você pode conferir resumos, resenhas, artigos e informações acerca da Psicologia Infantil, da Educação Infantil, do Direito das Crianças e dos Adolescentes, do Teatro Infantil, da Literatura Infantil e da Música Infantil, além de curtir poesias, lendas, brincadeiras, pinturas, desenhos e muitas outras atrações pra garotada. Para conferir o programa online clique aqui ou aqui.

TRATADO DA LAVAÇÃO DA BURRA – O livro Tratado da lavação da burra ou Introdução à transcendência brasileira (Bagaço, 1986), do filósofo, poeta, professor e ensaísta Ângelo Monteiro, obteve do ensaísta e conferencista Olavo de Carvalho o seguinte comentário: “O poeta e filósofo alagoano Ângelo Monteiro nos oferece em todos os ensaios deste livro, em especial nas páginas memoráveis do "Tratado da Lavação da Burra", talvez a mais dramática tentativa que alguém já fez para oferecer à pergunta ‘Que é ser Brasileiro?’ uma resposta ontologicamente significativa". Também o escritor e advogado Nelson Saldanha assim se expressou: "No texto de Ângelo Monteiro,"Tratado da Lavação da Burra", redigido entre o surrealista e o irônico, entre a anotação alongada e a exposição sintética, estão presentes, como possíveis arquétipos, os modelos satíricos de todas as épocas; e sua linguagem, que ora é aforística ora coloquial, acompanha com um pouco de pressa as associações de ideias do leitor, que vai a cada passo se surpreendendo". Trata-se de um ensaio sobre o Brasil, do qual destaco o trecho inicial Vamos lavar a burra: De início pode parecer esotérico o pontifical apelo para que todos “lavem a burra”. A “sua” burra. Mas para que se entenda semelhante prodígio se fará necessário, antes de tudo, que não tenhamos princípio; que não conheçamos origens; que sejamos apenas. Deixemos, por enquanto, a burra em paz e iniciemos o trajeto virgem. Anterior a qualquer descoberta. Impressentido por todos os oráculos que porventura antecederam a nossa existência enquanto tribo — ou grupo de tribo autóctones. A Grande Taba está de braços abertos. Os pajés em festa. Nesse triunfo de maracatus e maracás, brincamos com a civilização, mesmo suportando, com incrível galhardia, as suas mais refinadas e complicadíssimas técnicas, apenas pelo masoquístico prazer de nos abrirmos para o mundo, numa diversão que vem nos custando não só os olhos da cara, mas a cara toda. Somos um povo em festa, um povo que faz de sua euforia a condição final do seu projeto de ser. Que não é um projeto: já nascemos prontos. Ao contrário de Minerva, que já nasceu armada, surgimos justamente desarmados da cabeça aos pés. Nosso primeiro postulado filosófico seria o seguinte: as coisas não estão aqui para serem pensadas; as coisas parecem não se encaminhar a nenhum destino: estão como existência apenas no hoje, num hoje pronto e acabado que é em si mesmo o seu próprio futuro. No futebol, no samba e no carnaval, já temos a senha dialética dos três estágios que não lograram sequer ser atingidos pelo nosso esforço, pois nos foram dados simultânea e instantaneamente sem nenhuma necessidade de síntese, sem nenhum percalço lógico ou metafísico. A nossa metafísica se deixa expressar pelo mais simples dos axiomas: na prática, a teoria é outra. O que significa dizer: não fomos feitos para as teorias. Contamos com uma prática, e, antes mesmo de se constituir numa improvisação nossa, já nasceu um dom que dispensou a conquista. Sambamos, jogamos e brincamos carnaval, logo, existimos. Não há necessidade de um projeto criador da história. Nossa história é esse rodízio constante que, todavia, redunda no mesmo. Mas nada disso importa. Eis o que nos importa: aqui não há tradição, há só presente. É como se o que houvesse de comum até agora, entre os homens, tivesse que ser revisado ou transmutado por uma experiência inteiramente nova de ser. Por exemplo: essa disponibilidade — ou bem mais uma docilidade que nos é nata — de aceitar e compreender tudo o que é alienígena, e só porque é alienígena, é que não nos deixa adquirir uma vida própria; pode ser um curioso sintoma da nossa mais radical diferenciação. E tanto isso pode ser interpretado como um desencontro conosco, um repúdio às raízes, para melhor acolher o que for corpo estranho — tal se fatalmente tivéssemos que nos virar sempre no outro —, como pode sugerir ou apontar para um novo estágio de cultura sequer adivinhado por nenhum povo. O problema é saber a que isso nos leva. [...]. Veja mais aqui e aqui.

TERRA DE CARUARU – O romance Terra de Caruaru (Civilização Brasileira, 1977), de escritor e jornalista José Condé (1917-1971), trata dos conflitos gerados pela transição do mundo rural, tradicional e violento, para a cidade, a qual todos esperavam progresso. Elogiado por Otto Maria Carpeau, o livro traça um panorama do cotidiano das cidades do interior nordestino, com seus coronéis, cangaceiros, místicos, prostitutas, frustrados, crianças e bichos, bêbados e poetas, oportunistas e sonhadores, cujas vidas se cruzam e se modificam para melhor ou para pior. Da obra destaco o trecho: Passara estação das chuvas e o tempo se prolongava numa agonia de sol e mormaço. De quando em vez uma rajada de vento investia contra a galharia, erguendo grossas nuvens de poeira amarela e quente. Um silêncio de fim de mundo descendo das serras e serrotes, envolvia o rancho onde os tangerinos, em redes armadas no avarandado, olhavam, atônitos, um céu azul agressivo. Então o bredo murchou. Quando os bichos de quatro pés o mastigaram pela primeira vez, estava sendo escrita a página inicial da fundação de uma cidade. Foram morrendo consumidos pela diarreia e a paralisia. De saída, os bezerros, depois os novilhos, por fim o gado maduro. Os vaqueiros assistiam a tudo sem compreender, embora sentissem na própria carne a desgraça que sobre eles se abatera. Outras boiadas desceram do alto sertão e tiveram destino idêntico. Os cariris – por sua vez – intensificaram os ataques e semearam o terror em toda a chapada da Borborema. Um dia, alguém disse: - Lugar maldito. Então, as mandas mudaram de rumo em busca de outros pousos, permaneceram, apenas, o rancho arruinado e um nome maldito: Caruaru – afora o silêncio doloroso preso no coração do carrascal. Mas as chuvas foram abundantes no ano seguinte. O pasto verde voltou a crescer. O rio Ipojuca se esponjou em vazantes de limo fértil. Floresceram os pés de baunilha, jurubeba, sassafrás, velame, jucá, jurema e pau-d’alho. O cheiro de terra molhada amaciava os ares. O inverno era assim: uma solicitação para a vida [...] Veja mais aqui.

SENHOR SÃO JOÃO, XENHENHÉM, QUADRILHA & NORDESTE – No livro Poemas de Ascenso Ferreira: catimbó, cana caiana e xenhenhém (Nordestal, 1981), do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956), encontro de cara o seu poema Senhor São João: Em frente à fogueira, / Zuza, espaduado, / benzeu-se sereno / e fez oração: / - Chô – Cão! / - Chô – Cão! / Depois levantou / a vista pro céu / pra ver se o espiava / Senhor São João. / E meteu os pés nuzinhos nas brasas de fogo quente! / - Danou-se, só quem tem os pés de sola! / Porém Zuza, vadiando, andou pra lá e pra cá! / Cachetando, se agachou, pondo fogo no cachimbo! / Depois, puxando a pistola, atirou fixe no chão! / - Viva Senhor São João! / - Vivôooo! Também encontrei o Xenhenhém nº 1: Todos os dias era a mesma a tua prosa: / “Sua amizade é criminosa! Isso não me convém”... / Mas logo após essa recusa mentirosa, / tudo um sonho cor-de-rosa, um queixoso xenhenhém... / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Porém, um dia, foi verdade a tua prosa! / E te foste, cautelosa, para o amor que te convém! / São pesadelos nossos sonhos cor-de-r0sa... / mas que coisa dolorosa, continha o xenhenhém! / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Coisa terrível é a gente querer bem! Há, ainda, o Xenhenhém nº 2: Em meio ás minhas muitas dores / talvez maiores do que o mundo / surges, às vezes, um segundo, / cheia de pérfidos langores. / Chegas sutil e sem rumores... / e até sinto o odor profundo / no qual eu sôfrego me inundo / - pária do amor, sonhando amores. / Depois, tu falas não sei donde... / és como um eco que responde / mas, sempre e sempre, além... além... / Súbito, encontro a casa ôca. / Não estás! – Meu Deus, que coisa louca, / só é na vida um xenhenhém! Já a Quadrilha de Caetano Norato é assim: A dança de Caetano Norato é uma procriação. / Nada de quadrilhas marcadas em francês: / Em avant tours! Chaíne de dames! / Chaíne de chevaliers! / Nidra! / A dança de Caetano Norato é assim: / - Atenção! Lá vai tempo! / - Damas por cima, cavaleiros por baixo! / - Damas por baixo, cavaleiros por cima! / - Pronto, seu mestre, chegou... Por fim o seu belíssimo Nordeste: O ferreiro malhando no topo das baraúnas. / Nas lombas da serrá o sol é de lascar... / Nem uma folha só fazendo movimento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me abanar... / Pouco a pouco, porém, vem vindo um vento frio / trazido pelas mãos de moça do luar... / Que gozo nos coqueiros acarinhados pelo vento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me esquentar... Veja mais aqui e aqui.

VIVA SÃO JOÃO – No livro Teatro a vapor (Cultrix/MEC, 1977), do poeta, dramaturgo e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), encontro o esquete Viva São João: No quintal da casa do João Ferreira, onde arde uma grande fogueira. Diversos grupos de senhoritas, rapazes e crianças soltam balões e foguetes, queimam pistolas, bombas, bichinhas, etc. Barulho e alegria. Todos se divertem, à exceção de D. Julia, cunhada do dono da casa, solteirona dos seus 45 anos de idade, que, sentada a um canto, vê e ouve tudo aquilo de mau humor. O Cipriano, um pândego, aproxima-se de d. Julia. CIPRIANO – A senhora está trista, d. Julia? D. JULIA – Que tem o senhor com isso? CIPRIANO (sem se ofender, porque já a conhece) – Não tenho nada... pergunto porque me interesso pela senhora... ainda hoje não a vi rir! D.J. – De que quer o senhor que eu ria? C – Quero que se divirta, como os outros... DJ – Agradeço-lhe pela atenção, mas não se incomode comigo (levanta-se com grosseria e afasta-se). JOÃO FERREIRA (aproximando-se de Cipriano) – Que foi isso? ... que dissesse à Julia que ela ficou tão zangada? C – Apenas lhe perguntei porque estava triste! Esta tua cunhada é muito esquisita! JF – Em dias de festa é o que se vê: como ficou pra tia, não pode estar satisfeita onde quer que estejam moças e rapazes. É insuportável!... Já lhe tenho dito que melhor seria trancar-se no seu quarto! C – Coitada! Deixa-a lá! JF – Além de ser feia e velha, é malcriada! Desde que perdeu, há dez anos, um casamento, que aliás seria a sua desgraça porque o noivo era um valdevinos, está sempre de mau humor, e não pode ver sem inveja os outros se divertirem. Com franqueza te digo que preferia uma sogra a esta cunha! (Vendo subir um balão) Viva São João!... A CRIANÇADA – Vivou!... JF – (Continuando) Entretanto, ali onde a vês, não perde as esperanças, coitada! Queres fazer uma experiência... por pandega?... Diz-lhe uma frase amável, namora-a e verás como fica outra! C – Nada! Nessa não caio eu!... JF – Por quê? C – Depois é que são elas! JF – Ora! Depois manda-a passear! Ela vem aí (dirigindo-se a D. Julia que passa) Ô maninha? DJ (Aproximando-se, de cara franzida) – Que é? JF – Aqui o nosso amigo Cipriano está molestado com você... você tratou-o mal... e, no entanto, ele simpatiza tanto com você... diz que você tem um olhar compassivo... (D. Julia sorri). C – E um sorriso, ai que sorriso!... HF (Baixo a D. Julia) Está caidinho... (Afasta-se). DJ (Amável, a Cipriano) – Não quis magoá-lo... perdoe... é que estou tão habituada ao escárnio... C – Não diga isso! Quem pode escarnecer de um anjo?.... DJ (faceirando-se) Um anjo! Meu Deus! Quem me dera ser um anjo! C – Os anjos não se conhecem! DJ – Oh, eu conheço-me... não tenho beleza, nem mocidade... C – Pode ser que para os outros; mas para mim... DJ – Cipriano! C – Que música tem as sílabas do meu nome proferidas por esses lábios! DJ (radiante de alegria, vendo subir um balão). Viva São João!... C – Venha, Júlia, venha soltar umas bichinhas... DJ – Prefiro uma pistola.... uma pistola com muitos tiros, sim? C – Viva São João! JF (aproximando-se, baixo) Eu não te dizia?... Veja mais aqui e aqui.

NOITE DE SÃO JOÃO – O premiado drama Noite de São João (2003), dirigido por Sérgio Silva e baseado na obra Senhorita Júlia, de Augusr Strindberg, adaptado por Rodrigo Portela, Paulo Berton e Sérgio, com trilha sonora de Ayres Potthoff, conta a história de famílias camponesas que se organizam para uma grande festa junina, enquanto umas das personagens termina seus afazeres na casa grande e espera seu noivo que trabalha como capataz na fazenda. Em meio as comemorações, a arrogante filha do fazendeiro aparece e, animada com o vinho tomado, chama o noivo dela pra dançar, aproveitando para relembrar a infância e revelar a ele seus sonhos íntimos. O cenário são os festejos juninos tão presentes no calendário brasileiro, tradição nordestina que tem se espalhado por Brasil com um dos acontecimentos tipicamente brasileiro. O filme arrebatou quatro Kikitos no Festival de Gramado e uma indicação no Grande Prêmio Cinema Brasil. O destaque da película é para a premiada atriz Dira Paz. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Desenho do escultor, pintor, ilustrador, desenhista, gravador e entalhador pernambucano José Barbosa (in: Poemas de Ascenso Ferreira. Nordestal, 1981).

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
 (Imagem: Xilogravura Dançando forró, de Severino Borges).
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