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segunda-feira, maio 15, 2017

EDUCAÇÃO DE RANCIÈRE, CINEMA & CALCANHOTO, ZORÁVIA BETTIOL, UMA VEZ & TODAS AS VEZES!

UMA VEZ & TODAS AS VEZES - (Imagem: foto AcervoLAM). - Era uma vez e eu sem saber de nada às fechaduras e olhares atrevidos pelos combongós, clarabóias, basculantes, brechas por cima do muro no galho da goiabeira e o afã de vê-la a intimidade no chão frio, a pele nua pro vício infantil embaixo das saias e decotes robustos da minha solidão. Era uma vez duas da tarde, aula cabulada na farda da menina que era a mocinha dos sonhos domingueiros todo dia e ela mais inocente que a fruta ao alcance da mão no quintal, desabotoava a blusa, levantava a saia às investidas impunes e buliçosas pro gozo escondido atrás da porta do quarto escuro das taras juvenis. Era uma vez duas ou três vezes, não mais que isso acertei na veia e o troféu no festejo espatifado às cinzas e eu era senão precoce na vida, teimoso de sempre, avexado que só e querendo tudo a errar demais da conta. Era uma vez duas quase três não mais que isso mesmo e uma lá acertei na vida, aliás, pra falar a verdade, nada deu certo, e deu certo assim mesmo, estou vivo porque quando era uma vez e toda as vezes teimava em viver além muros, fronteiras, interdições, a me valer de um super-homem reconhecendo o fracasso de ir adiante e às vezes mal podia voar aos pinotes por estradas e asfaltos entre os canaviais, dali quanta diáspora e o destino se desmanchava entre os dedos na confusão de ontens e amanhãs da dança louca das horas efêmeras. Era uma vez e nunca mais degolado pela burocracia dos experientes entre homúnculos e ensaios de gentes que se atracavam, beijavam e abraçavam, se hostilizavam mutuamente dias e noites no ajuste de contas e na tabela de preços pela feira das cabeças e reputações, com tudo ao dispor em excesso e a assistir tudo sem acreditar na pequenez da pouca vergonha e do mau-caratismo, quanta sujeição enojada e pulhas pendurados nos bolsos dos outros tantos servis da grana, porque cada um só vale o vintém e o que tem pra inveja dos outros sequazes, e eu que nunca tive nada, nunca fui nada, me perdi pelos descaminhos que restavam de caminhos congestionados por ganâncias, subornos e aleivosia, tudo perdido e esperança alguma no fim do túnel, nem um acalanto apenas por alento ou uma balada que seja pra embalar o muro à cabeça tantas vezes repetidas, um canto ao menos que dissesse vamos lá, seque em frente, segura a onda, vai em paz pelo que sonhou e o que resta de ilusão pra quem vai em voo solo no paradoxo da luz e da sombra, pisando em falso, na ponta dos dedos, por batizados e sepultamentos, novidades descartáveis, lançamentos obsoletos, jovens apodrecidas, limites superados, saia-justa e sem graça pelas fotos desbotadas, figurino fora de moda, pontos de vista e convicções, entretenimento da tevê ou jogo da vez do público e privado, deslumbrado e assustado num xadrez que não se sabe qual tabuleiro, porque o que antes era caso de polícia virou moda, é a última atualizada e nenhuma vez mais, uma só que seja, pro perdão ou recomposição, quase mais nada do que sente ou bate o coração, só festa e luxo entre escombros. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

DE EDUCAÇÃO, EMBRUTECIMENTO & EMANCIPAÇÃO
[...] a distância que a Escola e a sociedade pedagogizada pretendem reduzir é aquela de que vivem e que não cessam de reproduzir. Quem estabelece a igualdade como objetivo a ser atingido, a partir da situação de desigualdade, de fato a posterga até o infinito. A igualdade jamais vem após, como resultado a ser atingido. Ela deve sempre ser colocada antes. A própria desigualdade social já a supõe: aquele que obedece a uma ordem deve, primeiramente, compreender a ordem dada e, em seguida, compreender que deve obedecê-la. Deve, portanto, ser já igual a seu mestre, para submeter-se a ele. Não há ignorante que não saiba uma infinidade de coisas, e é sobre este saber, sobre esta capacidade em ato que todo ensino deve se fundar. Instruir pode, portanto, significar duas coisas absolutamente opostas: confirmar uma incapacidade pelo próprio ato que pretende reduzi-la ou, inversamente, forçar uma capacidade que se ignora ou se denega a se reconhecer e a desenvolver todas as consequências desse reconhecimento. O primeiro ato chama-se embrutecimento e o segundo, emancipação. [...].
Trecho da obra O mestre ignorante-cinco lições sobre a emancipação intelectual (Autêntica, 2013), do filósofo e professor francês Jacques Rancière. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Os cinco prêmios do amor, A história social da criança e da família de Philippe Ariès, Laços de família de Clarice Lispector, a música de Egberto Gismonti, a pintura de Gustav Klimt & Nelson Shanks aqui.

E mais:
A família, entidade familiar, paternidade/maternidade e as relações afetivas aqui.
Origem da vida – de onde eu vim? & Programa Tataritaritatá aqui.
Sexo, sexualidade, educação sexual & orientação sexual para educação materna/paterna aqui.
Vamos aprumar a conversa, Herzog de Saul Bellow, Ich de Arthur Schnitzler, a poesia de Ventura de la Vega, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Barbara Sukowa, a pintura de Jasper Johns, a música de Quaternaglia & Dorothea Röschmann aqui.
Brebotes nos clecks arruelados, Padre Bidião, Doutor Zé Gulu & South Park, Zé Bilola, Zé Corninho & Hussan Aref Saab aqui.
A arte de Tammy Luciano aqui.
É domingo nas mãos, A obra de arte & reprodução de Walter Benjamim, a poesia de Ascenso Ferreira & Chico Buarque, Enciclopédia do Cinema Brasileiro de Fernão Ramos e Luiz Felipe, a arte de Nora Dorian, a pintura de Giuseppe Cacciapuoti & Umberto Brunelleschi aqui.
Aprendendo no compasso da vida, A psicologia social de Arthur Ramos, Sharon & a sogra de Suad Amiry, o pensamento de Roger Bacon, a música de Nação Zumbi, a pintura de Georges Ribemont-Dessaignes & Hans Richter, Transhumance for Peace & a arte de Jiddu Saldanha aqui.
O dia amanhece e é maravilhoso viver, o pensamento de Aristóteles, A literatura brasileira de Afrânio Coutinho, o teatro de Françoise Sagan & Catherine Deneuve, a música de Bach & Maggie Cole, A sinfonia pornográfica de Charles Baptiste, Arte Yoga, a arte de Hannah Höch & Orly Faya aqui.
A filharada de Zé Corninho, O homem, a mulher & a natureza de Alan Watts, Travessia marítima de Thomas Mann, O casamento de Anne Morrow Lindbergh, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, a música de Charlotte Moorman, Emmanuelle Seigner, a arte de Hansen Bahia & Attila Richard Lukacs aqui.
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros e Cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, a poesia de cordel de Serrador, a música da Orquestra Armorial & Cussy de Almeida, a arte erótica de Roberto Burle Marx, O casamento de Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a arte de Vermelho & Severino Borges, a xilogravura de J. Miguel & Costa Leite aqui.
Entre nós, vivo você, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, a música de Sivuca, Cancão de Fogo de Jairo Lima, a poesia de Belarmino França, a arte de Lasar Segall & Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Dos bichos de todas as feras e mansas, O romance da Besta Fubana de Luiz Berto, Cantadores de Leonardo Mota, O martelo alagoano de Manoel Chelé,  o ativismo de, Brigitte Mohnhaupt, a escultura de Antoni Gaudí, a música do Duo Backer, a xilogravura de J. Borges & a arte de Natalia Fabia aqui.
Fecamepa: quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
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A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
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AMORES IMPOSSÍVEIS: POR QUE VOCÊ FAZ CINEMA?
Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de sequências, dó de peito
Para viver à beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo
Porque de outro jeito a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi "simão no deserto"
Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como "cachorros dentro d'água" no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais.
Música Por que você faz cinema?, de Adriana Calcanhoto & Joaquim Pedro de Andrade, integrante da trilha sonora do filme Celeste & Estrela (2005), dirigido por Betse de Paula, contando sobre a dificuldade de fazer cinema no Brasil vivida por um casal, o funcionário público Estrela e a diretora Celeste, que se amam enquanto procuram realizar um filme, cujo destaque fica por conta da atuação da atriz Dira Paz. Música extraída do álbum A Fábrica do Poema (Epic, 1994), da cantora e compositora Adriana Calcanhoto. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica e arte educadora Zorávia Bettiol.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

quarta-feira, junho 24, 2015

VIVA SÃO JOÃO, ASCENSO, CONDÉ, AZEVEDO, ÂNGELO, GONZAGÃO, BARBOSA & BRINCARTE DO NITOLINO!


VIVA SÃO JOÃO – (Imagem: Festa Junina, óleo sobre tela da artista plástica Rosangela Borges). A moagem começava entre os fins de agosto e início de setembro e se prolongava até os meses de abril ou maio. E quando chegava o mês de junho, aí a festa era toda voltada para a abundância e prosperidade da colheita na safra canavieira. Era o momento dos festejos juninos e da entressafra sucroalcooleira. Nesse período eu, Marquinhos & Marcelo – o trio do maior trupé de traquinagem na meninice de bundacanasca– aprontávamos das nossas. Eis que um dia, a gente jogando pedra a esmo na direção onde desse o nariz, maínha fez a gente armar uma fogueira. Foi a única vez que ela decidiu por isso. Fez a gente fazer – como quem arranja uma lavagem de roupa da boa – porque que já lhe consumíamos o juízo com nossas presepadas. E era ajuntar todo tipo de lenha e graveto para dar vez a uma fogueira e agradecer aos céus as boas colheitas e boas vindas à invernada que não agitasse o rio numa cheia medonha. Lá foi a gente à cata das coisas exigidas. Bem depois do meio da tarde, o monturo estava feito. Marquinhos mais velho e mais afoito era o organizador. Eu e Marcelo, seus serviçais. Ordem prali, bota aqui, ajeita assim e lá vai. Por volta das cinco da tarde, estava aquele arranha-céu mais parecendo com as ventas da gente: uma desarrumação só. Marquinhos foi de afoito e deu banho de querosene na madeira e tascou fogo. O fogaréu comeu no centro de atrapalhar a passagem dos pedestres e veículos. Mas tinha um detalhe: se a fogueira se desarrumasse espalhada no terreiro, era atraso de vida pro dono da casa. Agouro dos brabos. Destá. A coisa se acomodou a contento sem desastres, a ponto dele pegar um cotoco de pau aceso em brasa e ficar se amostrando. Marcelo que não perdia a vez dele, logo pegou outro graveto e ficou com o fogaréu soltando dos seus peidinhos: um jato danado saía dos seus borborigmos. Eu, mais medroso e não querendo brincadeira com fogo, ficava olhando no meu alvoroço. Aí Marquinhos desafiava Marcelo pra aproximar mais e fazer que nem ele: botar um jato bom na flatulência. Arrepara só, a presepada. Isso vai e vem, os dois apostando, Marcelo alinhou a caixa dos peitos e anunciou soltar o maior de todos. Resultado: um buraco queimado na bunda do calção. Três dias encarriados e de bruços no ai oi só à base de Hipoglós. Do lado de fora, eu e Marquinhos só fazendo coro ao Gonzagão: [...] Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo [...] O céu estava azul em festa pois era noite de São João [...]. Veja mais aqui.
 Imagem: Festa Junina, da artista plástica Valquíria Barros.


Curtindo Viva Gonzagão! É forró, é xote, é baião (BMG, 1994), numa homenagem ao Rei do Baião Luiz Gonzaga com Alceu Valença, Dominguinhos, Chico Buarque, Sivuca, Geraldo Azevedo, Oswaldinho, Quinteto Violado, Gonzaguinha, Fagner & Marinês, Alcione, Zé Ramalho e Forró Mastruz com Leite. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: REPRISE DO PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpaticíssima Ísis Corrêa Naves. A programação conta com apresentação de poesias, músicas, brincadeiras, informações, dicas e muito entretenimento para a garotada. Além do mais, no blog do Brincarte do Nitolino você pode conferir resumos, resenhas, artigos e informações acerca da Psicologia Infantil, da Educação Infantil, do Direito das Crianças e dos Adolescentes, do Teatro Infantil, da Literatura Infantil e da Música Infantil, além de curtir poesias, lendas, brincadeiras, pinturas, desenhos e muitas outras atrações pra garotada. Para conferir o programa online clique aqui ou aqui.

TRATADO DA LAVAÇÃO DA BURRA – O livro Tratado da lavação da burra ou Introdução à transcendência brasileira (Bagaço, 1986), do filósofo, poeta, professor e ensaísta Ângelo Monteiro, obteve do ensaísta e conferencista Olavo de Carvalho o seguinte comentário: “O poeta e filósofo alagoano Ângelo Monteiro nos oferece em todos os ensaios deste livro, em especial nas páginas memoráveis do "Tratado da Lavação da Burra", talvez a mais dramática tentativa que alguém já fez para oferecer à pergunta ‘Que é ser Brasileiro?’ uma resposta ontologicamente significativa". Também o escritor e advogado Nelson Saldanha assim se expressou: "No texto de Ângelo Monteiro,"Tratado da Lavação da Burra", redigido entre o surrealista e o irônico, entre a anotação alongada e a exposição sintética, estão presentes, como possíveis arquétipos, os modelos satíricos de todas as épocas; e sua linguagem, que ora é aforística ora coloquial, acompanha com um pouco de pressa as associações de ideias do leitor, que vai a cada passo se surpreendendo". Trata-se de um ensaio sobre o Brasil, do qual destaco o trecho inicial Vamos lavar a burra: De início pode parecer esotérico o pontifical apelo para que todos “lavem a burra”. A “sua” burra. Mas para que se entenda semelhante prodígio se fará necessário, antes de tudo, que não tenhamos princípio; que não conheçamos origens; que sejamos apenas. Deixemos, por enquanto, a burra em paz e iniciemos o trajeto virgem. Anterior a qualquer descoberta. Impressentido por todos os oráculos que porventura antecederam a nossa existência enquanto tribo — ou grupo de tribo autóctones. A Grande Taba está de braços abertos. Os pajés em festa. Nesse triunfo de maracatus e maracás, brincamos com a civilização, mesmo suportando, com incrível galhardia, as suas mais refinadas e complicadíssimas técnicas, apenas pelo masoquístico prazer de nos abrirmos para o mundo, numa diversão que vem nos custando não só os olhos da cara, mas a cara toda. Somos um povo em festa, um povo que faz de sua euforia a condição final do seu projeto de ser. Que não é um projeto: já nascemos prontos. Ao contrário de Minerva, que já nasceu armada, surgimos justamente desarmados da cabeça aos pés. Nosso primeiro postulado filosófico seria o seguinte: as coisas não estão aqui para serem pensadas; as coisas parecem não se encaminhar a nenhum destino: estão como existência apenas no hoje, num hoje pronto e acabado que é em si mesmo o seu próprio futuro. No futebol, no samba e no carnaval, já temos a senha dialética dos três estágios que não lograram sequer ser atingidos pelo nosso esforço, pois nos foram dados simultânea e instantaneamente sem nenhuma necessidade de síntese, sem nenhum percalço lógico ou metafísico. A nossa metafísica se deixa expressar pelo mais simples dos axiomas: na prática, a teoria é outra. O que significa dizer: não fomos feitos para as teorias. Contamos com uma prática, e, antes mesmo de se constituir numa improvisação nossa, já nasceu um dom que dispensou a conquista. Sambamos, jogamos e brincamos carnaval, logo, existimos. Não há necessidade de um projeto criador da história. Nossa história é esse rodízio constante que, todavia, redunda no mesmo. Mas nada disso importa. Eis o que nos importa: aqui não há tradição, há só presente. É como se o que houvesse de comum até agora, entre os homens, tivesse que ser revisado ou transmutado por uma experiência inteiramente nova de ser. Por exemplo: essa disponibilidade — ou bem mais uma docilidade que nos é nata — de aceitar e compreender tudo o que é alienígena, e só porque é alienígena, é que não nos deixa adquirir uma vida própria; pode ser um curioso sintoma da nossa mais radical diferenciação. E tanto isso pode ser interpretado como um desencontro conosco, um repúdio às raízes, para melhor acolher o que for corpo estranho — tal se fatalmente tivéssemos que nos virar sempre no outro —, como pode sugerir ou apontar para um novo estágio de cultura sequer adivinhado por nenhum povo. O problema é saber a que isso nos leva. [...]. Veja mais aqui e aqui.

TERRA DE CARUARU – O romance Terra de Caruaru (Civilização Brasileira, 1977), de escritor e jornalista José Condé (1917-1971), trata dos conflitos gerados pela transição do mundo rural, tradicional e violento, para a cidade, a qual todos esperavam progresso. Elogiado por Otto Maria Carpeau, o livro traça um panorama do cotidiano das cidades do interior nordestino, com seus coronéis, cangaceiros, místicos, prostitutas, frustrados, crianças e bichos, bêbados e poetas, oportunistas e sonhadores, cujas vidas se cruzam e se modificam para melhor ou para pior. Da obra destaco o trecho: Passara estação das chuvas e o tempo se prolongava numa agonia de sol e mormaço. De quando em vez uma rajada de vento investia contra a galharia, erguendo grossas nuvens de poeira amarela e quente. Um silêncio de fim de mundo descendo das serras e serrotes, envolvia o rancho onde os tangerinos, em redes armadas no avarandado, olhavam, atônitos, um céu azul agressivo. Então o bredo murchou. Quando os bichos de quatro pés o mastigaram pela primeira vez, estava sendo escrita a página inicial da fundação de uma cidade. Foram morrendo consumidos pela diarreia e a paralisia. De saída, os bezerros, depois os novilhos, por fim o gado maduro. Os vaqueiros assistiam a tudo sem compreender, embora sentissem na própria carne a desgraça que sobre eles se abatera. Outras boiadas desceram do alto sertão e tiveram destino idêntico. Os cariris – por sua vez – intensificaram os ataques e semearam o terror em toda a chapada da Borborema. Um dia, alguém disse: - Lugar maldito. Então, as mandas mudaram de rumo em busca de outros pousos, permaneceram, apenas, o rancho arruinado e um nome maldito: Caruaru – afora o silêncio doloroso preso no coração do carrascal. Mas as chuvas foram abundantes no ano seguinte. O pasto verde voltou a crescer. O rio Ipojuca se esponjou em vazantes de limo fértil. Floresceram os pés de baunilha, jurubeba, sassafrás, velame, jucá, jurema e pau-d’alho. O cheiro de terra molhada amaciava os ares. O inverno era assim: uma solicitação para a vida [...] Veja mais aqui.

SENHOR SÃO JOÃO, XENHENHÉM, QUADRILHA & NORDESTE – No livro Poemas de Ascenso Ferreira: catimbó, cana caiana e xenhenhém (Nordestal, 1981), do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956), encontro de cara o seu poema Senhor São João: Em frente à fogueira, / Zuza, espaduado, / benzeu-se sereno / e fez oração: / - Chô – Cão! / - Chô – Cão! / Depois levantou / a vista pro céu / pra ver se o espiava / Senhor São João. / E meteu os pés nuzinhos nas brasas de fogo quente! / - Danou-se, só quem tem os pés de sola! / Porém Zuza, vadiando, andou pra lá e pra cá! / Cachetando, se agachou, pondo fogo no cachimbo! / Depois, puxando a pistola, atirou fixe no chão! / - Viva Senhor São João! / - Vivôooo! Também encontrei o Xenhenhém nº 1: Todos os dias era a mesma a tua prosa: / “Sua amizade é criminosa! Isso não me convém”... / Mas logo após essa recusa mentirosa, / tudo um sonho cor-de-rosa, um queixoso xenhenhém... / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Porém, um dia, foi verdade a tua prosa! / E te foste, cautelosa, para o amor que te convém! / São pesadelos nossos sonhos cor-de-r0sa... / mas que coisa dolorosa, continha o xenhenhém! / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Coisa terrível é a gente querer bem! Há, ainda, o Xenhenhém nº 2: Em meio ás minhas muitas dores / talvez maiores do que o mundo / surges, às vezes, um segundo, / cheia de pérfidos langores. / Chegas sutil e sem rumores... / e até sinto o odor profundo / no qual eu sôfrego me inundo / - pária do amor, sonhando amores. / Depois, tu falas não sei donde... / és como um eco que responde / mas, sempre e sempre, além... além... / Súbito, encontro a casa ôca. / Não estás! – Meu Deus, que coisa louca, / só é na vida um xenhenhém! Já a Quadrilha de Caetano Norato é assim: A dança de Caetano Norato é uma procriação. / Nada de quadrilhas marcadas em francês: / Em avant tours! Chaíne de dames! / Chaíne de chevaliers! / Nidra! / A dança de Caetano Norato é assim: / - Atenção! Lá vai tempo! / - Damas por cima, cavaleiros por baixo! / - Damas por baixo, cavaleiros por cima! / - Pronto, seu mestre, chegou... Por fim o seu belíssimo Nordeste: O ferreiro malhando no topo das baraúnas. / Nas lombas da serrá o sol é de lascar... / Nem uma folha só fazendo movimento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me abanar... / Pouco a pouco, porém, vem vindo um vento frio / trazido pelas mãos de moça do luar... / Que gozo nos coqueiros acarinhados pelo vento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me esquentar... Veja mais aqui e aqui.

VIVA SÃO JOÃO – No livro Teatro a vapor (Cultrix/MEC, 1977), do poeta, dramaturgo e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), encontro o esquete Viva São João: No quintal da casa do João Ferreira, onde arde uma grande fogueira. Diversos grupos de senhoritas, rapazes e crianças soltam balões e foguetes, queimam pistolas, bombas, bichinhas, etc. Barulho e alegria. Todos se divertem, à exceção de D. Julia, cunhada do dono da casa, solteirona dos seus 45 anos de idade, que, sentada a um canto, vê e ouve tudo aquilo de mau humor. O Cipriano, um pândego, aproxima-se de d. Julia. CIPRIANO – A senhora está trista, d. Julia? D. JULIA – Que tem o senhor com isso? CIPRIANO (sem se ofender, porque já a conhece) – Não tenho nada... pergunto porque me interesso pela senhora... ainda hoje não a vi rir! D.J. – De que quer o senhor que eu ria? C – Quero que se divirta, como os outros... DJ – Agradeço-lhe pela atenção, mas não se incomode comigo (levanta-se com grosseria e afasta-se). JOÃO FERREIRA (aproximando-se de Cipriano) – Que foi isso? ... que dissesse à Julia que ela ficou tão zangada? C – Apenas lhe perguntei porque estava triste! Esta tua cunhada é muito esquisita! JF – Em dias de festa é o que se vê: como ficou pra tia, não pode estar satisfeita onde quer que estejam moças e rapazes. É insuportável!... Já lhe tenho dito que melhor seria trancar-se no seu quarto! C – Coitada! Deixa-a lá! JF – Além de ser feia e velha, é malcriada! Desde que perdeu, há dez anos, um casamento, que aliás seria a sua desgraça porque o noivo era um valdevinos, está sempre de mau humor, e não pode ver sem inveja os outros se divertirem. Com franqueza te digo que preferia uma sogra a esta cunha! (Vendo subir um balão) Viva São João!... A CRIANÇADA – Vivou!... JF – (Continuando) Entretanto, ali onde a vês, não perde as esperanças, coitada! Queres fazer uma experiência... por pandega?... Diz-lhe uma frase amável, namora-a e verás como fica outra! C – Nada! Nessa não caio eu!... JF – Por quê? C – Depois é que são elas! JF – Ora! Depois manda-a passear! Ela vem aí (dirigindo-se a D. Julia que passa) Ô maninha? DJ (Aproximando-se, de cara franzida) – Que é? JF – Aqui o nosso amigo Cipriano está molestado com você... você tratou-o mal... e, no entanto, ele simpatiza tanto com você... diz que você tem um olhar compassivo... (D. Julia sorri). C – E um sorriso, ai que sorriso!... HF (Baixo a D. Julia) Está caidinho... (Afasta-se). DJ (Amável, a Cipriano) – Não quis magoá-lo... perdoe... é que estou tão habituada ao escárnio... C – Não diga isso! Quem pode escarnecer de um anjo?.... DJ (faceirando-se) Um anjo! Meu Deus! Quem me dera ser um anjo! C – Os anjos não se conhecem! DJ – Oh, eu conheço-me... não tenho beleza, nem mocidade... C – Pode ser que para os outros; mas para mim... DJ – Cipriano! C – Que música tem as sílabas do meu nome proferidas por esses lábios! DJ (radiante de alegria, vendo subir um balão). Viva São João!... C – Venha, Júlia, venha soltar umas bichinhas... DJ – Prefiro uma pistola.... uma pistola com muitos tiros, sim? C – Viva São João! JF (aproximando-se, baixo) Eu não te dizia?... Veja mais aqui e aqui.

NOITE DE SÃO JOÃO – O premiado drama Noite de São João (2003), dirigido por Sérgio Silva e baseado na obra Senhorita Júlia, de Augusr Strindberg, adaptado por Rodrigo Portela, Paulo Berton e Sérgio, com trilha sonora de Ayres Potthoff, conta a história de famílias camponesas que se organizam para uma grande festa junina, enquanto umas das personagens termina seus afazeres na casa grande e espera seu noivo que trabalha como capataz na fazenda. Em meio as comemorações, a arrogante filha do fazendeiro aparece e, animada com o vinho tomado, chama o noivo dela pra dançar, aproveitando para relembrar a infância e revelar a ele seus sonhos íntimos. O cenário são os festejos juninos tão presentes no calendário brasileiro, tradição nordestina que tem se espalhado por Brasil com um dos acontecimentos tipicamente brasileiro. O filme arrebatou quatro Kikitos no Festival de Gramado e uma indicação no Grande Prêmio Cinema Brasil. O destaque da película é para a premiada atriz Dira Paz. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Desenho do escultor, pintor, ilustrador, desenhista, gravador e entalhador pernambucano José Barbosa (in: Poemas de Ascenso Ferreira. Nordestal, 1981).

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
 (Imagem: Xilogravura Dançando forró, de Severino Borges).
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Veja mais sobre:
Quando tudo é manhã do dia pra noite, Agonia da noite de Jorge Amado, Posthuman bodies de Halbertam & Livingstone, a música de Bizet & Adriana Damato, Folclore musical de Wagner Ribeiro, a pintura de Aleksandr Fayvisovich & Bryan Thompson, a fotografia de Christian Coigny, a arte de Mirai Mizue & Luciah Lopez aqui.

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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...