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quinta-feira, junho 23, 2016

JOSÉ CONDÉ, BURLE MARX, CUSSY DE ALMEIDA, CASCUDO, SERRADOR, RUTINALDO MIRANDA, SEVERINO BORGES, J. MIGUEL & VERMELHO


QUADRILHA DAS PAIXÕES MAIS INTENSAS – Imagem: A quadrilha, xilogravura de J. Miguel - As hostilidades pairavam tenebrosas nas imediações porque o pai da noiva prenha estava injuriado, arrancando os cabelos da venta e da barba, virado na gota serena e cagando raios. Tudo isso, justamente, por causa de um lazarento dum cabra muito do folgado e medroso que descabaçou a jovem donzela, morrendo de medo dele e, quando do comprovado embuchamento, se escafedera para lugar incerto e não sabido. Como o irmão do ultrajado era o sargento que fazia a vez de delegado na província de Alagoinhanduba, logo botou o destacamento de prontidão à caça do fugitivo. Nessa hora tudo estava fora dos conformes, o padre nervoso não parava de olhar para o relógio e a mundiça toda em volta estava em polvorosa. A qualquer momento a espoleta da desgraça podia ser acionada e não havia como medir as consequências. Por graça divina, eis que no maior agitado aponta o batalhão em marcha arretada no oitão da casa, abrindo espaço entre o povaréu e trazendo o salafrário pendurado pelos colhões. – Pronto! Agora pode começar o casório, seu padre! E ligeiro que ainda quero dar uma pisa nesse safado! -, gritou o sargento dando início à solenidade matrimonial. Todo mundo a postos, casal, padrinhos e familiares, começou o teitei que não durou mais de quinze minutos, encerrando logo após o sim dos noivos. Festa entre os convivas. Logo o que parecia malsinado foi transformado num foguetório que comeu no centro esvoaçando as bandeirolas e incendiando os esqueletos ao som da sanfona, zabumba e triângulo, no maior trupe de pé-de-serra dando o tom dos festejos. O cantor logo começou: - Vamos organizar a quadrilha! Nessa hora as moças casamenteiras ajeitaram o busto, espremeram as carnes e empinaram os peitos, deitando olhares manhosos e safadinhos pros seus preferidos. Os rapazes serelepes se encheram empáfias e mesuras, ajeitando a gola e a fivela, pisando forte no salto da bota e castigando nos esssseesssss, largando prosa mole carregada de galanteios pra cima delas. Logo as piscadelas acenderam os risinhos das sonsas, fascinando os mancebos agora encorajados a uma intimidade vigiada e envolvida pelo eflúvio do idílio no ar. Os afetos à flor pele, toques inadvertidos e mãos bobas pra lá e pra cá, tornando todos os casais reféns das raias das paixões. Lábios, suspiros, latências, simpatias, preferências e estreitamentos, mão na mão, outra na cintura, passos ensaiando movimentos embalando os corações apaixonados e tudo além da festa fazem o congraçamento do amor. E os casais enamorados logo se juntam no meio do terreiro e os paqueradores aproveitam do momento pra catar suas damas e firmar namoro sério. Logo fazem filas e lá se vai todo mundo no balancê. – En avant tour! – grita o cantor e todo mundo responde: Alavantu! Anarriê. Returner! Os seus lugares. Cavalheiros cumprimentam as damas. As damas cumprimentam os cavalheiros. Trocar de lado, trocar de novo, aos seus lugares. Passeio, trocar de dama, damas trocam de cavalheiro, olha o túnel, não pode ir pras moitas, nem pras capoeiras, aos seus lugares. Seu delegado tem dois casais que se desviaram no meio do caminho, estão chambregando na chã do roçado! Dancê. Caminho da roça, olha a cobra, é mentira! Aos seus lugares. Caracol, desviar, fazer a grande roda, damas à esquerda, cavalheiros à direita, coroar as damas, coroar cavalheiros, duas rodas, reformar a grande roda, aos seus lugares, dancê. A despedida. É hora de arrodear a mesa e provar da canjica, pamonha, angu, arroz doce, bolo de milho, milho cozido, quentão, pipoca, cuscuz, cocada, rolete de cana, pé-de-moleque. Eita, como é bom namorar de barriga cheia. Bucho cheio atrapalha safadear. A fogueira queima para comemorar a fartura da safra, muitos pedidos pra São João e São Pedro. As vitalinas se arranjam com Santo Antonio pra arrumar casamento, se ajoelham, fazem promessas e se aprontam pra hora da simpatia: enterre uma faca virgem numa bananeira pra saber logo o nome do noivo que virá como príncipe encantado. A noite vai adentro na madrugada, no outro dia os noivos nem viram direito o que é lua de mel. A vida volta ao normal, o inverno vai aguar a terra e a botada da cana na primavera trará outra safra feliz. E assim caminha o canavial. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: nanquins da série Erótica, do arquiteto e pintor brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum Chamada (1975), da Orquestra Armorial, sob a regência do violinista, compositor e regente Cussy de Almeida (1936-2010). Veja mais aqui.

PESQUISA
O livro Vaqueiros e cantadores (1939 - Itatiaia/EdUsp, 1984), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui.

LEITURA 
O romance Terra de Caruaru (Civilização Brasileira, 1977), de escritor e jornalista José Condé (1917-1971), trata dos conflitos gerados pela transição do mundo rural, tradicional e violento, para a cidade, a qual todos esperavam progresso. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Eu me criei no sertão

E quase não tive escola

Mas aprendi a cantar

Dentro de toda bitola

Sem sair do meu terreiro

Nunca me faltou dinheiro

Cantando nesta viola
Setilha, ou verso de sete pés, do poeta cantador e repentista pernambucano Serrador - Manoel Leopoldino de Mendonça, nascido em meados do séc. XIX, em Bom Conselho (PE), onde faleceu em 1915. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Cartaz do espetáculo O Casamento de Maria Feia, comédia de Rutinaldo Miranda Batista Junior, encenada pela Cia de Teatro Na Arte a Verdade, com direção de Rod Pereira, contando a história dos irmãos Zé das Baratas e Matilde que cruzam com Lamparina, primo de Lampião, que procura um cabra macho para casar sua filha, a Maria Feia.

Veja mais sobre Anna Akhmátova, João Guimarães Rosa, Rozana Lanzelotte, Giambattista Vico, João Silvério Trevisan, Vilmar Lopes, Eliseo d'Angelo Visconti, Luiz de Barros, Dercy Gonçalves, Roberto Santos, Walter Carvalho & Moacir aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Desejo, do xilogravurista Vermelho.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Bandinha de pífano, xilogravura de Severino Borges.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.



quarta-feira, junho 24, 2015

VIVA SÃO JOÃO, ASCENSO, CONDÉ, AZEVEDO, ÂNGELO, GONZAGÃO, BARBOSA & BRINCARTE DO NITOLINO!


VIVA SÃO JOÃO – (Imagem: Festa Junina, óleo sobre tela da artista plástica Rosangela Borges). A moagem começava entre os fins de agosto e início de setembro e se prolongava até os meses de abril ou maio. E quando chegava o mês de junho, aí a festa era toda voltada para a abundância e prosperidade da colheita na safra canavieira. Era o momento dos festejos juninos e da entressafra sucroalcooleira. Nesse período eu, Marquinhos & Marcelo – o trio do maior trupé de traquinagem na meninice de bundacanasca– aprontávamos das nossas. Eis que um dia, a gente jogando pedra a esmo na direção onde desse o nariz, maínha fez a gente armar uma fogueira. Foi a única vez que ela decidiu por isso. Fez a gente fazer – como quem arranja uma lavagem de roupa da boa – porque que já lhe consumíamos o juízo com nossas presepadas. E era ajuntar todo tipo de lenha e graveto para dar vez a uma fogueira e agradecer aos céus as boas colheitas e boas vindas à invernada que não agitasse o rio numa cheia medonha. Lá foi a gente à cata das coisas exigidas. Bem depois do meio da tarde, o monturo estava feito. Marquinhos mais velho e mais afoito era o organizador. Eu e Marcelo, seus serviçais. Ordem prali, bota aqui, ajeita assim e lá vai. Por volta das cinco da tarde, estava aquele arranha-céu mais parecendo com as ventas da gente: uma desarrumação só. Marquinhos foi de afoito e deu banho de querosene na madeira e tascou fogo. O fogaréu comeu no centro de atrapalhar a passagem dos pedestres e veículos. Mas tinha um detalhe: se a fogueira se desarrumasse espalhada no terreiro, era atraso de vida pro dono da casa. Agouro dos brabos. Destá. A coisa se acomodou a contento sem desastres, a ponto dele pegar um cotoco de pau aceso em brasa e ficar se amostrando. Marcelo que não perdia a vez dele, logo pegou outro graveto e ficou com o fogaréu soltando dos seus peidinhos: um jato danado saía dos seus borborigmos. Eu, mais medroso e não querendo brincadeira com fogo, ficava olhando no meu alvoroço. Aí Marquinhos desafiava Marcelo pra aproximar mais e fazer que nem ele: botar um jato bom na flatulência. Arrepara só, a presepada. Isso vai e vem, os dois apostando, Marcelo alinhou a caixa dos peitos e anunciou soltar o maior de todos. Resultado: um buraco queimado na bunda do calção. Três dias encarriados e de bruços no ai oi só à base de Hipoglós. Do lado de fora, eu e Marquinhos só fazendo coro ao Gonzagão: [...] Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo [...] O céu estava azul em festa pois era noite de São João [...]. Veja mais aqui.
 Imagem: Festa Junina, da artista plástica Valquíria Barros.


Curtindo Viva Gonzagão! É forró, é xote, é baião (BMG, 1994), numa homenagem ao Rei do Baião Luiz Gonzaga com Alceu Valença, Dominguinhos, Chico Buarque, Sivuca, Geraldo Azevedo, Oswaldinho, Quinteto Violado, Gonzaguinha, Fagner & Marinês, Alcione, Zé Ramalho e Forró Mastruz com Leite. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: REPRISE DO PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpaticíssima Ísis Corrêa Naves. A programação conta com apresentação de poesias, músicas, brincadeiras, informações, dicas e muito entretenimento para a garotada. Além do mais, no blog do Brincarte do Nitolino você pode conferir resumos, resenhas, artigos e informações acerca da Psicologia Infantil, da Educação Infantil, do Direito das Crianças e dos Adolescentes, do Teatro Infantil, da Literatura Infantil e da Música Infantil, além de curtir poesias, lendas, brincadeiras, pinturas, desenhos e muitas outras atrações pra garotada. Para conferir o programa online clique aqui ou aqui.

TRATADO DA LAVAÇÃO DA BURRA – O livro Tratado da lavação da burra ou Introdução à transcendência brasileira (Bagaço, 1986), do filósofo, poeta, professor e ensaísta Ângelo Monteiro, obteve do ensaísta e conferencista Olavo de Carvalho o seguinte comentário: “O poeta e filósofo alagoano Ângelo Monteiro nos oferece em todos os ensaios deste livro, em especial nas páginas memoráveis do "Tratado da Lavação da Burra", talvez a mais dramática tentativa que alguém já fez para oferecer à pergunta ‘Que é ser Brasileiro?’ uma resposta ontologicamente significativa". Também o escritor e advogado Nelson Saldanha assim se expressou: "No texto de Ângelo Monteiro,"Tratado da Lavação da Burra", redigido entre o surrealista e o irônico, entre a anotação alongada e a exposição sintética, estão presentes, como possíveis arquétipos, os modelos satíricos de todas as épocas; e sua linguagem, que ora é aforística ora coloquial, acompanha com um pouco de pressa as associações de ideias do leitor, que vai a cada passo se surpreendendo". Trata-se de um ensaio sobre o Brasil, do qual destaco o trecho inicial Vamos lavar a burra: De início pode parecer esotérico o pontifical apelo para que todos “lavem a burra”. A “sua” burra. Mas para que se entenda semelhante prodígio se fará necessário, antes de tudo, que não tenhamos princípio; que não conheçamos origens; que sejamos apenas. Deixemos, por enquanto, a burra em paz e iniciemos o trajeto virgem. Anterior a qualquer descoberta. Impressentido por todos os oráculos que porventura antecederam a nossa existência enquanto tribo — ou grupo de tribo autóctones. A Grande Taba está de braços abertos. Os pajés em festa. Nesse triunfo de maracatus e maracás, brincamos com a civilização, mesmo suportando, com incrível galhardia, as suas mais refinadas e complicadíssimas técnicas, apenas pelo masoquístico prazer de nos abrirmos para o mundo, numa diversão que vem nos custando não só os olhos da cara, mas a cara toda. Somos um povo em festa, um povo que faz de sua euforia a condição final do seu projeto de ser. Que não é um projeto: já nascemos prontos. Ao contrário de Minerva, que já nasceu armada, surgimos justamente desarmados da cabeça aos pés. Nosso primeiro postulado filosófico seria o seguinte: as coisas não estão aqui para serem pensadas; as coisas parecem não se encaminhar a nenhum destino: estão como existência apenas no hoje, num hoje pronto e acabado que é em si mesmo o seu próprio futuro. No futebol, no samba e no carnaval, já temos a senha dialética dos três estágios que não lograram sequer ser atingidos pelo nosso esforço, pois nos foram dados simultânea e instantaneamente sem nenhuma necessidade de síntese, sem nenhum percalço lógico ou metafísico. A nossa metafísica se deixa expressar pelo mais simples dos axiomas: na prática, a teoria é outra. O que significa dizer: não fomos feitos para as teorias. Contamos com uma prática, e, antes mesmo de se constituir numa improvisação nossa, já nasceu um dom que dispensou a conquista. Sambamos, jogamos e brincamos carnaval, logo, existimos. Não há necessidade de um projeto criador da história. Nossa história é esse rodízio constante que, todavia, redunda no mesmo. Mas nada disso importa. Eis o que nos importa: aqui não há tradição, há só presente. É como se o que houvesse de comum até agora, entre os homens, tivesse que ser revisado ou transmutado por uma experiência inteiramente nova de ser. Por exemplo: essa disponibilidade — ou bem mais uma docilidade que nos é nata — de aceitar e compreender tudo o que é alienígena, e só porque é alienígena, é que não nos deixa adquirir uma vida própria; pode ser um curioso sintoma da nossa mais radical diferenciação. E tanto isso pode ser interpretado como um desencontro conosco, um repúdio às raízes, para melhor acolher o que for corpo estranho — tal se fatalmente tivéssemos que nos virar sempre no outro —, como pode sugerir ou apontar para um novo estágio de cultura sequer adivinhado por nenhum povo. O problema é saber a que isso nos leva. [...]. Veja mais aqui e aqui.

TERRA DE CARUARU – O romance Terra de Caruaru (Civilização Brasileira, 1977), de escritor e jornalista José Condé (1917-1971), trata dos conflitos gerados pela transição do mundo rural, tradicional e violento, para a cidade, a qual todos esperavam progresso. Elogiado por Otto Maria Carpeau, o livro traça um panorama do cotidiano das cidades do interior nordestino, com seus coronéis, cangaceiros, místicos, prostitutas, frustrados, crianças e bichos, bêbados e poetas, oportunistas e sonhadores, cujas vidas se cruzam e se modificam para melhor ou para pior. Da obra destaco o trecho: Passara estação das chuvas e o tempo se prolongava numa agonia de sol e mormaço. De quando em vez uma rajada de vento investia contra a galharia, erguendo grossas nuvens de poeira amarela e quente. Um silêncio de fim de mundo descendo das serras e serrotes, envolvia o rancho onde os tangerinos, em redes armadas no avarandado, olhavam, atônitos, um céu azul agressivo. Então o bredo murchou. Quando os bichos de quatro pés o mastigaram pela primeira vez, estava sendo escrita a página inicial da fundação de uma cidade. Foram morrendo consumidos pela diarreia e a paralisia. De saída, os bezerros, depois os novilhos, por fim o gado maduro. Os vaqueiros assistiam a tudo sem compreender, embora sentissem na própria carne a desgraça que sobre eles se abatera. Outras boiadas desceram do alto sertão e tiveram destino idêntico. Os cariris – por sua vez – intensificaram os ataques e semearam o terror em toda a chapada da Borborema. Um dia, alguém disse: - Lugar maldito. Então, as mandas mudaram de rumo em busca de outros pousos, permaneceram, apenas, o rancho arruinado e um nome maldito: Caruaru – afora o silêncio doloroso preso no coração do carrascal. Mas as chuvas foram abundantes no ano seguinte. O pasto verde voltou a crescer. O rio Ipojuca se esponjou em vazantes de limo fértil. Floresceram os pés de baunilha, jurubeba, sassafrás, velame, jucá, jurema e pau-d’alho. O cheiro de terra molhada amaciava os ares. O inverno era assim: uma solicitação para a vida [...] Veja mais aqui.

SENHOR SÃO JOÃO, XENHENHÉM, QUADRILHA & NORDESTE – No livro Poemas de Ascenso Ferreira: catimbó, cana caiana e xenhenhém (Nordestal, 1981), do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956), encontro de cara o seu poema Senhor São João: Em frente à fogueira, / Zuza, espaduado, / benzeu-se sereno / e fez oração: / - Chô – Cão! / - Chô – Cão! / Depois levantou / a vista pro céu / pra ver se o espiava / Senhor São João. / E meteu os pés nuzinhos nas brasas de fogo quente! / - Danou-se, só quem tem os pés de sola! / Porém Zuza, vadiando, andou pra lá e pra cá! / Cachetando, se agachou, pondo fogo no cachimbo! / Depois, puxando a pistola, atirou fixe no chão! / - Viva Senhor São João! / - Vivôooo! Também encontrei o Xenhenhém nº 1: Todos os dias era a mesma a tua prosa: / “Sua amizade é criminosa! Isso não me convém”... / Mas logo após essa recusa mentirosa, / tudo um sonho cor-de-rosa, um queixoso xenhenhém... / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Porém, um dia, foi verdade a tua prosa! / E te foste, cautelosa, para o amor que te convém! / São pesadelos nossos sonhos cor-de-r0sa... / mas que coisa dolorosa, continha o xenhenhém! / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Coisa terrível é a gente querer bem! Há, ainda, o Xenhenhém nº 2: Em meio ás minhas muitas dores / talvez maiores do que o mundo / surges, às vezes, um segundo, / cheia de pérfidos langores. / Chegas sutil e sem rumores... / e até sinto o odor profundo / no qual eu sôfrego me inundo / - pária do amor, sonhando amores. / Depois, tu falas não sei donde... / és como um eco que responde / mas, sempre e sempre, além... além... / Súbito, encontro a casa ôca. / Não estás! – Meu Deus, que coisa louca, / só é na vida um xenhenhém! Já a Quadrilha de Caetano Norato é assim: A dança de Caetano Norato é uma procriação. / Nada de quadrilhas marcadas em francês: / Em avant tours! Chaíne de dames! / Chaíne de chevaliers! / Nidra! / A dança de Caetano Norato é assim: / - Atenção! Lá vai tempo! / - Damas por cima, cavaleiros por baixo! / - Damas por baixo, cavaleiros por cima! / - Pronto, seu mestre, chegou... Por fim o seu belíssimo Nordeste: O ferreiro malhando no topo das baraúnas. / Nas lombas da serrá o sol é de lascar... / Nem uma folha só fazendo movimento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me abanar... / Pouco a pouco, porém, vem vindo um vento frio / trazido pelas mãos de moça do luar... / Que gozo nos coqueiros acarinhados pelo vento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me esquentar... Veja mais aqui e aqui.

VIVA SÃO JOÃO – No livro Teatro a vapor (Cultrix/MEC, 1977), do poeta, dramaturgo e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), encontro o esquete Viva São João: No quintal da casa do João Ferreira, onde arde uma grande fogueira. Diversos grupos de senhoritas, rapazes e crianças soltam balões e foguetes, queimam pistolas, bombas, bichinhas, etc. Barulho e alegria. Todos se divertem, à exceção de D. Julia, cunhada do dono da casa, solteirona dos seus 45 anos de idade, que, sentada a um canto, vê e ouve tudo aquilo de mau humor. O Cipriano, um pândego, aproxima-se de d. Julia. CIPRIANO – A senhora está trista, d. Julia? D. JULIA – Que tem o senhor com isso? CIPRIANO (sem se ofender, porque já a conhece) – Não tenho nada... pergunto porque me interesso pela senhora... ainda hoje não a vi rir! D.J. – De que quer o senhor que eu ria? C – Quero que se divirta, como os outros... DJ – Agradeço-lhe pela atenção, mas não se incomode comigo (levanta-se com grosseria e afasta-se). JOÃO FERREIRA (aproximando-se de Cipriano) – Que foi isso? ... que dissesse à Julia que ela ficou tão zangada? C – Apenas lhe perguntei porque estava triste! Esta tua cunhada é muito esquisita! JF – Em dias de festa é o que se vê: como ficou pra tia, não pode estar satisfeita onde quer que estejam moças e rapazes. É insuportável!... Já lhe tenho dito que melhor seria trancar-se no seu quarto! C – Coitada! Deixa-a lá! JF – Além de ser feia e velha, é malcriada! Desde que perdeu, há dez anos, um casamento, que aliás seria a sua desgraça porque o noivo era um valdevinos, está sempre de mau humor, e não pode ver sem inveja os outros se divertirem. Com franqueza te digo que preferia uma sogra a esta cunha! (Vendo subir um balão) Viva São João!... A CRIANÇADA – Vivou!... JF – (Continuando) Entretanto, ali onde a vês, não perde as esperanças, coitada! Queres fazer uma experiência... por pandega?... Diz-lhe uma frase amável, namora-a e verás como fica outra! C – Nada! Nessa não caio eu!... JF – Por quê? C – Depois é que são elas! JF – Ora! Depois manda-a passear! Ela vem aí (dirigindo-se a D. Julia que passa) Ô maninha? DJ (Aproximando-se, de cara franzida) – Que é? JF – Aqui o nosso amigo Cipriano está molestado com você... você tratou-o mal... e, no entanto, ele simpatiza tanto com você... diz que você tem um olhar compassivo... (D. Julia sorri). C – E um sorriso, ai que sorriso!... HF (Baixo a D. Julia) Está caidinho... (Afasta-se). DJ (Amável, a Cipriano) – Não quis magoá-lo... perdoe... é que estou tão habituada ao escárnio... C – Não diga isso! Quem pode escarnecer de um anjo?.... DJ (faceirando-se) Um anjo! Meu Deus! Quem me dera ser um anjo! C – Os anjos não se conhecem! DJ – Oh, eu conheço-me... não tenho beleza, nem mocidade... C – Pode ser que para os outros; mas para mim... DJ – Cipriano! C – Que música tem as sílabas do meu nome proferidas por esses lábios! DJ (radiante de alegria, vendo subir um balão). Viva São João!... C – Venha, Júlia, venha soltar umas bichinhas... DJ – Prefiro uma pistola.... uma pistola com muitos tiros, sim? C – Viva São João! JF (aproximando-se, baixo) Eu não te dizia?... Veja mais aqui e aqui.

NOITE DE SÃO JOÃO – O premiado drama Noite de São João (2003), dirigido por Sérgio Silva e baseado na obra Senhorita Júlia, de Augusr Strindberg, adaptado por Rodrigo Portela, Paulo Berton e Sérgio, com trilha sonora de Ayres Potthoff, conta a história de famílias camponesas que se organizam para uma grande festa junina, enquanto umas das personagens termina seus afazeres na casa grande e espera seu noivo que trabalha como capataz na fazenda. Em meio as comemorações, a arrogante filha do fazendeiro aparece e, animada com o vinho tomado, chama o noivo dela pra dançar, aproveitando para relembrar a infância e revelar a ele seus sonhos íntimos. O cenário são os festejos juninos tão presentes no calendário brasileiro, tradição nordestina que tem se espalhado por Brasil com um dos acontecimentos tipicamente brasileiro. O filme arrebatou quatro Kikitos no Festival de Gramado e uma indicação no Grande Prêmio Cinema Brasil. O destaque da película é para a premiada atriz Dira Paz. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Desenho do escultor, pintor, ilustrador, desenhista, gravador e entalhador pernambucano José Barbosa (in: Poemas de Ascenso Ferreira. Nordestal, 1981).

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
 (Imagem: Xilogravura Dançando forró, de Severino Borges).
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