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quinta-feira, junho 15, 2023

ALFONSINA STORNI, GALEANO, RUBEM ALVES, CRIATIVIDADE & ALDRAVIAS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da Sinfonietta (1951), da canção coral Salve a juventude (1950), dos 12 prelúdios para piano (1953), do Quarteto de cordas (1945), das Suites para orquestra nº 1 e 2 (1948-1950), dos Poemas Sinfônicos nº 1 – Luzes das estepes (1958) e nº 2 – A façanha do herói (1959), da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006). Veja mais aqui.

 

DAS VÉSPERAS DE QUASE – Estradas muitas por onde fui, quase nenhum aceno e esquinas outras trastejando solidões. Escapei de emboscadas inauditas e de quantos nosofóbicos saponizados – ah, eles eram tantos e vinham do paleolítico e iam outros do neolítico no meio da barbárie de agora, todos oriundos ou destinatários de Rungholt e ao som das risadas dos sinos nas costas do Mar de Wadden. Deles a sensação de chuva descarregando coisas do nunca visto, o tempo cobrava recompensas extraviadas. Entre um e outro, eis Brian Jacques elucubrando no passeio: As lágrimas são apenas água e as flores, as árvores e as frutas não podem crescer sem água. Mas deve haver luz solar também. Um coração ferido vai sarar com o tempo, e quando isso acontecer, a memória e o amor daqueles que perdemos ficam selados no nosso interior para nos confortar. De mim o poema resistia na tormenta como se fosse uma carta a um possível morador doutra galáxia, tudo porque estrelas nasciam no chão e eram almas ressurretas. Era como se atravessasse o sertão no meio do mar, como a mata era do rio e o mundo findava no litoral e nunca mais precisasse de morrer todos os dias. Saíam dos escondidos pelo temporal do agreste com a expectativa do que vinha me dizer Dorothy Sayers sorridente: A grande vantagem de dizer a verdade é que ninguém acredita nela... Fatos são como vacas. Se você olhar na cara deles por tempo suficiente, eles geralmente fogem... E com ela fiquei contente por poder ser um mentiroso em Stonehenge e dali juntos escapulimos dos indesejáveis e pegamos carona no asteroide para um passeio numa evaporação cósmica, ou melhor: no meio de uma superposição quântica, sei lá. Ao retornar fui saudado efusivamente pelas filhas de seu Rube que me presentearam esferas de Klerksdorp. Não me contive, parecia menino solto aos brinquedos. Só me dei conta ao ser tocado por Joyce Carol Oates: Todos nós temos inúmeras identidades que mudam de acordo com as circunstâncias... Acho que a arte é a comemoração da vida em sua variedade... Ah, sim, quase nem ouvi direito por causa de velhas vozes dos de mais pra lá ou pra cá, esquecia o que foi dito ou lido, e fiquei como quem perdeu o caminho e não precisava mais ir para lugar nenhum nem voltar, inventando inspiração numa ráfaga da surpresa escatológica porque já superamos todos os limites permitidos para nossa sobrevivência fracassada. Guardei tudo na memória e fiquei só, voo adiante no amanhecer.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. A prova de que uma criança gosta de ir à escola é se, na hora do recreio, ela está conversando com os amigos sobre as coisas que a professora ensinou. E não se vê isso. Então fica evidente que elas gostam da escola por causa da sociabilidade, dos amiguinhos, por causa do recreio. Mas elas não estão interessadas naquilo que se ensina na escola. Você acha que um adolescente, vivendo na periferia, pode ter interesse em dígrafos (grupo de duas letras usadas para representar um único fonema)? Não tem interesse nenhum. Existe outra expressão terrível: grade curricular. Já brinquei que deve ter sido cunhada por um carcereiro. A criança está vivenciando problemas que não têm nada a ver com os assuntos das aulas. Mas os professores apenas se justificam, dizendo que o programa afirma que é aquilo que se deve ensinar e acabou. Eu diria que na escola tradicional não se leva em consideração o desejo de aprender da criança. Elas expressam isso através dos questionamentos que fazem. [...].

Trecho extraído do artigo Aprender para quê? (Revista Época, 344, 2004), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

 

ARTE & CRIATIVIDADE NA EDUCAÇÃO – Durante muitas décadas realizei inúmeras pesquisas a respeito deste tema e, entre estas, encontrei um encaminhamento interessante a respeito: [...] Orientamos os nossos trabalhos assumindo que a Criatividade indica princípios fundamentais para aqueles que pretendem ser criativos em suas práticas artísticas e educativas, tanto para artistas quanto para professores. Compreendemos que a educação assume dois importantes papéis, o de dar acesso ao saber já produzido e de potencializar a ação criadora dos estudantes para que eles, ao longo de sua formação, aprendam a fazer escolhas, definir metas e criar projetos para suas vidas pessoal e profissional. [...]. Trecho extraído da obra Criatividade, educação e arte: potências e desafios (UFES Proex, 2021), da professora Stela Maris Sanmartin, organizadora do volume. A partir daí encontrei maior aprofundamento sobre a temática: [...] a criatividade não resulta de desdobramentos inatos e hereditários, nem tão pouco de relações puramente espontâneas com o meio social, mas apenas se desenvolve por meio da apropriação da cultura. Parece óbvio a afirmação de que não se cria algo novo a partir do nada [...] O papel da educação escolar consiste em produzir, sobre a base biofísica, a humanização dos seres humanos, tendo como referência as máximas conquistas do desenvolvimento já trilhado pelo gênero humano. Assim sendo, a educação escolar possibilita o pleno desenvolvimento da criatividade à medida que coloca os seres humanos em contato com as objetivações mais ricas já elaboradas pela humanidade. É preciso, portanto, subjetivarmos aquilo que fora objetivado pelas gerações precedentes. A formação da criatividade não se dá pelo ensino de saberes cotidianos, espontâneos e de senso comum, mas tão somente por meio da transmissão dos conteúdos clássicos, como é preconizado pela pedagogia histórico-crítica. Quanto mais o indivíduo se apropriar do patrimônio humano-genérico em suas máximas expressões, mais rico será o desenvolvimento do seu psiquismo, o que lhe garante os instrumentos necessários para ser plenamente criativo. Lutar contra a alienação, é possibilitar que as conquistas da humanidade, implementem-se na particularidade da vida dos sujeitos, de modo que os indivíduos estabeleçam uma relação mais consciente com o patrimônio humano-genérico. [...]. Trechos extraídos da obra A criatividade na arte e na educação escolar: uma contribuição à pedagogia histórico- crítica à luz de Georg Lukács e Lev Vigotski (UNESP, 2014), da professora Cláudia Saccomani.

 

CRIATIVIDADE & ARTE – Foi, então, que embarquei no trinômio Educação-Criatividade-Arte ao me deparar com o seguinte:  [...] A criatividade que permeia a Arte e o seu ensino apresenta-se como um conceito importante na constituição humana. [...] Dessa maneira, entende-se que o processo criativo não acontece de forma linear e contínua, mas de maneira dialética e dinâmica. Igualmente, a criatividade não pode ser vista como inata, associada a uma ideia de dom e, sim, como fruto de diversos fatores, dentre eles o acesso aos materiais necessários para a criação, juntamente com a importância da vontade do aluno em desenvolver suas próprias ideias, oriundas de experiências anteriores. [...] a prática educativa deve sair do engessamento de um único foco de trabalho, incentivando os educandos a pensarem sobre novas possibilidades de aprender perante o conteúdo didático apresentado. Por meio da estimulação dos processos criativos dos próprios professores, com a implementação da formação continuada, o docente é levado a uma experiência aplicada desejando trabalhar a criatividade e as potencialidades no contexto escolar. [...] estimulando o uso da criatividade na realização das atividades cotidianas, trazendo a experiência dos alunos para dentro do processo criativo, ofertando e construindo uma prática ligada a aspectos singulares da subjetividade humana, garantindo ao aluno o acesso às mais variadas análises e evitando que ocorra uma limitação e um empobrecimento da experiência educacional. [...]. Trechos extraídos do artigo Arte e criatividade: um olhar sobre a importância das aulas de Arte nos anos finais do Ensino Fundamental (Revista Educação Pública, julho de 2022), do professor e pesquisador Willian Júnio do Carmo. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALMA NUA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu sou uma alma nua nestes versos, \ Alma nua que angustiada e sozinha \ Deixa suas pétalas espalhadas. \ Alma que pode ser uma papoula, \ Que pode ser um lírio, uma violeta, \ Um penhasco, uma selva e uma onda. \ Alma que como o vento vagueia inquieta \ E ruge quando está sobre os mares, \ E dorme docemente numa fenda. \ Alma que adora em seus altares, \ Deuses que não descem para cegá-la; \ Alma que não conhece cercas. \ Alma fácil de dominar \ Com apenas um coração para partir \ Para em seu sangue quente para regá-lo. \ Alma que quando é primavera \ diz ao inverno que se atrasa: volta, \ deixa cair a tua neve no prado. \ Alma que quando neva se desfaz \ Em dores, clamando pelas rosas \ Com que a primavera nos envolve. \ Alma que às vezes solta borboletas \ Em campo aberto, sem marcar distância, \ E lhes fala libidinosamente das coisas. \ Alma que há de morrer de um perfume, \ De um suspiro, de um verso em que se implora, \ Sem perder, se possível, a elegância. \ Alma que nada sabe e tudo nega \ E negando o bem, o bem propicia \ Porque se nega quanto mais vem, \ Alma que costuma existir como delícia \ Toca as almas, despreza a pegada, \ E sente uma carícia na mão. \ Alma que está sempre insatisfeita com ela, \ Como os ventos ela vagueia, corre e gira; \ Alma que sangra e delira incessantemente \ Por ser a nave que parte da estrela.

Poema da poeta suíça Alfonsina Storni (1892-1938). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

OUTROS DITOSAquele que mata um homem, mata uma criatura que raciocina, e que é a imagem de Deus; aquele que destrói um bom livro mata a própria razão, mata a imagem de Deus, por assim dizer. Muitos homens não passam de um fardo para a terra; mas um bom livro é o sangue vital, precioso de um espírito de mestre, embalsamado e guardado propositadamente como um tesouro para uma vida além da vida... Pensamento do poeta, polemista e intelectual inglês John Milton (1608-1674). Veja mais aqui.

 

DOS ABRAÇOS – [...] Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar! [...]. Trecho extraído da obra O livro dos abraços (L&PM, 2005), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALDRAVIAS

[…] A alma surge primeiro. O poeta vem depois, juntando os pedaços e dando sentido ao que foi sentido, agora de forma metafórica, artística. [...].

Trecho de Aldravia e catarse, do poeta e professor Admmauro Gommes, extraído da publicação As aldravias dos Palmares: produção de textos poéticos de professores e estudantes (Rascunhos/Semed-Palmares, 2023). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


terça-feira, dezembro 08, 2020

STAN RICE, ESTHER WEITZMAN, DOLORES IBÁBURRI, HECILDA VEIGA, MAÍRA PASSOS & PHILAMIRE

 

 

TRÍPTICO DQC: JANELESCOLHA – Ao som dos quatro movimentos da Sonatine, da compositora japonesa Kazuko Hara (1935-2014) – Solidão de quarentena, noites longas, dias intermináveis e uns aos outros misturados, de não se saber se hoje é quarta ou segunda ou domingo, sei lá. Só me restava depor as ideias no papel na alta madrugada. Uma narrativa solta de sopapo, a ponto de ficar um calhamaço de quase cem páginas impressas. Resolvi imprimi-la para avaliar em quantas andava. Fui tentando organizar os rabiscos, elaborando planos e tramas, direcionando o enredo, identificando personagens que nasciam por si em uma história inusitada. Logo percebi as palavras se dissolverem, as letras decompostas numa dança circular a se soltarem do papel e começarem a levitar em minha frente, formando uma nuvem densa que seguia porta afora. Lá fora, deu para perceber a poeira revoluta tomando forma e, em dado momento, corporificando como um jovem que me dava a impressão de que já o tinha visto. Sim, já. E se ajeitou com esmero com o vinco das vestes, pigarreou e bateu a mão fechada na porta do meu quarto: Ô de casa! Dá licença? Atônito de quase não me conter na cadeira, vi-lhe entrar, sentar-se numa cadeira diante de mim: Sou Jangadeiro. É assim que o senhor, com certeza, me conhece ou, de alguma forma, sabe sobre mim. Quer dizer, não completamente, mas com base no processo criminal imputado contra mim, na forma de um crime doloso, quando, na verdade, foi em legítima defesa. É sobre isso que o senhor escreve há dias. E por isso mesmo, estou aqui para lhe contar a verdadeira história da minha vida. Tomara não importuná-lo, mas foi o senhor que insistiu em narrar aquele interrogatório no Fórum, onde o juiz, o promotor e o advogado da minha defesa já me condenavam antecipadamente. Todos contra mim. Por isso a minha fuga espetacular, quase viro lenda por conta disso. Na verdade, o meu infortúnio. Vou lhe contar tudo, depois o senhor poderá avaliar se sou culpado ou inocente. Contudo, agora tenho de ir, voltarei. Eles estão por perto, rondam todos os meus passos, e preciso garantir a minha integridade e a sua. Conversaremos ainda a respeito, até outro dia. E saiu como se numa frase de Aníbal Machado: Ninguém pode abrir sozinho o seu túnel pessoal para a claridade do dia, sem o risco de morrer sob os entulhos. Ah, o mundo das escolhas: as marcas do passado, o mistério do futuro, o lugar de cada um reescrevendo destinos. O amanhã é aqui e agora!

 


PHILAMIRE, A ILHA DO AMOR – Imagem de diversas edições da obra Voyage D'Alcimedon Ou Le Naufrage Qui Conduit Au Port; Histoire Plus Vraie Que Vraisemblable, Mais Qui Peut Encourager a la Recherche Des Terres Incon (Rue Serpente, 1787 - General Books, 2012), da Comte de Martigny, ao som da Élégie, do álbum Passages (1996), da compositora italiana Violaine Corradi – Estava num local desconhecido, uma ilha talvez, cercada por rochedos e protegida por bancos de areia. Toda extensão está coberta por rosas perfumadas de jardins magníficos, arrodeados por laranjais e limoeiros que formavam grandes pomares e numerosas saídas. Na localidade todas as casas pareciam um palácio e estavam todas decoradas com muitos espelhos. Haviam grutas decoradas com conchas e perfume de jasmim. Aliás, este o aroma das mulheres que se aproximaram investigativas, se eu era ou não um náufrago. Como cheguei, não sei. Inquiriam para identificar se eu era virtuoso, única condição de abrigo; do contrário me exilavam. Uma delas adiantou-se em minha direção, alisou minhas faces com as costas da mão. Olhar fixo, jeito brando, conferia os mínimos detalhes de minhas vestes com a mão espalmada sobre meu tórax, braços, ventre, sexo apalpado e conferido carinhosamente, a me olhar firme: Venha! Segui seus passos e pude constatar que ali havia muitos teatros e o principal deles num prédio situado no meio de uma grande praça octogonal. Com a minha curiosidade, ela me disse que em todos os palcos as atrizes desempenham papéis de virgens vestais. Venha! Onde estou? Em Philamire, Philos. Onde? E me explicou que aqui quem governa é o amor, a amizade e a franqueza, e que se aproximava o dia da escolha do Primeiro Cidadão. Quem? Aquele que inspiraria os sentimentos mais nobres do lugar. Ele governará ao lado de lindas mulheres que reinam cônscia de seu papel e valor, e que escolhem seus amantes entre os maduros confiáveis. Deixei de mão a conversa, prestando atenção às paisagens. Lá estava John Milton, com seu aceno: O Amor depura os pensamentos e engrandece o coração. Aquele que reina dentro de si, as regras das paixões, desejos e medos, é mais do que um rei. Uma surpresa e tanto! Acenei e continuei a caminhada. Ela então me explicou que ali não havia templos: para os moradores, o único templo é o coração. Também não havia sistema judicial: Aqui todos são justos. Não há casamento, só declarações mútuas de amor. Todas as mulheres, inclusive as mais pobres, são virtuosas e mantidas pelo Estado, consideradas cidadãs úteis que se sacrificam pelo bem da sociedade em se dedicarem a satisfazer os desejos dos homens, apenas em troca de amor. Era o paraíso perdido, então, e eu havia encontrado, parece.

 


DE CHOROS & A DANÇA DO FUTURO – Imagem: A arte da bailarina, coreógrafa e mestra Esther Weitzman: Me interessa a ação da gravidade no corpo, a relação que se estabelece com o chão. Peso, força, vigor. E também a leveza que é possível surgir daí. Ao som de Crepuscole With Nellie (Ten 2010), do compositor e pianista estadunidense Thelonious Monk (1917-1982), na interpretação do pianista estadunidense Jason Moran. - O entardecer já tomava o colorido crepuscular quando chegamos e ela, apressada e asfixiante, me trouxe de volta ao meu quarto. Ué? Acomodou-me à poltrona e disse: Olhe bem, sou Hecilda, a professora e socióloga Hecilda Fonteles Veiga: Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer”. Depois, fui levada ao Pelotão de Investigação Criminal (PIC), onde houve ameaças de tortura no pau de arara e choques. Dias depois, soube que Paulo também estava lá. Sofremos a tortura dos ‘refletores’. Eles nos mantinham acordados a noite inteira com uma luz forte no rosto. Fomos levados para o Batalhão de Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde, além de me colocarem na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à ‘tortura cientifica’, numa sala profusamente iluminada. A pessoa que interrogava ficava num lugar mais alto, parecido com um púlpito. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. De lá, fui levada para o Hospital do Exército e, depois, de volta à Brasília, onde fui colocada numa cela cheia de baratas. Eu estava muito fraca e não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitei-me no chão. As baratas, de todos os tamanhos, começaram a me roer. Eu só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei. Depois disso, ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a fera que estava ali. E chorou desmesuradamente. E contou-me que isso ocorrera em 6 de outubro de 1971 e que, há três anos, falecera este seu filho que nasceu preso pela ditadura, e que se queimara por décadas no inferno do mundo e precisava de um instante que fosse de paraíso. O filho que se foi repetia sempre: Não havia algemas para os meus pulsos. Nem ela mais possuía nenhuma algema: Sou ela, a que é filha ao lado de outras filhas da dor. Ao conseguir segurar o soluço do pranto, disse uma frase da ativista espanhola Dolores Ibáburri (1895-1989): É melhor morrer de pé que viver de joelhos. E mais disse até conseguir fôlego para recitar um poema de Stan Rice: Pouca coisa é / Mais digna de nossa atenção / Do que compreender / O talento da substancia / Uma abelha, uma abelha viva, / Na vidraça, tentando sair, condenada, / Sem conseguir entender. Assim somos e vivemos. Até mais ver.

 

A ARTE DE MAÍRA PASSOS

Antes de escolher o jornalismo como profissão, a dança já fazia parte da minha essência. Pensei em criar o site para proporcionar um espaço de divulgação gratuita, através de mídia espontânea, para os profissionais de dança. Como danço desde criança, percebia que a maioria não tinha como investir em ações de marketing. Queria chegar junto, ser acessível, dar voz à dança local.

A arte da bailarina e jornalista Maíra Passos, idealizadora do Na Ponta do Pé, projeto pioneiro de jornalismo cultural com notícias sobre a dança pernambucana, lançado em 2012,mostrando a diversidade dos passos e trazendo a pluralidade dos estilos praticados no estado. Na pauta, vários estilos de dança, como dança popular, balé clássico, dança contemporânea, jazz, dança moderna, dança de salão, hip hop, dança do ventre, flamenco e pole dance. Há ainda série de reportagens especiais e entrevistas exclusivas com personalidades da dança pernambucana, além de matérias sobre festivais, mostras, cursos e espetáculos de dança realizados em Pernambuco. Veja mais aqui & aqui.


 


terça-feira, setembro 15, 2020

BOCAGE, RUBEM ALVES, BETH FORMAGINI, NICOLINA VAZ & DEYSON GILBERT



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DOS UMBRAIS DE MIM... - O meu país arde como se o meu povo fosse o desespero dos acrófobos à beira do abismo, no cortejo de Paddy Digman do Joyce e eu pseudOdisseu errasse à procura de uma das sete vidas de Tirésias para reencontrar a Ítaca perdida, o meu Paraíso de Milton. Essa a coragem do passo adiante quando tudo é precipício na fumaça sem maçaneta, arrimo, apoio ou paredes: o rio de sudorese excessiva e a tremedeira no sorvedouro nas pontes dissolvidas para tudo despencar no frio da barriga perambeira. Desnudo no sonho o rei entre meras catábases por aclives íngremes, não olho para baixo nem posso voltar porque tudo ficou para trás com o pânico larófobo, porque caio para o báratro com o inútil instinto de sobrevivência de Ícaro sem paraquedas, alpinista nas cataratas do inevitável tropeço pelas escadas de nuvens. E ouço os versos do Soneto infernal de Bocage: Dizem que o rei cruel do Averno imundo e seja isto já; que é curta a idade, e as horas de prazer voam ligeiras... são os fios que se soltam na minha eterna corda bamba pelo meio-fio entre a vida e a morte. Ainda vivo, voo.

DUAS CENAS DE FILMESDepois de ter assistido o documentário Memória para uso diário (2007), da premiada cineasta Beth Formagini, tive a oportunidade de ainda ver o documentário Angeli 24 horas (2011), que trata sobre a obsessão pelo trabalho do cartunista Angeli e o seu dilema de artista, como também o premiado Xingu Cariri Caruaru Carioca (2016), que trata a respeito das origens e evolução do pífano na história do Brasil. Ela é formada em História, especializou-se em documentário na Universidade de Roma, foi presidente da Associação Brasileira de Documentaristas no Rio de Janeiro e trabalhou na produção e pesquisa de alguns filmes de Eduardo Coutinho. Foi dela que captei: Estamos infelizmente dominados. Se não discutirmos isso, entraremos de novo nesse período vivido no passado. Espero que a juventude de agora não volte a experimentar aquilo tudo. Tenho esperança de que as pessoas resistam, que se imponham. Esse é o alerta de que precisamos fazer alguma coisa aqui e agora, vambora.


TRÊS CONTAS NOS DEDOS SEGUINDO - (Imagem: escultura de Nicolina Vaz) – Ah, os meus dias, eram ventanias de tempestades terríveis com o esquecimento e nenhuma vontade de errar pela vida dentro de um odre de poderosos ventos e aberto para festa das sereias enlouquecedoras que me deixaram boiando num pedaço de madeira mar afora, para que findasse mendigo no meu próprio reinado em ruínas. Assim as funduras insondáveis da solidão e ao me deparar com as inscrições da tabuleta chinesa no meio dos antros do cabo Averno: Ande com calma na estrada escorregadia, pois nela se embosca o demônio do desastre. Eu sabia, um pé na frente e outro atrás, todos os caminhos levavam ao inferno. É como se do fundo do Érebo surgissem todos os pálidos espectros da minha convivência de ontens, com os seus castigos do julgamento e a minha veneranda mãe a testemunhar minha tribulação pela escuridão de charcos umbrosos. Presenciava tudo e quedava de terror como quem havia sido expulso do éden para invocar a musa, porque só havia em mim a imagem de Penélope a me esperar distante quase sem esperança, a tecer sua manta com as palavras de Rubem Alves: Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. Vivo agora e voo pra ela. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

A ARTE DE DEYSON GILBERT
A arte do artista Deyson Gilbert, que é graduado em Artes Visuais pela Universidade de São (USP), fundador e editor da revista Dazibao e que já participou de mostras e exposições no Brasil e exterior. Veja mais aqui.


segunda-feira, dezembro 14, 2015

FONTE, BOFF, JOHN MILTON, ALCÂNTARA MACHADO, ARTUR AZEVEDO, NÁ OZZETTI, LUCIAH LOPEZ & MUITO MAIS!




VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FONTE – A HISTÓRIA DA CANÇÃO - Foi na surpresa de uma manhã na segunda metade dos anos 1980, quando ela chegou na minha timidez: - Eu amo você! E não previa tal fato no meio do passeio público, transeuntes em volta, a vida agitada correndo louca e tascou-me um beijo tão possessivo quanto verdadeiro que jamais pude esquecer. Senti seus ávidos lábios salientes a dar-me com prazer o que a solidão me negava a todo momento e nos fizemos juntos por dentro da tarde até saber-lhe os segredos possíveis da primeira vez. No segundo encontro ela deu-me a alma e a calcinha: - É tudo seu. E me deu seu corpo com todas as vestes de suas encarnações. Eu já me tinha embalado em versos a solfejar a querer que ela viesse nua de manhã plantar a luz do sol com sua fonte a minar e em mim se escorrer... e se escorreu e toda manhã ela abria os braços e me guardava no refúgio de sua intimidade mais secreta até ter-lhe o âmago inteiro desvelado sobre a minha cupidez. E aguando com ternura a nossa emoção para lá de cobiçada, nascemos e renascemos todos os dias um no outro para que o amor nos desse a vida plena para amar. E beijei-lhe o ventre e ela se lambuzou no meu, como se mergulhássemos no gozo do rio pro orgasmo do mar. E nos fizemos ondas a rolar os dias e todas as nossas sensações. E foi demais na alma, no corpo, no sexo e nos beijos de todos os afagos e delícias. O tempo ruía pra nós como se tudo desexistisse enquanto ela me prendia entre as pernas, sexo no sexo, exigindo que eu lhe fizesse um poema em canção, uma poesia no seu corpo, um canto na sua alma. – Faça! E quanto mais usufruía dos seus encantos, todas as palavras se soltavam e saltavam do prazer dela para me fazer poeta da sua canção, escritor da sua alma, o cantor da sua vida. E nos incendiávamos de gozo a misturar a voz com os grunhidos de sua aflição para superar a foz que nos desse por limite o sedento de infinito pra diluir-se em flor e quando eu chegava ao ápice ela se fazia mãe com todos acalantos que eu nem sabia, pra me fazer menino na sua púbis e a me beijar até que da próxima vez não fosse o fim e que pudéssemos ir além do já fomos para sermos maiores e superiores que tudo que possa existir. E beijava meus olhos e lambia minhas mãos, tórax, língua na minha pele e por toda carne para ter em si meu gosto e eu o seu querer. Ah, era tudo demais. Muito demais. E a noite era dia e o dia a tarde e a tarde o mundo e o universo todo no seu corpo. E isso foi todas as manhãs, todas as tardes e todas as noites por anos seguidos. Nunca me senti tão poderoso, tão dono do pedaço com sua servidão que me fez senhor de tudo pela primeira vez. Ela era o meu cajado e nela tudo era possível desde as mais priscas eras até o mais remoto futuro. Ela se fez meu violão para dela tirar todas as notas e acordes e me deu uma canção pronta que exalou do seu corpo e me fez cantá-la sexualmente todas as manhãs, tardes e noites no seu voluptuoso prazer. E me fez menino por seus mimos no meu sexo, por seus beijos e carícias, e me fez amante pras suas caprichosas encenações de poderio querendo mais do que imaginava poder lhe dar. E me fez homem adulto como quem quisera uma segurança de guerreiro viril; e me fez seu escravo nas horas de se entregar para me dar o prazer até então nunca sentido. E foi assim por anos. A sua entrega além do silêncio até o meu domínio por completo e o seu gozo mais que desesperante e satisfatório. Chamei-lhe Raoom, dei-lhe uma canção e lhe escrevi a Paixão Legendária. Não só tenho história pra contar, eu vivi e amei. Veja o clipe da canção aqui ou aqui. E mais aquiaqui, aqui e aqui.


Imagem: After The Bath, da artista plástica estadunidense Mary Minifie.


Curtindo o álbum Embalar (Circus Produções, 2013), décimo disco da cantora e compositora Ná Ozzetti.

A ÁGUIA E A GALINHA – O livro A águia e a galinha – a metáfora da condição humana (Vozes, 1997), do escritor, teólogo e professor universitário Leonardo Boff, está dividido em sete capítulos contando a história de uma águia criada como uma galinha, questionando em como equilibrar essas duas dimensões e como impedir que a cultura da homogeneização afogue a águia dentro de nós e nos impeça de voar. Da obra destaco o trecho Todo ponto de vista é a vista de um ponto: Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para . entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. Sendo assim, fica evidente que cada leitor é co-autor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita. Com estes pressupostos vamos contar a história de uma águia, criada como galinha. Essa história será lida e compreendida como uma metáfora da condição humana. Cada um lerá e relerá conforme forem seus olhos. Compreenderá e interpretará conforme for o chão que seus pés pisam. Os antigos bem diziam: habent sua fata libelli, os livros têm seu próprio destino. Tinham razão, porque o destino dos livros está ligado ao destino dos leitores. E aí entram em cena a águia e a galinha, carregadas de significação, como veremos ao longo de nossa história. Esperamos que para você a águia e a galinha se transformem também em símbolos e sacramentos da busca humana por integração e por equilíbrio dinâmico. Desejamos que a águia sepultada desperte e voe, ganhando altura e ampliando os horizontes de sua releitura e compreensão de você mesmo e do mundo. Convidamos você a fazer-se, junto com as forças diretivas do universo, criadora/co-criadora do mundo criado e por criar. Veja mais aqui e aqui.

MANA MARIA – O livro Mana Maria (José Olympio, 1936), é um romance inacabado do escritor Alcântara Machado (1901-1937), do qual destaco o trecho do capítulo I: - Vá perguntar pra mana Maria. Era assim desde que a mãe morrera. Era assim a propósito de tudo. Mana Maria é que resolvia, mandava, punha e dispunha, fazia, desfazia. E Ana Teresa obedecia. Quando Dona Purezinha morreu, deixou Ana Teresa com dez anos. Tinha duas tranças compridas e com uma delas quis enxugar as lágrimas diante do cadáver da mãe. E foi ai que sentiu pela primeira vez a nova autoridade. Mana Maria deu um puxão na trança e lhe pôs um lenço na mão: - Enxugue com o lenço. Lenço seco. De fato a coragem de mana Maria foi uma coisa que admirou toda a gente. Não derramou uma lágrima. Não teve um gesto, uma expressão de sofrimento. Ninguém esperava tanta fortaleza de ânimo num corpo tão franzino. Dona Purezinha agonizou seis meses com um cancro no piloro. Era gorda, foi ficando magrinha. Também era boa, paciente, e foi ficando má, impertinente. Parecia que tudo nela morria, menos os olhos que enxergavam uma sombra de poeira na cômoda e os ouvidos que percebiam lá longe, na cozinha, o bater de um prato na pia. Em torno dela foi se fazendo um silêncio que já era de túmulo. Primeiro se suprimiu o piano de Ana Teresa. Para ela foi uma alegria. Mesmo a aula de Português, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Religião, Desenho e Caligrafia, tudo ensinado por Dona Mercedes, passou para o porão. No porão vivia. Subia para almoçar, lanchar, jantar, dormir. Fora disso, mal punha os pés na escada que conduzia â copa, uma criada, a irmã, o pai, alguém falava: - Não venha que mamãe está doente. Era o estribilho. Pegava no voador, rodava dez metros no cimento do jardim, uma janela se abria: - Não faça barulho! Mamãe está doente! Na mesa, não queria sopa ou queria pão com manteiga e açúcar: - Seja boazinha. Olhe que mamãe está doente. Aos poucos se habituou. Ficava no quarto grande do porão horas e horas vendo a arrumadeira passar roupa. Também ia visitar o galinho garnisé. Corria atrás dele, ele não se deixava pegar, ela dizia: - Não faça barulho que mamãe está doente. Até que chegou também o dia do garnisé. O canto dele incomodava Dona Purezinha. Foi para a faca. E Ana Teresa nem direito de chorar teve porque mamãe estava doente. Já era sossegada de natureza, ficou uma santinha na opinião da cozinheira. Parecia gente grande. Amorteceram com algodão a campainha da entrada, a campainha do telefone. Todos se entendiam por gestos. Joaquim Pereira pensou até em imitar o vizinho senador que quando a mulher esteve para morrer arranjou uns grilos que não deixavam os choferes tocarem cláxon nas imediações. Mas desprovido de qualquer influência política desistiu da ideia. Ana Teresa passou a fazer parte do silêncio: se perturbava quando falavam perto dela. Quase no ouvido da professora segredava as capitais dos Estados do Brasil. E ficou com o hábito de responder movendo a cabeça, sacudindo os ombros, movendo as mãos. A boniteza dela não entristeceu: ficou indiferente, perdeu a vivacidade, ficou distante. Uma madrugada mana Maria acordou Ana Teresa. Como estava, de camisola e descalça, foi levada até o quarto de Dona Purezinha. O pai a ergueu nos braços, molhou de lágrimas o rosto dela, abraçou forte, beijou muito a filha. Depois falou: - Venha beijar sua mãezinha que foi pro céu. No quarto estavam um padre, o médico, a enfermeira, tio Laerte e a mulher dele, tia Carlota. Ana Teresa sacudida pelo choro agarrou na mão da morta, deu um beijo. Porém silencioso. Alguém falou: - "Pobrezinha". Com certeza tia Carlota que a tirou do quarto. Ana Teresa viu no fundo do corredor uma vela acesa nas mãos de mana Maria. Teve medo, dobrou o braço no rosto. Voltou carregada pro seu quarto. Ainda ouviu mana Maria falar: - É bom que tio Laerte vá encomendar o caixão. Na hora do enterro é que mana Maria não a deixou enxugar os olhos com a trança. Foi o primeiro gesto de mando. E por isso Ana Teresa nunca mais esqueceu dele. Era um quadro que ela via sempre. Sobretudo de noite, no escuro, de olhos fechados, na cama: a sala repleta, o caixão muito alto e florido, a cara barbuda do pai, o jeito duro com que mana Maria lhe puxou a trança, lhe deu o lenço. Lenço seco. E três dias depois, logo de manhã cedo, Ana Teresa teve a revelação física de mana Maria. Até então nunca reparara direito na irmã. Quer dizer: reparara sim, mas sem compreender. Nessa manhã ela principiou a compreender. Pela primeira vez a viu de óculos. E isso já foi uma surpresa. Nunca suspeitara da existência daqueles óculos de aros de tartaruga. Nunca, nunca mana Maria pusera os óculos na presença dela. Pois mana Maria a recebeu assim, de óculos. Estava com a costureira e mandara chamar Ana Teresa para tomar as medidas. Ana Teresa ficou em pé, no meio do quarto, imóvel, com os olhos nos óculos. A arrumadeira entrou, Ana Teresa olhou para ela e viu também nos olhos dela a mesma surpresa dos óculos. Nunca, nunca mana Maria aparecera de óculos para ninguém. Ana Teresa se deixou dominar por aqueles vidros redondos, aqueles aros de tartaruga manchada. Sentiu a autoridade daqueles óculos. Aumentou nela o respeito que já tinha pela irmã mais velha e que a levava instintivamente a chamá-la mana Maria. Não Maria simplesmente. A irmã, quinze anos mais velha, impôs-se desde logo ao respeito de Ana Teresa. E esse respeito se exprimiu como de regra por um título: mana Maria valia por Doutora Maria, Excelentíssima Senhora Baronesa Maria, Sua Majestade a Rainha Maria. Sempre a chamou assim. [...] Veja mais aqui.

PARAÍSO PERDIDO – A obra poética do século XVII, Paraíso perdido (Paradise Lost, 1667), do poeta, polemista e intelectual inglês John Milton (1608-1674), foi construída em dez cantos e, posteriormente, em doze cantos em memória à Eneida de Virgilio, descrevendo a história cristã da queda do homem, através da tentação de Adão e Eva por Lúcifer e a sua expulsão do Jardim do Éden. Da obra destaco o trecho do Livro I: Proposição do assunto do poema: a desobediência do homem, resultando-lhe daqui a perda do Paraíso em que fora colocado; a Serpente, ou antes Satã dentro da Serpente, motivou esta desgraça, depois que ele, revoltando-se contra Deus, e metendo em seu partido muitas legiões de anjos, foi expulso do Céu e arrojado ao Inferno com toda essa multidão por ordem de Deus. Depois lança-se logo o poema para o meio do assunto, e mostra Satã com seus anjos dentro do Inferno, descrito não no centro da criação (porque Céu e Terra devem então supor-se ainda não feitos), mas nas trevas exteriores mais propriamente chamadas Caos. Ali Satã, boiando com seu exército num mar de fogo, crestados todos pelos raios e perdido o tino, afinal torna a si como de um letargo, chama pelo que era o seu imediato em dignidade e poder, e que ali perto jazia; conferem ambos acerca de sua miserável queda. Satã brada por todas as suas legiões que até então se conservavam na mesma confusão e letargo: levantam-se elas; mostra-se o seu número e ordem de batalha; dizem-se os nomes de seus principais chefes que correspondem aos ídolos conhecidos depois em Canaã e países adjacentes. Satã dirige-lhes a palavra, anima-os com a esperança de ainda reconquistarem o Céu, e ultimamente noticia-lhes que vão ser criados um novo mundo e nova qualidade de criaturas, atendendo a uma antiga profecia ou rumor em voga pelo Céu (pois que, segundo a opinião de muitos antigos Padres, existiam os anjos muito antes da criação visível). Para achar a verdade desta profecia e o que se há de fazer depois, ele convoca uma plena assembleia. Procedimento de seus sócios. O Pandemônio, palácio de Satã, ergue-se subitamente construído no Inferno; os pares infernais ali se assentam em conselho. Do homem primeiro canta, empírea Musa, A rebeldia — e o fruto, que, vedado, Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo A morte e todo o mal na perda do Éden, Até que Homem maior pôde remir-nos E a dita celestial dar-nos de novo. Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo Estarás tu, que ali auxílios deste Ao pastor que primeiro aos escolhidos Ensinou como do confuso Caos Se ergueram no princípio o Céu e a Terra? Ou mais te agrada Sião e a clara Siloé Que mana ao pé do oráculo do Eterno? Lá donde estás, invoco o teu socorro Para este canto meu que hoje aventuro, Decidido a galgar com vôo inteiro Muito por cima da montanha Aônia, De assuntos ocupado que inda o Mundo Tratados não ouviu em prosa ou verso. E tu mais que ela, Espírito inefável, Que aos templos mais magníficos preferes Morar num coração singelo e justo, Instrui-me porque nada se te encobre. Desde o princípio a tudo estás presente: Qual pomba, abrindo as asas poderosas, Pairaste sobre a vastidão do Abismo E com almo portento o fecundaste: Da minha mente a escuridão dissipa, Minha fraqueza eleva, ampara, esteia, Para eu poder, de tal assunto ao nível, Justificar o proceder do Eterno E demonstrar a Providência aos homens. Dize primeiro, tu que observas tudo No Céu sublime, no profundo Inferno, Dize primeiro a causa irresistível Que mover pôde os pais da prole humana, Em tão próspera sina, ao Céu tão caros, A apostatar de Deus que o ser lhes dera E a transgredir a lei que lhes ditara, Sendo só num objeto restringidos, No mais senhores do universo Mundo: Quem lhes urdiu a sedução malvada Que os lançou em tão feia rebeldia? O Dragão infernal. Com torpe engano, Por inveja e vinganças instigado, Ele iludiu a mãe da humana prole, Lá depois que seu ímpeto soberbo O expulsara dos Céus coa imensa turba Dos rebelados anjos, seus consócios. Confiado num exército tamanho, Aspirando no Empíreo a ter assento De seus iguais acima, destinara Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse, E com tal ambição, com tal insânia, Do Onipotente contra o Império e trono Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas. Mas da altura da abóbada celeste Deus, coa mão cheia de fulmíneos dardos, O arrojou de cabeça ao fundo Abismo, Mar lúgubre de ruínas insondável, A fim que atormentado ali vivesse Com grilhões de diamante e intenso fogo O que ousou desafiar em campo o Eterno. Pelo espaço que abrange no orbe humano Nove vezes o dia e nove a noite, Ele com sua multidão horrenda, A cair estiveram derrotados Apesar de imortais, e confundidos Rolaram nos cachões de um mar de fogo. Sua condenação, porém, o guarda Para mais fero horror: e vendo agora Perdida a glória, perenal a pena, Este duplo prospecto na alma o punge. Lança em roda ele então os tristes olhos Que imensa dor e desalento atestam, Soberba empedernida, ódio constante: Eis quando de improviso vê, contempla, Tão longe como os anjos ver costumam, A terrível mansão, torva, espantosa, Prisão de horror que imensa se arredonda Ardendo como amplíssima fornalha. Mas luz nenhuma dessas flamas se ergue; Vertem somente escuridão visível Que baste a pôr patente o hórrido quadro Destas regiões de dor, medonhas trevas Onde o repouso e a paz morar não podem, Onde a esperança, que preside a tudo, Nem sequer se lobriga: os desgraçados Interminável aflição lacera E de fogo um dilúvio alimentado De enxofre abrasador, inconsumptível. A justiça eternal tinha disposto Para aqueles rebeldes este sítio: Ali foram nas trevas exteriores Seu cárcere e recinto colocados, Longe do excelso Deus, da luz empírea, Distância tripla da que os homens julgam Do centro do orbe à abóbada estrelada. Oh! como esse lugar, onde ora penam, É diverso do Céu donde caíram! Logo o monstro descobre a turba vasta Dos tristes que na queda tem por sócios Arfando em tempestuosos torvelinos Do undoso lume que hórrido os flagela. Próximo dele ali coas vagas luta O anjo, imediato seu em mando e crimes, Que foi chamado nas vindouras eras Belzebu, nome à Palestina grato. Então o arqu’inimigo, que no Empíreo Foi chamado Satã desde esse tempo, O silêncio horroroso enfim quebrando, Nesta frase arrogante assim lhe fala: “És tu, arcanjo herói! Mas em que abismo Te puderam lançar! Como diferes Do que eras lá da luz nos faustos reinos, Onde, sobre miríades brilhantes, Em posto tão subido fulguravas! Mútua liga, conselhos, planos mútuos, Esperanças iguais, iguais perigos Uniram-nos na empresa de alta glória; Mas agora a desgraça nos ajunta Deste horrível estrago nos tormentos! Caídos de que altura e em qual abismo Nos achamos aqui tão derrotados! Co’os raios tanto pôde o que é mais forte. Té’gora quem sabia ou suspeitava Dessas armas cruéis a valentia? Mas nem por elas, nem por quanta raiva Possa infligir-me o Vencedor potente, Não me arrependo, de tenção não mudo, Posto mudado estar meu brilho externo. Rancor extremo tenho imerso n’alma Pela alta injúria feita a meu heroísmo: Ele impeliu-me a combater o Eterno, E trouxe logo às férvidas batalhas Inúmera aluvião de armados Gênios Que dele o império aborrecer ousaram, E, a mim me preferindo, opor quiseram [...]. Veja mais aqui.

MAMBEMBE – Na burleta em três atos e doze quadros O Mambembe (1904), do dramaturgo, escritor e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), destaco o quadro I do ato primeiro: Sala de um plano só em casa de dona Rita. Ao fundo, duas janelas pintadas. Porta à esquerda dando para a rua, e porta à direita dando para interior da casa. CENA I MALAQUIAS, moleque, depois EDUARDO. (Ao levantar o pano, a cena está vazia. Batem à porta da esquerda.) MALAQUIAS (Entrando da direita.) — Quem será tão cedo? Ainda não deu oito horas! (Vai abrir a porta da esquerda.) Ah! é seu Eduardo! EDUARDO (Entrando pela esquerda.) —Adeus, Malaquias. Quedê dona Rita? Já está levantada? MALAQUIAS — Tá lá dentro, sim, sinhô. EDUARDO — E dona Laudelina? MALAQUIAS — Inda tá drumindo, sim, sínhô. EDUARDO — Vai dizer a dona Rita que eu quero falar com ela. MALAQUIAS — Sim, sinhô. (Puxando conversa.) Seu Eduardo onte tava bom memo! EDUARDO — Tu assististe ao espetáculo? MALAQUIAS — Ora, eu não falho! Siá dona Rita não me leva, mas eu fujo e vou. Fico no fundo espiando só! EDUARDO — Gostas do teatro, hein? MALAQUIAS — Quem é que não gosta do que é bão? Que coisa bonita quando seu Eduardo fingia que morreu quase no fim! Xi! Parecia que tava morrendo memo. Só se via o branco do olho! E dona Laudelina ajoelhada, abraçando seu Eduardo! Seu Eduardo tava morrendo, mas tava gostando, não é, seu Eduardo? EDUARDO — Gostando, por quê? Cala-te! MALAQUIAS — Então Malaquia não sabe que seu Eduardo gosta de dona Laudelina? EDUARDO — E ela?... Gosta de mim? MALAQUIAS — Eu acho que gosta... pelo meno não gosta de outro... eu sou fino; se ela tivesse outro namorado, eu via logo. Aquele moço que mora ali no chalé azu, que diz que é guarda-livro, outro dia quis se engraçá com ela e ela bateu coa jinela na cara dele: pá... eu gostei memo porque gosto de seu Eduardo, e sei que seu Eduardo gosta dela! EDUARDO — Toma lá quinhentos réis. MALAQUIAS — Ih! Obrigado, seu Eduardo. (Vai a sair pela direita. Entra dona Rita.) DONA RITA — Que ficaste fazendo aqui, moleque? MALAQUIAS — Nada, não, senhora; fui abri a porta a seu Eduardo e ia dizê a vosmecê que ele tava ai. DONA RITA — Vai acabar de lavar a louça, mas vê lá se me quebras alguma coisa. (A Eduardo.) Não se passa um dia que este capeta não me quebra um prato... um copo... uma xícara... Vai! MALAQUIAS — Sim, senhora. (Sai pela direita.) [...]. Veja mais aqui e aqui.

LA MUJER SIN CABEZA – O filme La mujer sin cabeza (A mulher sem cabeça, 2008), da premiada cineasta argentina Lucrecia Martel, é um drama e mistério que conta a história de uma mulher que comete um acidente atropelando alguém na estrada, pelo qual ela se envolve de preocupações até achar ter esse mau momento acabado quando surge a notícia de uma descoberta macabra que revive todos os seus temores. Trata-se de um encantador filme realizado por uma cineasta que é meritória de aplausos reconhecidos pelos prêmios arrebatados. Veja mais aqui.


ENTREVISTA, VERSOS & BLOGS – (Imagem: Fotos do acervo de Luciah Lopez) Conheci a poeta e blogueira paranaense Luciah Lopez já faz um bom tempo, inclusive destacando seu trabalho poético nas minhas páginas. Costumo sempre visitar um de seus blogs, o Arquétipo, do qual destaco inicialmente o poema Mulher: Eu sou Aquela que você não vê / ___a que caminha sobre a Água e sobre o Fogo / e não teme o Vento que levanta as ondas / nem os Raios que acordam os medos / Sou a Hora dos dos teus Delírios / e dos teus Anseios de mais querer ____ sou endiabrado Ser que te persegue / Mulher de Ouro e Prata / de Fogo e gema preciosa____ sempre nas mãos os cabelos / à tecer o teu destino / (emaranhado, enovelado) preso no tear dos / fios e dos cílios de olhares enviesados / Eu sou a boca que te sorri / sou a Redenção da pele em Espasmo / sou a metade da tua Sombra e o Sal / do teu suor / Eu sou o Sono que espera o Sonho / sou o Caminho dos teus Pés / Sou o Tempo ante o tempo que te persegue. Também o delicioso poema Orgasmo: teu falo e teu falar / incendeiam o meu corpo / em ondas ora mansas ora tormentas à me embalar num possuir sem fim... / Teu falo / teu ferro em brasa; / tua marca na minha pele arde e dói enquanto me faz submissa à beijar te os pés... / Teu falo / me fala e deságua gametas em profusão / na fusão do gozo / orgasmo que é só meu. Por fim, o seu poema Vem, não demora: _________com o olhar percorro a distância / quilômetros de ansiedade a eriçar-me os pelos / e ferver o sangue / nas corredeiras sob a pele. / Meu corpo tenso__meu ventre em fogo / arde! / Te quero! / Vem, / ajuda-me a saciar a fome da sua pele / a sede do teu suor na minha língua / a minha boca engolindo a sua. / Não demora! / Vem, / traga o seu desejo / o seu sexo / a sua força / o seu corpo sobre o meu. / Traga a sua loucura / se deite com a minha insanidade / deixa as suas mãos me rasgando a carne / e sua boca balbuciando obscenidades / _______desrespeite a minha pureza! / Me segure / me bate / me morde / me lambe / não deixe nada no lugar / ...e antes que a noite termine, ; adormeça-me no teu peito nu. Depois desses deliciosos versos, ela me concedeu uma entrevista e pude reunir alguns de seus belos poemas selecionados por ela mesma. Veja a entrevista aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz e cantora inglesa Jane Birkin. Veja mais aqui e mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à atriz Adriana Alves, rainha da bateria da Unidos de Vila Maria e madrinha da bateria da escola de samba Pérola Negra.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...