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terça-feira, dezembro 08, 2020

STAN RICE, ESTHER WEITZMAN, DOLORES IBÁBURRI, HECILDA VEIGA, MAÍRA PASSOS & PHILAMIRE

 

 

TRÍPTICO DQC: JANELESCOLHA – Ao som dos quatro movimentos da Sonatine, da compositora japonesa Kazuko Hara (1935-2014) – Solidão de quarentena, noites longas, dias intermináveis e uns aos outros misturados, de não se saber se hoje é quarta ou segunda ou domingo, sei lá. Só me restava depor as ideias no papel na alta madrugada. Uma narrativa solta de sopapo, a ponto de ficar um calhamaço de quase cem páginas impressas. Resolvi imprimi-la para avaliar em quantas andava. Fui tentando organizar os rabiscos, elaborando planos e tramas, direcionando o enredo, identificando personagens que nasciam por si em uma história inusitada. Logo percebi as palavras se dissolverem, as letras decompostas numa dança circular a se soltarem do papel e começarem a levitar em minha frente, formando uma nuvem densa que seguia porta afora. Lá fora, deu para perceber a poeira revoluta tomando forma e, em dado momento, corporificando como um jovem que me dava a impressão de que já o tinha visto. Sim, já. E se ajeitou com esmero com o vinco das vestes, pigarreou e bateu a mão fechada na porta do meu quarto: Ô de casa! Dá licença? Atônito de quase não me conter na cadeira, vi-lhe entrar, sentar-se numa cadeira diante de mim: Sou Jangadeiro. É assim que o senhor, com certeza, me conhece ou, de alguma forma, sabe sobre mim. Quer dizer, não completamente, mas com base no processo criminal imputado contra mim, na forma de um crime doloso, quando, na verdade, foi em legítima defesa. É sobre isso que o senhor escreve há dias. E por isso mesmo, estou aqui para lhe contar a verdadeira história da minha vida. Tomara não importuná-lo, mas foi o senhor que insistiu em narrar aquele interrogatório no Fórum, onde o juiz, o promotor e o advogado da minha defesa já me condenavam antecipadamente. Todos contra mim. Por isso a minha fuga espetacular, quase viro lenda por conta disso. Na verdade, o meu infortúnio. Vou lhe contar tudo, depois o senhor poderá avaliar se sou culpado ou inocente. Contudo, agora tenho de ir, voltarei. Eles estão por perto, rondam todos os meus passos, e preciso garantir a minha integridade e a sua. Conversaremos ainda a respeito, até outro dia. E saiu como se numa frase de Aníbal Machado: Ninguém pode abrir sozinho o seu túnel pessoal para a claridade do dia, sem o risco de morrer sob os entulhos. Ah, o mundo das escolhas: as marcas do passado, o mistério do futuro, o lugar de cada um reescrevendo destinos. O amanhã é aqui e agora!

 


PHILAMIRE, A ILHA DO AMOR – Imagem de diversas edições da obra Voyage D'Alcimedon Ou Le Naufrage Qui Conduit Au Port; Histoire Plus Vraie Que Vraisemblable, Mais Qui Peut Encourager a la Recherche Des Terres Incon (Rue Serpente, 1787 - General Books, 2012), da Comte de Martigny, ao som da Élégie, do álbum Passages (1996), da compositora italiana Violaine Corradi – Estava num local desconhecido, uma ilha talvez, cercada por rochedos e protegida por bancos de areia. Toda extensão está coberta por rosas perfumadas de jardins magníficos, arrodeados por laranjais e limoeiros que formavam grandes pomares e numerosas saídas. Na localidade todas as casas pareciam um palácio e estavam todas decoradas com muitos espelhos. Haviam grutas decoradas com conchas e perfume de jasmim. Aliás, este o aroma das mulheres que se aproximaram investigativas, se eu era ou não um náufrago. Como cheguei, não sei. Inquiriam para identificar se eu era virtuoso, única condição de abrigo; do contrário me exilavam. Uma delas adiantou-se em minha direção, alisou minhas faces com as costas da mão. Olhar fixo, jeito brando, conferia os mínimos detalhes de minhas vestes com a mão espalmada sobre meu tórax, braços, ventre, sexo apalpado e conferido carinhosamente, a me olhar firme: Venha! Segui seus passos e pude constatar que ali havia muitos teatros e o principal deles num prédio situado no meio de uma grande praça octogonal. Com a minha curiosidade, ela me disse que em todos os palcos as atrizes desempenham papéis de virgens vestais. Venha! Onde estou? Em Philamire, Philos. Onde? E me explicou que aqui quem governa é o amor, a amizade e a franqueza, e que se aproximava o dia da escolha do Primeiro Cidadão. Quem? Aquele que inspiraria os sentimentos mais nobres do lugar. Ele governará ao lado de lindas mulheres que reinam cônscia de seu papel e valor, e que escolhem seus amantes entre os maduros confiáveis. Deixei de mão a conversa, prestando atenção às paisagens. Lá estava John Milton, com seu aceno: O Amor depura os pensamentos e engrandece o coração. Aquele que reina dentro de si, as regras das paixões, desejos e medos, é mais do que um rei. Uma surpresa e tanto! Acenei e continuei a caminhada. Ela então me explicou que ali não havia templos: para os moradores, o único templo é o coração. Também não havia sistema judicial: Aqui todos são justos. Não há casamento, só declarações mútuas de amor. Todas as mulheres, inclusive as mais pobres, são virtuosas e mantidas pelo Estado, consideradas cidadãs úteis que se sacrificam pelo bem da sociedade em se dedicarem a satisfazer os desejos dos homens, apenas em troca de amor. Era o paraíso perdido, então, e eu havia encontrado, parece.

 


DE CHOROS & A DANÇA DO FUTURO – Imagem: A arte da bailarina, coreógrafa e mestra Esther Weitzman: Me interessa a ação da gravidade no corpo, a relação que se estabelece com o chão. Peso, força, vigor. E também a leveza que é possível surgir daí. Ao som de Crepuscole With Nellie (Ten 2010), do compositor e pianista estadunidense Thelonious Monk (1917-1982), na interpretação do pianista estadunidense Jason Moran. - O entardecer já tomava o colorido crepuscular quando chegamos e ela, apressada e asfixiante, me trouxe de volta ao meu quarto. Ué? Acomodou-me à poltrona e disse: Olhe bem, sou Hecilda, a professora e socióloga Hecilda Fonteles Veiga: Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer”. Depois, fui levada ao Pelotão de Investigação Criminal (PIC), onde houve ameaças de tortura no pau de arara e choques. Dias depois, soube que Paulo também estava lá. Sofremos a tortura dos ‘refletores’. Eles nos mantinham acordados a noite inteira com uma luz forte no rosto. Fomos levados para o Batalhão de Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde, além de me colocarem na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à ‘tortura cientifica’, numa sala profusamente iluminada. A pessoa que interrogava ficava num lugar mais alto, parecido com um púlpito. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. De lá, fui levada para o Hospital do Exército e, depois, de volta à Brasília, onde fui colocada numa cela cheia de baratas. Eu estava muito fraca e não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitei-me no chão. As baratas, de todos os tamanhos, começaram a me roer. Eu só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei. Depois disso, ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a fera que estava ali. E chorou desmesuradamente. E contou-me que isso ocorrera em 6 de outubro de 1971 e que, há três anos, falecera este seu filho que nasceu preso pela ditadura, e que se queimara por décadas no inferno do mundo e precisava de um instante que fosse de paraíso. O filho que se foi repetia sempre: Não havia algemas para os meus pulsos. Nem ela mais possuía nenhuma algema: Sou ela, a que é filha ao lado de outras filhas da dor. Ao conseguir segurar o soluço do pranto, disse uma frase da ativista espanhola Dolores Ibáburri (1895-1989): É melhor morrer de pé que viver de joelhos. E mais disse até conseguir fôlego para recitar um poema de Stan Rice: Pouca coisa é / Mais digna de nossa atenção / Do que compreender / O talento da substancia / Uma abelha, uma abelha viva, / Na vidraça, tentando sair, condenada, / Sem conseguir entender. Assim somos e vivemos. Até mais ver.

 

A ARTE DE MAÍRA PASSOS

Antes de escolher o jornalismo como profissão, a dança já fazia parte da minha essência. Pensei em criar o site para proporcionar um espaço de divulgação gratuita, através de mídia espontânea, para os profissionais de dança. Como danço desde criança, percebia que a maioria não tinha como investir em ações de marketing. Queria chegar junto, ser acessível, dar voz à dança local.

A arte da bailarina e jornalista Maíra Passos, idealizadora do Na Ponta do Pé, projeto pioneiro de jornalismo cultural com notícias sobre a dança pernambucana, lançado em 2012,mostrando a diversidade dos passos e trazendo a pluralidade dos estilos praticados no estado. Na pauta, vários estilos de dança, como dança popular, balé clássico, dança contemporânea, jazz, dança moderna, dança de salão, hip hop, dança do ventre, flamenco e pole dance. Há ainda série de reportagens especiais e entrevistas exclusivas com personalidades da dança pernambucana, além de matérias sobre festivais, mostras, cursos e espetáculos de dança realizados em Pernambuco. Veja mais aqui & aqui.


 


quinta-feira, junho 01, 2017

JOÃO TERNURA DE ANÍBAL, PRIMEIRA VEZ DE JULIANA DE AQUINO & BRINCARTE DO NITOLINO

Veja detalhes aqui.

DIA DE MUITO, VÉSPERA DE NADA - Até ontem não havia nada, só o desejo na contagem regressiva, o resultado só para amanhã e o futuro da noite, interfaces da solidão. Amanhecia sequestrando o domingo, o feriado virava cantiga de grilo no trampo. O feito e refeito de nada valiam, coisas pro lixo, estaca zero. Justapostos planos de horas para fugas do labirinto, quando o vento soprava, desastres a vista; quando a chuva descia, transbordavam os rios pra reduzir o mundo ao ermo, vitórias feitas de cinzas, derrotas acenando na esquina. Realmente até ontem não havia nada, só melancólicas fisionomias severas com seu jeito fingido dissimulando o menosprezo pelos outros insignificantes que nascem para reclusão da pobreza de seus destinos cruéis, prontos com suas intemperanças verbais exasperadas na fúria mal humorada do recato hipócrita que escondia o despudor deslavado, oh gente difícil essa. De algum lugar uma voz terna me chamava atenção ao ouvido, como quem fala generosamente coisa fraternal, e eu me virei pra ver e não vi quem era, parecia voz da mulher amada que chega sem avisar e sai sem se despedir. Quem seria? Não deu pra ver, estranhei espantado quem a capacidade de tal gentileza, tão difícil nos tempos atuais, à procura, cadê, pés nas poças e a lama salpicou a minha e a roupa de outras pessoas, está doido? Alguém gritou e nem vi, procurava aquela voz que sumiu e esperava encontrá-la de mão em mão, passo a passo, remembranças à flor da pele celebrando a vida ao canto de amor, ah o amor sempre às voltas do meu coração. A buscar do afeto daquela voz me levou por lugares nunca vistos e perdi a noção do tempo, sabia não encontrá-la, sempre assim, as coisas me fugiam entre os dedos, o que não interessava era que fincava a bandeira da aversão ao meu redor a todo tempo e momento. Então, mais nada afora isso, até ontem assim, nada demais. Hoje, amanheci teimosa esperança, tola pra quem dá tudo por perdido, resiliente pra quem persevera sem saber qual razão pra seguir entre tantos destroços. Assim sou, do que fui pro que vou e voo. O meu dia de tudo, posto que nada possa ocorrer, quem sabe, de uma hora outra tudo vira de cabeça pra baixo e, pelas tabelas, possa ser que dê de cara com o que nunca pude ver ou saber na minha louca forma de ser e viver. Um dia como outro, meu recomeço diário pra fazer o novo de novo e sempre. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

JOÃO TERNURA DE ANÍBAL MACHADO
[...] Não adiantava fingir naturalidade, de maneira a ser confundido com os demais acompanhantes: o jeito, o olhar, e sobretudo a colocação especial no grupo da frente o denunciavam. Tanto assim que das calçadas e janelas a direção dos dedos, os olhares, as exclamações eram só para ele, o renegado, o filho da Liberata.
Trecho da obra João Ternura (José Olympio, 1980), do escritor, professor e homem de teatro Aníbal Machado (1894-1964). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Antologia Pornográfica de Alexei Bueno, Linguística & Estilo, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, a música de Andrea dos Guimarães, Wunderblogs, a ninfa Carna, a arte de Gilvan Samico & Matéria Incógnita aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa, Pensamento complexo de Edgar Morin, Pirotécnico Zacarias de Murilo Rubião, As criadas de Jean Genet, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, a arte de Hanna Schygulla, Imprensa, a música de Alanis Morissete & a pintura de Thomas Gainsborough aqui.
Credibilidade da imprensa brasileira, A imprensa & Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, História da Imprensa de Nelson Werneck Sodré, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues, a literatura de Cervantes & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.
Inclusão social pelo trabalho, Pitágoras, José Louzeiro, Samir Yazbek, Jacques Rivette, Xue Yanqun, Ednalva Tavares, Lisa Lyon, Música Folclórica Pernambucana & A imprensa na atualidade aqui.
A mulher do médico, Do sentir de Mario Perniola, a fotografia de Alfred Cheney Johnston, a arte de Sandra Cinto.& Akino Kondoh, Sonhos graúdos na diversão da mocidade aqui.
Mil sonhos na cabeça e o amanhã nas mãos, A pedra do sono de João Cabral de Melo Neto, a pintura de Omar Ortiz, a arte de Gary Jackson & Sean Seal aqui.
A vida em risco e o veneno à mesa, O direito dos povos de Amartya Kumar Sem, a pintura de Roberto Fernandez Balbuena & a arte de Kadee Glass aqui.
O brinde do amor, Pedagogia do oprimido de Paulo Freire, a música de Vanessa da Mata, a arte de Luciah Lopez, Project Global Peace Art & Havia mais que desejo na paixão feita do amor aqui.
Sexta postura, A arte de amar de Manuel Bandeira, a música de Al Di Meola, a escultura de Ambrogio Borghi, arte de Juli Cady Ryan & Quando amor premia o sábado aqui.
Desencontros de ontem, reencontros amanhã, Augúrios da inocência de William Blake, a música de Gonzaguinha, a arte de Duarte Vitória, a poesia de Tony Antunes & Alô, Congresso Nacional, ouça quem o elegeu aqui.
O que é ser brasileiro?, Sobre a violência de Hannah Arendt, a arte de Alex Grey, a música de Carol Saboya & Quem faz e não sabe o que fez é o mesmo que melar na entrada e na saída e nem se lembrou de limpar. Que meladeiro aqui.
Pra quem nunca foi à luta, está na hora de ir, a escultura de Phillip Piperides, a música de Duo Graffiti, a arte de Tracey Moffatt & Tanise Carrali aqui.
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PRIMEIRA VEZ DE JULIANA DE AQUINO
Curtindo o cd Primeira vez (Independente, 2001), da cantora lírica e atriz brasileira Juliana de Aquino (1980-2009), interpretando músicas de Djavan, Suzy Quintella & Heraldo Palmeira, entre outros. Ela estudou piano no Instituto de Música do Distrito Federal e na Universidade de Brasília, integrava o coral do Teatro Nacional de Brasília, além de ter participando de óperas e musicais na Alemanha. Entre os seus trabalhos estão o Rei Leão(Der König der Löwen, 2003-2007) e interpretou o papel de Maria Madalena em Jesus Cristo Superstar (2008). Sua arte foi interrompida pelo trágico acidente no Oceano Atlântico, durante o voo 447 da Air France.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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sábado, janeiro 21, 2017

ANÍBAL MACHADO, LOALWA BRAZ, RYAN MCGINLEY, GUSTAVO ROSA & ZÉ GULU

APESAR DE TUDO QUE JÁ FOI FEITO, SOMOS TODOS MÍNIMOS - Imagem: arte do pintor, desenhista e gravador Gustavo Rosa - Certa feita, em uma situação deveras complicadíssima, em que todos os ânimos estavam bastante exaltados e prestes a uma catástrofe sem precedentes no desentendimento humano, eis que o doutor Zé Gulu, saindo do seu mutismo solitário, fez menção a todos da evolução humana através dos tempos, chamando atenção para a descoberta do seu próprio corpo e poder, quando não havia nada ao seu redor que lhe possibilitasse a própria existência. Só havia florestas e animais silvestres com quem dividia a sua sobrevivência. Nesse instante ele passou a encarar a si próprio com o seu poder ilimitado de criar condições para superar todas as adversidades ao redor. Percebeu a força dos seus punhos, a ação dos dedos, a tração dos braços, os impulsos do corpo, andar, correr, ouvir, enxergar, cheirar, saborear e, sobretudo, pensar nisso e em tudo o mais. Vivia o homem primitivo sobre galhos de árvores para se abrigar tanto das imprevisíveis força da Natureza, como da ação e ataque de predadores. Com a descoberta das cavernas fez a sua primeira morada preservando-se do perigo e dos males. Pela necessidade de mudança e adaptação das estações, teve de recorrer a desertos e neles construir a primeira rústica cabana com o material que tivesse ao alcance. De tanto contemplar os raios solares chegou à energia pelo atrito, o calor, o fogo e a luz, a do peso da água e, posteriormente, do seu movimento, o poder do vapor, a atração, as pulsações. Com a força do braço, ao longo dos milênios, aprendeu a lascar a pedra, construiu abrigos, lavrou a terra, mexeu no solo, manipulou metais, tornou-se artífice usando da alavanca para mover pesados, operou grandes engenhos, do trabalho ao descanso até o advento da alvenaria, desde castelos, pirâmides aos arranha-céus espetaculares. Quando se viu limitado pelas correntes dos rios, as primeiras toras para singrá-los até os troncos como pontes, chegando-se às grandiosas travessia de concreto armado, o complexo sistema de eletrificação urbana, as sofisticadas embarcações que deram nos submarinos e transatlânticos. O quanto se andou a pé até inventar a roda, a locomoção, as engrenagens, o motor à explosão até o automóvel possante de última geração. Teve o sonho de voar, como Ícaro, flutuar o mais pesado que o ar, a asa e as aeronaves dos foguetes siderais. Ao ficar maravilhado de ver tantas descobertas, a visão cansou e próteses oculares para enxergar melhor, até os microscópios e telescópios potentes para alcançar desde seres minúsculos e invisíveis às constelações e galáxias. A criação humana ao longo de séculos curou doenças, restaurou fraturas no sistema ósseo, restituiu membros amputados, enfim, uma maravilha realizada com muito trabalho árduo, devotado, dedicado, ignorado por todos. Ao chegar ao extremo de desafiar a Natureza, percebeu que era limitado. E não só: um ínfimo ser vulnerável a um vírus capaz de lhe levar à morte, um nada diante da imensidão do Universo. Porém, possuidor de um poder ilimitado: o da criatividade, da inventividade, o gênio humano. Este um poder inexaurível que independe de força ou de resistência física, de tempo ou espaço, de sexo ou gênero, ou das tradições do passado, das possibilidades ou recursos do presente, ou das perspectivas potenciais do futuro. Até hoje tudo que foi criado e inventado pelo ser humano, filosofia, ciência, religião, sistema, códigos, signos, mercados, tudo foi para facilitar a relação entre cada um com o outro e com todos e consigo próprio. Nunca para escravizar, guerrear, discriminar ou excluir, nem tornar ninguém dependente de qualquer engrenagem ou sistemática. O poder criador humano é capaz de tornar o inexistente em real, o ódio em amor, e com isso superar todas as barreiras e limites para si e paratodos, sem que precise viver angustiado na dor, ou fracassado dependente do que quer que seja. Todo ser humano é capaz de criar e de ter autodomínio, afinal esse poder não é o poder exclusivo de um homem só ou escolhido, mas é de todo e qualquer ser humano, com a capacidade de construir a partir de um pensamento, uma ideia, quaisquer coisas do amanhã. Esse poder criativo está latente e pulsa no âmago de qualquer ser humano. Isso é a glória desconhecida. Apesar de tudo que já foi feito pelo ser humano, nada fizemos, cada vez mais somos tão mínimos. Sejamos, portanto, melhores. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

 Curtindo os álbuns Brésil (1989), Recomeçar (2003) e Ensolarado (2011), da cantora Loalwa Braz (1953-2017), brutalmente assassinada nesta quinta, 19/01, em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. O corpo dela foi encontrado carbonizado em um carro incendiado por homens que invadiram a sua pousada Azur – localizada na Estrada da Barreira, em Saquarema -, que teve cômodos queimados e consumiu o sótão. Após as investigações, foram presos em flagrante pelo crime de latrocínio, Wallace de Paula Vieira (23) que se disse caseiro da propriedade, mais Gabriel Ferreira dos Santos (21) e Lucas Silva de Lima (18), identificados como autores do crime. Nossa homenagem e consternação.

Veja mais sobre:
Poemas & canções da Crônica de amor por ela aqui.

E mais:
Sulina, a opulência da beldade, Graciliano Ramos, A cultura midiática de Douglas Kellner, Horácio, a pintura de André Derain, a música de Ronaldo Bastos, A poesia de Wanda Cristina da Cunha, A promiscuidade de Pedro Vicente & Lavinia Pannunzio, Gattaca de Andrew Niccol & Uma Thurman, Cindy Sherman & Thaís Motta aqui.
Iangaí, ó linda, Olinda, Fecamepa & os primórdios da corrupção no Brasil, Ari Barroso & Plácido Domingo, G. Graça Campos & a Esteatopigia aqui.
Francis Bacon, Antonio Gramsci, August Strindberg, a pintura de Lidia Wylangowska, a música de Luciana Mello, Marília Pêra & o grafite Vagner Santana aqui.
Um troço bulindo no quengo com a poesia de Abel Fraga & Fernando Fiorese & o desenho de Fabiano Peixoto aqui.
A Gestalt-terapia de Fritz Perls aqui.
Educação Ambiental aqui.
Probidade administrativa aqui.
Big Shit Bôbras: a chegada e os participantes aqui.
A trupe do Fecamepa aqui.
Doutor Zé Gulu: de heróis, mitos & o escambau aqui.
Doutor Zé Gulu: sujeito, indivíduo, quem aqui.
Poetas do Brasil: Afonso Paulo Lins, Carmen Silvia Presotto, Adriano Nunes, Eliane Auer & Natanael Lima Júnior aqui.
A arte do guerreiro no planejamento e atendimento, Pedagogia do Sucesso, A educação e a crise do capitalismo, Formação do pesquisador em educação, Educação a Distância, Cultura & Sociedade aqui.
Norbert Elias & Princípios fundamentais de filosofia aqui.
Pierre Bourdieu, Psicologia Escolar, Direito & Internet aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
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DESTAQUE: OS CADERNOS DE JOÃO DO ANÍBAL MACHADO
[...] Mapa irregular do nosso descontínuo interior, com fragmentos, vozes, reflexões, imagens de lirismo e revolta – inclusive amostras de cerâmica verbal – dos muitos personagens imprecisos que os animam. Afloramento de íntimos arquipélagos, luzir espaçado das constelações predominantes... O autor apenas se reserva o direito de administrar o seu próprio caos e de impor-lhe certa ordem na tranquilidade formal das palavras. [...] O sentimento dramático do movimento, do provisório, do vir a ser, deixa-nos a princípio num estado de flutuação e perigo, tontos em busca de direções, mas já num confuso pressentimento de pólos atrativos. E somos depois atirados dentro mesmo das forças vivas com as quais formamos, à nossa maneira, um Universo alimentado por energias humanas e telúricas em constante transformação e metamorfose. Ó Heráclito, tua lição continua. Almas desamparadas, viúvas do Absoluto, podem a cada instante contrair novas núpcias. [...] Prendo-me aos seres e objetos com o fervor de quem vai perdê-los para sempre. Porque afinal este mundo, tal como está, se eu gosto dele um bocadinho, é no momento mesmo em que penso largá-lo. Mas isso eu nunca digo. E vou andando... Se alguém pergunta quem sou, respondem todos: Não se sabe. Vive dizendo que está indo para um castelo de passarinho... Sempre assim. Quando a vida me aborrece, largo tudo de repente, apanho a trouxa, e vou tocando devagarinho para Santa Maria, castelo de passarinhos... [...].
Trechos extraídos da obra Cadernos de João (José Olympio, 2004), do escritor, professor, crítico e homem de teatro Aníbal Machado (1894-1964). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, desenhista e gravador Gustavo Rosa.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: arte do fotógrafo estadunidense Ryan McGinley.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja mais aqui e aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...