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segunda-feira, junho 29, 2020

JOAN LA BARBARA, ANGIE THOMAS, SAMELLA LEWIS, ABDON LYRA, LEILA KRÜGER & MARI SANTTOS



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: AUTORRETRATO, ALTER EGO - Abri a porta do poema: eu feliz na desolação quando ninguém era. A cabeça no tormento da ausência, nuvem dos fragmentos: tons, sons e versos nas garrafas e a solidão que teimava me silenciar. Não, eu era o Una noitedia inaugurando a agonia e o abandono de quem morre a cada instante. Exupéry é vento sussurrando em ré menor: Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção. O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem. Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. De mim o beijo que é paratodos, se sobrar alguma coisa. Eu sei: igual a mim, diferente do que sou: o amor.

DUAS: MONÓLOGO DA NOITE ALTA – Alô? Sou pescador na correnteza. Alô! A chave não tem fechadura. Alô? Minha pele expõe a dor mestiça de não ser ninguém na alta hora da noite, nem no calor dos dias. Ninguém responde, corro perigo e cultuo o meu vazio que não existe. Helen Keller é o que ouço entre as margens: Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto expor-se ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada. Sou voo solitário.

TRÊS: A DANÇA DAS ESTRELAS - O céu de Nietzche e eu sorrio na minha loucura: É preciso ter o caos dentro de si... Cadê meu par? Emma Goldman: Se não posso dançar, não é minha revolução. Rimos e nos embalamos, rodopiamos, três poemas fiz pro nosso pas de deux: a dança revelou o amor. Fomos surpreendidos com a intromissão de Lafcádio Hearn: O criador de sombras molda para sempre. O tempo da ilusão, então, é o belo momento da paixão; representa a zona artística em que o poeta ou escritor de romances deve ser livre para fazer o melhor que puder. Deu-me as costas e não havia mais ninguém na minha solidão. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Quando eu tinha 12 anos, meus pais tiveram duas conversas comigo. Uma foi a de onde vêm os bebês e tal […] A outra foi sobre o que fazer se um policial me parasse. [...] Já vi acontecer um monte de vezes: uma pessoa negra é morta só por ser negra e o mundo vira um inferno. Já usei hashtags de luto no Twitter, repostei fotos no Tumblr e assinei todos os abaixo-assinados que vi por aí. Eu sempre disse que, se visse acontecer com alguém minha voz seria a mais alta e garantiria que o mundo soubesse o que aconteceu. Agora, sou essa pessoa, e estou morrendo de medo de falar. [...] Pessoas como nós em situações assim viram hashtags, mas raramente conseguem ter justiça. Mas acho que todos esperamos que essa vez chegue, a vez em que tudo vai acabar da forma certa. [...]. Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria? [...]. Trechos extraídos da obra O ódio que você semeia (Record, 2017), da escritora estadunidense Angie Thomas, que levado para o cinema em 2018, com direção de George Tillman Jr. Ela também é autora do livro Na hora da virada (Record, 2019).

DESTAQUE: Vai passar. Mas, antes, vai te derrubar. A escritora Leila Krüger é autora dos livros Reencontro (2011), A Queda da Bastilha (2012/2019), Coração em chamas (2014), Eu quero mais é ser feliz (2018) e A night the taverna (2018) e participou de antologias no Brasil e em Portugal. Ela atua como ghost writer e jornalista, colaborando com jornais como HoraH. Ela é graduada em Desenho Industrial - habilitação em Programação Visual pela UFSM-RS, especialista em Expressão Gráfica pela PUCRS e Mestre em Comunicação Social pela Famecos. Atualmente, trabalha como jornalista nas áreas de finanças, sociedade, marketing e cultura. Colaborou em jornais como Gazeta do Povo, Correio do Estado e Zero Hora, entre outros.

A MÚSICA DE JOAN LA BARBARA
Ao pensar na maneira como construo a música, também me concentro mais na maneira como outros compositores constroem a música - no que eles estão pensando, nas formas das coisas - e se alimenta entre essas duas funções.
Quando você começa a analisar exatamente como uma peça é montada - se você também é compositor, isso pode ser retroalimentado nessa outra função, e você começa a analisar a maneira como está fazendo algo em oposição à maneira como outra pessoa pode lidar com a mesma situação.
JOAN LA BARBARA – Curtindo a arte da cantora, vocalista e compositora estadunidense Joan La Barbara. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Uma maneira de ajudar a obter arte afro-americana, mesmo que impressa, nas casas de pessoas que normalmente não a teriam. Eu não consigo parar. Tudo isso é uma obra de arte.
SAMELLA LEWIS - A arte da historiadora, educadora e artista afro-americana Samella Lewis, com suas belas gravuras. Veja mais aqui.
&
MARI SANTTOS
A arte da quadrinista, ilustradora e desenhista Mari Santtos, autora do livro A Máscara de Togi, das tirinhas biográficas Toda Mari e desenvolve pequenos contos e tirinhas publicados em diversas páginas. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A música do compositor, maestro e trombonista Abdon Lyra (1887-1962).
&
História do espetáculo, do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976) aqui.
Somas dos sumos, do escritor, jornalista e sociólogo Alberto da Cunha Melo (1942-2007) aqui.
A lenda dos cem, do premiadíssimo escritor Gilvan Lemos (1928-2015) aqui.
Alimentação e nutrição no Brasil. Percepção do passado para transformação do presente, do médico e professor universitário Bertoldo Kruse Grande de Arruda aqui.
Chalé do Inglês & a Casa Grande do Engenho Paul, do pintor Luiz Barreto aqui.
Arte, folclore e subdesenvolvimento, de Souza Barros aqui.
&
Jurema aqui & aqui.


domingo, junho 29, 2014

ÅSNE SEIERSTAD, MUSIDORA, GAUTIER, GIOCONDA BELLI & HELEN GURLEY BROWN

 


AH, MUSIDORA, QUEM É VOCÊ? – Era ela na vera Irma Vap: uma cantora de cabaré, verdadeira femme fatale das Les Vampires de Feuillade. Lá estava sensualmente vestida numa malha preta provocante, colada ao seu corpo escultural, coxas, seios, ventre, ancas – era um erotismo subversivo, verdeiro presente dos deuses. Vi-lhe tigresa, corpo modelado na meia calça escura enquanto tateava pelos telhados, olhos acesos, armando o bote. Aproximou-se furtiva, olfato aguçado. E a sua exótica lindeza era a reencarnação das pinturas de West e Sully, da musa do Summer de Thomson, a The Knight Errant de Millais. De perto logo desvendei: era a heroina do Fortunio de Gautier, a linda do cartaz de Guy Arnoux, que brilhara no elenco de A lououitte de Bruant, no palco do Ba-Ta-Clan, durante os anos sombrios da Grande Guerra. Pude conviver com a sua vida extravagante na companhia das amigas Colette e Germaine Dulac, transformou-lhe na musa surrealista, que já fora Vincenta, a La Vagabonde, outra num episódio d’A revue galante de Folies-Bergère, ou a capitã Alegria, ou uma beldade que estrelou em Le berceau de dieu. Era Diana Monti de Judex, ou a Alegria Kapitaina, a vanguardista que cantava e dançava pela emancipação feminina nos music halls franceses. Logo me embeveci com a sua invulgar formosura, como se me visse enlevado pelos versos de Baker: Ela é bela como Vênus e suave como Aurora, \ discreta como Minerva e jovem como Flora...A intimidade me fizera dela correlato na sobrevoante errância. Ah, Jeanne, li a sua novela adolescente, enquanto flagrava a sua formosura no banho da bela do The Bather de Etty. Saiu enrolada numa toalha diminuta e seus olhos ansiosos reluziam sentada na torre da noite, a me ofertar as flores esplendorosas de sua alma labiríntica na dor inominável de seu desespero poético. Dela soltavam-se as páginas dos escritos de Arabella et Arlequin, as canções e poemas de Auréoles, Paroxysmes , a Mademoiselle Chiffon e os roteiros inéditos. Era a lendária rainha do cinema, a décima musa que se dedicara ao Soleil et Ombre e ao inconcluso Le terre dês Taureaux. O seu doce sorriso me premiou com seus lábios esculpidos num beijo de amor. A ousadia suspirante do seu grande coração envolvia-me como um caramanchão a me refugiar em seu ventre, cortejando minhas entranhas com suas mãos delgadas que escapavam ao alcance do meu sexo premido por seus dotes de rara beleza. Senti o ouro incontável do seu sexo perfumado como uma rosa resplandecente que se despetalava afetuosa a me fazer zéfiro galante na paisagem rara de sua longínqua graça majestosa, a me convidar a amá-la abrindo-se em pétalas para envolvê-la terna aos sussurros inquietos de seus múltiplos gozos, deslizando-se aos orgasmos sobre o meu corpo entregue. Quantas noites, dias e ousado trânsito de horas, até que ela se tornava uma das estrelas imortais no firmamento do meu coração erradio. Veja mais abaixo e aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A beleza não pode divertir você, mas o trabalho intelectual – ler, escrever, pensar – pode. Garotas boas vão para o céu e garotas más vão para todo lugar. Sentir-se inseguro é bom para você. Isso força você a fazer algo melhor, leva você a usar todos os seus talentos. Se você não é um símbolo sexual, você está em apuros... Pensamento da jornalista e escritora estadunidense Helen Gurley Brown (1922-2012).

 

ALGUÉM FALOU: É vital ser fotogênico da cabeça aos pés. Depois disso, você poderá exibir algum talento... Escolhi o nome da heroína Musidora, recolhida do Fortunio de Gautier e comecei a viver um sonho. Fui movida pela fé: a cena, o subir da cortina, a rampa, a maquiagem e os cenários, toda aquela região do 'inventado'. Queria estar ao seu serviço. E aprendi meu trabalho como artesão... Queria que meu rosto fosse coberto como meu corpo, para que a impressão de ser enterrado fosse genuína. Respirei fundo novamente e procurei a imobilidade total. E dei o sinal: 'Ação…. ' A primeira colherada de terra caiu sobre meu queixo e bochechas... A segunda cobriu meus olhos. A terceira deixou livre apenas a ponta do meu nariz. O último, pesado, escondeu meu rosto completamente. Estava na hora! Tudo isso durou apenas vinte e cinco segundos, mas sufoquei; minha boca comia terra triturada, meus ouvidos estavam entupidos de terra úmida, mantive os cílios fechados, temendo encher os olhos com grãos de areia arranhantes. E foi com a palavra ‘Caramba!…’ que recuperei os meus amigos, o ar, o sol, o calor e a vida... Pensamento da atriz, cineasta e poeta francesa Musidora (Jeanne Roques – 1889-1957).

 

MADEMOISELLE DE MAUPIN - [...] Ser lindo, bonito, significa que você possui um poder que faz com que todos sorriam e o recebam bem; que todos estejam impressionados a seu favor e inclinados a ter sua opinião; que basta passar por uma rua ou aparecer numa varanda para fazer amigos e conquistar amantes entre aqueles que olham para você. Que presente esplêndido, que magnífico é aquele que lhe poupa a necessidade de ser amável para ser amado, que o livra da necessidade de ser inteligente e pronto para servir, o que você deve ser se for feio, e lhe permite dispensar com as inúmeras qualidades morais que você deve possuir para compensar a falta de beleza pessoal. [...] Que mulher bem-educada recusaria seu coração a um homem que acabara de salvar sua vida? Nenhum; e a gratidão é um atalho que leva rapidamente ao amor. [...] Os anos que desperdicei em excitação pueril, indo para lá e para cá, tentando forçar a natureza e o tempo, eu deveria ter passado em solidão e meditação, tentando me tornar digno de ser amado. [...] Independentemente do que tenha sido dito sobre a saciedade do prazer e o desgosto que geralmente segue a paixão, qualquer homem que tenha um pouco de coração e que não seja miseravelmente e desesperadamente blasé sente seu amor aumentado por sua felicidade, e muitas vezes a melhor maneira de manter um amante pronto para partir é entregar-se a ele sem reservas. [...] Muitas vezes fui acusado de falsidade e hipocrisia, mas não existe homem que teria mais prazer do que eu falar a verdade e expor seu coração; mas como não tenho uma idéia, um sentimento em comum com as pessoas que me cercam, como a primeira palavra que eu dissesse com sinceridade causaria um alvoroço geral, preferi ficar em silêncio ou, se falar, proferir apenas lugares-comuns estúpidos nos quais todos concordaram em acreditar. [...] Cada homem é em si toda a humanidade, e se escreve o que lhe ocorre, consegue melhor do que se copia, com a ajuda de uma lupa, objetos colocados fora dele. [...]. Trechos extraídos da obra Mademoiselle de Maupin (‎Debolsillo, 2008), do escritor, jornalista e critico literário francês Théophile Gautier (1811-1872). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

O LIVREIRO DE CABUL – [...] Enquanto o valor de uma noiva está em seu hímen, o de uma esposa está no número de filhos que ela produz. [...] As três burcas continuam andando, virando a cabeça em todas as direções para olhar ao redor. Mulheres de burca são como cavalos com antolhos: só conseguem olhar em uma direção. No canto do olho, a grade dá lugar a um tecido grosso que impede olhar de lado. Você tem que virar a cabeça inteira. Outro truque do inventor da burca: permite ao homem saber sempre em quem ou no que sua esposa presta atenção [...] A única coisa que sabemos fazer é invocar, rezar e guerrear; mas as orações não servem de nada se as pessoas não trabalharem. [...] O amor não é um idílio normal, mas sim o contrário: pode ser um crime grave punível com a morte. Os indisciplinados são assassinados a sangue frio, e quando apenas um dos dois amantes é punido, é sempre a mulher. [...]. Trechos extraídos da obra O livreiro de Cabul (Record, 2006), da escritora e jornalista norueguesa Åsne Seierstad.

 

UM POEMA – MAIO - Os beijos não murcham \ como as flores da malinche, \ cascas duras de sementes não crescem sobre meus braços; \ Estou sempre florescendo \ com essa chuva interna, \ como os pátios verdes de maio \ e rio porque adoro o vento e as nuvens \ e os pássaros cantando que passam por cima, \ mesmo estando emaranhado de lembranças, \ coberto de hera como velhos muros, \ continuo acreditando nos sussurros secretos, \ na força dos cavalos selvagens, \ na mensagem alada das gaivotas. Poema da escritora nicaraguense Gioconda Belli. Veja mais aqui.

 

OUTRAS SACADAS AVULSAS

 

 Imagem: Hesitation, de do pintor e poeta suíço naturalizado alemão Paul Klee (1879 - 1940)

Ouvindo a Symphony nº 1, in B-minor, op. 5, de 1916, de Aarre Merikanto.

AARRE MERIKANTO – O compositor finlandês Aarre Merikanto (1893-1958) era filho do também compositor Oskar Merikanto. Compôs, entre outras obras, diversos concertos para piano, destacando o Concerto para violino nº 2 (1925), Notturno (1929) e Fantasia (1923).


Imagem: Figura Feminina, óleo sobre tela, do pintor, cenógrafo e ilustrador brasileiro Clóvis Graciano (1907 – 1988).

Ouvindo Hold Me, do músico escocês Colin Hay.

SAINT-EXUPERY – Hoje vasculhando o monturo dos meus livros, caiu na minha mão um dos volumes do escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944), que escreveu, entre outros livros, Voo noturno (1931), Terra dos homens (1939) e o festejado Pequeno Príncipe (1943) – não li os outros livros dele. Este último com uma aparência de livro infantil que encanta ainda hoje pessoas de todas as idades. Entre tantas do livro, essa pequena parte merece destaque: “O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante... - Bom dia - disse o príncipe. - Bom dia - disse a flor. - Onde estão os homens? - Perguntou ele educadamente. [...] - Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes. [...] O pequeno príncipe escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que batiam no joelho. O vulcão extinto servia-lhe de tamborete. "De uma montanha tão alta como esta", pensava ele, "verei todo o planeta e todos os homens..." Mas só viu pedras pontudas, como agulhas. [...] Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens. [...] E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim! [...] - Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. [...] - Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. [...] - Nada é perfeito - suspirou a raposa”. Veja mais aqui.


CRIS BRAUN – Durante a semana que passou tive a gratíssima satisfação de ouvir de uma leva só três álbuns: Cuidado com pessoas como eu (1994), Atemporal (2004) e Fábula (2012). A artista? Cris Braun. Com a primeira audição fiquei embevecido. Com a segunda – como a gente diz aqui na maior sem cerimônia -, bestificado. Nossa! Incrivelmente maravilhoso. Fui logo saber quem era tal, coisa que logo tomei ciência por meio do – nada mais, nada menos – jornalista e crítico musical Arthur Dapieve, tratar-se duma gaucha/alagoana que tem uma trajetória artística digna de nota. Entre saber de quem se tratava e a degustação das músicas, destaco Bom dia (uma parceria dela com o Billy Brandão e com participação especial da Paula Toller), A Viga (parceria dela com o Fernando Fiuza), Contradição (dela com Marcos Cunha e William Magalhães), Ossos (essa do Wado) e Memória da Flor (da dupla Junior Almeida e Zé Paulo). Confesso maravilhado que vocês terão a mesma satisfação de constatar: uma artista!


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sexta-feira, setembro 04, 2009

GARCIA DE HUBBARD, EXUPÉRY, ROGER CHARTIER, SILVIANO SANTIAGO, TERESINHA PONCE DE LEON, KEITH RICHENS & LITERÓTICA - ÁRIA DA DANAÇÃO


Imagem: Forbidden Love – Nude Lovers Painting, by NikhelBig

ÁRIA DA DANAÇÃO

“Que nos perdemos por amar se diz... Tolice! Outra é a verdade, podes crer: Só quem não ama sente-se infeliz!“ Aretino (1492-1556)


Naquela tarde tudo parecia azul e ela nua e linda no súbito ímpeto de inundar-me com toda fragrância onímoda do seu corpo Kilimanjaro a me seduzir misteriosamente na minha loucura de querer a mais que o limite do horizonte.

Ah, esse corpo aeronave do prazer que me leva pelas corredeiras da tesão para seguir as trilhas dessa obra-prima divina e que me reduz apenas a duas pálpebras abertas de estupefação por me apossar de sua fenda mágica e deliciosa onde recolho o gozo na água da paixão de sua fonte de todos manjares mais apetitosos e inenarráveis.

Ah, esse corpo vesco que me faz atleta do esporte mais radical para seguir insone à adrenalina do topo da torre abissal do seu prazer e vou de cabeça em queda livre num salto sem engates nem cintos como bungee jump por toda exuberância de sua excelsa geografia.

É onde suplanto o cume das colinas de toda sua extensão corpórea com a pirotecnia de vencer o Matsumoto, ou de ascender pela Machame Route, acampar no Barafo Hut, de sobrepujar o Huascaran no Peru de todas as suas sinuosidades de sua íntima compleição e lá erguer o punho como quem celebra a vitória de todas as ejaculações prementes na esporrada de corpo e alma sexo e profanação.

É onde usurpo os cimos alcantilados que se precipitam pelas serrarias de sua graciosidade assimétrica e buliçosa e vou aturdido a gozar das benesses de sua nudez incandescente nos meus olhos cheios de frêmitos das alturas complacentes de todas as profundezas escaladas do point livre de sua emanação esguia onde sou alpinista carregado de emoção no espetáculo fantástico da minha Guta Estresser desfilando nua na passarela do meu coração.

Ah esse corpo de ária encantada na minha danação que se faz boom nas minhas festas febris, se faz the best na agonia faminta dos meus delírios somáticos que reclamam seu toque e seu feitiço a todo instante ao meu contato para me acalmar nos seus desabridos sabores e me sentir a salvo nos seus braços de fortuna abandonada que requer comandante-em-chefe de todas as suas vontades diuturnas e inacalmáveis.

Ah esse corpo manhã de maio inquieta na minha lareira inextinguível, sou cativo errante de seus encantos que me fazem pródigo amante a poetar todos os limítrofes encantos inesgotáveis de sua entrega alada.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS – O homem é só um laço de relações, apenas as relações contam para o homem. Pensamento do escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944). Veja mais aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] uma sociedade ou um indivíduo vivem e refletem sobre sua relação com o mundo, com os outros ou com eles mesmos [...]. Extraído da obra A história ou a leitura do tempo (Autêntica, 2010), do historiador francês Roger Chartier. Veja mais aqui & aqui.

LITERATURA - [...] a literatura oferece na futura leitura da obra uma visão presente do passado e uma visão passada do presente. Todo texto literário, por mais alheio que seja aos valores do passado, movimenta direta ou indiretamente formas de tradição que são o palco onde se desenrolam os acontecimentos presentes que real e virtualmente se representam no tempo anacrônico e no espaço atópico da escrita [...]. Trecho extraído da obra O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural (EdUFMG, 2004), do escritor e ensaísta Silviano Santiago. Veja mais aqui.

MENSAGEM PARA GARCIA - Em toda esta história cubana, um homem se destaca no horizonte de minha memória, como Marte no periélio1. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era se comunicar com chefe dos insurretos, Garcia, que se encontrava em alguma fortaleza no interior da selva cubano, mas sem que se pudesse dizer exatamente onde. Era impossível um entendimento com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente dos Estados Unidos precisava de sua colaboração o mais rapidamente possível. O que fazer? Alguém lembrou: — Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan. Rowan foi trazido à presença do Presidente William McKinley Jr.2, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a invólucro impermeável, amarrou-a ao peito e, após quatro dias, saltou de um barco sem sequer uma cobertura, alta noite, nas costas de Cuba, de como se embrenhou no sertão para depois de três semanas surgir do outro lado da Ilha, tendo atravessado a pé um país hostil, e entregue a carta a Garcia, são coisas que não vêm ao caso narrar aqui em pormenores. O ponto que quero ressaltar é este: o presidente McKinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia. Rowan tomou a carta e nem sequer perguntou onde ele está? Salve! Viva! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua colocada em cada escola. Não é somente de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem somente de instrução sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras, para poder se mostrar altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia. O general Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante uma grande empresa, em que a ajuda de muitos se torna necessária, tem sido poupado de momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de um grande número de homens, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente em uma determinada coisa e fazê-la. A regra geral tem sido: assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal feito. Ninguém pode ser verdadeiramente bem sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance para fazer com que outros homens o auxiliem, a não ser que Deus Onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre, enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz. Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de empregados. Pois bem, chama um deles e pede-lhe: — Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e fazer uma descrição resumida de Correggio. Dar-se-á o caso, provavelmente, de o empregado dizer calmamente 'sim senhor', e de executar o que lhe pediste? Nada disto! Olhar-te-á admirado, para fazer uma ou algumas das seguintes perguntas: — Quem é ele? — Que enciclopédia? — Onde é que está a enciclopédia? — Por acaso, eu fui contratado para fazer isso? — E se Carlos o fizesse? — Já morreu? — Precisa disso com urgência? — Não quer que traga o livro para que o senhor mesmo procure? — Para que quer saber disso? E aposto dez contra um que, depois de teres respondido a tais perguntas, explicando a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Correggio, e depois voltará para te dizer que tal homem não existe. Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta, mas segundo a regra e a conduta geral, aposto na alternativa certa. Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar que Correggio se escreve com C e não com K, mas te limitarás a dizer calmamente, esboçando o melhor sorriso: — Não faz mal; não te incomodes. E, dito isto, levantar-te-ás e procurarás tu mesmo. Esta dificuldade de atuar independente, esta incapacidade moral, esta fraqueza de vontade, esta falta de disposição de solicitamente se pôr em campo e agir, são as causas que impedem o advento do Socialismo puro. Se os homens não tomam iniciativa de agir em seu próprio proveito, o que farão se o resultado de seu esforço redundar em benefício de todos? Por enquanto, parece que os homens ainda precisam ser dirigidos. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não o fizer, ser despedido no fim do mês. Anuncia precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar, e – o que é mais grave – pensam não ser necessário sabê-lo. Poderá uma pessoa destas entregar uma carta para Garcia? — Vê aquele guarda-livros — dizia-me o chefe de uma grande fábrica. — Sim. O que há com ele? — É um excelente guarda-livros. Contudo, se o mandasse dar um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também poderia ser que, no caminho, entrasse em duas ou três casas de bebidas, e que, quando chegasse ao seu destino, já não se recordasse sequer da tarefa que lhe fora dada. Será possível confiar-se a tal homem uma carta para ser entregue a Garcia? Ultimamente, temos ouvido expressões sentimentais demonstrando simpatia para com os pobres que lutam de Sol a Sol, para com os infelizes desempregados à cata de um trabalho honesto, e tudo isto, quase sempre, entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder. Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, em um esforço inútil para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente. Nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que 'matar o tempo', logo que ele volta as costas. Não há empregador que não esteja despedindo pessoas que se mostram incapazes de zelar pelos interesses da empresa, a fim de substituí-las por outras mais aptas. Este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis. É a lei da sobrevivência do mais capacitado. Cada patrão, no interesse comum, trata de manter somente os melhores; exatamente aqueles que possam levar uma mensagem a Garcia. Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra necessária para dirigir um negócio próprio, e que ainda se torna completamente nulo para qualquer outra pessoa devido à suspeita que constantemente abriga, de que seu patrão o esteja oprimindo ou que tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria, provavelmente: — Leve-a você mesmo. Hoje, este homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em estado de quase miséria. No entanto, ninguém que o conhece se aventura a lhe dar trabalho, porque é a personificação do descontentamento e do espírito de discórdia. Não aceitando qualquer conselho ou advertência, a única coisa capaz de nele produzir efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota de número 44, de sola grossa e de bico largo. Sei, não resta dúvida, que um indivíduo moralmente aleijado como este, não é menos digno de compaixão; vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam muito cedo embranquecidos na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e contra a ingratidão atroz, justamente daqueles que sem seu espírito empreendedor, poderiam andar famintos e sem lar. Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas? Pode ser que sim. Mas quando todo mundo se prende a divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que dá êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros, e que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou. Nada, salvo a sua simples subsistência. Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jardineiro, como também já fui patrão. Sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados. Não há excelência na pobreza em si mesma; farrapos não servem de recomendação. Nem todos o patrões são gananciosos e tiranos da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos. Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscientemente, quer o patrão esteja, quer não. E ao homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranquilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas, sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar ou praticar qualquer outro gesto que não seja entregá-la ao destinatário. Este homem nunca fica 'encostado', nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado. A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que tal homem pedir conceder-se-á. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro, praticamente, se resume nisto: precisa-se, com urgência, de homens capazes de levar uma mensagem a Garcia. Texto Mensagem para Garcia, do filósofo e escritor estadunidense Elbert Green Hubbard (1856-1915). Veja mais aqui.

MULHER – Substantivo, verbo, adjetivo, / conforme o texto / ou o contexto. / Às vezes, difícil sê-lo / selo? O seio / maternal, sensual, sedutor / conforme o texto / ou o contexto. / Mulher, / mistério gozozo. / Árvore, raiz e flor. / Capaz de dividir-se / permanecendo inteira. / Musa, protagonista, autor, / conforme o texto / ou o contexto. Poema da poeta, professora e fonoaudióloga Teresinha Ponce de Leon.



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