Mostrando postagens com marcador Egberto Gismonti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Egberto Gismonti. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, janeiro 21, 2021

SANDRO PENNA, TCHEKHOV, PIRANDELLO, TERRY RICHARDSON, NEWTON MORENO, SUZANA SALLES & AS GRAÇAS

 

 

TRÍPTICO DQC: CONTISTÓRIA - Ao som de Frevo, no álbum Solo (ECM, 1978), de Egberto Gismonti. - Entre os pariceiros do Biritoaldo estão os cavernosos carne-e-unha Rolivânio & Penisvaldo. Eles são do tipo: aonde um vai, o outro vai atrás e vice-versa, se é que me entendem. No meio da dupla uma única concessão: o primo deles Urinácio. E isso só foi possível por conta do enrabichamento deles pras bandas de duas irmãs que tinha uma terceira caçula e que eram do tipo das meninas do sobrado de Hermilo. Para que ela não atrapalhasse acendendo vela no chambrego deles, fecharam o time com o primo, pronto e só por isso mesmo, mais nada. Assim fizeram par com as três sonhadoras e inseparáveis irmãs Bucetildes, Vaginalda e Buceleta – como se fossem as três de Tchekhov, apesar dos distintos temperamentos e do ódio mútuo e tácito entre elas. A coisa entre os três casais rolou bem e tanto que ninguém sabe, ao certo, quem é namorado de quem. Ou seja, rola uma salada na base daquela: onde come um, comem todos, mas só entre eles mesmos. Além do mais, como dizem todos, parece mais que Deus fez e o diabo ajuntou: o que há de peculiar na extravagância egoísta em cada um deles, há de, não sei como, confluírem harmonicamente: todos se completam mesmo que se estranhem uns às outras e os mesmos reciprocamente e em todo momento. Um círculo fechado em que cada um tem um rei na barriga e os outros de súditos: muita soberania para pouco reino. Vá entender. Curiosamente, no final das contas, se entendiam mesmo entediados um com a cara da outra e os demais. Mas vamos ao que interessa. Primeiro, deixando esses cuecas fedorentos para depois, o que importa agora são as dondoquinhas: filhas do sargento Tampinha, um metro e meio de impudência e bafo de brabeza. Tudo na rédea, benzidas e guardadas. Desabrocharam para a vida e com o entre-e-sai de meganha, elas vidravam pelos comandados e sonhavam desposadas em cerimônia engalanada na matriz. Assim se deu, os três recrutas se candidataram e, por falta de coisa melhor, elas se engraçaram e entabularam namoro sério, noivado para o devido casório e tudo o mais, como manda o figurino. No dia de marcação da sonhada data, os caras deram de farrapar. Elas caíram em si: SantAntonho me enganou. E eles: Isso são umas megeras, meu! E quem mandava no sexteto? Elas. Chamaram na grande e, depois de todo tipo de expediente sobrenatural, souberam dum divino Sapo. Quem? Era ele o último recurso, o milagreiro. E cada qual conseguiu convencer seu parceiro às bordoadas e foram embaixo de beliscões, tapas e chutes resolver essa pendenga. Assistia a tudo quando o escritor russo se aproximou de mim, balançando a cabeça ironicamente e me confidenciou: Nada une tão fortemente como o ódio - nem o amor, nem a amizade, nem a admiração. As mulheres nunca perdoam os fracos. O amor mostra ao homem como ele deveria ser sempre. Um homem é aquilo em que acredita. Bateu com uma das mãos às minhas costas e se foi. Por conta disso, perdi o espetáculo gratuito dos casais pelas ruas. Recolhi-me ao de sempre, solidão amena repassando as situações risíveis: como é que pode, hem?

 


DOIS: DAS GRAÇAS DO SAPO - Imagens das Graças, dos escultores Antonio Canova, Jean-Jacques Pradier, Thorwaldsen e autor desconhecido, ao som do álbum Concerto Cabaré – do espetáculo homônimo de Bertolt Brecht & Kurt Weill (Dabliu, 1996), da cantora da vanguarda paulista, Suzana Salles. - Dias depois soube do desenrolar imbróglio, foi assim: lá foram os três casais encherem as ruas de pernas por dias incontáveis, até definitivamente se apresentarem sequiosos pelas resoluções do famigerado milagreiro. Estava lá Aderbal, viola na caixa dos peitos todo metido a Bandeira: Foi, não foi, foi... Vivo nas estrelas porque é lá que brilha a minha alma. A existência é uma aventura, de tal modo inconsequente. Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Elas se entreolharam: É isso? Os cabras já se arrumavam para saírem fora, quando elas enganchou-los nelas e tomaram de atrapalhar os devaneios do poetanuro, enquanto ele lá suspirava: Ah, Nalah, também sofri de mal de amor... Elas, então, indagaram curiosas: Mas está curado? Sim, estou; e cada vez mais apaixonado. Ah, assim não serve. Servirá, verão; mas o que querem as distintas e simpáticas jovens? Aí as gasguitas depuseram um lero longo, cada uma escalpelando seu amado, tintim por tintim, e que desenganadas foram orientadas a procurá-lo, por se tratar de afamado consertador de casos e que fizesse a história delas lindíssimas como aquelas dos contos de fadas. Ele ouviu atento e pacientemente suportou não sei quantas horas de descascadas, até ser cobrado por elas: Resolvo se cada uma dormir comigo! As três? Não. E eles? Primeiro as damas: vamos fazer um cronograma! E saiu distribuindo os dias para cada uma delas. E eles? Primeiro salvo vocês, depois vejo qual a bronca deles. E cumpriu-se o acordado. No final de semana, depois que cada uma pernoitou com o poetanfíbio, viu-se logo a mudança: não eram mais aquelas três filhas do sargento, agora eram as Graças: Tália das flores, Eufrosina da alegria e Aglaia da claridade, as Cárites da paróquia. Rapaz, o negócio é sério! E foram os três malamanhados ter com o providente divinizado: E aí, véi, e com a gente? Vocês o quê? Você transformou as megeras em graças, e a gente? Ah, vocês já trocam cavalo-mago demais, vão aprender a domar mulher, seus brocos! E foi-se embora para Pasárgada. Ficaram com uma mão na frente e outra atrás: E agora, gente? Vamos atrás das meninas, ora! Vambora. Como não havia mais nada para engraçar, apareceu Pirandello com um sorriso no canto pelos seis personagens à procura de um sapo: A culpa é dos fatos, meu amigo. Somos todos prisioneiros dos fatos. Eu nasci, logo existo. Não há uma estrada real para a felicidade, mas sim caminhos diferentes. Há quem seja feliz sem coisa nenhuma, enquanto outros são infelizes possuindo tudo. Surpreso, sorri. E ele foi pro palco que escureceu, as cortinas fecharam, não havia mais público e eu esperando nem lembro o que poderia ser, de tão entretido com o desfecho parcial do rolo e a surpresa do encontro. Nada não... ah, tenho mais o que fazer.

 


TRÊS: ELA, O REENCONTRO FORTUITO - Imagens: a arte do fotógrafo estadunidense Terry Richardson, ao som da talentosíssima pianista e arranjadora israelita Yuval Salomon. – Na calçada da esquina quase não a vi, só ao chamar-me: Ei, quero falar com você, vamos ao meu apartamento. E fomos conversando sobre o que eu estava fazendo, enquanto a empolgação débil com o que me aguardava. Lá chegando: Sente-se. Aboletei no divã e ela, mão no interruptor, apagou a luz. O silêncio reinou e pensava o que ela estaria aprontando agora, repassando cada momento vivido ao seu lado e as nossas peripécias. Fui surpreendido com a luz do abajur, ela nua a depor Francesca Woodman: Minha vida neste momento é como antigos sedimentos que ficam numa xícara de café e prefiro morrer jovem deixando várias realizações ao invés de apagar todas essas coisas delicadasEu mostro o que você não consegue ver – a força íntima do corpo. Como não vê-la iluminada e radiante contornando cada canto da sala e ao meu redor, linda&nua como nunca, a recitar do poeta italiano Sandro Penna (1906-1977): Eu amava cada coisa do mundo. E não tinha senão o meu branco caderno sob o sol. Na noite profunda consomem-se as estrelas. Um odor me inunda um amor de coisas belas. E dos seus braços fez-se Terra para me abrigar. E do seu corpo fez-se mar para embalar todos os meus dias. E da sua boca fez-se vida, inteira e infinita, para que eu tenha a paz do seu perfume e nunca mais morrer. Até mais ver.

 

A ARTE DE NEWTON MORENO

Recife tem dois lugares de produção. Um ligado à tradição, porque existe uma cultura popular muito forte e enraizada, e é bonita em cena. O outro, da metrópole, à questão mais urbana que se comunica com o mundo e faz todas as pontes "internáuticas"...

A arte do premiado autor, ator, pesquisador, educador e diretor teatral Newton Moreno, que é bacharel em Artes Cênicas pela Unicamp (1995) e mestre, também, em Artes Cênicas pela USP, integrante do grupo Os Fofos Encenam. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


quinta-feira, dezembro 05, 2019

EGBERTO GISMONTI, HANNAH ARENDT, SARAH BERNHARDT & ANJA MATKO


A ALMA DE GISMONTI - Os acordes do Palhaço de Circense trouxeram lembranças do primeiro contato na Dança das Cabeças: acordes de cordas e teclas, batidas de corpo e de alma. Outras memorações, como a do Nó Caipira ou Zig-Zag, tão similares às coisas de minha gente com suas quermesses cumprindo penitentes a sua obrigação para livrar das mandingas, enganando as dores do mundo às mungangas e saudando a vida nos parques de diversão, ou na saída da sessão do cinema, as rodas de conversa com adágios e licenciosidades nas lapadas da tirana com estalado dos dedos e caretas de mamulengo pras quatro festas do ano, no meio de loas com livusias e pinoias de Malasartes e Camonge. Ah, minha gente, como coisas de Carmo, a Cidade Coração e a herança ítalo-libanesa: a mãe que canta acalanto para ninar o futuro do seu filho ou como quem junta mão-de-milho a tomar da garapa ou do ponche, soltando lorotas e potocas para quem puxa moda de viola, parlendas e mnemonias das coisas do Monge de Ipanema ou de Conselheiro, a glosa do mote de quem ouviu Pai João e bate o pandeiro embolado no coco que é assim: quando não se sabe o começo, não sabe onde é que é o fim. Como alma ameríndia e de malungo, como mel de uruçu: Altura do Sol do Meio-Dia, Xingu dos Iaualapitis, Kuarup, Amazônia, a Árvore, A Viagem do Vaporzinho & o Dirigível Tereré e O Pai das Águas Luminosas e todas as trilhas, estradas de ferro desaparecidas e dos que mijavam na cova ou cortavam orelhas para o sangue dar no mocotó e na volta da canela mandarem ver no parraxaxá! A alma dos Corações Futuristas e a Janela de Ouro do Sonho 70: seguro os Sete Anéis que lá vem Lôro, Frevo, Maracatu e caboclinhos! E mais: a Sanfona, a Fantasia, o Mágico e o Orfeu Novo que saiu do Computador para Academia de Danças e eu coroado com meu poeminha no Jornal Caipira do Em Família. E lá vem mais Folk Songs, Meeting Point, El Viaje, Guitar From Live Works In Montreal, e isso com João Cabral, Ferreira, Amado, os Sonhos de Castro Alves, Villa-Lobos & Trem Caipira Num Feixe de Luz da Alma de Pessoa e Música de Sobrevivência. É vida de alma e corpo, Água & Vinho, Duas vozes e a Dança dos Escravos, O Pagador de Promessas desde a Infância na Casa das Andorinhas, com Saudações e tudo mais. Enfim, a alma é uma Carta de Amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a sua realidade, como a perdeu para os antigos cristãos, na medida em que estes estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacto com que ela se faz sentir. [...]. Pensamento da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975), que, entre outras coisas atinentes à educação, expressou que: A escola não é de modo algum o mundo, nem deve ser tomada como tal; é antes a instituição que se interpõe entre o mundo e o domínio privado do lar. A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele, se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A ARTE DE SARAH BERNHARDT
Quando a cortina é levantada, o ator deixa de pertencer a si próprio. Ele pertence ao seu caráter, ao seu autor, ao seu público.
A vida é curta, mesmo para quem vive muito tempo, e devemos viver para os poucos que nos conhecem e nos apreciam, que nos julgam e nos absolvem e por quem temos o mesmo carinho e indulgência.
SARAH BERNHARDT - A arte da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), a Divina Sarah, considerada a mais famosa atriz da história, por ter sido A dama das camélias de Dumas, a Iphigénie e Phèdre de Racine, a Valérie de Eugène Scribe, a Armande da Les Femmes Savantes de Molière, a Jeanne-Marie de Theuriet, a Dona Maira da Ruy Blas de Hugo, a Le Mariage de Figaro de Beaumarchais, a Cordélia do King Lear de Shakespeare, a Pelléas de Maeterlinck, Salomé de Oscar Wilde, entre outras, afora atuar em diversos filmes, tornando-se a pioneira do cinema entre os anos de 1908 a 1923. Também foi escultora e se envolveu com pintura e artes visuais, expondo suas obras em Paris entre os anos de 1874 e 1896. Posou para Antonio de La Gandara e Alphonse Mucha, escreveu três livros autobiográficos e foi condecorada com a Légion d’honneur pelo governo francês. Diversas publicações fazem o acervo de obras sobre sua vida, dando conta que em vida ela teve mais de 1.000 homens diferentes. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada fotógrafa, artista e designer eslovena Anja Matko, que é forma em Tecnologia gráfica e de mídia em Ljubljana. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE EGBERTO GISMONTI
Quero dizer que ninguém grava 60 discos porque sabe exatamente o que está fazendo. Quem grava 60 discos está procurando mais do que os outros. As pessoas confundem, pensam que é pelo motivo oposto. O João Gilberto sabe o que faz, por isso gravou meia dúzia de discos. Eu ainda não sei direito o que eu faço: toco violão e piano, escrevo para quarteto, sinfônica... A minha relação com música é geral. Tenho ligações com a música indígena, com o pop brasileiro e com o universo inteiro do jazz. Toco com qualquer pessoa. Eu só quero me divertir. Eu só faço música para fazer o outro feliz. Música não serve para outra coisa.
A obra do compositor, arranjador, cantor & multinstrumentista Egberto Gismonti aqui e aqui.


quarta-feira, julho 05, 2017

JEAN COCTEAU, EGBERTO GISMONTI, ESCULTURA DE TEIXEIRA, GIL LOPES & VIVER É TÃO POUCO, É PRECISO SONHAR!

VIVER É TÃO POUCO, É PRECISO SONHAR - Imagem: Despertares, do artista plástico e professor português Gil Teixeira Lopes. - Ao espelho, à primeira vista, sou eu. Sim, sou eu, talqualmente sou agora. Olho melhor: será? Não, não sou eu, mas o que restou de mim. O que realmente sou ficou na infância, quando eu me via sorridente, olhos vivos, coração livre brincando de tudo. Precoce, não perdi de todo a infância, escondi apenas. Fui tragado pela pressa no desejo urgente de viver, malgrado eu sequer soubesse o que era o verdadeiro viver. Impaciente, construí sonhos e neles mergulhei para saber o doce e o amargo. Adolesci rápido e nela fiquei até quase maturidade provecta, indiferente a tudo. Tinha pra mim, lá pelos quinze ou dezesseis anos, que não passaria dos trinta, hoje quase ao dobro da idade. Obstinei-me aos meus propósitos, olvidando prescrições, rótulos, modas, um xexéu metido à besta. Por conta disso, sucumbi trocentas e reiteradas vezes. Aprendi a renascer das cinzas, movido pela determinação. Enfrentei apupos, reprovações. Na lona, recuperava o fôlego e vestia outras máscaras, tantos recomeços, outras feições. Até certo ponto desempenhava bem o papel imposto, enquadrado, contudo, chegava a hora em que das tripas coração não segurava mais, tudo pelos ares, viva sede de libertadade. Tantas quedas, recorrentes fracassos, de meter as mãos pelas pernas surfando pelos catombos, até findar estatelado em palpos de aranhas – todas elas insaciáveis prontas pra me devorar e eu gostando -, soprando os arranhões na epiderme dilacerada. Aprendia e reaprendia, não era nada do que pensava ou previa, estava redondamente enganado, como de costume. Encarei torpezas e astuciosas malandrices, não caí do cavalo, fazia às vezes na regra três, sem sujar as mãos. Às vezes, senão muitas, amarrava o bode entre o cuidado de evitar e o horror de sofrer. Como não investia dolosamente contra nada nem ninguém, perdia a parada e até me regozijava com isso, a consciência tranquila de nunca ter tentado contra quem quer que fosse. Pronto, partia pra outra, confiança no taco, batendo no peito a força da munheca, sem esmorecer jamais, mesmo quando não tinha nada mais além que o chão pra me cobrir. Até chegar diante do espelho com os meus muitos eus em mim mesmo, do que sonha ao que aterrissa na marra, pela força das circunstãncias. Ao me enfurecer, a lição de La Fontaine: paciência e tempo. Ao me deprimir saía à cata de portas abertas, mesmo que todas estivessem fechadas, braços abertos pra indiferença e dissimulações, compreensão diante da impaciência, uma lição aprendida de Kafka depois de perder o meu paraíso e não mais poder voltar. Havia o resquício da infância escondida e ao espelho a constatação: reduzi-me a sonhos, como todo passado, falando sozinho, pras paredes. Aprendi o visinvisível e me entendo no imprevisível e fora da lógica. No espelho o que sou e não, da lua, meta onírica; da alma, a vida, viver é tão pouco, é preciso sonhar e sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A DIFICULDADE DE SER DE JEAN COCTEAU
[...] Eu já passei dos cinquenta anos. Isso quer dizer que a morte não deve demorar a me encontrar. O teatro da vida está bem avançado e me restam poucas falas. Se olho à minha volta, no que me concerne, descubro somente lendas que sustentariam uma colher na vertical. Evito colocar o pé ali para não ficar preso nessa matéria viscosa. [...] não vejo nada que me reflita (quero dizer, que desvende a minha figura). Não encontro a mínima tentativa de separar o verdadeiro do falso, nem no elogio, nem na reprovação. [...] O excesso de tormentas internas, de sofrimentos, de crises de dúvida, de revoltas submetidas à força do punho, de bofetadas do destino me franziu a testa, cavou entre minhas sobrancelhas uma ruga profunda, entortou essas mesmas sobrancelhas, provocou dobras pesadas nas minhas pálpebras, amoleceu as minhas já cavadas bochechas, abaixou os cantos da minha boca, de tal modo que se eu me curvo sobre um espelho baixo, eu vejo minha máscara se desprender do osso e tomar uma forma informe. Minha barba nasce branca. Meus cabelos, perdendo a espessura, guardaram sua revolta. Disso resulta um buquê de mechas que se contradizem e não podem ser penteadas. Se elas se achatam me dão uma aparência horrível. Se elas se arrepiam, esse penteado desarrumado parece ser o sinal de uma afetação. [...].
Trechos da obra A dificuldade de ser (Autêntica, 2015), do escritor, cineasta, dramaturgo, desenhista e ator surrealista francês, Jean Cocteau (1889-1963), uma autobiografia – livro-testamento - sobre a dificuldade de estar no mundo cheio de fronteiras, regras e compartimentos, definindo-se por uma atividade múltipla que conjugou os novos e velhos códigos verbais, linguagem de encenação e tecnologias do modernismo para criação do paradoxo: um avant-garde clássico, trasnformando tudo em arte, desde a conversa frívola, o sonho, o riso, a beleza, a juventude, a amizade, os costumes, a responsabilidade, a leitura, o trabalho, as casas assombradas, a infância e a dor, a vida e a morte. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Solilóquio das horas agudas, O mito de Sísifo de Albert Camus, Doença sagrada de Hipócrates, a música de Meg, Neurofilosofia e Neurociência Cognitiva, a pintura de José Manuel Merello & a arte de Luciah Lopez aqui.

E mais:
Cantarau Tataritaritatá, Mulher & criança de Candido Portinari, a música de Bach & Wanda Landowska, O vir-a-ser contínuo de Heráclito de Êfeso, A estrada morta de Mia Couto, Das casas e homens de Adolfo Casais Monteiro, Maria Peregrina de Luis Alberto Abreu, Quebra de xangô de Siloé Soares de Amorim, a pintura de Vicente do Rego Monteiro, Brincarte do Nitolino, a arte de Vlado Lima & Luciano Tasso aqui.
O sangue de um poeta de Jean Cocteau, a arte de Elizabteh Lee Miller, a música de Márcia Novo & Felipe Cerquize aqui.
A varanda na noite do amor aqui.
Proezas do Biritoaldo aqui.
O pós-moderno de Jean-François Lyotard, Decamerão de Giovani Boccaccio, Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, a música de Ivan Lins, Erica Beatriz & Quasar Cia de Dança, a fotografia de Michael Helms, a  pintura de Julius Schrader, a poesia de Leila Miccolis & Programa Tataritaritatá aqui.
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius de Jorge Luis Borges aqui.
Brincarte do Nitolino, A lógica do tomemismo & da história de Roberto DaMatta, a poesia de Fichte, A estética do teatro de Redondo Junior, a música de Igor Stravinski, o cinema de Laurent Cantet & François Bégadeau, a pintura de Aldo Bonadei, a gravura de Maurits Escher & a xilogravura de MS - Marcelo Alves Soares aqui.
Vamos aprumar a conversa: Desnorteio, A ideologia & a técnica e a ciência de Jürgen Habermas, Arte & condição mulher de Ana de Castro Osório, o cinema de David Lynch, a escultura de Bartolomeu Ammanati, Hora aberta de Gilberto Mendonças Teles, a Carta de amor de Maria Bethânia, a pintura de Joseph-Marie Vien, a arte de Arlete Salles & Isabella Rosselini aqui.
O aperto que virou vexame trágico, As estratégias sensíveis de Muniz Sodré, a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, Tecnologias & memória de Maria Cristina Franco Ferraz, a pintura de William Mulready & Ângelo Hasse, a fotografia de Alexander Yakovlev, a arte de Doris Savard, a música de Asaph Eleutério, Ricardo Loureiro & Estrada 55 aqui.
Quando ela dança tangará no céu azul do amor, A condição pós-moderna de Jean-François Lyotard, Estética da desaparição de Paul Virilio, a música de Anna-Sophia Mutter, a pintura de Eloir Junior & Alex Alemany, a arte de David Peterson, Luciah Lopez, Isabel Furini & Carlos Zemek aqui.
Elucubrações das horas corridas, O pensamento comunicacional de Bernard Miège, O outro por si mesmo de Jean Baudrillard, a coreografia de Doris Uhlich, a gravura de Edilson Viriato, a pintura de David Lynch & Vicente Romero Redondo, a música de Sarah Brasil, Meu delírio de Érica Christiê, a arte de Efigênia Rolim & Sandra Hiromoto aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

ESCULTURAS DE TEXEIRA LOPES
A arte do escultor português Texeira Lopes (1866-1942).

RÁDIO TATARITARITATÁ: EGBERTO GISMONTI
Hoje é dia do especial do compositor, arranjador, cantor & multinstrumentista Egberto Gismonti, reunindo seus álbuns Em família (1981), Circense (1980), Trem Caipira (1985), Feixe de Luz: todo começo é involuntário (1988), Corações Futuristas (1976), e apresentações ao vivo com a Orquestra Corações Futuristas, com o trio no Montreal Jazz Festival, com Jane Duboc, Al Di Meola, John McLaughlin, Paco De Lucia, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Hamilton de Holanda. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e professor português Gil Teixeira Lopes.
Veja mais aqui.
 

sábado, dezembro 31, 2016

EGBERTO GISMONTI, SY MILLER & JILL JACKSON, JOHN POPPLETON & TODO DIA UM NOVO ANO

TODO DIA UM NOVO ANO - Sabe, muitas vezes tive que abrir mão de posses, afetos, crenças e coisas que julgava imprescindíveis. Houve um tempo em que era doloroso ter que me desfazer do que custava caro na estima, não havia aprendido a lidar com perdas. O que acumulava, quando não se desfazia com o tempo ou fugia entre os dedos, cumulava de favores e dado com o maior prazer. Não me ressentia do que doava, doía a obrigação de demolir, cortar vínculos, principalmente das coisas adquiridas com grandioso sacrifício e, na hora do aperto, ter de repassar para outrem, mesmo o que fora fruto de planejamento, noites em claro, pernoites na lida. Da mesma forma que sucumbi às dívidas, nunca cobrei meus devedores, dando por perdido a qualquer inadimplência. O comum pra mim era extraordinário pros outros, pois até quando assalariado, todos recebiam em dia, eu sempre ficava pra depois. O acertado em meu favor sempre dava errado, em detrimento até o impossível paradoxalmente era exequível. Até mesmo o que era de direito, não fiz a menor questão de dispensar, nenhum remorso nisso, muito menos jamais valorizei as benesses perdidas do passado, porque, pra mim, só as lições valem do que passou, mais nada. Como diz Caetano, eu sempre quis muito mesmo que parecesse ser modesto, juro que não presto, eu sou muito louco. Ao mesmo tempo estimando xis pessoas ou coisas, tamanho era o meu desapego por materialidades. Pra mim, o que me é caro são valores espirituais. Amizades, sempre em alta conta do imperdível; posses, o que se perdeu compra de novo. Dificuldades? Não maldisse a sorte, sou privilegiado: viver, lições e aprendizados. Querer mais? Nunca fui seduzido por modas, embecamentos ou etiquetas, o que tenho e prezo são atemporais. Aprecio a arte e o bom humor; e fora isso, prefiro passar meu tempo com os olhos em páginas de livros, ou curtindo a Natureza na solidão meditativa. E se o que eu perdi valia alguma coisa, não me diz nada, sou resiliente. Como não vale nada, pra mim, o que se é ou pensa. O que vale mesmo é o que se faz. E todo dia, ao amanhecer, eu faço um ano novo, todos os dias. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

 Feliz ano novo no breque, na Brahma, no lar ou na lama com cana ou champanhe
No mar, na macumba, no rumo ou na rumba, nas noites cariocas
Feliz ano novo no porto, nas docas, nos ratos, nas tocas roubando os navios
No sarro, no cio, no lado sombrio, no fio da navalha
Feliz ano novo, cantando ou calada no blue
Na balada com a boca na trombeta, no grito, na greta, no gol
Na mutreta atrás de gente fina
Feliz ano novo, no sono ou na sina, no chão, na chacina, nos casos de polícia
Na fé, na ferida, no pé, na partida. no ronco da cuíca
Feliz ano novo, na massa, no muque, no bar, no batuque, nos corações vadios
Com festa ou sem festa, na luta indigesta, nos fogos de artifício
Feliz ano novo cantando ou calada no blue
Na balada com a boca na trombeta, no grito, na greta, no gol
Na mutreta atrás de gente fina.
Feliz Ano Novo, do álbum Carmo (Emi-Odeon, 1977), do compositor, multinstrumentista, cantor e arranjador Egberto Gismonti. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Feliz Ano Novo & o Koln Concert, de Keith Jarret aqui.

E mais:
Clarice Lispector & Todo dia é dia da mulher aqui.
Primeiro de janeiro: o êxtase da vida aqui.
A Paz, Albert Einstein, Jiddu Krishnamurti, Paul Gaguin & Alexander Scriabin aqui.
Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana & 30 anos de arte de cidadã aqui.
O Sol nasce para todos aqui.
Quando ela faz o amor inesquecível aqui.
Satyricon de Petrônio & Flimar aqui.
A paranóia da paixão por ela aqui.
A febre da paixão aqui.
O natal de Popó aqui.
Simpatia para a virada do ano aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

DESTAQUE: QUE HAJA PAZ NA TERRA
Que haja paz na Terra / e que ela comece em mim. / Que haja paz na Terra, / a paz que almejamos ter. / Com Deus como nosso Pai, / Somos nós irmãos. / Que eu viva com meu irmão / em doce harmonia. / Que a paz comece em mim / e que ela venha agora. / A cada passo que eu der, / eu semeie a paz / da Rosa na Cruz da Vida e no Amor / a desabrochar. / Que haja paz na Terra / e que ela comece em mim, / comece em mim.
Que haja paz na terra (Let there be peace on earth), a premiada canção composta por Sy Miller & Jill Jackson, em 1955, quando certa noite, cento e oitenta jovens de várias raças e religiões, reunidos num seminário nas montanhas da Califórnia, nos Estados Unidos, deram-se os braços, formando um círculo, e cantaram essa canção de paz. Eles sentiram que o fato de as pessoas cantarem essa música, com seu singelo e sábio sentimento, ajudaria a criar um clima para a paz e a compreensão no mundo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do fotógrafo John Poppleton.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...