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segunda-feira, maio 19, 2025

JAMAICA KINCAID, JEWEL KILCHER, ELIANE BRUM & MARCOS NANINI

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Villa-Lobos Piano Music (8 Vols. Naxos, 1999/2008), da pianista Sonia Rubinsky.

 

Um dia e outro, qual amanhã...Dá licença, faça um favor! Chegue mais perto, sim? Dê-me sua mão nessa rua... E vamos pela manhã: o dia não espera por nós. Vamos pela tarde, a vida é uma lembrança perdida nos olhos. Vamos pela noite: há tempo de sobra para ainda ouvir a canção porque em nossas mãos o mundo é nosso. Vamos. Uns dias às carreiras da correnteza, noutros a chatura do vagar das coisas mansas quase paradas. É a vida e não só isso. A vida não é só isso não. Para onde ir, pra que lado pender, pelo menos um copo d’água gelada, por gentileza. Quem sabe minhas chagas sejam a sua dor e as dores dos outros, doutras mais fundas que há milênios nos fazem doer e chorar. Melhor acender o Fogão e frever no passo, né não? Dias pendurados na memória, dias esquecidos redivivos... Tudo passa. De longe as luzes dos postes são vagalumes em fila parados no ar. Os faróis são relâmpagos nas paredes. Os motores são trovões poluentes sufocando e ouço quem assobiava uma modinha tarde da noite, não sei, porque ouvi pisadas, um disparo, parece: alguém foi desta para melhor. Dias que ficaram dos idos sem fim... Reapareceram os que levam o nariz no umbigo e tudo de novo: quem mandou mexer com quem tá quieto? Se servir de consolo: vá se foder! Vamos vivendo pelos sonhos espiralados com imagens desbotadas de séculos reiterados do genocídio. A rua agora é uma serpente dançante reluzindo nuvens explosivas, meu chão é todo mundo e o mundo todo. De canto a recanto e tudo tem uns dias de chuva, outros de sol. A gente tem de mudar de preferências, de condução, avalie. Fui aprendendo com o tempo a ficar só, a me virar comigo mesmo e do jeito que der. Hoje os meus estão todos no cemitério, os que sobraram estão por aí e quase não sei, passaram os últimos... O que restou das matas, dos canaviais, das queimadas, repinicado dos violeiros, motes e glosas dos repentistas. Hoje é tudo muito brega com suas devoções cegas, com suas orações exaltadas e o que há para comer de enlatados e pré-cozidos, outros sonhos comprados nos supermercados, farofada na praia domingueira, bater perna pelo asfalto abrasado, olhares que seguem os automóveis e as fotos nas redes sociais. Os posudos endinheirados ninguém sabe como enriqueceram de uma hora pra outra, da noite pro dia. São só os queimas de estoques nas promoções do comércio e na zoada dos carros de som, a última moda, está tudo caro e custando os olhos da cara nas prestações intermináveis. E as recepcionistas vistosas para portabilidades infindas de amigo, de bancos, de telefônicas, de afetos e até de cara e cabelo, do que quiser e mudar de casa, de bairro, de condomínio, tudo muda, é só ligar a tevê, esquentar no micro-ondas, matar a barata, besouros infernais, jatos de inseticida, onde a pressa escondida atravessa a ponte, quem sabe, sobe ladeirão, desce pelo calçadão, aproveita o sinal aberto, pé na bunda... Desde criança que falo sozinho, as árvores, os bichos e outros eus com as paredes, coisas, sonhos de olhos abertos, acordados farrapos pelas noites roucas e resistem ao amanhecer, inevitáveis acordes de um redemoinho irisado, dramáticos arrependimentos de auroras nubladas. Estamos todos desorientados, doidos varridos, tontos aloprados. Quantos não lubrificaram seus cumbucos na dor de cotovelo de suas xués paixões, hem? Tá. Urdi invenções de desejos preteridos na palavra arredia, indomável, fugidia da semeadura dos meus pais e escapuli pro esvaziamento dos simulacros. Removi dos olhos as montanhas amedrontadas e desliguei os pavorosos motores para que a vida ecoasse Sol na alma e eu me sentisse livre da fuga humana, a sorrir da fortuna dos meus infortúnios. Só queria caraminholar ao léu como um cabrito solto no berro lá, bezerro mugindo sol, sapo coaxando si, deformado pelo dó, inconformado com o ré, desconforme de mi, a loucura vigente sou, cão desgovernado por sustenidos e bemóis desentoados. Meu coração pulsa aventureiro do escambau no oco do mundo como se fosse o núcleo da Terra prestes a explodir se estendendo por raízes e rizomas nos talos e todos os troncos pelos galhos de todas as folhas e flores, dos frutos que saltam no abissal instante dos ventos nos bicos dos pássaros, o polém que os zangões semeiam do grão de tudo, inutescência de nada. Rabiscado de catataus na barba maluca sou o cafuzo das mamelucas na minha pele de macuco. O que voga: o muro é só pro exercício do pulo com a visita da saúde e a hostilidade correndo frouxa à revelia preu pegar o beco, porque machucava os inutensílios, a música papulá e o que não vale um xis. E futucava caloteiros porque sempre só comigo mesmo, qualquer hesitação podia ser letal. O caduco aos agradinhos engabeladores pela pinoia, xingado, praguejado, tanto um como outro, tudo passa e a arte fica nua. E a poesia um arroz no prato com feijão e quitutes comestíveis feitos pela vó, cada casa é uma sombra de paiol arruinado. E se perdeu a condução, vai na outra, a fila do caixa, os preços subiram de novo, putzgrilla! Nunca mais viu-se o sol da manhã, faz tempo que não se aprecia o fim de tarde, só a moda da atriz, o galã da vez, o último sucesso das paradas, cair nas quebradas, dar um rolê, o que importa é estar empregada, sindicato pra quê, votar mesmo pra quê, tanta coisa pra quê? O padre falou o que o pastor disse, valha-me, Jesus! A urgência do instante, agora ou já! Não há pra depois! E não abrir mão de insinuar: se Deus quiser, dará! Vou de primeira, de segunda, de terceira e o que mais der na cabeça num zunzunzum, no corpo um chamego bom que ninguém de ferro. Preste atenção! Prestenção! Acode, cruz-credo! E como curar as chagas da fé? Um comprimido, cápsula, drágea, tem na farmácia e farmácia tem em tudo quanto é lugar, em todo canto. Estamos mesmo doentes demais, doentes de doer. Tem de cuidar da vista, de ir ao dentista, à manicure, fazer o cabelo, os mesmos, as mesmas semanas, os meses, os mesmos últimos anos, um barulho ensurdecedor e é só dobrar a esquina ou trocar de roupa a saborear tudo datado, não o prato frio, pra uns está sempre quente como se fosse a primeira vez, o impacto da primeira vez. Também tenho tudo e o que não quero, muito inventei. O que vi e o que li está no Tataritaritatá. Salve terra boa, mãe de todo vivente (de coisas que parecem até estarem vivas, de gente que só quer trempe e geme por manha e até por não ter o que fazer, nem preste para tal). Nasci na beira do rio e nele aprendi o que nem se ensinou: pra descer, vento e correnteza; pra subir, tem de nadar. Inventei outras tantas coisas, muito além do céu por limite, subterrâneo da maior fundura. Coisas que vi e amei, doutras nem sei o que é que diga - do raso nunca quis, todos os lados. Do alto pra baixo, do fundo pra cima, viscerais sucatas, cascatas viris e vitais. Tenho de ir embora, não importa o que vivo agora. Só tenho este instante, pouco importa o que passou ou virá. Meu nome é nada e tudo perece a cada momento a morrer. A vida é o meu circo, a poesia o meu pão. Até mais ver.

 

Mary di Michele: O inverno é longo demais para o meu gosto. Prefiro as estações intermediárias, as temperadas. Adoro maio, quando tudo floresce ao mesmo tempo aqui, incluindo os bordos com suas flores verde-ácidas; as florezinhas cobrem as calçadas... Veja mais aqui.

Rebecca Goldstein: Se você não se esforça, ou se seus esforços não valem de muita coisa, então é como se você nem tivesse se dado ao trabalho de aparecer para a sua existência... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Jenny Odell: Estou sugerindo que protejamos nossos espaços e nosso tempo para atividades e pensamentos não instrumentais e não comerciais, para manutenção, para cuidado, para convívio. E estou sugerindo que protejamos ferozmente nossa animalidade humana contra todas as tecnologias que ignoram e desprezam ativamente o corpo, os corpos de outros seres e o corpo da paisagem que habitamos... Veja mais aqui.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

EU NÃO ESTOU AQUI - Eu não sou daqui \ Meu cabelo cheira o vento \ e está cheio de constelações, \ E eu me movo sobre este mundo \ com uma descrença saudável. \ E eu me aproximo dos meus dias e do meu trabalho \ Com a consequência vaporosa \ Um toque que é translúcido, \ Mas pode violar a pedra.

PAIXÃO - A paixão é um estranho \ - Uma coisa. \ Uma criatura óssea fina com a alimentação de si mesma. \ É viciado não em seu assunto, mas em sua própria fome vã. \ E precisa apenas de um rosto bonito para alimentar sua imaginação desenfreada. \ É sofá húmido e palmas suas. \ São tapetes carnudos em chamas com conquista. \ Mas quando a conquista é completa, \ O sangue deixa seus membros e fica desencantado. \ Decepcionado até mesmo ao ponto de nojo \ com seu sujeito, que se senta então, como um tronco oco, \ Esvaziado da sua preciosa carga \ e deixado para desaparecer como navios de guerra derrotados. \ Uma semente aliviada de sua casca transparente, \ para se dissolver finalmente em uma língua áspera e impaciente.

AO ENTRAR NA MINHA VAN - Alegria, pura alegria, eu sou \ O que eu sempre quis \ Para crescer e ser \ As coisas estão se tornando \ Mais de um sonho com \ A cada dia de vigília... \ As sobrancelhas pesadas da vida diária \ Estão a ficar incrustados \ com brilho e o dedo agitramador \ A consequência é \ Começando a rir \ Homens velhos mal-humorados \ Tenha as asas \ Queimaduras esportes Halos \ e embotamento do dia-a-dia \ Já começou a respirar \ Como eu me lembro do \ Incrível leveza \ de viver.

Poemas da poeta, cantora, compositora e atriz estadunidense Jewel Kilcher, autora da obras livros A Night Without Armor (1998), Chasing Down The Dawn (2000), Chasing Down The Dawn PV (2001), Angel Standing By (1998), Heart Song (1998), Pieces Of Dream (1999) e Never Broken (2015), entre tantos outros.

 

AUTOBIOGRAFIA - A raça não é muito interessante para mim. O poder é. Quem tem poder e quem não tem. A escravidão me interessa porque é uma violação incrível que não parou. É preciso falar sobre isso. A raça é uma diversão... Eu realmente não entendia o racismo porque cresci em uma sociedade totalmente negra, então eu não vi como era possível não gostar de mim!... Estou tão acostumada a ser mal interpretada... Uma das coisas que a leitura faz, torna sua solidão administrável se você é uma pessoa essencialmente solitária... Pensamento da escritora de Antíqua e Barbuda, Jamaica Kincaid, autora da obra The Autobiography of My Mother (Farrar Straus Giroux, 2013), no qual expressa: […] Não importa o quão feliz eu tenha sido no passado, não sinto saudades. O presente é sempre o momento que eu amo. [...] O passado é uma sala cheia de bagagem e lixo e, às vezes, coisas que são úteis, mas se são realmente úteis, eu as guardei. […]. Já no livro Generations of Women: In Their Own Words (Chronicle Books Llc, 1998), assinalando que: […] O que eu não escrevo é tão importante quanto o que eu escrevo [...]. Ela também é autora das obras The Best American Essays (1995), Lucy (1990), A Small Place (1988), At the Bottom of the River (1983), entre outros.

 

BANZEIRO ÒKÒTÓ - [...] uma das experiências de alegria mais importantes que vivi. Alegria da partilha, alegria por ser liberada de precisar explicar o tempo todo por que não podemos destruir a única casa que temos, alegria por encontrar um lugar no sem lugar do mundo. Alegria por pertencer, eu que vivo despertencida [...] Não aconteceu de repente. Foi acontecendo. Ainda acontece. Nunca mais vai parar de acontecer, acho. A Amazônia não é um lugar para onde vamos carregando nosso corpo, esse somatório de bactérias, células e subjetividades que somos. Não é assim. A Amazônia salta para dentro da gente como num bote de sucuri, estrangula a espinha dorsal do nosso pensamento e nos mistura à medula do planeta. Já não sabemos que eus são aqueles. As pessoas seguem nos chamando por nossos nomes, atendemos, aparentemente estamos com nossas identidades intactas — mas o que somos, já não sabemos. O que nos tornamos não tem nome [...]. Trechos extraídos da obra Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo (Companhia das Letras, 2021), da escritora e jornalista Eliane Brum, que no livro Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o Brasil, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago Editoria, 2019), ela expressou: […] Podemos concluir que, no senso comum, a infância não foi inventada para todas as crianças [...] E assim, com os males reais sendo invisibilizados e apagados, tudo continua como está. E aqueles que gritam seguem cimentados na mesma posição na pirâmide social. [...] Mesmo que isso não seja óbvio para todos, é a arte que expande a nossa consciência mais do que qualquer outra experiência, justamente por deslocar o lugar do real. Ao fazer isso, ela amplia a nossa capacidade de enxergar além do óbvio. [...]. No livro Meus Desacontecimentos: A História da Minha Vida Com as Palavras (Arquipélago, 2017), ela expressa que: [...] É este afinal o sentido da literatura da vida real. Ou pelo menos um deles. Tentar amalgamar pela linguagem o que foi separado pela carne. Mas a palavra é desde sempre insuficiente para abarcar a vida e aquele que escreve se condena ao fracasso. [...] Escolhi viver sem fronteiras definidas, nações não me interessam, limites só me importam os da ética. Tenho um coração andarilho, um corpo mutante, uma mente transgênera. [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE MARCOS NANINI

[...] Sou do Recife, com orgulho e com saudade, como dizia o Frevo nº 3, e gosto muito de pitombas! Essa é minha característica... [...] Teatro é minha vida! Porque logo que me entendi como pessoa, eu quis fazer teatro. Quando tinha teatro na escola, achava aquilo muito interessante! Ali não tinha profissionais da área, mas adorava aquela situação de fazer uma peça. Eu quis muito fazer isso dali por diante e é o que eu tenho feito até hoje. Eu já vivi muitas vidas graças ao teatro [...] O teatro tem um ponto. É uma referência grande para mim, pois ali começou tudo. Os outros eu tive que me adaptar. Porque quando fui fazer televisão, era tudo diferente. Aí fui observar, entender, compreender aquilo tudo. Só então, fiquei mais à vontade. A mesma coisa aconteceu com o cinema, porém gosto dos três. Até porque não gosto quando me falta um deles para fazer [...].

Trechos da entrevista Nanini, com orgulho e com saudade (Viver – Diário de Pernambuco, 2024), concedida ao jornalista Robson Gomes, pelo ator, autor, produtor teatral e dramaturgo Marcos Nanini (Marco Antônio Barroso Nanini), que teve sua biografia O avesso do bordado: Uma biografia de Marco Nanini (Companhia das Letras, 2023), publicada pela premiada jornalista, roteirista e professora universitária Mariana Filgueiras. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

& mais:

Dareladas – a arte de Darel Valença Lins aqui.

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

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Literatura Indígena: Cosmovisões & Pela Paz aqui & aqui.

Poemagens aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

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segunda-feira, dezembro 02, 2024

KARIMA ZIALI, ANA JAKA, AMIN MAALOUF & JOÃO PERNAMBUCO

 

Poemagem – Acervo ArtLAM. Veja mais abaixo & aqui.

Ao som de Sonho de magia (1930), do compositor João Pernambuco (1883-1947), na interpretação da violonista, educadora e autora britânica Rosie Bennet. Veja mais abaixo.

 

Um dia noutro qualquer... - A vida vinha pela janela e apenas. Não fossem os pássaros eu morreria em silêncio. O mundo girava e sequer saía do lugar de espera, tudo havia feito e o recorrente choque aversivo nas recepções. Vôte! A esperança titânica servia como risada à morte e continuo sorrindo sob o fogo, o que sei: daqui os melhores se foram e não voltaram, nunca voltarão! Vejo-me uma arvore e me autoconheço, desdobro a reaprender o mundo e a vida, vulnerável às surpresas e pelo desconto hiperbólico, o cotidiano às reviravoltas, o paradoxo do enforcamento inesperado, incógnitas frívolas, lógicas refutáveis, vieses e impulsividade. E por que deu errado? Estamos em guerra desde sempre, sem mitigação. O feitiço funcionava como um veneno, o interdito no semáforo: a religião será sempre um engodo, que não ouçam os decaídos e sonolentos. Esquecia a armadura indestrutível, vulnerável com a ciência de que sou o meu próprio monstro, a criatura repulsiva, um reles sujeito comum, a face irreconhecível. Poderia até saber algo de alguma coisa, nada valeria. Acredito que um dia as coisas ainda saiam bem, mesmo que seja apenas uma fumaça escapando pelas sinistras chaminés. Sentia-me Prometeu aprisionado a um rochedo no Cáucaso repassando amargas lembranças e a odienta ave, com sua língua de gárgula bovina, devorava meu fígado. Ah, meu martírio. Ela até me fez uma declaração de amor e vi que era cega. Diante da ilusão do indulto dei a cara à tapa na pantera! Sobre a cidade o pássaro abriu as asas... Com o passar dos dias estendi a mão e a memória se fez parte de mim... E era tudo que tinha de meu: os olhos incertos, o coração na mão, a vontade esfarrapada. Até mais ver.

 

Zlata Filipović: Infelizmente, percebi que não podemos apagar completamente todo o mal do mundo, mas podemos mudar a maneira como lidamos com ele, podemos superá-lo e permanecer fortes e fiéis a nós mesmos... Veja mais aqui.

Alyson Noël: A única coisa que uma pessoa pode realmente fazer é seguir em frente. Dê esse grande salto para a frente sem hesitação, sem olhar para trás. Simplesmente esqueça o passado e fuja em direção ao futuro... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Morgan Llywelyn: A poesia flui através de mim, mas se origina na fonte da criação que é a fonte de todos nós... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

TRÊS POEMAS

Poemagem – Acervo ArtLAM. Veja mais aqui.

I - Dizem que há vida atrás da estação \ mas este expresso esqueceu seu coração \ Eu continuo perseguindo as batidas da sua voz \ porque a última coisa que ouvi foi seu adeus \ os castanheiros se perguntam quando ele voltará \ Eles estão ansiosos para ver você dançar \ e eu digo a eles que talvez \ Claudia e Costello encontraram sua liberdade.

DEIXE O VERÃO - Saia do último ou penúltimo banheiro \ com o sol atrás das árvores \ piscando e as ondulações da água \ nas costas e vencer uma corrida \ contra o frio com a pele tudo colorido.

BORBOLETA DA NOITE - Adoro a carícia de suas asas. \ Você mede, galho resignado, e o segundo, muito louco \ Você queima quando derrete em meus braços. \ Delicado milagre de bronze e veludo, \ Não há nada mais doloroso do que se queimar.

Poemas da escrtitora basca Ana Jaka García, autora de obras Mero amor / Línea discontinua (Everest, 2009), Ez zen diruagatik (Elkar, 2014), Marimutila naiz eta zer? (Elkar, 2016), Loaren inbasio isila (Elkar, 2016), Ixon (Elkar, 2017) e Mujeres y niñas (Balas trazadoras, 2017).

 

ORAÇÃO SEM DEUS - […] Fechou os olhos por um segundo, esboçou uma careta estática que deformou seu rosto. Deixou-se levar no tempo, respirou fundo com um suspiro suave escapou por sua boca. A festa de ontem, a eterna repetição de todas as festas. Como era habitual neste tipo de comemoração, rações até o vazio. O álcool deixou-o tonto, conversas aqui e ali, como se cada rosto foi o verdadeiro destino de seus discursos diletantes […] o mundo vinha até ele com seus paradoxos absurdos. [...]. Trechos extraídos da obra Una oracion sin dios (Esdrujula, 2023), da escritora e filósofa marroquina Karima Ziali, que assim se expressa sobre a atualidade: A Europa aceita diversidade desde que não cause problemas... Quando o medo entra, não somos capazes de enfrentar tudo isso que nos é dado como um bloqueio: tradição, religião, identidade, e você fica sem saber o que fazer. A liberdade é o que permite que você o decomponha, destrua e reconstrua; é o que permite que você entre nesses assuntos sem sentir que está transgredindo algo, mas que é sua obrigação moral como indivíduo...

 

O NAUFRÁGIO DA CIVILIZAÇÃO - [...] Quando já não podemos exercer as nossas prerrogativas como cidadãos sem nos referirmos às nossas filiações étnicas ou religiosas, é porque toda a nação embarcou no caminho da barbárie. [...] O pior para um perdedor não é a derrota em si, é a ideia da síndrome do eterno perdedor. Acabamos odiando toda a humanidade e nos destruindo. [...] Muitas vezes, quando um país trai os seus valores, também trai os seus interesses.[...] Preservamos piedosamente a lenda segundo a qual a transmissão ocorre “verticalmente”, de uma geração para outra, dentro de famílias, clãs, nações e comunidades de crentes; enquanto a transmissão real é cada vez mais “horizontal”, entre contemporâneos, quer se conheçam ou não, quer se amem ou se odeiem. [...] A tragédia, para os europeus, é que, no mundo cruel que é o nosso, se desistirmos de nos tornarmos uma potência muscular, acabaremos sendo empurrados, maltratados e mantidos como reféns. Você não se torna um árbitro respeitado, você se torna uma vítima em potencial e um futuro refém. [...]. Trechos extraídos da obra Le naufrage des civilisations (Hachette, 2020), do escritor libanês Amin Maalouf. Veja mais aqui.

 

A ARTE MUSICAL DE JOÃO PERNAMBUCO

[...] Ele fazia pequenos serviços na feira da Torre, junto da fábrica, para ganhar alguns trocados que usou para comprar um violão usado. Ele ia de bonde até o pátio de São Pedro e o mercado de São José para ver os violeiros, foi dessa maneira inusitada que João aprendeu tudo com seus mestres nas ruas, sem saber ler partitura ou cifras. E foi assim que estabeleceu e definiu a linguagem do violão brasileiro, sendo o primeiro brasileiro a compor música para exclusivamente para violão. [...].

Trecho extraído da obra Raízes e Frutos da Arte de João Pernambuco: Uma infinita viagem (IAPJP, 2023), do pesquisador carioca José Leal (José de Souza Leal - 1946-2023), também autor do livro João Pernambuco, arte de um povo (Funarte, 1983), tratando sobre a vida e obra do compositor, músico e violonista João Pernambuco (João Teixeira Guimarães – 1993-1947). Veja mais aqui & aqui.

&

FLIARP

 

OFERECIMENTO: MJ PRODUÇÕES ARTÍSTICAS & AMIGOS DA BIBLIOTECA

Apresentam:

Dareladas – Centenário de Darel Valença Lins na Fliarp, dia 05/12, às 19h, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui.

Tem mais:

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Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

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segunda-feira, novembro 11, 2024

LAUREN ELKIN, AKSINIA MIHAYLOVA, VANESSA NAKATE & BRENDA BAZANTE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Fruto (2004), Candeias (2009), Faces (2016) e Inzu (2019), da pianista, compositora e pesquisadora Heloísa Fernandes.

 

O que dizer nada a mais... - Uma palavra dentro da outra a tecerem ventos peito aberto às verdades que nunca disse: o que restou da pedra o pó à face lívida dos olhos dilatados. Onde estou perdi a hora e uma só palavra salvou o poema da alma no porão pelas ruas ermas de invisíveis refúgios tortos e tortuosos. O que havia depois de feito combatia a secura com esperança de chuva, o que admito talvez: a minha vida é o escombro da casa destruída. Ainda bem que não há pústulas na janela perdida nem a alma remendada no telhado que desabou. Restam passos pelas esquinas crepusculares com suas vidraças espelhadas: haverá tempo para indecisões e enfrentamentos, ao que parece, a máquina do mundo emperrou enferrujada, parece mesmo, quebrou-se cediça no lixo rente às paredes revogadas. E haverá tempo adivinhando caminhos na penumbra entre o legado e o estorvo, pesares de suspensos rumos vazios, só porque mãos trêmulas titubeiam afeto à espera do milagre duma chuva draconídea trazendo ouro e kyawthuite. E as sereias cantam luzes e ofertas, são muitas e me afogam, porque pertence a mim o dia e nada se anuncia no terreno baldio do ridículo. Pertence a mim esta tarde e o que é demais no regresso inquieto de quantas maçanetas se perderam da memória. Pertence a mim esta noite de quantos remorsos insepultos pelos sortilégios lunares, amontoando entulhos e retalhos por aí afora. Tempos loucos. Epistemicídios e quantas práticas desumanizadoras de violentar destinos dissipados, com todos delitos cínicos de postiças virtudes, o sorriso vacilante de reputações enlameadas, pusilanimidades, tudo porque o escravo serviu a rainha e ela o desdenhou. Nem havia por aí quem escutasse com atenção o lampejo de um drama no sangue das palavras, somente a órbita de espedaçado vórtice. Nunca tive medo e isso pouco importa. Graças à vida encontrei pessoas dois espíritos pelo trajeto perdido, a me falar de Indeus e que me dizem respeito poéticos mistérios, para quem perdida mestiçagem a bendizer das quedas, com louvores aos martírios da morosa morte. Não acredito na vingança de Gaia, mas no revide de nossa própria estupidez. O que passou está presente há muito tempo para todos amanhãs, porque o que foi é e continuará sendo infinitamente. Até mais ver.

 

James Baldwin: Há tantas maneiras de ser desprezível que dá até dor de cabeça. Mas a maneira de ser realmente desprezível é desprezar a dor dos outros... Veja mais aqui.

Liane Moriarty: Aqueles que amamos não vão embora, eles sentam-se ao nosso lado todos os dias... Veja mais aqui.

Carol Ann Duffy: A poesia, acima de tudo, é uma série de momentos intensos – o seu poder não está na narrativa. Não estou lidando com fatos, estou lidando com emoções... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

1 - Nós extraímos as paisagens mais profundas e escondidas \ de nós mesmos, empilhá-los sobre a mesa\ como duas pessoas se encontrando pela primeira vez\ e da última vez—libertado do futuro.\ Nós fumamos meio maço,\ procure na pilha,\ conte os ossos\ criando raízes em nossas almas,\ e ainda não consigo encontrar\ a palavra que faz isso.\ Talvez seja culpa\ das diferentes profundidades dos nossos abismos,\ como eles ressoam com uma linguagem \ ininteligível para a pele.

2 - Então compramos toranja, \ passeie pelo bairro judeu\ becos estreitos, e ele me leva\ pela mão, ele me esquece\ nas livrarias, ele diz olha,\ há tanto céu nas janelas esta noite,\ me apertando contra seu peito\ então não consigo ler em seus olhos:\ a palavra,\ a palavra que faz isso\ As toranjas rolam pela calçada.\ Suas mãos tão febris—\ como se tivesse medo de me perder,\ como se tivesse medo de que eu pudesse ficar.

Poemas da escritora, educadora e tradutora húngara Aksinia Mihaylova, autora dos livros Ciel à Perdre (Gallimard, 2014) e Le Baiser du Temps (Prix Max-Jacob, 2020), e é a fundadora do jornal literário Ah, Maria.

 

MULHERES CAMINHAM... [...] Eu caminho porque isso confere - ou restaura - um sentimento de lugar... Eu caminho porque, de alguma forma, é como ler. Você tem acesso a essas vidas e conversas que não têm nada a ver com as suas, mas você pode ouvi-las. Às vezes está superlotado; às vezes as vozes são muito altas. Mas sempre há companheirismo. Você não está sozinho. Você anda na cidade lado a lado com os vivos e os mortos. [...] Todos nós temos nossos próprios sinais que estamos atentos ou tentando não ouvir. [...] Caminhar é mapear com os pés. Ajuda a juntar as peças de uma cidade, conectando bairros que, de outra forma, poderiam ter permanecido entidades discretas, planetas diferentes ligados uns aos outros, sustentados, mas remotos. Gosto de ver como, de fato, eles se misturam, gosto de notar os limites entre eles. Caminhar me ajuda a me sentir em casa. [...] Queremos fazer escolhas, e ter alguma agência para nos perdermos, e sermos encontrados. Queremos desafiar a cidade, e decifrá-la, e florescer dentro de seus parâmetros. [...]. Trechos extraídos da obra Flâneuse: Women Walk the City in Paris, New York, Tokyo, Venice and London (Farrar, Straus and Giroux, 2017), da escritora, ensaísta e tradutora francesa Lauren Elkin, que no seu livro No. 91/92: A Diary of a Year on the Bus (Semiotext(e)/Les Fugitives, 2021), ela expressou que: […] Com o tempo, o Evento se entrelaça ao cotidiano. Pessoas que vemos no ônibus podem ter estado no Bataclan ou conhecer alguém que esteve; a mulher no canto pode ter sofrido um aborto espontâneo no mês passado. Outras pessoas são um imenso mistério. Não podemos clicar com o botão direito nelas e baixar seu histórico. Não sabemos onde elas estiveram ou para onde estão indo. Mas que elas estejam indo juntas, enquanto se ignoram amigavelmente, parece de suma importância. Acredito que isso se chama comunidade. […]. No seu livro Art Monsters: Unruly Bodies in Feminist Art (Chatto & Windus/FSG, 2023), ela menciona que: […] Ser gênero feminino é ser pego entre a beleza e o excesso: obrigado a escolher. Ser um monstro é insistir em ambos [...]. E no seu livro Scaffolding (Chatto & Windus/FSG, 2024), ela expressa que: […] é menos sobre você criar uma narrativa que explique e cure seus sintomas e mais sobre o que pode ser sugerido durante o processo terapêutico, como a maneira como falamos sobre nossas vidas codifica a maneira como pensamos sobre elas, as coisas que queremos, nossos desejos, como podemos aprender a viver com eles em vez de sermos guiados por eles. Você nunca será curado, por assim dizer. Não há cura para ser humano. [...].

 

É HORA AGORA... - Chega de promessas vazias, chega de cúpulas vazias, chega de conferências vazias. É hora de nos mostrar o dinheiro. É hora, é hora, é hora. E não se esqueçam de ouvir as pessoas e os lugares mais afetados... Sempre acreditei no poder de uma ação, de uma voz e de uma história para mudar o mundo, mas aprendi que a verdadeira transformação é uma responsabilidade coletiva; estamos trabalhando juntos para tornar este mundo um lugar melhor... Pensamento da ativista ambiental ugandesa Vanessa Nakate, que ainda se expressa: Você não pode se adaptar à extinção. Por quanto tempo vamos vê-los morrer de sede nas secas?

 

A ARTE DE BRENDA BAZANTE

Quando fui aprovada eu vibrei e me emocionei, pois percebi a importância de minha presença numa pós-graduação no campo das artes. Momento no qual poderei cooperar com a erradicação dessa ausência de visualidades que representem os corpos trans e consequentemente causar impressões inclusivas em outras visitantes trans. Pessoas que, ao adentrarem museus ou outros espaços destinados às artes visuais, poderão encontrar corpos como os seus retratados entre as peças expostas. Mas além destes lugares pretendo adentrar locais como ONGS, expandindo o alcance do conhecimento que produzi para além dos espaços institucionais. Desta forma, chegando mais perto do público que pretendo atingir, as pessoas pertencentes à comunidade LGBTIAP+.

Palavras extraídas da entrevista concedida à jornalista Andrea Sobreira de Oliveira (UFPE), no periódico Cartema - Revista do Programa de pós-graduaçăo em Artes Visuais UFPE/UFPB (2021), pela artista visual e professora de Arte, Brenda Bazante, em referência à sua dissertação de mestrado sobre a temática Trava Transcorpocinética: narrativas (auto)biográficas e práticas artísticas de/sobre travestis, transexuais e dissidentes sexuais e de gênero (UFPE, 2022), pela qual obteve o título de mestre em Artes Visuais pelo PPGAV (UFPE/UFPB). Ela também é especialista em Metodologia do Ensino de Arte pela Faculdade Educação de São Luís e Licenciada em Artes Visuais pela UNOPAR, trabalhando na produção de múltiplas linguagens nas quais destacam-se as técnicas do bordado, papietagem, escultura, pintura e desenho. Veja mais aqui.

 

Vem aí:

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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

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