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terça-feira, junho 30, 2020

ANN BRASHARES, GALEANO, BLACKMORE, GRADA KILOMBA, JAUME PLENSA, FERNANDO SPENCER, RUMIN & VÍCIO DA LIBERDADE DE EVANDRO LINS E SILVA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: AUTORRETRATO, ALTER EGO & OUTROS – De mim pouco mais que pouca coisa: montagens, remontagens, desconstruções, descontinuidades, impermanências, diluições. Protagonista quixotesco quase me esvaindo: a solidão do mar que beija a terra e o poema na garrafa, ah, joguei fora, nenhum verso a vista, nenhuma canção. Um gesto vão e o Una escorre solto coração apertado, o desespero de quem chegou de longe, tudo inóspito, nada mais que um astronauta na lua. Esse meu mundo é tão pequeno, o abandono de quem ergueu um contíguo pardieiro entre antípodas inebriantes do que nem sei, ouvindo Audre Lorde na escuridão: Sinto, logo sou livre. Seu silêncio não o protegerá. Sem comunidade, não há libertação. Lavrador dos dias que venham depois, abro os olhos, despojado, jamais cajado e grandes palácios, sou apenas o que me resta.

DUAS: SOLILÓQUIO VENCIDO - Um asteroide cruzou a minha noite e deixou claro que o A quer dizer antes de mais nada será quase nove fora do que sequer passei por adição, enquanto eu dou conta do meu abecedário laudatório rimado a 3 por 4. Se não é como eu digo, Peter Paul Rubens avisa que: Sou apenas um homem simples em pé, sozinho com seus antigos pincéis, pedindo a Deus por uma inspiração. Daí, alimento a solidão e tudo é como se fosse pintado de branco nas minhas releituras: reprises, escrutínios e o crime da pena, só o que sou.

TRÊS: MUDANDO DE PAU PARA CACETE, A MAIOR MISE-EN-SCÈNE ESCATOLÓGICA! – Desde que o Coisonário se instalou por estas bandas que as coisas viraram de cabeça para baixo! Ele desenterrou múmias pros ministérios (Um educador que inventou o diploma e não tem nenhum porque o pinoteiro crasso anterior escapuliu com tudo pro USA só deixando a língua de fora; uma doida dos ares que prega suas ideias de cima duma goiabeira anunciando, inclusive, o fim do mundo & outras tresloucadas de palmos entre as mãos!; outros doidões despreparadíssimos que brincam do que não sabem na saúde, meio ambiente, finanças e etc e tal, pei bufe, ploft!). Só que dá tudo errado pras bandas deles (o pior pra gente, ora!). Eles metem as mãos pelas pernas, arengam entre si e a gente morre de rir do flagelo que nos vitima na lama até o pescoço (a gente não saber fazer outra coisa senão rir e dar um jeitinho em tudo na horagá!). Só que não tem graça nenhuma essa reprodução da pior cafonália! Ele conseguiu deixar a terra plana e trouxe as pragas do Egito: tingiu o mar de óleo, fez aparecer uma praga de gafanhotos, uma pandemia dizimando tudo, incêndios e disparates, afora um monte de pinoias cagadas todos os dias desde então. Até a Doidares empiora nossa sina ao vaticinar aos berros saltitantes com o coro do mão-de-figa Guedeconômico tchutchuca, Ricardendroclasta impune, o Flagrenrique abilolado, Friculturisadinha e o Decoltildo (ainda está no cargo? Sei não, é um cai cai balão que não tem festa junina que vingue!), a tropa da reserva e milicos milicianos, anunciam que as rãs cobrirão a terra, os piolhos atormentarão todos os animais, inclusive o humano; as moscas escurecerão o ar e atacarão tudo; todos os animais morrerão com uma chuva de granizo que destruirá até a selva amazônica, o pantanal mato-grossense e todo território nacional; pústulas cobrirão todo ser vivo (pensei que só ocupassem cargos públicos!!!! Mas não...); o Sol escurecerá por três dias; e os primogênitos morrerão! Aí o Coiso endoidou: Meus filhos, não!!!!! Bateu a maior doidice de blindagem e tiro pela culatra! Uma coisa eu sei: eles têm a força, afinal são bregas entusiasmados e nada convincentes que querem passar por cima de tudo para alegria da sua embotada corriola. Isso quando não falam o que dá na telha e jogam tudo no ventilador. Para não perder a piada, Mel Brooks sapeca: Uma gafe é apenas uma verdade dita na hora errada. O que os presidentes não fazem com suas esposas, eles fazem com seu país. Espere o melhor. Espere o pior. A vida é uma peça de teatro. Nós não estamos ensaiando. Pelo jeito, os caras são poderosos mesmo! O que será do meu Brasilzilzilzilzil!?!?! Sei lá, tomara nos mantenha vivos até ruírem não sei quando! Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Enquanto o sujeito Negro se transforma em inimigo intrusivo, o branco torna-se a vítima compassiva, ou seja, o opressor torna-se oprimido e o oprimido, o tirano [...] No mundo conceitual branco, o sujeito Negro é identificado como o objeto ‘ruim’, incorporando os aspectos que a sociedade branca tem reprimido e transformando em tabu, isto é, agressividade e sexualidade. Por conseguinte, acabamos por coincidir com a ameaça, o perigo, o violento, o excitante e também o sujo, mas desejável – permitindo à branquitude olhar para si como moralmente ideal, decente, civilizada e majestosamente generosa, em controle total e livre da inquietude que sua história causa [...]. Trechos de The mask, extraído de Plantation memories: episodes of everyday racism (Unrast Verlag, 2010), da escritora, psicóloga e artista interdisciplinar portuguesa Grada Kilomba, tratando sobre o exame da memória, trauma, gênero, racismo e pós-colonialismo, ao realizar atividades multidisciplinares que utilizam escrita, leitura encenada dos seus textos, instalações de vídeo e performance, nomeado por ela de Performing Knowledge. Ela também é autora de obras como Secrets to Tell (EDP, 2017) e The Most Beautiful Language (EGEAC, 2018).

 

OUTROS DITOS

Quando digo que a consciência é uma ilusão, não quero dizer que ela não exista. Quero dizer que a consciência não é o que aparenta ser. Se ela parece ser um fluxo contínuo de experiências ricas e detalhadas, acontecendo uma após a outra a uma pessoa consciente, isso é ilusão...

Pensamento da psicóloga, radialista e escritora britânica Susan Blackmore (Susan Jane Blackmore), autora dos livros Zen and the Art of Consciousness (2009), Consciousness: A Very Short Introduction(2005), Susan Blackmore, Conversations on Consciousness: What the Best Minds Think about the Brain, Free Will, and What It Means to Be Human (2005) e The Meme Machine (1999).

 

O LIVRO DOS ABRAÇOS, DE GALEANO

[...] Havia um homem velho e solitário que passava a maior parte do tempo na cama. Havia rumores de que ele tinha um tesouro escondido em sua casa. Um dia, alguns ladrões invadiram, revistaram em todos os lugares e encontraram um baú no porão. Eles saíram com ele e quando o abriram, descobriram que estava cheio de cartas. Eram as cartas de amor que o velho tinha recebido ao longo de sua longa vida. Os ladrões iam queimar as cartas, mas conversaram e finalmente decidiram devolvê-las. Um por um. - Uma por semana. Desde então, todas as segundas-feiras ao meio-dia, o velho estaria esperando que o carteiro aparecesse. Assim que o viu, ele começaria a correr e o carteiro, que sabia tudo sobre isso, segurava a carta pronta em sua mão. E até mesmo St. Pedro podia ouvir o bater daquele coração, enlouquecido de alegria ao receber uma mensagem de uma mulher. [...]

Trecho extraído da obra O livro dos abraços (L&PM, 2005), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MEU NOME É MEMÓRIA, DE ANN BRASHARES

[...] Ame quem você ama enquanto os tem. É tudo o que você pode fazer. Deixe-os ir quando for preciso. Se você sabe amar, nunca ficará sem. [...] O amor exige tudo, dizem, mas o meu amor exige apenas isto: que não importa o que aconteça ou quanto tempo leve, você mantenha a fé em mim, lembre-se de quem somos e nunca sinta desespero. [...] você se lembra do que está perdido e esquece o que está bem na sua frente. [...].

Trechos extraídos da obra My Name Is Memory (Riverhead Hardcover, 2010), da escritora estadunidense Ann Brashares, autora dos livros Forever in Blue: The Fourth Summer of the Sisterhood (2007), Girls in Pants: The Third Summer of the Sisterhood (2007) e The Sisterhood of the Traveling Pants (2001), entre outros. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

DESTAQUE: [...] Nada disso tira o fato de que enxergo o extraordinário dentro de você, algo acobertado por sua beleza exterior e que poucas pessoas, hoje em dia, têm o dom de desvendar. Isso talvez seja coisa de escritor, desses metidos a poeta, como eu, que enxergam tudo dentro de rimas. [...] Trecho de Realidade clandestina, da escritora, advogada e professora G. P. Silva Rumin, autora dos livros Kátharsis, com poesias de celebração ao amor próprio e empoderamento humano, e a narrativa ficcional June (2015). Ela também edita o blog GPensadora. Veja mais aqui.

O VÍCIO DA LIBERDADE
Liberdade Liberdade Habeas Corpus sobre nós. Apesar dos anos passados, sinto ainda o mesmo amor, que nada arrefece, pelo ministério da advocacia, embora outros haja exercido. Eu tenho o vício da defesa da liberdade. Não escolho causas para defender alguém. Minha maior glória seria morrer no Tribunal do Júri. Não é preciso defender ‘bonito’, é preciso defender ‘útil’.
O VÍCIO DA LIBERDADE - O documentário O Vício da Liberdade (2002), dirigido e roteirizado por Flavia Lins e Silva, Vinicius Reis e Eduardo Vaisman, conta a trajetória do jurista, jornalista, professor e escritor Evandro Lins e Silva (1912-2002), que foi procurador-geral da República, ministro-chefe da Casa Civil e das relações exteriores, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e teve seu mandato cassado pelos militares com a instituição do AI-5. Anos mais tarde, ele foi o advogado de acusação no processo de impeachment de Fernando Collor e, em 2000, defendeu José Rainha Júnior, líder do MST. Era membro da Academia Brasileira de Letras e sobre sua vida foi escritor o livro Liberdade Liberdade Habeas Corpus Sobre Nós (Impresso no Brasil, 1994), de Nélio Roberto Seidl Machado. Veja mais aqui.

A ESCULTURA DE JAUME PLENSA
Eu cresci em uma família obcecado por livros. Meu pai, ele estava sempre comprando livros e lendo e lendo. Minha educação visual era mais texto, do que arte ou imagens. Eu usei um tipo muito denso de madeira. Não flutua. E é ótimo porque é tão denso que não há flambagem. É realmente como uma pedra e eu adoro isso, porque na escultura você tem esse tipo de veia, e essa cor estranha no rosto e nas mãos também é uma posição que diz: 'Silêncio'. Eu realmente não sei pedir silêncio hoje, porque estamos em um momento muito barulhento, em termos de ideias.
A arte do escultor e artista espanhol Jaume Plensa. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte do cineasta e jornalista Fernando Spencer (1927-2014), autor dos premiados Caboclinhos do Recife (Super-8, 10m); Valente é o galo (1974, Super-8, 10 m); Bajado – um artista de Olinda (Super-8, 1975), O teu cabelo não nega (Super-8, 1975); Domingo de fé (Super-8, 1976), Quem matou Marilyn (melhor montagem do IV Festival de Cinema Nacional de Sergipe, 1976); Toré a Nossa Senhora das Montanhas (Super-8, 1976), Farinhada (Super-8, 1977), A eleição do Diabo e a posse de Lampião no Inferno (Super-8, 1977), Frei Damião: um santo no Nordeste? (Super-8, 1977), Adão foi feito de barro (1978) RH positivo, As corocas se divertem (1978), Noza - santeiro do Carirí (1979) Cinema Glória (1979), Eróticos Corbinianos (1981); Santa do Maracatu (1981); Memorando Ciclo do Recife (1982); Estrelas de celuloide (1987); O último bolero no Recife (1987); Trajetória do frevo (1987); Evocações Nelson Ferreira (1988); A arte de ser profano (1999); e Almery, a estrela (2007).
&
Fome, criança e vida, do cientista e médico nutrólogo Nelson Chaves (1906-1982) aqui.
Desmanchando o nordeste em poesia, do poeta popular Manoel Bentevi aqui.
A música da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr aqui.
Alvará de soltura, meu amor, do advogado e produtor teatral Bóris Trindade aqui.
Antes que ele chegue, com roteiro e direção de Clara Angélica Barbosa Rodrigues Santos aqui.
A arte da fotógrafa, artista plástica e professora Yêda Bezerra de Mello aqui.
A tapa e o infarto aqui.
&
Xexéu aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


quarta-feira, abril 29, 2009

PAUL ÉLUARD, AUDRE LORDE, NOVALIS, EKA PERADZE, RACISMO & PRECONCEITO, LITERÓTICA & CORDEL NO STF


A arte da artista alemã Eka Peradze

LITERÓTICA: AMBIÇÃO - O relógio. O beijo e seu contágio: o desejo. Revejo ontens, prevejo manhãs, dias. Toda orgia, teréns, Teerãs. Corpos expostos. Somos nós sem rostos, sem pudor. Valendo o amor dos inominados, endemoninhados nos ventres alados, insaciáveis. E que se entregam amáveis, felizes com seus atos condenáveis feito meretrizes com seus machos, no meio de trizes e esculachos mútuos, sem tudo a ver, revolutos, provocando circuitos por puro prazer de transgredir os limites, como reais pedintes em ação, com toda transgressão sexual, toda felação no plural, toda danação, toda ambição canibal tecendo o querer pra ser muito mais que barato de estupefato animal de estimação com um pássaro na mão e ela voando à vela, eu viajando nela qual furacão que devasta sua compleição para nos satisfazer na paixão. CONSOLO – Quando ela me encara, linda, bela, deusa seminua, quando sussurra mansinho: sou tua! Tudo é festa no meu coração. É pra lá de bão. É quando ela me faz seu consolo, seu predileto bolo, seu saboroso pirão. Aí eu solto rojão pra que ela se molhe linda Lara Flynn Boyle só sedução. Maior perdição, sou só bola ao cesto com todos os poderes de Grayscow da minha possessão. Ela é minha salvação, a pedra de Esmeralda na verdadeira estrada da comunhão. Ela é minha oração, a pedra filosofal. A virgem vestal da minha celebração. E é meu verão, minhas poesias, meus versos, ela Marie Curie, eu Paracelsus, no fervor da paixão. Minha maior oração na nossa fantasia além da alquimia, além de Plutão, além do que tudo então o nosso convênio na paz dos essênios, no amor eterno temporão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS – [...] Não só a faculdade de reflexão funda a teoria. Pensar, sentir e contemplar constituem uma coisa só. [...]. Trecho extraído da obra Gérmenes e fragmentos (Renascimento, 2006), do poeta alemão Novalis (Georg Philipp Friedrich von Hardenberg – 1772-1801). Veja mais aqui.

RACISMO & PRECONCEITO – [...] Reconhecer que esse racismo resultar decorrente de práticas ou da omissão de instituições ainda não faz parte do conceito das agências do sistema de justiça, por exemplo. [...] O racismo institucional é revelado através de mecanismos e estratégias presentes nas instituições públicas, explícitos ou não, que dificultam a presença dos negros nesses espaços. O acesso é dificultado, não por normas e regras escritas e visíveis, mas por obstáculos formais presentes nas relações sociais que se reproduzem nos espaços institucionais e públicos. A ação é sempre violenta, na medida em que atinge a dignidade humana. O conceito foi incorporado pelos movimentos negros na América Latina, em especial no Brasil, o que ajuda a explicar a permanência dos negros em uma situação de inferioridade por mecanismos não percebidos socialmente. [...] Há racismo institucional quando um órgão, entidade, organização ou estrutura social cria um fato social hierárquico – estigma visível, espaços sociais reservados -, mas não reconhece as implicações raciais do processo. [...] A discriminação pode ser sistêmica em vez de pessoal e, por conseguinte, mais difícil de identificar e de compreender, quando está internalizada e naturalizada por discursos de que se vive em um país miscigenado. Algumas vítimas negam que estejam oprimidas ou então aceitam sua condição, como se fosse um destino que a vida lhes proporcionou. Outras reagem oprimindo aqueles que estão “abaixo” delas. [...] O racismo institucional gera hierarquias através de práticas profissionais rotineiras, ditas “neutras” e universalistas, dentro de instituições públicas ou privadas que controlam espaços públicos, serviços ou imagens (lojas, bancos, supermercados, shoppings, empresas de segurança privada). [...] A terminologia utilizada nos crimes raciais para designar o conjunto de comportamentos criminosos, descritos na Lei n°7.716, de 1989, e o rigor técnico recomendariam a expressão “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Recorrendo à Constituição Federal de 1988, poderia ser utilizada a expressão crimes raciais, uma vez que o artigo 5°, inciso XLII, preceitua que a prática do racismo constitui crime. [...] Entretanto, o racismo recebe diversas interpretações e as dificuldades de mostrar como ele se manifesta persistiram, uma vez que o racismo não é simplesmente um incidente. Em cada momento da infração os atores têm consciência dos direitos de cada um, o que torna um eufemismo chamar a discriminação racial de disfarçada ou cordial, em um país em que hierarquia social é tão forte que acaba precedendo os direitos, e onde as ideias racistas convivem com essa hierarquia e a alimentam quotidianamente. [...] Trechos extraídos da obra Direitos Humanos e as práticas de racismo (Câmara, 2013), de Ivair Augusto Alves dos Santos. Veja mais aqui.

SILÊNCIO, LINGUAGEM & AÇÃO – [...] Muitas vezes penso que preciso dizer as coisas que me parecem mais importantes, verbalizá-las, compartilhá-las, mesmo correndo o risco de que sejam rejeitadas ou mal-entendidas. Mais além do que qualquer outro efeito, o fato de dizê-las me faz bem. [...] Ao tomar forçadamente consciência de minha própria mortalidade, do que desejava e queria de minha vida, durasse o que durasse, as prioridades e as omissões brilharam sob uma luz impiedosa, e do que mais me arrependi foi de meus silêncios. O que me dava tanto medo? Questionar e dizer o que pensava podia provocar dor, ou a morte. Mas, todas sofremos de tantas maneiras todo o tempo, sem que por isso a dor diminua ou desapareça. A morte não é mais do que o silêncio final. [...] Só havia traído a mim mesma nesses pequenos silêncios, pensando que algum dia ia falar, ou esperando que outras falassem. [...]. Meus silêncios não tinham me protegido. Tampouco protegerá a vocês. Mas cada palavra que tinha dito, cada tentativa que tinha feito de falar as verdades que ainda persigo, me aproximou de outras mulheres, e juntas examinamos as palavras adequadas para o mundo em que acreditamos, nos sobrepondo a nossas diferenças. E foi a preocupação e o cuidado de todas essas mulheres que me deu forças e me permitiu analisar a essência de minha vida. As mulheres que me ajudaram durante essa etapa foram Negras e brancas, velhas e jovens, lésbicas, bissexuais e heterossexuais, mas todas compartilhamos a luta da tirania do silêncio. [...]. Que palavras ainda lhes faltam? O que necessitam dizer? Que tiranias vocês engolem cada dia e tentam torná-las suas, até asfixiar-se e morrer por elas, sempre em silêncio? [...] E quando as palavras das mulheres clamam por serem ouvidas, cada uma de nós deve reconhecer sua responsabilidade de tirar essas palavras para fora, lê-las, compartilhá-las e examiná-las em sua pertinência à vida. Não nos escondamos detrás das falsas separações que nos impuseram e que tão seguidamente as aceitamos como nossas. [...]. Trechos extraídos da obra A transformação do silêncio em linguagem e ação (Difusão Herética, 2017), da escritora e ativista caribenha-americana Audre Lorde (1934-1992).

TRÊS POEMAS - LEMBRANÇA AFETUOSA - Houve um grande riso triste / O pêndulo parou / Um bicho do mato salvava seus filhotes. / Risos opacos em quadros de agonia / Tantas nudezes transformando em irrisão a sua palidez / Transformando em irrisão / Os olhos virtuosos do farol dos náufragos. A PERDER DE VISTA - Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas / A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas / Ao longe o mar que os teus olhos banham / Estas imagens de um dia e de outro dia / Os vícios as virtudes tão imperfeitos / A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso / E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas / As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens / Os vícios as virtudes tão imperfeitos / A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados / A confusão dos corpos das fadigas doa ardores / A imitação das palavras das atitudes das ideias / Os vícios as virtudes tão imperfeitos. / O amor é o homem inacabado. A NÃO PERDER DE VISTA - Dissipa o dia, / Mostra aos homens as leves imagens da aparência, / Retira aos homens a possibilidade de se distraírem. / É duro como a pedra, / A pedra informe, / A pedra do movimento e da vista, / E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras, / se tornam falsas. / O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão, / O que foi compreendido já não existe, / A ave confundiu-se com o vento, / O céu com a sua verdade, / O homem com a sua realidade. Poemas do poeta francês Paul Éluard (1895-1952). Veja mais aqui e aqui.


A arte da artista alemã Eka Peradze


QUEBRA PAU NO STF
Bob Motta

Cum tristêza e cum véigonha,
no verso, relato eu,
na sessão do S.T.F,
o quiprocó qui se deu.
O Brazí intêro viu,
quando a impanada caiu,
ixpondo aos zóio da gente;
invéigonhando a Nação,
a briga de dois grandão,
Ministro cum Presidente.

A verdade é qui nóis sente,
puro acuntecimento.
Tenho qui dizê no verso,
sinceramente, eu lamento.
Uis dois prá lá de letrado,
num inzempro rim danado,
ixtrapolaro tombém;
e eu digo, in meu dialeto:
Lula é simi anaifabeto,
mais nunca agridiu ninguém.

A nutiça foi além,
dais frontêra do país.
A atitude duis dois lado,
foi munto triste e infeliz.
Foi bate bôca duis feio,
qui deu inté aperreio,
in nóis, de fora, assistindo;
um distempêro totá,
e o mais arto Tribuná,
in briga, se cunsumindo.

Parece inté tá caindo,
naquela instituição,
uma praga miseráve,
ô intonce uma mardição.
Duvido qui a isparréla,
num venha dêxá seqüela,
eu juro, sem brincadêra;
qui tanto do tréque tréque,
num vá incolocá in xeque,
a justiça brasilêra.

Da patrôa à cunzinhêra,
do aluno ao professô,
do inleitô ao deputado,
da quenga ao gigolô.
Tôda a Nação brasilêra,
lamenta aquela zonzêra,
totaimente istarrecida;
cum a tristeza da verdade,
qui a credibilidade,
da Justiça, tá ferida.

O ministro dixe arto,
qui na matéra in questão,
o seu Presidente tava,
sunegando infóimação.
O Presidente falô,
quando se manifestô,
quage batendo nuis peito;
qui o Ministro in questão,
tinha fartado à sessão,
e qui ixigia respeito.

O Ministro ainda dixe,
sem arquejá, sem isfôrço,
qui num era, do Presidente,
capanga de Mato Grosso.
O Presidente ingrossô,
chega ais suas vêia inchô,
de ira, se acumeteu;
na troca de disafôro,
uis dois quebraro o decôro,
foi triste o qui acunteceu.

Só sei qui o fato passado,
cum efeito de furacão,
no dia seguinte à briga,
foi adiada a sessão.
Na Câmara duis Deputado,
o Presidente indagado,
dixe pudê afirmá;
qui aquela cunfusão,
num afeta a reputação,
do mais arto Tribuná...

BOB MOTTA - Roberto Coutinho da Motta, é membro da Academia de Trovas do RN, da União Brás. de Trovadores-UBT-RN, do Inst. Hist. e Geog. do RN, da Com. Norte-Riog. de Folclore, da União dos Cordelistas do RN-UNICODERN, da Associação dos Poetas Populares do RN-AEPP e do Inst. Hist. e Geog. do Cariry-PB.




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