quinta-feira, abril 02, 2015

TERESA CÁRDENAS, SARAMAGO, ANDERSEN, ZOLA, SHAKESPEARE, CASANOVA & UMA DE DUAS

 


UMA DE DUAS (OU A FILHA PERDEU O PAI & A DOR DA IRMÃ CAÇULA) – Imagem: Mulher sentada, do pintor francês Georges-Pierre Seurat (1859-1891) – O primeiro regresso fora doloroso: recebera a notícia do pai hospitalizado sob assistência da irmã caçula. Findava o seu desterro de anos da terra natal e milhares de quilômetros percorridos para se defrontar com uma situação dramática. Moveu Deus e o mundo, resgatou os parentes e, graças a uma assistência milagrosa, o transporte aéreo devolveu-lhe ao amparo do exílio voluntário. Era onde se sentia em casa e dedicar-se à enfermidade paterna. Seus esforços resultaram inúteis e tudo começou com a amputação do dedo mindinho do pé esquerdo; depois a lombada do pé, a metade da canela, nem mais coxa para uma muleta. Logo se foi a outra perna, destruindo o ventre, os pulmões, as faces. Restaram as sobrancelhas pro velório, choros solidários entre as irmãs. Meses depois, a irmã caçula alegou precisão de desanuviar e rever as amigas de infâncias. Não havia mais parentes na terra natal, mesmo assim ela bateu o pé na insistência e, por fim, foi-se na viagem. A solidão reinou por um bom tempo, até que o telefone estridulou com uma notícia para lá de desagradável. Era a vez do segundo regresso para a localidade que ganhara prestígio na sua antipatia. Durante a viagem teve de trocar de condução e, à espera do ônibus, encontrou-se com uma estranha que logo abriu conversa. Desabafaram, lavaram a alma juntas, choraram suas sinas. Dali em diante seguiram juntas até tomarem destinos opostos com o desembarque. Promessas mútuas de reencontro, desejo de boa sorte e até mais. Chegou ao hospital e, como era enfermeira, logo teve acesso à irmã caçula em coma. Que houve? Estupro, espancamento torturante. Quem fizera isto? Sabe-se apenas que o responsável por aquele crime havia sido preso, não sabendo-se de quem se tratava. Jurou vingança, mas ocupou-se logo nas providências de cuidar da irmã e logo transferi-la para o seu habitat. Não foi fácil, demorou-se a recuperação e, desta vez, a assistência milagrosa não aconteceu. Mais de um mês e meio depois, faziam a viagem de volta num ônibus. Resignada compreendeu que seus últimos anos seriam apenas para servir dos cuidados familiares e assim havia de ser, afinal a irmã caçula era a última parente que lhe restara. A terra natal não lhe fora nunca berço para existência, tanto que mal adolescera e saiu de casa em busca vida melhor. Tanto lutou que conseguiu emprego e estabilidade. Cada um dos seus parentes foram sucumbindo, findava muito pouco para apagar aquela cidade da memória. Dedicou-se ao que restara com uma jura: nunca mais voltaria ao local onde nascera.  Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Fomos arrancados da África, mesclados, não temos árvore genealógica... Pensamento da escritora cubana Teresa Cárdenas, autora do poema Conte algo que não sei: No princípio, o universo era todo branco. \ Até o dia em que que alguém o puxou por uma ponta e o virou, \ como uma página. \ Foi o que descobri em meus novos escritos. \ São contos do início dos tempos, \ nos quais volto para além da minha ancestralidade \ e recrio o mundo, \ reviro os mitos africanos e os demais. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU:Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara... Pensamento do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

CONTOS DE MAGREB – Na coletânea Contos árabes (Cultrix, 1962), organizada por Jamil Almansur Haddad, encontrei entre os contos de Magreb – histórias populares contadas nas praças da região compreendida entre Marrocos, Argélia e Tunísia -, a História da jovem que nasceu de uma maçã, na tradução do organizador em parceria com José Paulo Paes: Era uma vez uma mulher que nunca tinha tido filhos. Seu marido, que desejava muito que ela os tivesse, dirigiu-se um dia à casa de um feiticeiro e disse: - Minha mulher é estéril. Eu quero um remédio que a cure. O feiticeiro deu-lhe duas maçãs e disse: - Fazei-a comer estas maçãs e ela ficará gravida, porem tu não podes comer. Levando as maçãs achou-as tão belas e tão odorosas que não resistiu à tentação e comeu uma. Depois deu outra à sua mulher. Imediatamente ela ficou grávida: mas à medida que seu ventre aumentava, a perna do seu marido se intumescia e tomava proporções enormes. Enfim, chegou o termo do nono mês: a mulher deu à luz um filho. Quanto ao marido, no mesmo momento as dores o tomavam na perna e de vergonha foi ocultar-se na solidão do deserto. Ao mesmo tempo que a sua mulher dava à luz a seu filho, sua perna fendeu-se e dali saiu uma menina bela como o dia. Ela tinha cabelos tão longos que cobriam inteiramente seu corpo. Sem mais ocupar-se dela, ele a abandonou ali e voltou para casa. Ora, uma gazela seguida dos seus pequenos que ela aleitava, passando por lá, ouviu os vagidos da criança. Aproximou-se, fê-la mamar e adotou-a. a menina cresceu com as pequenas gazelas. Um dia um rei que caçava percebeu o rebanho de gazelas e espantou-se ao ver esse animal estranho que parecia uma menina e vivia em pleno deserto. Fez preparar dois pratos de cuscuz, um com sal e outro sem sal e fê-los depositar perto da fonte onde as gazelas bebiam. E pensou: - Se este ser for humano, comerá o cuscuz salgado; se é uma jenniya comerá a comida sem sal porque os jenniyas não comem comida salgada. No dia seguinte, foi ver o que havia comido esse ser estranho e quando se certificou de que se tratava de um ser humano, procurou caçá-la. Agarrando-a depois, levou-a para casa, vestiu-a de suntuosos vestidos, fez construir um palácio para ela e desposou-a. mas suas outras mulheres, em numero de seis, ficaram muito ciumentas da nova desposada. Mostraram-se, no entanto, muito amigas para afastar dela toda a desconfiança e a atraiam frequentemente para as suas casas. Um dia o rei, vendo reinar concórdia em sua casa, decidiu visitar seus estados e recolher impostos. Recomendou às suas mulheres de bem se entenderem entre elas e partiu. Então elas combinaram a perda da jovem esposa. Um dia elas lhe disseram: - Vem que te pentearemos. A jovem sentou-se perto delas e deixou-se pentear. Mas sucessivamente cada uma delas lhe plantou um alfinete na cabeça e, instantaneamente, a pequena rainha foi metamorfoseada em pássaro e voou sob a forma de pomba. Ora, o rei, antes de sua partida, tinha começado a construção de um pavilhão no jardim e recomendado aos seus trabalhadores que o terminassem antes da sua volta. Mas a partir desse dia, a pomba vinha pousar sobre a parede construída durante a jornada e cantava: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Quando terminou sua queixa, voou e logo o muro, sobre o qual ela havia pousado, ruía. Os pedreiros ficaram muito infelizes e queriam agarrar o pássaro, o que lhes era impossível. Enfim o rei voltou. Quando chegou em casa dirigiu-se logo aos aposentos da jovem rainha que o amava. Achou-o vazio e as mulheres disseram: - Após a tua partida ela foi reunir-se às gazelas. Então o rei quis retirar-se para o pavilhão que havia mandado construir no jardim, e ficou surpreso ao achá-lo inacabado e no mesmo estado em que estava quando de sua partida. Chamou o chefe dos pedreiros e lhe disse: - O que acontece aqui? Merece que te faça cortar a cabeça. Eu havia ordenado terminar a construção quando da minha volta. Nesse momento, a pomba chegou ao muro e pôs-se a cantar: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Depois voou, o muro ruiu e o chefe dos trabalhadores disse ao rei: - Viste a razão. Isto vem acontecendo todos os dias após a tua partida; trabalhamos o dia inteiro e à tarde vem a pomba que canta a sua canção, e o muro tomba. Queríamos agarrá-la mas ela se esquiva e eu nada pude fazer. Então o rei disse: - Num dos quartos que terminaram, ireis pôr todos os grãos que agradam aos pombos, e deixarás as janelas e as portas abertas para que essa pomba possa entrar e alimentar-se. Depois colocou no interior do quarto dois guardas perto de cada entrada, com ordem de fechar as portas e janelas logo que o pássaro entrasse ali. E no dia seguinte ele próprio veio para apanhar a pomba. Mas ela, que o havia percebido na véspera, deixou-se apanhar sem dificuldade. Quando o rei a prendeu, ele pôs-se a chorar e a acaricia-la, e a pomba também cantou sua canção. De repente, passando-lhe docemente a mão pela cabeça, o rei encontrou seis alfinetes e arrancou-os. Logo a pomba retomou a forma de donzela, em toda a sua beleza. O rei apanhou-a nos braços e ambos choraram lágrimas de felicidade. Depois o rei lhe disse: - Conta-me o que houve. E quando ela terminou ele disse: - Decide da sorte delas. Farei o que quiseres. Então ela pediu: - Quero que a primeira seja transformada em trave da entrada do meu quarto, para que eu pise nela todos os dias. A segunda, em cadeira para as abluções para que eu me sente nela todos os dias. A terceira, em outra viga que eu pisarei no banheiro. A quarta, para o mesmo objetivo na cozinha. A quinta, a mesma coisa no estábulo. E a sexta, em tábua para o meu leito. Isto foi feito e ela viveu longos dias felizes com o rei... e minha história acabou. Veja mais aqui, aquiaqui.

Imagem: Pleiades (1920), do pintor e escultor do Surrealismo alemão Max Ernst (1891-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Ouvindo Red dirt girl (Nonesuch/Warner Broos, 2000), da cantora e compositora estadunidense Emmylou Harris.



A LITERATURA DE ANDERSEN – Uma das leituras que povoou a minha infância foi a do escritor dinamarquês de histórias infantis Hans Christian Andersen (1805-1875), que iniciou sua carreira literária escrevendo poesias, publicando o seu primeiro romance Inspirador, em 1837, seguindo-se toda a obra dedicada ao universo infanto-juvenil de grande sucesso até hoje. Veja detalhes aqui, aquiaqui e aqui.

SONETOS DE SHAKESPEARE – No livro Sonetos (Martin Claret, 2006), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), destaco dois deles, o primeiro: Dos seres ímpares ansiamos prole / para que a flor do belo não se extinga, / e se a rosa madura o tempo colhe, / fresco botão sua memória vinga. / Mas tu, que com os olhos teus contrais, / nutres o ardor com as próprias energias / causando fome onde a abundância jaz, / cruel rival, que o próprio ser crucias. / Tu, que do mundo és hoje o galardão, / arauto da festiva natureza, / matas o teu prazer inda em botão / e, sovina, esperdiças na avareza. / Piedade, senão ides, tu e o fundo / do chão, comer o que é devido ao mundo. O segundo soneto: Dois amores – de paz e desespero - / e tenho que me inspiram noite e dia: / meu anjo bom é um homem puro e vero; / o mau, uma mulher de tez sombria. / Para levar a tentação a cabo, / o feminino atrai meu anjo e vive / a querer transformá-lo num diabo, / tentando-lhe a pureza com a lascívia. / Se há de meu anjo corromper-se em demo / suspeito apenas, sem dizer que seja; / mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo / que o anjo no fogo já do outro esteja. / Nunca sabê-lo, embora desconfie, / até que o meu anjo se contagie. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

NANA – O livro Nana: história natural e social de uma família sob o segundo império (Hemus, 1982), do escritor naturalista e libertário francês Émile Zola (1840-1902), é o nono volume da coleção Les Rougon-Macquart, conta a história de uma medíocre artista de teatro que faz fortuna por possuir um corpo de Vênus voluptuosa e vulcânica e se torna uma prostituta de luxo e cortesã da sociedade francesa, atraindo, corrompendo e arruinando ricaços e poderosos que se enfeitiçam por sua beleza. Da obra destaco o trecho: [...] Era ainda a mesma voz avinagrada, mas agora ela to­cava tanto a corda, não diremos sensível, mas sensual do público, que arrancava dele, por momentos, um leve estremecimento. Naná escondera o sorriso, que lhe iluminava a pequena boca vermelha, e resplandecia nos seus grandes olhos, de um azul muito claro. Em certos versos um pouco arrebatados, uma gulodice lhe arrebitava o nariz, cujas narinas róseas palpitavam, enquanto uma chama lhe passava nas faces. Ela continuava a balançar-se, não sabendo fazer mais do que isso. E já não achavam aquilo mau de todo, pelo contrário; os homens assestavam os binóculos. Quando ia terminar a copla, a voz faltou-lhe por completo, e percebeu que não poderia chegar ao fim. Então, sem se inquietar, sa­racoteou as ancas, que desenharam uma forma redonda sob a sua fina túnica, enquanto, de busto dobrado, o pescoço estirado para trás, estendia os braços. Rebentaram aplausos. Imediatamente ela se voltou, tornando a subir, deixando ver a nuca, onde os cabelos ruivos se ordenavam como no velo de um animal; os aplausos tornaram-se furiosos. O final do ato foi mais frio. Vulcano queria esbofetear Vénus. Os deuses estavam em concílio e decidiram proceder a uma sindicância na Terra, antes de atenderem os maridos enganados. Era ali que Diana, surpreendendo as palavras ternas entre Vénus e Marte, jurava não lhes tirar os olhos de cima durante a viagem. Havia também uma cena em que o Amor, representado por uma garota de doze anos, respondia a todas as perguntas: "Sim, mamãe... Não, mamãe...", num tom choramingas, com os dedos no nariz. Depois, Jú­piter, com a severidade de um professor que se enfada, fechava o Amor num quarto escuro, ordenando-lhe que conjugasse vinte vezes o verbo amar. O final agradou imenso, um coro em que a companhia e a orquestra se saíram brilhantemente. Mas descia o pano, e a claque tentou em vão obter uma volta; toda a gente se levantara, dirigindo-se já para as portas.Veja mais aqui, aquiaqui.

CASANOVA DE FELLINI – O aventureiro e escritor italiano, Giovani Jacopo Casanova (1725-1798), envolveu-se em inúmeras intrigas e aventuras com jogatina e libertinagens, desde o seu interesse pela carreira eclesiástica, findou expulso do seminário de Veneza. Depois tornou-se secretário de um cardeal, soldado, violinista, viajante, sendo, então, adotado por um rico senador, empenhando-se na busca da pedra filosofal. Com novas viagens finda preso e condenado pela Inquisição por magia, impiedade e maçonaria. Encerrado na prisão dos Piombi, consegue, ao cabo de cinco meses de maquinações, uma espetacular fuga para Paris onde introduziu a loteria e torna-se financista, quando faz grande fortuna até montar uma fábrica de tecidos que lhe arruína. Passa então a viajar por toda Europa, adotando o nome de Chevalier de Seingalt até ser expulso novamente de Veneza, fixando-se no castelo de Dux como conservador da biblioteca, aonde escreve suas famosas memórias. Tornou-se autor de versos, libretos de ópera, trabalho de matemática e filologia. Nas suas memórias ele descreve a vida dissoluta que levou e o mundo que conheceu. Pelo grande número de conquistas amorosas que narra, seu nome tornou-se tão provençal quanto o de Don Juan. Essas memórias foram publicadas em alemão, em 1882. Foi considerado por muito tempo como um autor pornográfico, obtendo reconhecimento posterior de grande escritor, pelo destaque de suas memórias que apresentam um retrato vivo da vida e dos costumes da Europa no sec. XVIII. Em 1976, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) realiza o filme contando sua história, com roteiro do próprio diretor e de Bernardino Zapponi, e música de Nino Rota. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


HOMENAGEM DO DIA
RAINHA ZENÓBIA
Imagem: Zenobia in Chains (1859) da escultora estadunidense Harriet Hosmer (1830-1908). Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

A bela, guerreira e digna Zenóbia (Bat-Zabbai, sec. III), rainha de Palmira que foi derrotada, levada prisioneira para Roma pelo Imperador Aureliano. Veja mais aquiaqui.


Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
Cordel do meio ambiente aqui.
Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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quarta-feira, abril 01, 2015

JENNIFER TREMBLAY, VÉRONIQUE OVALDÉ, AVA GARDNER, LUZ DEL FUEGO & NAURO MACHADO

 


AVE, AVA! - A caçula Lavínia era capricorniana filha de pobres produtores de tabaco e algodão que perderam tudo, findando o pai trabalhar numa serraria. Sua mãe era cozinheira e impôs a ela a fé batista. Foram para a Virgínia e lá perdeu o pai para a bronquite: Ninguém queria conhecer o papai quando ele estava morrendo. Ele estava tão sozinho. Ele estava com medo. Eu podia ver o medo nos olhos dele quando ele estava morrendo. Eu fui ver o pregador, o cara que me batizou. Eu implorei que ele viesse visitar o papai, só para falar com ele, sabe? Dê-lhe uma bênção ou algo assim. Mas ele nunca o fez. Ele nunca veio. Deus, eu o odiava, bastardos frios assim deveriam... eu não sei... eles deveriam estar em outra raquete, eu sei disso. Eu não tinha tempo para religião depois disso. Eu nunca orei. Eu nunca disse outra oração... Aí se mudaram para a Carolina do Norte. Foi uma foto tirada pelo marido de sua irmã que a levou para New York. Estava com 18 anos e, mesmo não sabendo cantar, falar ou atuar, acharam-na fantástica. E depois de anos treinando a fala com pequenos papéis, ela interpretou Kitty Collins no The Killers. Seus atributos físicos falavam mais alto. Casou-se e foi só o começo: atuou como a beleza da Maria Vargas no He Barefoot Contessa; estrelou como Guinevere no Cavaleiros da Távola Redonda; e foram tantos, até se mudar para Londres, passando por uma histerectomia eletiva, atendendo reivindicação materna. Divorciou-se em segredo e partiu para um segundo casamento também breve. A mulher fatal foi logo prum tumultuado terceiro casamento e o sucesso com Show Boat. Outros relacionamentos apimentaram sua vida de ateia convicta, mudando-se para a Espanha, onde abundaram amantes, aventuras extraconjugais e tórridos romances que transitavam por seus olhos verdes agateados, seus volumosos cabelos castanhos e um semblante bem esculpido, inaugurando aquela do ditado: solteira, mas nunca sozinha: a destruidora de lares. Fumante inveterada – sofria de enfisema e distúrbio autoimune. Veio então o derrame: o corpo paralisado parcialmente, impediu-a de atuar - Ou escrevo o livro ou vendo as joias... Vitimada por uma pneumonia, levou uma queda e ficou sozinha: Eu estou tão cansada... Veja mais abaixo e também aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Desejo viver até os 150 anos, mas quando eu morrer, desejo que seja com um cigarro em uma mão e um copo de uísque na outra. A verdade é que o único momento em que estou feliz é quando não estou fazendo absolutamente nada. Não entendo pessoas que gostam de trabalhar e falam sobre isso como se fosse algum tipo de dever. Não fazer nada é como flutuar em água morna para mim. Delicioso, perfeito. É uma pena que ninguém mais acredite em luxúria simples... Pensamento da atriz e cantora estadunidense Ava Gardner (Ava Lavinia Gardner – 1922-1990), que no seu livro Ava: My Story (Bantam, 1990), ela mencionou: [...] Sexo não é tão importante assim, mas é quando você ama muito alguém. [...] Quando você tem que encarar o fato de que o casamento com o homem que você ama realmente acabou, isso é muito difícil, pura agonia. Nesse tipo de situação angustiante, eu sempre vou embora e me isolo do mundo. Além disso, eu fico sóbrio imediatamente quando há más notícias genuínas na minha vida; eu nunca enfrento isso com álcool no meu cérebro. Eu apenas aluguei uma casa em Palm Springs e sentei lá e sofri por algumas semanas. Eu sofri lá até que eu estava forte o suficiente para enfrentá-lo [...] Talvez, na análise final, eles me vissem como algo que eu não era e eu tentasse transformá-los em algo que eles nunca poderiam ser. Eu os amava todos, mas talvez eu nunca tenha entendido nenhum deles. Eu não acho que eles me entenderam. [...] Deus sabe que eu tenho tantas fragilidades, eu deveria ser capaz de entendê-las e perdoá-las nos outros. Mas eu não consigo. [...]. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: As razões pelas quais ficamos nem sempre são fáceis de explicar... Cuidado com a paixão amorosa, essa doença mental... Era simplesmente sobre mim, eu que talvez não me desejasse bem, eu contra mim, eu sozinha contra mim... Pensamento da escritora francesa Véronique Ovaldé, que no seu livro Des vies d'oiseaux (l'Olivier, 2011) expressou: [...] A evitação é certamente uma das formas de convivência. [...] Basta convencer o seu interlocutor de que você é mais digno que ele e que tem mais razão que ele, e às vezes nem precisa dizer uma palavra, é só uma questão de levantar o queixo, levantar o queixo e você sempre será o mais forte. [...]. Já no livro Ce que je sais de Vera Candida (l'Olivier, 2009), ela expressa que: [...] Sua memória é uma enorme comoda com milhões de gavetas e as vezes as dadas ficam presas. [...]. No livro Les hommes en général me plaisent beaucoup (Actes Sud, 2003), ela assinala que: [...] Fecho bem as janelas e espero até que fique líquido, é uma forma como qualquer outra de eliminar tudo de ruim que há em mim, passa pelos poros da minha pele, evaporando imediatamente, desaparecendo tudo. [...]. No seu livro Et mon cœur transparente (l'Olivier, 2008), ela menciona: […] Um homem arranja uma amante para ficar com a esposa, enquanto uma mulher arranja uma amante para deixar o marido. […].

 

A LISTA - [...] A administração das listas é uma atividade complexa. Os itens numa lista não têm a mesma importância. Não sou nada racional. Minhas listas são intermináveis. [...] 'Achar o número da médica'. Eu não considerei corretamente essa tarefa. Eu devia tê-la considerado de imediato. Sem dúvida. Era urgente. Eu a considerei uma tarefa flutuante. Eu a reescrevia de uma lista à outra. Às vezes nem reescrevia. Eu a achava numa lista antiga. Isso me lembrava que eu tinha prometido. E eu a copiava novamente. [...]. Trechos extraídos da obra A Lista (Autêntica, 2015), da escritora canadense Jennifer Tremblay.

 

EDUCAÇÃO INFANTIL – Desde quando tive o primeiro contato com a criançada para uma manifestação artística, que tenho dedicado o meu trabalho nesses últimos trinta anos ao teatro, música e literatura infantis, e, ao mesmo tempo, me concentrado na pesquisa da Educação, tanto a Educação Infantil, como o Ensino Fundamental. O objetivo dos estudos voltados para a área de Educação é o de buscar a contribuição da arte na aprendizagem, desenvolvimento e formação da criança e do adolescente. Nesse sentido, o blog Brincarte do Nitolino tem dedicado especial atenção a esta temática. ATENÇÃO: Um recadinho pras crianças de todas as idades: Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs. Para conferir online é só clicar aqui ou aqui.

Imagem: Nude blonde woman, do pintor estadunidense Edgar Leeteg (1904-1953)

Ouvindo a ópera Francesca da Rimini, op. 25 (1905), do compositor, pianista e maestro russo Sergei Rachmaninoff (1873-1943), com Chor and Orchesta of The Bolshoi Theatre, Moscowm Mark Ermler, 1975. Ópera baseada no quinto canto da primeira parte de A Divina Comédia – poema épico parte do Segundo Círculo do Inferno, do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PESCA DAS MULHERES – Imagem de J. Lanzelotti (In: Estórias e lendas dos índios, Humberto Galdus (Org.) - Edigraf, s/d) - No livro Os Bororos Orientais (Companhia Editora Nacional, 1942), de Antonio Colbacchini & César Albisetti, encontrei a narrativa A pesca das mulheres: Por muitos dias a fio os homens foram pescar sem resultado nenhum e à tarde voltavam de mãos vazias à aldeia. Vinham tristes não só pela má figura que tinham feito como também pela desagradável recepção que lhes faziam as mulheres. Elas chegaram ao ponto de desafiar os homens para vem quem pescava mais. Certa manhã todas juntas foram ao rio onde, com altos gritos, chamaram as lontras. As lontras atenderam logo e, conhecido o desejo das mulheres, mergulharam na água e pescaram abundantemente. Então as mulheres voltaram à aldeia sobrecarregadas, entre admiração e a vergonha dos homens, que no dia seguinte pensaram em tirar desforra. Mas não pescaram coisa nenhuma e regressaram de mãos abanando, entre o escarnio das mulheres as quais, no dia seguinte, com o auxilio das lontras, realizaram nova e abundantíssima pescaria. A coisa era de fato extraordinária e os homens começaram a recear alguma cilada. E o quituiréu, que é uma ave, tomou a si o encargo de esclarecer o mistério. Ele, com toda cautela, seguiu as mulheres na pesca e viu o que acontecia. Feita a descoberta, voltou à aldeia, reuniu os homens e, juntos estabeleceram o que era preciso fazer: cada um devia preparar uma corda com visgo, e ficar pronto para o dia seguinte. À volta das mulheres, mantiveram-se mudos e indiferentes, a tal ponto que elas se queixavam dessa inesperada atitude. Na manhã seguinte, os homens foram pescar. Levando a corda com visgo, chegaram ao rio e, industriados pelo quituiréu, chamaram as lontras que, como de costume, saíram da água pensando que fossem as pescadoras de sempre. Mas, quando chegaram bem perto, os homens lhes atiraram a corda ao pescoço e estrangularam-nas. Uma apenas conseguiu fugir. Tendo saído tão bem a empresa, os homens voltaram satisfeitos à aldeia, combinando entre si nada contar às mulheres. Estas, mais uma vez, vaiaram os homens enquanto eles, no fundo do seu coração, riam a bom rir. No dia seguinte, as mulheres foram pescar, mas voltaram do rio com os cestos quase vazios. Cheias de raiva por terem os homens descoberto a sua esperteza, urdiram logo uma vingança. Prepararam uma bebida com certa fruta chamada pequi, mas sem lhe tirar os numerosíssimos e pequeninos espinhos que, debaixo da carne, rodeiam a semente. Os homens beberam, mas sufocados por causa dos espinhos que se fincaram na garganta, começaram a fazer ú ú ú ú, para libertar-se dos mesmos. E ficaram transformados em porcos, que também fazem ú ú ú ú... Veja mais aqui.

INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA DO SER – O livro Introdução à psicologia do ser (Eldorado, 1962), do médico e psicólogo estadunidense Abraham Maslow (1908-1970), aborda temas como a jurisdição mais ampla para a psicologia, a psicologia da saúde, o existencialismo, crescimento e motivação, necessidade de saber e o medo do conhecimento, crescimento e cognição, cognição do ser em experiências culminantes e como agudas experiências de identidade, alguns perigos da cognição do ser, resistência à rubricação do ser, criatividade nas pessoas individuacionantes, dados psicológicos e valores humanos, crescimento e saúde, saúde como transcendência do ambiente, tarefas para o futuro, proposições básicas para uma psicologia do crescimento e da individuação, psicologia social normativa, entre outros assuntos. Da obra destaco: Está surgindo agora no horizonte uma nova concepção de doença humana e de saúde humana, uma Psicologia que acho tão emocionante e tão cheia de maravilhosas possibilidades que cedi à tentação de apresentá-la publicamente, mesmo antes de ser verificada e confirmada, e antes de poder ser denominada conhecimento científico idôneo. Os pressupostos básicos desse ponto de vista são: 1. Cada um de nós tem uma natureza interna essencial, biologicamente alicerçada, a qual é, em certa medida, “natural”, intrínseca, dada e, num certo sentido limitado, invariável ou, pelo menos, invariante. 2. A natureza interna de cada pessoa é, em parte, singularmente sua e, em parte, universal na espécie. 3. É possível estudar cientificamente essa natureza interna e descobrir a sua constituição (não inventar, mas descobrir). 4. Essa natureza interna, até onde nos é dado saber hoje, parece não ser intrinsecamente, ou primordialmente, ou necessariamente, má. As necessidades básicas (de vida, de segurança, de filiação e de afeição, de respeito e de dignidade pessoal, e de individuação ou autonomia), as  emoções humanas básicas e as capacidades humanas básicas são, ao que parece, neutras, pré-morais ou positivamente “boas”. A destrutividade, o sadismo, a crueldade, a premeditação malévola etc. parecem não ser intrínsecos, mas, antes, constituiriam reações violentas contra a frustração das nossas necessidades, emoções e capacidades intrínsecas. A cólera, em si mesma, não é má, nem o medo, a indolência ou até a ignorância. É claro, podem levar (e levam) a um comportamento maligno, mas não forçosamente. Esse resultado não é intrinsecamente necessário. A natureza humana está muito longe de ser tão má quanto se pensava. De fato, pode-se dizer que as possibilidades da natureza humana têm sido, habitualmente, depreciadas. 5. Como essa natureza humana é boa ou neutra, e não má, é preferível expressá-la e encorajá-la, em vez de a suprimir. Se lhe permitirmos que guie a nossa vida, cresceremos sadios, fecundos e felizes. 6. Se esse núcleo essencial da pessoa for negado ou suprimido, ela adoece, por vezes de maneira óbvia, outras vezes de uma forma sutil, às vezes imediatamente, algumas vezes mais tarde. 7. Essa natureza interna não é forte, preponderante e inconfundível, como os instintos dos animais. É frágil, delicada, sutil e facilmente vencida pelo hábito, a pressão cultural e as atitudes errôneas em relação a ela. 8. Ainda que frágil, raramente desaparece na pessoa normal — talvez nem desapareça na pessoa doente. Ainda que negada, persiste subjacente e para sempre, pressionando no sentido da individuação. 9. Seja como for, essas conclusões devem ser todas articuladas com a necessidade de disciplina, privação, frustração, dor e tragédia. Na medida em que essas experiências revelam, estimulam e satisfazem à nossa natureza interna, elas são experiências desejáveis. Está cada vez mais claro que essas experiências têm algo a ver com um sentido de realização e de robustez do ego; e, portanto, com o sentido de salutar amor-próprio e autoconfiança. A pessoa que não conquistou, não resistiu e não superou continua duvidando de que possa consegui-lo. Isso é certo não só a respeito dos perigos externos; também é válido para a capacidade de controlar e de protelar os próprios impulsos e, portanto, para não ter medo deles. Assinale-se que, se a verdade desses pressupostos for demonstrada, eles prometem uma ética científica, um sistema natural de valores, uma corte de apelação suprema para a determinação do bem e do mal, do certo e errado [...]. Veja mais aqui, aquiaqui.

DA UBIQUIDADE OBCESSIONAL – No livro O exercício do caos (1961 – Antologia Poética – Imago, 1998), do poeta maranhense Nauro Machado, encontro o poema Ubiquidade Obcessional: Morre um pouco de mim no meu inicio ambíguo / a mente circunscreve o mundo à minha forma, / a fonte à minha boca, teu sonho, Jocasta, / a terra estiolada, e teu sangue materno. / No entanto as bestas mesmas soem ser felizes / pois, quando – não pensadas – as carnes se empenham. / E o ter-me em outros! Falta-me, em mim, minha vida / embora em sua excedência, morro na escassez. / Tudo que vive sem mim minha essência ambígua / consubstancia, embora seja só e inconsútil. Veja mais aqui, aquiaqui.



LUZ DEL FUEGOLuz del Fuego é o nome artístico adotado pela bailarina, vedete, naturista e feminista brasileira Dora Vivacqua (1917-1967) que criou a Ilha do Sol, em 1954, a primeira área naturista do país e o Clube Naturista Brasileiro, na ilha de Tapuama de Dentro, na Baía de Guanabara (RJ). Ela foi assassinada em 1967, juntamente com seu caseiro, amarrados e seus corpos jogados no fundo do mar. Sua história foi adaptada para o cinema em 1982, pelo diretor David Neves e estrelado pela atriz Lucélia Santos. Veja mais aqui.



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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...