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sexta-feira, setembro 02, 2016

NERUDA, ARTAUD, GRINGORE, ANA RUCNER, ILINCA, MARIZA LOURENÇO & LUCIAH



MAIS QUE TUDO O AMOR (Imagem: foto da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.) – Mais que o céu ela me deu o abrigo infinito de sua alma materna, maior que a imensidão de todos os tesouros da Terra no ventre e a me cercar com toda a grandeza de sua terna altivez emoldurada na assimetria de seu corpo de deusa a esbanjar altaneira sua benignidade mais natural a cada entrega, a me premiar como a um mortal predileto escolhido entre os seres humanos. Mais que o dia ela me deu seu sorriso refulgente, a me dá a alegria de toda espécie vivente em festa de cascatas de rios com todos os riachos, lagos e lagoas em confluência, para florescer todos os pomares na fartura dos dotes e em revoada de tudo que leve voa e levita por todos os campos, ares e vales, como se de súdito me fizesse depositário de todo seu reinado. Mais que a noite ela me deu duas luas no plenilúnio luzidio de todas as estrelas brilhando no olhar, para que eu pudesse me fartar com todos os sabores da natureza íntima do seu ser e mais nada escurecesse o espetáculo e maravilha de cada recanto do mundo encarnado em cada detalhe de sua compleição corporal. Mais que a vida ela me deu o amor mais que imenso brotando de todas as brisas com todos os aromas e pétalas de rosas que emanam do seu coração amante para que eu fosse envolvido no mais profundo e eterno sentimento de paz e felicidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui e aqui.

Curtindo o álbum Expression (Croatia Records, 2012), da violoncelista croata Ana Rucner.

PESQUISA: 
Todas as nossas idéias sobre a vida devem ser retomadas numa época em que nada adere mais à vida. E esta penosa cisão é a causa de as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas reaparece de repente, pelo lado mau das coisas; nunca se viram tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência para possuir a vida. Se o teatro é feito para permitir que nossos recalques adquiram vida, uma espécie de poesia atroz expressa-se através dos atos estranhos em que as alterações do fato de viver demonstram que a intensidade da vida está intacta e que bastaria dirigi-la melhor.
Trecho extraído da obra O teatro e seu duplo (Martins Fontes, 1993), do poeta, ator, dramaturgo e diretor de teatro francês Antonin Artaud (1896-1948). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
Não se pode viver toda uma vida com uma língua, puxá-la da esquerda para a direita, explorá-la e procurar em seus cabelos e em seu ventre. [...] O uso da língua, assim como o da pele e da roupa sobre o corpo, com suas mangas, seus remendos, suas transpirações e suas manchas de sangue ou suor, revela o escrito. Isto tem um nome: é o estilo.
Trecho extraído da obra Confesso que vivi (Difel, 1978), do poeta chileno e Prêmio Nobel de Literatura de 1971, Pablo Neruda (1904-1973). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA: LE LABOURER DE VIN BOIT SOUVENT EAU
Quem faz o vinho, muita vez bebe água.
Expressão extraída da obra Notables enseignements, adages et proverbes, do poeta e dramaturgo francês Pierre Gringore (1475-1538), rifão que adverte que quem faz uma coisa para comercio ou para uso de terceiros, muitas vezes dele se priva. Corresponde ao dito popular casa de ferreiro, espeto de pau ou ao provérbio francês os sapateiros são sempre os mais mal calçados.

IMAGEM DO DIA; 
A arte do fotógrafo Daniel Ilinca.

Veja mais sobre Nascente & Beto Guedes, Théophile Gautier, Werner Herzog, Séraphine Louis, Pequeno Cidadão, Educação Ambiental, A mulher que veio do ovo, Psicodrama nas instituições & Egid Quirin Asam aqui.

E mais: Walter Benjamim, Sandie Shaw, Luís da Câmara Cascudo, Têmis, Marie Dorval, José Roberto Torero, Patrícia Melo, Iracema Macedo, Julia Bond & Ísis Nefelibata aqui.

DESTAQUE
de fora pra dentro: na pracinha duas menininhas de mãos dadas namoravam as passarinhas arrulhavam os passarinhos lamentavam a má sorte. inveja mata. gatos cachorros vagabundos proliferam nas ruas dormem sob as marquises tomam banho de sol no centro do coreto e trepam entre as rodas dos carros estacionados. eles são felizes. eu queria ser. o ciclista mandou o motorista à merda o motorista fechou o ciclista no cruzamento entre a rua tal e a avenida principal o ciclista caiu o motorista descarregou seu 'tresoitão' a esmo...
Considerações de uma passante ao acaso, da poeta, advogada e blogueira Mariza Lourenço. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
___nem mesmo as águas de um lago refrescam da minha carne o desejo___olho de fogo a me queimar noite e dia santificando o amor que te reconhece amante nos vales situados por entre as minhas coxas. Eis-me aqui, vestal desnuda a querer-te, das mãos_____as carícias obscenas a contornar os meus seios, e a repartir o meu corpo em fogo e brasa no plenilúnio da lua nua. Eis-me aqui, cativa sua a espojar-te as carnes e banhar-me em tuas águas a bendizer-te o falo, cintilante de todos os matizes guardando em si, a nobreza do teu prazer ah, essa tortura de mais querer-te por dentro de mim açoitando-me com sua língua até que ao gozo meu corpo seja rendido e submissa ao teu desejo____eis- me aqui, sou sua e mesmo presa nessa dor de amor ainda assim, minh'alma beija a sua alma no estertor de mais um gozo___enfim.
Dor de amor, poema/imagens: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

domingo, junho 12, 2016

NERUDA, EDITH PIAF, FROMM, SALOMÃO, ASENCIO, JULIA WATKIN, MICHELLE WILLIAMS, CORNELIS LE MAIR & FEMEN


O AMOR DOS NAMORADOS - (Imagem: Lovers, do artista plástico estadunidense Henry Asencio) – O primeiro presente: um beijo nos seus lábios ávidos de sempre a nos premiar com o sabor das paixões avassaladoras que arrebentam o tempo e todas as lonjuras inatingíveis, todos os níveis inacessíveis, todas as funduras mais profundas e todas as coisas impossíveis, a nos fazer raízes e sermos frutos na nossa criação e recriação de todos os dias e meses e anos e décadas e séculos e milênios, amém. E nos fizemos bocas sedentas repletas de entregas para nos sentirmos laureados com o segundo presente em nos tornarmos unos tantas vezes no abraço de mãos, braços e corpos envolvidos pela aura da mais densa devoção do amor e todos os seus matizes e onirismos e embalos e encalços e danças e fragrâncias e evoluções até sermos um no outro a parte que faltava na mais farta das conjunções de seres para o acasalamento da maravilha que é amar e ser amado por todos os poros, veias, interstícios, sinapses e abstrações na pletora dos antípodas. E nos saboreamos com o terceiro presente na horagá além do temporal que não se registra, do especial que não se mede nem se contém, de todas as coisas feitas de limites que sopram ubíquas e se transformam e transmudam e se trançam e transversalizam e se rompem soltos em todas as direções e desaguam além das cachoeiras, das corredeiras, pelos cursos de todas as direções para ser inundação além de todos os tsunamis juntos pelo chão, Terra, planetas, galáxias, imensidões. E usufruímos da felicidade que sobrepuja as dimensões concebíveis e transcendemos a imanência para sermos além da dimensão de nós dois até o infinito e em nossa plena realização, nos doamos um ao outro, carne, alma, sexo, para sermos eternos na nossa mais profunda comunhão de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui e aqui.

 Imagem: Lovers, da artista plástica Julia Watkins.

 Curtindo Hymne à l’amour (LIME, 1950), de Marguerite Monnot e da inesquecível cantora francêsa Edith Piaf (1915-1963). Veja mais aqui e aqui.

PESQUISA
O livro A arte de amar (The Art of Loving - Martins Fontes, 2000), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980), é dividido em quatro capítulos nos quais o autor aborda sobre a temática nos mais diversos ângulos para apresentá-lo como uma arte que precisa ser aprendida: “Analisar a natureza do amor é descobrir sua geral ausência hoje em dia e criticar as condições sociais responsáveis por essa ausência. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
Cem sonetos de amor (L&PM, 2013), do poeta chileno e Prêmio Nobel de Literatura de 1971, Pablo Neruda (1904-1973). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho, e suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como um perfume derramado: por isso amam-te as jovens. Arrasta-me após ti; corramos! [...] Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas caricias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!
Trecho da Introdução dos Cânticos dos Cânticos – Os mais belos dos Cânticos de Salomão – Bíblia Sagrada. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Blue Valentine (Namorados para sempre, 2010), escrito e dirigido por Derek Cianfrance e estrelado pela atriz Michelle Williams.

Veja mais sobre Por você no Dia dos Namorados da Crônica de amor por ela, Luce Fabbri, Ledo Ivo, Geraldo Azevedo, Luiz Berto, Anne Frank, Solveig Nordlund, Wellington Virgolino & Carmem Verônica aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nu, do artista plástico Cornelis le Mair.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
GINOCRACIA: foto das ativistas do Grupo Femen detidas durante protesto contra o primeiro ministro tunisiano, Ali Larayedh, diante da chancelaria em Berlim.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.


terça-feira, fevereiro 23, 2016

NERUDA, WOOLF, CUNNINGHAM, TOURAINE, MONHEIT, STANDISH & LITERÓTICA


 


A DEUSA QUE SE FEZ RAINHA PARA SER SÚDITA DA NOITE – Ela emergiu ignota com toda pompa celestial de deusa radiante a ensolarar as trevas com as trombetas de sua fulgurante sedução e a levitar dançante pronta para a celebração de sua glória divina. Aterrissou magnânima rainha com reverência de saudar exclusivo súdito compungido pela comunhão de seu majestoso poder. Desceu em câmara lenta pelos degraus suntuoso do seu trono e a mim se encaminhou como se reconhecesse os méritos de fiel escudeiro, a lançar sua mão sobre meu ombro, contemplado na cerimônia. Tomou-me de pé para receber a sua comenda ilustre e ela dispensou o manto e a coroa, removeu as cobertas de sua elegância, revelando-se com uma lingerie transparente na oferenda de sua nudez soberana. E diante de mim fraquejou vulnerável prostrada, e fixou seu olhar sobre meu sexo e o elegeu panteão de sua deidade, tonando-se fiel monja discípula, súdita destronada a render homenagem com suas carícias a deificá-lo. Alisando-o terna e apaixonada, como se cuidasse de bem preciosíssimo, tomou entre as mãos, apalpando-o meticulosa, a mimá-lo com seus afagos, magia de felatriz nos feitiços de boca, lábios e língua. E me fez imortal com sua gula desenfreada, e me investiu entronizado pelo sobejo de sua saliva caudalosa, e me tomou por dono com suas insaciáveis abocanhadas, e levou-me ao ápice de seu poderio milenar, quando no clímax do meu estertor, quedou convidativa, portas escancaradas, amplidão por conquistar: Vem! E a ventania do seu ventre tragou-me priápico, ao repouso de seus seios fartos, com todos os prados e arrebóis infinitos de sua sinuosidade abissal. Doou-me a botija repleta com todos os tesouros exultantes, como quem premia o vencedor com todos os galardões de seus gozos e orgasmos perenes. Assim nela eu sou. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Há um esgotamento dos modelos políticos, e eu acho que a responsabilidade dos intelectuais nisso é muito grande, porque, em uma país como a França ou a Itália, um pouco no Brasil, muito na Argentina, na Venezuela e em outros países, os intelectuais fizeram a política do pior... Nós não podemos sobreviver às mudanças atuais sem ideias novas de uma maneira que corresponda à realidade e que inspire confiança. Então, o que eu diria hoje do mundo ocidental é que essas doenças são bem menos doenças da mão, das pernas ou dos pés, do que são da cabeça. Em outras palavras, se eu assumo uma posição radical ou até excessiva sobre a situação, dizendo que há todo um sistema que ruiu do ponto de vista econômico, é preciso ver que o grande obstáculo hoje em dia – como eu dizia, um pouco para o Brasil, mas muito mais para os europeus – é a renovação das idéias e do pessoal, dos políticos, dos intelectuais, dos sindicatos, de tudo...

Pensamento do sociólogo francês Alain Touraine (1925-2023). Veja mais aqui & aqui.

 

SENHORA DALLOWAY – [...] ela tinha a constante sensação de estar muito, muito longe no mar, sozinha; sempre tinha a impressão de que era muito, muito perigoso viver sequer um dia. [...] Qual a importância do cérebro em comparação com o coração? [...] É possível que o próprio mundo seja desprovido de significado. [...] Ela acreditava que não existiam deuses; que ninguém era culpado; e assim desenvolveu essa religião ateísta de fazer o bem pela bondade em si. [...] É uma grande pena nunca poder dizer o que se sente. [...] Amar torna a pessoa solitária. [...] Beleza, parecia dizer o mundo. E como que para provar isso (cientificamente), onde quer que ele olhasse — para as casas, para as grades, para os antílopes esticados sobre as cercas —, a beleza surgia instantaneamente. Observar uma folha tremulando na corrente de ar era uma alegria requintada. Lá no céu, andorinhas mergulhavam, desviavam, lançavam-se para dentro e para fora, em círculos, sempre com perfeito controle, como se elásticos as sustentassem; e as moscas subiam e desciam; e o sol, ora tingindo esta folha, ora aquela, em tom de zombaria, ofuscando-a com um dourado suave, em puro bom humor; e ora, novamente, um sino (talvez uma buzina de carro) tilintando divinamente nos talos de grama — tudo isso, calmo e racional como era, feito de coisas comuns como era, era a verdade agora; a beleza, essa era a verdade agora. A beleza estava em toda parte. [...] Foi um sonho bobo, muito bobo, esse de ser infeliz. [...] Aqui a vida parou. [...]. Trechos extraídos da obra Mrs. Dalloway (Houghton Mifflin Harcourt, 2002), da escritora, ensaista e editora britânica Virginia Woolf (Adeline Virginia Woolf, nascida Stephen – 1882-1941). A obra foi pro cinema em 1997, como um drama dirigido por Marleen Gorris e estrelado por Vanessa Redgrave. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AS HORAS – […] Existe beleza no mundo, embora seja mais cruel do que imaginamos. [...] Não se encontra a paz evitando a vida. [...] Damos nossas festas; abandonamos nossas famílias para viver sozinhos no Canadá; lutamos para escrever livros que não mudam o mundo, apesar de nossos talentos e esforços incansáveis, nossas esperanças mais extravagantes. Vivemos nossas vidas, fazemos o que fazemos e depois dormimos. É tão simples e comum quanto isso. Alguns se atiram de janelas, ou se afogam, ou tomam pílulas; outros morrem em acidentes; e a maioria de nós é lentamente devorada por alguma doença ou, se tivermos muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas isso como consolo: uma hora aqui ou ali em que nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, explodir e nos dar tudo o que sempre imaginamos, embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas), saibam que essas horas serão inevitavelmente seguidas por outras, muito mais sombrias e difíceis. Ainda assim, prezamos a cidade, a manhã; esperamos, mais do que tudo, por mais. Só Deus sabe por que a amamos tanto... [...] A beleza é uma prostituta, eu prefiro dinheiro. [...] Lembro-me de uma manhã em que acordei ao amanhecer. Havia uma sensação tão grande de possibilidades. Sabe, aquela sensação. E eu... lembro-me de pensar: Então este é o começo da felicidade, é aqui que tudo começa. E, claro, sempre haverá mais... nunca me ocorreu que não fosse o começo. Era a felicidade. Era aquele momento, ali mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra As horas - The Hours (Companhia das Letras, 1998), do escritor estadunidense Michael Cunningham, obra que foi levada ao cinema em 2002, um drama dirigido por Stephen Daldry, roteiro de David Hare e estrelado pelas atrizes Streep, Moore e Kidman. Veja mais aqui.

SURRENDER – Curtindo o álbum Surrender (2007), da cantora estadunidense Jane Monheit, com nítidas influências da música brasileira. Veja mais aqui, aquiaqui.


OS ERÓTICOS POEMAS DE PABLO NERUDA

CAVALHEIRO SÓ

Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
E as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
E as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
E os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
Como um colar de palpitantes ostras sexuais
Rodeiam minha casa solitária,
Inimigos jurados de minha alma,
Conspiradores em traje de dormir,
Que trocaram a senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
Em uniformes regimentos melancólicos
Feitos de gordos magros e alegres tristes pares:
Sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
Há uma vida continua de calças e galinhas,
Um rumor de meias de seda acariciadas,
E seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
Depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
Seduziu sua vizinha inapelavelmente
E a leva agora a cinemas miseráveis
Onde os herois são porcos ou são príncipes apaixonados
E lhe acaricia as pernas, véu macio,
Com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro.

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
Se unem, dois lençóis que se sepultam,
E as horas de após almoço em que os jovens estudantes
E as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
E os animais fornicam sem rodeios
E as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
E os primos brincam de estranho jeito com as primas,
E os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
E as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
Cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
E inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
Sobre leitos altos, amplos como embarcações:
Seguramente, eternamente me rodeia
Este respiratório e enredado grande bosque
Com grandes flores e com dentaduras
E raízes negras em forma de unhas e sapatos.

OS TEUS PÉS

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

MULHER

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e
dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.


O INSETO

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um inseto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

PARA QUE ME OUÇAS

Para que me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto de gaivotas sobre as praias.
Colar, guizo ébrio
para as tuas maos suaves como as uvas.
E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

CUERPO DE MUJER

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

DORMI CONTIGO TODA NOITE

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.
Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.


PABLO NERUDA – Ricardo Eliezer Neftali Reyws Basoalto (1904-1973) ou simplesmente Pablo Neruda, é o poeta chileno que se tornou um dos mais importantes poetas da língua castelhana no século xx. Ele foi cônsul do Chile na Espanha e no Mexico. Foi eleito senador e ganhou o prêmio Nacional de Literatura em 1945, ano em que homenageia Luis Carlos Prestes lendo seu poema para 100 mil pessoas no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em 1953 recebeu o Premio Lenin da Paz. Em 1965 lhe foi outorgado o titulo de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã Bretanha. Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Entre outras coisas, sua vida inspirou o filme “O carteiro e o poeta”. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Seduction, da pintora e fotógrafa britânica Colette Standish.
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