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terça-feira, março 10, 2020

MARIA BONOMI, CORBINIANO, MARCELA SAID, MARTA KOHL & ISA GRINSPUM


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: COMO SE FOSSE - As calçadas das ruas do mundo e eu à toa, vida de ninguém. Ela subitamente ali, olhos nos meus, riso encantador de musa. A surpresa quase impossível, não fosse cinema tão real. Um abraço afetuoso e uma folia de confetes e serpentinas dentro de mim. Dançamos a Sede de décadas sonhadas, o nosso idílio. Deu-me um beijo inesperado e eletrizante, carne em minhas mãos, a cintura dela inquieta, como se a avenida barulhenta e alvoroçada nada mais fosse que nossas línguas a se confundirem na escuridão de um quarto de hotel ao crepúsculo, um quase imperceptível amanhecer. A intimidade era uma cena repisada na memória tantas vezes revista das que ela já fora tão distante, agora ali inteira, lado a lado, hálito e respiração, a entrega de sua alma de menina travessa. Ela deu-me tudo, mais que o meu merecimento. Quem? Juliette Binoche: Estou cheia de dúvidas... Cada novo filme é como um julgamento. Antes de me colocar na frente da câmera, não sei se vou cair ou se vou voar - e é exatamente assim que quero que fique. DUAS: DE SOLIDÃO & ENTREGA – A presença dela era sempre algo mais que o indefinível, o que de mim havia se desfeito. E nos refazíamos a cada encontro, beijos de valsas intermináveis, entregas que se faziam árias na eternidade. Íamos e não. Na primeira vez ela tatuou seus lábios na minha alma, jamais esquecera. Na segunda, passou a viver dentro de mim: era comigo que ela vivia para que eu pudesse ser vivo para sempre. Na terceira, confundíamos nossas vidas e nunca mais deixei que ela se fosse de mim. Mas havia de partir e levou tudo, dias e noites, um incontável amanhã. E ela poetou, frente a frente. Quem? Anna Akhmátova: Bebo ao lar em pedaços, / À minha vida feroz, / À solidão dos abraços / E a ti, num brinde, ergo a voz… / Ao lábio que me traiu, / Aos mortos que nada vêem, / Ao mundo, estúpido e vil, / A Deus, por não salvar ninguém. E nos servimos um do outro para que a vida fosse além do átimo fugaz de um gozo perene. TRÊS: ELA & UM DESEJO - Era aniversário dela. O que presentear, nem sabia ou podia: só ao coração, uma canção, nada mais. Eu tinha os seus olhos e nada mais era maior que a nudez dela no espetáculo da vida. Era minha e cantei Desejo, era apenas o que tinha mesmo para dar. E nos embalamos nos versos da minha canção e nos refizemos em cada tom, renascemos e amamos além da conta, impetuosa e completamente. Havia sempre uma revelação a ser feita. E ela se despiu, corpalma. Quem? Mônica Bellucci: O amor não tem idade. É fundamental aceitar que a beleza desaparece com o tempo. Aceitei papéis degradantes para denunciar a violência contra a mulher. Ela sempre, nua & linda, no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O adulto está inserido no mundo do trabalho e das relações interpessoais de um modo diferente daquele da criança e do adolescente. Traz consigo uma história longa (e provavelmente mais complexa) de experiências, conhecimentos acumulados e reflexões sobre o mundo externo, sobre si mesmo e sobre as outras pessoas. Com relação à inserção em situações de aprendizagem, essas peculiaridades da etapa da vida em que se encontra o adulto fazem com que ele traga consigo diferentes habilidades [...] e, provavelmente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e sobre seus próprios processos de aprendizagens. [...]. Trechos extraídos do artigo Jovens e adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem, da pedagoga, psicóloga e professora Marta Kohl de Oliveira, extraído da obra Educação de jovens e adultos (Mercado das Letras, 2001), organizado por Vera Masagão Ribeiro.

DEVERES DA ARTE – [...] Tenho a obrigação de rever as obras anteriores. E cada uma vem plena, com toda razão de ser que teve no momento de sua criação. Isso já é bastante. Então, ainda não comecei a olhar para trás. [...] minha obra não está feita, está se fazendo. Sobrou pouco tempo para que se faça. Há mais tempo para trás do que para frente, a menos que ocorra algum milagre da ciência. Então, o fato de ter pouco tempo me mantém em uma busca permanente para completar. [...] O que eu faço é uma espécie de relato. O relato do vivido, o relato do percebido, o relato daquilo que me atinge. Eu tento conviver com o que está acontecendo e traduzir essa convivência em termos visuais. [...] Eu ilustro essa experiência de vida. Há um caminho. Mas, como diz o provérbio, o caminho se faz ao caminhar. Ele é recorrente apenas como experiência. O que eu aprendi ontem estou usando hoje. E estou aprendendo hoje aquilo que usarei amanhã. [...]. Trechos da entrevista concedida ao Relatório 2014 com exposição dedicada a Maria Bonomi (Revista Pesquisa FAPESP, 2015), pela gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi. Veja mais aqui e aqui.

O CINEMA DE MARCELA SAID
Não tenha medo, em uma primeira escrita, se as coisas parecerem muito explícitas, porque elas podem ser tecidas por trás.
MARCELA SAID - A arte da cineasta chilena Marcela Said, que dirigiu o drama Los Perros (2018), contando a história de uma mulher que é membro de uma importante família chilena que, apesar dos privilégios, encontra-se inteiramente infeliz em sua própria casa, por se sentir desprezada pelo pai e pelo marido. Assim, ela encontra refúgio nos braços do seu professor de equitação, acusado de diversos crimes durante a ditadura. A partir deste caso amoroso, ela contempla o passado de sua família. Também dirigiu o drama/comédia El Verano de los Peces Voladores (2013), que conta a história das férias de uma adolescente chilena na casa da família, durante um período em que a ameaça de guerrilha está cada vez mais presente. Além destes, o documentário The Young Butler (El mocito, 2011), contando a história de um trabalhador agrícola no sul do Chile, que por muitos anos trabalhou como agente das máquinas repressivas do regime de Pinochet. Foi ele o jovem mordomo que trouxe as xícaras de café no meio das sessões de tortura, quem alimentou os prisioneiros e jogou fora seus corpos. Vinte anos depois, ele está sendo levado a tribunal e forçado a se lembrar, um retrato psicológico de um ser humano destruído por seu passado, por ter participado dos horrores e crimes da ditadura de Pinochet, mas que hoje enfrenta sua consciência e procura redenção. Por fim, I Love Pinochet (2001), documentário que mostra os "pinochetistas'' e os seus diferentes aspectos de suas vidas, exibindo sua paixão e agradecimentos ao homem que, segundo eles, salvou o Chile do comunismo internacional, com o sangrento golpe de Estado no dia 11 de setembro de 1973. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Quem vê essas esculturas lindas pode identificar que era um homem dedicado à beleza, à contemplação. As pessoas estão sempre passando com pressa, independentemente do público, a obra existe, está lá, existe, vai sempre embelezar o lugar. O reconhecimento na arte é algo extremamente complexo, é muito difícil. O grande valor independe do reconhecimento. Isso vale nada. Depois que o tempo passa, é a obra que fica, a obra vai permanecer.
CORBINIANO – A arte do escultor José Corbiniano Lins (1924-2018), que fez parte do movimento de Arte Moderna do Recife, na década de 1950, participando de diversas exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Veja mais aqui, aquiaqui. E muito mais aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
A arte da socióloga, cineasta e roteirista Isa Grinspum Ferraz, que foi coordenadora e criadora de projetos para editoriais e televisão na Fundação Roberto Marinho e exibidos pela Rede Globo, atuou com Darcy Ribeiro para o programa Escola pela TV, coordenou o Projeto Especial Núcleo da TVE; concebeu e dirigiu a série de documentário O Povo Brasileiro, baseada em obra de Darcy Ribeiro e exibida no canal TV Cultura e canal GNT; diretora dos documentários Marighella (2012) e A cidade do Brasil (2018), entre outros projetos e realizações.
A literatura do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero aqui, aqui, aqui & aqui.
Frevo de Várzea, do poeta Wilson Araújo aqui.
Brivaldo Leão & Ginásio Municipal aqui, aqui & aqui.
A arte de Joacir aqui.
A xilogravura de Perron Ramos aqui.
Água Preta aqui, aqui & aqui.
UNA: Roteiro documentário curta-metragem aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, setembro 24, 2018

KAFKA, OCTAVIO PAZ, NISE DA SILVEIRA, HENRIQUE ANNES, MARIA BONOMI, MIMMO PALADINO & ZÉ GULU


O SUMIÇO & O PACTO DO GULU – Imagem: arte da gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi - Dizem e como falam: O doutor Zé Gulu sumiu. Cadê-lo? Quem sabe! Ainda a semana passada estava ele ali. Não, meu, mais de mês que ele não dá as caras, semestres, anos. Danou-se! Outro chegava: Qued’ele? Desapareceu faz tempo. Será que ele se envultou? Num diga. No meio, saiu essa: Ele foi dá uma chegada no Coisa Ruim. Como é? Quem falou, não sei, ninguém sabe. Insinuações, ah, conversa mole. Como é? Boato. Não, apenas, alguém disse e pegou. Entre comentários e bisbilhotices, ninguém dava conta dele. Daí pra difamação foi um pulo: o falatório crescendo. Adonde é que ele mora? O mistério aumentava. Lá longe. Onde mesmo? Num sítio abandonado - e outras invencionices carregadas de coisas fantásticas. O boi de fogo ganhou a preferência entre arredios e antipatizantes: O homem tem lá suas tretas. Isso é lá coisa que se invente, hem? Vamos tirar isso a limpo. E foram. Dia de chuva braba, ambiente sinistro, situação aziaga: zoada de bichos, escorregões, torada de aço. O que foi mesmo que a gente veio fazer aqui? Juntaram-se: Os frouxos que se danem, quem tiver coragem que vá. Idas e vindas, bateram à porta. Nenhum sinal de vida. Invadiram assim mesmo. A cena horripilante: teias de aranha, casa abandonada, silêncio sepulcral e no meio da escuridão: poucos móveis, livros amontoados e empoeirados, espelhos, castiçais e velas, bússolas, réguas, compassos, ambiente macabro daqueles magos cientistas. Acenderam umas tochas com o que acharam e conseguiram ver entre as publicações o Prometeu de Ésquilo, The Fornicarius do Johannes Nider (1380-1438), as façanhas do cruel Gilles de Rais (1405-1440) depois da morte de Joana D’Arc (1412-1431); escritos do lúbrico padre francês Urbain Grandier (1590-1634), aquele que foi queimado na fogueira e contado pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996); o doutor Faustus do séc. XVI do poeta Christopher Marlowe (1564-1593) que foi imortalizado pelo poeta Goethe (1749-1832); a teodiceia de Leibniz (1646-1716), as composições musicais de Giuseppe Tartini (1692-1770), imagens do Frauenkirche de Munique, as sujidades de Marquês de Sade (1740-1814), a poética pictórica de William Blake (1757-1827) influenciado por Shakespeare, Paracelso e Böhme; a dialética do negativo de Hegel (1770-1831), as músicas de Nicolo Paganini (1782-1840) que por não cumprir o acordo foi acometido pela Síndrome de Marfan e, tendo, por isso, rejeitado o seu sepultamento; a mitologia satânica de Byron (1788-1824) e Vigny (1797-1863), a pintura de Eugène Delacroix (1790-1863), as funestas histórias de Edgar Allan Poe (1809-1849) com todos os seus pseudônimos; a edição das Flores do Mal de Baudelaire (1821-1867), a poética dramatúrgica de Álvares de Azevedo (1831-1852), O padre Amaro do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900), as escrituras diabólicas de Giovanni Papini (1881-1956), a fabulação de Flaubert (1821-1880), os Cantos de Maldoror de Lautréamont (1846-1870), O Septem Sermones ad Mortuos de Carl Gustav Jung (1875-1961), o Demian de Hermann Hesse (1877-1962), O mal de Georges Bataille (1897-1962), a literatura tenebrosa de Machado de Assis (1839-1908), a poesia diabólica dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935), o Paraíso Perdido de James Hilton (1900-1954), o Pacto com a Serpente de Mario Praz (1896-1982), o pacto na encruzilhada do Mississippi do blueseiro Robert Johnson (1911-1938), os grandes sertões de Guimarães Rosa (1908-1967), a pintura horrenda das crianças de Giovanni Bragolin (1911-1981) e de Anna Zinkeisen (1901-1976); o ritual do shaman do poeta Jim Morrison (1943-1971) e da banda The Doors; o Evangelho de Saramago (1922-2019) e o do Padre Bidião, a oração da Cabra Preta, as lendas de Branca Dias, Xeréu Trindade do Pantanal e do boneco Fofão do ator Orival Pessini (1944-2016), afora outras estranhices que versavam sobre alquimia, esoterismo, magia, cabala, coisas do outro mundo, poder, elixir da vida e a eterna juventude, disso e doutras ocultidões. Pronto. Estava selado: Num é mesmo que o homem é achegado às coisas do capeta!?! Arrepiaram da cabeça aos pés. Olharam-se: doido é quem fica! Os que lá foram não queriam falar do que viram; só à boca miúda, segredando. Qualquer menção era cuidada com benzeções de Deus me livre e beijos no crucifixo. Valha-me. Dali por diante, todos temiam aquele que um dia fora o mais sábio – agora amaldiçoado - entre os alagoinhandubenses. Mas qual é mesmo o paradeiro do doutor Zé Gulu, hem? Desavisado que seu cuide. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Henrique Annes: Ao vivo, Raio de Sol, Violão Brasileiro & com Oficina de Cordas & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Nesse pedaço de natureza que é a psique acontecem fenômenos de ordens diversas, misteriosos, arquetípicos, imaginários, racionais... todos se cruzando e percorrendo caminhos de muitas voltas. É apaixonante tentar acompanha-los, pois nenhum, mesmo em estados do ser ditos patológicos, jamais perde o imantado fio que lhe dá sentido. [...]. Trecho extraído da obra O mundo das imagens (Ática, 1992), da médica psiquiatra e psicoterapeuta alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

A ARTE & O ARTISTA - [...] o artista, como um dançarino na corda bamba, move-se em várias direções, não porque seja habilidoso, mas por ser incapaz de escolher apenas uma direção [...]. Trecho de Transvanguarda, do pintor e escultor italiano Mimmo Paladino, extraído da obra Estilos, escolas e movimentos: guia enciclopédico da arte moderna (Cosac & Naify, 2003), de Amy Dempsey, traduzido por Carlos Eugenio Marcondes de Moura.

O ESTRANGEIRO -  [...] Você não pode sair; está detido. - É o que parece – disse K. -, e por quê? – perguntou depois. - Não nos cabe explicar isso. Volte para seu quarto e espere ali. O inquérito está em curso, de modo que se inteirará de tudo em seu devido tempo. Saiba que exorbito das minhas atribuições ao falar-lhe tão amistosamente. Confio, porém, em que apenas me ouça. [...]. Se você continua tendo tanta sorte como na designação dos seus guardas pode alimentar esperanças [...] - É melhor que nos confie suas coisas [...], pois frequentemente no depósito acontecem fraudes e além do mais costuma-se ali, depois de certo tempo, vender tudo sem que ninguém se incomode em verificar se o inquérito em questão terminou ou não. E quão demorados são os processos deste tipo, especialmente nos últimos tempos! Claro está que, em última instância, você receberia o dinheiro obtido da venda que certamente seria pouca coisa, visto que na operação o preço não é determinado pela importância da oferta, mas pelo montante do suborno; além do mais, ao passar de mão em mão, conforme a experiência o demonstra, tais somas vão se tornando cada vez menores [...] - Nós somos apenas empregados inferiores que pouco sabemos de documentos já que nossa missão nesse assunto consiste somente em montar guarda junto a você durante dez horas diárias e cobrar nosso soldo por isso. Aí está tudo que somos; contudo, compreendemos bem que as altas autoridades a cujo serviço estamos, antes de ordenar uma detenção examinam muito cuidadosamente os motivos da prisão e investigam a conduta do detido. Não pode existir nenhum erro. A autoridade a cujo serviço estamos, e da qual unicamente conheço os graus inferiores, não indaga os delitos dos habitantes, senão que, como o determina a lei, é atraída pelo delito e então somos enviados, os guardas. Assim é a lei, como poderia haver algum erro? - Desconheço essa lei – disse K. - Tanto pior para você – replicou o guarda. - Sem dúvida, esta lei não existe se não na imaginação de vocês – prosseguiu dizendo K., com a intenção de penetrar o pensamento dos guardas, procurando induzi-lo em seu favor. O guarda, porém, limitou-se a dizer: - Você logo sentirá o efeito desta lei. - Observe bem, Willem; por uma parte admite que desconhece a lei e por outra afirma que é inocente. - Tens razão, mas não podemos fazê-lo compreender isso – disse o outro [...]- Estará você muito surpreso pelo inquérito desta manhã? – indagou o inspetor [...]. - Certamente – retrucou K., sentindo-se contente por achar-se enfim diante de um homem razoável, o qual sem dúvida havia de compreendê-lo apenas K. lhe falasse de seu assunto. - Certamente, estou surpreso, porém de modo algum surpreendido. - Quem não está muito surpreendido? – perguntou o inspetor [...] Infiro-o do fato de ver-me acusado sem que seja possível encontrar que eu tenha cometido o menor delito pelo qual se justifique uma acusação. Mas isso também é acessório; o fundamental é outra coisa: quem me acusa? Que autoridade superintende o inquérito? Vocês são funcionários? Nenhum de vocês tem uniforme, não seja o caso de querer-se denominar uniforme [...] essa vestimenta que, contudo, é antes um traje de viagem. Tais são as questões que eu peço que me esclareçam. Além do mais, estou convencido de que depois dessas explicações haveremos de nos despedir do modo mais cordial. O inspetor deixou cair a caixinha de fósforo sobre a mesa. - Você encontra-se em erro crasso – disse. – Estes senhores que vê aqui, e eu, desempenhamos um papel completamente acessório em seu assunto, do qual, para dizer a verdade, não sabemos quase nada. Se trouxéssemos nossos uniformes do modo mais regular possível, nem por isso sua causa estaria melhor do que está. Muito menos lhe posso dizer, a você, de modo algum, que está acusado, ou, dizendo melhor, não sei se o está. O certo é que está detido. Isto é tudo quanto sei. Se os guardas estiveram falando com você e sugeriram outra coisa, não deve encarar isso se não como simples falatórios. Mas se não posso responder às suas perguntas, posso em troca aconselhar-lhe que pense menos em nós e naquilo que lhe aconteceu esta manhã e mais em você mesmo. Por outro lado não alvorece tanto com protestos de inocência porque isso causa má impressão, sendo certo que a outros respeitos você impressiona bem. Sobretudo, tem que se moderar em suas manifestações, pois quase tudo quanto acaba de dizer podia tê-lo expressado com algumas palavras e podíamos tê-lo entendido pela sua atitude; tudo isso não fala muito em seu favor [...] E bem, ouvi alguma coisa, mas de modo algum posso dizer que se trate de coisa particularmente grave. É certo que o senhor está detido, mas não detido como um ladrão; quando se detém a alguém como ladrão, então o assunto é grave, mas esta detenção... perdoe-me o senhor se digo alguma bobagem, ocorre-me que se trata de algo especial, de algo acadêmico, que por certo de nenhum modo compreendo, mas que, por outro lado, não tenho também a obrigação de compreender [...] - De maneira – disse o juiz de instrução, folheando o caderno e voltando-se para K. com o tom de quem deseja comprovar alguma coisa – que você é pintor de pincel gordo. -Não – respondeu K. – Sou o primeiro procurador de um grande banco. A esta resposta seguiu-se uma grande risada por parte da metade direita da sala, tão cordial, que K. também se pôs a rir. [...] O juiz de instrução ardeu em cólera e, como pelo que se via não podia fazer nada contra a gente de baixo, procurou desforrar-se ameaçando aos da galeria; pôs-se de pé em um salto e arqueou as sobrancelhas, que habitualmente não despertavam a atenção, mas que nesse momento se manifestaram negras, hirsutas, gigantescas, sobre os olhos. [...] - Sua indagação, senhor juiz de instrução, se eu sou pintor de pincel gordo (embora em rigor e verdade não me perguntou nada, mas simplesmente o afirmou) é característica de todo esse inquérito que se efetua contra mim. Poderá você objetar-me que, em última instância, não se trata de nenhum inquérito e nisso tem muita razão porque será um inquérito tão somente no caso em que eu o reconheça como tal [...] Nos primeiros anos maldiz a gritos sua funesta sorte, quando se torna velho, limita-se a grunhir entre os dentes. E como nos longos anos que passou estudando o sentinela chega a conhecer também as pulgas de seu abrigo de pele, tornado outra vez à infância, roga até a essas pulgas para que o auxiliem a quebrar a resistência do guarda. Por fim vê que a luz que seus olhos percebem é mais fraca e não consegue distinguir se realmente se fez noite ao redor dele ou se simplesmente são os olhos que o enganam. Mas agora, em meio às trevas, percebe um raio de luz inextinguível através da porta. Resta-lhe pouca vida. Antes de morrer concentram-se em sua mente todas as lembranças e pensamentos daquele tempo em uma pergunta que até esse momento não tinha formulado para o sentinela. Como seu corpo já rígido não se pode mover, faz um sinal ao guarda para que se aproxime. [...]. Trecho extraído da obra O processo (Abril, 1979), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui e aqui.

CONDIÇÃO DE NUVEMDESTINO DO POETA – Palavras? Sim. De ar / e perdidas no ar. / Deixa que eu me perca entre palavras, / deixa que eu seja o ar entre esses seus lábios, / um sopro erramundo sem contornos, / breve aroma que no ar se desvanece. / Também a luz em si mesma se perde. ENTRESSONHO – Manhã. O relógio canta. / O mundo cala, vazio. / Sonâmbula te levantas / e olhas não sei que sombras / detrás de tua sombra: nada. / Arrastada pela noite. / igual à ramagem branca. ALBA DA VITÓRIA – Com seu vidro frio / rasga o céu a alba. / Amanhece o mundo / csem gota de sangue. Poemas do poeta, escritor e diplomata mexicano, Octavio Paz (1914-1998). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi. Veja mais aquiaqui.

AGENDA
I Seminário de Teatro e Literatura UFPE com o tema Poéticas modernas do século XX atribuídas às pragmáticas do contexto contemporâneo teatral, dias 17 e 18 de Outubro - Avenida Prof. Moraes Rego, 123 - Cidade Universitária, CAC - UFPE – Recife – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
Outras do Doutor Zé Gulu aqui e aqui.
&
A ressurreição do Casanova, Antonio Gramsci, Rubem Alves, Hilda Hilst, Gilvan Lemos, Biblioteca Fenelon Barreto, Atonmirio Barros & Juarez Carlos, Mauro Senise, Elena Bashkirova, Luiz Avellar & Célia Mara aqui.
Se o mundo acabar, já acaba tarde!, Baruch Espinoza, Mário Quintana, Charles Bukowski, Carlos Nejar, Otto Friedrich, Leo Gandelman, Midori Goto, Artur Gomes & Bee Scot aqui.


quinta-feira, agosto 24, 2017

MARINA COLASANTI, ILIBAGIZA, ROSE MURARO, BONOMI, MESTIÇAGEM & CAMPESINATO, MEIO AMBIENTE, MAMULENGO DE HERMILO, RADIO CULTURA & PALMARES DE LUCIANO FRANÇA

A VIAGEM DA VIDA (Imagem: arte da gravdora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi Pra quem vem ou vai, mesmo caminho, tantas apreensões. Tal impressão digital, a íris do olho, somos tão iguais como as águas na corrente, quão diferentes como os dias uns aos outros. Passo adiante, viagens que já fiz. Quantas e tantas felicidades sonhadas, almejadas, qual a minha, muitas. A paisagem é só minha, pros outros não é nada; se chove ou ensolarado, sigo o que sinto, sorrio mesmo que me virem as costas ou me ignorem, sem ao menos acenarem, sequer, com suas situações extremamente difíceis, por vezes delicadas ou terríveis. São meus, apesar deles. Os guardo no apreço, mesmo que assim não seja pra mim. Não me esquivo nem quero escapar dos obstáculos; vivo, superá-los, sim, pra que outros venham e eu vença a mim mesmo. Apesar dos pesares, tenho esperança e isso me faz viver e justifica a minha existência. Ainda hoje não me conformo com a miséria nem infortúnios, quero ser feliz, sei o que mereço e me permito ir embora para poder chegar. Se me aceitam, uivo entre lobos pela floresta de erros, pelos vales de lágrimas, tal como eu muitos, senão todos, voltaram de mãos vazias, mas não reclamo tanto esforço por experiências cruéis, nem das cicatrizes que emergiram das tribulações. Mesmo que pareça tudo em vão, mesmo que não tenha nenhum sentido ou me veja entre saberes perdidos, renasço na capacidade do maravilhamento e estarei lá como sempre estive e estou no ato da presença, aqui e agora, porque penso e sou; do contrário, só existiria. Sempre haverá imagens nos pensamentos, só escolho e me abandono ao árduo trabalho que me dá o prazer de criar. Quando muito retorno às origens, pra raiz, a semente que fui e tornar a sê-la pra me conciliar com tudo e todas as coisas. De bom grado lavo as mãos para me sentir purificado, bebo a água límpida da fonte e respiro profunda e intensamente em paz. A vida é uma longa viagem, voo pra Shamballa vibrar em uníssono com os harmônicos cantos cósmicos sintonizados na minha freqüência e a estação divina me faz sentir a atração do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

FALANDO SÉRIO COM MÁVIO AVES
Nesta terça, dia 29/08, a partir das 11hs, estarei Falando Sério com Mávio Alves, na Rádio Cultura dos Palmares, debatendo sobre o tema O Brasil pelo avesso na hora da crise!

SOBREVIVI PARA CONTAR - [...] Ouvi quando os assassinos chamaram meu nome. Estavam do outro lado da parede, menos de 2,5 centímetros de gesso e madeira nos separavam. Suas vozes eram frias, duras e decididas. - Ela está aqui... Sabemos que está aqui em algum lugar... Tratem de encontrá-la, encontrem Immaculée. Eram muitas as vozes, muitos os assassinos. Eu podia vê-los com os olhos da mente: meus antigos amigos e vizinhos, que sempre me haviam recebido com amor e bondade, andavam pela casa, munidos de lanças e facões, e chamavam meu nome. – Já matei 399 baratas – disse um deles. - Com Immaculée serão quatrocentas. Esse é um bom número para se matar. Encolhi-me, sem mexer um músculo sequer, em um canto de nosso minúsculo banheiro secreto. Assim como as outras sete mulheres que se escondiam comigo para proteger suas vidas, prendi a respiração para que os perseguidores não nos ouvissem. Suas vozes dilaceravam minha carne. Senti-me em fogo, como se estivesse deitada sobre um leito de carvões ardentes. Uma avassaladora onda de medo tomou conta de mim; milhares de agulhas invisíveis penetraram meu corpo. Eu nunca havia imaginado que o medo pudesse provocar tamanho sofrimento físico. Tentei engolir, mas minha garganta se fechou. Não havia saliva em minha boca, que parecia mais seca do que areia. Fechei os olhos, na tentativa de desaparecer, mas as vozes soavam cada vez mais alto. Eu sabia que eles não teriam piedade, e um único pensamento ecoava em minha mente: Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar. [...] Ela me levou até um galpão numa área restrita e abriu uma caixa de força de alta voltagem. - Há mais de 1.500 volts de eletricidade aqui – explicou. – Se os hútus extremistas invadirem a escola e não tivermos como escapar, podemos vir aqui, puxar essa alavanca e pôr as mãos lá dentro. Nós morreríamos imediatamente. É melhor ser eletrocutada do que torturada, estuprada e morta. Não vou permitir que selvagens se aproveitem do meu corpo antes de me matar. Não faça essa cara de surpresa... Já ouvi histórias demais de mulheres tútsis que foram estupradas e brutalizadas em tempo de guerra para não ter um plano de fuga. Concordei com a cabeça. Era estranho falar em acabar com nossas vidas aos 19 anos de idade apenas, mas essa parecia uma saída melhor do que a outra alternativa. Clementine e eu fizemos um pacto e juramos não dizer nada a ninguém, para que as autoridades escolares não ficassem sabendo e trancassem a caixa de força. Trecho da obra Sobrevivi para contar: o poder da fé me salvou de um massacre (Objetiva, 2008), da escritora e palestrante ruandesa Immaculée Ilibagiza, com o relato sobre o confinamento num banheiro minúsculo com mais sete mulheres famintas e aterrorizadas, sem condições mínimas de higiene, saúde e alimentação, lutando contra o desespero e ouvindo as vozes dos assassinos que queriam matá-la cruelmente durante o genocídio de Ruanda em 1994. Trata-se de depoimento de como ela conseguiu sobreviver emocionalmente ao massacre de sua família, cujos detalhes ela também revela em sua narrativa.

MESTIÇAGEM & CAMPESINATO - [...] Uma das interpretações – de que uma nociva mestiçagem retardava o progresso do povo brasileiro, uma vez que o mestiço era tido como racial e fisicamente desequilibrado, - não resistiu aos estudos efetuados dentro e fora do Brasil, pouco a pouco foi sendo destruída. Os crimes terríveis cometidos pelos nazistas, indivíduos de “raça pura”, muito contribuíram para pôr em cheque preconceitos raciais que se voltavam não apenas contra o mulato e o mestiço, mas também contra negros, contra judeus e contra outras minorias étnicas. Assim, a explicação de que o meio rural brasileiro era atrasado e conservava costumes arcaicos porque povoado de mestiços, inaptos a uma evolução socioeconômica, não encontrou mais base de sustentação em teorias científicas. [...] O reconhecimento, descrição e explicação dos vários processos que compõem a dinâmica da sociedade rural brasileira parecem destinados a conhecer uma expansão mais lenta do que os trabalhos efetuados do ponto de vista da organização e da estrutura. Trecho extraído da obra O campesinato brasileiro: ensaios sobre civilização e grupos rústicos no Brasil (Vozes, 1973), da premiada socióloga, professoras e escritora Maria Isaura Pereira de Queiroz. Veja mais aqui, aqui e aqui.

MEIO AMBIENTE – [...] O desconhecimento dos efeitos resultantes do uso intensivo do carvão deu origem às primeiras ocorrências de doenças profissionais e à contaminação das regiões onde predominavam as atividades de mineração. Acidificação dos solos, emissões de particulados, degradação das condições de vida nos núcleos populacionais próximos das minas e usinas foram os primeiros efeitos dessa industrialização nascente, desordenada, que envolvia riscos ainda desconhecidos par a saúde humana e o meio ambiente. O relacionamento entre causas e efeitos da poluição ambiental era então precário. Embora os acidentes de trabalho fossem, nessa fase inicial da industrialização, muito freqüentes, os acidentes ambientais, como hoje são conhecidos, não eram tão evidentes. [...] Os acidentes urbanos exercem grande impacto sobre a sociedade não somente devido a sua proximidade e ingerência sobre a vida de cada cidadão, como também pelo temor de que possam se repetir. Para que essas tensões remanscentes possam ser eliminadas ou, pelo menos, reduzidas com o passar do tempo, algumas providências de largo espectro devem ser tomadas pela comunidade, encabeçadas pela administração municipal e pelas instituições locais voltadas à proteção ambiental e à manutenção da qualidade de vida. Essas providências devem incorporar a conscientização da população para os riscos de acidentes, a busca de participação pública em programas de prontidão, a formação de fundos especiais para fazer frente a emergências, o desenvolvimento de recursos humanos treinados para participar de equipes de emergência e, muito importante, o fortalecimento das instituições ligadas ao bem público e ao atendimento emergencial de acidentes. [...]. Trechos extraídos da obra Meio ambiente: acidentes, lições, soluções (Senac, 2003), de Cyro Eyer do Valle e Henrique Lage. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MULHERES & SEXUALIDADE - A espécie humana levou dois bilhões de anos para atingir o primeiro bilhão de habitantes. Isto aconteceu por volta da metade do século XIX. Mas, de 1850 para 1980, este número se elevou para quatro bilhões. Portanto, em pouco mais de cem anos, a população do planeta quadriplicou. Esta curva exponencial do aumento de população deve-se ao avanço tecnológico, principalmente ao avanço da tecnologia médica, que baixou as taxas de mortalidade, sem ter tocado nas de natalidade. Este instantâneo apinhamento de seres humanos sobre a face da Terra está causando problemas da maior gravidade, seja para a sobrevivência da espécie, seja por motivos políticos, ideológicos e econômicos. O crescimento populacional aconteceu dentro de um sistema socioeconômico baseado na exploração de alguns seres humanos sobre outros: o capitalismo. É dentro deste conceito de exploração capitalista que o problema populacional torna-se, a nosso ver, o mais grave da época atual. [...] São os homens dominados também, quando dão aos atributos físicos da mulher maior valor erótico. Quanto mais excitante o físico, mais condições dá a sexualidade masculina, mais localizada no físico, de “funcionar” melhor. Em outras palavras, quanto maior o domínio do homem pelo homem, maior, também, o da mulher pelo homem. Mais impessoal, mais objetivada também a relação que vai do homem para a mulher, e maior ressentimento desta. Na Zona da Mata, por exemplo, em que a mulher já tem outro status, apesar da grande miséria, os homens falam mais em atributos pessoais (mesmo que sejam tradicionais) do que os operários e camponeses do Agreste, e as mulheres parecem ser mais donas de suas decisões. [...]. Ao invés de denegar o corpo que é hoje o apanágio da burguesia, é preciso tomar da burguesia o corpo e fazer dele um corpo de todos, um corpo liberto. Tomar o corpo como ele é, aqui e agora, com todos os seus desejos contraditórios, e começar a criar a partir do povo novos padrões de comportamento de corpo que nada tenham a ver com os da burguesia, e que lhes permita perceber que eles também são seres humanos inteiros e desmascarar, assim, todo o jogo da sociedade burguesa. Trechos extraídos da obra Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil (Vozes, 1983), da escritora e feminista Rose Marie Muraro (1930-2014). Veja mais aqui.

NO SILÊNCIO QUE O SOL QUEIMA - No meio do trigal, pernas abertas, abrigava pássaros. Era sempre assim. Com a chegada do verão sentia-se fértil, ensolarada de desejo, mãe da terra. E deitava-se entre as hastes rígidas, as espigas túrgidas, à espera. Logo, pardais vinham aninhar-se entre suas coxas, fazendo-a suspirar com a doce caricia das asas. Esmagava entre os lábios pétalas de papoulas, e gemia. Fremir de plumas, pequenos bicos, breves pios, delícias. E as línguas do sol sobre seus seios. Mas era só ao entardecer, quando o gavião em voo desenhava círculos de sombra sobre o ouro, lançando-se como pedra entre suas carnes para colher o mais tonto dos pardais, que as hastes estremeciam enfim, inclinando as espigas ao supremo grito. Conto extraído da obra Contos de amor rasgados (Rocco, 1986), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti. Veja mais aqui.

FISIONOMIA E ESPIRITO DO MAMULENGO - O boneco tem uma vida. É uma transferência na infância e uma fixação na idade madura. A boneca de pano pode ser tudo: desde a filha à mãe, desde a comadre à irmã, amiga ou inimiga. O boneco é um ser misterioso, feito, às vezes, à nossa imagem e semelhança, mas de qualquer modo um entre à parte em torno do qual podemos construir um mundo. É também um ser arbitrário e poético. Isto o simples boneco mudo, manejável de acordo com as nossas forças. O boneco visto no espetáculo transforma-se de ser passivo, dependente, obediente às nossas mãos, numa criatura de vida própria e atuante, porque, em nossa condição de espectadores, colocamo-nos em face do inesperado. Toda arte é uma surpresa. [...]. Trecho extraído da obra Fisionomia e espírito do mamulengo (Brasiliana, 1966), do escritor, dramaturgo e advogado Hermilo Borba Filho (1917-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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MINHA PALMARES
Nesta terra de cultura e de grandeza,
Onde o belo é sempre belo a cada dia,
Onde o sonho é mais que encanto e magia,
Onde a vila tem mais vigor e leveza,
Não me sinto só poeta, sou alterza,
Sou palmarense: alma,sangue e raça;
Aqui tudo é verso, é poesia,
Tem sempre um poeta em cada praça.
O açúcar dos teus verdoengos canaviais
Seduz muito mais que adocica.
Quem de outras plagas vem, aqui fica,
Quem bebe de tua água, quer mais,
Quem se vê desesperado encontra a paz
Ao banhar-se em teus rios Una e Pirangy;
Rejuvenesce quanto mais o tempo passa,
E apenas tu, Palmares, tens em cada praça
Um poeta declamando versos p’ra ti.
Serás sempre decantada em lindas canções
Porque deste à luz muitos bons cantores
E graça à pena dos teus escritores
Tua história marcará nossas recordações;
Teus pintores nos dão novas emoções
Com as belas paisagens do teu universo.
Aqui o bem prevalesce se o mal ameaça
É comum avistar-se em qualquer praça
Uma musa e um poeta rabiscando um verso.
Poema do poeta, advogado e serventuário de Justiça, Luciano França, extraído da antologia Poetas de Palmares (FCCHBFD, 2002), autor dos livros Retalhos poéticos (2006), Escritura pública: seu valor jurídico-social no cotidiano (2012), Renascendo em poesia (2014) e Academia Palmarense de Letras: a perseguição de um sonho (Bagaço, 2016). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...