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sexta-feira, março 23, 2018

MARINA COLASANTI, MARITAIN, JUDITH SCOTT, CICERO MELO, EDSON NATALE & SHARON BEZALY, AMOR & PAIXÕES

SOBRE MIM MESMO, ACHO - Imagem: arte da escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005). - Ao espelho, a estrada largestreita que sou de mim, palavras, pensamentos, ações. Nada. De mim mesmo sou, de um lado, o glamouroso mundo das vitrines com o estardalhaço dos quereres na sedução das sereias; de outro, a pútrida aquosidade da miséria que me disfarço em desespero e desolação. Sou assaltado de um lado a outro e a minha face, de um lado desfigurada pelos pesadelos que saem dos sonhos para vingarem nas ruas do invisível compulsório, arrancando máscaras e engodos para serem poeira e lamaçal; na outra, as marcas da grosseria que estarrece e assombra, como se vítima de bala perdida, ou metralhada na esquina do meio dia em nome da lei da covardia. Aos meus olhos, sou de um lado atento, atônito, tudo é efêmero nas luzes da festa; no outro, os desapontamentos ao flagrante das desproporções, do grotesco, das deformações que a lágrima lava ao sentimento de se perder. Às minhas narinas os aromas das flores e os olores higiênicos que não conseguem encobrir a repugnante catinga dos deserdados sobre frascos vazios de perfumes granfinos. Ao paladar os cardápios das mesas suntuosas com o feitiço dos seus condimentos que não conseguem disfarçar o gosto de sangue na saliva, os vômitos e os excrementos das avenidas, corredores, palácios. Os meus ombros, de um lado para todos os lamentos das cabeças que não tenham onde se escostar; o outro, o peso das dores de todos os arrasados à espera da tardia justiça dos humanos. Os meus braços, o dieito como uma mãe que segura o filho a oferecer abraço solidário a quem chegar; o esquerdo, tímido em empunhar a bandeira de quem perdeu a guerra e se esconde do momento indesejável. As minhas mãos, uma à oferta do que sou mendigando afeto como quem esmola pelo amor de deus; a outra decepada em nome da sanção do não ter. As minhas pernas, uma claudica como quem não tem para onde ir; a outra, vergada pela impenitência das torturas. Os pés andejos crucificados no centro das encruzilhadas, solados no chão quente. Sou o que me resta e meu corpo arrastado no asfalto sob a engrenagem do automóvel em alta velocidade que me nega o socorro e me larga roto desfalecido e a minha carne desfiada enovela-se em gente que me rejeita e decepa meus fios e me faz enredar nas pedras, restos, folhas, insetos, santinhos, grãos, lodo, orações, esterco, capsulanas, areia, ossos, filigranas, abotoaduras, lama, pus, anéis, farelos, tampas, fiapos, seixos, galhos, graxas, retalhos, larvas, detritos, charcos, escarros e cusparadas, condenados e cadáveres, o meu ininterrupto processo na infinita estranha beleza de ser-me apenas embrulho tão inútil quanto o cúmulo da inutilidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, compositor, escritor e jornalista Edson Natale: Dharana, Pequena canção para uma mulher nua & Viajante; da flautista israelente Sharon Bezaly: Hungarian Fantasy Doppler, Flute Sonata Schulhoff & Flute Sonata Prokofiev; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Numa colméia ou num formigueiro, cada regra é imposta pela natureza, é necessária; ao passo que na sociedade humana só uma coisa é natural: a necessidade de uma regra. [...] Pensamento extraído da Introdução geral à filosofia (Agir, 1970), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972). Veja mais aqui e aqui.

DE AMOR & PAIXÕES, SERÁ? - [...] Quando, por uma razão qualquer, a relação amorosa se desfaz, o que se desfaz de fato é só a relação amorosa e não as vidas e a integridade de cada um. E o que se tem observado é que, por mais denso que tenha sido o amor, quando ele se desfaz nas relações sadias (suplementares), surgem logo novos encontros, novos namoros e seduções; o amor pode se refazer. É outro, original, porém com intensidade e qualidade semelhante ao anterior [...]. Trecho extraído da obra Utopia e paixão (Rocco, 1988), de Roberto Freire e Fausto Brito. Veja mais aqui, aqui e aqui.

POR FALAR EM AMOR - [...] namoram muito e não namoram nada. Namoram muito porque têm sempre um namorado/a em campo, alguém em quem estão interessados, alguém que estão “azarando”. Mas ao mesmo tempo não namoram nada, porque essas relações são muito inconsistentes. O casal se junta e se separa com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento. Há desejo, epidérmico. Na verdade não são bem namoros, são casualidades. [...] Naquele tempo faltava uma coisa, hoje falta outra. Eu não podia me dar ao sexo. Eles não conseguem se dar o amor. [...] A tendência imediata é achar que não param em nenhum/a porque podem ter todos/as. Mas por outro lado, existe a facilidade maior de parar em um parceiro, agora que ele pode ser completo, reunindo sexo e sentimento. [...] Acontece também que são filhos diretos da baixa do amor, do descrédito da relação, e da ênfase nas emoções tonitruantes. Enquanto deixam o amor de lado, procuram terremotos emocionais no “som”, no “brilho”, nos riscos. Mas uma ideia me ocorre que me parece mais acertada. A de que os jovens estejam, de forma inconsciente, fugindo do amor justamente porque podem ter o sexo. Explico melhor: o amor é uma emoção importante, o sexo também; mas só o amor somado ao sexo constitui a emoção fundamental do ser humano. Ora, nem todos os jovens têm um mesmo grau de amadurecimento. E nem todos eles se sentem prontos para chegar ao topo do seu universo emocional. Antes todos podiam ter amor, e só os mais maduros – ou os mais inconscientes – se lançavam na completude amor/sexo. Agora acontece exatamente o oposto: tendo o sexo, evitam somá-lo ao amor, adiando a sobrecarga emocional que não se sentem capazes de enfrentar. [...] Trechos extraídos da obra E por falar em amor (Salamandra, 1984), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti. Veja mais aqui.

DOIS POEMASRETORNANDO A ÍTACA - A nave singra os sonhos nus do mármore, / Cruzando a solidão e sempre célere. / Carrega cuidadosa o nauta célebre,/ E aquele transformado em pétrea árvore. / Um lutou, desdobrou a rota bárbara / Dos dias que da vida exigem têmpera; / O outro, tecendo de ondas sua têmpora, / Transmudou-se de mundos, sempre máscara. / O primeiro se fez, de acasos, íntegro; / O segundo buscou, em rumos trôpegos, / Desvendar o inefável do seu íntimo. / Mas, ambos se perderam: mar adúltero./ Hoje, mudo, acompanho, olhos sôfregos, / Ulisses retornando ao mátrio útero. PENÉLOPE - Retornando do mar que me emoldura, / Ancoro em teus segredos, cidadelas. / De desvelos me nutres, me aquartelas / Desnudado do nauta e de procura. / Eternamente desejada e pura, / Em ti repouso rotas, amaino velas. / Dos perigos dos mares me encastelas / Em tuas celas de amor e de ternura. / Maravilhas que, meiga, me compensas / Depois de navegar, aventureiro, / Ocasos aleatórios, vagas densas, / Retorno sempre ao cais do amor primeiro, / Para recomeçar, feridas pensas, / Outras navegações, sempre janeiro. Poemas extraídos da obra O verbo sitiado (Bagaço, 1986), poeta, ensaísta e crítico alagoano Cicero Melo, selecionados pelo poeta e jornalista Iremar Marinho. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ARTE DE JUDITH SCOTT
A arte da renomada escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005), documentada no curta-metragem Outsider: The Art and Life of Judith Scott (2006), dirigido por Betsy Bayha.
2º Congresso Internacional Paulo Freire: O Legado Global & muito mais na Agenda aqui.
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O certo & o errado no reino das ideologias, a poesia de Hélio Pellegrino, a música de Nobuo Uematsu, a arte de Mat Collishaw & Raoul Dufy, Danicleci Matias Souza & Park kids Locadora aqui.
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Versos à flor da pele na prosa de um poema, o cinema de Jean-Luc Godard, a música de Sharon Corr, a escultura de Bertel Thorvaldsen, a poesia de Elke Lubitz & a arte de Luciah Lopez aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, agosto 24, 2017

MARINA COLASANTI, ILIBAGIZA, ROSE MURARO, BONOMI, MESTIÇAGEM & CAMPESINATO, MEIO AMBIENTE, MAMULENGO DE HERMILO, RADIO CULTURA & PALMARES DE LUCIANO FRANÇA

A VIAGEM DA VIDA (Imagem: arte da gravdora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi Pra quem vem ou vai, mesmo caminho, tantas apreensões. Tal impressão digital, a íris do olho, somos tão iguais como as águas na corrente, quão diferentes como os dias uns aos outros. Passo adiante, viagens que já fiz. Quantas e tantas felicidades sonhadas, almejadas, qual a minha, muitas. A paisagem é só minha, pros outros não é nada; se chove ou ensolarado, sigo o que sinto, sorrio mesmo que me virem as costas ou me ignorem, sem ao menos acenarem, sequer, com suas situações extremamente difíceis, por vezes delicadas ou terríveis. São meus, apesar deles. Os guardo no apreço, mesmo que assim não seja pra mim. Não me esquivo nem quero escapar dos obstáculos; vivo, superá-los, sim, pra que outros venham e eu vença a mim mesmo. Apesar dos pesares, tenho esperança e isso me faz viver e justifica a minha existência. Ainda hoje não me conformo com a miséria nem infortúnios, quero ser feliz, sei o que mereço e me permito ir embora para poder chegar. Se me aceitam, uivo entre lobos pela floresta de erros, pelos vales de lágrimas, tal como eu muitos, senão todos, voltaram de mãos vazias, mas não reclamo tanto esforço por experiências cruéis, nem das cicatrizes que emergiram das tribulações. Mesmo que pareça tudo em vão, mesmo que não tenha nenhum sentido ou me veja entre saberes perdidos, renasço na capacidade do maravilhamento e estarei lá como sempre estive e estou no ato da presença, aqui e agora, porque penso e sou; do contrário, só existiria. Sempre haverá imagens nos pensamentos, só escolho e me abandono ao árduo trabalho que me dá o prazer de criar. Quando muito retorno às origens, pra raiz, a semente que fui e tornar a sê-la pra me conciliar com tudo e todas as coisas. De bom grado lavo as mãos para me sentir purificado, bebo a água límpida da fonte e respiro profunda e intensamente em paz. A vida é uma longa viagem, voo pra Shamballa vibrar em uníssono com os harmônicos cantos cósmicos sintonizados na minha freqüência e a estação divina me faz sentir a atração do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

FALANDO SÉRIO COM MÁVIO AVES
Nesta terça, dia 29/08, a partir das 11hs, estarei Falando Sério com Mávio Alves, na Rádio Cultura dos Palmares, debatendo sobre o tema O Brasil pelo avesso na hora da crise!

SOBREVIVI PARA CONTAR - [...] Ouvi quando os assassinos chamaram meu nome. Estavam do outro lado da parede, menos de 2,5 centímetros de gesso e madeira nos separavam. Suas vozes eram frias, duras e decididas. - Ela está aqui... Sabemos que está aqui em algum lugar... Tratem de encontrá-la, encontrem Immaculée. Eram muitas as vozes, muitos os assassinos. Eu podia vê-los com os olhos da mente: meus antigos amigos e vizinhos, que sempre me haviam recebido com amor e bondade, andavam pela casa, munidos de lanças e facões, e chamavam meu nome. – Já matei 399 baratas – disse um deles. - Com Immaculée serão quatrocentas. Esse é um bom número para se matar. Encolhi-me, sem mexer um músculo sequer, em um canto de nosso minúsculo banheiro secreto. Assim como as outras sete mulheres que se escondiam comigo para proteger suas vidas, prendi a respiração para que os perseguidores não nos ouvissem. Suas vozes dilaceravam minha carne. Senti-me em fogo, como se estivesse deitada sobre um leito de carvões ardentes. Uma avassaladora onda de medo tomou conta de mim; milhares de agulhas invisíveis penetraram meu corpo. Eu nunca havia imaginado que o medo pudesse provocar tamanho sofrimento físico. Tentei engolir, mas minha garganta se fechou. Não havia saliva em minha boca, que parecia mais seca do que areia. Fechei os olhos, na tentativa de desaparecer, mas as vozes soavam cada vez mais alto. Eu sabia que eles não teriam piedade, e um único pensamento ecoava em minha mente: Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar. [...] Ela me levou até um galpão numa área restrita e abriu uma caixa de força de alta voltagem. - Há mais de 1.500 volts de eletricidade aqui – explicou. – Se os hútus extremistas invadirem a escola e não tivermos como escapar, podemos vir aqui, puxar essa alavanca e pôr as mãos lá dentro. Nós morreríamos imediatamente. É melhor ser eletrocutada do que torturada, estuprada e morta. Não vou permitir que selvagens se aproveitem do meu corpo antes de me matar. Não faça essa cara de surpresa... Já ouvi histórias demais de mulheres tútsis que foram estupradas e brutalizadas em tempo de guerra para não ter um plano de fuga. Concordei com a cabeça. Era estranho falar em acabar com nossas vidas aos 19 anos de idade apenas, mas essa parecia uma saída melhor do que a outra alternativa. Clementine e eu fizemos um pacto e juramos não dizer nada a ninguém, para que as autoridades escolares não ficassem sabendo e trancassem a caixa de força. Trecho da obra Sobrevivi para contar: o poder da fé me salvou de um massacre (Objetiva, 2008), da escritora e palestrante ruandesa Immaculée Ilibagiza, com o relato sobre o confinamento num banheiro minúsculo com mais sete mulheres famintas e aterrorizadas, sem condições mínimas de higiene, saúde e alimentação, lutando contra o desespero e ouvindo as vozes dos assassinos que queriam matá-la cruelmente durante o genocídio de Ruanda em 1994. Trata-se de depoimento de como ela conseguiu sobreviver emocionalmente ao massacre de sua família, cujos detalhes ela também revela em sua narrativa.

MESTIÇAGEM & CAMPESINATO - [...] Uma das interpretações – de que uma nociva mestiçagem retardava o progresso do povo brasileiro, uma vez que o mestiço era tido como racial e fisicamente desequilibrado, - não resistiu aos estudos efetuados dentro e fora do Brasil, pouco a pouco foi sendo destruída. Os crimes terríveis cometidos pelos nazistas, indivíduos de “raça pura”, muito contribuíram para pôr em cheque preconceitos raciais que se voltavam não apenas contra o mulato e o mestiço, mas também contra negros, contra judeus e contra outras minorias étnicas. Assim, a explicação de que o meio rural brasileiro era atrasado e conservava costumes arcaicos porque povoado de mestiços, inaptos a uma evolução socioeconômica, não encontrou mais base de sustentação em teorias científicas. [...] O reconhecimento, descrição e explicação dos vários processos que compõem a dinâmica da sociedade rural brasileira parecem destinados a conhecer uma expansão mais lenta do que os trabalhos efetuados do ponto de vista da organização e da estrutura. Trecho extraído da obra O campesinato brasileiro: ensaios sobre civilização e grupos rústicos no Brasil (Vozes, 1973), da premiada socióloga, professoras e escritora Maria Isaura Pereira de Queiroz. Veja mais aqui, aqui e aqui.

MEIO AMBIENTE – [...] O desconhecimento dos efeitos resultantes do uso intensivo do carvão deu origem às primeiras ocorrências de doenças profissionais e à contaminação das regiões onde predominavam as atividades de mineração. Acidificação dos solos, emissões de particulados, degradação das condições de vida nos núcleos populacionais próximos das minas e usinas foram os primeiros efeitos dessa industrialização nascente, desordenada, que envolvia riscos ainda desconhecidos par a saúde humana e o meio ambiente. O relacionamento entre causas e efeitos da poluição ambiental era então precário. Embora os acidentes de trabalho fossem, nessa fase inicial da industrialização, muito freqüentes, os acidentes ambientais, como hoje são conhecidos, não eram tão evidentes. [...] Os acidentes urbanos exercem grande impacto sobre a sociedade não somente devido a sua proximidade e ingerência sobre a vida de cada cidadão, como também pelo temor de que possam se repetir. Para que essas tensões remanscentes possam ser eliminadas ou, pelo menos, reduzidas com o passar do tempo, algumas providências de largo espectro devem ser tomadas pela comunidade, encabeçadas pela administração municipal e pelas instituições locais voltadas à proteção ambiental e à manutenção da qualidade de vida. Essas providências devem incorporar a conscientização da população para os riscos de acidentes, a busca de participação pública em programas de prontidão, a formação de fundos especiais para fazer frente a emergências, o desenvolvimento de recursos humanos treinados para participar de equipes de emergência e, muito importante, o fortalecimento das instituições ligadas ao bem público e ao atendimento emergencial de acidentes. [...]. Trechos extraídos da obra Meio ambiente: acidentes, lições, soluções (Senac, 2003), de Cyro Eyer do Valle e Henrique Lage. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MULHERES & SEXUALIDADE - A espécie humana levou dois bilhões de anos para atingir o primeiro bilhão de habitantes. Isto aconteceu por volta da metade do século XIX. Mas, de 1850 para 1980, este número se elevou para quatro bilhões. Portanto, em pouco mais de cem anos, a população do planeta quadriplicou. Esta curva exponencial do aumento de população deve-se ao avanço tecnológico, principalmente ao avanço da tecnologia médica, que baixou as taxas de mortalidade, sem ter tocado nas de natalidade. Este instantâneo apinhamento de seres humanos sobre a face da Terra está causando problemas da maior gravidade, seja para a sobrevivência da espécie, seja por motivos políticos, ideológicos e econômicos. O crescimento populacional aconteceu dentro de um sistema socioeconômico baseado na exploração de alguns seres humanos sobre outros: o capitalismo. É dentro deste conceito de exploração capitalista que o problema populacional torna-se, a nosso ver, o mais grave da época atual. [...] São os homens dominados também, quando dão aos atributos físicos da mulher maior valor erótico. Quanto mais excitante o físico, mais condições dá a sexualidade masculina, mais localizada no físico, de “funcionar” melhor. Em outras palavras, quanto maior o domínio do homem pelo homem, maior, também, o da mulher pelo homem. Mais impessoal, mais objetivada também a relação que vai do homem para a mulher, e maior ressentimento desta. Na Zona da Mata, por exemplo, em que a mulher já tem outro status, apesar da grande miséria, os homens falam mais em atributos pessoais (mesmo que sejam tradicionais) do que os operários e camponeses do Agreste, e as mulheres parecem ser mais donas de suas decisões. [...]. Ao invés de denegar o corpo que é hoje o apanágio da burguesia, é preciso tomar da burguesia o corpo e fazer dele um corpo de todos, um corpo liberto. Tomar o corpo como ele é, aqui e agora, com todos os seus desejos contraditórios, e começar a criar a partir do povo novos padrões de comportamento de corpo que nada tenham a ver com os da burguesia, e que lhes permita perceber que eles também são seres humanos inteiros e desmascarar, assim, todo o jogo da sociedade burguesa. Trechos extraídos da obra Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil (Vozes, 1983), da escritora e feminista Rose Marie Muraro (1930-2014). Veja mais aqui.

NO SILÊNCIO QUE O SOL QUEIMA - No meio do trigal, pernas abertas, abrigava pássaros. Era sempre assim. Com a chegada do verão sentia-se fértil, ensolarada de desejo, mãe da terra. E deitava-se entre as hastes rígidas, as espigas túrgidas, à espera. Logo, pardais vinham aninhar-se entre suas coxas, fazendo-a suspirar com a doce caricia das asas. Esmagava entre os lábios pétalas de papoulas, e gemia. Fremir de plumas, pequenos bicos, breves pios, delícias. E as línguas do sol sobre seus seios. Mas era só ao entardecer, quando o gavião em voo desenhava círculos de sombra sobre o ouro, lançando-se como pedra entre suas carnes para colher o mais tonto dos pardais, que as hastes estremeciam enfim, inclinando as espigas ao supremo grito. Conto extraído da obra Contos de amor rasgados (Rocco, 1986), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti. Veja mais aqui.

FISIONOMIA E ESPIRITO DO MAMULENGO - O boneco tem uma vida. É uma transferência na infância e uma fixação na idade madura. A boneca de pano pode ser tudo: desde a filha à mãe, desde a comadre à irmã, amiga ou inimiga. O boneco é um ser misterioso, feito, às vezes, à nossa imagem e semelhança, mas de qualquer modo um entre à parte em torno do qual podemos construir um mundo. É também um ser arbitrário e poético. Isto o simples boneco mudo, manejável de acordo com as nossas forças. O boneco visto no espetáculo transforma-se de ser passivo, dependente, obediente às nossas mãos, numa criatura de vida própria e atuante, porque, em nossa condição de espectadores, colocamo-nos em face do inesperado. Toda arte é uma surpresa. [...]. Trecho extraído da obra Fisionomia e espírito do mamulengo (Brasiliana, 1966), do escritor, dramaturgo e advogado Hermilo Borba Filho (1917-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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MINHA PALMARES
Nesta terra de cultura e de grandeza,
Onde o belo é sempre belo a cada dia,
Onde o sonho é mais que encanto e magia,
Onde a vila tem mais vigor e leveza,
Não me sinto só poeta, sou alterza,
Sou palmarense: alma,sangue e raça;
Aqui tudo é verso, é poesia,
Tem sempre um poeta em cada praça.
O açúcar dos teus verdoengos canaviais
Seduz muito mais que adocica.
Quem de outras plagas vem, aqui fica,
Quem bebe de tua água, quer mais,
Quem se vê desesperado encontra a paz
Ao banhar-se em teus rios Una e Pirangy;
Rejuvenesce quanto mais o tempo passa,
E apenas tu, Palmares, tens em cada praça
Um poeta declamando versos p’ra ti.
Serás sempre decantada em lindas canções
Porque deste à luz muitos bons cantores
E graça à pena dos teus escritores
Tua história marcará nossas recordações;
Teus pintores nos dão novas emoções
Com as belas paisagens do teu universo.
Aqui o bem prevalesce se o mal ameaça
É comum avistar-se em qualquer praça
Uma musa e um poeta rabiscando um verso.
Poema do poeta, advogado e serventuário de Justiça, Luciano França, extraído da antologia Poetas de Palmares (FCCHBFD, 2002), autor dos livros Retalhos poéticos (2006), Escritura pública: seu valor jurídico-social no cotidiano (2012), Renascendo em poesia (2014) e Academia Palmarense de Letras: a perseguição de um sonho (Bagaço, 2016). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, outubro 29, 2015

JOSEFINA, ADALGISA, CARDINALE, LILIANA, MARINA, MONIQUE, NIKI, PATRIZIA, MARIA & HOLÍSTICA!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? RENOVAÇÃO - Aos vinte e nove dias do mês de outubro do ano de dois mil e quinze, hoje mais que nunca reitero o que dissera desde março de sempre na infância de todos os amanheceres, no adolescer adulto e na noite de novos alvoreceres da criança aos seios da mãe crepuscular por todas as matas do engenho de açúcar, arrodeando o Una que me batizou para que eu fosse mais que um rio a singrar a vida. Reitero mais que a crônica do coração materno que é dela e que reconhece todos os nomes e até as inomináveis que varam agrestes, sertões e litorais e que vão além do planalto central para fincarem a sua alma atlântica no mais ignoto território do Pacífico. Reitero mais que a festa de todas as deusas de todos os panteons do universo pra todas as musas nuas e ciborgs que vigiam o futuro porque não têm nada mais que o agora. Reitero mais que a realeza de todas as rainhas sobre todas as abelhas que lhe são súditas no reinado de todos os voos que levam além de mim para o que sou de mais eterno. Reitero mais que os poemas que viraram canções e dos cantaraus que são não mais que gratidão no dia quente e na tarde de sol e que são mais que apologias de sangue e sentimento das mãos à alma e que eternizam no vento o que dela emana pra ser mais real. E assino embaixo com meu sangue como se fosse a seiva da flor mais que desabrochada. E veja mais aqui e aqui

 Imagens a multiarte da pintora, escultura e cineasta francesa Niki de Saint Phalle (1930-2002).


Curtindo o álbum Funambola (Ponderosa Music&Art, 2007), da cantora e compositora italizana Patrizia Laquidara.

UMA NOVA CONSCIÊNCIA PARA A HUMANIDADE – No livro Visão holística em psicologia e educação (Summus,1991), organizado por Dênis M. S. Brandão e Roberto Crema, destaco o texto A visão holística: uma nova consciência para a humanidade, da doutora em Psicologia, com formação em Gestalt-Terapia e Transpessoal, autora do método A mutação Holística, Monique Thoenig: [...] Vivemos em um mundo atomizado em todos os níveis. Constata-se uma atomização do individuo, uma atomização da humanidade e do mundo. Beiramos o ponto de não retorno. No entanto, em meio a isto, espíritos se levantam em todo o mundo, a boa vontade entra em ação. Corações se surpreendem. Este novo olhar está no centro de nós mesmos e aí podemos encontra-lo. É do coração que ele irradia. A Paz começa em cada um de nós. E é ai que se deve fazê-la germinar. O amor é a necessidade fundamental de todo ser. Nosso planeta, a Terra, é um ser vivo; é como um coração que bate no universo – o drama fundamental da humanidade é que nem todos os corações batem em uníssono. [...] A experiência última permanece com o Vazio misterioso e primordial, que contém toda a existência em germe e potencialidade. Aí já não encontramos a dualidade entre a fonte e o rio, entre o raio e o sol.  No abandono a uma força onipresente, o sim inclui o não, já não mais opostos. O Ser renasce no espelho da morte. E eu finalizaria com esta frase de Krishnamurti: “Então, só ao que se pode chamar de Deus é possível existir”.  Veja mais aqui aqui e aqui.

A MOÇA TECELÃ – No livro Doze reis e a moça no labirinto do vento (Nórdica, 1985), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti, destaco o conto A Moça Tecelã: Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado. Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida. Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar. - Uma casa melhor é necessária, - disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer. Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata. Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre. - É para que ninguém saiba do tapete, - disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: -Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo. Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear. Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte. Veja mais aqui.

A UM HOMEM & OUTROS POEMAS – No livro Mundos Oscilantes: Poesias Completas (José Olympio, 1962), da poeta e jornalista Adalgisa Nery (1905-1980), destaco inicialmente o poema A um homem: Quando numa rocha porosa / Cansado te encostares / E dela vires surgir a umidade e depois a gota, / Pensa, amado meu, com carinho, / Que aí esta a minha boca. / Se teus olhos ficarem nas praias / E vires o mar ensalivando a areia / Com alegria pensa amado meu / Num corpo feliz / Porque é só teu. / Se descansares sob uma arvore frondosa / E além da sombra ela te envolver de ar resinoso / Lembra-te com entorpecência amado meu, / Da delicia do meu ventre amoroso. / Quando olhares o céu / E vires a andorinha tonta na amplidão / Pensa amado meu que assim sou eu / Perdida na infindável solidão. / A noite quando as trevas chegarem / E vires do firmamento. Também, Poema da amante: Eu te amo / Antes e depois de todos os acontecimentos / Na profunda imensidade do vazio / E a cada lágrima dos meus pensamentos. / Eu te amo / Em todos os ventos que cantam, / Em todas as sombras que choram, / Na extensão infinita do tempo / Até a região onde os silêncios moram. / Eu te amo / Em todas as transformações da vida, / Em todos os caminhos do medo, / Na angústia da vontade perdida / E na dor que se veste em segredo. / Eu te amo / Em tudo que estás presente, / No olhar dos astros que te alcançam / Em tudo que ainda estás ausente. / Eu te amo / Desde a criação das águas, / desde a idéia do fogo / E antes do primeiro riso e da primeira mágoa. / Eu te amo perdidamente / Desde a grande nebulosa / Até depois que o universo cair sobre mim / Suavemente.  E por fim, o poema Repouso: Dá-me tua mão / E eu te levarei aos campos musicados pela / canção das colheitas / Cheguemos antes que os pássaros nos disputem / os frutos, / Antes que os insetos se alimentem das folhas / entreabertas. / Dá-me tua mão / E eu te levarei a gozar a alegria do solo / agradecido, / Te darei por leito a terra amiga / E repousarei tua cabeça envelhecida / Na relva silenciosa dos campos. Nada te perguntarei, / Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes / E as palavras do meu olhar sobre tua face muito / amada. Veja mais aqui.

O VOTO FEMININO – A comédia em um ato O voto feminino (1878), da jornalista e feminista Josefina Álvares de Azevedo (1851-?), oriunda do trabalho desenvolvino no jornal A Família que se tornou um veículo de propaganda do direito ao voto feminino e ela publicou uma série de artigos, nos quais afirmava que, sem o exercício desse direito pelas mulheres, a igualdade prometida pelo novo regime não passaria de uma utopia. Inspirada no parecer do ministro do interior, Césario Alvim, em abril de 1890, negando o alistamento eleitoral de Isabel Matos, ela escreveu a peça teatral que foi encenada durante os trabalhos constituintes de 1890-91, no Recreio Dramático, um dos teatros mais populares no Rio de Janeiro daquela época. A peça apropriou-se, numa linguagem cênica, do parecer negativo do ministro e também do artigo de um congressista favorável ao voto feminino para criticar duramente o ridículo da resistência masculina em aceitar a participação das mulheres na vida política. A obra foi publicada em livro e também como folhetim nas páginas do jornal de Josefina, de agosto a novembro de 1890. Voltou a ser reeditada na sua coletânea A mulher moderna: trabalhos de propaganda (1891). Da peça destaco as cenas 4 e 5 recolhidas do estudo Josefina Alvares de Azevedo: teatro e propaganda sufragista no Brasil do século XIX, da pesquisadora e doutora em Letras, Valeria Andrade Souto Maior: [...] CEnA 4a. Inês e Esmeralda ESMERALDA (entra lendo um jornal) – Que quereis fazer de uma mulher como vós inteligente, como vós ativa, como vós ilustrada, como vós amante da pátria, e que lhe quer, pode e deve prestar todos os serviços?! INÊS (que tem estado a prestar muita atenção) – Sim, sim, o que querem os homens fazer de uma mulher assim? ESMERALDA – Oh! Minha mãe, que belo artigo o do Dr. Florêncio, publicado no Correio do Povo de ontem. INÊS – É um grande talento!ESMERALDA – Tem feito do voto feminino uma campanha célebre. INÊS – E há de vencer. ESMERALDA – Se vencerá! INÊS – Em passando a lei, já se sabe, hás de te apresentar para deputada. ESMERALDA – Eu, minha mãe? INÊS – Sem dúvida. Pois não estás habilitada para isso? ESMERALDA – Sim, estou habilitada. Mas meu marido? INÊS – Ora, o teu marido! Que se empregue em outra coisa. ESMERALDA – É bom de dizer, a senhora sabe, que ele tem sido sempre deputado... E não há melhor emprego do que esse. INÊS – De ora em diante serás tu. Se lhe hás de estar todas as noites a ensinar o que ele há de dizer, vai tu mesma dizer o que sabes. ESMERALDA – Pobre Rafael! Ele que deseja tanto subir!... INÊS – Sobe tu. Faz-te deputada, (aparece ao fundo a criada) depois senadora, depois ministra, e talvez que ainda possas chegar a ser presidente da república...CEnA 5a. Inês, Esmeralda e Joaquina JOAQUINA (entrando) – Quem? O senhor Rafael? INÊS – Não tola; a Esmeralda. JOAQUINA (admirada) – Uê! ESMERALDA – Ora, mamãe, isso não se faz assim. INÊS – Como não; faz-se sim, senhora. E eu hei de ser tua secretária. JOAQUINA (contente) – Que belo! Nesse tempo eu ficarei sendo sua criada grave. INÊS – É verdade, poderás proteger essa rapariga arranjando-lhe algum emprego razoável. JOAQUINA – Olhe, minha ama, sabe o que eu queria ser? ESMERALDA – Diz lá. JOAQUINA – Aquele homem que anda num carro fechado e com dois soldados a cavalo... ESMERALDA – Oh! Mulher! Querias logo ser ministra? INÊS – Isso é impossível, Joaquina. JOAQUINA – Eu sei lá! Queria ser uma coisa que pudesse mandar os soldados. ESMERALDA – Mandar soldados, para quê? JOAQUINA – Para nada, não senhora. (aparte) Para mandar prender aquele ingrato do seu Antonico que não se quer casar comigo. (sai) INÊS (que tem estado a conversar com Esmeralda, durante o aparte de Joaquina) – No dia em que for decretado o nosso direito de voto... [...] Veja mais aqui.


LA PELLE – O filme La pelle (1981), dirigido pela cineasta e roteirista italiana Liliana Cavani – que ficou reconhecida por seu filme Il portiere di notte (O porteiro da noite, 1974), tem seu roteiro baseado no romance homônimo do escritor, jornalista, dramaturgo e cineasta italiano Curzio Malaparte (1898-1957), com musica de Lalo Schifrin. Este belíssimo filme tem por destaque a sempre aplaudidíssima e cultuada, bela e encantadora atriz italiana nascida na Tunísica, Claudia Cardinale, estrela dos filmes de Luchino Visconti, Federico Fellini e Sergio Leone, atuando nas últimas décadas como uma libertária de esquerda na defesa das mulheres e dos homossexuais, bem como em causas humanitárias na valorização de sua herança árabe. Ela escreveu sua autobiografia intitulada Moi Claudia, Toi Claudia. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia de homenagear a escultora, desenhista, gravurista, pintora, escritora e musicista Maria Martins (1894-1973).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...