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sexta-feira, março 23, 2018

MARINA COLASANTI, MARITAIN, JUDITH SCOTT, CICERO MELO, EDSON NATALE & SHARON BEZALY, AMOR & PAIXÕES

SOBRE MIM MESMO, ACHO - Imagem: arte da escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005). - Ao espelho, a estrada largestreita que sou de mim, palavras, pensamentos, ações. Nada. De mim mesmo sou, de um lado, o glamouroso mundo das vitrines com o estardalhaço dos quereres na sedução das sereias; de outro, a pútrida aquosidade da miséria que me disfarço em desespero e desolação. Sou assaltado de um lado a outro e a minha face, de um lado desfigurada pelos pesadelos que saem dos sonhos para vingarem nas ruas do invisível compulsório, arrancando máscaras e engodos para serem poeira e lamaçal; na outra, as marcas da grosseria que estarrece e assombra, como se vítima de bala perdida, ou metralhada na esquina do meio dia em nome da lei da covardia. Aos meus olhos, sou de um lado atento, atônito, tudo é efêmero nas luzes da festa; no outro, os desapontamentos ao flagrante das desproporções, do grotesco, das deformações que a lágrima lava ao sentimento de se perder. Às minhas narinas os aromas das flores e os olores higiênicos que não conseguem encobrir a repugnante catinga dos deserdados sobre frascos vazios de perfumes granfinos. Ao paladar os cardápios das mesas suntuosas com o feitiço dos seus condimentos que não conseguem disfarçar o gosto de sangue na saliva, os vômitos e os excrementos das avenidas, corredores, palácios. Os meus ombros, de um lado para todos os lamentos das cabeças que não tenham onde se escostar; o outro, o peso das dores de todos os arrasados à espera da tardia justiça dos humanos. Os meus braços, o dieito como uma mãe que segura o filho a oferecer abraço solidário a quem chegar; o esquerdo, tímido em empunhar a bandeira de quem perdeu a guerra e se esconde do momento indesejável. As minhas mãos, uma à oferta do que sou mendigando afeto como quem esmola pelo amor de deus; a outra decepada em nome da sanção do não ter. As minhas pernas, uma claudica como quem não tem para onde ir; a outra, vergada pela impenitência das torturas. Os pés andejos crucificados no centro das encruzilhadas, solados no chão quente. Sou o que me resta e meu corpo arrastado no asfalto sob a engrenagem do automóvel em alta velocidade que me nega o socorro e me larga roto desfalecido e a minha carne desfiada enovela-se em gente que me rejeita e decepa meus fios e me faz enredar nas pedras, restos, folhas, insetos, santinhos, grãos, lodo, orações, esterco, capsulanas, areia, ossos, filigranas, abotoaduras, lama, pus, anéis, farelos, tampas, fiapos, seixos, galhos, graxas, retalhos, larvas, detritos, charcos, escarros e cusparadas, condenados e cadáveres, o meu ininterrupto processo na infinita estranha beleza de ser-me apenas embrulho tão inútil quanto o cúmulo da inutilidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, compositor, escritor e jornalista Edson Natale: Dharana, Pequena canção para uma mulher nua & Viajante; da flautista israelente Sharon Bezaly: Hungarian Fantasy Doppler, Flute Sonata Schulhoff & Flute Sonata Prokofiev; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Numa colméia ou num formigueiro, cada regra é imposta pela natureza, é necessária; ao passo que na sociedade humana só uma coisa é natural: a necessidade de uma regra. [...] Pensamento extraído da Introdução geral à filosofia (Agir, 1970), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972). Veja mais aqui e aqui.

DE AMOR & PAIXÕES, SERÁ? - [...] Quando, por uma razão qualquer, a relação amorosa se desfaz, o que se desfaz de fato é só a relação amorosa e não as vidas e a integridade de cada um. E o que se tem observado é que, por mais denso que tenha sido o amor, quando ele se desfaz nas relações sadias (suplementares), surgem logo novos encontros, novos namoros e seduções; o amor pode se refazer. É outro, original, porém com intensidade e qualidade semelhante ao anterior [...]. Trecho extraído da obra Utopia e paixão (Rocco, 1988), de Roberto Freire e Fausto Brito. Veja mais aqui, aqui e aqui.

POR FALAR EM AMOR - [...] namoram muito e não namoram nada. Namoram muito porque têm sempre um namorado/a em campo, alguém em quem estão interessados, alguém que estão “azarando”. Mas ao mesmo tempo não namoram nada, porque essas relações são muito inconsistentes. O casal se junta e se separa com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento. Há desejo, epidérmico. Na verdade não são bem namoros, são casualidades. [...] Naquele tempo faltava uma coisa, hoje falta outra. Eu não podia me dar ao sexo. Eles não conseguem se dar o amor. [...] A tendência imediata é achar que não param em nenhum/a porque podem ter todos/as. Mas por outro lado, existe a facilidade maior de parar em um parceiro, agora que ele pode ser completo, reunindo sexo e sentimento. [...] Acontece também que são filhos diretos da baixa do amor, do descrédito da relação, e da ênfase nas emoções tonitruantes. Enquanto deixam o amor de lado, procuram terremotos emocionais no “som”, no “brilho”, nos riscos. Mas uma ideia me ocorre que me parece mais acertada. A de que os jovens estejam, de forma inconsciente, fugindo do amor justamente porque podem ter o sexo. Explico melhor: o amor é uma emoção importante, o sexo também; mas só o amor somado ao sexo constitui a emoção fundamental do ser humano. Ora, nem todos os jovens têm um mesmo grau de amadurecimento. E nem todos eles se sentem prontos para chegar ao topo do seu universo emocional. Antes todos podiam ter amor, e só os mais maduros – ou os mais inconscientes – se lançavam na completude amor/sexo. Agora acontece exatamente o oposto: tendo o sexo, evitam somá-lo ao amor, adiando a sobrecarga emocional que não se sentem capazes de enfrentar. [...] Trechos extraídos da obra E por falar em amor (Salamandra, 1984), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti. Veja mais aqui.

DOIS POEMASRETORNANDO A ÍTACA - A nave singra os sonhos nus do mármore, / Cruzando a solidão e sempre célere. / Carrega cuidadosa o nauta célebre,/ E aquele transformado em pétrea árvore. / Um lutou, desdobrou a rota bárbara / Dos dias que da vida exigem têmpera; / O outro, tecendo de ondas sua têmpora, / Transmudou-se de mundos, sempre máscara. / O primeiro se fez, de acasos, íntegro; / O segundo buscou, em rumos trôpegos, / Desvendar o inefável do seu íntimo. / Mas, ambos se perderam: mar adúltero./ Hoje, mudo, acompanho, olhos sôfregos, / Ulisses retornando ao mátrio útero. PENÉLOPE - Retornando do mar que me emoldura, / Ancoro em teus segredos, cidadelas. / De desvelos me nutres, me aquartelas / Desnudado do nauta e de procura. / Eternamente desejada e pura, / Em ti repouso rotas, amaino velas. / Dos perigos dos mares me encastelas / Em tuas celas de amor e de ternura. / Maravilhas que, meiga, me compensas / Depois de navegar, aventureiro, / Ocasos aleatórios, vagas densas, / Retorno sempre ao cais do amor primeiro, / Para recomeçar, feridas pensas, / Outras navegações, sempre janeiro. Poemas extraídos da obra O verbo sitiado (Bagaço, 1986), poeta, ensaísta e crítico alagoano Cicero Melo, selecionados pelo poeta e jornalista Iremar Marinho. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ARTE DE JUDITH SCOTT
A arte da renomada escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005), documentada no curta-metragem Outsider: The Art and Life of Judith Scott (2006), dirigido por Betsy Bayha.
2º Congresso Internacional Paulo Freire: O Legado Global & muito mais na Agenda aqui.
&
O certo & o errado no reino das ideologias, a poesia de Hélio Pellegrino, a música de Nobuo Uematsu, a arte de Mat Collishaw & Raoul Dufy, Danicleci Matias Souza & Park kids Locadora aqui.
&
Versos à flor da pele na prosa de um poema, o cinema de Jean-Luc Godard, a música de Sharon Corr, a escultura de Bertel Thorvaldsen, a poesia de Elke Lubitz & a arte de Luciah Lopez aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

ITARARÉ, ROBERT GIBSON, KLEITON & KLEDIR, DANÇA TANGARÁ & LUCIAH LOPEZ

Veja a Fanpage  aqui, os vídeos aqui e os poemas & canções aqui.

A DANÇA TANGARÁ FESTEJA A PLETORA DO AMOR - Imagem: foto da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Um clarão no céu e o amor no coração: Iaravi das manhãs, Freya da noite, qual frondosa etérea cumulada de portento fascínio, tremeluzindo alva na minha noite longa e espessa, a fazer-me emissário dos ventos no aconchego dos seus domínios. E se fez Freyaravi, deusa nua da vida, para vê-la mais de perto e sentir a precipitação vertiginosa do seu encanto exuberante com seus olhos bondosos de menina crescida e seu grácil semblante de riso de Sol e coração pulsante. Ela vinha pé ante pé e veio vindo e mais vindo pra me surpreender com seu jeito de céu às portas do paraíso, a me expor o seu corpo de mar ao convite de singrar e eu canoeiro de sempre excursionando a paradisíaca paisagem silenciosa do seu ser pro êxtase da minha chegada de viajante erradio ao sonho das águas embaladas. Senti as batidas do seu coração a me salvar o destino com seus seios dispostos feito araçás do campo pra minha boca sedenta de muito chupar e revirar suas moitas até sua fonte na baixada da vida, a crescer-me na alma inteira e intensa com suas labaredas a colorir o céu de aromáticas rosas e laivos de ouro nas nuvens rasteiras perfumadas, inundando meus desejos agarrados a sua nua carne e a não querer mais soltar e me arranchar de mansinho em seu ventre dadivoso pra saciar minha sede e me purificar dos males até tornar-me reverente a mais não poder e de nunca mais arredar o pé de perto dela e ganhar seus carinhos e sua companhia a passos largos, bailando qual tangarás, indo e vindo entre danças e abusões, festejando a pletora da vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

PAIXÃO
Imagem: The passion poet, art by Robert Gibson

Amo tua voz e tua cor e teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete, suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar
Ser feliz é tudo que se quer, ah! Esse maldito fecho ecler
De repente a gente rasga a roupa e uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo, tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo, não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém
Não quero ficar na tua vida como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme e se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso e o corpo mais preciso
Que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita e a boca mais bonita
Que a minha já tocou.
Paixão, música de Kleiton & Kledir.

Veja mais sobre:
Alvorada na Folia Tataritaritatá, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Egberto Gismonti, Capiba, Ricardo Palma, Tsai Ming-liang, Cristiane Campos, Fernanda Torres, Chen Shiang-Chyi, Revista Germina, Digerson Araújo, Asta Vonzodas & O cérebro autista aqui.

E mais:
Georg Trakl, Paul Auster, Sarah Kane, Gertrude Stein, Felix Mendelssohn, Woody Allen, Gil Elvgren, Marion Cotillard & Big Shit Bôbras aqui.
Ginofagia & as travessuras do desejo na manhã aqui.
Rio São Francisco: Velho Chico, Turíbio Santos, Cláudio Manuel da Costa, Lampião de Isabel Lustosa, Ítala Nandi, Hugo Carvana, Paulette Goddard, Natalia Goncharova, Música & Saúde aqui.
Penedo às margens do Rio São Francisco aqui.
Simone Weil, Simone de Beauvoir, Emma Goldman, Clara Lemlich, Clara Zetkin & Tereza Costa Rego aqui.
O homem ao quadrado de Leon Eliachar aqui.
Febeapá, de Stanislaw Ponte Preta aqui.
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Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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DESTAQUE: LENDA DO ITARARÉ
Foi há muitos anos; eu era pequenino quando ouvi contar essa estória triste que fazia chorar a gente velha e encha de medo os mais valentes caçadores do jaguar. Toda a tribo vinha fugindo das margens do Paranapanema, porque os cristãos, quando chegavam a qualquer lugar, derrubavam as florestas a machados, sem pena nenhuma dos grandes troncos de árvores, onde viviam as araras e o mutum e em cujas sombras mariscava o macuco, que às vezes caía nas garras do tigre, nosso rival nas caçadas das selvas. Depois lançavam fogo à derrubada, plantavam milho e feijão e, terminada a colheita, caminhavam para diante, devastando sempre. Foi assim que esses lugares, outrora habitados por milhões de aves que nos davam, além de bom alimento, as suas plumas de belas cores para o adorno de nossas vestimentas, se transformaram pelo fogo em campos sem fim, onde só vivem a jararaca e o urutu. O peixe, batido sem tréguas pelas redes que apanhavam grandes e pequenos, sem respeito ao tempo da criação, fugiu para muito longe, ganhou as águas do Paraná e refugiou-se em lugares onde encontra calma e só é apanhado sem estragos dos cardumes que saíram da desova. À noite, quando víamos o clarão vermelho no céu enegrecido pela fumaça das fogueiras, era o sinal de que eles já vinham perto. Levantávamos as tendas, fugíamos em procura de um outro rio. Às vezes éramos surpreendidos pelos camaradas, armados até os dentes e com o peito coberto de ferro, onde não penetravam as flechas envenenadas pelo nosso curare, por mais fortes que fossem os arcos e mais certeiras as pontarias dos nossos guerreiros que nunca tinham sido batidos pelos índios da outra margem do Paraná. O chão ficava cheio de gente morta ou muito ferida, e então os prisioneiros eram amarrados de mãos para trás e levados para o cativeiro. Uma noite quando acordamos estávamos completamente cercados e só à custa e força de tacape conseguimos abrir caminho entre os nossos inimigos; mas na fuga vimos que tinha sido presa uma das mulheres mais belas e formosas da tribo. Jaíra era o seu nome, e caiu sob o poder do chefe do bando, que era homem forte e comandava muita gente. Os pajés agitaram os maracás e a núbia soou com força em todas as matas, reunindo gente que escapara da morte ou do cativeiro. Decidiu-se que convidássemos muitas tribos para guerrear os brancos barbados e, desde então, partiram os emissários e a nossa gente entrou em preparativos de guerra. Durante uma lua inteira não saímos das margens do rio, colhendo flechas, e quando tínhamos grandes montes para combater muitos dias, usando de todos os recursos empregados na caçada das feras, fizemos a festa do preparo do curare, que também se chama uirari. Era a mulher mais velha da tribo quem tinha a honra de preparar o veneno. Vestia-se com penas encarnadas, ouvia o canto dos pajés e partia para a floresta donde voltava carregada de ervas. No meio da taba erguia a fogueira e punha a panela em que fervia as plantas, mexendo sempre a mistura com um pau enfeitado de penas de tiê e de saí. Os guerreiros sentavam-se à roda da fogueira, mas tão longe que não pudessem ser apanhados pela fumaça, e passavam o tempo comendo e bebendo. Quando o curare ficava pronto, os vapores da panela subiam e a velha respirava aquele cheiro e quando chegava ao ponto ela caía morta. Vinham outras mulheres e carregavam o corpo para as festas do enterro. Desciam os pajés e o cacique se apresentava pronto para o combate, esperando que o curare esfriasse de todo. Começava então a dança e os guerreiros, os homens, mulheres e crianças, andavam em torno da panela ervando as flechas; e só paravam quando todas as flechas tinham sido embebidas, guardando-se o resto do veneno para as flechas de caça. Mas antes de chegarem os guerreiros das outras tribos, veio um velho de muito longe e entrou no conselho dos pajés. Na guerra contra os brancos que usavam armas de fogo, disse ele, não devemos esperar senão a morte; são muitos e sabem se defender, sendo raro encontra-los isolados ou perdidos na mata. O que devemos fazer é o seguinte, continuou o velho. Um dos nossos guerreiros esconderá perto do acampamento dos nossos inimigos filtros de amor que nós conhecemos, a fim de Jaíra se fazer apaixonar pelo chefe, e depois irá apresentar-se como desertor da tribo para trabalhar com eles. Assim terá ocasião de falar com Jaíra e de entregar-lhe os remédios que estiverem ocultos. O amor de Jaíra inspirará confiança; e um dia, quando todos estiverem adormecidos com o ariru servido no banquete, entraremos em massa, de tacape em punho. Os pajés ouviram o recém-chegado e o seu plano foi o plano dos pajés. No dia seguinte partiu o animoso guerreiro que devia pôr em prática o meio pelo qual seriam vingados e libertos os nossos irmãos e com eles a nossa bela Jaíra; mas em vão esperaram pelo canto da saracura três vezes em noite de lua nova. O chefe ficou apaixonado, mas infelizmente Jaíra também deixou-se apaixonar pelo moço, de forma que no fim de muito tempo voltou o guerreiro sem nada ter conseguido. O tenente Antonio de Sá, assim se chamava o chefe, era casado em Santos, e quando a mulher soube do amor de Jaíra, fez com que o pai a trouxesse aqui. Uma tarde, quando menos se esperava, chegou a senhora branca, com muitos pajens e grande cavalhada. Houve luta entre os dois e no dia seguinte, Jaíra, cheia de desgosto disse ao tenente: Parto para a beira do rio, onde fico à sua espera à noite para fugirmos pela floresta. Quando a lua for descendo pelos morros azuis cantarei três vezes como a araponga branca, e, se não for ao lugar da espera, ligarei os pés com um cipó e me lançarei ao rio. E partiu a pobre mulher, deixando em lagrimas o moço. Quando a lua recolheu-se, o canto da araponga branca ouviu-se três vezes e o moço, chefe dos brancos, não foi procurar Jaíra. Uma tempestade medonha formou-se então e os raios foram tantos, que quase todo o gado morreu queimado, reduzindo muito os animais do tenente. Quando amanheceu o dia, estava a floresta toda alagada; o chefe montou a cavalo e acompanhado por um pajem foi à pedra indicada por Jaíra, mas só encontrou a roupa da infeliz criatura com uma coroa de flores de maracujá-do-mato em cima. O homem deu um grito de desespero e ficou tão louco que se atirou na corrente para nunca mais aparecer! A senhora branca soube do caso, montou cavalo e correu ao rio onde só viu a roupa de Jaíra e o lugar em que morrera o marido, e em prantos e gritos amaldiçoou o rio em que cuspiu três vezes. Então as águas cavaram o chão e se esconderam no fundo da Terra; os peixes ficaram cegos, a floresta fanou-se e morreu. Quem à noite desceu a gruta do Itararé – da pedra maldita, veria a pobre Jaíra vestida de branco com a grinalda de flores de maracujá-do-mato, tendo ao colo o corpo do moço que morrera por ela. Às vezes, a sua sombra vinha à beira da estrada; matava os viajantes, tirava-lhes o sangue e ia ver se reanimava o seu amor. E calou-se o velho para dizer, depois de prolongado silêncio: a penitência já se acabou, e um dia, quando menos se esperar, as águas do rio subirão de novo as suas margens e se espalharão pela Terra para refletir à noite a luz de todas as estrelas do céu.
Lenda do Itararé, recolhida pelo redator do jornal El País, Oscar Guanabarino, em 1894, registrada na Corografia do Paraná, por Sebastião Paraná e publicada em Estórias e Lendas do Paraná (Edigraf, s.d.), organizada por Alceu Maynard Araujo e Vasco José Taborda. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Sem me deixar intimidar, rabisquei pra ele, mais um poema -, em completa ausência de pudor violei o silêncio da página com todos os instintos de fêmea mulher e abri as comportas do meu coração, tamanha a ânsia do meu querer. É difícil explicar os tremores, os suores, os delírios, a minha condenação, a minha alma esquartejada aos seus olhos e a harmonia do gozo. É pra ele cada verso, cada prosa, cada oração e cada gesto de um bem querer que não tem começo ou fim -, apenas é. E a história é sempre um renascer e o sonho irradia o meu amor____mais forte a cada dia e nada mais me falta, estou completa, envolvida pelos braços dele...
Poemas/foto & arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...