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segunda-feira, abril 28, 2025

PAULA EINÖDER, KATE KRETZ, XIYE BASTIDA & GIVANILTON MENDES

 

Imagem: COLAM: Retalhos em Detalhes (à memória do cineasta Givanilton Mendes). Acervo ArtLAM.

Eu acordo de manhã e me sinto muito sortuda e privilegiada por fazer isso! Reclamo muito porque costuma ser um processo doloroso, mas sinto que estou vivendo uma vida muito privilegiada e feliz sendo compositora...

Fragmento de depoimento ao som das Sinfonias – 1 – Três Movimentos para Orquestra (1982), 2 – para violoncelo (1985), 3 (1992), 4 – Jardins, para Coro infantil, Coro e Orquestra (1999), 5 – Concerto para Orquestra (2008). Sinfonia para sopros (1989) e Viagem para Quarteto de cordas – String Quartet nº 3 (2012), da compositora estadunidense Ellen Taaffe Zwilich. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Retalhos em detalhes… (à memória do saudoso amigo Givanilton Mendes) - Neste instante ontem era outro e depois não seria jamais amanhã, agora já passou. E tanto. Do nada reaparecia longínquo amigo que se foi um dia para nunca mais. Como poderia, pois bateu à porta e já entrou com aquele caloroso abraço antigo. Sentou-se ao lado com envolventes gestos largos, para logo derramar aquelas vontades vitais aos olhos das amizades eternas. Era ele mesmo, redivivo, nada de como assim ou razão para tal. Foi tão bom revê-lo com a mesma fisionomia de quando partiu. Tudo parou para ele desde que se foi, eu envelhecia com o tempo. O que poderíamos reviver de todas as vésperas de antes, se havia a guerra de sempre: de um lado, os da gente que viravam a casaca do contra; do outro, os que nos queriam ver pelas costas. Elos esgarçados: só tínhamos de mesmo um ao outro, miséria solidária. Ali a gente pela madrugada de outras tantas pelejávamos a reinventar o que seria quase sagrado e fatalmente destruído pelos que despertassem logo às primeiras horas da manhã, enquanto os sonâmbulos do dia olvidariam e, até com asco, tudo o que era pra gente noites a fio, pernoite em claro, sem pregar as pestanas. E revivemos mais todos os insones colóquios diários regados de confissões, dúvidas e resiliência. Cerzíamos, recosíamos, recombinávamos os trapos e aprendíamos a nos desvencilhar das facas e canivetes do sorriso escondido no final da tarde. Nunca fugimos da raia e fomos aos confins do mundo para acalentar nossos sonhos e lá soubemos que Deus evadira com o pouco que ainda lhe restara, depois que fora destronado pelos matricidas filhos de Caim que somos todos, humanidade fracassada, e nos deixou indignados à própria sorte. Sabíamos: os fantasmas sacodiam as correntes porque viviam subterrâneos dentro da nossa fúria de viver escapando das sedições trepidantes, dos resmungos ferozes que se dispersavam em nossos ouvidos e se dissipavam cabeça adentro pelos pesadelos da longa insônia, como se dali pudéssemos voar janelas abertas com a dor dos que foram abatidos nas manhãs de um céu azul sem nuvens. Sabíamos mais: por mais inglória que tivéssemos de tão sem trunfos, a vida valia pelo tanto já vivido por inesquecíveis momentos, efêmero que ficava e nos reconstruía a todo instante. Era a festa da saudade, tão real quanto o êxito do filme que nunca fizemos. Até mais ver.

 

Jane Campion: A tragédia faz você crescer... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui. 

Claire Wineland: Há muito mais na vida do que apenas ser saudável. Há muito mais na vida do que apenas ser normal. Se o meu maior problema na vida fosse ser saudável, eu ficaria incrivelmente entediada... Veja mais aqui.

Alejandra Pizarnik: Você escreve poemas porque precisa de um lugar onde o que não é possa ser... Veja mais aqui.

 

A ESCRITURA DA ARGILA

Imagem: COLAM. Acervo ArtLAM.

Escreverei sem motivo e sim considerações. \ Agarrarei cada palavra vesga e desfeita \ e a tornarei de argila. \ Então a passarei pelo fogo. Lhe darei fôlego. \ Cada palavra será um homem. \ Povoarei a terra de palavras. Encherei páginas de homens. \ Haverá argila ao invés de tinta. \ Escreverei sem volume. Cegarei a mim mesma. \ Não vou pisar nenhuma palavra. \ Serão meu cajado. \ Não vou buscar o homem. Porque um homem \ está feito de texto. \ Tecido de demasiadas palavras. \ Não vou buscar o poema. Porque um poema \ está feito de carne. \ Composto por demasiados \ tecidos e músculos e nervos. \ Escreverei sem propósito e sem esquemas. \ Porém ninguém poderá me reprovar que eu não tenha unido \ a palavra com a argila, a tinta com o sangue. Além do que \ a minha falta de originalidade foi buscada. \ Novidade e esquecimento são a mesma coisa. \ Porém o meu poema está escrito. \ Disto se trata o assunto.

Poema da poeta e professora uruguaia Paula Einöder, autora dos livros La escritura de arcilla (2002), Árbol experimental (2004), Miranda o el lugar desde donde no se habla: Reflexiones acerca del silencio interpretativo (2004), Opacidad (2010), Árbol de arco (2020) e Para bálsamo de ruiseñores (2021). Veja mais aqui.

 

CARTA PARA AVÓ: POR QUE EU LUTO PELA JUSTIÇA CLIMÁTICA – [...] O mundo é tão grande e tem tantos maus hábitos. Eu não sabia como uma criança de 15 anos deveria mudar alguma coisa, mas eu tinha que tentar. Para colocar essa filosofia em prática, entrei no clube ambiental da minha escola. No entanto, notei que meus colegas estavam falando sobre reciclagem e assistir filmes sobre o oceano. [...] Era uma visão do ambientalismo que era tão voltada para uma maneira ineficaz de ativismo climático, que culpa o consumidor pela crise climática e prega que as temperaturas estão subindo porque esquecemos de trazer uma volta reutilizável para a loja. Ensinaste-me que cuidar da Mãe Terra é sobre todas as decisões que tomamos como um coletivo. [...] Para mim, ter 18 anos e tentar salvar o mundo significa ser um ativista climático antes de talvez estudar para ser médico ou político ou pesquisador, mas mal posso esperar para crescer e me tornar uma dessas coisas. [...] O planeta está sofrendo e não temos mais o luxo do tempo. Salvar o mundo como um adolescente significa ser bom com palavras, entender a ciência por trás da crise climática, trazendo uma perspectiva única para a questão para se destacar e esquecer quase tudo o resto. Mas às vezes eu quero me importar com outras coisas novamente, eu quero ser capaz de cantar e dançar e fazer ginástica, eu realmente sinto que se todos nós cuidamos da Terra como uma prática, como cultura, nenhum de nós teria que ser ativistas climáticos em tempo integral. [...] tudo o que estou tentando fazer com o meu trabalho é dar essa mentalidade otimista para outras pessoas. Mas tem sido um pouco difícil, há ganância, há orgulho, há dinheiro e há materialismo, as pessoas tornam tão fácil para mim falar com eles, mas eles tornam tão difícil para mim ensiná-los. [...] Eu quero que eles tenham o coração e a coragem de amar o mundo. Assim como você me ensinou, eu escrevi esta carta para agradecer, obrigado por me convidar para amar o mundo desde o momento em que eu nasci. Obrigado por rir de tudo. Obrigado por me ensinar que a esperança e o otimismo são as ferramentas mais poderosas que temos para resolver qualquer problema. Eu faço este trabalho porque você me mostrou que resiliência, amor e conhecimento são suficientes para fazer a diferença. [...]. Trechos da carta escrita pela ativista mexicana Xiye Bastida, refletindo sobre o que a levou a se tornar uma voz de liderança para o ativismo climático global – desde a mobilização de greves climáticas escolares até a Cúpula do Clima das Nações Unidas, ao lado de Greta Thunberg. Para ela: Minha conclusão é que a Terra está aqui para abrigar tudo. Toda a vida, toda a morte, toda a beleza e todas as dificuldades. Ela está aqui para abrigar nossa alegria e nossa incerteza, nossas histórias e nossa luta.

 

ARTE HOLÍSTICA – [...] Somos a soma de nossas experiências de vida únicas e individuais. As provações que enfrentamos, as causas pelas quais lutamos, os medos que nos assombram, as estranhezas de nossas mentes; tudo isso e muito mais se torna o alimento para o nosso espírito. O universo não precisa de repetições do passado; de mais uma bela, mas inútil, paisagem impressionista nua, iluminada pelo sol, mas sem graça, ou de um cubo minimalista antigo e frio. Ele precisa de você. Precisa que você se desfaça de tudo o que obscurece seu genuíno senso de identidade. Precisa que você desenterre e assuma descaradamente sua verdade confusa, honesta e magnífica. E precisa que você aprofunde e molde essa verdade em um núcleo autêntico, que nutrirá você e seu trabalho por toda a vida. [...] Há um movimento em andamento para convencer os artistas de que eles são simplesmente mais um tipo de empreendedor. À primeira vista, trata-se de uma rejeição aparentemente inofensiva e compreensível do estereótipo do artista faminto. No entanto, as pessoas parecem ter esquecido que, desde o início da história registrada, o papel cultural dos artistas ia muito além da simples criação de um produto para vender. [...] É assustador para mim ouvir calouros de arte falarem sobre “branding”, porque, saibam ou não, eles representam a última fronteira. Se os artistas desistem, não sobra ninguém. Se abrirmos mão de nossa agência, seduzidos por uma mentalidade corporativa para simplesmente fabricar nosso produto e ganhar nossa fatia do bolo, colocamos mais um prego no caixão do poder superior da arte. [...]. Trechos extraídos da obra Art from Your Core: A Holistic Guide to Visual Voice (Intellect, 2024), da artista estadunidense Kate Kretz, que foi diagnosticada como 2E, duas vezes excepcional, superdotada/com autismo, em 2021.

 

GIVANILTON MENDES: ALÉM DAS LENTES

O documentário Givanilton Mendes além das lentes (2025), tem roteiro, pesquisa e coordenação de Leandro Silva, apresentado como projeto integrador do curso de Rádio, TV e Internet, da ETE Nelson Barbalho, sob orientação dos professores Adson Alves e Rosangela Araújo. Veja mais aqui & aqui.

&

3ª FLIBEZ

Entre os dias 3, 4 e 5 de maio acontecerá em Bezerros (PE) a Festa Literária de Bezerros – 3ª FLIBEZ, homenageando o escritor Alex Brito e o cordelista Manoel Leite, com o objetivo de celebrar a literatura e artes afins, com atmosfera propícia a vivências artístico-culturais. O evento conta com painéis, circuito gastronômico, debates literários, exposição de artes, saraus, lançamento de livros, oficinas, shows musicais, cantoria de viola e cortejo de carnaval, tudo com entrada franca. É uma produção independente do Bistrô do Matuto Produções Multiculturais.

&

O BRANCO DE TODA COR, ZÉ RIPE

Veja mais Zé Ripe aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

& mais:

Arte na Escola aqui.

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Diário TTTTT aqui.

Literatura Indígena: Cosmovisões & Pela Paz aqui & aqui.

Poemagens aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


terça-feira, maio 21, 2019

KEATS & FANNY, LAING, JANE CAMPION & ALEXANDER ARCHIPENKO


FANNY, O TESTEMUNHO DERRADEIRO – Agora o meu testemunho derradeiro: compartilho definitivamente meu sofrimento com esta ode, para que meu sangue seja a vida na corrente do seu coração que esvoaça ubíquo por todo meu corpo e lugar. Você mudou a minha vida e aliviou meu coração com sua presença para começar meu sonho. A sua beleza é a música que respira a alegria brilhante na queimadura amorosa do meu peito e rechaça a minha dor sufocante na esperança do seu amor. Eu sei, um homem apaixonado é a mais triste figura do mundo, estou à sua mercê, deslumbrado com a sua confessa mão macia a premiar minha vida subjugada, tudo é gracioso em seus movimentos, voa em todas as direções dos meus sentidos. Sou apenas um aprendiz de cirurgião que desistiu da saúde para ser poeta, um pobre poeta que vive do nosso grande segredo e dele sobrevivo a enlouquecer, minha doce Fanny. Para você, a miniatura do meu retrato e todos os meus poemas e cartas que são seus, porque os seus mil beijos estarão sempre comigo. Só você é o meu prazer, minha docê Fanny, minha bela dama Sans Merci, a vida do meu amor confinado, cavaleiro desmontado pelos infortúnios, desassossegado, não há nada no mundo tão delicado, meu credo é o amor e você é seu único princípio, na paixão submetida a uma quarentena, chafurdando desesperado em autopiedade. Com a minha partida as autoridades sanitárias queimarão toda minha mobília, rasparão as paredes do meu quarto para novas portas, janelas e chão, meus poemas entre labaredas, minhas cartas incendiadas, ah, meus olhos se fecharão com você em mim, doce Fanny, que plantem margaridas sobre minha sepultura! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A existência é uma chama que constantemente ataca e revivifica as nossas teorias. O pensamento existencial não oferece qualquer segurança,nenhum abrigo ao sem-abrigo. Não se dirige a ninguém, salvo a vocês e a mim. Encontra a sua justificação quando, por cima do abismo das nossas linguagens, dos nossos erros, dos nossos devaneios e das nossas perversidades, fazemos, na comunicação com outrem, a experiência de uma relação estabelecida, perdida, destruída ou reencontrada. Esperamos partilhar a experiência de uma relação, mas o único ponto de partida honesto (e talvez o único fim) é talvez partilhar a experiência da ausência de relação. [...].
Trecho extraído da obra A psiquiatria em questão (Presença, 1972), do psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927-1989), que na sua obra O eu dividido (Vozes, 1978), expressa que: [...] o principal agente na integração do paciente, no fazer com que as peças se reunam de modo coerente, é o amor do médico, um amor que lhe reconhece o ser total e o aceita sem quaisquer limitações. [...]. Ele também é autor de obras tais como A política da experiência: a ave do paraíso (Vozes, 1978), Fatos da vida (Nova Fronteira, 1982), Laços (Vozes, 1977), O eu e os outros: o relacionamento interpessoal (Vozes, 1989), Percepção interpessoal (Eldorado, 1972), A política da família (Martins Fontes, 1983), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

BRIGHT STAR
Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente!
Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
– Monge da natureza, insone e paciente –
As águas móveis na missão sacerdotal
De abluir, rondando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – caída leve
Sobre as montanhas sobre os pântanos – da neve,
Não! mas firme e imutável sempre, a descansar
No seio que amadura de meu belo amor,
Para sentir, e sempre, o seu tranquilo arfar
Desperto, e sempre, numa inquietação-dulçor,
Para seu meio respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.
(Soneto Bright Star, de John Keats)
O drama Bright Star (Brilho de uma Paixão, 2009), da cineasta neozelandesa Jane Campion, é baseado nos três últimos anos de vida do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821), focando seu relacionamento amoroso entre os anos de 1818-1821, com a inglesa Fanny Brawne (1800-1865), interpretado pela atriz australiana Abbie Cornish. O poeta por ela se apaixonou e se casaram em 18 de outubro de 1819, mantendo o enlace em segredo, porque ele havia desistido de sua carreira na medicina e passou a se dedicar somente à poesia, fato que levou a família dela a se opor. Separados por conta das dificuldades financeiras e saúde precária do poeta, eles trocaram correspondências mútuas. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e artista plástico ucraniano Alexander Archipenko (1887-1964). 
Veja mais aqui & aqui.
&
A OBRA DE JOHN KEATS
Eu sou a morte, trilhada sob os pés de uma bela dama.
A obra do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


domingo, dezembro 06, 2015

DEMÓCRITO, COMÉDIA, BERTO, FIORESE, GÓRECKI & A PRISÃO DE PAPAI NOEL!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUANDO PAPAI NOEL FOI PRESO – Desde tenra idade que Doro guardava consigo uma das mais fortes imagens de toda sua existência: os festejos natalinos. Como sempre fora desprovido de qualquer possibilidade para participar dos eventos de fim de ano, claro, o pai era um broco das costas ocas que só se ocupava em ganhar dinheiro para assar e comer; a mãe, coitada, dividida entre a fileirinha dos quinze filhos e a igreja, pudera, sobrava neres de nada mesmo para o Doro alimentar suas fantasias infantis. Mesmo assim, ainda hoje sonha com Papai Noel, banquete de natal, reunião de família às vésperas do dia da religiosidade cristã, essas baboseiras todas ditas por ele mesmo. Certo dia, porém, Doro invocou-se, resolveu ele mesmo fazer o seu próprio natal pela primeira vez na vida. Encarou a mulher, nossa, como sempre incrédula; os filhos, meia dúzia de bruguelinhos com os olhos bem abertos para a banda dele; e, ao lado, sempre broncas e broncas e mais tivesse no mundo de estrupício estaria ali, nas cercanias de sua inditosa existência. Pois foi com esse panorama que ele franziu o cenho, coçou o cavanhaque, apertou o nariz, pigarreou e uma luzinha de eureka brilhou das catracas do seu quengo. - Mulé, vou fazê o nosso natá! - Lá vem ess´ome cum invenção de novo! - Verdade, vou fazê pela premêra veizi a filicidade da gente e dum bucado de criança no mundo! - Ih! Tem coisa! E tinha mesmo. Toda razão do mundo para Marcialita que já desconfiava do salseiro que seria toda aquela invencionice do sujeito. Dinheiro que era bom, nada. E agora? Como fazer? Doro não se apertava nunca mediante qualquer que fosse a adversidade e colocava suas doidices com bastante – e bote muito além do bastante nisso, demais até – criatividade. Primeiro, passou uns dias só trancado, fazendo um cosimento nuns trapos e retalhos que recolhia por todo canto onde passasse, só na concentração dos intentos. Nem vou falar, vocês já adivinham, né? Já tratavam o desmiolado por gari de tanta coisa imprestável que arregimentava, tudo um verdadeiro lixo, mesmo. Depois se apossou dumas ferragens velhas, misturando um resto de velocípede aposentado armado em cima de uns pedaços duma bicicleta destroçada, tudo num trabalho de soldador engenhoso, resultando num bregueço lá que num tinha quem adivinhasse. Parecia mais que o cara estava fazendo um excelente trabalho de funilaria, preparando no meio das tranqueiras, alguma coisa por serventia. E parece que vai servir mesmo, ninguém sabe ainda. Imaginem mesmo o rebuliço. Quando o mondrongo do negócio estava pronto, ele começou a pintar dando uma cara multicolorida para o invento. Com a pintura pronta daquilo, se armou de cordas, barbantes e cabos de aço não se sabendo ao certo para quê, só se sabia mesmo das marteladas, suadas, enganchadas e presepadas noite adentro para concluir algo longe de se imaginar o que pudesse ser. Os vizinhos reclamavam que não podiam dormir com a barulheira dele, sendo interpelado diversas vezes pelos educados soldados da patrulha militar local. Com isso foi persuadido a respeitar o silêncio alheio, senão seria trancafiado em nome da paz pública. Assim foi mais jeitoso até quando deu por pronto, escondeu o que fazia de todo mundo e saiu recolhendo os guenzos vira-latas mais maltratados que encontrava na redondeza. Uns oito pulguentos estropiados que levou tudo para a sua residência. Um escarcéu! - Ô, homi, bota essis viralata para fora! -, reclamava Marcialita. - Calma, muié, vancê vai gostá. - Isso num é cachoro, homi, é uma fábrica de carrapato, quero isso não aqui! - Calma, muié, cum certeza vancê vai gostá. E nesse chove num molha, Marcialita matou uns três de chutes, sem contar mais uns cinco que morreram de fome, tendo Doro de arregimentar mais cachorros para o seu intento, mesmo sob os reclamos mais retumbantes da vizinhança que não aguentava mais. E, dessa vez, trouxe uns quinze, quase de matar a mulher do coração e de impaciência os irascíveis sofredores das imediações. - Prá quê tanto cachorro, hem? Num basta tu aqui im casa? - Calma, muié, calma. Marcialita abufelou-se e amarrou os filhos no cós da saia, zarpando para longe dali. Aí Doro trabalhou em paz e deixava estampada aquela cara de satisfação, só entristecida com as intervenções das autoridades policiais que agora estavam curiosas para saber no que aquilo ia dar por fim. Livre da forma como ficou, Doro apoderou-se das outras dependências da casa, principalmente a cozinha onde ele começou a fazer uns cozimentos com açúcar e outros ingredientes peguentos no maior meladeiro. Não deu outra! Uma explosão do botijão de gás! Ele coçou o quengo e constatou suas limitações com o trato de fogo e fogão naquelas horas. Ôxe, um desmantelo mesmo. Pacientemente, depois da explosão e do entra e sai de gente até de um olho só para testemunhar o sucedido, ele removeu o resto das coisas que ainda julgava por comestíveis e que estavam apregadas nos mais diversos recantos das paredes, provando do resultado o que parecia até gostoso, vez que ele mesmo saboreava com certo deleite, quando não fazia uma careta inchada depois. Uns dias mais, Doro se acorda feliz! - É hoje! Era 24 de dezembro de um ano lá pra trás. Ele começou seu expediente derrubando um pedaço do muro do quintal e escondendo tudo com uma lona plástica preta para que ninguém visse o que estava fazendo. Findada a destruição, escondeu-se dentro do quartinho e só se via o zoadeiro dele remanejando coisas daquele local pro quintal. Nem se comesse bosta de cigano da muita dava para se adivinhar o que ele se propunha a fazer. Mas tome teitei. Passou toda manhã, transcorreu toda tarde e quando anoiteceu, Doro estava todo aprontado com a cara de toda satisfação da vida. Às vinte horas em ponto, Doro arrebenta a lona do muro do quintal e sai berrando: - Jingle bell! É Natal! Hô hô hô!!!! Quando vi o estardalhaço, nossa! Fui o primeiro contemplado com a surpresa. Diga-se: a coisa mais tresloucada que já vira na vida. Um monstro! Aquilo nunca fora papai Noel, parecia mais assombração de esquálido e feioso ser dos quintos dos infernos. Eu só identifiquei o Doro pela fala e pela maneirice de seus jeitos. Imaginem uma coisa estupidamente extravagante e duplicadamente horrorosa! Imaginaram? Multipliquem por mil e ainda será pouco para dar uma ideia rala da estripulia dele. Pois bem, ele fez um ar de riso para mim, meteu a mão no saco e entregou-me um pacote dizendo que tinha um panetone dentro. Na verdade, era um cuscuz com meio mundo de coisa que nem tive coragem e muito menos atrevimento nem de cheirar quanto mais de digerir. Aos pulos e aos gritos Doro chamava as crianças do lado e danou-se a entregar um nego-bom que ele mesmo fizera para a alegria delas. Alegria, agora; depois vocês vão ver a desgraça. Quando fez as entregas ali, deu umas palavras de ordem de comandante daquela doidice e partiu com seu hô hô hô. A catrevagem toda resultou num trenó; as renas, os guenzos; a vestimenta, uma tristeza de dar dó; os presentes, nego-bom e outras guloseimas enjoativas. E o barulho, ensurdecedor. Lá vai aquela desgraça rua afora se passando por papai Noel. Resultado: dois problemas gravíssimos! Saúde e segurança públicas. Cadeia. Até então ele não havia inaugurado os serviços cinco estrelas duma delegacia. E ainda insistia que era o papai Noel. Pode? Acusação: a primeira, por causa da assombração. Todo mundo se cagou de medo, principalmente as criancinhas. Num ficou um pé de gente na rua por onde ele passou. A segunda: caganeira. Os bruguelos que comeram o nego-bom que ele distribuiu, estavam todos hospitalizados com uma diarreia braba, morre mais num morre. Uma correria dos diabos. Verdadeiro infanticídio em massa. Mediante esse rebuceteio todo, tive que intervir em seu favor. De cara o delegado ameaçou que não haveria na face da terra advogado capaz de retirar o sujeito daquelas ferrenhas grades. Deu trabalho. Não era só o delegado, a população toda duvidava quem tivesse o desplante de requisitar alvará de soltura para ser tão perigoso que se tornara o inimigo público número 1 daquele lugar. Deu trabalho, mas deu mesmo! Por sorte, as criancinhas depois de quinze dias de medicadas, se salvaram daquele troço todo. Sorte das grandes. Apenas se intoxicaram em demasia. Ainda bem. Consegui que fosse relaxada a prisão dele e quando instei sobre o ocorrido, ele com a maior cara lisa, ainda balbuciou: - Hem, hem, as criancinha nem pudero vê papai Noé direito. É mole? Tava ele já enganchado numa beldade todo libidinoso parecendo mais que nada tinha acontecido. Pode? E vamos aprumar a conversa aqui. 

Imagem Reclining-nude, do artista plástico francês Frédéric Bazille (1841-1870)

 Curtindo a álbum com a Symphony nº 3 - Symphony of Sorrowful Songs Op. 36 (1976), do compositor polonês Henryk Górecki, with Symphonieorchester des Südwestfunks-Baden-Baden/Ernest Bour & Stefania Woytowicz.

O FILÓSOFO QUE RI – O filósofo grego Demócrito de Abdera (460-370aC), tratou acerca da ética e da physis, cujo estudo caracterizava os pré-socráticos, e foi o maior expoente da teoria atômica, De acordo com essa teoria, tudo o que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos (do grego, "a", negação e "tomo", divisível. Átomo= indivisível), e avançou também o conceito de um universo infinito, onde existem muitos outros mundos como o nosso. Para ele, o cosmos (o Universo e tudo o que nele existe) é formado por um turbilhão de infinitos átomos de diversos formatos que jorram ao acaso e se chocam. Com o tempo, alguns se unem por suas características (às vezes, as formas dos átomos coincidentemente se encaixam tão bem como peças de quebra-cabeça) e muitos outros se chocam sem formar nada (porque as formas não se encaixam ou se encaixam fracamente). Dessa maneira, alguns conjuntos de átomos que se aglomeram tomam consistência e formam todas as coisas que conhecemos, que depois se dissolvem no mesmo movimento turbilhonar dos átomos do qual surgiram. Da sua obra destaco: Muitas vezes ouvi dizer que não pode existir nenhum bom poeta sem entusiasmo da alma e sem um sopro como que de loucura. Tudo o que ele escreve com entusiasmo e sopro sagrado é, sem dúvida, belo. Homero, porque recebeu uma natureza divina, construiu uma estrutura ordenada de versos variados, uma vez que não seria possível sem uma natureza divina e demônica realizar versos tão sábios e belos. [...] A união sexual é uma pequena apoplexia, pois o homem sai do homem e dele se arranca apartando-se como que por um golpe. A natureza e a instrução são semelhantes, pois a instrução transforma o homem, mas, transformando-o, cria-lhe a natureza. Quem ouvir de mim estas sentenças com inteligência, realizará muitos atos dignos de um homem e não realizará muitos atos vis. Quem escolhe os bens da alma, escolhe os divinos; quem escolhe os do corpo, escolhe os humanos. É belo opor obstáculo a quem comete injustiça; senão, não de participar da injustiça dele. É preciso ou ser bom ou imitar quem o é. Não é pelo corpo, bem pela riqueza que os homens são felizes, mas pela retidão e muita sabedoria. Não por medo, mas por dever, evitai os erros. Coisa grande é, mesmo no infortúnio, pensar naquilo que é preciso. Arrependimento de atos vergonhosos é salvação da vida. Quem comete injustiça é mais infeliz que o que sofre injustiça. É magnanimidade suportar com doçura a falta de tato. Ceder à lei, ao chefe e ao mais sábio é por-se em seu lugar. À censura dos maus o homem bom não dá atenção. É duro ser governado por um inferior. Quem fosse totalmente submisso ao dinheiro jamais poderia ser justo. Para a persuasão a palavra frequentemente é mais forte que o ouro. Quem adverte aquele que pensa ser inteligente, trabalha em vão. Muitos, sem ter aprendido a razão, vivem segundo a razão. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PRISÃO DE SÃO BENEDITO – No livro A prisão de São Benedito e outras histórias (Bagaço, 1991), do escritor Luiz Berto, destaco o conto homônimo: Numa das reuniões da Diretoria do Clube do Jaguara, acertou−se que a Coréia estava precisada de uma festa. O Jaguara funcionava num salão amplo do Alto do Lenhador, onde está  localizada a Coréia, a chamada zona do meretrício. Por via disso, o Jaguara era o clube das putas e, em consequência, o mais animado do carnaval. O seu bloco, com um jacaré imenso em cima do carro alegórico, ganhava, de longe, em beleza e alegria dos outros blocos de Palmares, quando invadia as ruas da cidade nos dias de carnaval. Era de se ver o negro ZéMaria, todo vestido de branco, a comandar o abre−alas, com seu apito e o bastão colorido nas mãos. Compondo a onda, a turma que vinha à frente do carro alegórico, se destacava a elite da Coréia, todos com camiseta listrada de encarnado−branco, calça comprida branca, sapato Conga azul e boné branco de marinheiro, além do lança−perfume na mão: Aranha, Vaca Braba, Amara Brotinho, Odete, Amara Pé−de−Pato, Maria do Sinal, Elza Macho, Zefa Chupona, Luiz Cabeção, Pentelho−de−Burro, além de Dona Maçu e os negrinhos da família Piabinha. Quando a orquestra soprava Vassourinhas, o calçamento da rua era pouco para conter o frevo sublime esparramado por tão habilidosos dançarinos. Eu acho que o mundo se acaba e a gente não torna a ver coisa mais bonita. Então, eu dizia, a Diretoria deliberou que a Coréia, além do Jaguara, devia ter também a sua festa. Os ferroviários tinham a sua Santa Luzia; o povo das Pedreiras fazia a novena de São Sebastião; Santo Amaro, na praça de mesmo nome, era venerado pela gente do Matadouro; Nossa Senhora da Conceição, padroeira e madrinha, abençoava a cidade em sua festa no Centro. Isso sem contar São Pedro, Santo Antônio e São João, ricamente festejados no meio do ano. Até Água Preta, pois sim, exaltava com uma festa das melhores o seu milagroso São José da Agonia. Dia de Reis em Catende, nem se fala. Só na Coréia não se tinha festa. Invenção de Seu Luiz, Amaro Quirino e Zé Maria, diretores do Jaguara, a festa da Coréia tomou embalo de pronto e mobilizou os homens de bem e as pessoas gradas. A Banda 15 de Novembro saiu anunciando pelas ruas e, no dia marcado, a alvorada festiva cobriu de fumaça o Alto do Lenhador com os fogos de Pimpão. De manhã as mulheres−damas, qual colegiais enxeridas, participaram com alvoroço da corrida no saco, da corrida do ovo na colher e da corrida de velocidade. Houve muito barulho no jogo de quebra−panela, e as barracas de jogos de azar começaram cedo a arrancar dinheiro dos viciados. À tarde, a sensação ficou por conta do cabo−de−guerra, disputa animadíssima envolvendo séria rivalidade entre os funcionários da Rede Ferroviária e os trabalhadores dos abatedouros de gado bovino do Matadouro. Era a Turma do Óleo contra a Turma do Sangue. Calção vermelho e camiseta branca, a Turma do Sangue se abastecia de cachaça e cerveja desde as primeiras horas da manhã, cercada e incentivada por um lote de putas assanhadas. Os homens da Turma do Óleo vestiam calção preto e camiseta branca, e também desfilavam, atletas musculosos, cercados de raparigas, prometendo até a morte para chegar à vitória. No bilhar de Paizinho, as mesas de sinuca foram recolhidas, e um barulhento fuá propiciou o grande baile da festa. A orquestra, uma sanfona, um triângulo e um tambor de borracha, tocou, de manhã à noite, com pequenos intervalos para a rodada do pires na hora da cobrança da cota aos cavalheiros. A tantas ia a festa, animada e respeitável, que pouca gente prestou atenção na capela armada ao lado do jardim. Capela modesta mas decente, montada a tala de bambu, coberta de folhas e cheia de velas acesas. Como toda festa de rua que se preza, também esta tinha seu santo. Lá estava ele de mãos postas: um São Benedito de olhos grandes, velando pela alegria da Zona. Santo pretinho e humilde como a desprezada população da Coréia. As mulheres se benziam reverentes, e os homens, antes de entornarem a aguardente goela adentro, jogavam um tiquinho "pro santo". Festa sem santo, como é de lei, não é festa. E a da Coréia tinha o seu padroeiro majestoso e entronizado, milagroso e vigilante, levando o consolo da fé àquele antro de perdição. Mas, alegria de mundiça é curta, e a nação de gente enredeira, moralista, cresce em qualquer canto. Pessoas existem que sentem raiva dos prazeres dos humildes, dos perseguidos e dos marginalizados. Tantofuxicaram, que levaram aos ouvidos do padre aquela presença invulgar na Coréia: São Benedito velando festa de zona. Vá lá que seja preto, mas não é motivo para tanto. Além do mais, não tinha sido nem benzido, conforme manda o regulamento canônico. Compraram a imagem na livraria de Manoel Pezão e ela foi direto da vitrine para a capela. Na maior calada. Além do mais, uma capela que era puro deboche: taliscas de bambu, folhas de bananeiras, ramos de laranjeira. E por aí vai. Reclamavam as beatas dos homens de família que prestigiavam a festa e subiam a ladeira para beber com as raparigas. Mau exemplo que devia ser reprimido com energia. E o despropósito chegava ao auge, fazendo a banda tocar pelas ruas de família, anunciando a festa da Zona. Pois sim, senhor, uma putaria como poucas! O padre não era de deixar serviço para depois. Velava e defendia seu rebanho como já não fazem os padres de hoje em dia. Santo e piedoso homem que tomava torrado e dava cascudos nos meninos na procissão. Entrou em contato com as autoridades competentes e arrancou do Poder Judiciário o indispensável mandado, que foi entregue ao Delegado. Tudo dentro da Lei. A autoridade policial designou a patrulha, e esta, brava e ciosa, subiu a ladeira para fazer voltar ao caminho do bom senso tão enxerido santo. –Os homens tão subindo! A multidão se inquietou, mas relaxou de pronto quando os soldados se dirigiram à capela. Ao invés de raiva, o povo se viu tomado por uma súbita vontade de rir. Uma sonora gargalhada tomou conta da Coréia, passou pelo Beco do Esconde−Negro, Rua do Limão, desceu pela Ladeira da Viração e invadiu Palmares. Riam-se do santo, preso e escoltado. Os soldados também se divertiam e a multidão esculhambava o santo. –Eita neguinho, vai dormir no xilindró. – Bem feito, já se viu santo na zona... E a procissão desceu a ladeira, os soldados com o santo à frente, até a porta da Delegacia. E o episódio, que deveria passar por discreto, tomou conta do mundo e atraiu até repórteres dos jornais do Recife. A cidade dividiu−se, e a intimidade do santo foi devassada. Contava−se das estrepolias que ele teria feito em vida, antes de ascender aos céus. Circulou uma história sobre uma rapariga que ele teria tido na Bahia, até que alguém lembrou que, apesar de preto, ele era santo estrangeiro. Os racistas se aproveitavam: −Só podia ser preto! Do episódio, restou a glosa de Abel Fraga, saudoso frequentador da Coréia, que imortalizou a prisão com o seu mote: Prenderam São Benedito / Por frequentar a Coréia. Guardo o original que ele me passou com sua caligrafia rebuscada, aprendida no começo do século: O povo ficou aflito / Por uma simples asneira / Por essa ação corriqueira / Prenderam São Benedito / Estava tudo contrito / Mas por estar na Coréia / Fizeram uma má idéia / Mas era boa a intenção / Só fizeram essa prisão / Por frequentar a Coréia. Apesar de ser bendito / E ser tão conceituado / Desceu do alto escoltado / Prenderam São Benedito / Não foi um gesto bonito / Nessa infeliz odisseia / Nem nos tempos de Pompéia / Viu−se tamanho pecado: / Um santo trancafiado / Por frequentar a Coréia. Veja mais aqui e aqui

CORPO PORTÁTIL – No livro Corpo portátil (Escrituras, 2002), do poeta e professor Fernando Fabio Fiorese Furtado, destaco inicialmente o poema Pin-up sobre fundo vermelho: Para abolir o álibi, / as pernas refluem da sombra / ao olhar: corpo rendido / por um deus inútil. / Sur le mur mentira cette affiche: / nem descuido, nem artificio, / apenas um mito imóvel. / Nenhum pormenor esconde, / nada entre o olho e o horizonte / senão a demasia das unhas. Também O autor quando jovem: Embora a mímica aborreça / e mintam as testemunhas / e o que inquieta o objeto / o outro mal começava / nas dobras do processo. / Como um assassino suave / ainda ostenta o que vai morrer. / Se o braço esquerdo descuida, / escreve sobre o corpo / a cifra de toda ficção. Por fim, o poema O corpo e as cidades: De quantas cidades estive / (e não digo as que de passagem, / guardei apenas uma rubrica / e o rumor do jornal dormido, / nem aquelas em livro escritas / ou contrabando dos amigos, / em cartões postais e souvenirs) / pouca vestiram este corpo / camisa feita de encomenda, / sem rugas, penses, rebordos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A COMÉDIA - Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Originada da parte mais alegre do ditirambo – o cântico improvisado das primitivas procissões dionisíacas – a comédia encerrava os festivais atenienses mostrando aos espectadores que o teatro é uma grande brincadeira. Os gregos associavam a comédia a personagens ridículas representadas como pessoas absurdas e ofensivas. Apresentada como uma forma burlesca da tragédia que a precedera, a comedia nem por isso deixava de dirigir criticas mordazes às instituições e às pessoas notáveis. Os próprios deuses eram objeto da sua contundente jocosidade. Quando entraram em contato com os gregos, os romanos ficaram particularmente encantados com as divertidas possibilidades que os comediógrafos ofereciam para distrair patrícios e plebeus. Mas antes de adotar o gênero, tiveram o cuidado de apagar dele qualquer traço político ou religioso, encampando o que as comedias tinham de mais secular e lúdico. Assim, às contundentes ironias políticas de Aristófanes, preferiram seguir o exemplo das sátiras de Menandro (342-291aC), mais elegante e com marcada preferencia por temas individuais – problemas familiares e amorosos, aventuras de tristes crianças abandonadas e reencontros românticos. Veja mais aqui e aqui.

IN THE CUTE – O filme de suspense In the cut (Em carne viva, 2003), dirigido de forma delicada por Jane Campion, com roteiro da diretora e de Susanna Moore, também autora do livro que originou o filme, contando a história de uma professora solitária que inicia um relacionamento com um detetive que investiga um assassinato ocorrido na vizinhança, sendo que o relacionamento de ambos aos poucos toma rumos cada vez mais sombrios. Aí, uma escritora vê-se em meio a uma trama que envolve sua irmã e um psicopata que corta suas vítimas em pedaços. No filme o destaque vai para a belíssima atriz estadunidense Meg Ryan. Veja mais aqui.

 CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Alfred Eisenstaedt (1898-1995).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...