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segunda-feira, abril 08, 2019

HUSSERL, LUIZ RUFFATO, MARIA ROSA NUNES, LAURA FINOCCHIARO, PALÍNDROMOS & ZÉ LINALDO


PALÍNDROMOS – 10:01, luzes, zás-trás. De pai e mãe, eu; de amor e sexo, a vida: palíndromos das horas. A infância na idolatria paterna; maternidade protetora no ninho das mulheres e a manha pelas enfermidades: primeiro os olhos vermelhos de fogo na roda-gigante; depois, amarelo de fígado. O menino são inventou a escada e subiu faca nos dentes, a goiabeira: o fruto à mão, meninas em festa. No último degrau, o espirro no telhado e a vertigem, a queda na lavanderia: a torneira e garrafas vazias, pernas pro ar, desacordado. Era primeira lição de sísifo, ouroboros. A vida passa e à flor da idade, o pedestre aos vinte e três anos, a encruzilhada e a colisão de automóveis. 05:50, o transeunte é alcançado, o atropelamento. Um corpo estendido entre o meio-fio e o asfalto, sangue na sarjeta. A segunda lição, afora outras de somenos. Vai já meia idade e as mãos em concha aos ouvidos, o silêncio no meio do zoadeiro. Velhice prematura, sabedoria inócua: a arte e não ter mais o que fazer, só esperar. Quantas lições entre gargalos, novelos, látegos, malabares, e a remover antolhos na magreza dos instantes, lixeiras destampadas, travessias lancinantes. 00:00, domingo que não sei se primeiro de janeiro ou diário limpo, anuário esquecido, quantos decênios e o milênio: o ideal da felicidade é uma luz refletida no espelho. Um rol de tantas frustrações e angústias exacerbadas, o isolamento do drama diário, cadê o inesperado, o mundo ordinário. Resta deitar no chão e saber que o medo é o limite da liberdade entre segredos e a insuportável convivência: insultos e agressões veladas. Sair da linha e renascer na devastação, o que restava: emoções encadeadas por tantos dias, 20 de março de 2003 ou 04 de abril de 2004, semanas, anos, décadas, só daria conta muito depois de pintar o sete por muitos sétimos períodos. A vida é morrer a cada dia e recomeçar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
 [...] Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro da classe média alta de Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma perna de calça e uma barriga, que se advinha em breve proeminente, indica a existência de um homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão. Pela composição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis – falta-lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa história, enfim. Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino, identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que, numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por detrás da máquina fotográfica? Quais são seus nomes, de onde vieram, onde estarão agora, o que fizeram de suas vidas, foram felizes? Do menino, sei eu – e, curiosamente, é o que menos importa. Mas, e todos aqueles que sucumbiram, sem voz e sem nome, e que a História registrará apenas nas lápides de humildes cemitérios que a borracha do tempo apagará? E os outros, que nem mesmo a morte resgatará do anonimato? [...] Imagem: filme Redemoinho, dirigido por José Luiz Villamarim e baseado na obra de Ruffato.
Trechos de Até aqui, tudo bem! - Como e porque sou romancista – versão século 21, do escritor Luiz Ruffato, extraído de Espécies de espaço: territorialidades, literatura, mídia (EdUFMG, 2008), organizado por Izabel Margato e Renato Cordeiro Gomes. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Maria Rosa Nunes que possui formação superior em design e atua profissionalmente com pinturas, colagens gráficas, arte digital e direção de arte em agências de publicidade. 
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

A MÚSICA LAURA FINOCCHIARO
A arte da cantora, compositora, guitarrista, arte-educadora e produtora musical Laura Finocchiaro, que iniciou sua carreira na esteira dos movimentos musicais da década de 1980, em Porto Alegre, e transitou em São Paulo nos palcos da Lira Paulistana, o Madame Satã e a Fábrica do Som, além de participar do festival Rock in Rio II, ao abrir os shows de Prince e Santana. Ela já lançou os álbuns Laura Finocchiaro (1992), Ecoglitter (1998), Tashi Delê mantras de roda (2001), Oi (2003), Lauras (2008), Copy paste, Música orgânica (2013), Eletrorgânica (2016), Eletrorgânica (Vol.2. 2017), On-Off (2018) e Princesinha devorada (2018). Tem se projetado com clipes, trilhas e crias sonoras, atuando no teatro e na televisão, em longas metragens, documentários e vídeo arte, desfiles de moda e arte educação, além de ter participado de diversas coletâneas. Veja mais aqui.
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A ARTE MUSICAL DE ZÉ LINALDO
A arte musical do músico, compositor, intérprete, arteducador e produtor cultural Zé Linaldo aqui, aqui & aqui
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É pela intencionalidade que podemos elucidar a estrutura da própria consciência imaginante. Só assim se põe em relevo o ponto mais importante desta vivência.
A obra do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl (1859-1938) aqui, aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, março 07, 2013

ELEANOR FARJEON, JÚLIA ALMEIDA, ANNA SHAW, BERNHARD, CHILD, BOOKCHIN, FARROW & A FENOMENOLOGIA DE HUSSERL

 

UMAS DE MUITAS & OUTRAS – UMA: DA DIFUSA LUTA DAS MULHERES – Um exemplo dos mais extraordinários é aquele no qual constatamos as lutas da escritora abolicionista estadunidense Lydia Maria Child (1802-1880). Ela que esteve engajada como ativista dos direitos das mulheres no século XIX, também engrossou as vozes em defesa dos indígenas e da abolição da escravatura no seu país: Os escravos se esfaquearam pela liberdade, pularam nas ondas pela liberdade, famintos pela liberdade, lutaram como tigres pela liberdade! Mas eles foram enforcados, queimados e baleados - e seus tiranos foram seus historiadores!... Que a maioria das mulheres não deseje nenhuma mudança importante em sua condição social e civil, apenas prova que elas são escravas irrefletidas dos costumes... Em seus diários ela tanto abordava questões domésticas, como também sobre a dominação masculina e supremacia branca, afora ter se imortalizado com o poema Over the River and Through the Wood (Veja mais dela aqui). DIFERENÇAS NÃO HIERARQUICAS – O filósofo e escritor estadunidense Murray Bookchin (1921-2006) foi o pioneiro das lutas ecológicas, razão pela qual desenvolveu sua teoria da ecologia social e do planejamento urbano. Para ele: Não há hierarquias na natureza além daquelas impostas pelos modos hierárquicos do pensamento humano, mas apenas diferenças de função entre e dentro dos seres vivos... O que fica constatado que a gente inventa cada coisa. (Veja mais dele aqui). APRENDENDO DEPOIS DE MUITAS – Depois de muitas idas e vindas com Sinatra, Woody Allen e André Prévin, afora ter convivido com sua melhor amiga Dory Prévin, a atriz estadunidense Mia Farrow deu uma dentro: Você aprende indo aonde tem que ir. A raiva e a dor são companheiros selvagens, mas o desespero é a ruína final. Aprendi que você não pode realmente possuir nada, que a verdadeira propriedade vem apenas no momento de dar... (Veja mais dela aqui). Depois disso, vamos aprumar a conversa!!!

 


DITOS & DESDITOS - Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos... Pensamento expresso em texto publicado na revista A Mensageira (1897), da escritora, teatróloga e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), que foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), tendo sido omitida por ser mulher e em favor do seu marido, Filinto de Almeida, porque os fundadores decidiram que a Academia Brasileira deveria seguir o modelo da Academia Francesa, que era exclusivamente masculina. Numa entrevista que concedeu em 1904, ao João do Rio, expressa que: Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! [...] Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em verso, com descrições e diálogos, quando ouvi por trás de mim uma voz alegre: – Peguei-te, menina! Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfalmente a folha e rindo a perder, bradava :– Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papá! Ela também é autora de frases lapidares, tais como: Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra na mocidade. Dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. A mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Eu tenho tudo no mundo que é necessário para a felicidade, boa fé, bons amigos e todo o trabalho que posso fazer. Acho que a maior bênção de Deus para a raça humana era quando ele enviou o homem para o mundo para ganhar seu pão com o suor de seu rosto. Acredito em labuta, na dignidade do trabalho, mas também acredito em uma compensação adequada para aquela labuta. Qualquer mulher que não viva para o serviço altruísta é uma inútil ocupante da terra. Pensamento da médica e líder do movimento sufragista estadunidenser Anna Howard Shaw (1847-1919).

 

GÁRGULAS - [...] Você nunca está verdadeiramente junto com alguém que ama até que a pessoa em questão esteja morta e realmente dentro de você. [...] O homem pensante sempre se encontra em um gigantesco orfanato no qual as pessoas estão continuamente provando a ele que ele não tem pais. [...] Todo mundo, ele continuou, fala uma língua que não entende, mas que de vez em quando é compreendida por outros. Isso é suficiente para permitir que alguém exista e, pelo menos, seja incompreendido. [...]. Trechos extraídos do livro Gargoyles (Vintage, 2006), do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989). Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - LIVROS - Que maravilhas são os nossos livros! \ Quando alguém os abre e olha, \ Novas idéias e pessoas surgem \ Em nossas fantasias e nossos olhos. \ A sala em que nos sentamos derrete, \ E nos encontramos brincando \ Com alguém que, antes do fim, \ Pode se tornar nosso amigo escolhido. \ Ou navegamos ao longo da página \ Para alguma outra terra ou era. \ Aqui está nosso corpo na cadeira, \ Mas nossa mente está lá. \ Cada livro é uma caixa mágica \ Que com um toque uma criança abre. \ Entre suas capas externas, \ os livros guardam todas as coisas para seus amantes. PAZ – I - Sou tão terrível quanto meu irmão War, \ sou o súbito silêncio após o clamor. \ Eu sou o rosto que mostra a cicatriz sórdida \ Quando o sangue e o frenesi perderam seu glamour. \ Os homens em minha pausa saberão finalmente o custo \ Que não será pago em triunfos ou lágrimas, \ Os homens começarão a julgar o que passou \ Como os homens o julgarão daqui a cem anos. \ Nações! cujos motores vorazes devem ser alimentados \ Infinitamente com o pai e o filho, \ Minha luz nua sobre sua escuridão, pavor! - \ Pelo qual vereis o que fizestes: \ Onde, mais como um abutre do que como uma pomba, \ colocas meu selo no ódio, não no amor. – II - Que nenhum homem me chame de bom. Eu não sou abençoado.\ Minha única virtude é o fim dos crimes, \ sou apenas o período de inquietação, \ A cessação dos horrores dos tempos; \ Meu bem é apenas o negativo do mal, \ Tal mal que dobra o espírito com desespero, \ Tal mal que faz a alma das nações parar \ E congelar em pedra sob um brilho de Górgona. \ Seja franco e diga que a paz é apenas um estado \ Em que a alma ativa é livre para se mover, \ E as nações apenas se mostram como mesquinhas ou grandes \ De acordo com o espírito então elas provam. - \ Ó, qual de vós, cujo grito de guerra é o Ódio, \ Será o primeiro em paz a ousar gritar o nome do Amor?... Poemas das escritora e dramaturga britânica Eleanor Farjeon (1881-1965).

 



HUSSERL & A FENOMENOLOGIA - O filósofo e matemático alemão Edmundo Husserl ( Gustav Albrecht Edmund Husserl - 1859-1938) foi o fundador da fenomenologia. Ele estudou nas universidades de Leipzig, de Berlim e de Viena, iniciando a carreira de professor em 1883, abandonando o posteriormente e se dedicando a escrever seus ensaios. Quando ele morreu em 1938, em Freiburg, deixou uma vasta gama de ensaios que foram posteriormente reunidos como Arquivos Husserl.
Em sua obra Investigações Lógicas (1900-1901) foi onde ele definiu sua filosofia como a análise da experiência que está por trás de todo o pensamento formal. É nela onde aparecem os primeiros sinais do método fenomenológico que se envolveu com as questões clássicas da filosofia desde Descartes, quando Husserl travou uma discussão da obra do filósofo francês: Meditações Cartesianas. A partir disso, a fenomenologia passa a servir de fonte para vários filósofos, em especial aos ligados ao existencialismo, chegando-se, inclusive, a se falar de uma sociologia, uma psicologia e uma teoria literária fenomenológicas. Isto porque o método voltou-se principalmente para as artes, nas quais proporciona um novo modo de consideração das obras artísticas. Depois, lança as bases sólidas da teoria da fenomenologia.
A partir de uma revisão na literatura, há que se entender, antes porem, que a Fenomenologia é uma corrente iniciada por Husserl ao pretender o estabelecimento de um método de fundamentação da filosofia e da ciência, baseada no conceito de fenômeno, ou seja, aquilo que é percebido pela consciência, no sentido de proceder a investigação da vida perceptiva, defendendo que a percepção tona possível a consciência dos objetos do mundo, como o juízo, a memória e os atos subjetivos. Estes, segundo ele, podem ser submetidos ao exame pela faculdade superior da consciência, entendia pelo autor como o eu transcendental, que é responsável pela síntese que torna possível a apreensão de objetos.
Muitas transformações ocorreram no pensamento fenomenológico até chegar em reorganizações conceituais que redundaram na formulação programática feita por Husserl no começo do século XX, quando a fenomenologia tornou-se mundialmente bem–aceita e tem influenciado discussões teóricas até hoje; ela introduziu uma forma prática no domínio teórico da filosofia, assim como no campo das ciências humanas e naturais.
A partir das investigações lógicas de Husserl ficou estabelecido por ele que a investigação deve ater-se ao modo como as coisas aparecem ao homem, como ele unifica a multiplicidade de aparições e como projeta significações sobre os objetos percebidos.
Para o fenomenólogo, não existe a consciência pura, mas sempre a "consciência de alguma coisa". Esse conceito, fundamental para a fenomenologia, é chamado de intencionalidade. Além disso, a atenção dispensada ao olhar, à percepção, à imaginação, às coisas e ao outro faz o método fenomenológico ir além das fronteiras da filosofia.
A fenomenologia faz uso de uma série de instrumentos metodológicos próprios que possibilitam a análise criteriosa dos fenômenos. Um deles é a redução, dividida nas seguintes modalidades: a epoché, a redução eidética e a redução trancendental. O termo epoché vem do grego e significa estado de dúvida. Consiste na suspensão do juízo a respeito de qualquer opinião; com o propósito de buscar unicamente os fatos, "pomos fora de ação a tese geral própria da atitude natural e pomos entre parênteses tudo o que ela compreende". Para ilustrar o método referido, tomemos o exemplo de como uma cor é percebida: a experiência pessoal da cor é o fenômeno puro, que se atinge mantendo-se em suspensão os dados científicos a respeito da composição da cor e os dados advindos da comparação com outras cores.
A partir da leitura de Marilena Chauí, observa-se que a atitude natural, segundo Russerl, compreende a aceitação do mundo em que vivemos, formado de coisas, bens, valores, ideais, pessoas, conforme ele nos é dado.A fenomenologia pretende se desvencilhar dassa atitude natural, por meio de um questionamento radical sobre o modo de existência do mundo, que consistiria no ponto inicial da pesquisa filosófica. A redução eidética analisa a apresentação do objeto a nossa á nossa (representação) de forma pura, prescindindo da existência do sujeito que conhece, assim como do objeto conhecido. Trata-se da forma do objeto no espírito, ou seja, trata- se de analisar a representação sem levar em conta o âmbito psicológico.Tomando como exemplo uma planta, podemos afirmar que, levando a cabo tal redução, os seus componentes básicos seriam a cor, as formas que a compõe e a textura.
Na redução transcendental, o fenomenologista considera apenas o que foi imediatamente apresentado á consciência; todos os outros elementos, Husserl sugere que sejam excluídos do julgamento.Retomando o exemplo da cor : uma página impressa em verde é apenas verde, não é feita da mistura de amarelo e azul, que é um dado cientifico. O interessante de Husserl está na cor como fenômeno pessoal e subjetivo, que depende de fatores complexos, como as diferenças de concepção dos sentidos.
O que é mais relevante para os defensores da fenomenologia é aquilo que pode ser experimentado pelos sentidos. Depois de realizada a redução, o que resiste é o individuo efetivamente sabe e passa a conhecer, transcendendo os dados científicos: é o que se designa resíduo fenomenológico.
Vê-se, portanto, que Husserl contribui para a filosofia com a formulação rigorosa e estruturada de um método fenomenológico, que propõe estudar o objeto do conhecimento de forma livre e pura, para alcançar a sua essência. Em outras palavras, a fenomenologia procura tratar do que é dado imediatamente como conteúdo conhecido, sem abordar as possíveis implicações e desdobramentos, que pertencem a uma construção posterior do saber. Assim, no processo de conhecimento, ou seja, na relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto, Husserl distingue os seguintes elementos fundamentais : a noésys ("forma"), a h ‘yle ("matéria") e o nóema ("conceito"). A noésys consiste no pensamento considerado um evento psíquico individual; é o conteúdo subjetivo do pensamento que confere sentido ao objetivo conhecido.A h’ yle trata do dado sensível, do contato físico com o objeto, que em si mesmo não comporta nenhum significado, a não ser quando alcançado pela noésys.Por fim, temos o nóema ,totalmente distinto do objeto físico.
É com isso que Husserl faz uma distinção entre o pensamento como um evento psíquico individual ( noese,ou faculdade do pensar ou inteligência ) e o pensamento como conteúdo ( noema, ou pensamento, intenção).Na operação 2 + 2 = 4 existe uma atividade de natureza psíquica, ao mesmo tempo que há um conteúdo pensado, que se expressa no conteúdo de sentido ideal independentemente do sujeito pensante.Esse segundo sentido revela que a estrutura da consciência é intencional e conduz o sujeito na direção do objeto pensado.
O filosofo distinguiu a essência, entendida como a parcela ideal de significação do objeto, dos aspectos que constituem a nossa experiência, ou seja, do que designou como conteúdo objetivo do pensamento.Portanto, no seu método de análise do fenômeno, a essência é a sua dimensão mais relevante.
Segundo Husserl, existe uma intuição da essência, que é o ato ideador , uma espécie de apreensão imediata da essência juntamente com o fenômeno ; desse modo, conheceríamos o fato e sua essência, simultaneamente. O conhecimento ocorreria por semelhanças, que é própria da essência e não da existência; para Husserl, pensar é, antes de tudo pensar na essência. O passo seguinte a redução é a análise cognitiva, que consiste na comparação detalhada entre fenômeno, tal como é apresentado á consciência, é a universal do fenômeno. A fenomenologia busca conciliar aquilo que experimentamos com aquilo que supomos saber teoricamente. Há aqui implícita uma diferenciação entre o fenômeno experimentado e o fenômeno apreendido, que Husserl compara com a relação entre a aparência e aquilo que aparenta. Recorrendo mais uma vez ao exemplo da cor com o reconhecimento científico que temos sobre ela.
De acordo com Husserl, através da redução, cada sujeito pode tornar-se observador de si mesmo, consciente de si.Assim adquirimos conhecimento e podemos aprender sobre nós mesmos e sobre a nossa volta.Pressupomos a existência de outras pessoas com a mesma capacidade para conhecer, mas é impossível provar que, de fato, elas estejam conscientes de si.Não observamos os pensamentos alheios, vemos apenas as ações do comportamento dos outros.É o que denominamos observação da "coisa" enquanto fenômeno.
Assim, da mesma maneira que aprendemos sobre o mundo observando fenômenos externos, aprendemos sobre nós mesmos por meio dos outros. A única forma de observarmos os resultados de nossas emoções e pensamentos é através das respostas das outras pessoas. É a vida no mundo, que Husserl denominou Lebenweslt, e que nos permite ver e experimentar sem as limitações impostas pelas fórmulas e equações do conhecimento científico. Uma coisa é saber que a água é formada por átomos de oxigênio e de hidrogênio, outra bem diferente é ver, sentir, sorver a água. A análise cognitiva nos permite conciliar o conhecimento científico e a observação ; entretanto, só realizamos essa análise quando nos é solicitado, não se trata de um processo involuntário.
O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) utilizou a fenomenologia em sua maior obra, Ser e Tempo (1927), para estudar a essência do ser, a temporalidade e o sujeito sempre em um contexto.
Os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) usaram o método para o estudo das estruturas da percepção, da consciência e da imaginação.
Para Marilena Chauí, o filosofo privilegia a consciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento, isto é, afirma que as essências descritas pela Filosofia são produzidas ou constituídas pela consciência, enquanto um poder para dar significação à realidade.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaquiaqui e aqui

FONTE:
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
CRITELLI, D. M. Analítica do sentido: uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica. São Paulo: EDUC Brasiliense, 1996.
GILES, Thomas Ranson. História do Existencialismo e da Fenomenologia. São Paulo: EPU, 1989.
HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas – sexta investigação – elemntos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento. São Paulo: Abril, 1980.
_____. A Ideia da Fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.
Lyotard, J.-F.. A fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.
MARTINS, Joel e DICHTCHEKENIAN, Maria Fernanda S.F. Beirão. (Orgs.) Temas Fundamentais de Fenomenologia. São Paulo: Moares, 1984.
MERLEAU-PONTY, M.. Ciências do homem e fenomenologia. São Paulo: Saraiva, 1973.
SALANSKIS, Jean-Michel. Husserl. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.  


Veja mais sobre:
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.

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quarta-feira, novembro 21, 2007

HUSSERL, SANDBURG, DALTON, CAIO ABREU, ZÉ BARBEIRO, PADRE BIDIÃO, OBVIEDADES CÍNICAS, ÍSIS NEFELIBATA & MUITO MAIS!!



A VIDA É UMA FODA EM CADEIA! - Foi o padre Bidião quem, ao hibernar tresloucadamente na elaboração do seu impublicável “Evangelho segundo padre Bidião”, primeiro trouxe à baila os questionamentos de onde a gente veio, o que estamos fazendo aqui e, afinal, para que droga de lugar que a gente vai. Então, primeiro ele disse que tudo começou com um peido cósmico. Ploft. Mas, segundo ele, o peido não deu em nada. Foi preciso o Todo-Poderoso dar uma cagada mesmo. Moral da história: seríamos, então, os tolotinhos ambulantes. Mas como esse padre encapetado é carne-e-unha com o Homi-de-lá, ficou por dentro do negócio depois que ele soltou uma gargalhada no meio da metáfora: foi uma gozada. Eita, porra! Faz sentido: se você olhar direitinho, tudo é foda a fole. Pra onde você se vira existe uma fodida se realizando. Arrepare bem e se certifique se não é. Tudo que tem o artigo definido feminino é bom: excetuando a morte, o resto é bão demais: a vida, a mulher. A buceta, por exemplo, existe drupa melhor? A natureza, a fruta, a chupada, a beiçada, a peiada. Agora tudo que se define pelo gênero masculino, não presta. Tirante o Sol, avalie: o rio só corre pro mar, o mar só serve para pescar e morrer afogado, o firmamento só serve pra gente admirar e sacar nossa inútil finitude ínfima. Quer mais? O caralho. Quando a cabeça não pensa e o que vale é a lei do bregueço, tudo padece. Foder é bom demais. Mas, e as conseqüências? Ih, minchou. Só de pensar mulher mandona e bicuda, bué de menino solto comendo o juízo feito cantiga de grilo, a feira, pagamentos do mês, compras de natal, escola, um brebote aqui, um pinto na carteira ali, nossa! É de arrancar os pentelhos do cu. Apois é, por isso que o padre Bidião abre o seu “Evangelho” com a Gênesis que é o outro nome pra foda: fodeu, lascou. Gozou, meu filho, então, se prepare: todo calango fodedor tem a rodela do cu vermelho. Então vamos pelos catabís da vida que é o melhor que a gente faz. E veja mais aqui e aqui.


Imagem: La Oterito, do pintor espanhol Ignacio Zuloaga Zabaleta (1870-1945).


Curtindo o álbum ao vivo No salão do barbeiro (Projeto Rumos), do instrumentista, compositor e violonista Zé Barbeiro. Veja mais aqui.

EPÍGRAFEUma das grandes falhas dos homens de nossa época é sua incapacidade de descobrir a solidão criadora, frase atribuída ao poeta, historiador, novelista e folclorista estadunidense Carl Sandburg (1878-1967). Veja mais aqui.

FENOMENOLOGIA – No texto Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica (Ideias & Letras, 2006), do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl (1859-1838), destaco o trecho: O conhecimento natural começa pela experiência e permanece na experiência. Na orientação teórica que chamamos "natural", o horizonte total de investigações possíveis é, pois, designado com uma só palavra: o mundo. As ciências dessa orientação originária. Aqui não se narram histórias. Ao falar de caráter originário, não é preciso nem se deve pensar numa gênese psicológico-causal ou histórico-evolutiva. Que outro sentido é visado aqui, isso só mais tarde será trazido à clareza reflexiva e científica. Qualquer um, no entanto, pode desde já sentir que a antecedência do conhecimento empírico-concreto dos fatos em relação a todo outro conhecimento, por exemplo, em relação ao conhecimento matemático-ideal, não precisa ter nenhum sentido temporal objetivo. São, portanto, em sua totalidade, ciências do mundo, e enquanto elas predominam com exclusividade, há coincidência dos conceitos "ser verdadeiro", "ser efetivo", isto é, ser real e - como todo real se congrega na unidade do mundo - "ser no mundo". A toda ciência corresponde um domínio de objetos como domínio de suas investigações, e a todos os seus conhecimentos, isto é, aqui a todos os seus enunciados corretos correspondem, como fontes originárias da fundação que atesta a legitimidade deles, certas intuições nas quais há doação dos próprios objetos desse domínio ou, ao menos parcialmente, doação originária deles. A intuição doadora na primeira esfera "natural" de conhecimento e de todas as suas ciências é a experiência natural, e a experiência originariamente doadora e a percepção, a palavra entendida em seu sentido habitual. Ter um real originariamente dado, "adverti-lo" ou "percebê-lo" em intuição pura e simples é a mesma coisa. Temos experiência originária das coisas físicasna "percepção externa", não mais, porém, na recordação ou na expectativa antecipatória; temos experiência originária de nós mesmos e de nossos estados de consciência na chamada percepção interna ou de si, mas não dos outros e de seus vividos na "empatia". "Observamos o que é vivido pelos outros" fundados na percepção de suas exteriorizações corporais. Essa observação por empatia é, por certo, um ato intuinte, doador, porém não mais originariamente doador. O outro e Sua vida anímica são trazidos à consciência como estando "eles mesmos ali", e junto com o corpo, mas, diferentemente deste, não como originariamente dados. O mundo é o conjunto completo dos objetos da experiência possível e do conhecimento possível da experiência, dos objetos passíveis de ser conhecidos com base em experiências atuais do pensamento teórico correto. Aqui não é lugar de discutir mais pormenorizadamente questões relativas ao método científico-experimental, como ele funda seu direito de ir além do estreito âmbito do dado empírico direto. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O VAMPIRO DE CURITIBA – No livro Vampiro de Curitiba (Record, 2003), do escritor Dalton Trevisan, destaco o trecho do conto homônimo: Ai, me dá vontade até de morrer. Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. É uma que molha o lábio com a ponta da língua para ficar mais excitante. Por que Deus fez da mulher o suspiro do moço e o sumidouro do velho? Não é justo para um pecador como eu. Ai, eu morro só de olhar para ela, imagine então se. Não imagine, arara bêbada. São onze da manhã, não sobrevivo até a noite. Se fosse me chegando, quem não quer nada – ai, querida, é uma folha seca ao vento – e encostasse bem devagar na safadinha. Acho que morria: fecho os olhos e me derreto de gozo. Não quero do mundo mais do que duas ou três só para mim. Aqui diante dela, pode que se encante com o meu bigodinho. Desgraçada! Fez que não enxergou: eis uma borboleta acima de minha cabecinha doida. Olha através de mim e lê o cartaz de cinema no muro. Sou eu nuvem ou folha seca ao vento? Maldita feiticeira, queimá-la viva, em fogo lento. Piedade não tem no coração negro de ameixa. Não sabe o que é gemer de amor. Bom seria pendurá-la de cabeça para baixo, esvaída em sangue. Se não quer, por que exibe as graças em vez de esconder? Hei de chupar a carótida de uma por uma. Até lá enxugo os meus conhaques. Por causa de uma cadelinha como essa que aí vai rebolando-se inteira. Quieto no meu canto, ela que começou. Ninguém diga sou taradinho. No fundo de cada filho de família dorme um vampiro – não sinta gosto de sangue. Eunuco, ai quem me dera. Castrado aos cinco anos. Morda a língua, desgraçado. Um anjo pode dizer amém! Muito sofredor ver moça bonita – e são tantas. Perdoe a indiscrição, querida, deixa o recheio do sonho para as formigas? Ó, você permite, minha flor? Só um pouquinho, um beijinho só. Mais um, só mais um. Outro mais. Não vai doer, se doer eu caia duro aos seus pés. Por Deus do céu não lhe faço mal – o nome de guerra é Nelsinho, o Delicado. Olhos velados que suplicam e fogem ao surpreender no óculo o lampejo do crime? Com elas usar de agradinho e doçura. Ser gentilíssimo. A impaciência é que me perdoe, a quantas afugentei com gesto precipitado? Culpa minha não é. Elas fizeram o que sou – oco de pau podre, onde floresce aranha, cobra, escorpião. Sempre se enfeitando, se pintando, se adorando no espelhinho da bolsa. Se não é para deixar assanhado um pobre cristão por que é então? Olha as filhas da cidade, como elas crescem: não trabalham nem fiam, bem que estão gordinhas. Essa é uma das lascivas que gostam de se coçar. Ouça o risco da unha na meia de seda. Que me arranhasse o corpo inteiro, vertendo sangue do peito. Aqui jaz Nelsinho, o que se finou de ataque. Gênio do espelho, existe em Curitiba alguém mais aflito do que eu? Não olhe, infeliz! Não olhe que você está perdido. É das tais que se divertem a seduzir o adolescente. Toda de preto, meia preta, upa lá lá. Órfã ou viúva? Marido enterrado, o véu esconde as espinhas que, noite para o dia, irrompem no rosto – o sarampo da viuvez em flor. Furiosa, recolhe o leiteiro e o padeiro. Muita noite revolve-se na casa de casal, abana-se com leque recendendo a valeriana. Outra, com a roupa da cozinheira, à caça de soldado pela rua. Ela está de preto, a quarentena do nojo. Repare na saia curta, distrai-se a repuxá-la no joelho. Ah, o joelho... Redondinho de curva mais doce que o pêssego maduro. Ai, ser a liga roxa que aperta a coxa fosforescente de brancura. Ai, o sapato que machuca o pé. E, sapato, ser esmagado pela dona do pezinho e morrer gemendo. Como um gato! Veja, parou um carro. Ela vai descer. Colocar-me em posição. Ai, querida, não faça isso: eu vi tudo. Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama – acho que ficaria inibido. No fundo, herói de bons sentimentos. Aquele tipo do bar, aconteceu com ele. Esse aí um dos tais? Puxa, que olhar feroz. Alguns preferem é o rapaz, seria capaz de? Deus me livre, beijar outro homem, ainda mais de bigode e catinga de cigarro? Na pontinha da língua a mulher filtra o mel que embebeda o colibri e enraivece o vampiro. Cedo, a casadinha vai às compras. Ah, pintada de ouro, vestida de pluma, pena e arminho – rasgando com os dentes, deixá-la com os cabelos do corpo. Ó bracinho nu e rechonchudo – se não quer por que mostra em vez de esconder? –, com uma agulha desenho tatuagem obscena. Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho. Ali vai uma normalista. Uma das tais disfarçada? Se eu desse com o famoso bordel. Todas de azul e branco – ó mãe do céu! – desfilando com meia preta e liga roxa no salão de espelhos. Não faça isso, querida, entro em levitação: a força dos vinte anos. Olhe, suspenso nove centímetros do chão, desferia voo não fora do lastro da pombinha do amor. Meu Deus, fique velho depressa. Feche o olho, conte um, dois, três e, ao abri-lo, ancião de barba branca. Não se iluda, arara bêbada. Nem o patriarca merece confiança, logo mais com a ducha fria, a cantárida, o anel mágico – conheci cada pai de família! Atropelado por um carro, se a polícia achasse no bolso esta coleção de retratos? Linchado como tarado, a vergonha da cidade. Meu padrinho nunca perdoaria: o menino que marcava com miolo de pão a trilha da floresta. Ora uma foto na revista do dentista. Ora na carta a uma viuvinha do sétimo dia. Imagine o susto, a vergonha fingida, as horas de delírio na alcova – à palavra alcova um nó na garganta. Toda família tem uma virgem abrasada no quarto. Não me engana, a safadinha: banho de assento, três ladainhas e vai para a janela, olho arregalado no primeiro varão. Lá envelhece, cotovelo na almofada, a solteirona na sua tina de formol. Por que a mão no bolso, querida? Mão cabeluda do lobisomem. Não olhe agora. Cara feia, está perdido. Tarde demais, já vi a loira: milharal ondulante ao peso das espigas maduras. Oxigenada, a sobrancelha preta – como não roer unha? Por ti serei maior que o motociclista do Globo da Morte. Deixa estar, quer bonitão de bigodinho. Ora, bigodinho eu tenho. Não sou bonito, mas sou simpático, isso não vale nada? Uma vergonha na minha idade. Lá vou atrás dela, quando menino era a bandinha do Tiro Rio Branco. Desdenhosa, o passo resoluto espirra faísca das pedras. A própria égua de Átila – onde pisa, a grama já não cresce. No braço não sente a baba do meu olho? Se existe força do pensamento, na nuca os sete beijos da paixão. Vai longe. Não cheirou na rosa a cinza do coração de andorinha. A loira, tonta, abandona-se na mesma hora. Ó morcego, ó andorinha, ó mosca! Mãe do céu, até as moscas instrumento do prazer – de quantas arranquei as asas? Brado aos céus: como não ter espinha na cara? Eu vos desprezo, virgens cruéis. A todas poderia desfrutar – nem uma baixou sobre mim o olho estrábico de luxúria. Ah, eu bode imundo e chifrudo, rastejariam e beijavam a cola peluda. Tão bom, só posso morrer. Calma rapaz: admirando as pirâmides marchadoras de Quéops, Quéfren e Miquerinos, quem se importa com o sangue dos escravos? Me acuda, ó Deus. Não a vergonha, Senhor, chorar no meio da rua. Pobre rapaz na danação dos vinte anos. Carregar vidro de sanguessugas e, na hora do perigo, pregá-las na nuca? Se o cego não vê a fumaça e não fuma, ó Deus, enterra-me no olho a tua agulha de fogo. Não mais cão sarnento atormentado pelas pulgas, que dá voltas para morder o rabo. Em despedida – ó curvas, ó delícias – concede-me a mulherinha que aí vai. Em troca da última fêmea pulo no braseiro – os pés em carne viva. Ai, vontade de morrer até. A boquinha dela pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. Veja mais aqui e aqui.

É ASSIM QUE EU QUERO – Entre os poemas de Ísis Nefelibata, destaco o seu poema É assim que eu quero: De mini saia ou blusão, sem nada por baixo / Chego indecente e provocadora / Eu venho do nada, venho do tudo / Eu venho do Caos, sou sua Gaia, eu o pego tesudo / E em minhas cavernas, o faço Tártaro / Criando dos prazeres mais bárbaros / As bestas oníricas dos nossos pecados / E eu quero pecar, pecar e pecar / E me ajoelhar diante do seu altar / Pra receber os castigos e remissões / Dos meus pensamentos e gestos / Incrivelmente tarados por você / Invertemos posições em todos os sentidos / Você me saboreia por baixo do meu vestido / E quero mais é me esfregar na sua cara / Eu trago Eros comigo / Transformo-o de Érebo em Éter / E de Nix passo a Hemera / Sou romântica por seu amor / Mas por seu prazer eu sou fera / Eu quero mais que loucuras você cometa / Dentro do meu cu, boca e buceta / E não me poupe de suas taras e loucuras / Eu quero, eu quero, é assim que eu quero / Tudo e muito mais / Você sempre enfiado em mim / E eu cavalgando em você até o fim / De todos os recomeços. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO - Em 2002, tive oportunidade de assistir no Teatro Galpão do Folias, em São Paulo, à montagem do premiado melodrama A Maldição do Vale Negro, do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) e o diretor teatral Luiz Arthur Nunes, com direção de Dagoberto Feliz e elenco do Grupo Folias d’Arte, contando a histório que ocorre na primavera de 1834, na província de Castelfranc, França, no castelo dos Belmont, que se ergue imponente no alto do Vale Negro, quando uma velha e corcunda governanta, prepara a beberragem medicinal do último descendente de nobre linhagem que, doente e envergado pelos anos, cochila em seu recamier. Aí, uma pobre órfã acolhida na tenra infância pela generosidade do velho fidalgo, contando então com 19 anos, volta de seu habitual passeio pelo bosque trazendo flores e frutos silvestres. Subitamente a cascata que corre no Vale interrompe seu fluxo de paz e ouvem-se ao longe, brados tétricos e inumanos, pressagiando que algo terrível está por acontecer. É a maldição do Vale Negro. E, como nem tudo e nem todos são o que parecem ser, até que a paz volte a reinar na mansão dos Belmont, muitas reviravoltas estão a caminho. Veja mais aqui.

HISTORIA DE O – O filme A história de O (Histoire d'O, 1975), é oriundo do romance homônimo de Anne Desclos, sob pseudônimo de Pauline Réage, lançado em 1954, contando a história de uma mulher livre e independente, fotógrafa de moda e bem sucedida, que é levada por seu amante a um castelo na França, no qual ela se torna escrava dele e de outros homens. Ela é depois transferida ao pode de um outro dono, sendo marcada a ferro quente com as iniciais de seu novo mestre, e submetida, por sua própria vontade e consentimento, a uma variedade de práticas sexuais sadomasoquistas. A obra foi transformada em filme com direção de Just Jaeckin e a destacada atuação da belíssima atriz francesa Corinne Cléry. Veja mais aqui.

OBVIEDADES CÍNICAS
Se deu o créu, não se esconda!
Quando se abrem as comportas, o que vem de absurdo não está no gibi!
Quando as vacas estão magras, acabou-se o que era doce!
Quando o enterro voltar, era uma vez pra nunca mais!
Quando a precisão der na cara, não vá bancar o Acácio!
Se o negócio empenar, dê a volta por cima!
Se o pencó pegou no trupé, fique atento onde é que arrebenta!
Não vacile que a bronca sempre vem a dar com pau!
Não leve desaforo na cara, nem tudo ao pé da letra!
Na competição de hoje, ou se pega no chifre ou se é chifrado!
Se o negócio ferveu, não pegue no bico até esfriar!
Se a situação está movediça, saia da fundura enquanto pode!
Quando levar porta na cara, saiba que outras se escancaram!
Quando a bronca der em cima, vá dormir!
Bom de bola deve saber que a vida não se chuta!
Quando a fogueira queima, algo está assando!
Hoje quem tem topete tem que ter seguro!
Quem tem a caixa dos peitos invulnerável é Superman, viu?
No Brasil a adversidade só faz covardes!

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da belíssima atriz francesa Corinne Cléry.
 

VEJA MAIS:
As trelas do Doro, Doris Lessing, Maria Martins, Jean-Claude Brisseau, Virginie Legeay, Octave Tassaert & Jade da Rocha aqui

As águas de Alvoradinha, Rajneesh, Milan Kundera, Endimião & Selene, Jorge Ben-Jor, Anatol Rosenfeld, Anthony van Dyck, Lena Olin, Teco Seade, Socorro Cunha & João Lins aqui.  

Aristóteles, Erich Fromm, Georges Bataille, Rufino, Eliete Negreiros, Teatro Vivo, Walter Hugo Khouri, Arthur Braginsky, El Tomi Müller, Fernando Fiorese & Helena Ramos aqui.  

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: ilustração da obra Caperucita se Come al Lobo – versão de “Chapeuzinho Vermelho”, da escritora colombiana Pilar Quintana.
Veja aqui e aqui.
 

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...