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segunda-feira, abril 08, 2019

HUSSERL, LUIZ RUFFATO, MARIA ROSA NUNES, LAURA FINOCCHIARO, PALÍNDROMOS & ZÉ LINALDO


PALÍNDROMOS – 10:01, luzes, zás-trás. De pai e mãe, eu; de amor e sexo, a vida: palíndromos das horas. A infância na idolatria paterna; maternidade protetora no ninho das mulheres e a manha pelas enfermidades: primeiro os olhos vermelhos de fogo na roda-gigante; depois, amarelo de fígado. O menino são inventou a escada e subiu faca nos dentes, a goiabeira: o fruto à mão, meninas em festa. No último degrau, o espirro no telhado e a vertigem, a queda na lavanderia: a torneira e garrafas vazias, pernas pro ar, desacordado. Era primeira lição de sísifo, ouroboros. A vida passa e à flor da idade, o pedestre aos vinte e três anos, a encruzilhada e a colisão de automóveis. 05:50, o transeunte é alcançado, o atropelamento. Um corpo estendido entre o meio-fio e o asfalto, sangue na sarjeta. A segunda lição, afora outras de somenos. Vai já meia idade e as mãos em concha aos ouvidos, o silêncio no meio do zoadeiro. Velhice prematura, sabedoria inócua: a arte e não ter mais o que fazer, só esperar. Quantas lições entre gargalos, novelos, látegos, malabares, e a remover antolhos na magreza dos instantes, lixeiras destampadas, travessias lancinantes. 00:00, domingo que não sei se primeiro de janeiro ou diário limpo, anuário esquecido, quantos decênios e o milênio: o ideal da felicidade é uma luz refletida no espelho. Um rol de tantas frustrações e angústias exacerbadas, o isolamento do drama diário, cadê o inesperado, o mundo ordinário. Resta deitar no chão e saber que o medo é o limite da liberdade entre segredos e a insuportável convivência: insultos e agressões veladas. Sair da linha e renascer na devastação, o que restava: emoções encadeadas por tantos dias, 20 de março de 2003 ou 04 de abril de 2004, semanas, anos, décadas, só daria conta muito depois de pintar o sete por muitos sétimos períodos. A vida é morrer a cada dia e recomeçar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
 [...] Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro da classe média alta de Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma perna de calça e uma barriga, que se advinha em breve proeminente, indica a existência de um homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão. Pela composição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis – falta-lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa história, enfim. Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino, identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que, numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por detrás da máquina fotográfica? Quais são seus nomes, de onde vieram, onde estarão agora, o que fizeram de suas vidas, foram felizes? Do menino, sei eu – e, curiosamente, é o que menos importa. Mas, e todos aqueles que sucumbiram, sem voz e sem nome, e que a História registrará apenas nas lápides de humildes cemitérios que a borracha do tempo apagará? E os outros, que nem mesmo a morte resgatará do anonimato? [...] Imagem: filme Redemoinho, dirigido por José Luiz Villamarim e baseado na obra de Ruffato.
Trechos de Até aqui, tudo bem! - Como e porque sou romancista – versão século 21, do escritor Luiz Ruffato, extraído de Espécies de espaço: territorialidades, literatura, mídia (EdUFMG, 2008), organizado por Izabel Margato e Renato Cordeiro Gomes. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Maria Rosa Nunes que possui formação superior em design e atua profissionalmente com pinturas, colagens gráficas, arte digital e direção de arte em agências de publicidade. 
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

A MÚSICA LAURA FINOCCHIARO
A arte da cantora, compositora, guitarrista, arte-educadora e produtora musical Laura Finocchiaro, que iniciou sua carreira na esteira dos movimentos musicais da década de 1980, em Porto Alegre, e transitou em São Paulo nos palcos da Lira Paulistana, o Madame Satã e a Fábrica do Som, além de participar do festival Rock in Rio II, ao abrir os shows de Prince e Santana. Ela já lançou os álbuns Laura Finocchiaro (1992), Ecoglitter (1998), Tashi Delê mantras de roda (2001), Oi (2003), Lauras (2008), Copy paste, Música orgânica (2013), Eletrorgânica (2016), Eletrorgânica (Vol.2. 2017), On-Off (2018) e Princesinha devorada (2018). Tem se projetado com clipes, trilhas e crias sonoras, atuando no teatro e na televisão, em longas metragens, documentários e vídeo arte, desfiles de moda e arte educação, além de ter participado de diversas coletâneas. Veja mais aqui.
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A ARTE MUSICAL DE ZÉ LINALDO
A arte musical do músico, compositor, intérprete, arteducador e produtor cultural Zé Linaldo aqui, aqui & aqui
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É pela intencionalidade que podemos elucidar a estrutura da própria consciência imaginante. Só assim se põe em relevo o ponto mais importante desta vivência.
A obra do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl (1859-1938) aqui, aqui, aqui e aqui.


terça-feira, agosto 15, 2017

EPICURO, FELDENKRAIS, RUFFATO, WALTER CRANE, ADMAURO GOMMES, DIREITOS DA MULHER & PESQUISA CIENTÍFICA

UM PASSO & A VIDA – Imagem: Peacock Garden, do pintor inglês Walter Crane (1845-1915).- Um passo e o passado fez destino pra lugar nenhum. Minha vida salta algibeira afora voo solto do tronco familiar, na marcha agitada e veloz das inquietações: chegada ou partida? Cada passada, novas charadas; e a execução de tarefas fossem parábolas incompreensíveis que alertavam não poder parar no meio do caminho. As divagações levam pra fuga pelo asfalto paralelo das trilhas e das linhas férreas, rotas estelares, marítimas, pegadas nas ruas com seus aclives e declives que se bifurcam pra tantos que vão longe e eu sem saber ao certo com nenhuma premonição, a me ver sozinho restando telhados, lembranças, memórias de ontem. Uma cobra morde o rabo, uma corda sem fim e não resignei ao dobrar a esquina, o vaivém de labirintos pelos cursos d’águas e ferrugem nas mãos pelas horas, minutos, segundos e ziguezague: é a vida. Sigo sem direção até o jardim da morada tão calma e tão luminosa de Epicuro, na deidade de Lucrécio a me dizer que os espartanos preferiam ser sacrificados porque sabiam da liberdade e eu vox clamantis in deserto. Vejo tudo ao redor e de volta um passo a mais e o tropeço no insólito esfuziante, olhos grandes pra tudo, sem tédio, culpa ou angústia. Uma topada e o ourives Josse aconselhava uma guarnição de diamantes enquanto o tapeceiro Guillaume sugeria a compra de tapetes novos pra Sganarelle que lamentava ver sua filha Lucinda definhando de amores por Clitandro, um reles que não valia um tostão furado aos olhos dele, ah, sussurrava entre dentes, da Eneida de Virgilio, varium et mutable semper femina, arremedando da Ifigênia da Táurida de Eurípedes, a inconstância delas que eu quero pra mim bem fundo no coração. É que estou sozinho de tudo, um passo a mais e outro na corda bamba o fio condutor pela teia pra cair no mundo, On the road, com todas as vitórias do rei Pirro: outra dessa e estaria perdido! Um passo em falso e tudo desmorona até Alice me chamar, perguntando pro Gato de Cheshire: qual a estrada correta a se tomar? E ele: pra onde que ir? Qualquer lugar, ah, qualquer caminho serve para quem não sabe aonde quer ir. Quantas direções pra pular no escuro como quem mergulha no imprevisível, sequer sabia eu se pronto pra aventura, se corda no pescoço pelo cadafalso, se camisa de força no meio da lucidez, se passarela insegura, aprendi do provérbio chinês: uma jornada de mil quilômetros começa com um único passo! Pronde tu vai, menino? Qual Sandburg: Não sei aonde estou indo, mas estou caminhando. Vai com Deus. Vou. Onde me abrigar? Se delirando esperas setentrionais acompanhando o ritmo fenomenal dos acontecimentos, como quem espreita o perigo iminente na beira da rodovia, o acostamento escorregadio. Eu livrava a queda sem ter a menor ideia do que estava prestes a ocorrer, sem escala, deslizando, sem cogitar de nada ou qualquer fala alta noite pelas quebradas, avante, tochas acesas na silhueta do arrabalde e de carona pelos redemoinhos nas pegadas das estrelas e a trepidação do vento na linha do horizonte. Mãos esfregando as vistas pra enxergar faróis pelas chapadas e o barranco, vou de carona pelo tráfego até o retorno dos redemoinhos, corre-corre pelo capim verde a segurar o feixe de sonhos, zum! Portas abertas da clausura e a rua escura, roda mundo a bola rola peão e empina papagaio que o peixe é bom e barato, zás! Pernas pra que te quero! Quantos desvios, atalhos, infatigável andarilho se dando ao trabalho de buscar vestígios ao meio dia, interstícios da tarde, incansável peregrino entre trajetórias e torvelinhos com intrincados enigmas com seus fedores de mofo, inextricáveis estigmas das terras dilatadas na gaveta aberta, diversas e todas as alternativas, todas de uma vez, uma só escolha, apenas uma e agora, a opção, uni, duni, tê, todas ou nenhuma, ah, vai chupar dedo, só descaminhos, qual desfecho? Desenlaces. E um passo, já voltou, foi? Outro passo e a eternidade. Ouvi Krishnamurti: o primeiro passo é o único passo! Deus nos abençoe, porque quando a morte sobrevém, nenhum passo a mais, todas as direções e os pés no chão. De lugar nenhum qualquer caminho e aprender a lição de cada chegada e novo recomeço, caminhar é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
Ilustration from the faerie queene, do pintor inglês Walter Crane (1845-1915)

MÁXIMAS PRINCIPAIS DAS OITENTA SENTENÇAS DE EPICURO – [...] Antes de mais, nada provém do nada, pois que então tudo nasceria sem necessidade de sementes. E, se te dissolvesse no nada tudo o que desaparece, todas as coisas seriam destruídas, anulando-se as partes nas quais se decompunham. E também é certo que o todo foi sempre tal como é agora e será sempre assim, pois nada existe nele que possa mudar-se. Com efeito, mais além do todo não existe nada que penetrando nele produza a sua transformação. [...] Então quem obedece à natureza e não às vãs opiniões a si próprio se basta em todos os casos. Com efeito, para o que é suficiente por natureza, toda a aquisição é riqueza, mas por comparação com o infinito dos desejos, até a maior riqueza é pobreza. [...] Não são os convites e as festas contínuas, nem a posse de meninos ou de mulheres, nem de peixes, nem de todas as outras coisas que pode oferecer uma suntuosa mesa, que tornam agradável a vida, mas sim o sóbrio raciocínio que procura as causas de toda a escolha e de toda a repulsa e põe de lado as opiniões que motivam que a maior perturbação se apodere dos espíritos. De todas estas coisas, o princípio e o maior bem é a prudência, da qual nascem todas as outras virtudes; ela nos ensina que não é possível viver agradavelmente sem sabedoria, beleza e justiça, nem possuir sabedoria, beleza e justiça sem doçura. As virtudes encontram-se por sua natureza ligadas à vida feliz, e a vida feliz é inseparável delas. A justiça não tem existência por si própria, mas sempre se encontra nas relações recíprocas, em qualquer tempo e lugar em que exista um pacto de não produzir nem sofrer dano. [...] As leis existem para os sábios, não para impedir que cometam, mas para impedir que recebam injustiça. [...] A natureza, única para todos os seres, não fez os homens nobres ou ignóbeis, mas sim a suas ações e as disposições de espírito. [...] O sábio que se pôs à prova nas necessidades da vida, melhor sabe dar generosamente que receber: tão grande é o tesouro da íntima segurança e independência dos desejos que em si possui. [...]. Trechos extraídos da obra Máximas principais (Abril, 1980), do filósofo grego Epicuro de Samos (341-271aC). Veja mais aqui.

CONSCIÊNCIA PELO MOVIMENTO – [...] Nós agimos de acordo com a nossa autoimagem. Esta, que por sua vez governa todos os nossos atos, é condicionada em graus diferentes por três fatores: hereditariedade, educação e autoeducação. [...] Trecho extraído da obra Consciência pelo movimento (Summus, 1977), do engenheiro israelense Moshé Feldenkrais (1904-1984), fundador do método que visa a melhoria do funcionamento humano, aumentando a autoconsciência através do movimento, defendendo que o pensamento, o sentimento, a percepção e o movimento estão estreitamente inter-relacionados e influenciam-se.

DIREITOS DA MULHER – [...] os direitos reprodutivos parecem realmente constituir-se numa quarta geração de direitos – ao lado dos direitos civis, politicos e sociais – a partir do momento em que se resolve adotar uma visão paritária da sociedade. Com efeito, a integração da perspectiva de gênero na análise do social nos leva, tanto do ponto de vista epistemológico quanto democrático, a considerar uma cidadania que seria modulável, a depender dos sujeitos que a assumissem, particularmente em matéria de direitos reprodutivos. Tratar-se-ia, então, de uma cidadania que fugiria ao atual quadro “assimilacionista” para entrar em outro quadro, no qual a essência particularista da universalidade seria do interesse e da responsabilidade de todos. Mas, antes que essa cidadania tenha condições de se tornar efetiva, é preciso garantir suas condições de existência. [...] Pois o alastramento da pobreza – em particular daquela que está marginalizando um numero cada vez maior de mulheres – é revelador de uma sociedade em que parecem permanecer as representações culturais de uma tradição hierárquica, formando um modelo de sociabilidade que torna difícil a construção de um princípio de reciprocidade, principio que atribui ao outro o status de sujeito com interesses reconhecidos e direitos legítimos. Essas representações, que confortam uma pobreza hoje despojada de qualquer dimensão ética, engendram uma incivilidade que permeia toda a vida social brasileira e está enraizada num imaginário tenas, na qual a pobreza representa igualmente uma marca de inferioridade e um modo de ser que parece tornar os indivíduos incapazes de exercerem suas responsabilidades e direitos. O paradoxo reside, com efeito, num modelo de cidadania que considera a justiça como um dever do Estado, porém elimina, ao mesmo tempo, os efeitos igualitários de certos direitos, reproduzindo na esfera social as desigualdades, hierarquias e outras exclusões, em particular das mulheres. [...]. Trechos extraídos do artigo Os direitos reprodutivos: rumo a uma quarta geração de direitos (SOS Corpo, Gênero e Cidadania, 1997), de Bérengére Marques-Pereira e Alain Carrier. Veja mais aqui.

PESQUISA CIENTÍFICAA pesquisa científica objetiva fundamentalmente contribuir para a evolução do conhecimento em todos os setores, da ciência pura, ou aplicada; da matemática ou da agricultura, da tecnologia ou da literatura. Ora, tais pesquisas são sistematicamente planejadas e levadas a efeito segundo critérios rigorosos de processamento das informações. Será chamada de pesquisa se sua realização for objeto de investigação planejada, desenvolvida e redigida conforme normas metodológicas consagradas pela ciência. [...] Objetivamente, a pesquisa científica divide-se em pura e aplicada, e sua finalidade principal é concorrer para o progresso da ciência. [...].Trechos extraídos do livro Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas (Atlas, 2007), de João Bosco Medeiros. Veja mais aquiaqui.

HAVERES DE RUFFATO - [...] Na passagem de ano do milênio, o telefone soou onze da noite, o coração aos murros, Uma desgraça, meu deus, do outro lado a voz sufocada pelos estrondos, Feliz Ano Novo! Feliz Ano Novo!, Mas, minha filha, ainda nem é meia-noite, Aqui já é, mãe, aqui já é, Onde você está, minha nossa senhora? Nova Iorque, mãe, Nova Iorque! Um dia ainda levo a senhora pra ver o mar... Um dia ainda levo a senhora pra andar de avião... Um dia ainda levo a senhora pra conhecer o meu apartamentinho em Brasília.... promessas... coitadinha... que não podia talvez cumprir... mas entendia, ah, entendia... E casar, minha filha? Casar?, eu?, de jeito maneira, mãe... homem só serve pra trepar... mais nada, Quê isso, minha filha”, e gargalhava. Trecho de Haveres, extraído da obra Vista parcial da noite (Record, 2006), do escritor Luiz Ruffato. Veja mais aqui e aqui.

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EM NOME DA PAZ
 
Em nome da paz
Fizemos grandes guerras
Fizemos muralhas
Bomba atômica, míssil
Metralhadora e canhão.
Em tempo de paz
Estratégia de guerra
Em tempo de guerra
Projetos de paz.
Matamos crianças
Que viviam em paz
E que ainda não conheciam
A guerra que veio em nome da paz.
Incendiamos cidades
Impérios
Torres
Escolas
E hospitais.
O que falta fazer mais?
Poema extraído do livro Para nunca mais dizer adeus (Bagaço, 2006), do poeta e professor Admmauro Gomes, autor de Poemas do manancial de luz (Bagaço, 2002), Luta dentro de mim (1998), Mares (Bagaço, 2001), Síntese da Literatura Brasileira (Ideia, 2013), organizador da obra Estudos literários e sociolingüísticos: artigos em língua e literatura (Bagaço, 2007), e co-autor em Cinco poetas e um luar (Burarema, 2009), entre outras obras. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, julho 27, 2016

MAX RICHTER, VIOLA SPOLIN, LUIZ RUFFATO, RUDOLF ARNHEIM, FERNAND LÉGER, REGINA KOTAKA, EUGÉNIA SILVA, FONSSAGRIVES, NAIPI & TAROBÁ


O AMOR DE NAIPI & TAROBÁ – As águas do rio Iguaçu paravam para a formosa Naipi se banhar. O Sol brilhava mais vivo, os pássaros alvoroçavam aos gorgeios de todos os tons, a Natureza inteira com todos os seus bichos, árvores, folhas e flores, irradiava pujança, tudo se tornava a mais maravilhosa felicidade para saudar a mais bela entre todas as mulheres da Terra: a filha do cacique da tribo Caingangue. A fascinante boniteza dela exalava ternura por todos os seus poros e, mais que feliz, distribuía com tudo e com todos a sua generosa alegria cativante. Era admirada por todos, mas o seu coração exultava de paixão por Tarobá, o jovem guerreiro, forte e valente que vivia naquela tribo. Ambos viviam enlaçados pelo mais profindo sentimento de amor. Eis que um dia, o cacique da tribo anunciou que era chegada a hora da festa de consagração para a escolha da jovem que serviria ao governante do mundo, Mboi, o filho de Tupã que possuía a forma de uma serpente. A escolhida passaria a viver exclusivamente a serviço do seu culto, garantindo a proteção do deus para eles. Reuniram-se todos para escolher entre as jovens e, por unânime resultado, Naipi fora escolhida. A tribo fez-se festa, o pajé e os caciques se embriagavam com cauim, os guerreiros dançavam e todos festejavam a escolhida. Ao saber disso, Tarobá entristeceu-se, viu seu amor ser destruído de uma hora pra outra. Então, num lance de coragem, enquanto todos se esbaldavam nos festejos, ele resolveu raptar a formosa Naipi, fugindo com ela numa canoa rio abaixo pela correnteza. Quando o deus Mboi chegou para se apossar da escolhida, verificou-se que ela havia desaparecido. Ele ficou furioso e com todo seu poder contraiu os anéis do seu corpo para remover as entranhas da Terra e das profundas do mundo abriu uma fenda tão gigantesca, produzindo uma terrível e extensa catarata. Todos estavam amedrontados com a ira do deus que ao dar conta dos fugitivos, fez com que as águas revoltas emergissem até a maior altura dos céus e da lá despencar em queda por uma grandiosa cachoeira. Os amantes sem saída e levados pela fúria do deus, desaparecem entre as águas para sempre. Mboi vai caçá-los e recupera os corpos dos deles, transformando Naipi em uma grande rocha no centro das cachoeiras, e Tarobá em uma árvore inclinada à beira do abismo nas gargantas do rio. Assim fez e ficou ele radiante com a sua vingança. Foi do amor dos belos apaixonados que surgiram os Saltos do Iguaçu. (Recolhida da coleção Viagem através do Brasil, de Ariosto Espinheira). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do pintor e desenhista do Cubismo francês e autor de litogragias, Fernand Léger (1881-1955). Veja mais aqui

 Curtindo o álbum Recomposed by Max Richter: Vivaldi - The Four Seasons (Deutsche Grammophon, 2012), do compositor germânico Max Richter, com Daniel Hope, André de Ridder & Konzerthaus Kammerorchester Berlin.

PESQUISA:
Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. As pessoas que desejarem são capazes de jogar e aprender a ter valor no palco. Aprendemos através da experiência, e ninguém ensina nada a ninguém. [...] é no aumento da capacidade individual para experienciar que a infinita potencialidade de uma personalidade pode ser evocada. Experienciar é penetrar no ambiente, é envolver-se total e organicamente nele. [...].
Trecho do livro Improvisação para o teatro (Perspectiva, 1979), da autora e diretora Viola Spolin (1906-1994). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA
[...] há seis anos escorria sua pálida magreza pelas poucas sombras das ruas tristes de muriaé cidade triste há cinco anos vestia-se com as primeiras neves de fairfield ohio graças  a uma bolsa do american fields ganha em concurso promovido pela loja do rotary club de muriaé cidade triste há quatro anos arranhava suas incertezas no Citibank suas certezas no citibank há dois anos ganha dinheiro pro o velho não vai deixar porra nenhuma pra mim há um ano cuida do caixa-dois da corretora vai ficar tudo pros ela desembarca london-gatwick um anel adquirido na portobello road  na palma da mão é seu londres como estava? tum-tum tum-tum tum-tum tum-tum [...]
Trecho da obra Eles eram muitos cavalos (Companhia das Letras, 2013), do premiado escritor Luiz Ruffato. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: 
[...] Se alguém quiser entender uma obra de arte, deve antes de tudo encará-la como um todo. O que acontece? Qual é o clima das cores, a dinâmica das formas? Antes de identificarmos qualquer um dos elementos, a composição total faz uma afirmação que não podemos desprezar. Procuramos um assunto, uma chave com a qual tudo se relacione. Se houver um assunto instruímo-nos o mais que pudermos a seu respeito, porque nada que um artista põe em seu trabalho pode ser negligenciado impunemente pelo observador. Guiado com segurança pela estrutura total, tentamos então reconhecer as características principais e explorar seu domínio sobre detalhes dependentes. Gradativamente, toda a riqueza da obra se revela e toma forma, e, à medida que a percebemos corretamente, começa a engajar todas as forças da mente em sua mensagem. É para isto que o artista trabalha. [...].
Trecho da obra Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora (Pioneira, 2005), do psicólogo alemão Rudolf Arnheim (1904-2007), desenvolvendo os conceitos representativos da Psicologia da Forma.

IMAGEM DO DIA: 
A arte do fotógrafo francês Fernand Fonssagrives (1910-2003).

Veja mais sobre Duofel, Jean Baudrillard, Richard Wagner, Edgar Allan Poe, Roger Vadim, Vicente do Rego Monteiro, Alice Kaub-Casalonga, Tristão & Isolda, Pina Bausch, Miles Willaims Mathis & Jayme Griz aqui.

DESTAQUE:
A arte da bailarina Regina Kotaka.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da modelo e advogada espanhola Eugénia Silva.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.


sexta-feira, setembro 18, 2015

PINKER, NEILA, BRECHT, GRETA, RUFFATO, ROCIO JURADO, MARQUET, BRUNO GAUDÊNCIO & NASCENTE.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NASCENTE – A edição nº 15 – colorida, 16 páginas, ano II, nov/dez/1998-jan/1999, do tabloide Nascente – Publicação Lítero Cultural, traz como editorial Missiva aos quatro cantos do mundo. Na seção Bate Papo, entrevista com Jorge Amado. E no Notas Literárias, coluna assinada por Ari Lins Pedrosa: O sonho de Alice, de Maria Lucia Nobre dos Santos; a revista Blau (RS), o folheto Letraviva (RJ) e a última entrevista de José Paulo Paes. As matérias publicadas nesta edição: A arte do espetáculo, não o espetáculo da arte, de Guido Bilharinho (MG); Hermilo de Palmares, de Sônia van Dijck (PB); Ossos, músculos, vermes e flores por José Luiz Dutra de Toledo (SP); Carícia da Felicidade, por Arriete Vilela (AL); Paisagem depois da pintura, por Almandrade (BA); Natal, por Felisbelo da Silva (CE); e na seção Tabuletas, o episódio das Proezas do Biritoaldo: Quando risca fogo, o rabo inflamável sofre que só sovaco de aleijado. Além disso, matérias sobre a Bienal do Livro e da Arte de Alagoas, a III Feira do Livro de Fortaleza, o 4º Maceió Jazz Festival, XIV Bienal de São Paulo, I Seminário Brasileiro da Produção Cultural e o Salão Internacional do Livro de São Paulo. Na seção de Humor tiras de Cedraz & charges de Lupin, Rico e Calafange. Na seção do Premio Nascente de Arte Infanto-Juvenil, trabalhos da garotada: Juliana Sena, 4 anos (Colégio Menino Jesus – Maceió-AL), José Ventura Leite Junior (Ginásio Municipal – Palmares –PE), Nathália Senna, 11 anos (Colégio Menino Jesus – Maceió-AL), Nicola, 09 anos (Escola Monteiro Lobato – Maceió-AL), Larissa Cris Viera da Paixã, 06 anos (Colégio Carlos Drummond – Maceió-AL) e Diogo Palmeira Acioli (Colégio Santa Terezinha – Maceió-AL). Na seção Nascente Poético, poemas de Claudio Feldman (SP), Whisner Fraga (MG), Anand Rao (DF), Arriete Vilela (AL), Almandrade (BA), Mauricio de Macedo (AL), Rogério Salgado (MG), Denise Teixeira Viana (RJ), Milton Dias Fernandes (MG), João Bosco de Castro (MG), Ari Lins Pedrosa (AL), Osael Carvalho (RJ), Francisco Araujo Filho (AL), Felisbelo Silva (CE), Severino Cassiano (PE), Gomes (CE), Cecilia Fideli (SP), Marcos Ramon (MA), Chrys Andrezza (PE), Carlos A S Lopes (VA), Lari Franceschetto (RS), Belinha Ribeiro (PR), Maria de Fátima Dias (MS), Amadeu Thomé (MG), Rosy Arruda (MT), Jorge Luiz (AL), Maria Thereza Carvalheiro (SP), Renato Salatiel, Selmo Vasconcelos (RO), Humberto Del Maestro (ES), Paulo Guggiana (RS), Claudebara Soares (AM). Na seção Registro: a Feira da Habitação, Arquitetura e Decoração – Habite (AL), o lançamento do livro Luta dentro de mim, do poeta Edmauro Gomes; o livro Feminino/Masculino: imaginário de diferentes épocas, de Eloá Jacobina e Maria Helena Kuhner; a coletania Conquistando mais amizades, de Fátima Segatto (RS); o curso História da Arte e Cultura Oriental Arte e Arquitetura Japonesa: influencia e difusão, ministrado por Celia Campos; o I Festival de Poesia na Amazonia; o livro Poemas do lado de dentro, de Adélia Magalhães; a Minha Revistinha, da Turma do Xaxado, de Antonio Cedraz (BA); os livros Miscelânea Literária e Navegando na Literatura, de Aldenor Benevides (CE); a peça teatral A flor e o sol de Cicero Belmar; a I Mostra de Teatro Sesc-Maceió; a estreia da peça teatral Falange, Falanginha, Falangeta, do grupo Ascenarte Produções Artisticas, no Teatro Cinema Apolo, em Palmares –PE, com direção de Gilvan Mota, no projeto Arte+Educação=Teatro, promovido pelo Dere/Mata Sul, gestão Flavio Miranda. Na seção Espaço Aberto recebemos missivas de Salomão Laredo (PA), Tania Francolacci Shambeck (SC), Luiz Fernando da Silva (PB), Jorge Saraiva Anastácio (MG). Zeca Domingosilva (RO), Danilo Sampaio (SE), Fernando Cereja (SP), Silvério Costa (SC), Anchieta Santa (PI), Mara S; J; Silva (PR), Zinei (SP), Leontino Filho (RN), Reginaldo Zoid (SP), Piero lo Tacono (Italia), Marina de Fátima Dias (MS), Rolando Revagliatti (Argentina), Severino Cassiano Ferreira (PE), Sidney Gomes (ES), Maria Tereza Cavalheiro (SO) e Sérgio Junior (RJ). Destaques da edição para o desenho de Ângelo Meyer, do Teatro Cinema Apolo, sede da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, em Palmares – PE. Também a foto de José Ademir Machado dos Santos, da Praia de Pajuçara, em Maceió, premiada na II Jornada Turística Você escolhe o cartão-postal de Maceió. A Gata do Mês deste número foi dedicado à modelo, estudante e Miss São Miguel dos Campos/1999, Macy Barbosa, 21 anos, fotografada por André Fon. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Nude Standing Female, do pintor do Fauvismo francês Albert Marquet (1875-1947).


Curtindo o álbum Yerbabuena & nopal (2003), da cantora e atriz espanhola Rocio Jurado (1946-2006)

PALAVRAS E PENSAMENTOS – No livro Do que é feito o pensamento: a língua como janela para a natureza humana (Companhia das Letras, 2008), do escritor, linguista e psicólogo canadense-americano Steven Pinker, encontro o capítulo denominado Palavras e pensamentos, do qual destaco o trecho: Tomemos o pomo da discórdia do debate semântico mais caro do mundo, a discussão de 3,5 bilhões de dólares sobre o significado de "event". O que, exatamente, é um evento, um fato? Um evento é um período de tempo, e o tempo, segundo os físicos, é uma variável contínua - um fluxo cósmico inexorável, no mundo de Newton, ou uma quarta dimensão no hiperespaço contínuo, no de Einstein. Mas a mente humana esculpe esse tecido em pedaços independentes a que chamamos eventos. Onde a mente coloca as incisões? Às vezes, como ressaltaram os advogados do arrendatário do World Trade Center, o corte engloba a mudança de estado de um objeto, como o desabamento de um prédio. E às vezes, como ressaltaram os advogados das seguradoras, ele engloba o objetivo de um agente humano, como uma trama sendo executada. Na maioria das vezes, os círculos coincidem: um agente pretende fazer com que um objeto mude, a intenção do agente e o destino do objeto são acompanhados numa única linha temporal, e o momento da mudança marca a consumação da intenção. O conteúdo conceitual por trás da linguagem em disputa é, por si só, como uma língua (idéia que ampliarei nos capítulos 2 e 3). Representa uma realidade análoga por unidades digitais, do tamanho de palavras (como "event"), e as combina em organizações com uma estrutura sintática, em vez de misturá-las como trapos dentro de um saco. É essencial para nossa compreensão do 11 de setembro, por exemplo, não apenas que Bin Laden tenha agido para prejudicar os Estados Unidos, e que o World Trade Center tenha sido destruído mais ou menos naquela época, mas que foi o ato de Bin Laden que causou a destruição. É a ligação causal entre a intenção de um homem específico e a mudança em um objeto específico que distingue a compreensão mais disseminada do 11 de setembro das teorias da conspiração. Lingüistas chamam o conjunto de conceitos e os esquemas que os combinam de "semântica conceitual". A semântica conceitual - a linguagem do pensamento - tem de ser diferente da linguagem em si, senão não teríamos para onde ir quando discutíssemos o que nossas palavras significam. O fato de que interpretações rivais de um mesmo episódio possam desencadear um processo judicial extravagante evidencia que a natureza da realidade não dita a forma como a realidade é representada na cabeça das pessoas. A linguagem do pensamento nos permite enquadrar uma situação de maneiras diferentes e incompatíveis entre si. O desenrolar da história da manhã de 11 de setembro em Nova York pode ser pensado como um fato ou dois fatos, dependendo de como o descrevemos mentalmente para nós mesmos, o que por sua vez depende de no que escolhemos nos concentrar e o que escolhemos ignorar. E a capacidade de enquadrar um fato de formas auto-excludentes não é só motivo para ir aos tribunais, mas também é a fonte da riqueza da vida intelectual humana. Como veremos, ela proporciona o material para a criatividade científica e literária, para o humor e os trocadilhos, e para os dramas da vida social. E arma o cenário para inúmeras arenas de disputa humana. As pesquisas com células-tronco destroem uma bola de células ou um ser humano incipiente? A incursão militar norte-americana no Iraque é um caso de invasão de um país ou de libertação de um país? O aborto consiste em encerrar uma gravidez ou em matar uma criança? Impostos altos são uma forma de redistribuir a renda ou de confiscar receita? A medicina socializada é um programa para proteger a saúde dos cidadãos ou para expandir o poder do governo? Em todos esses debates, duas formas de enquadrar um fato são colocadas uma contra a outra, e os contendores lutam para mostrar que seu enquadramento é o mais adequado (critério que exploraremos no capítulo 5). Na última década, lingüistas proeminentes vêm orientando os democratas norte-americanos sobre como o Partido Republicano conseguiu, mais do que eles, fazer esse enquadramento nas últimas eleições, e sobre como eles podem retomar o controle da semântica do debate político, reenquadrando, por exemplo, taxes [impostos] como membership fees [anuidades/mensalidades] e activist judges [juízes ativistas] como freedom judges [juízes pela liberdade]. O debate sobre a cardinalidade do 11 de setembro ressalta um outro fato curioso sobre a linguagem do pensamento. Quando reflete sobre como contar os eventos daquele dia, pede que os trate como objetos que podem ser contabilizados, como uma pilha de fichas de pôquer. O debate sobre se houve um fato ou dois em Nova York naquele dia é como uma discussão sobre se há um item ou dois num caixa rápido de supermercado, como um par de tabletes de manteiga tirados de uma caixa de quatro, ou um par de toranjas vendidas a duas por um dólar. A semelhança na ambigüidade entre contabilizar objetos e contabilizar fatos é uma das muitas maneiras pelas quais o espaço e o tempo são tratados de modo equivalente na mente humana, bem antes de Einstein descrevê-los como equivalentes na realidade. Como veremos no capítulo 4, a mente classifica a matéria em coisas individuais (como a sausage [uma lingüiça]) e em matéria contínua (como meat [carne]), e do mesmo jeito classifica o tempo em fatos individuais (como to cross the street [atravessar a rua]) e em atividades contínuas (como to stroll [passear]). Tanto com o espaço como com o tempo, o mesmo zoom mental que nos permite contar objetos ou eventos também nos permite ver ainda mais de perto do que cada um é feito. No espaço, podemos nos concentrar na composição material de um objeto (como quando dizemos I got sausage all over my shirt [Tenho lingüiça na minha blusa inteira]); no tempo, podemos nos concentrar numa atividade que compõe um evento (como quando dizemos She was crossing the street [Ela estava atravessando a rua]). Esse zoom cognitivo também permite que nos afastemos no espaço e vejamos uma coleção de objetos como um conjunto (como na diferença entre a pebble [um seixo] e gravel [cascalho]), e que nos afastemos no tempo e vejamos uma coleção de eventos como uma iteração (como na diferença entre hit the nail [bater num prego] e pound the nail [martelar um prego]). E no tempo, assim como no espaço, mentalmente colocamos uma entidade num certo local e então a movimentamos: podemos move a meeting from 3:00 to 4:00 [transferir uma reunião das 15h para as 16h] da mesma maneira como podemos move a car [mover um carro] do começo até o fim de um quarteirão. Por falar em fim, até algumas das minúcias de nossa geometria mental se transportam do espaço para o tempo. O end of a string [a ponta/o fim de um cordão] é tecnicamente um ponto, mas podemos dizer Herb cut off the end off the string [Herb cortou fora a ponta/o fim do cordão], mostrando que o fim pode ser interpretado incluindo um penduricalho de matéria adjacente a ele. O mesmo acontece com o tempo: o end of a lecture [fim de uma palestra] é tecnicamente um instante, mas podemos dizer I'm going to give the end of my lecture now [Vou fazer agora o fim/a conclusão de minha palestra], interpretando o encerramento de um evento incluindo um pequeno período de tempo adjacente a ele. Como veremos, a língua está repleta de metáforas implícitas como FATOS SÃO OBJETOS e TEMPO É ESPAÇO. O espaço, na verdade, revela-se um veículo conceitual não apenas para o tempo, mas para vários tipos de estados e circunstâncias. Assim como uma reunião pode move from 3:00 to 4:00 [mudar das 15h para as 16h], um semáforo pode go from green to red [ir/passar do verde para o vermelho], uma pessoa pode go from flipping burgers to running a corporation [ir/passar de balconista de lanchonete a diretor de empresa], e a economia pode go from bad to worse [ir de mal a pior]. A metáfora está tão disseminada na língua que é difícil encontrar expressões para idéias abstratas que não sejam metafóricas. O que a concretude da linguagem diz sobre o pensamento humano? Ela implica que mesmo nossos conceitos mais etéreos são representados na mente como pedaços de matéria que mudamos de lugar num palco mental? Ela indica que afirmações rivais sobre o mundo nunca podem ser verdadeiras ou falsas, mas apenas metáforas excludentes entre si que enquadram a situação de modos diferentes? Essas são as obsessões do capítulo 5.[...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

UMA HISTÓRIA INVEROSSÍMIL – No livro Flores artificiais (Companhia das Letras, 2014), do premiado escritor Luiz Ruffato, encontro a parte denominada Uma história inverossímil, da qual destaco o trecho: Li, certa vez, um ensaio do escritor italiano Luigi Pirandello em que ele afirma que a vida pode ser inverossímil, a arte não. Pois esta história, por ser real, soará talvez fantasiosa. Para comprová-la sequer conseguiria avocar o testemunho do protagonista, que jaz numa cova rasa no alto do Cemitério Municipal de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais. Nem mesmo saberia localizar os personagens secundários, há muito encobertos pelo pó do tempo. Portanto, cabe empenhar minha palavra de que o aqui exposto busca recompor, da melhor maneira possível, alguns aspectos da biografia de Robert (Bobby) William Clarke. O resultado é uma envergonhada sombra de sua verdadeira trajetória que possui passagens muito mais insólitas... As noites de inverno costumam ser bastante frias em Juiz de Fora. Podem tornar-se insuportáveis, caso não se esteja bem agasalhado. Eu vinha de Rodeiro, lugar quente, filho de uma família de sitiantes pobres, e, embora há tempos morando na cidade, não me habituava com a mudança de clima. Naquele segundo ano cursando engenharia, tinha me estabelecido numa pensão barata na parte baixa da rua Batista de Oliveira, que, se durante o dia animava-a forte comércio monopolizado por sírios e libaneses, à noite transformava-se em reduto de pequenos traficantes, malandros e meretrizes. Partilhava o quarto, constituído por dois beliches e guarda-roupa, com dois estudantes, um de direito, outro de odontologia, e um sujeito, pouco mais velho que nós, que consumia os dias à janela, fumando cigarros ordinários e falando sobre projetos irrealizáveis. Seguia com rigor uma rotina. Pela manhã, incluso na mensalidade, dona Clarice oferecia-nos pão mirrado, no qual lambuzava uma leve camada de margarina, e uma caneca de ágata cheia de café ralo manchado por um pingo de leite. Saía correndo, pegava um ônibus lotado, assistia aulas até o meio-dia, almoçava uma comida insossa e pesada no restaurante universitário, acompanhava com sono algumas disciplinas à tarde. De regresso, conversava com os colegas, repassava lições, lia um romancista russo, minha obsessão naquela época. Perto das onze e meia me dirigia à avenida dos Andradas, onde aguardava, junto com boêmios, desempregados, prostitutas e desvalidos em geral, Bebel servir, à meia-noite, sua famosa porque baratíssima sopa, elaborada com sobras do dia, com que nos refestelávamos. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O OFÍCIO DE ENGORDAR AS SOMBRAS & ACASO CAOS – Durante a realização da Fenelivro este ano, em Olinda, conheci pessoalmente o poeta, jornalista e historiador Bruno Gaudêncio, de quem eu conhecia apenas de livro. Dele eu já havia lido O ofício de engordar as sombras (Sal da Terra, 2009), com apresentação do poeta e professor Sebastião Costa Andrade e do poeta José Inácio Vieira de Melo, que na primeira parte Diário das sombras severas, destaco o poema Versos íntimos: Eu, / cheio de ossos e intenções / perturbo / com meus versos curtos / e dedos longos / o sentido das trevas que me pertencem. Na segunda parte, As cores do invisível, destaco o ótimo poema Submersos sabores: No transparente suspiro dos corpos / sussurram palavras de submersos / sabores. / O prazer, dentro da gente, / se faz e refaz ao longo das horas... / ao longo dos dias. / Prisioneiro do tempo / pergunto ao desejo sobre / a lonjura da solidão, - / essa mão ligeira que embriaga / os espaços perpétuos do coração. / Indago sobre o miolo da angustia sincera / essa prece gratuita que voa / rente as ranhuras do abismo / do corpo e da alma. / Desejo dentro da gente, / se faz e refaz ao longo das horas... / ao longo dos dias. / Há sempre um deus brincando / na forma disforme do amor. Gostei do livro. Agora tenho às mãos, o seu mais recente livro Acaso caos (Ideia, 2013), com apresentação do poeta e tradutor paraibano Luís Avelima e do poeta carioca Sérgio Bernardo, posfácio do poeta e critico literário Weslley Barbosa, e comentários de Lau Siqueira, Linaldo Guedes, Astier Basílio, Hildeberto Barbosa Filho, Sergio Castro Pinto, entre outros. Na primeira parte Ruídos do efêmero destaco, incialmente, Cadernos de Pele: o olho não diz / quantos espelhos / são capazes / de sangrar / a aurora, / mas cala / as pedras / com o / silêncio / da queda / no cântico / sonoro / da solidão. E, também O tamanho de uma cor: não se pesa / um poeta / por palavras, / apenas / não se mede / um poema / por sentidos / (em cenas) / pois um poeta / é o peso / e a medida / do poema / (in)exato. Na segunda parte Elementos do acaso, destaco o belíssimo O delírio das rosas: vermelhas elas gritam / com os seus delírios dialéticos / espinhos que comem abismos / penentram os nossos destinos / (dançando a valsa dos ventos) / e ao murcharem / o fogo dos seus gestos / já não afagam os nossos olhos. Muito bom. O poeta tem demonstrado a firmeza de quem sabe o que faz, meritório, inclusive, de ser reverenciado pelo talento, aplausos. Parabéns, Bruno. Veja mais aqui e aqui.

CASAMENTO DO PEQUENO BURGUÊS – A peça teatral O casamento do pequeno burguês (1919-1926/Deriva, 2012), do dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), conta a história de um casamento caracterizado pelo conflito, em que todos os membros familiares envolvidos adotam posições antagônicas, instigando a reflexão sobre a moral, os valores, tradições e conveniências burguesas. Da obra destaco o trecho inicial da peça: (Uma sala pintada de branco com uma grande mesa retangular no centro. Acima da mesa, um lampião de papel vermelho. Nove cadeiras de madeira, simples e com braços. Na parede: à direita uma “chaise longue”, à esquerda uma cristaleira. Entre elas, uma porta. No fundo, ao lado esquerdo, uma mesinha baixa com duas poltronas. Na frente, à esquerda, uma porta e à direita uma janela. A mesa, as cadeiras e a cristaleira são de madeira bruta, não polida. É noite. O lampião vermelho está aceso. Os convidados do casamento estão sentados ao redor da mesa comendo). A MÃE (trazendo um prato) – Aqui está o bacalhau! (Murmúrios de elogios). O PAI – Isso me faz lembrar de uma história! A NOIVA – Come papai! O senhor sempre perde a vez! O PAI – Primeiro a história. No dia da minha confirmação o seu falecido tio estava... Não, essa já é uma outra história... Bem, todos nós estávamos comendo peixe, todos juntos, quando de repente, ele se engasgou com uma espinha. Vocês devem tomar muito cuidado com estas malditas espinhas! Bem, então ele engasgou e começou a sacudir os braços e as pernas, como se estivesse remando... A MÃE – Jakob, o rabo é seu! O PAI – ... Como se estivesse remando e a ficar azul como uma carpa e derrubou um copo de vinho! Nos pregou um susto o desgraçado! Aí bateram nas costas dele como se ele fosse um tambor e ele vomitou tudo por cima da mesa. Não se podia comer mais ali. Nós ficamos contentes porque fomos comer tudo lá fora, sozinhos, afinal era a minha confirmação, então vomitou tudo por cima da mesa e quando nós conseguimos deixar ele em forma de novo, ele disse com uma voz bem profunda e feliz, ele era ótimo baixo e cantava no coral, sobre isso também tem uma história ótima, então ele disse... A MÃE – Meu peixe está bom? Por que ninguém diz nada? O PAI – Hum, delicioso! Então ele disse... A MÃE – Mas você ainda nem provou! O PAI – Eu vou comer agora! Então ele disse... A MÃE – Jakob, come mais um pedaço. O NOIVO – Mamãe, meu sogro está contando uma história! O PAI – Muito obrigado, Jakob. Então, o bacalhau... Ah, sim, ele disse: “Crianças, eu quase me engasguei!” E a comida ficou toda estragada. (Risos). [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


OS SENSUAIS – O drama Os sensuais – crônica de uma família pequeno-burguesa (1978), dirigido pelo cineasta Gilvan Pereira, conta a história de uma misteriosa fotografia abala a estabilidade de um clã de classe média formado por um casal que se encontra vivendo junto há quarenta anos, com seus filhos e netos. O destaque do filme vai para a atriz Neila Tavares que representa o papel da fotógrafa. Ela também é atriz de teatro e televisão, além de escritora, jornalista e apresentadora de televisão, bem como edita o ótimo blog Geleia Geral. Hoje é aniversário, mas como sempre digo: todo dia é dia de Neila Tavares! E veja mais dela aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Fotos da atriz sueca Greta Garbo (1905-1990).

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...