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sábado, setembro 23, 2017

QUINTANA, BUKOWSKI, ESPINOZA, CARLOS NEJAR, OTTO FRIEDRICH, SUZANNE VALADON, ARTUR GOMES & O FIM DO MUNDO

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE! - Pra todo lado que eu me virasse, a conversa era uma só. Bastou eu botar a cara na rua logo cedo, apareceu Zé Corninho dando uma de Édipo: - Era bom mesmo que essa desgraça de mundo findasse e levasse toda raça ruim de corno junto! Robimagaiver saiu com a sua: - Zé Corninho, Zé Corninho, num assine sua sentença, ou tais pensando que vai ser só tu de corno que vai sobrar, é, fio duma porqueira? Ocride logo arremedou: - Era bom mesmo que tudo se danasse numa desgraceira só, assim o mundo aprendia, só assim! Afredo mais nem nem, soltou da sua: - Eu mesmo queria ver todo mundo se lascar na vera! Interrompendo, Doro proclamou: - Vamos acabar com essa conversa, senão a gente endoida de vez. Isso é um povinho que só gosta de viver na base do alarme, boatos mais sem pé nem cabeça. Tais pensando o quê, ô abestalhado? Tô só alimentando o converseiro, ora! Pois é, ninguém pensa em corrigir a si próprio, seus comportamentos e atitudes, se é pra consertar o mundo tem de começar por si próprio, senão não adianta nada. Eu mesmo estou salvo, o resto que se dane. Vixe! Cada qual atrelado às suas crenças e convicções se achava verdadeiro dono da verdade. Penisvaldo mesmo mandou ver: - Eu já faço o meu, cada um que cuide do seu; se tem culpado no rolo é a humanidade, essa não tem jeito que dê! E tu é o que fidapeste? Por acaso tu és o melhor dos melhores? Rolivânio, então, entrou na conversa em defesa do parceiro: - Vocês todos estão redondamente enganados, tudinho, se acha certo de tudo, quando, na verdade, todos são culpados pelos problemas de toda humanidade. - Pronto, falou agora o profeta do apocalipse! -, arremedou Robimagaiver: - Tu mesmo só vive de aumentar as coisas, cada mentira cabeluda do creu, só fala de tragédia, gosta de ver a desgraça alheia! Ninguém está nem aí pra nada, só pro umbigo, cada qual cuide de si e Deus por todos nós! Quando não é aquela sacada do “um pra eu, um pra tu, um pra eu”, é aquela choradeira do venha nós vosso reino, pois está escrito: chapéu de otário é marreta. E burro é quem não se aproveita das molezinhas e benesses que aparecem na bobeira. Danou-se! O cabra está cheio de gás! É isso mesmo: o que fica de apurado é que se o mundo acabar, só os outros que vão se ferrar; é que quem leva adiante o papo acha que só ele e os seus é que vão escapar, pois estão salvos justamente por suas crenças e convicções inarredáveis. O papo já estava acalorado quando um, mais bêbado que todos, se intrometeu: - Se o mundo acabar, já acaba tarde! É que já tô bicado, fiz a obrigação pro santo, que venha o desmantelo. Pra mim vai ser um alívio: quando tudo findar mesmo, tomo outra e não tô nem aí. O mundo que se lasque! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, saxofonista, flautista, arranjador e produtor musical Leo Gandelman com os álbuns Solar & Vip Vop; a violinista japonesa Midori Goto que também é psicóloga, professora, diretora e criadora do Centro Midori para Envolvimento da Comunidade na Escola Thornton of Music, da USC, nos USA, interpretando uma sonata de Saint-Saens & Concertos de Sibelius & Wieniawski; o premiado poeta, ator e artista gráfico Artur Gomes apresentando Terra de Santa Cruz, Entridentes, Black Billy & Marca Registrada; e a cantora e compositora catarinense Bee Scott interpretando Wasting Love, Som & Fúria, Não te pedi & Every breath you take. Para conferir é só ligar o som e curtir.

FIM DO MUNDO JÁ EM 1755 – [...] uma espécie de barulho estranho e assustador por baixo da terra, parecido com o ribombar oco e distante do trovão [...] O céu, de um minuto para outro, ficou tão tenebroso que eu já não conseguia distinguir nenhum objeto; foi realmente uma Escuridão Egípcia. [...] O terceiro abalo veio uns quinze minutos depois do primeiro. [...] A elevação da superfície da terra e o desmoronamento das grandes construções marcaram apenas o início da catástrofe. Quase que imediatamente ao assentar a poeira do primeiro abalo, irromperam incêndios em meia dúzia de pontos diferentes. [...] Tudo ficou reduzido a cinzas. [...]. Em meio ao colapso e à conflagração, cerca de uma hora depois do primeiro tremor, houve mais uma catástrofe, talvez a mais pavorosa de todas. Enquanto os cidadãos abalados olhavam para o porto do Tejo, as águas subitamente pareceram começar a vazar para o mar. [...] De repente, ouvi uma gritaria geral, 'O mar está vindo, estamos todos perdidos!' Nisso, voltando os olhos para o rio, que tem mais de seis quilômetros de largura nesse ponto, pude percebê-lo subindo e se inflando da maneira mais inexplicável, já que não soprava vento algum; num instante, a uma pequena distância, surgiu uma grande massa d'água, subindo como uma montanha, que entrou espumando e rugindo, e correu com tal ímpeto em direção à costa, que todos saímos correndo na mesma hora, o mais depressa possível, para salvar nossas vidas; muitos foram realmente arrastados, e outros ficaram com água pela cintura a uma boa distância da margem. [...]. Trechos extraídos da obra O fim do mundo (Record, 2000), do jornalista, escritor e historiador estadunidense Otto Friedrich (1929-1995), estudando as catástrofes que se abateram sobre a humanidade, desde os tempos bíblicos ao medo do holocausto nuclear, para analisar a idéia de apocalipse, uma vez que antes evidenciava o temor dos desígnios divinos, hoje é visto como uma vingança da natureza, o que não eliminou, porém, a idéia de uma humanidade pecadora ou culpada. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIAA alegria é a passagem pela qual o homem atravessa de uma perfeição menor para uma perfeição maior. A tristeza é o passo que um homem dá de uma maior perfeição a outra menor perfeição. Pensamento do filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CARTAS NA RUA – [...] Levaram-me de volta para casa e ele foi embora com ela. Eu passei pela porta, disse adeus, liguei o rádio, achei meia dose de scotch, bebi aquilo, rindo, me sentindo bem, finalmente relaxado, livre, queimando meus dedos com butucas de charuto; depois fui pra cama, cheguei até a beira, tropecei, caí, caí atravessado no colchão e dormi, dormi, dormi... De manhã, era de manhã e eu ainda estava vivo. Talvez eu escreva um romance, pensei. E foi o que fiz. Trecho extraído da obra Cartas na rua (Brasiliense, 1983), do escritor estadunidense nascido na Alemanha, Charles Bukowski (1920-1994). Veja mais aqui e aqui.

OS ESPELHOS DE NETAN – [...] Os espelhos não sabem como somos, mas como sonhamos! – passou como um reflexo na cabeça de Netan. Os espelhos nos captam os olhos, que também são espelhos. Em outro mais dentro ainda. Como se penetrasse na casca de um relâmpago. Mas o relâmpago é o céu ainda. E ele cairá junto. Cada céu adentro. Via sumirem suas imagens no espelho, como se estivesse de outro lado, ou aparecesse de repente na outra Margem do acontecido. Depois intuiu: - O sonho é o semblante íntimo do espelho, onde nos desvelamos. Sonho e alma são faces que se integram. Na luz. Podia se evaporar a alma. Trecho da obra Um certo Netan (Aché, 1991), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar. Veja mais aqui.

O ESPELHO DE QUINTANAE como se passasse por diante do espelho / não vi meu quarto com as suas estante s/ nem este meu rosto / onde escorre o tempo. / Vi primeiro uns retratos na parede: / janelas onde olham avós hirsutos / e as vovozinhas de saia-balão / como pára-quedistas às avessas que subissem do fundo do tempo / O relógio marcava a hora / mas não dizia o dia. O tempo. / Desconcertado, / estava parado. / Sim, estava parado / Em cima do telhado... / como um cata-vento que perdeu as asas. Poema extraído da obra Melhores poemas (Global, 2005), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

ESTUDANTES NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Batendo papo com a estudante nos eventos da Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
A poesia de Pablo Neruda aqui, aqui e aqui.
O pensamento de Josué de Castro aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
O fim do mundo & a carta do barbeiro aqui.
A arte musical de Midori Goto aqui.
O fim do mundo & as pinóias do tempo de antanho aqui.
A literatura de F. Scott Fitzgerald aqui e aqui.
O cinema de Pedro Almodóvar aqui, aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Bee Scott aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

VERACIDADE
porque trancar as portas
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?
um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos
 quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora
Poema do premiado poeta, ator e artista gráfico Artur Gomes, editor dos blogs Pele Grafia & Mania de Saúde. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte da pintora impressionista francesa Suzanne Valadon (1867-1938). 
Veja mais aquiaqui.

segunda-feira, julho 07, 2014

FEYERABEND, AMBER DAWN, NADIA ANJUMAN & SAMEERA MOUSSA

 Viva! A vida é arte! Vamos vidartear!...

 


QUANTO VALE UMA VIDA, GRACE… - Horizonte estreito e cabelos ao vento, aflição nas pernas e os disparos errantes: para fuga basta apenas o ermo ou a escuridão. Para caçada de gângsters ou policiais, quase não há saída. A bela Grace fugitiva atravessa a noite, paragens pelas montanhas rochosas e um lugar qualquer, onde o cão ladra e “todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis", cada qual sua história. Uma mão amiga para os demais moradores dali. Ao primeiro contato relutam em aceitá-la e em receber sua ajuda, por fim aceitaram-na por duas semanas, seria decidida sua sorte. Ela treme ajudando-os nas tarefas cotidianas. O seu quid pro quo e a certidão: na vila devia esse favor a eles. E como prova do seu valor auxiliando a todos em suas necessidades. Não mais a forasteira Margaret, agora íntima nos trabalhos domésticos, cuidando dos pequenos, auxiliando no estudo dos jovens, ensaiando música com uma organista, acompanhando anciões noturnos. Pelo bom trabalho passou aos elogios, cumprimentos respeitosos, permitindo-se, enfim, que ali residisse, entre os simples habitantes daquela província. Continuava a realizar suas tarefas quando a implacável surpresa a denunciou com a afixação de cartazes pela polícia: desaparecida. Depois outra batida com novos cartazes: sua efígie no cartaz e a cabeça a prêmio. A inquietação levou ao agravamento. Agora fora da lei, novas exigências por refúgio. Do contrário, seria entregue. Para tanto teria de pagar muito mais pela proteção. Fez-se passiva aos reclamos e aos abusos foi submetida, consumida por todos. Até que tudo se precipita no meio da escravidão braçal e sexual: o estupro e todos fecham os olhos, sabem o que se passa no interior de cada recinto. Todos são evasivos, apenas tolerada. Assim, irrelevante: nada nesse mundo é de graça. Levada a ocupar a carroceria de um caminhão e, novamente estuprada, logo é jogada fora para que todos saibam da sua ingratidão pela tentativa de abandoná-los sem satisfação. Mais submetida a penitências impostas por todos. Agora com uma coleira ao pescoço, presa a uma pesada roda de carroça. Cativa, torna-se indefesa e violentada. Por fim denunciada, ao entregá-la aos captores não se previa o final tão trágico. Era a filha do chefão Mulligan e uma sentença atrás da outra, todos executados. Para ela: o mundo seria melhor sem aquele local, Dogville. Apenas o cão a ladrar, o martírio e a hipocrisia, o refúgio e a arrogância de opressores, o confronto entre o verdadeiro e o falso, quase a mesma coisa: a vingança na ponta da mira. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Se você quer alcançar algo, se quer escrever um livro, pintar um quadro, certifique-se de que o centro da sua existência esteja em outro lugar e que você esteja firmemente conectado à terra. Dessa forma, poderá manter a calma e rir dos ataques que virão. Pensamento do filósofo e físico austríaco, Paul Feyerabend (1924-1994), que na obra Contre la méthode (Seuil, 1988), expressou que: [...] O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale a pena. [...] É claro que a ideia de um método estático ou de uma teoria estática da racionalidade funda-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de sua circunstância social. Os que tomam do rico manancial da história, sem a preocupação de empobrecê-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de segurança intelectual (que se manifesta como desejo de clareza, precisão, objetividade, verdade), esses vêem claro que só há um princípio que pode ser defendido em todas os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio: tudo vale. [...] Unanimidade de opinião pode ser adequada para uma igreja, para vítimas temerosas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno) ou para os fracos e conformados seguidores de algum tirano. A variedade de opiniões é necessária para o conhecimento objetivo. E um método que estimule a variedade é o único método compatível com a concepção humanitarista. [...]. Já na obra La ciencia en una sociedad livre (Paidós, 1988), expressa que: [...] introduzir uma nova teoria implica mudanças de perspectiva tanto em relação aos traços observados como aos traços não observados do mundo, e as mudanças correspondentes nos significados dos termos, inclusive os mais fundamentais da linguagem empregada. [...] a influência de uma teoria científica compreensiva, ou de algum outro ponto de vista geral, sobre nosso pensamento, é muito mais profunda do que o admitem os que a consideram tão somente como um esquema conveniente para a ordenação de fatos. De acordo com esta primeira ideia, as teorias científicas são formas de ver o mundo e sua adoção afeta nossas crenças e expectativas gerais e, como conseqüência, também as nossas experiências e a nossa concepção de realidade. Podemos dizer, inclusive, que o que se considera natureza em uma época determinada é um produto nosso, no sentido de que todos os traços que nós lhe registramos foram, primeiro, inventados por nós e usados depois para outorgar ordem àquilo que nos rodeia. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Meu desejo é que o tratamento nuclear do câncer seja tão disponível e tão barato quanto a aspirina... Pensamento da física egípcia Sameera Moussa (1917-1952), que no dia 5 de agosto de 1952, pretendia voltar para o Egito, mas foi convidada para uma viagem. No caminho, seu carro caiu de uma altura de mais de 12 metros e ela morreu instantaneamente. O mistério em torno do acidente cresceu quando descobriram que o convite para a viagem não era verdadeiro, além do desaparecimento do motorista do carro que conseguiu saltar antes do acidente, fazendo algumas pessoas acreditarem em um plano de assassinato. Acredita-se que o serviço de inteligência israelense, o Mossad estaria por trás da sua morte.

 

COMO A POESIA SALVOU A MINHA VIDA - [...] Mentir é o trabalho de pessoas a quem dizem que suas verdades não têm valor. O trabalho de sobrevivência está carregado de mitos e mal-entendidos. O silêncio é obra de pessoas que não conseguem compreender que a mudança é possível. [...] Não, você não escreve sobre amor pela mesma razão que se recusa a aprender a andar de patins. Você não gosta da ideia de introduzir qualquer coisa que exija se machucar repetidamente antes de ficar bom nisso. [...] O silêncio é obra de pessoas que não conseguem compreender que a mudança é possível. [...] A profanação está ensinando? A violência é conhecimento? É assustador um tipo de vida? eu não tinha modelo para o renascimento. Nenhum plano de segunda vinda. [...] Aprendi o poder da identidade – a ideia de que mesmo uma mulher sem instrução, como eu, que não tivesse lido Mary Wollstonecraft ou Bell Hooks, poderia ser uma especialista em feminismo simplesmente por causa da sua identidade como mulher. [...] Eu... acredito que ler passivamente sobre ou testemunhar injustiças nos prejudica - aumenta a desconexão. A parte de nós que está sofrendo não cura no escuro; devemos acender a luz para olhar para ela. Devemos prestar atenção [...]. Trechos extraídos da obra How Poetry Saved My Life: A Hustler's Memoir (Arsenal Pulp, 2013), da premiada escritora canadense Amber Dawn, que também expressa: Quando eu estava pensando em Como a poesia salvou minha vida entrando no “grande mundo literário”, eu o via mais como um subgênero ou um livro oprimido porque ainda existem comparativamente poucos livros sobre trabalho sexual, especialmente de autores que já trabalharam nas ruas, como Eu tenho. Revelar para quem trabalha no trabalho sexual nas ruas ainda parece arriscado para mim. Além de Runaway, de Evelyn Lau (publicado em 1989), ainda não li um livro de memórias em primeira pessoa sobre trabalho de rua. Mais dessas histórias devem estar por aí – talvez eu ainda não as tenha encontrado.

 

DOIS POEMAS - UM GRITO SEM VOZ - O som de passos verdes é a chuva \ Eles estão vindo da estrada, agora \ Almas sedentas e saias empoeiradas trazidas do deserto \ Seu hálito queimando, misturado com miragens \ Bocas secas e cobertas de poeira \ Eles estão vindo da estrada, agora \ Corpos atormentados, meninas criadas na dor \ A alegria desapareceu de seus rostos \ Corações velhos e cheios de rachaduras \ Nenhum sorriso aparece nos oceanos sombrios de seus lábios \ Nem uma lágrima brota dos leitos secos dos rios de seus olhos \ Ó Deus! \ Não saberei se os seus gritos mudos alcançam as nuvens, \ os céus abobadados? \ O som de passos verdes é a chuva. UM POEMA - Não tenho vontade de abrir a boca \ Sobre o que devo cantar...? \ Eu, que sou odiado pela vida. \ Não há diferença em cantar ou não cantar. \ Por que deveria falar de doçura, \ quando sinto amargura? \ Oh, o banquete do opressor \ Bateu na minha boca. \ Não tenho companhia na vida \ Por quem posso ser doce? \ Não faz diferença falar, rir, \ Morrer, ser. \ Eu e minha solidão tensa. \ Com tristeza e tristeza. \ Eu nasci para o nada. \ Minha boca deveria estar selada. \ Oh meu coração, você sabe que é primavera \ e hora de comemorar. \ O que devo fazer com uma asa presa, \ que não me deixa voar? \ Fiquei muito tempo em silêncio, \ Mas nunca esqueço a melodia, \ Pois a cada momento sussurro \ As canções do meu coração, \ Lembrando-me do \ dia em que quebrarei esta jaula, \ Voarei desta solidão \ E cantarei como um melancólico. \ Não sou um choupo fraco \ que se deixa abalar por qualquer vento. \ Eu sou uma mulher afegã, \ só faz sentido gemer. Poema da poeta afegã Nadia Anjuman (1980-2005).

 


DOGVILLE – O filme Dogville (2003), dirigido pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier e estrelado pela atriz australiana Nicole Kidman, conta a história de uma bela fugitiva num lugarejo das montanhas rochosas. Ali ela recebe a acolhida da comunidade e se esconde para, em troca, realizar serviços para a população. Ao ser descoberta como procurada pela polícia, as exigências dos habitantes passam a ser maiores, a ponto de torná-la escrava braçal e sexual, sendo abusada e estuprada pelos moradores, até o momento em que ela é entregue aos gangsters prenunciando um final trágico. O filme faz parte da trilogia USA - Land of Opportunities. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

MAIS OUTRAS DIC’ARTES

 Curtindo o poema sinfônico Das Lied Von der Erde (A Canção da Terra - 1952), do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911), com a Orchestra Wiener Philharmoniker, regida por Bruno Walter. Veja mais aqui e aqui.



GUSTAV MAHLER – O maestro e compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911) ligou a música do séc. XIX ao período moderno, combinando instrumentos e timbres que expressam as formas criativas, originais e profundas que utilizavam melhodias com grandes implicações para a harmonia, combinação de instrumentos em diversas escalas, além da voz e do coral combinados à forma sinfônica. Seu propósito era romper com os limites da tonalidade e estabelecendo um caráter sombrio ligado ao funesto. Sua indignação chegou ao ponto de certa vez expressar que: "Sou três vezes apátrida! Como natural da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Em toda parte um intruso, em nenhum lugar desejado!".

 Imagem: The Nude Above Vitebsk (Le nu au-dessus de Vitebsk, 1933), do pintor, ceramista e gravurista surrealista judey russo-francês, Marc Chagall (1887-1985).


ARTUR AZEVEDO E O TEATRO A VAPOR– O dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro Artur Azevedo (2855-1908) foi um dos mais populares cronistas de seu tempo e notável comediógrafo. No período entre 1906/1908 escreveu inúmeros sainetes ou minidramas humorísticos que ganharam o título de Teatro a Vapor que apresentavam aspectos da vida teatral do Rio de Janeiro e envolvendo problemas urbanos e políticos, flagrantes da vida doméstica, escândalos e crimes que foram reunidos em livro pelo professor Gerald M. Moser, do State College, da Pensilvânia (USA) e publicado pelo convênio Cultrix/MEC, em 1977. A respeito dos sainetes do autor, o professor estadunidense diz na introdução: “Entre todos os críticos, cronistas e autores de teatro brasileiro, nenhum trabalhou com maior diligência para ver realizado o seu sonho: a criação de um teatro nacional, com seu próprio edifício, sua própria companhia e seu próprio repertório [...]”. Destaco um fragmento de um dos ótimos sainetes Um como há tantos: “Na sala de jantar do Borba, às 10hs da noite, depois do chá. Toda a família está sentada em volta à mesa. O Borba lê um jornal. D. Mimi, sua esposa, palita os dentes; Miloca e Gigi, suas filhas conversam [...] A cozinheira (entrando assustada): Patrão! Patrão! – Todos: Que é? Cozinheira: Tem gente ao galinheiro! Todos: Hein? Cozinheira: Para que são gatunos! Borba (tremendo): Gatunos? Cozinheira: As galinhas estão fazendo muita bulha! Borba: Que diabo! O copeiro não está aí? D. Mimi: Foi dormir fora. Borba: Então, não há um homem em casa? D. Mimi: Há você! Borba: Sim, mas acham que eu deva expor a vida por causa de umas miseráveis galinhas (À cozinheira) A porta do quintal e as janelas estão bem fechadas? Cozinheira: Estão, sim senhor. Borba: Então, eles que roubem as galinhas à vontade! Amanhã renova-se o galinheiro! O que isso pode custar? Uns cinquenta ou sessenta mil réis! D. Mimi: Mas você poderia passar o braço peça janela da cozinha e dar um tiro ao menos para assustar os ladrões.... Borba: Nada! Se eu abrir a janela, eles podem saltar cá para dentro! Não é por mim, é por vocês! Miloga e Gigi: Ora! Dê um tiro, papai! Borba: Não, minhas filhas, não vale a pena! Se fosse joias, sim, mas galinhas... deixá-los roubar à vontade!”. Veja mais aqui.


LAMPIÃO – O cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), o Lampião, é uma personagem da história nordestina. Muita literatura há acerca de sua vida e dos acontecimentos. Para ter uma ideia, prefiro registrar aqui fragmentos recolhidos do cantador e cordelista e Manoel D´Almeida Filho (1914-1995), no cordel Os cabras de Lampião, publicado em 1966: “[...] Na serra de Baixa Verde / Lampião estava acoitado / dentro dum rancho de palha / com os cabras descansado, / sem esperar nem por sonho / que ia ser atacado. [...] O fuzil de Lampião / na luta não tinha falha, / da boca saía fogo / parecendo uma fornalha / ou uma metralhadora / descarregando a metralha / Lampião era ligeiro / e corajoso também / no carrego e na descarga / ele manobrava bem, / se um cabra dava dez tiros / ele dava mais de cem [...]”. Também do poeta Ascenso Ferreira, no epílogo do seu poema Minha Terra: “[...] Os guerreiros da minha terra já nascem feitos. Não aprenderam esgruma nem tiveram instrução... Brigar é do seu destino: - Cabeleira! Conselheiro! Tempestade! Lampião!” (Poemas de Ascenso Ferreira. Recife: Nordestal, 1981). Veja mais Literatura de Cordel.


BEE SCOTT – A cantora e compositora catarinense Bee Scott possui uma das vozes que mais me surpreende. Tenho acompanhado seu trabalho há anos e não me canso de curtir seu talento e sua promissora carreira. Como hoje é o aniversário, quero desejar daqui meus parabéns de muito de sucesso! Parabéns, Bee, feliz aniversário e sucesso procê. Confira nossa homenagem pra ela aqui.


Veja mais sobre:
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E mais:
As pernas no Cinema & o Seminário – A relação do objeto, de Jacques Lacan aqui.
As pernas de Úrsula de Claudia Tajes & Mil Platôes de Gilles Deleuze & Félix Guattari aqui.
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Diálogos sobre o conhecimento de Paul Feyerabend & a poesia de Lilian Maial aqui.
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Aristóteles, Rachel de Queiroz, Chick Corea, Costa-Gavras,Aldemir Martins, Teresa Ann Savoy, José Terra Correia, Fernando & Isaura, Combate à Corrupção & Garantismo Penal aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...