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sábado, fevereiro 14, 2015

ULRIKE DRAESNER, JODI PICOULT, HILDA DOOLITTLE & DEBBY BOONE

 

AS MUITAS HILDAS IMAGISTE... - Ela nasceu na comunidade moraviana de Bethlehem, filha de um notável astrônomo e de uma pintora de forte espiritualidade – sempre se sentiu rejeitada pela mãe e se decepcionara com o pai por abandonar tudo pela poesia. Ainda jovem o Hilda's Book de Pound e os estudos no Bryn Mawr College, escola que abandonou por conta da saúde precária e as baixas notas. Assumia-se Edith Gray para publicar historietas infantis no The Comrade. Tornou-se H.D. Imagiste no meio dos seus muitos pseudônimos. Casou-se, teve uma filha no meio de tragédias: seu irmão foi abatido no front da guerra, o que levou seu pai a ter um derrame fatal. Era a única mulher entre irmãos exemplares, desajeitada, desconfortável com seu corpo e altura, em conflito contra as normas da sociedade: a prova de falência como mulher. Dedica-se à escrita com Sea Garden e The God. Com um relacionamento aberto, engravida de um compositor. Contrai a gripe espanhola depois de uma gestação de alto risco e quase morre. O casamento degringola com as ameaças de interná-la em um sanatório. Foi salva pela herdeira milionária que custeou seu tratamento, salvou-lhe a vida e o bebê, rejeitando o lugar feminino no universo doméstico: nascia a escritora - Notes on Thought and Vision. Foi morar no Greenwich Village e de lá foi pra Europa. Era o início da imagista original em Londres – a máscara andrógina da sua sexualidade experimental, uma artista expatriada com engajamento na vanguarda. O horror da primeira guerra perseguia e fez o imagismo perder sentido: era a hora de novos questionamentos: relembrava o irmão morto na guerra, o infarto do pai com a notícia. Escreve ficções autobiográficas e aprisionada em sua reputação: As pessoas acham que sabem mais do que eu sobre o que sou ou o que devo ser... E eu digo: quem é H.D.?... Logo perdera também a sua mãe e, quase ao mesmo tempo, engravidara. Era a vez de fundar a revista Close-up e a produtora The Pool Group, na qual atua, mais os escritos de Translations, Hymen, seguindo-se de Heliodora and Other Poems e Hippolytus Temporizes. Viagens pelo Egito, Grécia e os Estados Unidos. Foi se estabelecer na Suíça, quando nasceram os manuscritos de Paint it Today, Asphodel e Palimpsest, inspirada pela poesia japonesa, as leituras Safo e da literatura grega, estilo de escrita com vernaculidade austera. Enfrentou a neurose que bloqueava artistas e encontrou na psicanálise a cura para os males da era moderna. Vivia no meio de casamentos de fachada, triangulações amorosas, escritos em prosa e os conflitos entre desejos hetero e homossexuais: o filme Bordeline, depois Red Roses for Bronze. Vai para Viena fazer terapia: ela estava paranoica com a ascensão do nazismo. Ela queria: virar toda a maré do pensamento humano... e vieram Kora and Ka, Nights e The Hedgehog. Sentimentos despedaçados e a segunda guerra: Minhas descobertas não são essencialmente uma panaceia. Minhas descobertas são a base para uma relevante filosofia... Aparecem os manuscritos de The Walls Do Not Fall e Tribute to the Angels. Um colapso nervoso e a internação numa clínica, com Trilogy, Flowering of the Rod e By Avon River. Os colapsos, as alucinações e o furor de sua bissexualidade. Vivia personificações de Perseu inconformada com o estereótipo feminino e no diário: Jamais me senti completamente satisfeita com nenhum de meus livros, publicados ou não... A vida pessoal sucumbindo a colapsados acontecimentos. Escreveu um odiento poema de repúdio contra o mestre velho e não o publicou enquanto ele estivesse vivo: Eu trocaria os meus anos de vida pelos dele; não seria um número tão generoso quanto eu desejava, mas faria alguma diferença... O inconsciente é uma maneira inusual de pensar... Mais no diário: Advento e Escrito na parede – memórias de antes do tudo. E foi a vez do Tribute to Freud. Retorna à terapia e o manuscrito de End to Torment: A Memoir of Ezra Pound, New Directions. Voltou aos Estados Unidos: foi a primeira a receber a medalha de honra da Academia Estadunidense de Letras e Artes, quando estava estéril criativamente no consultório psicanalítico. Era a hora do Bid Me to Live e o retorno para a Suíça - Helen in Egypt, New Directions. Ali sofreu um ataque cardíaco, com seu epitáfio nos versos de seu poema Let Zeus Record: Então, você pode dizer, \ Flor grega, êxtase grego \ Reivindica para sempre\ Alguém que morreu\ Após a medida perdida\ De uma canção intricada... Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Dance até a terra dançar... Não precisamos saber, apenas ser: deixar de lado a confusão de palavras gastas, razão e vaidade... Se você nem mesmo entende o que as palavras dizem, como pode esperar julgar o que as palavras escondem?... As palavras eram sua praga e suas palavras eram sua redenção... Escrever. Amar é escrever. Pensamento da poeta estadunidense Hilda Doolittle (1886-1961). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Todos nós temos maneiras comuns de nos identificarmos uns com os outros, e acho que quando você aborda a música dessa forma orgânica, é quase indescritível como ela conecta humanos e corações. Pensamento da cantora, atrz e escritora estadunidense Debby Boone. Veja mais aqui.

 

DEZENOVE MINUTOS - […] Se você desse seu coração a alguém e essa pessoa morresse, ela o levaria com ela? Você passaria o resto da eternidade com um buraco dentro de você que não poderia ser preenchido? [...] Você não precisa de água para sentir que está se afogando, precisa? [...] Uma fórmula matemática para a felicidade: Realidade dividida pelas Expectativas. Havia duas maneiras de ser feliz: melhorar sua realidade ou diminuir suas expectativas. [...] Se você passasse a vida se concentrando no que todos os outros pensavam de você, você esqueceria quem você realmente é? E se o rosto que você mostrasse ao mundo fosse uma máscara... sem nada por baixo? [...]. Trechos extraídos da obra Nineteen Minutes (Washington Square Press, 2008), da escritora estadunidense Jodi Picoult, que na obra Keeping Faith (William Morrow Paperbacks, 2006), expressou que: […] A verdade nem sempre liberta; as pessoas preferem acreditar em mentiras mais bonitas e bem embrulhadas [...]. No livro Second Glance (Washington Square Press, 2008), ela expressa que: […] O amor não é um porque, é um não importa o quê. [...]. No livro Change of Heart (Atria, 2008) assinala: [...] No espaço entre sim e não, há uma vida inteira. É a diferença entre o caminho que você trilha e o que você deixa para trás; é a lacuna entre quem você pensou que poderia ser e quem você realmente é; é o espaço para as mentiras que você contará a si mesmo no futuro. [...]. No livro Vanishing Acts (Washington Square Press, 2005) escreve: [...] São necessárias duas pessoas para que uma mentira funcione: a pessoa que a conta e a que acredita nela. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS - POEMA INACABADO, VERSÃO FINAL - você sabe como é quando você \ começa a girar (as folhas caindo) ele pergunta \ com uma calma gentil e polida: wulkan. \ a disposição das bordas a porcelana \ todas as coisas na casa ele disse \os colocam em mente suas próprias necessidades: fotos \ de batizados, iniciais em linho \ os edredons volumosos o \ sonho azul de uma cômoda com \ pavão saltitante o vinho do ano do casamento – o \ deles, isto é, ainda quente seus lábios alemães \ nas taças perto da pia. tínhamos vergonha \ não de pegar, mas de olhar \ foi assim que chegamos.\ wulkan. figura antiga para a vida. \ o humano empilhando-se em camadas \ atadas completamente cinza prolífico \ e quente, endurecido – sentado em malas prontas \ em novas casas por 30 anos: fugindo \ para o que outros fugiram. eles serraram \ a cama os outros para combustível o único \ saco recuperado a perna de pau \ de um irmão morto, eu posso ver \ suas mãos, avó, avô, pai, \ suas unhas, eles não perderam \ tudo mantiveram quase todas \ as partes de seus corpos mantiveram algo \ da alma – talvez \ alguns de nós deitem e façam amor \ na grama europeia, uma torre se ergue \ é apenas de ferro e reconstruída \ o que é normal, um bonde \ passa e o coração, wulkan \ bate seus cascos suavemente contra as paredes \ em um antigo \ estábulo polonês. ESCONDIDO - como um cavalo altivo (e língua estrangeira) balançando \ e rígido lamentavelmente não no táxi, mas na minha casa \ agora entrou eram outras mulheres que meu marido \ despiu. o quarto incrustado \ com paredes fibrosas então \ você não podia andar você tinha que voar os outros \ (em voo) o tinham fundido ao telefone quando \ eu na escuridão dessa confusão total me tornei \ o príncipe que não suportava olhar nenhum, enfeitado com um \ casaco de pônei manchado. eu vou te mostrar, meu marido disse, a \ variedade de suas próprias armadilhas internas hiper-real você é \ a parede a poltrona a cobra e muito verdadeiro \ o jeito que sua pequena alma empalidece mais uma vez, \ segue seus próprios olhos grandes e inchados através do flokati \ você está realmente tentando forçar isso? pensei no \ velho jogo da toupeira, um de nós descendo as colinas escuras \ o outro controlando o DVD do computador. era sobre \ uma coisa cega forçada de volta para seu buraco que praticamente \ sufoca, mas ainda remando ternamente tenta rastejar \ ao redor da terra. Poemas da escritora alémã Ulrike Draesner, autora de obras tais como: Gedächtnisschleifen (1995), Esfinge Bläuliche (2002) e Spiele (2005), entre outras.

 

SACADOUTRAS

 

Imagem: da exposição Pictórico Frevo do artista plástico pernambucano Rinaldo Lima.

Ouvindo Ninho de Vespa (Independente, 2013), da SpokFrevo Orquestra.



MOMENTO DE REFLEXÃO: “O brasileiro tem fome de ética e passa fome por falta de ética!” – do sociólogo e ativista dos direitos humanos, Herbert de Souza – Betinho (1935-1997), que dedicou sua ação ao projeto de Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Veja mais aquiaqui.

O REI MENOS O REINO – O poeta, tradutor e ensaísta brasileiro Augusto de Campos, foi um dos criadores da poesia concreta brasileira, ao lado do seu irmão, o poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2003) e do poeta, ator, ensaísta, professor e tradutor Décio Pignatari (1927-2012). Esse movimento tem como marco estético o ano de 1956, com uma pesquisa de formas e de linguagens nunca empreendida antes. Augusto publicou seu primeiro livro O rei menos o reino (1951), seguindo-se Poetamenos (1953), Cidade/City/Cité (1964), Equivocábulos (1970), Colidouespaço (1971), Viva Vaia (1971), Poesia, Antipoesia, Antropofagia (1978), Despoesia (1994), Não (2004), além de traduzir Mallarmé, James Joyce, Ezra Pound, Maiakóvsky, Cummins e Arnaut Daniel, entre outros. Sendo um dos fundadores da revista Noigandres, definiu o movimento: “Com recursos drásticos como a abolição ou a redução da sintaxe discursiva e a ênfase na comunicação visual, criamos uma poesia Elemental e Elemental, simultaneamente sofisticada e primitiva, para virar a mesa da poesia. Ao mesmo tempo, adotamos uma língua geral, ou melhor, um código geral, que obrigava à leitura do texto no original, mas facilitava o acesso ao idioma com um vocabulário reduzido. Em suma, fizemos com a nossa língua uma espécie de esperanto poético, que nos permitia intervir literariamente em dimensão internacional e inverter a situação, passando de influenciados a influenciadores. O fato é que, depois da Exposição de 1956, em São Paulo, japoneses e ingleses, tchecos e iugoslavos (europeus e americanos) começaram a expor poemas concretos e a publicar antologias dessa poesia, em que figuravam como paradigmas os nossos poemas, tornados facilmente acessíveis com pequenos glossários de português básico”. Veja mais aquiaqui

TEMPO DE MORRER – No livro Novas veredas da psicologia social (Educ/Brasiliense, 1995), organizado pela psicóloga e professora Silvia Lane (1933-2006) e pela socióloga e psicóloga Bader Burihan Sawaya, reúne onze ensaios penetrantes que analisam a complexidade das relações entre o homem e a sociedade, colocados numa nova dimensão pela globalização e pela busca de uma vida digna, apresentando os avanços da teoria laneana, proporcionados pelos resultados de pesquisas e pela influência da teoria de Vygotsky, de Agness Heller e de Wallon. Entre os ensaios, encontra-se Dimensão ético-afetiva do adoecer da classe trabalhadora, resultado de uma pesquisa participante de Sawaia numa favela de São Paulo, envolvendo um grupo de mulheres que, segundo a autora, “[...] sofrem a falta de amparo externo (falta de controle absoluto sobre o que ocorre) e a falta de amparo subjetivo (falta de recursos emocionais para agir)”, refletindo sobre o processo saúde-doença, a partir do referencial da Psicologia Social Comunitária sobre o sofrimento psicossocial e o tempo de morrer que, segundo a autora, “[...] é caracterizado pela falta de recursos emocionais, de força para agir e pensar e pelo desânimo em relação à própria competência. É um autoabandono aos próprios recursos internos, e a consciência de que nada se pode fazer para melhorar seu estado. É a cristalização da angustia. O comportamento emocional que caracteriza o tempo de morrer pode ser definido como um estado letárgico de apatia, que vai ocupando o lugar das emoções até anulá-las totalmente, um estado de tristeza passiva que transforma o mundo numa realidade efetivamente neutra, reduzindo o indivíduo ao zero afetivo. No tempo de morrer, o sofrimento é a vivência depressiva que condensa os sentimentos de indignidade, inutilidade e desqualificação. Ele é dominado pelo cansaço que se origina dos esforços musculares e da paralisação da imaginação e do adormecimento intelectual necessário à realização de um trabalho sem sentido e que não cumpre sua função de evitar a fome. Para a maioria delas, o inicio da vida não coincide com o momento do nascimento, mas com o inicio do tempo de viver que é a superação do tempo de morrer, ao qual estão aprisionadas desde o nascimento. Tempo de viver é o tempo de agir com mais coragem e audácia, é tempo em que se despertam as emoções, quer sejam elas positivas ou negativas. O tempo de viver não se confunde com o bem, ele é um tempo de convite à vida, mesmo sendo uma vida sofrida. E o momento da transformação das relações objetivas que aprisionam as emoções, a aprendizagem, a humanidade e a sensação de impotência se transforma em energia e força para lutar. Tempo de viver não é o tempo do desaparecimento da angustia, aliás nunca se chega a isto. Trata-se de tornar possível a luta contra ela, para resolvê-la e ir em direção a outra angustia [...] A frase mais reveladora do sofrimento psicossocial ouvida durante a pesquisa na favela foi a da vice presidente da Associação de Moradores: Bader, a gente tinha ideia, sabia que faltava água, luz, comida... mas não tinha força para lutar. As mulheres faveladas demonstraram que só a revelação da pobreza e de seus nexos não altera uma situação real. O pensamento não é autônomo, descolado do empírico. É no seu encadeamento com as condições materiais de existência que se vislumbram possibilidades de saltos qualitativos, em direção à consciência crítica”. Veja mais aqui.


THE WALL - O escritor, ator, produtor e diretor de cinema inglês, Sir Alan William Parker produziu o filme Pink Floyd The Wall (1982), baseado no álbum da banda. O roteiro foi escrito pelo vocalista e baixista da banda Roger Waters, com animação do cartunista político Gerald Scarfe e protagonizado pelo músico e ator Bob Geldof da banda punk The Boomtown Rats, que vive a personagem de um roqueiro que se encontra com comportamento depressivo. Trata da construção de um muro imaginário que reflete a superação da vida a qualquer obstáculo. O destaque de todo o filme são as cenas que ilustram as canções, notadamente o grande sucesso da banda Another brick in the wall. Veja mais aqui.


AOS VIVOS & PULSAR POÉTICO – Tenho acompanhado há bastante tempo o extraordinário trabalho da poeta, atriz, clown e produtora Graça Carpes, e tenho cada vez mais admirado seu talento. Ela edita o blog PulsarPoético do qual destaco o seu Aos Vivos: as pessoas vão embora assim / no sopro suave dos ventos / dobram a esquina do tempo / carregadas depois em / carreatas de / anjos dourados / os vejo / no céu em forma de nuvens / acenando e sorrindo / nem aí para as lágrimas que descem ao chão / egoísmo puro egoísmo / essa coisa de morrer / um brinde aos que nascem / e a tudo o que está vivo / inclusive / à memória dos que já tenham ido / e aos convívios / do agora / eu brindo. E como todo dia é dia mulher, hoje é dia de Graça Carpes. Veja mais aqui.



Veja mais sobre:
Educação Infantil, Nauro Machado, Sergei Rachmaninoff, Abraham Maslow, Luz del Fuego, Edgar Leeteg, Lucélia Santos, A pesca das mulheres & J. Lanzelotti aqui.

E mais:
As trelas do Doro aqui.
Entre as pinoias duns dias de antanho & John La Farge aqui.
As trelas do Doro: o desmantelo da paixonite arrebentadora aqui.
A menina morta, o pai assassino, Dalton Trevisan, Caetano Veloso, Ute Lemper, Jemima Kirke, Jeff Koons, Dani Acioli & Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é aqui.
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segunda-feira, junho 30, 2008

ALAN PARKER, ARISTÓFANES, CEGO SINFRÔNIO & LITERATURA DE CORDEL, ALBERY, DARCY & LITERÓTICA


 
A arte de do artista plástico Albery Seixas da Cunha (1944-2003).

DARCY VOAVA NUA – Darcy dava sinal de vida voando no meu apetite reincidente por tê-la, enquanto agitava inquieta por todos os meus dias de espera e noites de frio. Ela voava nua e mexia travessa pelo percurso das minhas queimações e angústias: um trajeto para meu desassossego, remando esvoaçante sobre meu sexo mais que febril e ela pronta mais que devassa nua, aos corrupios de quem borboleta sabe mais do meu casulo explosivo. Suas mãos me atiçam a alma e acendem o fogo do que sou às labaredas da paixão; as minhas às suas coxas, deslizam na sua intimidade úmida e me apodero do que é seu só para mim. A língua dela é esponja na minha pele, os lábios veludo macio na minha carne e a boca é mais loucura ritmada no vaivém da cadência de nossas entregas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui e aqui.

DITOS & DESDITOSQuando um sábio aponta o céu o ignorante olha o dedo. Provérbio japonês.

ALGUÉM FALOU: A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa, mas a estupidez dura para sempre. Pensamento do dramaturgo e representante da comédia grega Aristófanes (447-385aC). Veja mais aqui & aqui.

O BEIJO DO OTÁRIO – [...] Saí correndo. Não parei para pensar em como eles sabiam que eu estava ali. Talvez não estivessem apontando para mim, o ladrão de olho caído, mas corri assim mesmo. Era uma segunda natureza, como acho que seria para muita gente que tenha levado a vida que levei e que tenha seu retrato na parede de toda delegacia [...]. Trecho extraído da obra O beijo do otário (Planeta, 2004), do cineasta e escritor Alan Parker. Veja mais aqui e aqui.


Imagem/Foto de Luiz Heitor.

Anda já em quarenta ano
Que eu vivo somente disso
Achando quem me proteja
Eu sou bom neste serviço
Eu faço vez de machado
Em tronco de pau mucisso…

Esta minha rabequinha
É meus pés e minhas mão
Minha foice e meu machado
É meu mio e meu feijão
É minha planta de fumo
Minha safra de algodão…

Eu, atrás de cantadô
Sou como boi por maiada
Como rio por enchente
Como onça por chapada
Como ferrôi por janela
Menino por gargaiada!

Eu, atrás de cantadô
Sou como abêia por pau
Como linha por agúia
Como dedo por dedal
Como chapéu por cabeça
E nêgo por berimbau

Eu, atrás de cantadô
Sou como vento por praia
Comojunco por lagoa
Como fogo por fornaia
Como piôi por cabeça
Ou pulga por cós de saia!

-*-

- Sinfrone, vai me contando
Que é que tu anda fazendo
Se anda dando ou apanhando
Se anda comprando ou vendendo
Se anda bebendo ou jogando
Se anda ganhando ou perdendo

- Elias, eu lhe declaro
E a todos que tão olhando
Me acho na terra alêia
Nem bebendo nem jogando
Nem ganhando, nem perdendo
Ando mas é vadiando!

-*-

A mió das invenções
Que eu achei mió produto
Foi a invenção do relojo
Marcando hora e minuto

-*-

Eu andei de déu em déu
E desci de gaio em gaio
Jota a-Já, queira ou não queira
Eu não gosto é de trabaio
Por três coisa eu sou perdido
Muié, cavalo e baraio!

-*-

Meu povo, preste atenção
Vou contá o que se deu
Ninguém fique duvidando
Juro como aconteceu
Vou contá de um agora
Cantô que cantou mais eu

Fazem dezenove ano
Que eu cantei mais esse tal
Ele dizendo que era
Nascido lá no Arraial
Porém a nossa peleja
Se deu com nós em Sobral!

Foi isso um dia de sabo
Quando na cidade entrei
Pela dez hora do dia
No Jaibara passei
Convite pra cantoria
Na mesma tarde encontrei

Pra casa do Zé Taveira
Fui eu logo convidado
Por um dito mano dele
Fui eu na rua encontrado
Pra casa do mesmo home
Foi outro cantô chamado

- Venha cá, seu Zé Taveira
Mais o seu mano Joãozim
Quero que preste atenção
Do grande ao pequeninim
Eu diverti mais um cego
Pra ensiná-lhe o camim…

- Venha cá, seu Zé Taveira
Como chefe de família
Do grande ao pequeninim
Oiçam minha cantoria
O homem que não tem vista
Só pode andar tendo guia!

- Ceguinho, afine a rabeca
Pode acostá-se à parede
Vem dicomê, mata a fome
Vem aluá, mata a sede…

- Cantadô, você me diga
Cumo tá no meio dos home
E não é meu conhecido
Me diga cumo é seu nome

- Eu sou Manuel Passarinho
Féli da Costa Soare
Engulo brasa de fogo
Pego curisco nos are
Jogo pau, quebro cacete
Com cinco ou seis que chegare

- Meu nome é Sinfrônio Pedro
Martim é meu sobrenome
Bóqué de nova açucena
Cravo branco, amô dos home
Feijãozim farta-guloso
É com que se mata a fome…

- Sinfrone, me conta logo
A tua disposição!
Óia que eu carrego o saibro
Das tuas informação
Andas com fama de duro
Aqui pelo meu sertão…

- Eu não sei se será falso
E se é exato não sei
Mas cantô que me açoitasse
Ainda não encontrei!
Pode sê que eu inda encontre
Até onte eu não achei…

- Sinfrone, se eu me zangá
Passo-te a peia no lombo
Dou três tapa – são três queda!
Três empurrão – são três tombo!
Se eu puxá por minha faca
Não tem quem te conte os rombo…

- Não é com essas asneira
Que eu deixo de diverti
Quem conhecê não te compra
Eu nem quero descobri…
Mas o cão é quem faz conta
De dez da fêlpa de ti!

- Cego, tu qué te metê
Em camisa de onze vara?
Quem com Passarinho arenga
Apanha, de mão na cara…
Em balança eu sempre peso
Dez cego não dão a tara

- Nunca vi barco sem vela
E nem doente sem ansa…
A onça, tando acuada
Ninguém pega com lambança!
Vigie que falá é fôrgo
Obrá precisa sustança…
Eu de dez não faço conta
Quanto mais de uma criança…

- Por causa de confiança
Foi que eu vi um pequenino
Açoitá um home idoso
Cumo você – sem ensino…
Cumo não tomou emenda
Morreu nas mão dum menino

- Você tá fazendo arte
De eu metê-lhe em sujeição
Chamo aqui por dois soldado
E te boto na prisão…
Você preso não é nada
O diabo é levá facão…

- Você ficando mais véio
E ainda arrenovando
Tornando a nascê dez vez
Todas dez se batizando
Todaas dez vindo cantá
Todas dez sai apanhando!…

- Orêia de abaná fogo
Cabeça de batê sola
Pestana de porco ruivo
Queixada de graviola
Canela de maçarico
Pé de macaco da Angola!

- Venta de pão de cruzado
Bucho de camaleão
Cara de cachimbo cru
Pescoço de garrafão
Testa de carneiro môcho
Fucim de gato ladrão

- Passarim, se eu dé-lhe um baque
Tenho pena de você:
Cai o corpo pruma banda
E a cabeça – pode crê!
Passa das nuve pra cima
Só volta quando chuvê

- Cantadô nas minha unha
Passa mal que se agonêia
Dou-lhe almoço de chicote
Janta pau, merenda pêia
De noite ceia tapona
E murro no pé da orêia

- Passarim, agora mêrmo
Começou a carretia:
Eu vou entrá no teu couro
Que nem faca em melancia
Cuié em mamão maduro
Ou crimatã na água fria

- Este cego só cantando
Por arte do capiroto!
Agora é que eu reparei
Que este sujeito é canhoto…
Eu vou saindo de banda
Senão eu saio é de chouto

-*-

Morena, você me mata
Com esta graça que tem...
Você fica criminosa
E eu sem você, meu bem!

-*-

- Sinfrone, o pobre de um cego
não me agüenta na vida...
deixa está que eu vou na frente
tu vem atrás, na batida.

- Passarinho é de ôio aceso,
Sinfrone é de ôio apagado
Mas Sinfrone sai se rindo
Passarim sai sabugado!

CEGO SINFRÔNIO – Segundo Leonardo Mota, o cearense Cego Sinfrônio - Sinfrônio Pedro Martins, é um dos cantadores mais espontâneos e perito improvisador com vastíssimo cabedal de romances, cantigas e desafios. Cego desde um ano de idade

FONTE:
MOTA, Leonardo. Cantadores. Rio de Janeiro: Cátedra, 1978.
 VEJA MAIS:
LITERATURA DE CORDEL

 A arte de do artista plástico Albery Seixas da Cunha (1944-2003).

LITERÓTICA
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