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sexta-feira, abril 24, 2020

AGLAJA VETERANYI, NAOMI KLEIN, SARAH LUCAS, SIMONE TEODORO & ORIDES FONTELA


DAS ESFERAS DO TRIVIAL – UMA: É VIVENDO QUE SE APRENDE - Meus pensamentos são desproporcionalmente maiores que o meu tamanho, acho, claro, um batoré troncho e buchudo superando a pequenez. Isso desde menino inventando história para brincar e aparecer. Talvez seja essa a razão das dificuldades em encaixá-los adequadamente. Ou mania de grandeza desarrazoada. Destá. A vida e os livros muito me ensinaram, não sou lá entre os bons e os piores aprendentes, talvez um pouco abaixo da média. Mas me esforço e gosto de descobertas, aprendizados constantes, corro atrás. Comigo o ensinamento da maravilhosa educadora Esther Pillar Grossi: Aprender é estar vivo. Fazer pergunta significa saber algo e estar aprendendo, porque não há resposta sem pergunta. Aprender é curtir a graça da vida. E eu curto essa graça a cada dia, principalmente nesses momentos de clausura compulsória, ocasião que ela aconselha: Que durante esse isolamento, cultivemos o calor da maior solidariedade, para que dele renasça uma nova humanidade, não mais desigual como a de agora. Também espero uma nova humanidade depois que tudo isso passar, porque aprendi: você é o que pensa. E eu penso sempre maior que eu mesmo. Assim voo aprendiz e aprendendo. DUAS: PARA ALÉM DA ESTATURA – Como havia dito, desde menino, sempre pensei muito além da minha idade e medida, talvez de forma descabida, mas ousada, inventando até o disforme ou impossível. Achava graça, morria de rir – como ainda hoje me rio das minhas leseiras que se parecem estupendas quando, na verdade, são meras invencionices – ou serão estultices minhas, hem? Avalie. Lembro ainda jovem quando li o saudoso Hélio Jaguaribe: O homem é uma busca individual de sentido, no âmbito de um cosmos destituído de qualquer sentido. O homem é um primata transcendente; a transcendência é inerente à natureza humana (e mais dele aqui e aqui). Culpa dele, isso me dava uma corda, ainda dá, vou por aí transcendendo. TRÊS: DOS MORALISMOS PARA PORNOGRAFIA & OBSCENIDADE - Transcender de mesmo é preciso com a patetada lá do Planalto Central, com seus conceitos moralistas e fajutos que se impõe ditando lá, na maior confusão do que é lícito ou certo, do que é obsceno ou pornográfico, quando, deveras, são despautérios e cotoveladas! Minha nossa! Acho que a ministrada coisonária não bate bem lá da bola ou são tão estúpidos que não dá nem para levá-los a sério. O que eles propagam são minimamente dislates os mais impensáveis. O que fizeram da minha utopia, hem? Pois bem, a respeito disso vou de José Saramago: Não é a pornografia que é obscena, é a fome que é obscena. Doutra forma, a Andrea Dworkin observa que: Pornografia é a sexualidade essencial do poder masculino: de ódio, de posse, de hierarquia, de sadismo, de dominância. Pois é, a trupe coisada ou é obscena ou tão incompetente que chega a ser pornográfica! E como aprendi com Plutarco que: A mente não é uma vasilha para ser enchida, mas um fogo para ser acendido, da minha parte, eu digo: só há pornografia ou obscenidade onde há preconceito, repressão, discriminação. Vou ali tentar salvar a minha insanidade mental. Até segunda-feira! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] minha cidade se sentiu como a cena de um crime. E os criminosos estão se fundindo com a noite, fugindo da cena. Não, não estou falando dos rapazes de preto que quebraram janelas e incendiaram patrulhas policiais. Estou falando dos chefes de Estado que destruíram as redes sociais de segurança e queimaram empregos bons em meio a uma recessão. Confrontados com os efeitos de uma crise criada pelos estratos mais abastados e privilegiados, decidiram cobrar a conta dos habitantes mais pobres e vulneráveis de seus respectivos países. De que outra forma podemos interpretar o comunicado final do G-20, que nem sequer inclui um mísero imposto sobre os bancos ou as transações financeiras [...] mas diz aos governos que cortem seus déficits pela metade até 2013? Trata-se de um corte enorme e importante, e devemos ser muito claros quanto a quem pagará a conta: estudantes que verão uma deterioração adicional em sua educação enquanto suas mensalidades aumentam; aposentados que perderão seus benefícios duramente ganhos; trabalhadores do setor público cujos empregos serão eliminados. E a lista continua. Cortes desse tipo já começaram em muitos países do G-20 e estão a ponto de piorar. Reduzir pela metade, por exemplo, o déficit projetado dos EUA, sem impor um aumento fiscal substancial, significaria um corte fenomenal de US$ 780 bilhões. Os cortes estão ocorrendo [...]. Trechos de Cobrando do povo pela crise dos banqueiros (Uol Noticias, 2010), da escritora, jornalista e ativista canadense, Naomi Klein que no Diálogo interconvicções: A multiplicidade no pano da vida (IHU, 2020), assinalou que: A Doutrina do Choque é uma estratégia política que consiste em usar crises em larga escala para promover políticas que sistematicamente aprofundam a desigualdade, enriquecem as elites e minam os demais [...] Isso é o que essa espécie de economia de o-ganhador-leva-tudo faz com nosso cérebro. Estamos vendo em tempo real que estamos muito mais interconectados entre nós do que nosso brutal sistema econômico nos faz acreditar. [...] Quando se está em um sistema que se sabe que não está cuidando das pessoas e não está distribuindo recursos de maneira equitativa, então sua parte de ‘monopólio’ se iluminará [...] Podemos pensar que estaremos seguros se tivermos bons cuidados médicos, mas se a pessoa que faz nossa comida, que entrega nossa comida e empacota nossas caixas, não pode sequer pagar pelo teste, e muito menos ficar em casa, pois não recebe licença médica, não estaremos a salvo. [...] Portanto, leve em conta isso e pense em como, em vez de acumular e pensar em como pode cuidar de si e de sua família, pode passar a compartilhar com seus vizinhos e controlar as pessoas mais vulneráveis [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A POESIA DE AGLAJA VETERANYI
MÃE - Uma vez uma mãe. Disse para o braço: Filho. /Cortou o próprio braço. / Foi à cozinha e preparou para o braço canja / de galinha. Dizia: Filhinho. Come tudo! A mamãe fez / muita sopa. Isso! Isso! / Depois da comida ela pôs o braço na cama. Cobriu- / o. Cantou o braço até o sono. 
1 CARTÃO-POSTAL - A filha / come as velas de aniversário / não / A mãe / Você é como seu pai! / O pai / fica 20 anos fora / envia depois de 20 anos / 1 cartão postal / telefona depois de 20 anos / 1 vez / canta para a filha depois de 20 anos / 1 canção infantil / A filha / envia para a mulher do pai / 1 a 2 saudações / Depois de 20 anos / o pai volta / e morre / 1 vez.
AGLAJA VETERANYI - A poesia da escritora romena Aglaja Veteranyi (1962-2002). Veja mais aqui & aqui.
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A POESIA DE SIMONE TEODORO
AMOR - Quando a torneira da pia estourou, Ana, eu perdi o controle e soquei o espelho do banheiro respingado de pasta de dente. / Tudo era jorro. Sangue, água e ódio, por muito tempo represados / Passei o ano embalsamando carne morta, Ana. Salgando as vísceras pra esconder o mal cheiro / Ana, eu sei: teu bonde parou de súbito, como um coração. Entraste no inferno e no amor com a lucidez de quem sabe que morre. / Entraste na pior escuridão, a que aterroriza com a visão aumentada do pulsar das coisas / Dentes de cego e chicletes, tua crise / Meu inferno, Ana: um romper de cascas, como o massacre de ovos em tua sacola de compras / Meu inferno: profusão de canos furados, desordem de águas incontroláveis, que ardem a respiração se me atingem as narinas e que devagar / me matam / me matam
COM LICENÇA, COM LICENÇA POÉTICA - Tenho apenas minhas mãos / e um tesão maior que o mundo / A vontade de amor / sempre me paralisou o trabalho / Sou anjo esbelto e safado / Solidão me come por dentro / diariamente / Tenho minhas mão / Sou mulher desdobrável / Eu sou
LITANIA PARA QUANDO DESCARRILAREM OS ASTROS - Eu te supunha / asa / hélice / um retalhar de quedas / Eu te sonhava / rito e rio / e te queria ajustada / a meu dia de chuva / e a minha saudade de árvores / Por equinócios e solstícios vários / te gozei / em poro e pelo / Mas eu era a puta / eu era a puta / e você tinha / a pedra / e a estaca / Por equinócios e solstícios vários / nos esfaqueamos / com furor igual / ao de quando o desejo / nos delirava / por equinócios e solstícios vários / Até que o sal / do mar da mágoa / vestiu a ardência / nossas carnes rasgadas
SIMONE TEODORO - A arte da poeta Simone Teodoro, autora das obras Movimento em falso (2016), Distraídas astronautas (2014) e Também estivemos em Pompeia (2019). Ela é mestre e doutoranda em Literatura Brasileira pela UFMG e possui textos publicados em revistas e jornais, tais como Mallarmargens, Germina, Incomunidade, Suplemento Literário de Minas Gerais e no Jornal O Relevo. Ela também edita o blog Cálida Poesia. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Se este mundo é tudo o que existe; se é só isso, dadas as infinitas possibilidades, por que então é tão tosco?
A arte da artista visual inglesa Sarah Lucas, que possui uma proposta de trabalho artístico com emprego frequente de trocadilhos visuais e humor obsceno, incorporando fotografia, colagem e objetos encontrados. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A obra da poeta Orides Fontela (1940-1998), autora das obras Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo (1969-1988), Teia (1996), Poesia Reunida (2006) e Poesia completa (2015). O documentário Orides: A um passo do pássaro (2000), dirigido por Ivan Marques, conta com diversos trechos de entrevistas feitas com a poeta na década de 1990. A sua biografia, O enigma Orides (Hedra, 2015), do jornalista e professor Gustavo Castro, conta com 22 poemas inéditos descobertos pelo autor, além de sua história. Veja mais aqui & aqui.
A música de Quinteto Violado aqui & aqui.
A arte de Tereza Costa Rego aqui & aqui.
O cordel de José Vila Nova aqui.
O pum da batata aqui.
&
Jurema aqui & aqui.


segunda-feira, julho 29, 2019

BAUDRILLARD, AGLAJA VETERANYI, ZSÓFIA BOROS, MACLAU DE MELLO & SEBRUÍNO


UM PARALELEPÍPEDO NO PEITO, OU ERA UMA VEZ UM GRANDE AMOR - Ninguém consegue entender o motivo daquela belezura de mulher achar de se enganchar logo com o Sebruíno, aquele mesmo, vulgo Cezão. Logo ele, um ocrídio socó todo malabanhado, quase um fora da lei de tanta embustice insuportável, cheio das caretas, uma halitose braba, uma inhaca de sovaqueira e chulé, catingoso todo, uma praga! O semiscarúnfio solerte tinha mais cabaço nas costas do que praga de formiga atacando dentro de casa, e mantinha as descabaçadas - e as por serem vitimadas - num reduto de saia perdida, harém ampliado todo dia, bastando qualquer jeitosa cruzar o seu caminho, para passar o rodo e findar todo boquirroto contando vitória. Oxe, bastou uma beldade ricaça dar mole para ele, o laido cabeça de vento se assanhou todo e mandou ver, sonhando futuro espalhado a gozar do bom e do melhor. Inacreditável mesmo. Logo ela que endoidou uma tuia de marmanjo tudo acometido de uma paixonite incurável, de vistoso a boa praça, tudo arreado na claque dos gamados nela. A mulher era um espetáculo, bote calilogia: toda elegante e pra frente, libertária e resolvida, fogosa e empiriquitada, aonde chegasse, via-se só o alvoroço de tão letífica e pasmosa. E os dois lá no maior amasso, juras e acochos. O tetro libertino dava no couro e na medida, já se via o roliúde de tão amoquecado. Danou-se na buraqueira e já se adiantava dando ordens pros empregados, botando os cães para fora, tomando os birinaites da melhor qualidade, nunca tinha visto aquilo, ora. Só se preocupava com os dentes mal-acostumados que eram com as requintadas iguarias na mesa abastada: Nunca viram isso, será que não vão cair? Ele antes só se servia de lavagem ou do que sobrasse das cozinhadas frias fora de hora. Agora, no maior repasto, regalava-se: tinha comida, roupa lavada, teto e luxo. Chega impava e era cuidado, tratado, um dengo infeliz quando ela mencionava: Meu brucutuzinho, venha cá, meu grande amorzinho! Por conta disso, passeavam pelos jardins, praças e ruas no maior idílio. Ele peidando contra o vento só pra sentir se a sua fedorência havia melhorado. E perguntava para si mesmo por não ter o quê fazer: Como é que pode, hem? Ou essa mulher é doida, ou está cega da silva. Ele se sabia franchão enjeitado, destituído de qualquer valor social, um desastre de gente. E aquela boniteza toda, do lado dele, apaixonada por ele? Não pode, só em sonho. Tanto que se beliscava para ver se era verdade. Eita! Essa doeu. E lá ia ele todo ancho, mãos dadas, enamorados. Aí ele resolveu sua vida: saiu de casa, dispensou todo mundo do seu plantel feminino, mudava de calçada quando via as pariceiras de seu convívio anterior, fiel exclusivo, todo na linha, o último-abencerrage. Bastou a lealdade para tudo virar de um tempo pro outro: ao chegar no palacete, a diva estava virada. Botou-lhe para fora no maior esculacho. Que foi que eu fiz? Ainda pergunta, salafrário? Saiu com uma mão na frente e outra atrás, uma dor de corno da peste, roendo que só. Enfiou o dente na cachaça a prantear larvado e palheirão por uns quinze dias encarreados. Sofria que só de relar a venta no meio fio e findar na sarjeta. Virou poeta de água doce de uma hora para outra, cometendo versos bregas que dilaceravam os cotovelos. Lá ia todo macambúzio biritado, perdido altas horas, errando à toa. Cadê-lo? Oxe, ontem mesmo foi encontrado estendido com um paralelepípedo enfiado no seu coração esmagado. Eita, suicidou-se... Hem, hem, era uma vez um grande amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Nem bem amanhece, minha mãe se levanta e começa a cozinhar, depena a galinha e segura-a sobre a chama do bico de gás. Minha mãe prefere comprar a galinha viva, pois a carne é mais fresca. No hotel, ela mata a galinha no banheiro. Na hora do abate, o cacarejo das galinhas é internacional, entendemos, não importa o lugar. É proibido abater animais nos hotéis, ligamos o rádio, abrimos as janelas e fazemos barulho. Não gosto de ver a galinha antes, senão, quero que ela fique viva. O que não vai dar para a sopa acaba no vaso sanitário. Eu fico com medo do vaso sanitário, de noite faço xixi na pia, dali eu sei que não vai sair nenhuma galinha morta. [...] Em cada nova cidade, cavo um buraco na terra em frente ao nosso trailer, coloco a mão lá dentro, depois a cabeça, e escuto Deus, respirar e mastigar debaixo da terra. Às vezes, tenho vontade de cavar até encontrá-lo, apesar de ter medo de que ele me morda. Deus está sempre com muita fome. [...].
Trechos da obra Por que a criança cozinha na polenta (DBA, 2004), da escritora romena Aglaja Veteranyi (1962-2002). Veja mais aqui.

A MÚSICA ZSÓFIA BOROS
A música está transportando energia e estou seguindo meu coração dependente da história que quero contar. A liberdade começa para mim depois que eu inalo a música, do que posso exalá-lo.
Curtindo os álbuns Evocacion (Preiser Records, 2005), Musibox (Preiser, 2008), Em outra parte (ECM, 2013) e Objetos locais (ECM, 2016), da violonista tcheca Zsófia Boros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Pintar murais eleva minh'alma para as estrelas lá de fora. Pintura mural me expõe e compõe-me com outros.
A arte da artista plástica Maclau de Mello. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE JEAN BAUDRILLARD
Nós somos apenas episodicamente condutores de sentido, no essencial e em profundidade nós nos comportamos como massa, vivendo a maior parte do tempo num modo pânico ou aleatório, aquém ou além do sentido.
A obra do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


domingo, agosto 03, 2014

FISHER, IRIS CHANG, MELBA ESCOBAR, VETERANYI, STEPHANIE & ANTÔNIO MIRANDA

 


UMA CANÇÃO DE AMOR PARA AGLAJA – A bela encantadora não teve muito tempo para correr pelas ruas de Bucareste, a infância nômade levou-a por diversos países europeus, americanos e africanos. Foi no picadeiro que ela, desde os três anos de idade, fez seu espetáculo, guardando lembranças de uma família andarilha de artistas circenses, que fugiam da pobreza, da austeridade e de um ditador analfabeto. O padrasto era palhaço e a mãe acrobata - mulher dos cabelos de aço, fizeram dela para malabarismos e dança. Para não morrer de fome foi internada com sua irmã na Suíça.  Abandonada num orfanato, por muito tempo esperou a volta da mãe. Ali abandonada ansiava a mamaliga, que das mãos materna ausente seria seu próprio veneno. Ela a atriz que debutou analfabeta, uma autodidata do alemão para dizer: o lar não está em lugar nenhum, a traição está em toda parte. Ela a dramaturga dedicada à literatura, com sua participação grupo experimental Die Wortepumpe e integrar-se à trupe teatral Die Engelmaschine. Ela a professora das páginas autobiográficas do Warum das Kind in der Polenta kocht... Era seu ato de revolta, como a menina reinventava sua vida e se defendia da degradação e da lenda do menino que é cozido na polenta. Ela e as suas mininarrativas: todo mundo tem água morna no banheiro. e uma geladeira no coração... E a menina desamparada cresceu conversando consigo: Por amor à pobre humanidade sofredora, Deus comerá polenta. Ele próprio é estrangeiro, viajando de país em país. Ele está triste porque tem que recomeçar uma longa viagem... E escapava da velha bruxa que a queria engordar para depois devorá-la, tornando-se uma migrante com suas experiências adversas, longe de casa, sem identidade e tentando se adaptar aos novos domicílios. Relia as páginas do Das Regal der letzten Atemzüge... A melancolia solitária e confinada à própria condição, a morbidez dos laços esgarçados no seu olhar indecifrável tão cheios de empatia e solidariedade. E a energia intensa de seus manuscritos e rascunhos faziam-na uma égua de trabalho: feridas abertas, declarações sombrias e os seus desastres. Nunca foram bens emprestados, mas exclusivamente seus e com a sua intensa vitalidade. Prosseguia radiante entre almas de chantilly com um franzir de lábios, ao mesmo tempo desinibida e tímida, intrépida e apreensiva, assombrada pelas lembranças da infância. Rebelou-se e devotou a viver duzentos ou trezentos anos graciosamente, temendo perder a ousadia e a infantil natureza anárquica. Sozinha ouvia as batidas cardíacas: Meu pai morreu de ausência. Minha mãe vive desamparada. Minha irmã é apenas filha do meu pai. Eu cresci pouco a pouco. E eu não quero filhos... O medo de cair na sarjeta nunca a abandonou. Até o seu ponto de ruptura na ferida interior: perdeu o ar e se afogou quieta como uma nuvem no Lago de Zurique. Tributo à poeta romena Aglaja Veteranyi (1962-2002). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Uma história é uma mudança de estado... A vida passa sem indicar porquê ou com que propósito, enquanto uma história transmite uma mensagem. É uma realidade polida. Para quem quer escrever, o começo de tudo consiste em desenvolver um critério... Nunca acabamos por nos sentir firmes nas nossas posições. Portanto, os critérios são importantes: é preciso saber do que se gosta... Existe uma relação orgânica entre leitura e escrita... Um leitor pode nunca pensar em escrever, mas o escritor tem um compromisso permanente com a leitura. Pensamento da escritora e jornalista colombiana Melba Escobar, autora dos livros Sonho de Bogotá. A Cidade das Crianças (Códice, 2007), Duermevela (Planeta, 2010) e Johnny e o Mar (Skylight, 2014).

 

ALGUÉM FALOU: Não cheguei onde estou na vida sendo fraca e permitindo que outros, que são fracos, tentassem me 'quebrar'. Estes homens são, na verdade, covardes impotentes que se escondem atrás de um distintivo honroso e não vou parar até que a justiça seja feita. Se você se concentrar demais nos tolos, acabará se tornando um. Pensamento da atriz, modelo e escritora estadunidense Stephanie Adams (1970-2018).

 

FANTASMA DA MINHA VIDA - [...] O lento cancelamento do futuro foi acompanhado por uma deflação de expectativas. Poucos podem acreditar que no próximo ano um disco tão bom como, digamos, Funhouse dos Stooges ou There’s A Riot Goin’ On de Sly Stone será lançado. Ainda menos esperamos o tipo de ruptura provocada pelos Beatles ou pela discoteca. A sensação de atraso, de viver depois da corrida do ouro, é tão onipresente quanto rejeitada. Compare o terreno baldio do momento atual com a fecundidade dos períodos anteriores e você será rapidamente acusado de “nostalgia”. Mas a confiança dos artistas actuais em estilos que foram estabelecidos há muito tempo sugere que o momento actual está dominado por uma nostalgia formal, da qual falaremos mais brevemente. Não é que nada tenha acontecido no período em que se instalou o lento cancelamento do futuro. Pelo contrário, esses trinta anos foram um período de mudanças massivas e traumáticas. No Reino Unido, a eleição de Margaret Thatcher pôs fim aos difíceis compromissos do chamado consenso social do pós-guerra. O programa neoliberal de Thatcher na política foi reforçado por uma reestruturação transnacional da economia capitalista. A mudança para o chamado pós-fordismo – com a globalização, a informatização omnipresente e a precarização do trabalho – resultou numa transformação completa na forma como o trabalho e o lazer eram organizados. Entretanto, nos últimos dez a quinze anos, a Internet e a tecnologia das telecomunicações móveis alteraram a textura da experiência quotidiana de forma irreconhecível. No entanto, talvez por causa de tudo isto, há uma sensação crescente de que a cultura perdeu a capacidade de compreender e articular o presente. Ou pode ser que, num sentido muito importante, não haja mais presente para compreender e articular. [...] A ontologia depressiva é perigosamente sedutora porque, como gêmeo zumbi de uma certa sabedoria filosófica, é meia verdade. À medida que o depressivo se retira das confusões vazias do mundo da vida, ele inadvertidamente se vê em concordância com a condição humana tão meticulosamente diagramada por um filósofo como Spinoza: ele se vê como um consumidor em série de simulações vazias, um viciado viciado em todo tipo de coisas mortificantes. alto, um fantoche de carne das paixões. O depressivo não pode nem mesmo reivindicar o conforto que um paranóico pode desfrutar, pois não consegue acreditar que os cordões estejam sendo puxados por alguém. Sem fluxo, sem conectividade no sistema nervoso do depressivo. [...] O depressivo sente-se isolado do mundo da vida, de modo que a sua própria vida interior congelada – ou morte interior – domina tudo; ao mesmo tempo, ele se sente evacuado, totalmente desnudo, uma concha: não há nada exceto o interior, mas o interior está vazio. Para o depressivo, os hábitos do antigo mundo da vida parecem agora ser, precisamente, um modo de encenação, uma série de gestos de pantomima (“um circo completo com todos os tolos”), que ambos já não são capazes de executar e que não quero mais atuar – não adianta, tudo é uma farsa [...] O capital exige que pareçamos sempre ocupados, mesmo que não haja trabalho para fazer. Se quisermos acreditar no voluntarismo mágico do neoliberalismo, há sempre oportunidades a serem perseguidas ou criadas; qualquer tempo não gasto em agitação e agitação é tempo perdido. Toda a cidade é forçada a uma gigantesca simulação de actividade, a um fanatismo de produtivismo em que nada é realmente produzido, a uma economia feita de ar quente e de delírio brando. [...] O que é suprimido na cultura pós-moderna não é o lado das Trevas, mas sim o lado da Luz. Estamos muito mais confortáveis com demônios do que com anjos. Enquanto o demoníaco parece legal e sexy, o angelical é considerado embaraçoso e sentimental [...] O capital nunca poderá admitir abertamente que é um sistema baseado na rapacidade desumana; o Exterminador do Futuro nunca poderá remover sua máscara humana. [...]. Trechos extraídos da obra Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures (Zero Books, 2014), do filósofo, escritor e professor inglês, Mark Fisher (1968-2017). Veja mais aqui.

 

O PESADELO DE DARWIM – O premiado documentário francês Darwin's Nightmare (2004), escritor e dirigido pelo cineasta austríaco Hubert Sauper, aborda os efeitos sociais e ambientais da intervenção da indústria da pesca no Lago Vitória, na Tanzânia, o maior lago tropical do mundo, considerado como o berço da Humanidade, vivendo o pior pesadelo da globalização. Ocorre que na década de 1960, é introduzida a perca-do-nilo, um peixe predador voraz, no lago como experiência científica. Depois, praticamente todas as populações de peixes indígenas são dizimadas. Desta catástrofe ecológica nasce uma indústria frutuosa, pois a carne branca do enorme peixe é exportada com sucesso em todo o hemisfério norte. Pescadores, políticos, pilotos russos, prostitutas, industriais e comissários europeus são os atores de um drama que ultrapassa as fronteiras do país africano. Com o intenso fluxo comercial entre de aviões, especulações surgem outro tipo de comércio: o comércio de armas.

 

ESTUPRO DE NANQUIN - [...] Quase todas as pessoas têm este potencial para o mal, que só seria desencadeado sob certas circunstâncias sociais perigosas. [...] Olhando para trás, para milénios de história, parece claro que nenhuma raça ou cultura detém o monopólio da crueldade dos tempos de guerra. O verniz da civilização parece ser extremamente tênue – um verniz que pode ser facilmente removido, especialmente pelas tensões da guerra. [...] A violação de Nanquim não penetrou na consciência mundial da mesma forma que o Holocausto ou Hiroshima porque as próprias vítimas permaneceram em silêncio. [...] Aparentemente, alguma peculiaridade da natureza humana permite que até mesmo os mais indescritíveis atos de maldade se tornem banais em poucos minutos, desde que ocorram longe o suficiente para não representarem ameaça pessoal. [...] O espetáculo foi tão repugnante que até os nazistas na cidade ficaram horrorizados, proclamando que o massacre era obra de “máquinas bestiais”. [...] a história notou que a mera concentração de poder no governo é letal – que apenas uma sensação de poder absoluto e incontrolado pode tornar possíveis atrocidades como o Estupro de Nanquim. [...] Alguns até tentaram usar o ópio para cometer suicídio, engolindo grandes doses como veneno. Outros recorreram ao crime para apoiar o seu vício, causando uma onda de banditismo que varreu Nanquim. Depois de criarem condições propícias ao banditismo em Nanquim, os japoneses usaram a epidemia de crimes para justificar a sua ocupação, pregando a necessidade de lei e ordem imperiais. [...]. Trechos extraídos da obra The Rape of Nanking: The Forgotten Holocaust of World War II (Basic Books, 2012), da escritora e jornalista chinesa Iris Chang (1868-2004), narrando o massacre de Nanquim.

 

A ARTE DE ANTONIO MIRANDA

4 DE AGOSTO DE 1940

Nasci atravessado, pelo avesso
E na véspera
- não queria deixar o conforto
Do útero materno.
Enfrentar não queria
A luz exterior
Esperneei gritei berrei
Dias e anos seguidos
No desconsolo
No abandono
No desterro mais cruel
Entregue a mim, sem desejar-me
- nunca perdoarei aquele parte indesejado.

HORIZONTE CERRADO - O primeiro contato que tive com a arte de Antonio Miranda foi no inicio dos anos 2000, quando tive acesso ao seu texto poético-teatral Tu país está feliz, registrando seu trabalho no Poeta do Mês do meu Guia de Poesia. Foi daí que recebi o volume do seu livro Horizonte Cerrado, reunião de contos que muito apreciei, principalmente O chamado, Volta às origens e A revelação, trazendo fatos, coisas e curiosidades do Planalto Central.

OS VÁRIOS EUS (maneirismo literário)

Os meus vários eus
Se desentendem e se ofendem
Em posições irreconciliáveis

Os meus vários eus
Se defendem como podem
Exacerbando as divergências.

Entro em pânico e me recolho
Execrando minha existência
Múltipla e contraditória.
Tento a paz, a indulgência
Mas a confusão se instala
Em minha consciência
Sem qualquer escapatória.

Nem dormindo se apazigua
A guerra, contigua àquela
Atração fatal dos contrários
Que se anulam pela contrafação
- pelos comentários antagônicos
De eus agônicos e arbitrários
De um total desentendimento.

E por falta de melhor argumento
Vão àquela lavra maneirista
Do recurso redivivo
Do “palavra-puxa-palavra”
Do admirável Mario Chamie.

A SENHORA DIRETORA – Um ano depois, tenho a grata satisfação de receber o volume A senhora diretora e outros contos, o qual me deliciei lendo o conto título, Kafka explica, ou seria Freud?, Memórias de adolescente ou as confissões do absurdo e, sobretudo, Memória da pele. 


SAUDADES DO FUTURO

Tanto quis fazer
E me contive.
Tanto quis ser.
Imaginei-me tantas vezes
Onde nunca estive.

Em menino, era adulto
Sem poder
Para ocupar espaços
Que se/me negavam.

Amores!
Desejei a quantos
E amei tantos
Sem tê-los
(conquantos, portantos)
Por contradizê-los
- eu bem sei.

Temores!
Preferia o impossível.
Projetei-me em situações
Que logo preteria
Por não satisfazer-me.

Insaciável
Pelo não vivido
E almejado
Frustrado pelo que sentia
Ao ter o que havia
Superado.

Vivi antecipadamente
O não acontecido
E relevei
Tantas vezes
Descuidadamente
O que sentia.

Era feliz
E não sabia
- diz o chavão
Em que não cria
Porque – então –
Para mim
A felicidade
Era sempre futura
Em minha
(postiça, intelectual)
Amargura.

DESPERTAR DAS ÁGUAS – Quando recebi o livro Despertar das águas fique supersurpreso. Já conhecia sua poesia, todavia, nesse livro ele se inteirava de forma completa no seu ofício de poeta, repassando tudo, desde o 4 de agosto de 1940 até o último poema do livro, Sobre o infinito de Giordano Bruno. Ao ler Os vários eus (maneirismos literários) parece mais que ele fotografou a minha alma e a mim dedicou o poema. Mas não só isso: Em Saudades do futuro eu estava ali, era eu com todos os eus do poeta. 


METAPOEMA

Tudo, tudo mesmo
Já se disse em poesia
Mas vale dizer de novo.

Não se banha no mesmo
Rio duas vezes, não se
Lê o mesmo poema.

E me descubro em verso
Que já havia esquecido
- eu, ido e revivido.

Escreve-se sempre o
Mesmo poema, que vai
Desta página até nunca.

Este verso e o outro
Que é sempre o mesmo
E o outro, lugar algum.

O mesmo poema é muitos.

MEMÓRIAS INFAMES – No livro Memórias infames ele ataca de primeira com Metapoema – um começo do fim pela pane de Dürrenmatt via dinâmica heraclitiana arrematando Pessoa de suas muitas metas, até chegar na Janela para dentro:


JANELA PARA DENTRO

Pássaro adiantado no tempo
- o inverno anuncia dias calados.
Que me falem de ti, onde andas.
Sem noticias e mensagens.
Animais gregários. Sapatos gastos.

A janela olhando o horizonte,
O horizonte dentro da janela.
Olhando para dentro: sem você.
Quando aportaremos, seguros?
As paredes estalam. Estremecemos.
Nada além disso, é o bastante.

Hora impávida, ensimesmamento.
Deve haver outra saída mais adiante.
Uma chuva letárgica, atrasada
Molha sem pressa, afogando
Por onde passo, sem caminho
- ofegante, buscando sem saber,
Sem saída, descalço – o dia em falso.
Talvez. Deve haver outra saída.

As nuvens espreitam a lo lejos
E me protege a sombra passageira.

TU PAÍS ESTÁ FELIZ - Finalmente tenho acesso ao texto teatral publicado Tu país está feliz, em edição bilíngue da Thesaurus, com apresentação de Anderson Braga Horta e músicas de Xulio Formoso, no qual destaco O mundo está cheio de palavras:


O MUNDO ESTÁ CHEIO DE PALAVRAS

O mundo está cheio de palavras!

Tu consomes pão e palavras:
Democracia, liberdade, temor
Felicidade.

O mundo está cheio de palavras...

E tão somente uma palavra
Uma tão só
Derruba tua coroa
Ou inflama tua garganta.

O mundo está cheio de palavras!


HOMENAGEM – Tudo que trago aqui é muito pouco para se ter uma dimensão da arte desse poeta, escritor, dramaturgo, escultor e professor maranhense radicado em Brasília. Antonio Miranda além de ser quem é, desenvolve um trabalho de difusão cultural e artística por toda América Latina, divulgando e reunindo sua obra no seu sítio que agrega a Poesia Ibero-Americana. 


Veja mais sobre:
A arte do advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-2017) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

E mais:
Lygia Fagundes Teles & Pomba enamorada ou uma história de amor aqui.
A poesia de D. H. Lawrence & Milene Possas Sarquissiano aqui.
A poesia de Pablo Neruda, a Música de Jane Monheit & a fotografia de Colette Standish aqui.
A poesia de Raymond Radiguet, a pintura de Thereza Toscano & Para sempe Lilya aqui.
Encruzilhadas aqui.
Arthur Schopenhauer, Johann Nikolaus Forkel, José Cândido de Carvalho, Victor Brecheret, Luís Buñuel, Iremar Marinho & Bestiário Alagoano aqui.
Karl Theodor Jaspers, Pablo Picasso, Georg Friedrich Händel, Fernanda Seno, Eva Green & Demi Moore, Tom Wesselmann & Soninha Porto aqui.
Os crimes contra a administração pública aqui.
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Ernesto Sábato, Nelson Rodrigues, Antonio Cândido, Betty Lago, OVNI, A chegada dela no prazer da tarde & Programa Tataritaritatá aqui.
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...