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sexta-feira, abril 24, 2020

AGLAJA VETERANYI, NAOMI KLEIN, SARAH LUCAS, SIMONE TEODORO & ORIDES FONTELA


DAS ESFERAS DO TRIVIAL – UMA: É VIVENDO QUE SE APRENDE - Meus pensamentos são desproporcionalmente maiores que o meu tamanho, acho, claro, um batoré troncho e buchudo superando a pequenez. Isso desde menino inventando história para brincar e aparecer. Talvez seja essa a razão das dificuldades em encaixá-los adequadamente. Ou mania de grandeza desarrazoada. Destá. A vida e os livros muito me ensinaram, não sou lá entre os bons e os piores aprendentes, talvez um pouco abaixo da média. Mas me esforço e gosto de descobertas, aprendizados constantes, corro atrás. Comigo o ensinamento da maravilhosa educadora Esther Pillar Grossi: Aprender é estar vivo. Fazer pergunta significa saber algo e estar aprendendo, porque não há resposta sem pergunta. Aprender é curtir a graça da vida. E eu curto essa graça a cada dia, principalmente nesses momentos de clausura compulsória, ocasião que ela aconselha: Que durante esse isolamento, cultivemos o calor da maior solidariedade, para que dele renasça uma nova humanidade, não mais desigual como a de agora. Também espero uma nova humanidade depois que tudo isso passar, porque aprendi: você é o que pensa. E eu penso sempre maior que eu mesmo. Assim voo aprendiz e aprendendo. DUAS: PARA ALÉM DA ESTATURA – Como havia dito, desde menino, sempre pensei muito além da minha idade e medida, talvez de forma descabida, mas ousada, inventando até o disforme ou impossível. Achava graça, morria de rir – como ainda hoje me rio das minhas leseiras que se parecem estupendas quando, na verdade, são meras invencionices – ou serão estultices minhas, hem? Avalie. Lembro ainda jovem quando li o saudoso Hélio Jaguaribe: O homem é uma busca individual de sentido, no âmbito de um cosmos destituído de qualquer sentido. O homem é um primata transcendente; a transcendência é inerente à natureza humana (e mais dele aqui e aqui). Culpa dele, isso me dava uma corda, ainda dá, vou por aí transcendendo. TRÊS: DOS MORALISMOS PARA PORNOGRAFIA & OBSCENIDADE - Transcender de mesmo é preciso com a patetada lá do Planalto Central, com seus conceitos moralistas e fajutos que se impõe ditando lá, na maior confusão do que é lícito ou certo, do que é obsceno ou pornográfico, quando, deveras, são despautérios e cotoveladas! Minha nossa! Acho que a ministrada coisonária não bate bem lá da bola ou são tão estúpidos que não dá nem para levá-los a sério. O que eles propagam são minimamente dislates os mais impensáveis. O que fizeram da minha utopia, hem? Pois bem, a respeito disso vou de José Saramago: Não é a pornografia que é obscena, é a fome que é obscena. Doutra forma, a Andrea Dworkin observa que: Pornografia é a sexualidade essencial do poder masculino: de ódio, de posse, de hierarquia, de sadismo, de dominância. Pois é, a trupe coisada ou é obscena ou tão incompetente que chega a ser pornográfica! E como aprendi com Plutarco que: A mente não é uma vasilha para ser enchida, mas um fogo para ser acendido, da minha parte, eu digo: só há pornografia ou obscenidade onde há preconceito, repressão, discriminação. Vou ali tentar salvar a minha insanidade mental. Até segunda-feira! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] minha cidade se sentiu como a cena de um crime. E os criminosos estão se fundindo com a noite, fugindo da cena. Não, não estou falando dos rapazes de preto que quebraram janelas e incendiaram patrulhas policiais. Estou falando dos chefes de Estado que destruíram as redes sociais de segurança e queimaram empregos bons em meio a uma recessão. Confrontados com os efeitos de uma crise criada pelos estratos mais abastados e privilegiados, decidiram cobrar a conta dos habitantes mais pobres e vulneráveis de seus respectivos países. De que outra forma podemos interpretar o comunicado final do G-20, que nem sequer inclui um mísero imposto sobre os bancos ou as transações financeiras [...] mas diz aos governos que cortem seus déficits pela metade até 2013? Trata-se de um corte enorme e importante, e devemos ser muito claros quanto a quem pagará a conta: estudantes que verão uma deterioração adicional em sua educação enquanto suas mensalidades aumentam; aposentados que perderão seus benefícios duramente ganhos; trabalhadores do setor público cujos empregos serão eliminados. E a lista continua. Cortes desse tipo já começaram em muitos países do G-20 e estão a ponto de piorar. Reduzir pela metade, por exemplo, o déficit projetado dos EUA, sem impor um aumento fiscal substancial, significaria um corte fenomenal de US$ 780 bilhões. Os cortes estão ocorrendo [...]. Trechos de Cobrando do povo pela crise dos banqueiros (Uol Noticias, 2010), da escritora, jornalista e ativista canadense, Naomi Klein que no Diálogo interconvicções: A multiplicidade no pano da vida (IHU, 2020), assinalou que: A Doutrina do Choque é uma estratégia política que consiste em usar crises em larga escala para promover políticas que sistematicamente aprofundam a desigualdade, enriquecem as elites e minam os demais [...] Isso é o que essa espécie de economia de o-ganhador-leva-tudo faz com nosso cérebro. Estamos vendo em tempo real que estamos muito mais interconectados entre nós do que nosso brutal sistema econômico nos faz acreditar. [...] Quando se está em um sistema que se sabe que não está cuidando das pessoas e não está distribuindo recursos de maneira equitativa, então sua parte de ‘monopólio’ se iluminará [...] Podemos pensar que estaremos seguros se tivermos bons cuidados médicos, mas se a pessoa que faz nossa comida, que entrega nossa comida e empacota nossas caixas, não pode sequer pagar pelo teste, e muito menos ficar em casa, pois não recebe licença médica, não estaremos a salvo. [...] Portanto, leve em conta isso e pense em como, em vez de acumular e pensar em como pode cuidar de si e de sua família, pode passar a compartilhar com seus vizinhos e controlar as pessoas mais vulneráveis [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A POESIA DE AGLAJA VETERANYI
MÃE - Uma vez uma mãe. Disse para o braço: Filho. /Cortou o próprio braço. / Foi à cozinha e preparou para o braço canja / de galinha. Dizia: Filhinho. Come tudo! A mamãe fez / muita sopa. Isso! Isso! / Depois da comida ela pôs o braço na cama. Cobriu- / o. Cantou o braço até o sono. 
1 CARTÃO-POSTAL - A filha / come as velas de aniversário / não / A mãe / Você é como seu pai! / O pai / fica 20 anos fora / envia depois de 20 anos / 1 cartão postal / telefona depois de 20 anos / 1 vez / canta para a filha depois de 20 anos / 1 canção infantil / A filha / envia para a mulher do pai / 1 a 2 saudações / Depois de 20 anos / o pai volta / e morre / 1 vez.
AGLAJA VETERANYI - A poesia da escritora romena Aglaja Veteranyi (1962-2002). Veja mais aqui & aqui.
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A POESIA DE SIMONE TEODORO
AMOR - Quando a torneira da pia estourou, Ana, eu perdi o controle e soquei o espelho do banheiro respingado de pasta de dente. / Tudo era jorro. Sangue, água e ódio, por muito tempo represados / Passei o ano embalsamando carne morta, Ana. Salgando as vísceras pra esconder o mal cheiro / Ana, eu sei: teu bonde parou de súbito, como um coração. Entraste no inferno e no amor com a lucidez de quem sabe que morre. / Entraste na pior escuridão, a que aterroriza com a visão aumentada do pulsar das coisas / Dentes de cego e chicletes, tua crise / Meu inferno, Ana: um romper de cascas, como o massacre de ovos em tua sacola de compras / Meu inferno: profusão de canos furados, desordem de águas incontroláveis, que ardem a respiração se me atingem as narinas e que devagar / me matam / me matam
COM LICENÇA, COM LICENÇA POÉTICA - Tenho apenas minhas mãos / e um tesão maior que o mundo / A vontade de amor / sempre me paralisou o trabalho / Sou anjo esbelto e safado / Solidão me come por dentro / diariamente / Tenho minhas mão / Sou mulher desdobrável / Eu sou
LITANIA PARA QUANDO DESCARRILAREM OS ASTROS - Eu te supunha / asa / hélice / um retalhar de quedas / Eu te sonhava / rito e rio / e te queria ajustada / a meu dia de chuva / e a minha saudade de árvores / Por equinócios e solstícios vários / te gozei / em poro e pelo / Mas eu era a puta / eu era a puta / e você tinha / a pedra / e a estaca / Por equinócios e solstícios vários / nos esfaqueamos / com furor igual / ao de quando o desejo / nos delirava / por equinócios e solstícios vários / Até que o sal / do mar da mágoa / vestiu a ardência / nossas carnes rasgadas
SIMONE TEODORO - A arte da poeta Simone Teodoro, autora das obras Movimento em falso (2016), Distraídas astronautas (2014) e Também estivemos em Pompeia (2019). Ela é mestre e doutoranda em Literatura Brasileira pela UFMG e possui textos publicados em revistas e jornais, tais como Mallarmargens, Germina, Incomunidade, Suplemento Literário de Minas Gerais e no Jornal O Relevo. Ela também edita o blog Cálida Poesia. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Se este mundo é tudo o que existe; se é só isso, dadas as infinitas possibilidades, por que então é tão tosco?
A arte da artista visual inglesa Sarah Lucas, que possui uma proposta de trabalho artístico com emprego frequente de trocadilhos visuais e humor obsceno, incorporando fotografia, colagem e objetos encontrados. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A obra da poeta Orides Fontela (1940-1998), autora das obras Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo (1969-1988), Teia (1996), Poesia Reunida (2006) e Poesia completa (2015). O documentário Orides: A um passo do pássaro (2000), dirigido por Ivan Marques, conta com diversos trechos de entrevistas feitas com a poeta na década de 1990. A sua biografia, O enigma Orides (Hedra, 2015), do jornalista e professor Gustavo Castro, conta com 22 poemas inéditos descobertos pelo autor, além de sua história. Veja mais aqui & aqui.
A música de Quinteto Violado aqui & aqui.
A arte de Tereza Costa Rego aqui & aqui.
O cordel de José Vila Nova aqui.
O pum da batata aqui.
&
Jurema aqui & aqui.


quinta-feira, janeiro 18, 2018

WILLIAM BLAKE, CARLOS NEJAR, FLORESTAN, ORIDES FONTELA, LEON ELIACHAR, REGINA SILVEIRA, LOUIS MALLE, LUCIANO MAGNO & LIAH SOARES

AJUSTE DE CONTAS – Imagem: Abissal (2010), da artista plástica Regina Silveira. - Tirando por mim, a vida é curta e vale muito, a gente pouco e ela é demais pro que se quer. Pelejei muito, agora sozinho na noite só resta escrever cartas e mais cartas e colocá-las no fundo das garrafas para jogá-las às correntes dos rios, quem sabe, ou gravar versos confessionais às areias das praias entre sargaços ou nas encostas, nas rochas, estradas, para serem levados aos ventos à qualquer beira de fim, ou riscar meus sentimentos mais íntimos nas bordas do tempo, em voz alta no alto de um morro, ah, como agora escrevo nada que se aproveite porque nunca fiz nem fui nada, mesmo na tentativa de fazer nada melhores a todo instante e momento, mesmo que pra nada servissem nem sirvam meus préstimos, nunca serviram, valho-me da indolência de inventar histórias com os malassombros do mundo e fantasmas frequentes que rondam minha insônia a roubar meus pesares e anseios numa brincadeira sem fim. Só me resta de mesmo sentar num banco de praça a debulhar meus prantos e lavar-me a alma por ter sido vítima do injusto, a perdoar-me pela sordidez dos meus atos e vexames, como ajuste de contas pelo que fui e deixei de ser, ah, isso não, jamais. Certamente nunca fui lá achegado a lamúrias, pois ri demais e me esbaldei oportuno às condições favoráveis, quando permite uma folga por instantinho de nada que fiz valer séculos, confesso. Por isso, sempre me achei mal-agradecido, cada qual experimenta do doce e amargo, o castigo do remorso silencioso de quantos suicidas, solitários, eu mesmo nada disso, apesar das sobradas, eu morri muitas vezes e das cinzas renasci mais de mil vezes e cá estou prestando contas pra ver do que devo e do que sou credor, se é que crédito algum ainda me reste completamente ao rés do chão, reles espantalho, homiziado de pernoite, a me fazer débil entre moucos e cegos maçantes com seus parvos alcunhas e reuniões mundanas e secretas, grupelhos de interesses a ouvirem e espiarem para tudo e nada distinguirem, meros substantivos sem significado nem vergonha em seus rostos amargurados, arrogantes, cínicos, indóceis, portadores da palavra sem verdade e a rogarem favores em nome da graça de Deus e de clemência por seus degradantes dissabores, na voz gutural de duas dissimulações, sem pressa para fazer as malas enquanto se assustam com o fim do mundo daqui a pouco. Ignorado por todos sou na generosidade do sossego sem escapar de mim mesmo, no desabafo de sentimentos enterrados no mais profundo do íntimo, um acerto de contas feito e refeito comigo mesmo, já que dos outros paguei tudo até o pato alheio, foi tudo preto no branco, um ou outro, talvez, lembre tenha sido com folga, na maioria das vezes era ali mesmo justado e pesado com percentagem de usura por impagáveis falhas e deslizes, mal-entendidos, e levasse a sério era estouro das coronárias e eu já era esquecido e desmemoriado, sem buscar o muito e de tudo que persegui a vida toda, augurando êxito aqui e ali, lavando a alma e peito ao flagrar alguma cena na paisagem, sempre um vulto de mulher a chamar atenção na calçada, maravilha da vida a me empolgar e a confirmar que Deus existe naquela majestosa assimetria bem distribuída no balanço das ancas, no perfil gracioso dos seios, a cadência dos passos no mundo das pernas e coxas, o olhar fascinante que vê e não me reconhece atordoado, o prêmio do sorriso nos lábios de festa a confirmar que sou eu o premiado. Graças! Louros e salvas pra mim, pelo que escapei de traições e perigos, pelo que perdi e nem precisava, pelo que ganhei de afeto e me fez pronto pra seguir adiante, perseguir e perseverar, resiliente, pelo menos, até amanhã, se Deus quiser. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o guitarrista, compositor, cantor, arranjador e produtor musical Luciano Magno: A máquina, Marco Zero/Carnaval do Recife & De Olinda a Los Angeles; da cantora e compositor Liah Soares: Quatro cantos & As melhores; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Baratas e formigas nos sobreviverão. Quando os átomos desintegrarem cidades e corpos, com capacetes de fereza, esses prestimosos insetos saberão o que fazer da terra, já que nós não sabemos. E talvez a concha perdida na praia restaure a última senha. [...] Toda barbárie principia na linguagem. E caminha para os gestos, fecundando a cotidiana convivência. Impõe-se uma tácita comunidade. A mais brutal selvageria é a da alma. [...] Toda ideologia é uma neblina. Envelhece à morte de um dia. [...]. Trechos extraídos da obra O túnel perfeito (Relume Dumará, 1994), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar. Veja mais aqui.

REFLEXÃO PARA OS TEMPOS ATUAIS - [...] O recuo no tempo constitui uma função da cadeia de determinações causais e genéticas com que se opera. Raramente é aconselhável forçar a mão, na suposição de que “o passado explica o presente”. A sociedade se reconstitui e, se importa não perder os elos com o passado, nunca se deve perder de vista que é no presente que se encontram as determinações essenciais, que regulam a reprodução das estruturas e profundidade, a rapidez e a amplitude das transformações históricas em processo. No Brasil, porém, como em muitos outros “países capitalistas dependentes e atrasados” [...] O passado não se “repete” pura e simplesmente. Exigências e necessidades novas condicionam ou determinam a reprodução de comportamentos coercitivos e violentos, arcaicos ou semi-arcaidos, o que instaura um paradoxo histórico. [...] Assim, a violência institucional se cruza com a submissão reativa, a produção de apatia generalizada e a exclusão sistemática dos dominados, oprimidos e explorados. [...]. O que fica claro – e que as elites das classes possuidoras e dominantes procuram salvar do “caos” das mudanças – é que a monopolização do poder (de todas as formas de poder e, no caso, do poder especificamente político) se decide em um patamar pré-político. Os partidos apenas contam como agência de fruição, distribuição e centralização do poder entre facções dos estratos sociais privilegiados e “dirigentes”. [...] Os estudiosos do preconceito e da discrimanção raciais descobriram a essência de uma tradição mistificadora, arraigada no Brasil: o preconceito de não ter preconceito – uma fragilidade humana aparentemente universal, que deveria ser inerente a qualquer forma de ideologia e até mesmo ser assimilável aos mores inabaláveis de uma sociedade de origem escravista. É possível que a contradição entre o império da fé e as iniqüidades da escravidão tenha forjado uma espécie de entorpecimento infantil da consciência social e produzindo essa tendência complacente de dissimular as misérias humanas, transcendndo aos limites e às necessidades das ideologias. [...] De outro lado, embora não se possa separar o referido preconceito de não ter preconceito da violência sublimada e da violência elementar subjacente às relações estamentais-escravistas e às relações de classes de uma sociedade multiracial com fortíssima concentração racial da riqueza, do prestigio social e do poder, é evidente que o paradigma que vale para a representação do “não-preconceito” vale igualmente para outras representações essenciais à humanidade dos “mais humanos” (no calo, do que diz respeito à “não-violência”). A violência incorporada aos mores dos que se atribuem a responsabilidade da defesa da ordem, da moralidade ou da religião e de todo um padrão de civilização, objetiva-se como um direito natural – ou, na pior das hipóteses, como uma coação “legítima” e “necessária”, que se justifica por si mesma, por prevenir irrupções destrutivas da violência e por se institucionalizar como um “direito sacrossanto”. [...]. Trechos da obra A ditadura em questão (T.A. Queiroz, 1982) do

CASAMENTO DO CÉU E DO INFERNO – [...] As religiões dualistas sustentam que o homem possui dois princípios reais de existência, um corpo e uma alma; que a energia provem apenas do corpo, enquanto a razão, inteiramente da alma; e que Deus atormentará o homem por toda a eternidade por ele seguir suas energias. A verdade é que o homem não possui corpo distinto da alma – o chamado corpo é uma porção da alma discernida pelos cinco sentidos; que essa energia é a única vida que provém do corpo; que a razão é o limite externo ou circunferência da energia; e que a energia é o deleite eterno [...]. Extraído da obra O matrimônio do céu e do inferno (Iluminuras, 1995), do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

TALENTO – Quando completou dezoito, Ingrid saiu de casa com a disposição de entrar para o teatro: - Hei de vencer, custe o que custar. Não foi mole. Durante dois meses freqüentou tudo quanto é restaurante onde vão jantar os artistas, depois do espetáculo. Só que ela não jantava: roubava uma batatinha aqui, outra ali, e ia fazendo os contatos, que hoje chamam de relações públicas. Até que um dia surgiu a primeira oportunidade e arranjou sem primeiro emprego: tinha de bater palmas, de vez em quando, pra incentivar a plateia. Mas não durou muito: uma vez bateu palma fora de hora e acabou indo pra rua. Pra arranjar colocação em outro teatro, foi duro, pois essa é uma das raras profissões que não possibilitam a tal carta apresentação. – Mesmo assim, hei de arranjar. E arranjou mesmo, porque sempre aparece um brincalhão para tirar partido da agonia alheia. O fato é que Ingrid conseguiu uma carta nos seguintes termos: “Prezado diretor, pela presente quero lhe recomendar o extraordinário talento da jovem portadora desta carta, excelente batedora de palmas de nossa ‘claque’, com uma folha de serviços digna dos maiores elogios. Graças às suas palmas, sempre estridentes e oportunas, nossas peças têm sido muito bem aceitas, tanto pelo público como pela crítica ainda não se acostumou a gostar das peças aplaudidas. De qualquer forma, como o nosso objetivo direto é o público, peço-lhe que ouça com atenção as palmas desta jovem, cujo futuro está em suas mãos (dela é claro)”. – O senhor acha mesmo que posso fazer carreira? Ingrid tremia, quando o direitor lhe pediu para bater palmas. – O senhor gostou mesmo? – Demas. Agora pode vestir a saia e passe para a outra sala pra assinar o contrato: a senhoria será a nossa principal vedete. O que é o destino. Ingrid ingressou no teatro através das mãos, mas o seu talento estava todo nas pernas. Extraído da obra A mulher em flagrante (Círculo do Livro, 1986), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987). Veja mais aqui e aqui.

AXIOMAS – Sempre é melhor / saber / que não saber. / Sempre é melhor / sofrer / que não sofrer. / Sempre é melhor / desfazer / que tecer. / Sem mão / não acorda / a pedra / sem língua / não ascende / o canto / sem olho / não existe / o sol. Extraído da obra Teia: poemas (Geração, 1996), da poeta Orides Fontela (1940-1998).

ADEUS, MENINOS
Adeus, meninos foi inspirado na lembrança mais dramática da minha infância. Em 1944, eu tinha 11 anos e era interno num colégio católico, perto de Fontainebleu. Um de meus colegas, que havia chegado no começo do ano, me intrigava muito. Ele era diferente, discreto. Comecei a conhece-lo, a amá-lo, quando, certa manhã, nosso pequeno mundo desabou. Esta manhã de 1944 praticamente decidiu minha vocação de cineasta. É a minha fidelidade, minha referência. Deveria tê-la feito a matéria de meu primeiro filme, mas hesitava, esperava. O tempo passou, a lembrança se tornou mais aguda, mais presente. No ano passado, após dez anos nos Estados Unidos, senti que era chegado o momento e escrevi o roteiro de Adeus, meninos. A imaginação utilizou-se da memória como um trampolim, reinventei o passado, além da reconstituição histórica, em busca de uma verdade ao mesmo tempo lancinante e intemporal. Através do olhar desse garotinho que se parece comigo, tentei reencontrar esta primeira amizade, a mais forte, bruscamente destruída, e a descoberta do mundo absurdo dos adultos, com sua violência e preconceitos. 1944 está longe, mas eu sei que um adolescente de hoje pode partilhar a minha emoção. Louis Malle.
Extraído do livro Adeus, meninos (Bertrand Brasil, 1987), com o roteiro do premiado drama Au revoir les enfants (1987), dirigido, escrito e produzido pelo cineasta Louis Malle (1932-1995), baseado na própria infância ocorrida durante o inverno de 1943-44, quando na II Guerra Mundial a França é ocupada e dividida entre os invasores nazistas entre os “colaboracionistas” (cidadãos franceses que ajudam os alemães), os opositores resistentes e demais habitantes, meninos de diferentes idades assustem aulas dadas e organizadas por padres cristãos, descobrindo que um dos mais inteligentes e introspectivos alunos, veste solidéu e reza em língua hebraica. O filme revela a crueldade da guerra e a ocupação. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
O mundo parou pro coração pulsar, o pensamento de Sêneca, a música de Liah Soares & a pintura de Jean Fautrier aqui.
Por você na Crônica de amor por ela, Safo, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Autran Dourado, Regina Silveira, Khadja Nin, Alexandre Dáskalos, Sam Taylor-Wood, Erika Leonard James, Eduardo Schloesser, Dakota Johnson & Kel Monalisa aqui.
Darcy Ribeiro, Autran Dourado, Damaris Cudworth Masham, Loius Claude de Saint-Martin, Juan Orrego-Salas, Irina Vitalievna Karkabi, Doença & Saúde aqui.
Farra do Biritoaldo aqui.
Educação Ambiental aqui.
Albert Camus, Maceió, Robert Musil, Denys Arcand, Jools Holland, Eugene Kennedy, Pál Fried, Sandu Liberman, Lady Gaga, Anna Luisa Traiano, Gestão do Conhecimento & do Capital Humano aqui.
Judicialização do SUS aqui.
Educação por água abaixo pra farra dos mal-educados aqui.
Depois da tempestade nem sempre uma bonança aqui.
É preciso respeitar as diferenças aqui.
Pra fazer do Brasil um país melhor tem que começar tudo em casa aqui.
A teoria de Anthony Giddens & a Introdução à estética de Ariano Suassuna aqui.
Solidariedade aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

A ARTE DE REGINA SILVEIRA
A arte da artista plástica Regina Silveira. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.



domingo, novembro 02, 2008

KAZANTZÁKIS, NAOMI KLEIN, ORIDES FONTELA, ESTHER GROSSI, RUTH ESCOBAR, TEÓCRITO DE CORINTO & LITERATURA DE CORDEL


 
A arte da atriz e produtora cultural Ruth Escobar. Veja mais aqui.

O UNIVERSO LITERÁRIO DE KAZANTZÁKIS - Já tive oportunidade de ler e reler várias das obras do escritor e pensador grego Níkos Kazantzákis (1883-1957), entre elas O Cristo recrucificado – lido na adolescência quando eu queria encenar o tema e relido por tantas outras vezes -, a Ascese: os salvadores de Deus, enfim da odisseia à última tentação, o seu pensamento sobre educação, e alguns dos seus poemas. Das que me chamaram atenção e que ainda trarei trechos e resumos, Zorba, o grego, Liberdade ou morte e Os irmãos inimigos, já lidos e carecendo de releituras. Da sua biografia, ele estudou Direito e Filosofia, influenciado por Bergson e Nietzsche, atuando como tradutor e viajando pelo mundo. Um trecho extraído da obra Testamento para El Greco, sintetiza bem quem o autor: Um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer não, nem mesmo a Deus, quando necessário. Foi vitimado pela leucemia e, por ter sido excomungado, não recebeu autorização para ser sepultado em Creta. Por conta disso, foi cremado fora das muralhas da sua cidade: Eu espero por nada. Não tenho medo de nada. eu estou livre. Veja mais abaixo.


DITOS & DESDITOS - A ninguém, nem aos deuses nem aos demônios, nem às tiranias da terra nem às tiranias do céu, foi dado o poder de impedir aos homens o exercício daquele que é o primeiro e o maior de seus atributos: — o exercício do pensamento. Podem amarrar as mãos de um homem, impedindo-lhe o gesto. Podem atar-lhe os pés, impedindo-lhe o andar. Podem vazar-lhe os olhos, impedindo a vista. Podem cortar-lhe a língua, impedindo a fala. O direito de pensar, o poder de pensar, porém, estão acima de todas as violências e de todas as repressões, que nada podem contra seu exercício. Se assim o quiserem os deuses, se assim o quer a própria natureza humana, parece claro que não há abuso mais abominável que o de tentar impor limitações ao pensamento de qualquer pessoa. Pretender suprimir o pensamento de quem quer que seja é o maior dos crimes. Pois não é apenas um crime contra uma pessoa, mas contra a própria espécie humana, uma vez que é o pensamento o atributo que distingue o ser humano dos demais seres criados sobre a face da terra. É certo que é um crime que não se consuma, pois fica sempre o terreno da tentativa, como se alguém quisesse violar o inviolável. O fato, porém, de não se consumar um crime, não quer dizer que não se caracterize o criminoso. Pois, na verdade, só ao se supor capaz de sufocar o pensamento de seu semelhante, o autor dessa suposição cometeu um crime estupendo, contra todos e contra si mesmo, porque se depravou na intenção de roubar o que não pode ser roubado, de matar o que não pode morrer. Os pérfidos juízes de Atenas tiraram a Sócrates o direito de educar os jovens e o direito de viver. Mas foram impotentes para tirar-lhe o direito de pensar, exercido por ele até o último hálito da existência. O ser humano existe enquanto pensa. Quando deixa de pensar, deixa de existir. Alguns sofistas andaram ensinando que o homem deixa de pensar quando deixa de existir. Mas o homem não pensa porque existe, mas existe porque pode pensar. No dia em que deixar de pensar, foge-lhe a existência. Pelo menos a existência como ser humano, pois não se pode dizer que um demente tenha uma existência de ser humano. O homem pode pensar bem ou pensar mal, pensar pouco ou pensar muito. Não há, porém, uma diferença qualitativa, mas há apenas uma diferença quantitativa no exercício do pensamento de cada pessoa. Pois, sendo um atributo essencial do homem, todos exercem com esse atributo uma função qualitativa igual. Assim como o olho do homem é feito para ver todas as coisas, também a mente é feita para pensar todas as coisas, assim também uns pensam menos coisas do que os outros. Mas a qualidade de ver é a mesma em todas as pessoas, embora varie de uma para a outra a quantidade da coisa vista. Ai dos homens que não usam, em toda a sua plenitude, o direito e o atributo de pensar! Se um pássaro em pleno vôo parasse subitamente de usar suas asas, o poder de voar que lhe foi dado, o atributo do equilibrar-se no ar e viajar as distâncias etéreas, cairia miseravelmente no chão. Se um homem pára de pensar, por preguiça ou por estultícia, todos os desastres lhe podem acontecer. Se seu pensamento não responde ao que vêem seus olhos, pode jogar-se no fogo e na água, e perecer queimado ou afogado. Na vida na cidade, se um homem neutraliza dentro de si o direito de pensar, a cidade pode ser tomada e dominada pela ferocidade de um tirano, cujo despotismo levará o povo à morte pela fome, pela crueldade ou por outras formas de injustiça e prepotência. E se não o povo todo, pelo menos uma parte do povo, certamente, será arrastada à opressão, à tortura, ao cárcere ou a qualquer outra forma de perdição. Os tiranos não gostam que as pessoas pensem. Fazem um grande esforço para que o pensamento seja deformado, isto é, perca a sua forma original, isto é, a forma que lhe dá cada um, tentando estabelecer uma espécie de fábrica de pensamento pela própria mente, passem a pensar pela mente do despotismo dominador. Isto aconteceu algumas vezes na Grécia. Mas sempre que o povo se dispõe a exercer com todo o vigor o seu direito e o seu atributo de pensar, os tiranos foram destronados, levados ao ostracismo e os despotismos derrubados. Pensamento do filósofo neoplatônico Teócrito de Corinto.

ALGUÉM FALOU: O fato de que a gente aprende com os outros e com o nosso Outro, porque nós somos geneticamente sociais. Pensamento da educadora Esther Pillar Grossi, mestre o doutora pela Sorbonne, em Paris, autora das obras Didática do Nível Alfabético (3 volumes – Paz e Terra, 1990).

DOUTRINA DE CHOQUE – [...] A doutrina do choque como todas as doutrinas é uma filosofia de poder. É uma filosofia sobre como conseguir seus próprios objetivos políticos e econômicos. É uma filosofia que sustenta que a melhor maneira, a melhor oportunidade para impor as idéias radicais do livre-mercado é no período subseqüente ao de um grande choque. Esse choque poder ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas a idéia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’. [...] É uma espécie de extrema cirurgia de países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de um reforma aqui, outra por ali, mas sim uma mudança de caráter radical como o que vimos acontecer na Rússia nos anos noventa, o que Paul Bremer procurou impor no Iraque depois da invasão. De modo que é isso a doutrina do choque. E não significa que apenas os direitistas em determinada época tenham sido os únicos que exploraram essa oportunidade com as crises, porque essa idéia de explorar uma crise não é exclusividade de uma ideologia em particular. Os fascistas também se aproveitaram disso, os comunistas também o fizeram. [...]. Trechos de A doutrina do choque (IHU, 2007), da escritora e ativista estadunidense Naomi Klein. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS – ODE: Neste tudo / tudo falta / (neblina) / e nesta / falta: eis / tudo. FALA: Falo de agrestes / pássaros de sóis / que não se apagam / de inamovíveis / pedras / de sangue / vivo de estrelas / que não cessam. / Falo do que impede / o sono. INICIAÇÃO: Se vens a uma terra estranha / curva-te / se este lugar é esquisito / curva-te / se o dia é todo estranheza / submete-te /— és infinitamente mais estranho. Poemas da poeta Orides Fontela (1940-1998). Veja mais aqui.

CRISTO RECRUCIFICADO – [...] Dos que vieram hoje à peregrinação, quantos são cristãos? São cristãos todos os que crêem no outro mundo. Que quer dizer crer no outro mundo? Isso quer dizer que todos os nossos atos aqui embaixo vão ser pesados num outro mundo, que os maus serão punidos e os bons recompensados. O que faz a caridade a seus irmãos aqui em baixo, nessa vida passageira, vai ter como recompensa a vida eterna. Então, velho Ladas, mais vale esperar que guardar. [...]. Trecho da obra O Cristo Recrucificado (Abril, 1971), do escritor grego Níkos Kazantzákis (1883-1957), contando a história das tentativas de uma comunidade fictícia da aldeia grega nas profundezas da Anatólia, em 1921, de encenar uma peça de paixão - que, como o título sugere, acaba com a reencenação dos eventos do julgamento, sofrimento e morte de Jesus.

ÚLTIMA TENTAÇÃO – [...] — Não me calo — disse o jovem, inflamado — agora já falei, não me calo! Sou mentiroso, hipócrita, fraco. Nunca digo a verdade, não tenho coragem. Vejo uma mulher passar, enrubesço e abaixo a cabeça, mas meus olhos se enchem de devassidão. Não estendo a mão para roubar, espancar, matar, não porque não deseje, e sim porque tenho medo. [...] Quanto mais fortes a alma e o corpo, mais frutífero será o combate e mais ampla a harmonia final. Deus não ama as almas fracas e as carnes flácidas. O Espírito quer enfrentar uma carne forte e que lhe ofereça resistência. É ave carnívora, dotada de fome insaciável; ela devora a carne e, ao assimilá-la, faz com que desapareça. [...]. Trecho da obra A Última Tentação de Cristo (Rocco, 1988), do escritor grego Níkos Kazantzákis (1883-1957).


A MULHER DE ANTIGAMENTE E A MULHER DE HOJE EM DIA

Manoel Monteiro

No passado Zé Pacheco
Um mestre da poesia
Escreveu sobre a mulher
Com arte e com maestria
Eu vou tentar descrever
A mulher de hoje em dia

Deus após formar o mundo
Achou que era preciso
Povoá-lo, fez Adão.
Mas fez Eva sem juízo
E deixou os dois flertando
No pomar do Paraíso...

Quando foi criar o homem
Ficou sobrando um pedaço
Ele deixou assim mesmo
E seguiu sem embaraço
Mas quando fez a mulher
Deixou aberto um espaço

Adão ficou perturbado
Vendo um defeito daquele,
Pois o que faltava nela
Estava sobrando nele
Para tapar o buraco
Meteu o pedaço dele.

Eu acho que a Bíblia fala
Em sentido figurado
Porque deixar Adão nu
Com Eva nua a seu lado
Tinha que dar no que deu
Foi Caim pra todo lado!

Você já imaginou
Eva dengosa e faceira
Tendo só por vestimenta
Uma folha de parreira?
Não precisava nem cão
Para Adão fazer besteira

Mas no começo do mundo
Tudo era diferente
Trabalhar não precisava
Adão vivia contente
Só arrumou ao juntar-se
Eva, a maçã e a serpente

Porque Deus disse a Adão
Coma de tudo, porém
Não coma a maçã de Eva
Adão lhe disse: Está bem!
Mas veio a peste da cobra
Para estragar o xerém.

Contra as ordens do Divino
A cobra se levantou.
Tentou o primeiro homem
E Adão se abestalhou
“comeu” a maçã de Eva
Aí o bicho pegou!

O homem foi enganado
Por Eva e por Lúcifer
Mas ele em sua bondade
Dá tanta corda à mulher
Que ela pensa que pode
Fazer o que bem quiser.

Elas estão todo dia
Tomando o nosso lugar
Se continuarem assim
Só o que vai nos sobrar
É o tanque de lavar roupa
E o ferro de engomar

Em toda repartição
Tem uma mulher mandando
Elas estão assumindo
Todos os postos de mando
E enquanto isso no lar
Tem uma mulher faltando.

A mulher hoje é igual
A um homem destemido
Lavar prato e lavar pano
Acha que é tempo perdido
Mas se vê uma barata
Grita chamando o marido.

Com certeza, brevemente
Vamos ser o rei do Lar
Com um pequeno problema
Difícil de consertar
É que além da mamadeira
Vamos ter que amamentar

Trocar fraldas de menino
Eu mesmo já tenho feito.
Dar banho, limpar cocô
Eu faço e faço direito.
Agora dar de mamar...
Já tentei, mas não tem jeito!

Eu espero que as mulheres
Não nos obriguem parir
Porque eu mesmo não sei
Por onde os filhos vão vir
Se não tem por onde entrar
E nem por onde sair.

Quando a mulher é honesta
Leva vida recatada.
Não vive de porta em porta
Nem gosta de cachorrada
Ao passar na rua, as outras
Dizem: - lá vai a pirada!

Antigamente a mulher
Pelo seu instinto nato
O serviço que fazia
Era “ver” lenha no mato,
Catar pulgas no cachorro
E limpar bosta de gato.

Naquele tempo a mulher
Era um ser quase divino
Vivia para o marido
E para fazer menino.
Mulher não falava grosso
Homem não falava fino.

Houve um tempo que a mulher
Era bicho conhecido
Usava saia godê
Blusa de manga ou vestido
Anágua, friso e marrafa
Cabelo sempre comprido

Touca, espartilho, ampoleta
Moda ousada era coco
Se o rapaz pedisse um beijo
Ficava falando só
Sem casar, só via mesmo
Mão, pescoço e mocotó.

Não raspava sobrancelha
Nem sovaco, nem pentelho
Para usar rouge ou batom
Tinha que pedir conselho
Califon de meio corpo,
Calçola até o joelho.

A mulher andava livre
Do terreiro pra cozinha.
No resto era proibida
Na sala a mulher só vinha
Se fosse pra trazer água
Ou para tanger galinha.

Mulher só ficava nua
No dia do nascimento
Ou quando tomava banho
Mas fora desse momento
Eu acredito que só
Na noite do casamento.

Se o marido descobrisse
Na hora da “inspeção”
Que antes dele outro homem
Havia passado a “mão”
Tinha o direito de
Fazer a devolução.

Se algum “cabra safado”
Tivesse comido o fruto
O marido corneado
Fosse da praça ou matuto
Já estava autorizado
A devolver o produto.

Hoje a coisa é diferente
A mulher tem liberdade
Ganha pra trabalhar fora
É uma temeridade
Se continuar assim
É o fim da humanidade.

Em algumas profissões
A mulher dava primeira
Ninguém ganhava pra elas
Nas artes de rezadeira
Fazer panela de barro
Tecer balaio e esteira.

Pavio de candeeiro?
Faziam como ninguém!
Capar pinto, bater pano
Pilar milho pra xerém
São coisas que as mulheres
Faziam e faziam bem.

Hoje elas são folgadas
Escolhem até profissão
Querem se igualar a nós
Só falam em liberação
Umas já dirigem trem
Outras pilotam avião.

A mulher como empregada
É uma calamidade:
Tem quatro meses de folga
Se for pra maternidade
Seu mês só tem vinte dias
Mas falta mais da metade.

Tem trinta dias de férias
Quinze dias pra casar
Tirando a hora do almoço
E a hora de amamentar
Somando tudo não sobra
Horário pra trabalhar.

Já tem umas no Senado
Só falta uma Presidente
Sou forçado a admitir
Que tem mulher competente
Mas elas mandando em tudo
Que diabos sobra pra gente?

Onde tem homem com “H”
Uma lei s”estabelece
A mulher diz: - Sim, senhor!
Porque sábia reconhece
Que manda quem tem a força
Quem tem juízo obedece.

Desde os tempos da caverna
É por todos conhecido
O destino da mulher
Decser um voto vencido
Submissa ao bisavô
Ao avô, pai e marido.

Lá em casa, pelo menos
A mulher não ignora.
A última palavra é minha
Quem achar ruim, vá embora
A mulher diz: - cala a boca!
Eu respondo: - Sim, senhora!

Mulheres do meu Brasil
Desculpem este meu falar
Tudo isso é brincadeira
Do poeta popular
Se não houvesse mulher
Era preciso inventar.

M – eu poema homenageia
A – o cordelista inspirado
N- osso bardo Zé Pacheco
O – mestre mais consagrado
E – já que gastei papel
L- eiam o livro de MANOEL,
M- ONTEIRO, este seu criado.

MANOEL MONTEIRO – 0 poeta popular e cordelista paraibano, radicado em Campina Grande, Manoel Monteiro é um divulgador do cordel com sua banca nos eventos, ele quer fundar um Monumento- Memorial ao poeta popular nordestino.



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