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sexta-feira, abril 10, 2020

BELLA AKHMADÚLINA, JUDITH ROSSNER, SOLANGE MAGALHÃES, SUSANNAH MARTIN, LIGIA MARLY GOMES & RACHEL CORRIE


COMO É MESMO, HEM? - UMA: LIÇÕES CATADAS EM TUDO QUANTO É CANTO & LUGAR – A cada vez de ida ou vinda, uma encruzilhada. Haja dicotomia no vaivém. Fui demais, voltei outras tantas. Não perdi a viagem, mesmo quando errei de lugar. Já fui bater no fim do mundo e foi aí que vi que, na verdade, era só outro começo. Nada de terminar. Quando não, tudo de novo. Quantos degraus, ladeiras, tantas reviravoltas, maiores que o beiço virado de tão longe que se chega ou vai. Nas quebradas era o meio da curva para contornar. Na passagem um verso de Cora Coralina: Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Era só um tiquinho, um taco de nada da vida, mas valiosíssima no cômputo geral. Desses poucos que me acrescenta. Aí me dava a vontade de cantar e seguir, ora se. Não sei se por teimosia ou por adivinhação, eu ia mesmo. E ela, outro fiapinho de sabedoria: O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. Demorei a aprender. Oxe, quando caiu a ficha dei de falar com todo mundo. E ela: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Oxe, num é que é essa mulher é sábia, nem sabia, mas ela adivinha até o que penso ou deveria. Ora, ora. DUAS: QUANTAS PÁGINAS, BOTE ESTRADA NA VIDA! - Em cada passada, uma virada de página. O que percorri, divaguei. Em cada trajeto, um capítulo. Em cada chegada, uma história vivida. Entre frases e catombos, me desloquei; entre versos, topadas e meio-fio, me movi; arrastado pelos parágrafos e esquinas, zarpei; a claudicar por narrativas e depoimentos, peregrinei; a baldear passagens e textos, atravessei. O tanto de quilômetros andados, nem lembro o quanto de folhas impressas se acumulavam, devaneei. Sei que assuntei demais, deveras; paisagens, paragens, leituras. Aliás, corro sempre. Mesmo quando acho às carreiras ou se nem saio do lugar, aboletado que seja, bote viração. Pelo que bordejei na vera, deu nem pra saber se avancei ou não. Sei que fui e voo, como François Rabelais: Vou em busca de um grande talvez. Tudo porque jamais parei quieto assim nas coisas e vida; ir além, saber mais e tentar ser maior que o meu próprio tamanho, tomara, pudera. Como eu disse: se avancei ou não, pouco importa. Dele sempre ouvi: No mundo existem muito mais tolos do que homens. A ignorância é a mãe de todos os males. Um tolo a mais eu sou, acho, voo aprendendo, então. TRÊS: PRA QUÊ TANTA CORRERIA, HEM? - O que aprendi da vida? Foi sempre no pé do ouvido: tome jeito e se endireite feito gente! Maior cantiga de grilo no juízo. Também que tinha que trabalhar e muito para ser alguém na vida - era o outro nome que davam para escravagismo, eufemismos tantos. E trabalhei ou servi, não sei direito, pilha toda, vesti e suei a camisa. E preguei os olhos nos livros, ressalvavam não endoidasse, era só para saber o devido. Ou melhor, que eu me moldasse. Aí quando saquei, ora, era Émile Zola: O homem vale tanto quanto o valor que dá a si próprio. Puxa, vida! Demorou, caiu a ficha. Só peguei no ar depois de pular num pé só que só todas as provas de fogo! Muito penei mesmo. E como fui imolado: bote sal na moleira, nó pelas costas, arrastado de mala e canseira nos cambitos. Nada não, ele apaziguou: O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito. É. O que sofri fiz de lição e vou aprendendo: o futuro chegou agora e em preto e branco. O passado, hoje não mais. Vou aprumando a conversa. Vamos? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Devemos ser inspirados por pessoas... que mostram que os seres humanos podem ser gentis, corajosos, generosos, bonitos, fortes - mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Sou uma palavra boa e forte doadora, sou uma guarda ciumenta dos meus próprios segredos. A liberdade é a regra, estou com fome de algo bom que posso fazer. Eu acredito que a liberdade para a Palestina pode ser uma fonte incrível de esperança para as pessoas que lutam em todo o mundo. Eu acho que também poderia ser uma inspiração incrível para os árabes do Oriente Médio, que estão lutando sob regimes antidemocráticos, que os EUA apóiam. Eu realmente aprecio as palavras. Eu realmente tento ilustrar e deixar as pessoas tirarem suas próprias conclusões. Siga seus sonhos, acredite em si mesmo e não desista. Trecho do depoimento da estudante, voluntária e ativista estadunidense, Rachel Corrie (1979-2003), membro do International Solidarity Movement (ISM), que decidiu interromper seus estudos para passar um ano na Faixa de Gaza. Nesse periodo, reuniu-se com outros ativistas que tentavam impedir as demolições de casas de palestinos pelas forças de ocupação israelense. Por conta disso ela escreveu: Destroem as casas mesmo com gente dentro, não têm respeito por nada nem por ninguém. Durante a Intifada de Al-Aqsa, ela e seus companheiros tentavam impedir mais uma das demolições, na cidade Rafah, fronteira entre Gaza e o Egito, quando acabou morrendo esmagada por uma escavadeira das Forças Armadas de Israel. O Tzahal alegou que a sua morte foi acidental, apesar da contestação de todos os presentes ao incidente, além de todos terem sido acusados pelas Forças de Defesa de Israel de agirem de forma ilegal, irresponsável e perigosa. O exército do país foi isentado por um tribunal israelense de qualquer responsabilidade, por ter sido uma ação em tempo de guerra. A história está contada na publicação My name is Rachel Corrie (Theatre Communications Group, 2006), reunindo os textos da jovem vítima, numa edição organizada por Alan Rickman e Katharine Viner.

DE BAR EM BAR, À PROCURA – [...] era alto e muito magro, com cabelo encaracolado preto-grisalho, um jeito suavemente sarcástico e belos olhos tristes, nos quais só reparava quando ele tirava os óculos e passava a mão pelo rosto. Era poeta e editara, por conta própria, um livro de poesia, conforme ela soube mais tarde através de duas colegas de classe, Carol e Rhoda, que também estavam apaixonadas pelo professor. [...] Quase todos os alunos ficaram calados, sentindo-se vagamente colocados em seus lugares, mas sem saber precisamente que lugares eram esses. Carol e Rhoda pareciam aniquiladas. Deviam escrever, na primeira pessoa, uma breve descrição de uma experiência desagradável. Não deveriam enfeitá-la com bobagens, como essas franjas de papel prateado que se põem nas coxas dos perus. A adjetivação, quando exigida por motivo de clareza, deveria ser simples e direta: bonito, feio, verde, roxo, etc. As portas seriam abertas ou fechadas, não escancaradas. Não haveria luar derramando-se por entre venezianas; derramamentos, só líquidos. Estavam entendidos? Aproximou-se da janela e olhou para o pátio. O sol derramava-se pela janela escancarada e fulgia na aliança dele. [...]. Trechos extraídos da obra De bar em bar (Record, 1975), da escritora estadunidense Judith Rossner (1935-2005), que conta a história verifica de um assassinado que é considerado o retrato fiel de um meio social comum nas grandes cidades. Foi levado para o cinema, Looking for Mr. Goodbar (À procura de Mr. Goodbar, 1977), drama dirigido por Richard Brooks.

A POESIA DE BELLA AKHMADÚLINA
SEPARAÇÃO: Hoje nos separamos para sempre / e isso faz o mundo transformar-se. / Tudo nele anuncia a traição: / os rios vão se afastando das margens, / as nuvens vão se afastando do céu, / a mão direita olha para a esquerda / e arrogante diz: “Vou embora, adeus!” / Abril não mais prepara o mês de maio, / mês de maio que nunca mais verás, / e as flores se desfolham, feitas pó. /É a derrota do azul para o amarelo! / Já as últimas flores se esturricam, / comprimento e largura não há mais, / o branco, em estertor, já agoniza, / deixando um arco-íris de orfãzinhas. / A natureza afoga em sua tristeza, / a maré baixa sobe pela margem, / calam-se os sons e isso porque nós, / você e eu, pra sempre nos deixamos.
OUTRA COISA: Que me acontece que não posso já, / Desde há um ano inteiro, sem demora / Fazer meus versos? Sim... porque será / Que tal mudez meus lábios sela agora? / Dir-me-ão alguns: mas já tem aqui, / Letra após letra, já fez um versinho. / Mas não. Há muito o hábito adquiri / De com letras fazer um fiozinho. / A mão fá-lo sozinha, sem querer... / Não falo disso. Outrora, o que ocorria? / Não sentia a estrofe aparecer, / Mas outra coisa. Sim, o que seria? / Saberia essa coisa o que é temor, / Quando o seu verbo se elevava ousado, / Ria como de risos portador / E, se queria, soluçava irado?
BELLA AKHMADÚLINA - A escritora e tradutora russa Bella Akhmadulina (Izabella Akhatovna Akhmadulina – 1937-2010), que fez parte do movimento literário New Wave, escreveu muitas obras e teve vários casamentos com Yevgene Yevtushenko, Yuri Nagibin, Eldar Kuliev e Boris Messerer. Alguns dos seus livros são Lições de música (1969), Versos (1975), Vela e Tempestade de neve (do mesmo ano, 1977), Sonhos com a Geórgia (1979), Segredo (1983), O jardim (1987), O escrínio e a chave (1994), O ruído do silêncio e Cadeia de pedras (1995). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
É a ascensão do mundo virtual que permitiu aos artistas ignorar qualquer mandato de plausibilidade na pintura representacional. Se o homem agora pode aparecer como um androide intergaláctico envolvido em batalha com uma espécie alienígena, ele também pode tomar banho em um riacho local. É realismo, se aceitarmos que o realismo agora inclui realismo virtual, ou seja, ele incorpora um alto grau de improbabilidade, um realismo hiperbólico. O homem pode voltar mais uma vez à sua paisagem original, seu lar eterno, tudo desta vez como turista, um turista primordial. Eu sou do realismo figurativo.
SUSANNAH MARTIN - A arte da artista visual alemã nascida nos Estados Unidos, Susannah Martin. Veja mais aqui.
&
LIGIA MARLY GOMES
A arte da artista plástica Ligia Marly Gomes. Veja mais aquiaqui.

CULTUR’ARTES PERNAMBUCARRETADAS!!!
Na vida a gente acaba fazendo o que a gente é. Constato, na verdade, que o ser humano é feito de coisas antagônicas.
A ARTE DE SOLANGE MAGALHÃES
A arte da pintora francesa radicada no Brasil, Solange Magalhães, apaixonada por temas nordestinos e pernambucanos.
A imagem e seus labirintos: o cinema clandestino do Recife 1930-1964, de Paulo Carneiro da Cunha Filho aqui.
A arte de Paulo Bruscky aqui e aqui.
A música de Nando Lauria aqui e aqui.
A literatura de Frederico Spencer aqui, aqui & aqui.
A poesia de Natanael Lima aqui, aqui & aqui.
A literatura infantil de Abigail Souza aqui & aqui.
Ximênia, a prinspa do Coité aqui.
Literatura Pernambucana aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


sábado, maio 16, 2015

DUMITRESCU, QUINTANA, MARIA MOURA, RABELAIS, RONALD DE CARVALHO, MONICELLI, PELLAN & PRUD´HON.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Em todo momento de nossa vigília diária, nos defrontamos com escolhas que temos que fazer. Grapear primeiro isso ou arrumar? Segurar ou largar? Correr ou ir devagar? E na maioria das vezes optamos mecanicamente: é o cis do inopinado. Vai ou volta? Para ou continua? São muitas coisas que temos que decidir e não nos damos conta quando chegamos ao travesseiro na hora de dormir. Da hora que abrimos os olhos até fechá-los pro dia seguinte, nossa rotina é essa: escolhas. E a gente só toma pé mesmo disso, quando alguém nos diz: - Ninguém sabe o que diz, só se lembra do que recebe. Ou seja: a gente age tão intuitivamente que nem sequer temos consciência do que fazemos realmente, esquecendo-se que são nossos atos que falam mais altos do que aquilo que pensamos e do que queremos que os outros abstraiam de nós. É nesse dia a dia que construímos nossa personagem para que as pessoas nos vejam como queremos ser vistos. Contudo, para tragédia da nossa convicção, são exatamente as escolhas que fazemos, nossas atitudes impensadas, nossos comportamentos diante do inesperado, nossas ideias acerca daquilo, nossos insights que dizem quem realmente somos. E muitas vezes nos chocamos quando temos a constatação de que o que pensamos que somos aos olhos dos outros, é exatamente o contrário do que queríamos que vissem de nós. A máscara cai. E torna-se difícil o convívio consigo mesmo diante dessa constatação, parecendo mais que vivemos para ver os outros felizes conosco, do que a gente feliz consigo próprio. E aí? Como se diz no popular: a casa cai. E a nossa infelicidade toma corpo e, se a gente deixar levar, toma conta da gente, tudo por causa do nosso conflito entre o eu real e o eu idealizado. Isso me leva a um poema do Mário Quintana, Nada sobrou: As pessoas sem imaginação / Podem ter tido as mais imprevistas aventuras, / Podem ter visitado as terras mais estranhas, / Nada lhes ficou. / Nada lhes sobrou. / Uma vida não basta ser vivida: / Também precisa ser sonhada. Vamos aprumar a conversa! E veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: On the Beach (1945), oil on canvas, do pintor franco-canadense Alfred Pellan (1906-1988).

Curtindo o dvd The Hyperion Ensemble - do compositor romeno Iancu Dumitrescu, Ana Maria Avram e o Io Quartet, London, Conway Hall, Modern Edition – Edições Salabert, 2008.

ANARQUISTA FEMINISTA – Uma das figuras mais proeminentes do cenário político do país, é a da anarquista e feminista brasileira Maria Lacerda de Moura (1887-1945), que se notabilizou por seus escritos feministas, publicando os seus livros Em torno da Educação Renovação: a fraternidade na escola (1922), A mulher hodierna e o seu papel na sociedade (1923), A mulher é uma degenerada? (1924), Lições da Pedagogia (1925) Religião do amor e da beleza (1926), Clero e Fascismo, horda de embrutecedores (1933) O Silêncio (1944), entre outras publicações. Considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil, anticlerical e adotando uma perspectiva de luta de classes, ela denunciou a opressão exercida pela moral sexual burguesa sobre as mulheres e as camadas mais pobres, defendendo a educação sexual entre os jovens, o amor livre, o direito ao prazer sexual, o divórcio, a maternidade consciente, entre outros assuntos, contra os constrangimentos do casamento, da prostituição e da escravidão do salário. A seu respeito foi publicado o livro Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura, de Miriam Lifchitz Moreira (1984) e o documentário Trajetória de uma rebelde (2003), realizado pela equipe do Laboratório da Imagem e Som em Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Fapesp. Nos estudos realizados por Jussara Valéria de Miranda (UFU, 2006), encontra-se o texto Recuso-me, em que Maria Lacerda de Moura (O Combate, 1928) expressa suas ideias e propósitos em resposta às críticas ao seu posicionamento: [...] enquanto eu estiver no goso das minhas faculdades mentaes e dentro do equilíbrio das idéas em harmonia com o meu caracter, enquanto a minha consciência for o meu único juiz, a benção de luz da minha vida interior – a resposta ao despeito, ao fanatismo, ao sectarismo, ás injurias, ás calumnias, será continuar a pensar e a viver nobremente a coragem excepcional de dizer, bem alto, o que penso, o sinto, o que sonho, embora toda a covardia do rebanho humano apesar dos escribas e phariseus da moral social. As minhas armas são os meus sonhos, é a minha vida subjectiva, é a minha consciência, a minha liberdade ethica, é essa harmonia que canta dentro de mim, e toda a minha lealdade para commigo mesma; e eu não maculo a minha riqueza de vida, o meu thesouro interior, envolvendo-o na mesquinhez e na perversidade das leis dos homens ou misturando-o com dinheiro, essa cousa horrível que corrompe as consciências mais convencidas da sua fortaleza inexpugnável, e as escravisa, acorrentando-as à gehenna do industrialismo, as chocar-se umas contra as outras na engrenagem sórdida da exploração do homem pelo homem. Veja mais aqui.

TODA A AMERICA – O livro Toda a América (Poemas, 1925) do escritor brasileiro Ronald de Carvalho (1893-1935), reúne poemas do autor em homenagem aos países e suas paisagens do continente americano. Entre os poemas destaco o poema título Toda América: Do alto dos Andes, America, / do alto das sierras mexicanas, / de Laguna dei Inca, de Punta de Ias Vacas, de Orizaba / e Xochimilco, / eu te vejo deitada e intacta no claro músculo dos teus / cristaes, no ímpeto das tuas águas, no frêmito fresco / das tuas folhagens luminosas. / Em ti está a multiplicidade creadora do milagre, / a energia de todas as gravitações, / a massa viva de todos os volumes, / a promessa de todas as fôrmas, / America livre do terror! / America voltada para o futuro como um botão que espera / a flor e o fruto, / America assentada nas praias atlânticas e pacificas, jogando / com as ondas, as espumas e as areias, / America dos cafezaes, dos seringaes e dos cannaviaes, / America das locomotivas e das carretas de bois, dos elevadores / e dos guindastes, das porteiras de peroba e das / comportas de aço chromado de Pittsburgh, / America das usinas, dos dynamos, das válvulas e dos embolos, / America dos opprobrios e das reivindicações, dos trusts / e dos Estados insolvaveis, / America dos senhores de engenho liricos e trágicos, do / pulque e da aguardente, do tequila e da coca, / America lasciva que dansa o jarabe, o maxixe, o tango, o / fox, a cueca e a marinera, / America violenta do cavallo selvagem do caudilho, do punhal / dos generaes, da fogueira, dos lynchamentos, dos imperadores / banidos, dos Presidentes degolados, / America sophista e causidica dos Parlamentos e dos Tribunaes, / America de todas as imaginações, do azteca e do germano, / do guarani e do latino, do hispano e do inca, do aimoré / e do saxão, do slavo e do africano, / America dos barões e dos escravos, do ladrão e do capitão / mór, do santo e do heróe, / Eu vivo todas as tuas indisciplinas, a tua cultura e a tua / barbaria, as tuas pyramides e os teus arranhaceus, as / tuas pedras de sacrifício e os teus calendários, os teus / pronunciamentos e a tua boa fé puritana, / America livre do terror, / America dos meus avós guerreiros e constructores, / America do meu Pai que morreu pelo Rei! Veja mais aqui.

DELICIOSA: AVENTURAS GALANTES – O livro Aventuras galantes (Tinta da China, 2011), de Rabelais, um dos pseudônimos do jornalista e romancista pornógrafo português Alfredo Gallis (1859-1910), reúne uma serie de narrativas, entre as quais destaco Deliciosa: [...] Se me perguntassem se essa mulher era bonita ou feia, declarolhes que me encontraria em graves embaraços para dar uma resposta rapida, definitiva e precisa. Não era formosa, mas tambem não era feia. - Então em que ficamos?, dirá por certo o leitor. Tentarei explicarme e fazerme compreender. Não era formosa, porque lhe faltavam esses tracos excepcionais que constituem a formosura das mulheres; e não era feia, porque o brilho diamantino dos seus grandes olhos negros, profundos e excitantes, e o vermelho carmim dos seus labios frescos e sensuais davamlhe a fisionomia picante e sugestiva uma expressão singular que despertava interesse. Era levemente morena a sua tez e abundantes e revoltos os opulentos cabelos, que ela enrolava com uma deliciosa e voluptuosa negligencia, na qual pairava uma pontinha de coquetterie muito expressiva. De mediana estatura, mais alta do que baixa, era franzina de formas, magra mesmo. Dava nas vistas a maneira aprimorada como ela se calçava. Sempre meias de seda e sapatos ou botinhas da mais fina qualidade e do mais elegante e bonito talhe. Contavam os que de perto a conheciam que as suas ligas eram verdadeiros bijous de rendas e combinações de cores, e que as camisas que usava se singularizavam pela arrojada fantasia que expressavam. Uns depreciavamna dizendo que ela não era merecedora de que lhe rendessem culto. Outros elogiavamna afirmando que ela era uma histerica dotada de um temperamento de fogo, que se interessava excessivamente pelas lutas de Venus e que possuia segredos quase maravilhosos para elevar as regiões de inenarráveis gozos as mais insensiveis e cristalizadas decadências, gastas no abuso dos prazeres da deusa. Aos primeiros respondia ela triunfantemente com as suas toilettes de preço, as suas joias, os seus chapeus, as carruagens em que andava e toda essa bagagem de luxo que custa sempre muito caro e exige elevados reditos para se poder manter. Eu fui sempre da opiniao dos segundos. [...] Mas… achavalhe um não sei que, um tic, uma nota irritante e expressiva que me mordia a carne como um estilete de fogo, pois me segredava que aquela mulher devia possuir verdadeiros tesouros de volúpia quando a ardencia do seu temperamento, expressa no seu olhar quente e singular, a levasse a interessarse pelo homem que a possuísse. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

PELE DE LOBO – A comédia em um ato Pele de Lobo (1875), do dramaturgo, poeta e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), é uma divertida sátira ao sistema de policiamento do império. Da obra destaco a cena X: [...] Cena X (Os mesmos e um Soldado) Soldado (a Cardoso.) Trouxeram este ofício e esta carta para Vossa Senhoria. (Entrega a carta e o ofício e sai.) Cardoso De cá. (Abrindo a carta.) Com licença. (Lê.) É um bilhete em que o oficial do gabinete do ministro me participa haver sido outro nomeado para a vaga do Cantidiano... E metam-se! Perdigão Hein? Cardoso E metam-se a servir o país! (Abrindo o ofício.) Com licença! (Depois de ler o ofício.) Sabem o que é? Minha demissão. Perdigão e Amália Demissão? Cardoso Á vista do que a meu respeito tem aparecido na imprensa periódica! Perdigão Não falemos mais nisso! Vamos embora. Cardoso Poupou-me o trabalho de pedi-la. Amália Quem não quiser ser lobo... Perdigão Mas o compadre acaba de despir a pele do lobo. (Apanhando o fitão.) Ei-la! Cardoso Atxim! (Saem tos os três e cai o pano.) (Cai o pano). Veja mais aqui.


ROSY LA BOURRASQUE – A comédia Rosy la bourrasque (Rosy Furacão, 1980), do cineasta e roteirista italiano Mario Monicelli (1915-2010), conta a história de uma grave lesão sofrida por um pugilista que se junta a uma equipe de luta livre feminina, na qual conhece a imponente Rosy, com quem se casa, acompanhando o crescimento estonteante da carreira dela e a decadência até o esquecimento da sua carreira, tornando-os amantes adversários. É uma adaptação livre de um romance de Carlo Brizzolara, no qual traz como destaque a atriz estadunidente Faith Minton. Veja mais aqui.





IMAGEM DO DIA

Nude black and white, do pintor e desenhista do Romantismo francês Pierre-Paul Prud'Hon (1758-1823)


Veja mais sobre:
Ética e moral aqui.

E mais:
Ética a Nicômaco de Aristóteles, a poesia de John Donne, Casa das bonecas de Henrik Ibsen, Justine de Marquês de Sade, O anjo exterminador de Luis Buñuel, a arte de Darel Valença Lins, a música de Antonio Carlos Nóbrega, a pintura de Hieronymus Bosch & A maneira de ser de Marilene Alagia Azevedo aqui.
As drogas & as campanhas antidrogas, Ética, A droga é só um pretexto de Francis Curtet, o pensamento de Milton Friedman, Pé na estrada de Jack Kerouac, a música do Yes, a pintura de Félicien Rops & Carlos Schwabe aqui.
A educação na sociologia de Émile Durkheim aqui.
A poesia de Virgílio aqui e aqui.
O pensamento de Paulo Freire aqui, aqui e aqui.
O teatro de Augusto Boal aqui, aqui, aqui e aqui.
Diário da guerra do porco de Adolfo Bioy Casares, A canção de Guillaume de Poictiers, a música de Charles Mingus, Cabra marcado para morrer, a pintura de Pierre Bonard, Estética Teatral, a fotografia de John Watson & a arte de Louise Cardoso aqui.
A literatura de Monteiro Lobato, o teatro de Jerzy Grotowski, a poesia de Antero de Quental, a arte de Patrícia Galvã – Pagu, a pintura de Jean-Baptiste Debret, a música de Uakti & Sacudindo Choro aqui.
A festa das olimpíadas do Big Shit Bôbras, Nietzsche & a modernidade de Oswaldo Giacoia Junior, a poesia de Gregory Corso, Intelectuais à brasileira de Sergio Miceli, a música de Wanda Sá, a pintura de Augusta Stylianou, o grafite de Banksy, a arte de Nancy L Jolicoeur & Nádia Gal Stabile aqui.
O sonho do amor, a literatura de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, a Gestalt de Afonso Lisboa da Fonseca, a arte de Ana Maia Nobre, As ventanias de Ana Viera Pereira, a pintura de Sandra Hiromoto, Luciah Lopez & Ana Cascardo aqui.
Andejo da noite e do dia, A era dos extremos de Eric Hobsbawm, A felicidade paradoxal de Gilles Lipovetsky, O amor de Martha Medeiros, a música de Gal Costa, a escultura de Nguyen Tuan, a pintura de Jeremy Lipking, a arte de Shanna Bruschi & Conto&Cena de Gisele Sant'Ana Lemos aqui.
Perfume da inocência, O amor e o matrimônio de Carmichael Stopes, a poesia de Automédon de Cízico, A psicologia do amor romântico de Robert A. Johnson, a fotografia de Beth Sanders, a pintura de Peter Blake, a arte de Chris Buzelli, a música de Maria Leite & Rebeca Matta aqui.
Do que fui pro que sou, Borges e os orangotangos de Luís Fernando Veríssimo, Moby Dick de Herman Melville, Novíssima arte brasileira de Katia Canton, o Big Jato de Xico Sá & Matheus Nachtergaele, a música de Robertinho de Recife, a coreografia de Simone Gutierrez & a pintura de Andre Kohn aqui.
Da inocência e da injustiça milenar, As aventuras da dialética de Maurice Merleau-Ponty, Histórias do tempo de Lya Luft, a poesia de Ilya Kabakov, a música de Yo-Yo Ma, a arte de Deise Furlani, a pintura de Oswaldo Guayasamin & Patrick Palmer, o cinema de Milos Forman & Natalie Portman aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Aprume a conversa aqui.


segunda-feira, julho 14, 2008

CORDEL DE PIRAUÁ, RABELAIS, CORRIE TEN BOOM, ADALZIRA BITTENCOURT & ROBERT DOISNEAU


 
A arte do fotógrafo Robert Doisneau (1912-1994).

VINTE ANOS DEPOIS – Vinte anos depois, o mesmo sol e a dor do abandono, o tamanho da solidão. As ruas são quase as mesmas, não fossem tantos desconhecidos. A vida é quase a mesma, não fosse eu tão estrangeiro. O rio quase some por trás dos destroços, muitas ruinas apesar dos ânimos e barulhada. As praças são outras, quase irreconhecíveis na minha memória. Até os meus não me reconhecem mais. Sou um intruso no meu próprio chão, uma paisagem invisível. Aceno a uns e outros, quase nenhuma empatia. Conheço a mão que se bate e a face que se tortura. Muitos escondem bem suas loucuras e carências. Ouço o tiro seco e um corpo se debate. Conheço as vozes, elas são minhas. Vinte anos depois e não perdi a esperança. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - Perdoar é um ato da vontade, e a vontade pode funcionar independentemente da temperatura do coração. A preocupação não esvazia o amanhã de sua tristeza. Ele esvazia o hoje de sua força. A medida de uma vida, afinal, não é sua duração, mas sua doação. Pensamento da escritora neerlandesa Corrie ten Boom (1892-1983),

ALGUÉM FALOU: O Brasil é grande. O Brasil é nosso! É preciso que cada brasileiro plante durante a vida mil árvores, sendo uma diferente da outra, ou que fabrique um objeto, aperfeiçoando-o dia a dia, a fim de conseguir a suprema felicidade nesta e na outra vida. A mulher deve ser a musa inspiradora, a conselheira, a companheira, a amiga, a enfermeira, a amante e confidente do marido. (Dar-lhe o amor de mãe, pois todo homem sente falta dos carinhos de sua velha mãe; dar-lhe o amor que satisfaça o pequeno demônio travesso que lhe desperta a necessidade de ouvir loucuras de uma mulher espoletada, alegre e sensual...). Pensamento da escritora e advogada Adalzira Bittencourt (1904-1976). Veja mais aqui.

RABELAISEANASConheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram quando podiam. Amigo, perceberás que no mundo existem muito mais tolos do que homens, e lembra-te disso. É mais difícil esconder a ignorância do que adquirir conhecimentos. A ignorância é a mãe de todos os males. Ciência sem consciência não passa de ruína da alma. Seleção de axiomas do escritor francês François de Rabelais (1494-1553). Veja mais aqui.


HISTÓRIA DO CAPITÃO DO NAVIO

Silviano Pirauá de Lima

Vou narrar uma história
Do tempo da inocência
De um homem que sofreu
Uma horrenda inclemência
Sem se maldizer da sorte
Sem faltar-lhe paciência

Num dia de sexta-feira
Ouviu uma voz perguntar:
“Queres passar bem em moço
ou quando velho ficar?”
quando foi no outro dia
a voz tornou-lhe a falar.

Ele chamou a mulher
Pregou então a contar:
- Há três noites desta parte
ouço uma voz perguntar
se quero ser pobre em moço
ou quando velho ficar.

Então lhe disse a mulher:
- Tenho um conselho pra dar
queira padecer em moço
antes de velho ficar
você enquanto for moço
tem força pra trabalhar.

Quando foi no outro dia
A mesma voz lhe falou
Ele então respondeu
Como a mulher ensinou
No outro dia seguinte
A desgraça começou.

Animais que possuía
Morreram e se sumiram
Morreu a escravatura
Os que ficaram fugiram
Vendeu a propriedade
E os bens se consumiram.

Se acabou a riqueza
Ficou ele pobrezinho
Foi trabalhar de alugado
Para sustentar os filhinhos
Só não morreu na miséria
Por Jesus ser seu padrinho.

Ganhava no alugado
De conhecido ou estranho
A sua mulher no rio
Lavava roupa de ganho
As injurias para ela
Eram de todo tamanho.

Foi um dia pro serviço
Cumprir assim seu mister
Às noves horas do mesmo
Saiu de casa a mulher
Para o rio lavar roupa
Lá em um porto qualquer.

Nessa mesma ocasião
Chegou um navio no porto
O capitão do navio
Viu a mulher, ficou morto
Fez logo um mau juízo
Para fazer mal ao outro.

Chamou logo os empregados
Botaram n´água o escaler
O capitão do navio
Saltou na barra de pé
Mandou uma meretriz
Para iludir a mulher.

A meretriz chamou ela:
- Mulher, conversa comigo
é tua felicidade
se fizeres o que eu te digo
que de agora em diante
eu terei gosto contigo.

Então a mulher lhe disse:
- Pois diz para eu ouvir
a meretriz respondeu:
- O que me traz por aqui
é só trazer um recado
de muito bom para ti.

- O capitão do navio
é um homem de posição
ficou muito apaixonado
por tua linda feição
e te manda oferecer
alma, vida e coração.

Aí a mulher zangou-se
Tratou de a repelir:
- Mudemos esta conversa
pois eu não a quero ouvir
tu sabes que sou casada
para que vem me iludir?

- Não sejas tola, mulher
eu iludo para o bem
porque teu marido é pobre
não possui um só vintém
o capitão do navio
nada falta, tudo tem.

- Mulher saia-se daqui
não quero conselho teu
meu marido já foi rico
tudo que tinha perdeu
hoje me vejo em pobreza;
louvado seja, meu Deus.

- Você com o capitão
vive limpa e asseada
anda de meia e sapato
de ouro e pedra esmeralda
pra lhe servir toda vida
nunca lhe falta criada.

- Vaidosa iludideira
tudo isso eu tenho tido
hoje me acho em pobreza
que só possuo um vestido
honrarei até a morte
a barba do meu marido.

O que fez a meretriz
Iludindo a pobrezinha:
- Eu não estou iludindo
isto é caçoada minha
se fosse para iludi-la
por dinheiro eu cá não vinha.

Depois disse a meretriz:
- Mulher, me faça um favor
meu marido neste instante
lá de dentro me chamou
você vai junto comigo
que eu sozinho não vou.

A mulher lhe perguntou:
- Você também é casada?
Disse a meretriz: - Eu sou...
A outra ficou calada
Até que se levantou
E seguiu a camarada.

A meretriz conversava
Com respeito e educação
A fim de botar a outra
Na vala da perdição
Até que pôde chegar
Na porta da embarcação.

A meretriz entrou logo
E a outra ficou fora
Disse ela à traiçoeira:
- Tarde pouco, vamos embora;
diz baixinho a meretriz:
- Seu capitão, é agora.

A meretriz chamou ela
Com muita delicadeza:
- Senhora, entre sem medo
venha ver que boniteza!
Afinal tanto iludiu
Que pôde deixá-la presa.

Aí veio o capitão
Fazendo muita gracinha:
- Venha a meus braços, mimosa
quero dar-te uma buquinha
meu coração, minha vida
agora és toda minha.

A mulher triste chorosa
Lhe respondeu com franqueza:
- Seu capitão do navio
reconheço que estou presa
porém guardo até a morte
ao meu marido, firmeza.

- Reconheço que estou presa
nas ondas do mar, perdida
já hoje me considero
uma infeliz desvalida
a barba do meu marido
hei de honra toda vida.

Vamos tratar sobre o homem
Quando da roça voltou
Diziam os filhos chorando:
- Mamãe ainda não chegou!...
podem bem imaginar
como esse homem ficou.

Assim que ele foi chegando
Estavam os filhos dando ai
Disse: - Quede a tua mãe?
- Nós não sabemos, papai
foi ao rio lavar roupa
até aqui não voltou mais.

Saiu ele à procura
Vagando como judeu
Perguntava a todo mundo
Ninguém noticia lhe deu:
- Ninguém sabe ninguém viu
aqui não apareceu.

Voltou o homem tristonho
Sem ter nenhuma demora
Percorreu a vizinhança
No espaço duma hora
Botou os filhos na frente
Seguiu por ali afora.

Com dois dias de viagem
Encontrou um rio de nado
Pegou o filho mais velho
Foi botar do outro lado
Deixando o outro mais novo
Em um cantinho sentado.

Chegou sentou o filho
Voltou de cabeça baixa
Chegando não o outro?
Para o outro lado marcha
Chegou lá do outro lado
Procura o outro não acha.

Aí disse o pobre homem:
- Ai, meu Deus, fiquei sozinho
já fiquei sem a mulher
agora sem os meus filhinhos!
Só quero que Deus me seja
Protetor, pai e padrinho.

Saiu por ali afora
Em um reinado chegou
Ai falou com o rei
Pra ser seu trabalhador
Ficou o homem tratando
De uma horta de flor.

Estando ele há quatro anos
Neste serviço grosseiro
Como era muito sabido
Certo, fiel, verdadeiro
Foi tirado pelo rei
Para ser seu conselheiro.

Passando mais quatro anos
Esse rei caiu doente
Por não ter uma pessoa
Nem no reino um parente
Chamou esse cujo homem
Da coroa fez presente.

- Senhor, me acho doente
não acho quem se condoa
passo-lhe um testamento
dou de presente a coroa
tome conta do reinado
para não ficar à toa.

Passou-lhe um testamento
Pegou a coroa e lhe deu
Esse rei quando fez isso
No outro dia morrei
Ficou ele como dono
E o reinado como seu.

Quando foi no outro dia
Viu dois rapazes chegar
Pedindo pra sentar praça
Na guarda nacional:
Chegando um navio no porto
Fez ponto na beira-mar.

O capitão do navio
Pediu ao rei dois soldados
Pra guarnecer o navio
Com medo de ser roubado
Foram os dois soldados novos
Que tinham praça sentado.

Um soldado disse ao outro:
- Homem, não sei o que faça
vivo no mundo sozinho
chorando minha desgraça
se eu tivesse pai e mãe
não tinha sentado praça!

Quando ele disse isto
O outro disse entre ais:
- Então você é como eu
que também perdi meus pais
os tormentos meus são tantos
que quase não falo mais.

- Meu pai era um homem rico
e depois empobreceu
animais, terra e gado
tudo que tinha perdeu
ficou com minha mãe
comigo e um irmão meu.

- Foi um dia pro serviço
o seu dinheiro ganhar
minha mãe foi lavar roupa
em um porto à beira-mar
deu à tarde, o sol se pôs
e nada dela chegar.

- Meu pai saiu à procura
mamãe não apareceu
ele a todos perguntava
ninguém noticia lhe deu
talvez ela caiu n´água
e o peixe grande comeu.

- Voltou meu pai pra casa
consigo mesmo dizia:
- Não posso mais suportar
essa horrenda tirania!...
ele com esse desgosto
mudou-se da freguesia.

Com dois dias de viagem
Encontrou um rio de nado
Me deixou em uma margem
Em um cantinho sentado
Pegou meu irmão mais velho
Foi deixar no outro lado.

- Esperei muito por ele
até que não pude mais
nada dele vir me ver
eu só, fiquei dando ai
sem parente, nem aderente
sem irmão, sem lar, sem pai.

A mulher de dentro ouvindo
Quando a história acabou-se
Veio olhar para os soldados
Rindo com maneira doce
Aí eles imaginaram
Que com maus sentido fosse.

A mulher voltou ligeira
Falou para o capitão:
- Doze anos dessa parte
que vivo nesta prisão
se me levas ao palácio
te darei meu coração.

Respondeu o capitão:
- Eu pra lograr teus carinhos
te levo em qualquer lugar
meu coração, meu benzinho
só não te levo ao céu
porque não sei o caminho.

A mulher seguiu pensando
O que tinha no sentido
O capitão do navio
Foi muito bem recebido
Quando a mulher foi chegando
Foi conhecendo marido.

Antes dela se sentar
Disse para o rei primeiro
Mande chamar os soldados
Que o navio guarneceram
Para contar uma história
Perante seus conselheiros.

Levantou-se o capitão
Falando de um certo jeito:
- Soldado não vem à Corte
porque nem um tem respeito
não é possível, senhora
o seu perdido ser feito.

Aí respondeu a mulher:
- Senhor capitão, eu sei
soldado não tem respeito
falo em presença do rei
se não houvesse soldado
também não havia rei.

Disseram os conselheiros:
- Está muito bem apoiado;
mandaram um portador
para chamar os soldados
o capitão ficou logo
um pouco desconfiado.

Quando os soldados chegaram
Ficaram ambos defronte
Foi a mulher e lhes disse:
- Soldados, quero que contem
aquela história passada
que vocês contaram ontem

- Senhora, nós conversamos
relativo à criação
até que depois soubemos
que nós dois somos irmãos
foi essa conversa
outra não contamos não.

Lhes respondeu a mulher:
- Foi essa que eu bem sei
eu quero ela contada
é na presença do rei
para ele escutá-la
pelo artigo da lei.

Um soldado disse ao outro:
- Sei que estamos enrascados
só relato esse segredo
porque me vejo obrigado
ele aí contou o caso
do jeito que foi passado.

- Meu pai era um homem rico
e depois empobreceu
animais, terra e gado
tudo que tinha perdeu
ficou com a minha mãe
comigo e um irmão meu.

- Um dia foi pro serviço
o seu dinheiro ganhar
minha mãe foi lavar roupa
em um porto à beira-mar
deu à tarde, o sol se pôs
e nada dela volta.

- Meu pai saiu à procura
mamãe não apareceu
ele a todos perguntava
ninguém noticia lhe deu
talvez ela caiu n´água
e o peixe grande comeu.

- Voltou meu pai pra casa
comigo mesmo dizia:
- Não posso mais suportar
esta horrenda tirania;
ele com esse desgosto
mudou-se de freguesia.

- Com dois dias de viagem
encontrou um rio de nado
me deixou em uma margem
em um cantinho sentado
pegou meu irmão mais velho
foi botá-lo no outro lado.

- Esperei muito por ele
até que não pude mais
nada dele vir me ver
fiquei sozinho dando ai
sem parente nem aderente
sem irmão, sem lar, sem pai

O rei conheceu os filhos
Pegou eles pela mão
Mandou trajá-los de príncipes
Na mesma ocasião
A mulher sempre com medo
Que não tivesse o perdão.

A mulher triste e chorosa
Dando suspiro e gemido
Contou logo ao esposo
Tudo que tinha sofrido
Por todos foi apoiada
Teve perdão do marido.

Disso o rei ao capitão:
- Com toda força que tinha
consigo eu logo converso
esta mulher é minha;
deu-lhe honra competente
trajou-a como rainha.

- Doze anos que andaste
dentro do mar degredada
levando descomposturas
sendo muito maltratada
sem ser falsa a seu marido
merece ser perdoada.

Os filhos foram exaltados
Foi perdoada a mulher
O capitão morreu logo
Tentado por Lúcifer/
Fiquem todos na certeza
Deus protege a quem quer.

Pegaram o capitão
Não o quiseram matar
Fizeram uma fogueira
Vivo mandaram queimar
Pegaram a cinza dele
Voaram dentro do mar.

Hoje os filhos são príncipes
Ele é o rei majestade
Sua mulher é rainha
De alta dignidade;
Deus dê a quem contou esta
Saúde e felicidade.

SILVIANO PIRAUÁ DE LIMA – O poeta cantador paraibano Silviano Pirauá de Lima (1848-1913), é considerado como o iniciador do cordel no Brasil, segundo Câmara Cascudo, sendo ele o primeiro a escrever romances em verso. Registra Carlos Alberto de Assis Cavalcanti, com base no mestre Cascudo, que foi ele “(...) autor do romance Zezinho e Mariquinha ou a Vingança do Sultão, publicado em fins do século XIX”.

FONTES:
CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura oral no Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1984.
______. Vaqueiros e cantadores. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1984.
CAVALCANTI, Carlos Alberto de Assis. A atualidade da literatura de cordel. Recife: UFPE, 2007.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Academia Brasileira de Letras, 2001.
MEYER, Marlyse. Autores de cordel. São Paulo: Abril, 1980.
MOTA, Leonardo. Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearense. Rio de Janeiro: Cátedra, 1978.

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