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segunda-feira, novembro 23, 2015

MULHER DA SOMBRINHA, CELAN, ALAMOA, SANTORO, SAVALLA, MESSALINA, VIDRÁGUAS & TATARITARITATÁ!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A MULHER DA SOMBRINHA – Naquela segunda feira tomei conhecimento de que corria um boato de décadas e décadas de que uma linda mulher dava sumiço nos trabalhadores da Usina Catende. Ela andava sensualmente bela pelas ruas, mas ninguém via. Só se davam conta quando desaparecia uma pessoa, entre os homens e funcionários da usina canavieira, para logo atribuírem a ela o seu desaparecimento. Todos falavam, porém, jamais tinham sequer visto. Só se sabia que apenas os escolhidos enxergavam a sua sedução. Anos e anos se passaram e a cada safra, sempre às sextas-feiras, desapareciam os homens. Fizeram vigilância na cidade para flagrar seus passos e parar com esses desaparecimentos, todas investidas foram infrutíferas. No final de semana, sempre havia o alvoroço de acontecimentos similares. E todos logo diziam: - Foi a mulher da sombrinha. Certa feita, acertando uma apresentação minha naquela cidade, pude detectar a presença de um rosto de mulher inenarravelmente bonita que se destacava na multidão. Tinha certeza de que já vira aquelas fascinantes faces outras vezes. Aliás, sempre que eu visitava a localidade, me deparava com aquele ser que logo impactava no meu íntimo trazendo-me sensações desconhecidas. Qualquer volta que eu desse por quaisquer das vias dali, eu me pegava com a sua presença a me provocar. Até que no dia marcado para minha apresentação no Leão XIII, do palco pude vê-la na plateia, dando-me a sensação de presença familiar e que eu já me dava por obsessivo por encontrá-la, ou pelo menos vê-la de qualquer forma. E ela estava ali, linda como sempre. Mais uma vez ela estava ali e eu não sabia como fazer para tê-la mais de perto ou ao meu alcance, isso eu já tentara diversas vezes sem êxito, sempre que vinha prali. Era, inclusive, vigente que todo homem palmarense que fosse macho de verdade, tinha de ter uma amante em Catende, senão sua homência era posta em dúvida. Pois, aquela pacata cidade parecia mais reduto da macharia palmarense, do que mesmo dos daquele lugar. Havia também o ditado de que naquela cidade os habitantes eram majoritariamente femininos, na proporção de trinta por um. Ou seja, trinta mulheres para um homem só. E isso devido ao desaparecimento costumeiro das sextas dos marmanjos por mais de cinquenta anos ou mais. Pois bem, quando entrei no camarim durante o intervalo em que a banda mandava ver num momento instrumental, mal entrei e dei de cara com aquela bela mulher que, de sopetão, encheu-me de vida e prazer. Então, agarrou-me num beijo inesquecivelmente demorado. Senti seu hálito de flor, seu perfumado corpo elegantemente assimétrico com curvas e saliências estonteantemente sedutoras, e sua respiração ofegante de fatal e exuberante mulher insaciável. Remexeu-me as entranhas, o sexo e todas as veias do meu corpo, dominando-me num beijo para lá de anímico e sideral. Era como se estivesse voando pelo universo agarrado às carnes suculentas de um ser sobrenatural. Foi demais, tão demais, de eu me perder de tudo, quando, depois do beijo, ela fitou-me, passou as mãos ternas e requerentes por meus cabelos, faces, pescoço, tórax, até descer até o meu sexo rijo e acariciá-lo deliciosamente. Suspirou e me disse: - Mais tarde quero vê-lo. Venha ao meu encontro. E saiu tal como entrou. Tive que passar um certo tempo para me recompor, vez que a banda já repetia a introdução da música que me convidava a retornar ao palco. Embalado por aquele momento, cantei até o final e não consegui, depois de tudo, me recompor daquele encontro fortuito que fincara forte sua marca por todo meu corpo e alma. Quando saí do palco para o camarim, imaginei reencontrá-la. Nada, ninguém ali. Vasculhei todos os cantos da sala, nenhum sinal dela. Atendi os que chegaram para autógrafos e felicitações, e logo arribei com a banda para o jantar comemorativo. Mal chegamos no restaurante, eu me encaminhava para o sanitário, quando uma mão delicada me pegou pelo braço. Era ela. E disse: - Venha, estava lhe esperando. Puxou-me e seguimos andando pelas ruas, até darmos no cemitério da cidade. Ela virou-se agarrada ainda à minha mão, encarou-me com o olhar mais sensual que já vira e me disse: - Venha, preciso da sua ajuda. Venha me salvar. E me levou entre as catacumbas até atrás de uma capela onde havia uma gruta que se iluminara de repente, até que me deparei com uma alcova cujo perfume inebriante me dominava e ao chegar à sua cama, ela de forma materna e amante, me deitou e fez-se tudo a maior escuridão. A partir daí o maior prazer do universo me contemplou num gozo de orgasmo infindável. Viajei céus, infernos e paraísos, até ver-me restituído à vida como se vivendo num sonho perene que nunca mais me deixara acordar. Quando dei por mim, passei a ter a sensação de que ela vivia em mim, dentro de mim, acariciando meu coração e fazendo o meu ser sentir-se para sempre ao seu comando. Ela nunca mais saiu de dentro de mim, morando comigo em meu próprio corpo para nunca mais sair nem atormentar a cidade com desaparecimentos. Só as sextas pré-carnavalescas que ela foge um tantinho de mim, para desfilar impune pelas ruas da cidade e com a madrugada já sábado, ela volta pros meus sonhos para retomar os seus domínios. E isso até o dia em que... depois eu conto e vamos aprumar a conversa aquiaqui.


Imagem: Dessert, da artista plástica Suzy Smith.

 Curtindo Sinfonia (Festa, 1958), do compositor e maestro Cláudio Santoro (1919-1989) & Orquestra Sinfônica Brasileira.

COMO SAIR DA MARGINALIDADE – O livro A mulher do pai: essa estranha posição dentro das novas famílias (Summus, 2007), de Fernanda Carlos Borges, aborda sobre a mulher do pai na família, parentesco, visita ou da casa, madrasta, relação civilizada, emergência mítica, marginalidade, questão de identidade, harmonia pela assimetria, bruxa não vira fada, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Os mitos (razões de ser) que orientam a trajetória humana na cultura estão enraizados em ritos (modos de fazer). Os modos de fazer são organizados nas formas do corpo, e estas são sustentadas na postura do corpo: nos músculos e no esqueleto. Comecemos com uma situação concreta: quando lidamos com algum objeto-força, primeiro nos posicionamos. Se vamos empurrar um guarda-roupa, primeiro nos posicionamos com relação a ele. Essa posição determinará os parâmetros do espaço para a ação que realizaremos. Depois, a posição transforma-se em atitude, que é a preparação do corpo para a ação. Tudo isso é organizado na postura do corpo. [...] As atitudes do corpo são organizações psicomotoras que nos fazem lidar com determinadas situações de certo modo característico. Precisamos preparar o corpo para lidar com situações pessoais, com forças humanas e sociais. É assim que identificamos o jeito de alguns personagens sociais mais característicos. Nossas atitudes existenciais são modos como sustentamos as forças do mundo significativamente por meio do nosso corpo e como manipulamos e direcionamentos o que nos afeta. As atitudes existenciais – como forma do corpo – mais comuns da cultura e da experiência humana podem ser entendidas como arquétipos que orientam a experiência coletiva. Tudo acontece no corpo significativo e no corpo significador. [...]. Veja mais aqui.

A LENDA DE ALAMOA – No livro Sob o céu dos trópicos (José Olympio, 1038), de Olavo Dantas, encontro a narrativa A lenda de Alamoa, descrita a seguir: Em Fernando de Noronha, em tempos muito recuados, um lindo reino encantado. Havia na ilha uma rainha loura, de beleza deslumbrante. Seu palácio magnifico, situado no alto de uma colina verde, era um eterno deslumbramento. Todos os dias, a rainha de cabelos da cor douradas das manhãs de sol passava pelos esplendidos domínios, que seu poder cobria de palácios, e a primavera, de flores. O seu reino era uma permanente festa de noivado. Nunca faltavam, pendentes das ramadas, a policromia das inflorescências e a abundância das bagas amadurecidas. A renda das espumas do mar bordava continuamente em torno da ilha venturosa uma teia delicada, que se fazia e se desfazia. Mas as quilhas das caravelas entraram de sulcar as águas do Atlântico, aquém da linha do Equador. O Cruzeiro do Sul começava a ser avistado por estranha gente. O reino encantado devia desaparecer. Os palácios foram convertidos em massas negras de basalto. As galeras foram transformadas em rochedos. Mas a alma errante da rainha loura ainda mora na ilha. Seu palácio soberbo foi metamorfoseado no Pico. E hoje a sua sombra vaga pelos montes e praias da ilha. Por vezes, os montados – cães selvagens que vivem nos altos montes, como o morro Francês, e o monte do Espinhaço do Cavalo – soltam longos e sinistros uivos. É a Alamoa que vai passando. Às sextas-feiras, a pedra do Pico se fende, e na chamada da Porta do Pico aparece uma luz. A Alamoa vaga pelas redondezas. A luz atrai sempre as mariposas e os viandantes. Quando um deles se aproxima da Porta do Pico, vê uma mulher loura, nua, com o corpo mal encoberto pelos cabelos que descem quase ao chão. Os habitantes de Fernando chamam-na Alamoa – corruptela de alemã. A Alamoa parece ter sido feita para satisfazer a volúpia dos homens. O passante incauto são resiste à fascinação daquela mulher sedutora que o chama com a voz quente das grandes apaixonadas. O enamorado viandante transpõe a Porta do Pico, crente de ter entrado num palácio, para fruir as delícias daquele corpo fascinante. Ele, entretanto, é infeliz. A Alamoa se transforma de repente numa caveira. Os seus lindos olhos, que tinham o brilho das estrelas, são dois buracos horripilantes. E a pedra logo se fecha, novamente, atrás do louco apaixonado. Ele desaparece para sempre. A angustia de seus últimos gritos ressoa ainda durante muitos dias pelos flancos do Pico, escapando-se das fendas profundas do monte e misturando-se ao uivo dos montados e ao silvo dos ventos do sueste. Veja mais aqui.

QUANDO ME ABANDONEI EM TI & OUTROS POEMAS – No livro Selected Poems, do poeta ucraniano-francês Paul Celan (1920-1970), destaco inicialmente o poema Quando me abandonei em ti: eras pensamento, / algo / murmura entre nós dois: / do mundo a primeira / das últimas / asas, / em mim cresce / a pele sobre / tempestuosa / boca,  tu não chegas até ti. Também o poema Como te extingues em mim: ainda no último / e gasto / nó de ar / estás lá com uma / faísca / de vida. Ainda o poema Errático: As noites se fixam / sob teu olho. As sílabas re- / colhidas pelos lábios — belo, / silencioso círculo — / ajudam a estrela rastejante / em seu centro. A pedra, / um dia perto da fronte, abre-se aqui: / ante todos os / espalhados / sóis, alma, / estavas, no éter. O poema Cristal: Não procura nos meus lábios tua boca, / não diante da porta o forasteiro, / não no olho a lágrima. / Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho, / sete corações abaixo bate a mão à porta, / sete rosas mais tarde rumoreja a fonte. Por fim a Canção de uma dama na sombra: Quando vem a taciturna e poda as tulipas: / Quem sai ganhando? / Quem perde? / Quem aparece na janela? / Quem diz primeiro o nome dela? / É alguém que carrega meus cabelos. / Carrega-os como quem carrega mortos nos braços. / Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em / que amei. / carrega-os assim por vaidade. / E ganha. / E não perde. / E não aparece na janela. / E não diz o nome dela. / É alguém que tem meus olhos. / Tem-nos desde quando portas se fecham. / Carrega-os no dedo, como anéis. / Carrega-os como cacos de desejo e safira: / era já meu irmão no outono; / conta já os dias e noites. / E ganha. / E não perde. / E não aparece na janela. / E diz por último o nome dela. / É alguém que tem o que eu disse. / Carrega-o debaixo do braço como um embrulho. / Carrega-o como o relógio a sua pior hora. / Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora. / E não ganha. / E perde. / E aparece na janela. / E diz primeiro o nome dela. / E é podado com as tulipas. Veja mais aqui.

PIGMALEOA & FRIZILEIA – A trajetória de mais quarenta anos de carreira da atriz de teatro, cinema e televisão Elizabeth Savalla iniciou quando indicada pela atriz Lourdes de Moraes para a Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, quando estudava no Liceu Eduardo Prado. Tudo começa quando ela assiste no teatro a peça A Moreninha, baseada no romance de Joaquim Manuel de Macedo, quando tinha apenas treze anos e se apaixonou pela arte dramática desde então. Profissionalmente iniciou a carreira com Pigmaleão (1975), seguindo-se Barreado (1981), Lua Nua (1987/90), Ações ordinárias (1991/93), Mimi, uma adorável doidivanas (1993/95), É... (1996=2003), e Frizileia – uma esposa à beira de um ataque de nervos (2004/2008). No cinema, ela participou filme Pra frente Brasil (1982) e dedicou grande parte do seu trabalho para a televisão. Veja mais aqui.

MESSALINA – O filme Messalina (1951) dirigido pelo cineasta italiano Carmine Gallone (1885-1973), traz a história de uma mulher sedenta por poder e prazer, que possuía diversos amantes, atuando de forma eficiente com seus interesses e caprichos. No livro Transtornos de preferência sexual (Del Rey, 1996), do médico psiquiatra e professor Renato Posteli, encontro que messalinismo ou ninfomania é a parafilia mais agressiva da mulher, lembrando a imperatriz romana Messalina, que foi a quarta mulher de Claudio I, famosa por seus excessos. Por transladação do tempo, do ponto de vista semântico ou semasiológico e histórico, Messalina passou a significar mulher extremamente lasciva, libertina, dissoluta, devassa. Trata-se da mulher que é preocupada com ideias eróticas a todo momento e que sente permanentemente desejo sexual e a cópula, por mais repetida que seja, não a acalma. Em virtude do exemplo dessa imperatriz romana, que copulava dezenas de vezes seguidas, que saía à tarde para correr as tabernas à procura de homens rudes e atléticos e que regressava ao palácio de madrugada, cansada, mas não saciada. Por isso, houve então o aparecimento de casas de prostituição de homens em Roma, nas quais os homens robustos e viris eram mantidos sob vigilância para atenderem às damas romanas. Cada homem era propriedade de determinada dama e só a ela podia atender, embora pudesse ela manter vários homens. Quando a dama romana retirava-se após o ato sexual, mandava selar aquele homem, colocando em sua cintura e pênis uma cinta com cadeado para impossibilitá-lo de manter relações com outra mulher. A ninfomania era tão difundida na antiga Roma que havia festas e reuniões de mulheres ninfomaníacas, as quais faziam entre si concursos sobre quem seria capaz de despertar nos homens mais sensações voluptuosas. Escritores daquela época deixaram descrições vivas dessas orgias, que se realizavam nos templos ou nos palácios dos nobres. A ninfomania é uma hiperestesia sexual acentuadíssima, é libido insatiabilis e seus sinônimos são andromania, histeromania, metromania, uteromania, furor uterino. Em um relato, certa ninfomaníaca explicou: Não sou prostituta, só sou ninfomaníaca. As prostitutas não sentem prazer; eu, cada vez que faço amor, tento sentir prazer. O destaque do filme é para a belíssima e sempre charmosa atriz mexicana Maria Félix (1914-2002), a famosa La Doña, Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA

A arte do pintor francês Pierre-Paul Prud'hon (1758-1823)

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à editora e poetamiga Carmen Silvia Presotto & Vidráguas. Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
Veja mais aqui.


sábado, maio 16, 2015

DUMITRESCU, QUINTANA, MARIA MOURA, RABELAIS, RONALD DE CARVALHO, MONICELLI, PELLAN & PRUD´HON.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Em todo momento de nossa vigília diária, nos defrontamos com escolhas que temos que fazer. Grapear primeiro isso ou arrumar? Segurar ou largar? Correr ou ir devagar? E na maioria das vezes optamos mecanicamente: é o cis do inopinado. Vai ou volta? Para ou continua? São muitas coisas que temos que decidir e não nos damos conta quando chegamos ao travesseiro na hora de dormir. Da hora que abrimos os olhos até fechá-los pro dia seguinte, nossa rotina é essa: escolhas. E a gente só toma pé mesmo disso, quando alguém nos diz: - Ninguém sabe o que diz, só se lembra do que recebe. Ou seja: a gente age tão intuitivamente que nem sequer temos consciência do que fazemos realmente, esquecendo-se que são nossos atos que falam mais altos do que aquilo que pensamos e do que queremos que os outros abstraiam de nós. É nesse dia a dia que construímos nossa personagem para que as pessoas nos vejam como queremos ser vistos. Contudo, para tragédia da nossa convicção, são exatamente as escolhas que fazemos, nossas atitudes impensadas, nossos comportamentos diante do inesperado, nossas ideias acerca daquilo, nossos insights que dizem quem realmente somos. E muitas vezes nos chocamos quando temos a constatação de que o que pensamos que somos aos olhos dos outros, é exatamente o contrário do que queríamos que vissem de nós. A máscara cai. E torna-se difícil o convívio consigo mesmo diante dessa constatação, parecendo mais que vivemos para ver os outros felizes conosco, do que a gente feliz consigo próprio. E aí? Como se diz no popular: a casa cai. E a nossa infelicidade toma corpo e, se a gente deixar levar, toma conta da gente, tudo por causa do nosso conflito entre o eu real e o eu idealizado. Isso me leva a um poema do Mário Quintana, Nada sobrou: As pessoas sem imaginação / Podem ter tido as mais imprevistas aventuras, / Podem ter visitado as terras mais estranhas, / Nada lhes ficou. / Nada lhes sobrou. / Uma vida não basta ser vivida: / Também precisa ser sonhada. Vamos aprumar a conversa! E veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: On the Beach (1945), oil on canvas, do pintor franco-canadense Alfred Pellan (1906-1988).

Curtindo o dvd The Hyperion Ensemble - do compositor romeno Iancu Dumitrescu, Ana Maria Avram e o Io Quartet, London, Conway Hall, Modern Edition – Edições Salabert, 2008.

ANARQUISTA FEMINISTA – Uma das figuras mais proeminentes do cenário político do país, é a da anarquista e feminista brasileira Maria Lacerda de Moura (1887-1945), que se notabilizou por seus escritos feministas, publicando os seus livros Em torno da Educação Renovação: a fraternidade na escola (1922), A mulher hodierna e o seu papel na sociedade (1923), A mulher é uma degenerada? (1924), Lições da Pedagogia (1925) Religião do amor e da beleza (1926), Clero e Fascismo, horda de embrutecedores (1933) O Silêncio (1944), entre outras publicações. Considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil, anticlerical e adotando uma perspectiva de luta de classes, ela denunciou a opressão exercida pela moral sexual burguesa sobre as mulheres e as camadas mais pobres, defendendo a educação sexual entre os jovens, o amor livre, o direito ao prazer sexual, o divórcio, a maternidade consciente, entre outros assuntos, contra os constrangimentos do casamento, da prostituição e da escravidão do salário. A seu respeito foi publicado o livro Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura, de Miriam Lifchitz Moreira (1984) e o documentário Trajetória de uma rebelde (2003), realizado pela equipe do Laboratório da Imagem e Som em Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Fapesp. Nos estudos realizados por Jussara Valéria de Miranda (UFU, 2006), encontra-se o texto Recuso-me, em que Maria Lacerda de Moura (O Combate, 1928) expressa suas ideias e propósitos em resposta às críticas ao seu posicionamento: [...] enquanto eu estiver no goso das minhas faculdades mentaes e dentro do equilíbrio das idéas em harmonia com o meu caracter, enquanto a minha consciência for o meu único juiz, a benção de luz da minha vida interior – a resposta ao despeito, ao fanatismo, ao sectarismo, ás injurias, ás calumnias, será continuar a pensar e a viver nobremente a coragem excepcional de dizer, bem alto, o que penso, o sinto, o que sonho, embora toda a covardia do rebanho humano apesar dos escribas e phariseus da moral social. As minhas armas são os meus sonhos, é a minha vida subjectiva, é a minha consciência, a minha liberdade ethica, é essa harmonia que canta dentro de mim, e toda a minha lealdade para commigo mesma; e eu não maculo a minha riqueza de vida, o meu thesouro interior, envolvendo-o na mesquinhez e na perversidade das leis dos homens ou misturando-o com dinheiro, essa cousa horrível que corrompe as consciências mais convencidas da sua fortaleza inexpugnável, e as escravisa, acorrentando-as à gehenna do industrialismo, as chocar-se umas contra as outras na engrenagem sórdida da exploração do homem pelo homem. Veja mais aqui.

TODA A AMERICA – O livro Toda a América (Poemas, 1925) do escritor brasileiro Ronald de Carvalho (1893-1935), reúne poemas do autor em homenagem aos países e suas paisagens do continente americano. Entre os poemas destaco o poema título Toda América: Do alto dos Andes, America, / do alto das sierras mexicanas, / de Laguna dei Inca, de Punta de Ias Vacas, de Orizaba / e Xochimilco, / eu te vejo deitada e intacta no claro músculo dos teus / cristaes, no ímpeto das tuas águas, no frêmito fresco / das tuas folhagens luminosas. / Em ti está a multiplicidade creadora do milagre, / a energia de todas as gravitações, / a massa viva de todos os volumes, / a promessa de todas as fôrmas, / America livre do terror! / America voltada para o futuro como um botão que espera / a flor e o fruto, / America assentada nas praias atlânticas e pacificas, jogando / com as ondas, as espumas e as areias, / America dos cafezaes, dos seringaes e dos cannaviaes, / America das locomotivas e das carretas de bois, dos elevadores / e dos guindastes, das porteiras de peroba e das / comportas de aço chromado de Pittsburgh, / America das usinas, dos dynamos, das válvulas e dos embolos, / America dos opprobrios e das reivindicações, dos trusts / e dos Estados insolvaveis, / America dos senhores de engenho liricos e trágicos, do / pulque e da aguardente, do tequila e da coca, / America lasciva que dansa o jarabe, o maxixe, o tango, o / fox, a cueca e a marinera, / America violenta do cavallo selvagem do caudilho, do punhal / dos generaes, da fogueira, dos lynchamentos, dos imperadores / banidos, dos Presidentes degolados, / America sophista e causidica dos Parlamentos e dos Tribunaes, / America de todas as imaginações, do azteca e do germano, / do guarani e do latino, do hispano e do inca, do aimoré / e do saxão, do slavo e do africano, / America dos barões e dos escravos, do ladrão e do capitão / mór, do santo e do heróe, / Eu vivo todas as tuas indisciplinas, a tua cultura e a tua / barbaria, as tuas pyramides e os teus arranhaceus, as / tuas pedras de sacrifício e os teus calendários, os teus / pronunciamentos e a tua boa fé puritana, / America livre do terror, / America dos meus avós guerreiros e constructores, / America do meu Pai que morreu pelo Rei! Veja mais aqui.

DELICIOSA: AVENTURAS GALANTES – O livro Aventuras galantes (Tinta da China, 2011), de Rabelais, um dos pseudônimos do jornalista e romancista pornógrafo português Alfredo Gallis (1859-1910), reúne uma serie de narrativas, entre as quais destaco Deliciosa: [...] Se me perguntassem se essa mulher era bonita ou feia, declarolhes que me encontraria em graves embaraços para dar uma resposta rapida, definitiva e precisa. Não era formosa, mas tambem não era feia. - Então em que ficamos?, dirá por certo o leitor. Tentarei explicarme e fazerme compreender. Não era formosa, porque lhe faltavam esses tracos excepcionais que constituem a formosura das mulheres; e não era feia, porque o brilho diamantino dos seus grandes olhos negros, profundos e excitantes, e o vermelho carmim dos seus labios frescos e sensuais davamlhe a fisionomia picante e sugestiva uma expressão singular que despertava interesse. Era levemente morena a sua tez e abundantes e revoltos os opulentos cabelos, que ela enrolava com uma deliciosa e voluptuosa negligencia, na qual pairava uma pontinha de coquetterie muito expressiva. De mediana estatura, mais alta do que baixa, era franzina de formas, magra mesmo. Dava nas vistas a maneira aprimorada como ela se calçava. Sempre meias de seda e sapatos ou botinhas da mais fina qualidade e do mais elegante e bonito talhe. Contavam os que de perto a conheciam que as suas ligas eram verdadeiros bijous de rendas e combinações de cores, e que as camisas que usava se singularizavam pela arrojada fantasia que expressavam. Uns depreciavamna dizendo que ela não era merecedora de que lhe rendessem culto. Outros elogiavamna afirmando que ela era uma histerica dotada de um temperamento de fogo, que se interessava excessivamente pelas lutas de Venus e que possuia segredos quase maravilhosos para elevar as regiões de inenarráveis gozos as mais insensiveis e cristalizadas decadências, gastas no abuso dos prazeres da deusa. Aos primeiros respondia ela triunfantemente com as suas toilettes de preço, as suas joias, os seus chapeus, as carruagens em que andava e toda essa bagagem de luxo que custa sempre muito caro e exige elevados reditos para se poder manter. Eu fui sempre da opiniao dos segundos. [...] Mas… achavalhe um não sei que, um tic, uma nota irritante e expressiva que me mordia a carne como um estilete de fogo, pois me segredava que aquela mulher devia possuir verdadeiros tesouros de volúpia quando a ardencia do seu temperamento, expressa no seu olhar quente e singular, a levasse a interessarse pelo homem que a possuísse. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

PELE DE LOBO – A comédia em um ato Pele de Lobo (1875), do dramaturgo, poeta e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), é uma divertida sátira ao sistema de policiamento do império. Da obra destaco a cena X: [...] Cena X (Os mesmos e um Soldado) Soldado (a Cardoso.) Trouxeram este ofício e esta carta para Vossa Senhoria. (Entrega a carta e o ofício e sai.) Cardoso De cá. (Abrindo a carta.) Com licença. (Lê.) É um bilhete em que o oficial do gabinete do ministro me participa haver sido outro nomeado para a vaga do Cantidiano... E metam-se! Perdigão Hein? Cardoso E metam-se a servir o país! (Abrindo o ofício.) Com licença! (Depois de ler o ofício.) Sabem o que é? Minha demissão. Perdigão e Amália Demissão? Cardoso Á vista do que a meu respeito tem aparecido na imprensa periódica! Perdigão Não falemos mais nisso! Vamos embora. Cardoso Poupou-me o trabalho de pedi-la. Amália Quem não quiser ser lobo... Perdigão Mas o compadre acaba de despir a pele do lobo. (Apanhando o fitão.) Ei-la! Cardoso Atxim! (Saem tos os três e cai o pano.) (Cai o pano). Veja mais aqui.


ROSY LA BOURRASQUE – A comédia Rosy la bourrasque (Rosy Furacão, 1980), do cineasta e roteirista italiano Mario Monicelli (1915-2010), conta a história de uma grave lesão sofrida por um pugilista que se junta a uma equipe de luta livre feminina, na qual conhece a imponente Rosy, com quem se casa, acompanhando o crescimento estonteante da carreira dela e a decadência até o esquecimento da sua carreira, tornando-os amantes adversários. É uma adaptação livre de um romance de Carlo Brizzolara, no qual traz como destaque a atriz estadunidente Faith Minton. Veja mais aqui.





IMAGEM DO DIA

Nude black and white, do pintor e desenhista do Romantismo francês Pierre-Paul Prud'Hon (1758-1823)


Veja mais sobre:
Ética e moral aqui.

E mais:
Ética a Nicômaco de Aristóteles, a poesia de John Donne, Casa das bonecas de Henrik Ibsen, Justine de Marquês de Sade, O anjo exterminador de Luis Buñuel, a arte de Darel Valença Lins, a música de Antonio Carlos Nóbrega, a pintura de Hieronymus Bosch & A maneira de ser de Marilene Alagia Azevedo aqui.
As drogas & as campanhas antidrogas, Ética, A droga é só um pretexto de Francis Curtet, o pensamento de Milton Friedman, Pé na estrada de Jack Kerouac, a música do Yes, a pintura de Félicien Rops & Carlos Schwabe aqui.
A educação na sociologia de Émile Durkheim aqui.
A poesia de Virgílio aqui e aqui.
O pensamento de Paulo Freire aqui, aqui e aqui.
O teatro de Augusto Boal aqui, aqui, aqui e aqui.
Diário da guerra do porco de Adolfo Bioy Casares, A canção de Guillaume de Poictiers, a música de Charles Mingus, Cabra marcado para morrer, a pintura de Pierre Bonard, Estética Teatral, a fotografia de John Watson & a arte de Louise Cardoso aqui.
A literatura de Monteiro Lobato, o teatro de Jerzy Grotowski, a poesia de Antero de Quental, a arte de Patrícia Galvã – Pagu, a pintura de Jean-Baptiste Debret, a música de Uakti & Sacudindo Choro aqui.
A festa das olimpíadas do Big Shit Bôbras, Nietzsche & a modernidade de Oswaldo Giacoia Junior, a poesia de Gregory Corso, Intelectuais à brasileira de Sergio Miceli, a música de Wanda Sá, a pintura de Augusta Stylianou, o grafite de Banksy, a arte de Nancy L Jolicoeur & Nádia Gal Stabile aqui.
O sonho do amor, a literatura de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, a Gestalt de Afonso Lisboa da Fonseca, a arte de Ana Maia Nobre, As ventanias de Ana Viera Pereira, a pintura de Sandra Hiromoto, Luciah Lopez & Ana Cascardo aqui.
Andejo da noite e do dia, A era dos extremos de Eric Hobsbawm, A felicidade paradoxal de Gilles Lipovetsky, O amor de Martha Medeiros, a música de Gal Costa, a escultura de Nguyen Tuan, a pintura de Jeremy Lipking, a arte de Shanna Bruschi & Conto&Cena de Gisele Sant'Ana Lemos aqui.
Perfume da inocência, O amor e o matrimônio de Carmichael Stopes, a poesia de Automédon de Cízico, A psicologia do amor romântico de Robert A. Johnson, a fotografia de Beth Sanders, a pintura de Peter Blake, a arte de Chris Buzelli, a música de Maria Leite & Rebeca Matta aqui.
Do que fui pro que sou, Borges e os orangotangos de Luís Fernando Veríssimo, Moby Dick de Herman Melville, Novíssima arte brasileira de Katia Canton, o Big Jato de Xico Sá & Matheus Nachtergaele, a música de Robertinho de Recife, a coreografia de Simone Gutierrez & a pintura de Andre Kohn aqui.
Da inocência e da injustiça milenar, As aventuras da dialética de Maurice Merleau-Ponty, Histórias do tempo de Lya Luft, a poesia de Ilya Kabakov, a música de Yo-Yo Ma, a arte de Deise Furlani, a pintura de Oswaldo Guayasamin & Patrick Palmer, o cinema de Milos Forman & Natalie Portman aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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