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terça-feira, janeiro 13, 2015

GUZEL YAJINA, MALIKA EL ASSIMI, ESTHER PEREL, FRANÇOISE SAGAN, LINDA NOCHLIN & MARY CALDERONE

 


BOM DIA, FRANÇOISE – Quando a vi pela primeira vez estava saltitante com a edição exitosa de Bonjour Tristesse, tanto que passou a esconder-se sob o nome de Sagan, uma personagem principesca de Proust, para não envergonhar seu pai (era que os escritores à época não gozavam de boa reputação, tratados sempre por dissolutos). Teve uma fama meteórica e passou a viajar países e camas, até parar nos braços do seu editor e com ele casar-se. Cortejada e celebrada por ser rebelde, muitos a viam como uma Sartre de saias, transformando-se numa estrela que se separou dois anos depois das núpcias para cair nos braços de um modelo que lhe deu um filho. Essa era ela assinando o Manifesto pelo direito à independência no auge da guerra da Argélia, para ser vítima em represália de uma bomba da terrorista OAS. Outras paixões emergiram e novamente se divorciou para colecionar amantes, fossem homens ou mulheres, que idade tivessem. Após um acidente automobilístico, doses intensivas de Palfium e álcool, lances ousados nas jogadas da roleta e o perigo ao volante esportivo: O ópio é a maneira eficaz que conheço de levar com elegância as trivialidades da vida... As paixões pelos relacionamentos, amigas protetoras diante de escândalos de fraude fiscal e sonegação de impostos, afora ser generosa a empréstimos jamais resgatados e a gastos ousados com luxos e extravagâncias. A vida aos sobressaltos e desregrada pela rebeldia esfuziante, a soberba de mansões suntuosas, carros destruídos e aos montes, noites desafortunadas no jogo e na droga, os seus muitos vícios, a sua escrita em dia com romances, peças teatrais, autobiografias, a fama, muito dinheiro e um lugar de destaque na literatura francesa. Era sensível, inteligente, ativista de esquerda e considerada a última existencialista: o que falta à nossa época é a gratuidade, fazer algo por nada... Era como se procurasse um certo sorriso dentro de um mês ou um ano, como as nuvens que passavam com o guardador de seus amores. Era como a chamada das cicatrizes na alma e só queria um pouco de sol na água fria. Era um perfil perdido na cama desfeita, a tempestade sem bonança, cansada de guerra. Era a coleira e o sangue de aquarela, o cão vadio e uma tristeza de passagem pelos quatros cantos do coração. Sofria de uma estranha solidão interior e foi condenada por uso de cocaína, foi presa pelo fisco, ficou em coma depois de um acidente, nada previsível e nenhum rumo, avessa às normas, tratada por monstrinho encantador que se afundou em dívidas, doente e solitária: um coágulo no pulmão levou-a sem despedida. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A única coisa que lamento é nunca ter tempo de ler todos os livros que quero ler. O amor dura cerca de sete anos. Esse é o tempo que leva para as células do corpo se substituirem totalmente. O dinheiro pode não comprar felicidade, mas prefiro chorar num Jaguar do que num ônibus. Pensamento da escritora francesa Françoise Sagan (Françoise Quoirez – 1935-2004), que no Seu livro Bonjour tristesse (Distribooks, 2010) expressou que: [...] Uma estranha melancolia me invade, à qual hesito em dar o grave e belo nome de tristeza. A ideia de tristeza sempre me atraiu, mas agora estou quase envergonhado do seu completo egoísmo. Conheci o tédio, o arrependimento e, ocasionalmente, o remorso, mas nunca a tristeza. Hoje ela me envolve como uma teia de seda, enervante e macia, e me diferencia de todos os outros. [...] Diverti-me pensar que se pode dizer a verdade quando se está bêbado e ninguém acreditará. [...]. Noutro livro A Certain Smile (University of Chicago Press, 2011), ela expressou que: [...] As perguntas que eu gostaria de fazer às pessoas eram: ‘Você está apaixonado? O que você está lendo? [...]. Já no livro Dans un mois, dans un na (Pocket, 2009), expressa que: [...] Ela disse que não o amava, e ele disse que isso não importava, e a pobreza de suas palavras trouxe lágrimas aos seus olhos. [...] É sabido que o coração de todo homem está determinado a ter uma filha. [...] Ela gostaria de ser indispensável; isso é o que toda mulher quer... [...] A curiosidade é o começo da sabedoria [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Eu realmente sinto que existem tantas maneiras de amar quantas pessoas no mundo e quantos dias na vida dessas pessoas. Ainda somos uma sociedade sexófoba, com medo das coisas erradas pelos motivos errados. O verdadeiro objetivo da educação sexual é ensinar as pessoas a terem uma relação saudável consigo mesmas e com os outros. Pensamento da médica, escritora e defensora da saúde pública estadunidense, Mary Calderone (Mary Rose Steichen - 1904–1998).

 

O ERÓTICO & O DOMÉSTICO – […] O amor assenta em dois pilares: entrega e autonomia. Nossa necessidade de união existe juntamente com nossa necessidade de separação. […] O amor gosta de saber tudo sobre você; o desejo precisa de mistério. O amor gosta da distância que existe entre eu e você, enquanto o desejo é energizado por ela. Se a intimidade cresce através da repetição e da familiaridade, o erotismo é entorpecido pela repetição. Ele prospera no misterioso, no novo e no inesperado. Amar é ter; desejo é querer. Uma expressão de saudade, desejo requer indefinição contínua. Está menos preocupado com onde já esteve do que apaixonado com onde ainda pode chegar. Mas muitas vezes, à medida que os casais se acomodam no conforto do amor, eles deixam de atiçar a chama do desejo. Esquecem-se que o fogo precisa de ar. [...] Para casais eroticamente inteligentes, o amor é um recipiente que contém segurança e aventura, e o compromisso oferece um dos grandes luxos da vida: o tempo. O casamento não é o fim do romance, é o começo. Eles sabem que têm anos para aprofundar a sua ligação, para experimentar, para regredir e até para falhar. Eles veem seu relacionamento como algo vivo e contínuo, e não como um fato consumado. É uma história que eles estão escrevendo juntos, com muitos capítulos, e nenhum dos parceiros sabe como isso vai terminar. Sempre há um lugar para onde eles ainda não foram, sempre há algo sobre o outro ainda a ser descoberto. […] Hoje, recorremos a uma pessoa para fornecer o que uma aldeia inteira já fez: uma sensação de base, significado e continuidade. Ao mesmo tempo, esperamos que nossos relacionamentos de compromisso sejam românticos e também emocional e sexualmente gratificantes. É de admirar que tantos relacionamentos desmoronem sob o peso de tudo isso? [...]. Trechos extraídos da obra Mating in Captivity: Reconciling the Erotic and the Domestic (Harper, 2006), da psicoterapeuta belga Esther Perel, ao defender que: O orgasmo é a menor parte da sexualidade. A qualidade da sua vida depende, em última análise, da qualidade dos seus relacionamentos, que são basicamente um reflexo do seu senso de decência, da sua capacidade de pensar nos outros, da sua generosidade. O problema surge quando a monogamia já não é uma expressão livre de lealdade, mas uma forma de obediência forçada.

 

MULHERES ARTISTAS - [...] as mulheres devem conceber-se como potencialmente, se não realmente, sujeitos iguais, e devem estar dispostas a encarar os factos da sua situação de frente, sem autopiedade ou desculpas; ao mesmo tempo, devem encarar a sua situação com aquele elevado grau de compromisso emocional e intelectual necessário para criar um mundo em que a igualdade de realização será não só possível, mas activamente encorajada pelas instituições sociais. [...] Aqueles que têm privilégios inevitavelmente apegam-se a eles e mantêm-se firmes, por mais marginal que seja a vantagem envolvida, até que se curvem a um poder superior de um tipo ou de outro. [...]. Trechos extraídos da obra Women Artists (Thames & Hudson, 2015), da historiadora e professora estadunidense Linda Nochlin (1931-2017). Veja mais aqui.

 

ZULEIKA, ABRE OS OLHOS - [...] O coração é a fonte dos sentimentos, não da razão. [...] Zuleikha abre os olhos. O sol está forte, cegando-a e cortando-lhe a cabeça em pedaços. O vago contorno das árvores ao seu redor tremula numa dança cintilante de raios de sol. – Você não está se sentindo bem? Yusuf está inclinado na direção dela, olhando para seu rosto. – Você não quer que eu vá? Os olhos de Herson são enormes e verde-escuros: são os olhos dela. Os próprios olhos de Zulaikha estão olhando para ela do rosto do filho. Ela balança a cabeça e o puxa ainda mais para dentro da floresta. [...] Eles enterram os mortos ao longo dos trilhos em uma cova comum. Eles mesmos cavam com pás de madeira, com os rifles dos guardas da escolta apontados para eles. Às vezes, eles não têm tempo suficiente para terminar de cavar sepulturas ou cobrir adequadamente os cadáveres com brita antes da ordem “Para o trem!” estrondos. Os corpos são deixados ao ar livre, na esperança de que pessoas gentis apareçam no próximo trem especial e espalhem algo sobre eles. Eles próprios sempre espalham alguma coisa quando o trem deles passa perto de sepulturas abertas como essa. [...] Não estou feliz, nem uma palavra. Mas é bom. [...]. Trechos extraídos da obra Zuleikha Opens Her Eyes (Oneworld, 2015), da escritora e roteirista russa Guzel Yajina.

 

QUATRO POEMAS - FUMAÇA - As tardes me afogam \ E para mim iluminam. \ Eu acendo meu sol \ E sua clareza me domina. \ Persigo os ventos \ Para que apaguem meu fogo \ E me reduzam \ A um corpo \ De fumaça. ENCOURAÇADO - Selo \ Meus navios \ Meus navios de guerra \ No nariz das ondas \ E eu entro \ Na batalha do dilúvio. \ Eu luto atrás das montanhas da morte \ Até que elas diminuam \ E eu ceda \ Ou eu me desintegre, \ Corpo Queimado \ Pelo chicote \ Do vento. CRIAÇÃO - À noite abandono toda a minha modéstia abro meu sol perco a cabeça sou vítima de um ardor louco encho de ondas como um mar em seu fluxo mais viril \ Minhas tempestades se desencadeiam e crescem \ Minha luz dói sou um clarão um raio que corre atrás das nuvens eu brilho como a luz divina insisto no erro \ Dono da criação sento-me no trono e no peito de uma estrela consumo minha loucura e minhas artes acima de todas as minhas extensões e até nos meus espaços mais recônditos ruge o rei da selva. \ Meu leão ruge de amor pela estrela vermelha que cruza os horizontes. MARIAM - Oh você que me pega nesta noite chuvosa como se eu fosse uma cereja rachada pendurada em um galho molhado \ Você que anda entre meus galhos. Poemas da escritora, acadêmica e feminista marroquina Malika El Assimi.

 

SACADOUTRAS

 

DECIFRA A ESFINGE DA PÓS-MODERNIDADE – Em seu livro Diálogos sobre o conhecimento, o filósofo e físico Paul Feyerabend, faz a seguinte exposição pra gente refletir sobre o nosso tempo: [...] Os filósofos vangloriam-se de ter conseguido achar princípios claros atrás da confusão mais estapafúrdia. O "mundo do bom senso grego" (admitindo-se que esse fosse 0 único mundo do gênero) era, de fato,complicado na época em que Parmênides escreveu. Isso não 0 impediu de postular e até de provar que a realidade era variada, simples e conquistável pelo pensamento. A filosofia moderna, embora menos confiante a esse respeito, incluindo a ideia de estruturas claras por trás de eventos complexos. Alguns filósofos (mas também sociólogos e poetas) firmam assim os textos de importância; procuram os ingredientes que podem ter parte de uma estrutura logicamente aceitável e depois usam essa estrutura para julgar 0 restante. A tentativa está destinada ao fracasso. Veja mais aqui, aquiaqui

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiLogo mais, a partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá com muita festa e a apresentação da querida Meimei Corrêa. E com as seguintes atrações na programação: Hermeto Pascoal, Antonio Abujamra & Oscar Wilde, Emerson & Lake & Palmer, Leo Gandelman, Milton Nascimento, Selma Reis, Maria Bethania, Luciana Mello, Pedro Mariano, Leila Pinheiro. Mu Chebabi, Mano Melo, Everaldo Borges, Julia Crystal & Monica Brandão, Sóstenes Lima, Tirso Florence de Biasi, Jarbas Barros, Ricardo Machado, Almir Guineto, Paula Fernandes & Leonardo & muito mais! Veja mais aqui.

SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá Especial de Ano Novo
Quando? Hoje, terça, 13 de janeiro, a partir das 21hs
Onde? No MCLAM - blog do Programa Domingo Romântico
Apresentação: Meimei Corrêa

Imagem: Nude Girl with Folded Hands Watercolor on Paper Signed & Framed NR, do pintor expressionista Chaim Soutine (1893-1943)

Ouvindo: Santos Football Music, do músico, compositor, regente orquestral, jornalista e professor brasileiro, Gilberto Mendes, com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense e regência de Ligia Amadio. Veja mais aqui.



A MULHER SEGUE EM FRENTE – Na década de 1960, a Universidade de Harvard não admitia mulheres nos cursos de pós-graduação. Vítima disso foi a psicóloga infantil  da Universidade de Virgínia, Sandra Scarr que desenvolvia estudos sobre psicologia do desenvolvimento e que, durante uma entrevista para admissão no curso, quando recebeu de Gordon Alport, um importante psicólogo da personalidade, a informação que a Harvard não gostava de admitir mulheres, dizendo pra ela que: “[...] setenta e cinco por cento de vocês se casam, têm filhos e nunca terminam a graduação; enquanto que o restante nunca chega a lugar algum”. Ela, então, em um de seus livros narra o fato: “E, então, eu me casei, tive um filho no terceiro ano da pós-graduação e fui imediatamente excluída. Ninguém me respeitaria como cientista, nem faria algo por mim, como escrever uma carta de recomendação ou ajudar a conseguir um emprego. Ninguém acreditava que uma mulher com filhos pequenos pudesse realizar algo. Então, comecei a bater de porta em porta, expondo-me até conseguir um emprego. Finalmente, depois de 10 anos e de publicar vários artigos, os colegas começaram a me respeitar como psicóloga”. Veja mais aqui.

CARLITO´S WAY – Quem teve oportunidade de assistir ao filme Carlito´s Way, um policial com roteiro baseado nas novelas de Edwin Torres, com direção de Brian de Palma, 1993, pôde ver a linda atriz norte-americana Penelope Ann Miller contracenando com Al Pacino, em cenas memoráveis. Hoje é o aniversário dela e aqui a nossa homenagem, afinal todo dia é dia da mulher. Veja mais aqui.



Veja mais sobre:
Aventureiros do Una, Maurice Merleau-Ponty, Carlos Heitor Cony, Castro Alves & Eugênia Câmara, Sergei Rachmaninoff & Yara Bernette, Amália Rodrigues, Jules Joseph Lefebvre, Wolfgang Petersen & Diane Kruger aqui.

E mais:
Autoestima aqui.
O pensamento de Karl Marx aqui, aqui e aqui.
Meu ensino de Jacques Lacan & Disco Friends aqui.
Quadrinhos, a nona arte aqui.
Os catecismos de Zéfiro & O Rol da Paixão aqui e aqui.
O pensamento de Parmênides de Eléia aqui.
O eleatas & Xenófanes de Colofão aqui.
Heráclito de Êfeso aqui.
Husserl & a fenomenologia aqui.
O pensamento de Pitágoras aqui.
O período naturalista do pensamento grego: Os Jônios & Anaxímenes aqui.
O pensamento jônico de Anaximandro aqui.
O pensamento de Benedetto Croce aqui.
O pensamento de Tales de Mileto aqui.
O Budismo aqui.
A pirâmide alimentar aqui.
Dos temores da infância aos arroubos juvenis, Estrella Bohadana, Nuno Ramos, Mariana Aydar & Leonid Afremov aqui.
O verbo no coração do silêncio, Ástor Piazzolla & Eduardo Isaac, Steve Hanks, Wassily Kandinsky & Eliane Potiguara aqui.
Pra quem só vê superfície, todo rio é sempre raso, Zygmunt Bauman, Maria Azova, Anna Ewa Miarczynska & Júlio Pomar aqui.
A vida solta no calor do coração, Teodora Dimitrova, Carlos Baez Barrueto, Claudia Rogge & Robert Delaunay aqui.
Os véus dos céus & o prazer do amor, Djavan, Luciah Lopez, Christine Jeffs & Kirsty Gunn aqui.
Escândalo do coroinha, Ferdinand Hodler, Aldine Müller, Helena Ramos & Zaira Bueno aqui.
Tolinho & Bestinha: quando tolinho bateu pino com o capeta granulado aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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quinta-feira, janeiro 08, 2015

HANNIE ROUWELER, NANCY HOLT, EDITH STEIN & MIYAMOTO MUSASHI

 


O AMOR VENCE A MORTE - Era ela linda e mais que isso: Edith nasceu durante a festa do Yom Kippur. Também era Theresa, a caçula de onze irmãos. Era órfã de pai e amparada pela devotada mãe quando perdeu a fé ainda jovem. E me viu flagrá-la com seus olhos socráticos. Na verdade, vi-a passar polonesa pela rua Michaelisstraße, ali perto morava. Dos seus olhos emanavam a coragem e força materna, um exemplo ideal. Persegui seus passos e ela correspondia aos meus olhares com um sorriso angelical de olhos vivos. Durou pouco porque ela abandonou a escola por causa de uma crise de fé e viajou para a casa da irmã em Hamburgo. Tempos depois reaparecera para minha felicidade. E retomou os estudos para ser brilhantemente foi reconhecida pelo empenho e aptidão. Estudávamos história e alemão quando ela se interessou por filosofia, movida pelas tragédias da guerra primeira. Inquieta e mesmo sem o consentimento materno, ela fez-se auxiliar de enfermagem voluntariamente, na Cruz Vermelha, e atuou num hospital austríaco para cuidar de enfermos de doenças contagiosas. Depois serviu no front, num hospital militar. Cruzamo-nos mais uma vez e soube que havia se tornado professora suplente, enquanto se doutorava com temática sobre o problema da empatia. Não podia deixar passar em branco e estudamos fenomenologia com Husserl, enquanto reivindicava professoras na universidade, sem conseguir emprego. Desiludiu-se com a política e chorou ao meu ombro. Uma nova e dolorosa crise interior fê-la buscar do Livro da Vida, enquanto lecionava no liceu para moças e no instituto para formação de professoras. Escreveu para publicação do seu estudo sobre "Uma investigação sobre o Estado", enquanto tentava uma cátedra universitária sem sucesso, até conseguir a docência no Instituto Alemão de Pedagogia Científica. E me fiz sua filosofia e nos amamos pela teologia nos delírios dos desejos mais exaltados. Sua boca aos beijos confessava os anseios aristotélicos mais ousados, e me abrigava em seus seios judeus, enquanto seus quadris pitagóricos remexiam como se Hypatia cedesse difusa a si própria ao movimento planetário em torno da minha volúpia solar. E sua vagina sáfica devorou-me o pênis inchado por seus beijos e lambidas e carícias zis, para que antecipadamente a canonizasse com meu sexo bruto na revelação da sua nudez angelical, como se buscasse deus e nele fez-se santa puta a abrigar sua alma. Mas o mundo lhe era amargo e tornou-se freira carmelita descalça no monastério de Colônia com a ascensão nazista, sendo proibida de ocupar cargos públicos. Foi para o Carmelo da Holanda quando passou a sofrer represálias e nem deu tempo que dissesse adeus. Morreram a mãe e o mestre, afora a violenta Noite dos Cristais. Deu-se guerra segunda e seus familiares emigraram ou foram deportados. Ela uma "doctor veritatis" foi, por fim, capturada pela Gestapo e, como se fosse de vez para o seu povo, foi dizimada pelo veneno de uma câmara de gás, num campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Ela fez-se em mim e comigo ficou para sempre. Veja mais abaixo e mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Todo o meu trabalho gira em torno do lugar, do tempo, do espaço interior versus espaço exterior, da orientação no espaço (muitas vezes, de alguma forma, designada astronómicamente) e de outros aspectos relacionados com as percepções: a luz, o espaço, o enquadramento, o foco. Desde 1969, a minha principal preocupação tem sido realizar esculturas em paisagens ou espaços urbanos abertos, utilizando materiais como pedra, betão, tijolo e aço. Embora por vezes espaços interiores (salas inteiras) sejam utilizados como locações, os lugares, tanto interiores como exteriores, são parte integrante das esculturas, das ideias para os trabalhos que se desenvolvem a partir da minha relação com esses locais. Os meus filmes, os meus videoteipes e o meu livro, também concebidos num quadro perceptivo, são geralmente evocações de paisagens ou deslocamentos de lugares. Indicações do espaço (através de imagens de rastreamento, panorâmicas, tomadas aéreas e tomadas de caminhada) e aspectos da natureza (padrões criados pela luz solar, nuvens de poeira, reflexos na água) são capturados visualmente e transportados para outros lugares através do filme ao longo do tempo, enquanto o a psicologia do lugar é revelada por meio de vozes, sons ou músicas locais nas trilhas sonoras ou no texto que as acompanha. Declaração da artista estadunidense Nancy Holt (1938-2014) para Video Data Bank, em 1988.

 


ALGUÉM FALOU: O mundo não precisa do que as mulheres têm, precisa do que as mulheres são. E quando chega a noite, e você olha para trás, para o dia, e vê como tudo foi fragmentado, e quanto você planejou que foi desfeito, e todas as razões pelas quais você tem para ficar envergonhado e envergonhado: apenas aceite tudo exatamente como é... A alma da mulher é constituída como um abrigo onde outras almas podem se desdobrar. A alma da mulher deve ser expansiva e aberta a todos os seres humanos, deve estar tranquila para que nenhuma pequena chama fraca seja apagada pelos ventos tempestuosos; quente para não entorpecer os botões frágeis... vazio de si mesmo, para que nele haja espaço a vida estranha; finalmente, dona de si e também do seu corpo, para que a pessoa inteira esteja prontamente à disposição de qualquer chamado. A mulher procura naturalmente abraçar aquilo que é vivo, pessoal e completo. Valorizar, guardar, proteger, nutrir e promover o crescimento é o seu anseio materno natural. Cada mulher que vive à luz da eternidade pode cumprir a sua vocação, seja no casamento, numa ordem religiosa ou numa profissão mundana. Não aceite como amor nada que carece de verdade. Aqueles que permanecerem em silêncio são responsáveis. Pensamento da filósofa judia alemã Edith Stein (Edith Theresa Hedwig Stein, 1891-1942).

 

DOKKŌDŌ - […] O fato é que o mundo não se importa com você ou comigo, com nossas esperanças, nossos desejos ou nossos sonhos. E o mundo de sonhos, esperanças e desejos que se constrói entre nossos ouvidos não é necessariamente um reflexo do que realmente está acontecendo ao nosso redor. [...] Sinto-me confiante nesta suposição porque entre mim e os meus alunos de longa data, muitas vezes acontecem coisas que parecem telepatia, mas é mais verdadeiramente uma relação que atingiu uma maturidade onde as palavras não são necessárias para uma comunicação plena. Um rápido aceno na direção de algum equipamento na sala e o aluno que está lá há anos entenderá que isso significa: “Vá buscar isso”. A afirmação tácita nessa pergunta é presumida a partir do contexto da lição. Não preciso dizer exatamente qual equipamento levar, porque eles já sabem o que estou pedindo. Eles existem há tempo suficiente para serem capazes de somar dois mais dois. Para um iniciante pode parecer um superpoder, mas é apenas relacionamento. Poderíamos e deveríamos assumir que o mesmo se aplica aqui. Nem todos os detalhes precisavam ser explicados. [...] quando você aceita as coisas como elas são, isso permite que você entre na realidade. O véu de fantasia com o qual a maioria de nós nos protege é rasgado em pedaços e podemos lidar com as coisas como elas realmente são, boas, más ou indiferentes. O fato é que o mundo não se importa com você ou comigo, com nossas esperanças, nossos desejos ou nossos sonhos. E o mundo de sonhos, esperanças e desejos que se constrói entre nossos ouvidos não é necessariamente um reflexo do que realmente está acontecendo ao nosso redor. [...] Se você está angustiado por alguma coisa externa, a dor não se deve às coisas em si, mas à sua avaliação delas. [...]. Trechos extraídos da obra Dokkōdō - The Way of Walking Alone: Half Crazy, Half Genius—Finding Modern Meaning in the Sword Saint’s Last Words (Stickman, 2015), do guerreiro lendário, escritor, samurai e espadachim japonês Miyamoto Musashi (Benosuke, Shinmen Musashi No Kami Fujiwara No Genshin – 1584-1645), também conhecido pelo nome budista Niten Dōraku e Shinmen Takezō na cultura popular.

 

ORAÇÃO PÓS-GUERRA - o futuro começou \ com longos meses \ minados no tempo, \ só resta o amanhã, \ preferimos estar livres de \ preocupações enquanto as horas \ correm, passada a \ inércia das coisas \ vamos cantar, esperar, implorar, \ que nem tudo vai assim rápido \ e a paz para sempre \ está ancorada? \ poupe-nos da destruição \ e da desgraça permanentes, buscando \ o que nosso coração deseja, \ lembremo-nos humildemente \ de que nem um único dia na terra \ retorna \ para nenhum de nós. Poema da poeta e tradutora holandesa Hannie Rouweler, autora da obra Raindrops on the Water (1988).

 

SACADOUTRAS

 


ENTENDENDO O RISCADO DESSA TAL PÓS-MODERNIDADE – Houve um tempo em que o conhecimento se encontrava espalhado. Uns sujeitos pensantes, denominados de pré-socráticos, juntaram tudo, consolidando a coisa. Na Modernidade deram uma rachada no bolo e tornaram tudo especialista, fragmentado, canhestra – e no meio uma onça Juma virada no creu. A rachadura trouxe antagonismos, dicotomias inconciliáveis. Ou oito, ou oitenta; ou vai pra lá, ou pra cá; no meio que não pode: ou é de disso ou daquilo. E isso obrigou-nos a escolher entre isso ou aquilo, ou cai fora. Hoje, graças à Holística e ao desenvolvimento das Neurociências, temos a possibilidade de avaliar essas dicotomias, suplantá-las e podemos visualizar toda a amplitude que nos expresse a totalidade e o todo. Inda bem e vamos aprumar a conversa e tataritaritatá (LAM). Veja mais aqui e aqui.

Imagem: In the Bathroom, do pintor do grupo Nabis francês Pierre Bonnard (1867-1947). Veja mais aqui.

Ouvindo: Clair de lune, do compositor francês Claude-Achille Debussy (1962-1918), ao som do violão brasileiro de Laurindo Almeida (1917-1995). Veja mais aqui e aqui.

UM JEITO DE SER – No maravilhoso livro Um jeito de ser, do psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902-1987), recolhi esse belíssimo pensamento: [...] Creio que sei por que me é gratificante ouvir alguém. Quando consigo realmente ouvir alguém, isso me coloca em contato com ele, isso enriquece a minha vida. [...] Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Há, em primeiro lugar, um olhar agradecido. Ela se sente aliviada. Quer falar mais sobre seu mundo. Sente-se impelida em direção a um novo sentido de liberdade. Torna-se mais aberta ao processo de mudança. [...] Assim, estimar ou amar e ser estimado e amado são experiências que promovem crescimento. Veja mais aquiaqui e aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER – A socióloga, economista, escritora, pacifista e sindicalista estadunidense, Emily Greene Balch (1867-1961), foi presidente honorária da Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade, sendo agraciada com o prêmio Nobel da Paz de 1946. Sua orientação religiosa Quaker a dotara de forte caráter, voltando-se para a criação de uma casa-abrigo para trabalhadoras das fabricas de tabaco e manufatura, ao final de um dia árduo de trabalho. Fundou o jornal A Nação e desenvolveu intenso trabalho voltado para a paz e a defesa dos direitos das mulheres. Veja mais aquiaqui.


Veja mais sobre:
Gilberto Freyre, Papisa Joana, Içami Tiba, Oswaldo Montenegro, Giovanni Battista Tiepolo, James Gillray, Johanna Wokalek & Direito do Consumidor aqui.

E mais:
Proezas do Biritoaldo aqui.
O narrador de Walter Benjamim aqui.
Vardhamâna & O Jainismo aqui.
Beda & a psicologia de George Kelly aqui.
A violência no mundo & a psicologia de Gordon Allport aqui.
Georg Lukács, Psicologia Social & Filosofia do Direito aqui.
A poética de Aristóteles aqui.
O erotismo de George Bataille aqui.
Escola, Psicologia Escolar & Literatura de Cordel aqui e aqui.
Direito do Consumidor aqui e aqui.
Steven Pinker, Jane Goodall, Extinção de Línguas & Macacos aqui.
Poemas de Thiago de Mello aqui.
Carl Sagan, John Dewey, Holística, Perls & Gestalt Terapia, Cérebros & Computadores, Educação Infantil & Programa Tataritaritatá aqui.
A poesia sem pele, de Lau Siqueira aqui.
Freud & o Sistema Penal, Jorge Luis Borges, Eduardo Giannetti, Içami Tiba, Xico Sá & Alquimia da Saúde aqui.
Friedrich Nietzsche, Luís da Câmara Cascudo, François-André Vincent, Dmitriy Kabalevskiy & Programa Tataritaritatá aqui.
Henri Matisse, Miguel de Unamuno & Rita Lee aqui.
Quando alguém se põe à sombra, não pode invocar o sol, Ralf Waldo Emerson, Milena Aradisk, Paul Klee & Felicia Yng aqui.
Ainda assim é uma história de amor, Henrich Böll, Mário Ficarelli & João Câmara aqui.
Hoje PNE é o outro, amanhã pode ser você, Gregory Corso, Maria João Pires & Yves Klein aqui.
O mundo parou pro coração pulsar, Sêneca, Liah Soares & Jean Fautrier aqui.
Com a perna na vida foi ser feliz como podia, Anastasia Eduardivna Baburova, Rachel Kolly d’Alba, Alina Percovich & Rui Carruço aqui.
Jogo Duro aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá (Art by Ísis Nefelibata)
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HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...