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quinta-feira, agosto 29, 2019

AMADO NERVO, TEMPLE GRANDIN, RACHEL RIPANI, JIŘÍ RŮŽEK & SISSI TEJE-PRESO


SISSI, A MADAME TEJE-PRESO – Quando deram por falta do imperadoutor Teje-Preso, já passava mais de mês do sumiço dele. É mesmo? Nem notei: O coiso desaparece, mas o fantasma dele fica no quengo da gente, vigiando. Parece mesmo encosto dos brabos. Foi aí que apareceu a notícia: O quê? Como é que é? Pois foi. Ninguém que podia imaginar que aquele poderoso pigmeu de pouco mais de meio metro, com feições hitleristas e de maus bofes, fosse casado. Hem? Tampouco se adivinhava o que havia por trás dos muros altos de sua residência: se gente, bicho, ou o que fosse. É, ninguém entrava nem saía. Pudera, ele apareceu assim de repente num amanhecer calorento em Alagoinhanduba, não se sabendo, ao certo, quem era, de onde vinha e o que estava fazendo ali. Viu-se de imediato, apenas, os encolerizados esporros, que se tratava de um mandão que vinha colocar todos os pontos nos iis na comarca. Foi mesmo. Era o que dava para pensar. Além do mais, ele comparecia aos eventos ou circunstância que fosse, só acompanhado de seus capangas. Por isso, davam-no por irado solteiríssimo – até insinuavam ser ele um enrustido, destá. Tá. Mas, afinal, qual a notícia? A de que a esposa dele faleceu. Esposa? É. Quem? A condessa Sissi Teje-Preso. Mas quem a viu em vida? Foi o doutor Zé Gulu que saindo do seu peculiar mutismo, falou ser ela uma requintada madame, de feições nobres parecidas com a imperatriz Elisabete da Áustria e que, como Sarah Bernhardt, cultivava um ataúde ao lado da cama para seu descanso. Vôte! Como é que ele sabe? Foi o que dela se soube ou ouviu dizer, de alguns poucos achegados dela dali e que contaram a ele. Quem? Ah, sim, o artista plástico Flaru que não falava com ninguém de tão endoidado que era e íntimo em conversas com ela – Nunca ouvi falar! O pianista pinguço e alvoroçado, Cerdavi, solitário que só tinha o doutor Zé Gulu por amigo – Esse, pior ainda! E o poeta excêntrico e azoretado, Teju – Nunca vi mais gordo! Esses eram os únicos que privavam do convívio dela, afora outros visitantes de outras paragens longínquas, tudo artista e só. Eles que testemunharam suas crises místicas e seus acessos de fúria, o deserto ao redor e mergulhada no seu exclusivo mundo fantástico. Apesar de se portar como uma prima-dona despótica e exibicionista, desventrando com chulas e obscenas vociferações, vivia de carão nos lacaios e não se agradar de se misturar às massas. Entretanto, era extremamente educada e graciosa, mitigava sua solidão com música, poesia e exposições de quadros e gravuras. Soube mais dela ser possuidora de uma vastíssima coleção de pinturas e partituras, uma biblioteca de não seis quantos andares cheios de livros, pianos, violinos, cítaras, e que era poliglota, tanto recebia visitas como falava ao telefone nos mais diversos idiomas. Afora os três mencionados, ninguém da localidade jamais havia visto ali suas feições, porte ou nome, sabendo-se da sua graça apenas Sissi. Vivia ela encerrada nos limites do extenso sítio, em momento algum se sabendo se tinha saído ou como havia entrado ali. Se viajasse ou não, saía e voltava tão oculta de sequer quem quer que seja tomasse qualquer conhecimento, nem que suspeitasse de sua própria existência. Disseram que ela perdeu tantos filhos e parentes que resolveu prelibar com uma urna funerária ao lado, antecipando o prazer da vida eterna. Lascou. Sim, e a causa mortis? Desembucha! Pereceu não se sabe de quê, só que morreu de morte morrida, ao que parece, quem ousaria matá-la senão o próprio marido, ninguém é doido, né? Disso não há como saber, nem tirar a limpo. Só que deixou o cônjuge desolado no maior desdouro, ao que ele amaldiçoa noitedia a sua defecção. Coitado do coisa-ruim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Para mim, o autismo é secundário. Minha primeira identidade é especialista em gado — professora, consultora, cientista. Para manter intacta esta parte da minha identidade, separo regularmente trechos do calendário como “tempo do gado”. O mês de junho? É tempo do gado. A primeira parte de janeiro? Tempo do gado. Não me comprometo com palestras nesses períodos. Certamente o autismo é parte do que sou, mas não deixo que ele me defina. [...] Meu talento para a engenharia devia ter sido a pista. A engenharia não é abstrata, mas concreta. Ela trata de formas. Ângulos. Tem a ver com geometria. [...] Eu era péssima para entender os problemas de física por escrito. Não conseguia nem entender como armar os problemas, porque eles exigiam demais da minha memória de trabalho. Contudo, se tivesse de resolver um problema de física hoje, eu saberia o que fazer. Conseguiria cinco livros escolares, sentaria com um tutor e uma planilha, identificaria cinco exemplos específicos de problemas que usem uma fórmula e exemplos específicos de problemas que usem outra fórmula e no final identificaria os padrões nos problemas. [...] Do ponto de vista da neurociência, controlar as emoções depende do controle de cima para baixo pelo córtex frontal. Se você não controla suas emoções, precisa mudá-las. Se quiser manter o emprego, precisa aprender a transformar a raiva em frustração. Li num artigo de revista que Steve Jobs chorava de frustração. Por isso ele ainda tinha um emprego. Podia ser verbalmente grosseiro com os funcionários, mas, pelo que sei, não saía atirando coisas neles nem agredindo-os. [...] Tudo bem, digamos que acriança autista teve uma educação que identificou e desenvolveu seus pontos fortes. Digamos que esta criança cresceu e entrou num mercado de trabalho que aprecia suas competências particulares. Isso é ótimo para ela. Mas sabe oque mais? Também é ótimo para a sociedade. [...].
Trechos extraídos da obra O cérebro autista: pensando através do espectro (Record, 2015), da doutora de ciência animal e ativista autista estadunidense Temple Grandin, em parceria com Richard Panck Grandin. Sobre a vida e o trabalho dela, o diretor Mick Jackson realizou o telefilme Temple Grandin (HBO, 2010), tratando da prática de tratamento racional de animais, a máquina do abraço e da teoria de pensar em imagens e conectá-las. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A ARTE TEATRAL DE RACHEL RIPANI
Como ator, você sempre está defendendo as ideias do autor ou do diretor. Um ator, quando amadurece, tem vontade de colocar suas ideias em cena. Por isso resolvi escrever.
Com a minha família na sala, um primo de 19 anos recém-saído do Exército (Dragões da Independência) me pediu para ver meu quarto novo. Chegando lá, ele me empurrou sobre a cama, me segurou, baixou minha calcinha e me chupou. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo, a sensação horrorosa de que tinha algo muito errado, ele tapando minha boca, eu imobilizada. De ponta-cabeça, minha boneca preferida me encarava, e tudo que eu conhecia do mundo mudava radicalmente naqueles minutos. Minha irmã percebeu que estávamos demorando para voltar e subiu, me salvando do que poderia acontecer ainda. Ele me levantou a calcinha, eu frouxa como uma boneca de pano, em silêncio o resto da noite.
A arte da atriz, produtora, diretora e tradutora Rachel Ripani. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A beleza do corpo de uma mulher anda de mãos dadas com os segredos de sua alma e você não pode vê-los separadamente.
A arte do premiado fotógrafo tcheco Jiří Růžek. Veja mais aquiaqui e aqui.

A OBRA DE AMADO NERVO
Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. Sempre que houver um vazio em tua vida, enche-o de amor. A liberdade costuma vir vestida de trapos; porém, mesmo assim, é muito bela, mais bela do que todas as moedas de ouro e prata. Tão necessário como o pão de cada dia, é a paz de cada dia sem a qual o mesmo pão é amargo. As mais doces palavras são as que se expressam mais com os olhos do que com os lábios.
A obra do poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919) aqui


domingo, fevereiro 14, 2016

JOÃO UBALDO RIBEIRO, NADYA TOLOKONNIKOVA, KAKI HUNTER & LITERÓTICA

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA:

Ela nua e seu corpo escalo

viva nos meus lábios,

crucificada no meu falo.

Veja mais Literótica aquiaqui.

 


DITOS & DESDITOS

Qualquer sistema de poder se baseia na premissa (que, é claro, tenta se apresentar como um axioma) de que, para sentir alegria, é preciso pagar ou obedecer. O ato supremo de subversão é, portanto, encontrar alegria na recusa em pagar e obedecer, em um ato de viver de acordo com valores radicalmente diferentes. Não se trata de um ato de privação ou austeridade, não é um voto, é um ato que revela uma alegria que transcende os limites impostos...

Pensamento da musicista, escritora, artista conceitual e ativista russa Nadya Tolokonnikovao (Nadejda Andreevna Tolokonnikova), que foi integrante do grupo anarquista feminista Pussy Rior e do Voina, condenada num julgamento parcial em 2012 por vandalismo e ódio religioso, após a invasão da catedral Cristo Salvador, em Moscou, para realizar uma performance contra Vladimir Putin. Sentenciada a dois anos de prisão, em  2013 ela foi solta com outra membro da banda, Maria Aliokhina, por cumprimento de uma emenda constitucional. Ela foi reconhecida como prisioneira política pelo Union of Solidarity with Political Prisoners (Solidarnost) e a Anistia Internacional a considerou uma prisioneira da consciência. O incidente provocado pela performance Punk Prayer ("Oração Punk") em 2012, gerou um processo criminal contra os membros da banda Pussy Riot, acusadas de hooliganismo. Durante a prisão de 2 anos em Partsa, na Mordóvia, ela fez greve de fome alegando ter sofrido maus tratos e ameaças de morte, além de escrever uma carta sobre a forma de tratamento às mulheres prisioneiras. Neste período ela travou discussão com Slavoj Žižek, mediada pelo filósofo francês Michel Eltchaninoff, reultando na publicação do livro Comradely Greetings: The Prison Letters of Nadya and Slavoj, em 2014. Em 2013 ela foi hispitalizada por ter ficado sem alimentação, tratada na enfermaria da prisão e, posteriormente, transferida sem que se soubesse de seu paradeiro por várias semanas, quando foi localizada em Krasnoiask, na Sibéria. Logo após ter sido tratada, ela foi solta por anistia concedida por Putinh, diante dos preparativos dos Jogos Olímpicos de Inverno, de 2014. Sobre o ocorrido ela assinalou que: Libertar pessoa a apenas alguns meses antes da expiração da pena é uma cortina de fumaça [...] isso é ridículo [...] Este é um ato nojento e cínico [de Vladmir Putin]", convocando o país a boicotar as Olimpiadas de Inverno, ano em que ela e sua parceira de banda foram surpreendidas, feridas e assaltadas em Nijny Novgorod. Ela enfão fundou o site de jornalismo sobre direitos humanos MediaZona e publicou o livro How to Start a Revolution, em 2016. Veja mais aqui.

 

O FEITIÇO DA ILHA DO PAVÃO – [...] Na verdade, não se fala na ilha do Pavão. Jamais se escutou alguém dizer ter ouvido falar na ilha do Pavão, muito menos dizer que a viu, pois quem a viu não fala nela e quem ouve falar nela não a menciona a ninguém. […] É sabido, porém, que a ilha frequenta os sonhos e pesadelos da gente do Recôncavo, que muitas vezes desperta no meio da noite entre suores caudalosos e outras vezes para entrar em delírios que perseveram semanas a fio. […] E muitos desaparecidos que nunca mais foram vistos podem bem estar na ilha do Pavão, embora certeza não haja, nem se converse ou escreva sobre o assunto [...]. Trechos extraídos da obra O feitiço da Ilha do pavão (Alfaguara, 2011), do premiado escritor João Ubaldo Ribeiro (João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro – 1941-2014). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

REPUTAÇÃOVocê sabe como eu consegui minha reputação? Na oitava série, eu não sabia de nada. Um grupo de garotos queria me convencer a nadar pelada. Eu não queria, mas não me importava se eles insistissem, então só assisti. Achei engraçado ficar me debatendo na água — no dia seguinte, eu era uma vadia, a primeira a nadar nua... Pensamento da escritora, arquiteta, professora e atriz estadunidense Kaki Hunter (Katherine Susan Hunter), que autuou em diversos filmes populares de sucesso, tornando-se professora de rafting em Utah e co-autora do livro Earthbag Building: the Tools, Tricks and Techniques (Natural Building Series, 2004), tratando sobre a construção moradias acessíveis, sustentáveis e resilientes com sacos de terra. Os principais conceitos incluem o uso de materiais facilmente disponíveis e baratos, como solo local e sacos reciclados, a natureza transformadora e comunitária do processo de construção e a durabilidade das paredes de sacos de terra. Seu trabalho destaca que o custo é variável e depende da mão de obra do construtor e da complexidade do projeto.

 


PSICOLOGIA FENOMENOLOGICA – O livro Introdução à psicologia fenomenológica (Imago, 2001), de Antonio Gomes Penna, trata do método fenomenológico e a filosofia fenomenológica como ciência de rigor, exposição das principais contribuições, os dados biográficos e bibliográficos de Edmund Husserl, a psicologia fenomenológica, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO – O livro Curso de direito constitucional positivo (Malheiros, 2002), do professor José Afonso da Silva, trata de temas como o direito constitucional e da constituição, da evolução político-constitucional do Brasil, princípios fundamentais, do princípio democrático e garantia dos direitos fundamentais, formação histórica das declarações de direitos, dos direitos e deveres individuais e coletivos, do direito à vida e do direito à privacidade, direito de igualdade e de liberdade, direito de propriedade, direitos sociais, direito de nacionalidade, direito de cidadania, garantias constitucionais, da estrutura básica da federação, da administração pública, bases constitucionais das instituições financeiras, da defesa do Estado e das instituições democráticas, da ordem econômica e social, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

E-BUSINESS & MARKETING – Para desta temática na área da construção civil, faz-se necessária efetuar uma abordagem acerca da construção civil como representação socioeconômica e o contexto organizacional, para tratar da introdução do Marketing, sua fundamentação conceitual e aplicações na construção civil para, enfim, tratar de e-business e o gerenciamento de obras no setor. Veja mais aqui e aqui.


AUTISMO – A técnica em Química pelo Cefet (IFAL) e graduanda em Psicologia pelo Cesmac, Edjane Galvão, vem desenvolvendo estudos sobre a temática do Autismo, participando de congressos nacionais e internacionais sobre a temática, além de frequentar cursos nas mais diversas vertentes psicológicas, desde neurocientíficas, psicanalíticas, cognitivas e comportamentais, tendo por meta aprofundar suas pesquisas sobre a realidade e relações do autista no seio familiar e na educação. Veja mais aqui e aqui.



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Poetas do Brasil, Gregório de Matos Guerra, Sheryl Crow, Dalinha Catunda, Yedda Gaspar Borges, Iracema Macedo, Fidélia Cassandra, Jade da Rocha, Psicodiagnóstico, Controle & Silêncio Administrativos aqui.
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sábado, janeiro 30, 2016

A MULHER NA IDADE MÉDIA, AUTISMO, GERSÃO, FRITZ LANG, BENITA PRIETO, MAISA VIBANCOS & MUITO MAIS!!!

TODO DIA É DIA DA MULHER: A MULHER NA IDADE MÉDIA – No período compreendido historicamente como a Era do Obscurantismo, ler e escrever era um privilégio dos mosteiros, mantendo-se a igreja cristã a consideração de que a mulher era um zero, desprezadas tanto pelos homens como por elas mesmas, mantendo a condução secular de Eva como a arquiteta responsável pela queda do homem. Contudo, após mais de cinco mil anos de inferioridade da mulher, começou-se a perceber o que era vigente desde os tempos aristotélicos: o homem não era o elemento crucial na procriação. Isso se deve à descoberta de que em Bizâncio, a Virgem Maria era devotada, promovendo o surgimento da Mariolatria, no século XII, pela devoção de Bernard de Clairvaux da Ordem Cisterciense. Também ocorre no século XIII, Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, definir a mulher de então: como ela tinha sido criada da costela de Adão, era destinada à união social com o homem e, portanto, era sua companheira, mas somente em assuntos para os quais se tornava biologicamente indispensável, ou seja, a procriação. Com a Mariolatria, surgem as Martas, aquelas que vivem e morrem nas cidades, e o culto à Maria Madalena que era a figura da prostituta que se arrependera para seguir Jesus, dando-se oportunidade à construção de lares para arregimentar e converter as decaídas que haviam reconhecido o erro de sua trajetória. A mulher secularmente desdenhada se transformava em dama honorável pelo jogo do amor palaciano, oriundo do amor puro dos árabes e da importação do culto à Virgem Maria de Bizâncio. Tratava-se de uma condução em que era honrada apenas por sua virtude de dama pura, inatingível, virtuosa, admirável. Surgia, então, na Idade da Grosseria a dama da Idade da Cavalaria que passou a ser o grande tema da literatura e da vida da classe superior, resultado das Cruzadas, nas quais muitas mulheres se viram na necessidade de cuidar das propriedades e administrar terras, impostos, dízimos e até a política, além de descobrirem os prazeres de serem cantadas por poetas e trovadores, como Mocadem de Córdoba, Ibn Sara e Ibn Hazn, com canções de amor de um romântico herói que lutaria com o mundo para merecer o amor da amada. Esses eventos tiravam-nas da vida monótona com seu senhor e seu séquito fora de casa: a vida imitava a arte. Exemplo disso foi Eleanor de Aquitânia que ajudou a estabelecer o ideal do amor palaciano, ao casar-se com Luiz VII em 1137, cultuando o roman, um romance contando uma história em versos rimados sobre as maravilhosas aventuras no amor e na guerra. Quando ela se casou com Henrique II da Normandia e Inglaterra, patrocinava muitos trovadores notáveis, entre os quais Bernart de Ventadom. Suas filhas, principalmente Marie de Champagne, convenceram Chrétien de Troyes a fundir histórias de amor com ação, surgindo a partir de então a cavalaria: a dama era a insígnia do comando. Foi daí que surgiu o romance que se tornou lenda, dando conta do amor de Jaufré Rudel pela condessa de Trípole, na Síria, uma legendária beldade sobre quem ele ouvira falar através de peregrinos que retornavam da Terra Santa, ou da Graça Divina, buscando a felicidade de expirar nos braços de sua dama bem-amada. Também Guillaume de Larris exaltara a ideia alegórica da mulher virtuosa e Jean de Meun que desclassificava aquelas que não eram suficientemente nobres, ricas ou belas, para serem qualificadas como heroínas do amor palaciano. É durante esse período que surgem os demônios, súcubus e íncubus que, segundo Hinemar, bispo de Reims, atormentavam e tentavam homens e mulheres. Assinalam ser o demônio que aparecia para tentar as mulheres, ao tomar aparência do homem que ela amava, como o caso de uma freira atormentada pelas visitas de um íncubo até o exorcismo. Bernard de Chivaux diz que lidou com um caso de uma mulher que fora visitada todas as noites, durante seis anos, por um demônio que extraía dela o seu prazer, sem ao menos despertar-lhe o marido. Ocorre, porém, que o costume das damas em terem amantes foi transformado de um devaneio literário para uma visão noturna, clássica fantasia feminina da visita de homens, propagando que os demônios estavam em ação, como a súcubo visitava um homem e recebia sua semente; então transformado em íncubo visitaria uma mulher para transmitir-lhe aquela semente. Foi por essa razão que surgiu o Malleus Maleficarum, em 1486, o primeiro grande manual dos inquisidores de feitiçaria, para reprimir os desejos femininos e seus envolvimentos os demônios. Ocorre, por fim, no século XIV, que Eva finalmente cedeu lugar a Maria, com seu culto entre os franciscanos dos séculos XIV e XV, tornando-se uma cálida e compassiva mãe dos pobres e infelizes da terra. A crescente popularidade de Maria deveu-se muito aos trovadores, aos cistercienses e franciscanos, aos nobres, mercadores e burgueses, passando a ser ela a terna, amorosa e bondosa. Ao mesmo tempo, surgem os livros de cortesia, os quais passam a ser adotados pelas mulheres burguesas para aperfeiçoamento, como também os cintos de castidade que era usado para proteção contra estupro e para coibir a libertinagem da mulher. Como visto, na Idade Média o processo de desvalorização, sedimentado pela Primeira Mulher, se transformava com a visão da Virgem Maria como um meio de renovação, continuando, mesmo assim, a serem as mulheres consideradas pelo clero como criaturas débeis e suscetíveis às tentações do diabo, logo, deveriam estar sempre sob a tutela masculina. (Luiz Alberto Machado).

Veja mais:
 
PICADINHO
 Imagem: Prostitute, do pintor do Expressionismo e Fauvismo francês, Georges Rouault (1871-1958).


Curtindo o álbum Flutes Sonatas (Flötensonaten nº 272-277 – Naxos, 2006), com obras do compositor alemão Johann Joachim Quantz (1697-1773), com a flautista Verena Fischer, o cello de Klaus-Dieter Brandt e o cembalo de Leon Berben.

EPÍGRAFEQuem olha para uma montanha distante não repara na beleza de um dente-de-leão que está bem na sua frente. E quem se aproxima para olhar o dente-de-leão não vê como é bela a montanha ao longe. Para nós, as vozes das pessoas são mais ou menos assim, frase extraída do livro O que me faz pular (Intrínseca, 2014), do premiado jovem escritor autista japonês Naoki Higashida. Veja mais aqui.

A MULHER, O PATRIARCADO E A ESCRAVIDÃO – No livro Mulheres: o gênero nos une, a classe nos divide (Sunderman, 2008), de Cecília Toledo, encontro que no processo de origem do patriarcado, a esposa passou a ser uma propriedade do marido, como os outros bens, confirmadas por descobertas antropológicas que permitiram afirmar que a mulher não nasceu oprimida, mas passou a sê-lo devido a inúmeros fatores, dentre os quais, os decisivos foram as relações econômicas, que depois determinaram toda a superestrutura ideológica de sustentação dessa opressão: as crenças, os valores, os costumes, a cultura em geral. Nesse sentido, autora assinala que [...] a opressão da mulher está vinculada à existência da propriedade privada dos meios de produção, e apenas poderá ser superada com uma mudança total na infraestrutura das sociedades assentadas neste tipo de relação. Tal fato sinaliza diretamente um regime escravocrata que submetia à mulher aos mandos do homem. Pensamento similar é encontrado no livro Ser humana: quando a mulher está em discussão (DP&A, 2002), de Marcia Moraes, ao observar que no período da escravidão [...] desde os tempos mais remotos, exercitava o extremo sexismo necessário às praticas patriarcais, e essa foi a forma pela qual nasceu a diferenciação das classes sociais [...] As mulheres eram escravizadas não apenas pela força do trabalho, mas também pelos serviços sexuais prestados aos seus donos e pela reprodução”. Tal fato define que a exploração de mulheres de classes sociais baixas pelos homens de classe alta pode ser facilmente observada em toda história humana, incluindo o feudalismo e os tempos atuais. Veja mais aqui e aqui.

A CIDADE DE ULISSES – No livro Cidade de Ulisses (Sextante, 2011), da escritora portuguesa Teolinda Gersão, destaco os trechos: [...] Expor-se é também esconder-se. E também no disfarce os criadores são mestres [...]. Ao longo dos séculos também nós vivemos essa história de mulheres esperando, sozinhas, de filhos crescendo sem pai. Foi assim nas cruzadas, nos Descobrimentos, na guerra colonial, na emigração, até ao século XX. [...] Penelópe cansa de esperar por Ulisses e cede aos pretendentes, sobretudo a um deles, Anfínomo. Ulisses regressa e mata-a, ao saber dos seus amores com Anfínomo; [...] Penélope cansa-se de esperar por Ulisses e deita-se com os cento e vinte e nove pretendentes. Desses amores nasce o grande deus Pã; Mas não existia nenhuma versão em que Penélope escolhesse um dos pretendentes, que se tornaria rei de Ítaca, e ela rainha a seu lado. E em nenhuma versão se tornava ela própria rainha de Ítaca, no lugar de Ulisses, dissemos. No entanto seria provavelmente assim que hoje contaríamos a história. Veja mais aqui.

POEMEL & MULHERA poeta e professora Maisa Vibancos, que também se assina Maísa Pupila, já foi selecionada e publicada no Painel Brasileiro de Novos Talentos, da Câmara Brasileira de Jovens Escritoas, foi moderadora do Fórum do Guia de Poesia do Projeto SobreSites – RJ e edita o excelente blog Olhares poéticos... não poesias – Maísa Pupila. Dela destaco inicialmente o Poemel: Mistura/ sem culpas / servido em versos, / adoçam o tempo / e vem tictacteando; / o mel cai e inspira / sinestesicamente... / o poema transpira / - grudam-se os sabores: / Poemel nascente. E também o seu poema Mulher: Mulher / sinfonia constante - / em silêncio / ou no último volume, / música eterna / de todas as idades, / calma ou estressada / sempre mulher; / companheira, mãe, namorada, / amiga, avó, serena ou descontrolada - /afaga qualquer momento, / acaba com qualquer solidão. / Mulher / Sempre Grande, / Intensa e Única, / é como a natureza, / não desperdiça nada / recicla valores, / e em suas raízes eterniza / o milagre do amor. Veja mais aqui.

MLLE DUMESNILMarie Dumesnil, pseudônimo de Marie-Françoise Marchand (1713-1803), foi uma grande atriz francesa que estreou na Comédie Française, como Clitemnestra, em Iphigénie em Aulide, de Racine. Foi uma das principais intérpretes de Voltaire, de quem fez Mérope (1743), seu maior sucesso. Garrick apreciou com entusiasmo seu talento dramático, fruto mais de instinto e sensibilidade que de estudo. Em 1800, depois de abandonar o teatro, ela publica suas memórias escritas que contem importantes informações sobre declamação. Veja mais aqui.

BLUE GARDÊNIA – O filme Blue Gardênia (A Gardênia Azul, 1953), do cineasta austríaco Fritz Lang (1890-1976), é baseado na história homônima de Vera Caspary, contando a historia de um assassinato sensacional que representa uma imagem da vida norte-americana, quando uma garota ingênua torna-se suspeita desse crime, em mais uma análise das origens do mal. O destaque é para premiada atriz estadunidense Anne Baxter (1923-1985). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Sonhando (1985), do artista plástico Siron Franco.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora e contadora de história Benita Prieto. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Veja aqui, aqui, aquiaqui.

Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Mahatma Gandhi, Educação, Michelangelo Antonioni, Vanessa Redgrave, Genesis & Phil Collins, Carlos Zéfiro, Jennifer R. Hale, Maria Luísa Mendonça & muito mais aqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...