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sábado, janeiro 30, 2016

A MULHER NA IDADE MÉDIA, AUTISMO, GERSÃO, FRITZ LANG, BENITA PRIETO, MAISA VIBANCOS & MUITO MAIS!!!

TODO DIA É DIA DA MULHER: A MULHER NA IDADE MÉDIA – No período compreendido historicamente como a Era do Obscurantismo, ler e escrever era um privilégio dos mosteiros, mantendo-se a igreja cristã a consideração de que a mulher era um zero, desprezadas tanto pelos homens como por elas mesmas, mantendo a condução secular de Eva como a arquiteta responsável pela queda do homem. Contudo, após mais de cinco mil anos de inferioridade da mulher, começou-se a perceber o que era vigente desde os tempos aristotélicos: o homem não era o elemento crucial na procriação. Isso se deve à descoberta de que em Bizâncio, a Virgem Maria era devotada, promovendo o surgimento da Mariolatria, no século XII, pela devoção de Bernard de Clairvaux da Ordem Cisterciense. Também ocorre no século XIII, Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, definir a mulher de então: como ela tinha sido criada da costela de Adão, era destinada à união social com o homem e, portanto, era sua companheira, mas somente em assuntos para os quais se tornava biologicamente indispensável, ou seja, a procriação. Com a Mariolatria, surgem as Martas, aquelas que vivem e morrem nas cidades, e o culto à Maria Madalena que era a figura da prostituta que se arrependera para seguir Jesus, dando-se oportunidade à construção de lares para arregimentar e converter as decaídas que haviam reconhecido o erro de sua trajetória. A mulher secularmente desdenhada se transformava em dama honorável pelo jogo do amor palaciano, oriundo do amor puro dos árabes e da importação do culto à Virgem Maria de Bizâncio. Tratava-se de uma condução em que era honrada apenas por sua virtude de dama pura, inatingível, virtuosa, admirável. Surgia, então, na Idade da Grosseria a dama da Idade da Cavalaria que passou a ser o grande tema da literatura e da vida da classe superior, resultado das Cruzadas, nas quais muitas mulheres se viram na necessidade de cuidar das propriedades e administrar terras, impostos, dízimos e até a política, além de descobrirem os prazeres de serem cantadas por poetas e trovadores, como Mocadem de Córdoba, Ibn Sara e Ibn Hazn, com canções de amor de um romântico herói que lutaria com o mundo para merecer o amor da amada. Esses eventos tiravam-nas da vida monótona com seu senhor e seu séquito fora de casa: a vida imitava a arte. Exemplo disso foi Eleanor de Aquitânia que ajudou a estabelecer o ideal do amor palaciano, ao casar-se com Luiz VII em 1137, cultuando o roman, um romance contando uma história em versos rimados sobre as maravilhosas aventuras no amor e na guerra. Quando ela se casou com Henrique II da Normandia e Inglaterra, patrocinava muitos trovadores notáveis, entre os quais Bernart de Ventadom. Suas filhas, principalmente Marie de Champagne, convenceram Chrétien de Troyes a fundir histórias de amor com ação, surgindo a partir de então a cavalaria: a dama era a insígnia do comando. Foi daí que surgiu o romance que se tornou lenda, dando conta do amor de Jaufré Rudel pela condessa de Trípole, na Síria, uma legendária beldade sobre quem ele ouvira falar através de peregrinos que retornavam da Terra Santa, ou da Graça Divina, buscando a felicidade de expirar nos braços de sua dama bem-amada. Também Guillaume de Larris exaltara a ideia alegórica da mulher virtuosa e Jean de Meun que desclassificava aquelas que não eram suficientemente nobres, ricas ou belas, para serem qualificadas como heroínas do amor palaciano. É durante esse período que surgem os demônios, súcubus e íncubus que, segundo Hinemar, bispo de Reims, atormentavam e tentavam homens e mulheres. Assinalam ser o demônio que aparecia para tentar as mulheres, ao tomar aparência do homem que ela amava, como o caso de uma freira atormentada pelas visitas de um íncubo até o exorcismo. Bernard de Chivaux diz que lidou com um caso de uma mulher que fora visitada todas as noites, durante seis anos, por um demônio que extraía dela o seu prazer, sem ao menos despertar-lhe o marido. Ocorre, porém, que o costume das damas em terem amantes foi transformado de um devaneio literário para uma visão noturna, clássica fantasia feminina da visita de homens, propagando que os demônios estavam em ação, como a súcubo visitava um homem e recebia sua semente; então transformado em íncubo visitaria uma mulher para transmitir-lhe aquela semente. Foi por essa razão que surgiu o Malleus Maleficarum, em 1486, o primeiro grande manual dos inquisidores de feitiçaria, para reprimir os desejos femininos e seus envolvimentos os demônios. Ocorre, por fim, no século XIV, que Eva finalmente cedeu lugar a Maria, com seu culto entre os franciscanos dos séculos XIV e XV, tornando-se uma cálida e compassiva mãe dos pobres e infelizes da terra. A crescente popularidade de Maria deveu-se muito aos trovadores, aos cistercienses e franciscanos, aos nobres, mercadores e burgueses, passando a ser ela a terna, amorosa e bondosa. Ao mesmo tempo, surgem os livros de cortesia, os quais passam a ser adotados pelas mulheres burguesas para aperfeiçoamento, como também os cintos de castidade que era usado para proteção contra estupro e para coibir a libertinagem da mulher. Como visto, na Idade Média o processo de desvalorização, sedimentado pela Primeira Mulher, se transformava com a visão da Virgem Maria como um meio de renovação, continuando, mesmo assim, a serem as mulheres consideradas pelo clero como criaturas débeis e suscetíveis às tentações do diabo, logo, deveriam estar sempre sob a tutela masculina. (Luiz Alberto Machado).

Veja mais:
 
PICADINHO
 Imagem: Prostitute, do pintor do Expressionismo e Fauvismo francês, Georges Rouault (1871-1958).


Curtindo o álbum Flutes Sonatas (Flötensonaten nº 272-277 – Naxos, 2006), com obras do compositor alemão Johann Joachim Quantz (1697-1773), com a flautista Verena Fischer, o cello de Klaus-Dieter Brandt e o cembalo de Leon Berben.

EPÍGRAFEQuem olha para uma montanha distante não repara na beleza de um dente-de-leão que está bem na sua frente. E quem se aproxima para olhar o dente-de-leão não vê como é bela a montanha ao longe. Para nós, as vozes das pessoas são mais ou menos assim, frase extraída do livro O que me faz pular (Intrínseca, 2014), do premiado jovem escritor autista japonês Naoki Higashida. Veja mais aqui.

A MULHER, O PATRIARCADO E A ESCRAVIDÃO – No livro Mulheres: o gênero nos une, a classe nos divide (Sunderman, 2008), de Cecília Toledo, encontro que no processo de origem do patriarcado, a esposa passou a ser uma propriedade do marido, como os outros bens, confirmadas por descobertas antropológicas que permitiram afirmar que a mulher não nasceu oprimida, mas passou a sê-lo devido a inúmeros fatores, dentre os quais, os decisivos foram as relações econômicas, que depois determinaram toda a superestrutura ideológica de sustentação dessa opressão: as crenças, os valores, os costumes, a cultura em geral. Nesse sentido, autora assinala que [...] a opressão da mulher está vinculada à existência da propriedade privada dos meios de produção, e apenas poderá ser superada com uma mudança total na infraestrutura das sociedades assentadas neste tipo de relação. Tal fato sinaliza diretamente um regime escravocrata que submetia à mulher aos mandos do homem. Pensamento similar é encontrado no livro Ser humana: quando a mulher está em discussão (DP&A, 2002), de Marcia Moraes, ao observar que no período da escravidão [...] desde os tempos mais remotos, exercitava o extremo sexismo necessário às praticas patriarcais, e essa foi a forma pela qual nasceu a diferenciação das classes sociais [...] As mulheres eram escravizadas não apenas pela força do trabalho, mas também pelos serviços sexuais prestados aos seus donos e pela reprodução”. Tal fato define que a exploração de mulheres de classes sociais baixas pelos homens de classe alta pode ser facilmente observada em toda história humana, incluindo o feudalismo e os tempos atuais. Veja mais aqui e aqui.

A CIDADE DE ULISSES – No livro Cidade de Ulisses (Sextante, 2011), da escritora portuguesa Teolinda Gersão, destaco os trechos: [...] Expor-se é também esconder-se. E também no disfarce os criadores são mestres [...]. Ao longo dos séculos também nós vivemos essa história de mulheres esperando, sozinhas, de filhos crescendo sem pai. Foi assim nas cruzadas, nos Descobrimentos, na guerra colonial, na emigração, até ao século XX. [...] Penelópe cansa de esperar por Ulisses e cede aos pretendentes, sobretudo a um deles, Anfínomo. Ulisses regressa e mata-a, ao saber dos seus amores com Anfínomo; [...] Penélope cansa-se de esperar por Ulisses e deita-se com os cento e vinte e nove pretendentes. Desses amores nasce o grande deus Pã; Mas não existia nenhuma versão em que Penélope escolhesse um dos pretendentes, que se tornaria rei de Ítaca, e ela rainha a seu lado. E em nenhuma versão se tornava ela própria rainha de Ítaca, no lugar de Ulisses, dissemos. No entanto seria provavelmente assim que hoje contaríamos a história. Veja mais aqui.

POEMEL & MULHERA poeta e professora Maisa Vibancos, que também se assina Maísa Pupila, já foi selecionada e publicada no Painel Brasileiro de Novos Talentos, da Câmara Brasileira de Jovens Escritoas, foi moderadora do Fórum do Guia de Poesia do Projeto SobreSites – RJ e edita o excelente blog Olhares poéticos... não poesias – Maísa Pupila. Dela destaco inicialmente o Poemel: Mistura/ sem culpas / servido em versos, / adoçam o tempo / e vem tictacteando; / o mel cai e inspira / sinestesicamente... / o poema transpira / - grudam-se os sabores: / Poemel nascente. E também o seu poema Mulher: Mulher / sinfonia constante - / em silêncio / ou no último volume, / música eterna / de todas as idades, / calma ou estressada / sempre mulher; / companheira, mãe, namorada, / amiga, avó, serena ou descontrolada - /afaga qualquer momento, / acaba com qualquer solidão. / Mulher / Sempre Grande, / Intensa e Única, / é como a natureza, / não desperdiça nada / recicla valores, / e em suas raízes eterniza / o milagre do amor. Veja mais aqui.

MLLE DUMESNILMarie Dumesnil, pseudônimo de Marie-Françoise Marchand (1713-1803), foi uma grande atriz francesa que estreou na Comédie Française, como Clitemnestra, em Iphigénie em Aulide, de Racine. Foi uma das principais intérpretes de Voltaire, de quem fez Mérope (1743), seu maior sucesso. Garrick apreciou com entusiasmo seu talento dramático, fruto mais de instinto e sensibilidade que de estudo. Em 1800, depois de abandonar o teatro, ela publica suas memórias escritas que contem importantes informações sobre declamação. Veja mais aqui.

BLUE GARDÊNIA – O filme Blue Gardênia (A Gardênia Azul, 1953), do cineasta austríaco Fritz Lang (1890-1976), é baseado na história homônima de Vera Caspary, contando a historia de um assassinato sensacional que representa uma imagem da vida norte-americana, quando uma garota ingênua torna-se suspeita desse crime, em mais uma análise das origens do mal. O destaque é para premiada atriz estadunidense Anne Baxter (1923-1985). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Sonhando (1985), do artista plástico Siron Franco.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora e contadora de história Benita Prieto. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Veja aqui.

Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Mahatma Gandhi, Educação, Michelangelo Antonioni, Vanessa Redgrave, Genesis & Phil Collins, Carlos Zéfiro, Jennifer R. Hale, Maria Luísa Mendonça & muito mais aqui.



domingo, maio 17, 2015

WHITMAN, LISPECTOR, BENJAMIN, ENYA, IONESCO, SIRON & PSICOLOGIA NA EDUCAÇÃO.



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – A Psicologia contribui de forma indubitável para que a Educação e a Escola cumpram seu papel e, por consequência, possam se encaminhar para um atendimento com qualidade das suas demandas. É reconhecida a importância da Psicologia no contexto escolar, entretanto, na realidade isso é desconhecido ou propositalmente ignorado, principalmente na Escola Pública alagoana, que prescinde da participação de psicólogos no seu quadro multiprofissional de servidores. Em uma pesquisa recentemente realizada foi constatada a existência de apenas dois profissionais psicólogos na escola pública federal maceioense – que é um número precário considerando-se o número de professores, alunos e servidores da instituição em referência -, inexistindo por completo sua participação no quadro funcional das escolas públicas estaduais e municipais de Maceió. Quer dizer, em Alagoas, como de resto todo Brasil, o Estado não faz a sua parte. E o pior: descumprindo mandamento constitucional de que a Educação é dever do Estado e da família. Se os municípios e o estado alagoano não fazem a sua parte, o prejuízo é da população e, com isso, tem-se a constatação da tragédia que é a escola pública brasileira. Ora, ora, vamos aprumar a conversa! E aprume aqui. LEMBRETE: Ah, quse ia me esquecendo: hoje é dia de programa Brincarte do Nitolino para as crianças de todas as idades, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação simpática de Isis Corrêa Naves. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

Imagem: Pecado original, do artista plástico do Modernismo brasileiro Siron Franco.

Curtindo Only Time Collection (2002), da cantora, instrumentista e compositora irlandesa Enya.


ENSAIOS DAS OBRAS ESCOLHIDAS – A coleção Obras escolhidas (Brasiliense), traz o primeiro volume Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura (1985), com textos sobre história, surrealismo, Marcel Proust e Franz Kafka; o segundo volume A rua de mão única (1987), com as figuras do pensamento e a infância em Berlim; e o terceiro volume Os paradigmas revolucionários (2004), reunindo o pensamento do filósofo, sociólogo, ensaísta, critico literário e tradutor alemão Walter Benjamin (1892-1940), contendo ensaios como A obra de arte na era de sua reprodutividade técnica, O narrador, Sobre o conceito da história, Pequena história da Fotografia, Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo, entre outros. Entre as obras destaco o trecho: [...] Confiante no infinito do tempo, certa concepção da história discerne apenas o ritmo mais ou menos rápido, segundo o qual homens e épocas avançam no caminho do progresso. Donde o caráter incoerente, impreciso, sem rigor, da exigência dirigida ao presente. Aqui, ao contrário, como sempre têm feito os pensadores, apresentando imagens utópicas, vamos considerar a história à luz de uma situação determinada que a resume em um ponto focal. Os elementos da situação final não se apresentam como tendência progressista informe, mas, a título de criações e idéias em enorme perigo, altamente desacreditadas e ridicularizadas, incorporam-se de maneira profunda a qualquer presente [...] Essa situação [...] só é apreensível na sua estrutura metafísica, como o reino messiânico ou a ideia revolucionária, no sentido de 89 [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.


FELICIDADE CLANDESTINA – O livro Felicidade clandestina e outros contos (Rocco, 1998), da premiada escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977), reúne vinte e cinco contos, crônicas e outros textos que versam sobre infância, adolescência, amor, família e questões da alma e que foram escritos nas mais diversas fases da vida da autora, alguns deles publicados no Jornal do Brasil no período de 1967-1972. Na obra destaco o trecho da narrativa homônima: Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! Veja mais aqui e aqui.


FOLHAS DE RELVA – O livro Folhas de Relva (Harbra, 2011), do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892), publicado primeiramente em 1855, reunindo apenas dose poemas, tendo sucessivas reedições até a sua edição de leito de morte em 1891-1892, com mais de quatrocentos poemas, sendo, pois, considerado pelo autor que cada edição era um livro próprio e distinto com alteração do conteúdo e da forma. Da obra destaco Saudação de Natal (aos brasileiros): Bem-vindo irmão brasileiro! – teu vasto destino está dado. A ti, a nossa mão amiga — um sorriso vindo do Norte —, uma saudação cheia de sol! (Que venha o futuro, com suas dificuldades e seu próprio fardo. É nossa, é nossa a dor do nascimento, a busca da democracia, a aprovação, a fé). A ti estendemos hoje nosso braço, voltamos nosso pensamento — a ti, nosso esperançoso olhar. Tu te juntaste aos livres! Tu passaste a ter brilho próprio! Tu aprendeste direito a verdadeira lição de uma nação que brilha no céu. (Mais brilhante do que a Cruz, mais brilhante do que a Coroa). O apogeu da suprema humanidade. Veja mais aqui e aqui.

A CANTORA CARECA – A comédia em um único ato A cantora careca (1950), do patafísico e dramaturgo romeno, Eugène Ionesco (1909-1994), é o primeiro texto teatral do autor e a primeira das obras da corrente estética denominada Teatro do Absurdo, que surgiu após a II Guerre Mundial, com a condição irônica de uma anticomédia que se caracteriza pelo estilo surrealista verbal, marcado por clichês e futilidades. Da obra destaco a cena IX: [...] CENA IX [Mary entra.] MARY: Senhora... Senhor... SRA. SMITH: O que você quer? SR. SMITH: O que a traz aqui até nós? MARY: Espero que a senhora e senhor me desculpem...  E também as senhoras e os senhores... Eu gostaria... Eu gostaria... De contar-lhes uma anedota. SRA. MARTIN: O que ela está dizendo? SR. MARTIN: Eu acredito que a empregada, nossa amiga, está ficando louca... Ela também quer nos contar uma anedota. CAPITÃO: Quem ela pensa que é? [Ele olha pra ela.] Oh! SRA. SMITH: Por que você está se intrometendo? SR. SMITH: Isto é realmente desnecessário, Mary... CAPITÃO: Ah! Mas é ela! Não é possível! SR. SMITH: E você? MARY: Não é possível! Aqui? SRA. SMITH: O que significa tudo isso? SR. SMITH: Você conhece se conhecem? CAPITÃO: E como! [Mary joga-se sobre o colo Capitão.] MARY: Estou tão contente de vê-lo novamente... Finalmente! SR. E SRA. SMITH: Ah! SR. SMITH: Isso é demais, aqui, em nossa casa, no subúrbio de Londres. SRA. SMITH: Não é apropriado!... CAPITÃO: Foi ela quem apagou meus primeiros focos. MARY: Sou seu pequeno jato d’água. SR. MARTIN: Se esse é o caso... Caros amigos... São sentimentos compreensíveis, humanos, honrados... SRA. MARTIN: Todo humano é honrado. SRA. SMITH: Mesmo assim, não gosto de vê-la... aqui entre nós... SR. SMITH: Ela não foi educada apropriadamente... CAPITÃO: Ah, vocês têm muitos preconceitos. SRA. MARTIN: Eu acho que é uma empregada, afinal, embora não seja da minha conta, não é nada mais que uma empregada... SR. MARTIN: Se mesmo ela pode às vezes ser um bom detetive. CAPITÃO: Solte-me. MARY: Não se preocupe!... Eles não são tão perversos como parece. SR. SMITH: Hm... Hm... Vocês são muito comoventes, mas ao mesmo tempo, um pouco... Um pouco... SR. MARTIN: Sim, esta é exatamente a palavra. SR. SMITH:... Um pouco exibidos também... SR. MARTIN: É uma modéstia peculiar britânica, perdoe-me, mais uma vez, por tentar explicar meus pensamentos, não compreendido por estrangeiros, mesmo por especialistas, graças a qual, posso me expressar assim... Enfim, eu não estava dizendo isso a vocês... MARY: Eu estava contando... SR. SMITH: Você não vai contar nada... MARY: Vou sim! SRA. SMITH: Vai, minha pequena Mary, vá quieta para a cozinha e leia seus poemas em frente do espelho... SR. MARTIN: Ei, eu não sou uma empregada, e também leio poemas em frente ao espelho. SRA. MARTIN: Esta manhã, quando você olhou para você mesmo no espelho, não viu você mesmo. SR. MARTIN: Isso porque eu ainda não estava lá... MARY: Ainda sim, eu poderia recitar-lhes um pequeno poema. SRA. SMITH: Querida Mary você é terrivelmente teimosa. MARY: Então, vou recitar-lhes um poema, está bem? Intitula-se "O Fogo" em homenagem ao capitão. O Fogo Os vaga-lumes brilham na floresta. Uma pedra pegou fogo. O castelo pegou fogo. A floresta pegou fogo. Os homens pegaram fogo. As mulheres pegaram fogo. Os passarinhos pegaram fogo. Os peixinhos pegaram fogo. A água pegou fogo. O céu pegou fogo. As cinzas pegaram fogo. A fumaça pegou fogo. O fogo pegou fogo. Tudo pegou fogo. Pegou fogo, pegou fogo. [Ela continua recitando as palavras finais enquanto os Smith a retiram do palco.] [...] Veja mais aqui e aqui.


THE SCARLET LETTER – O filme estadunidense The Scarlet Letter (A Letra Escarlate, 1995), do diretor Joan Plowright, é uma adaptação livre da obra homônima do escritor Nathaniel Hawthorne (1804-1864) publicada em 1850, contando uma história ocorrida no séc. XVII, sobre uma paixão recíproca que envolve uma mulher casada e um reverendo comprometido com seus valores religiosos e que reprimem suas emoções. Com a suposta morte do marido, ela engravida do reverendo, negando a paternidade do filho e adotando a inscrição de um “A” de adúltera em suas vestes, como símbolo de sua vergonha perante a sociedade local. Destaque na película para performance da bela atriz Demi Moore. Veja mais aqui e aqui.














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A vida, a terra, o homem & a bioética, Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, A condição humana de Hannah Arendt, A cronologia pernambucana de Nelson Barbalho, Pau-Brasil de Oswald de Andrade, a poesia de Patativa de Assaré, a música de Elomar Figueira de Mello, a pintura de Fernand Khnopff, Shere Crossman & Antonio Cláudio Mass aqui.

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