quarta-feira, maio 28, 2008

KAWABATA, BAUDELAIRE, SEMYONOVA, FRANK THORNE, MARIZA LOURENÇO, NECESSIDADES HUMANAS & LITERÓTICA


 
A arte da bailarina russa Marina Semyonova (1908-2010)

LITERÓTICA: A NATA DO PRAZER – Quando enfim flagrei sua presença, jamais poderia imaginar que perderia por completo a noção de tudo. Estava completamente extasiado com a grandiosa beleza que emanava da fogueira ardente de seu corpo, de seus olhos de mar revolto, de sua boca sedutora, do seu jeito mais que divino e maravilhoso, ali, à mão-tenente. Nossa, como irradiava onímoda, pojante, escorreita, máxima potranca ao meu dispor de ginete bem-aventurado. Graças à vida, eis que ela, édule de antemão, sorria a mais linda feição fagueira. E tudo isso me levava por um redemoinho agitado que eu abdicava de qualquer salvação. Tomei pé ao possuí-la abrasada e colada ao meu corpo para que eu pudesse exalar a odora maravilha de sua manifestação, enquanto beijava seus olhos de céu, suas faces de maçã, sua boca de sedução. Nessa hora, o mundo e o tempo se perderam de mim e de nós. Eu só sentia a saudade morrer de velha e o desejo emergir indomavelmente. De tão extasiado, não pude conter a exagerada ereção que se insinuava no meu membro dilatado e saliente ao contato de suas coxas. Eu ardia de prazer e seu corpo me eletrocutava na mais das fantásticas sensações ruidosas. Beijos estalavam incólumes. E de tão alvoroçado sequer percebi que encurralado pelo seu domínio, era conduzido por um percurso jamais saboreado. Eu só sabia de estar ao seu lado. Nem de longe percebi que transcorríamos longo trajeto até chegarmos onde definitivamente nos fazíamos só para o amor. Eu estava febril, juro, loucamente febril e só ansiava amar com todo afinco de minha loucura apaixonada. Estávamos, finalmente, a sós num quarto de hotel. Ali, a penumbra permitia que pudéssemos nos fitar efígie dada, nos vasculhar, nos acercar de nós, tomar de nós a ciência de tudo que somos e que podíamos nos fartar na mais libertina das vontades. O escuro não escondia de todo a sua beleza. E eu devaneava agarrado como quem se entrega definitivamente a tudo aquilo que mais e sempre desejava. Senti o seu domínio ao arrancar-me a camisa, a demover as vestes, a me jogar com brusquidão na cama e a se deitar por cima de mim como quem está disposta a me sufocar com a maior avalanche de prazer. Tudo muito desordenado, muito intuitivo. Queríamos e queríamos tudo. Até que aos poucos desnudados com displicência, é que pude deparar sua nudez santa e cristalina. Jamais poderia prever o tamanho cósmico de sua entrega. Eu verdadeiramente estava entregue, me batizando com o seu suor delicioso, me crismando com o seu desejo demoníaco e incontrolável, me salvando com a sua sacralização pecaminosa. Não havia como nem desejaria jamais me desvencilhar de tal circunstância. Eu caía de cabeça no seu feitiço solaçoso. Daí o ritual. Senti-lhe os mamilos duros dos seios roçarem meu tronco numa dança sensual de arrepiar-me a alma. Depois seus ductos expressivos saíram passeando pelo meu ventre, onde tomei uma dose generosa de vida. Seguiu alada pelas minhas coxas de pêlos eriçados, pelas minhas pernas trêmulas e pelos meus pés esquentados pela louca roçada. Senti o toque de sua mão exímia no meu calcanhar, meus dedos, solado, tornozelo. Foi fundo na magia quando pude perceber seus lábios tocarem minhas pernas, sua língua viajando pelo meu joelho, contornando minhas coxas, alisando-me o ventre num ziguezague pra lá de extasiante. Cheguei ao zênite quando sua mão tocou leve o meu macho cajado iluminado e o fez mais voraz e rijo com a carícia táctil de sua condução, enlevando-me iniciado na sua maestria. Atravessei sua mística cerimônia, quando fez esfregar minha dura turturina mais que tomada de tesão, pelo seu rosto, por seus lábios, por sua pele sedosa. Embeveci quando fez uns carinhos cervicais, espremendo majestosamente meu louco membro desajuizado no pescoço, lado a lado, até deixá-lo em riste ao queixo e beijá-lo com um beijo terno e mágico. Como sucumbi a esses beijos. Fui ao Nirvana e pude contemplar a maior beleza da vida quando chegou a lamber meu dardo túmido com o veludo de sua língua abissal. Agitei-me com sua libação como se chupasse bíbula o real manjar dos deuses. Ah! E como a vida me pareceu ringente e eu mergulhando na catarse oriforme do gozo pleno. Aí, soltei as amarras, capitoso, deixei-me levar pela sua abalizada sucção e ejaculei o meu elixir para cajila de nossa esfomeada carência. Ah, quanta maravilha sedenta onde sou sua caça em particular temporada. Levou-me aos extremos até a última gota da minha satisfação plena. Não satisfeita, ainda, saiu-me lambendo como cadela no cio, até alcançar-me os lábios e nos beijarmos até a ressurreição dos nossos mais infinitos prazeres. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIA - A irregularidade é a parte principal da beleza. O belo estético é o inesperado, e a espera do ritmo é algo vago. Pensamento do escritor, tradutor, crítico de arte e poeta francês, Charles Baudelaire (1821 - 1867). Veja mais aqui e aqui.

NECESSIDADES HUMANAS – [...] As necessidades de existência incluem todas as necessidades psicológicas e materiais, por exemplo, fome e sede assim como outras necessidades materiais como pagamento de salário relacionado ao trabalho e a segurança física. As necessidades de relacionamento dizem respeito ao desejo que as pessoas têm de ter relacionamentos com outras pessoas e que estes relacionamentos se caracterizem por um compartilhamento mútuo de ideias e sentimentos. As necessidades de crescimento incluem o desejo de ter uma influência criativa e produtiva sobre si mesmo e sobre o ambiente em que vive. A satisfação da necessidade de crescimento ocorre quando uma pessoa engaja em problemas para os quais necessita utilizar plenamente suas capacidades e desenvolver novas capacidades. [...] Trecho extraído da obra Three studies of measures of need satisfaction in organizations (Administrative Science Quarterly, 1973), de C. P. Alderfer & B, Schneider, sobre as ideias de do médico e psicólogo estadunidense Abraham Maslow (1908-1970). Veja mais aqui.

A DANÇARINA DE IZU – [...] Em meio à escuridão, enquanto me aquecia com o calor do corpo do estudante a meu lado, meus olhos converteram-se em dois pequenos oceanos cercados por todos os lados pela minha face. Minha mente parecia estar se transformando em fonte de água pura que, como a vida, se derramava gota a gota. Por fim, sobrou o doce sentimento de nada mais restar. [...]. Trecho extraído da obra A dançarina de Izu (Cultrix, 1962), do escritor japonês prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972). Veja mais aqui e aqui.


A arte de escritor e quadrinista estadunidense Frank Thorne.


MUSA DA SEMANA: Mariza Lourenço é uma linda escritora, advogada criminalista e consultora conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Valinhos-SP, onde vive. É feminista e mãe. E acredita que, um dia, ainda escreverá um poema decente. Integra a Antologia Saciedade dos poetas vivos, vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino. É uma das editoras da Germina - Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Ela hoje é a musa da semana do Tataritaritatá!! Veja abaixo a arte literária de Mariza Lourenço.



LÁ VEM A NOIVA
(porque a gente pensa que sabe tudo)

— Menina! Não seja teimosa. Pare de comer em panela, senão chove no dia do casamento.
Tia Firmina era mesmo assim, planejadora de casamentos e fazedora de enxovais. Quando comecei a namorar Roberto, mocinha ainda, a primeira providência de minha tia foi comprar tecido para o vestido de noiva. Ri muito. Lamentei tanto depois.
Meu grande dia havia chegado regado à tempestade, raios e trovões. Do lado de fora da Capela as crianças gritavam pra fazer pirraça:
— Sol e chuva casamento de viúva. Chuva e Sol casamento de espanhol.
Na porta, após estapear um dos moleques, tia Firmina olhou-me zangada, como se aquele fosse um mau presságio e eu, a responsável. Mas como? Eu havia feito tudo direitinho. Deixara de comer em panela. Virara a imagem de Santo Antônio de cabeça pra baixo e, por Deus! Ainda era virgem!
Não fiz caso e comecei a percorrer a Nave — toda orgulhosa — procurando meu noivo no altar. E foi aí que me deparei com os olhos mais negros de que já havia tido notícia. Eram olhos de lobo arrancando-me toda a roupa, intumescendo meus seios de menina, deixando meus pêlos à deriva dos maus pensamentos.
— Lá vem a noiva, toda de branco e debaixo da saia um tesão...
Não conseguia. Não me lembrava mais da brincadeira das primas.
Que vontade de correr daqueles olhos, daquela boca.
Que vontade de dar-me inteira, de desmaiar dentro daqueles braços e nunca mais ser eu mesma. Aqueles não eram os olhos azuis de Roberto, sempre tão bondosos e previsíveis. Eram negros, de fome declarada, passado nebuloso, futuro incerto, viagem sem volta. Olhos de aventura, de mar aberto, onde eu poderia navegar sem meus recatos de moça séria, onde a minha nudez seria selvagemente comemorada como o mais febril dos presentes.
Qual o quê! Outros olhos aguardavam-me ansiosos. Pra toda vida. Eram azuis.
Esqueci-me das brincadeiras, dos sonhos recém-adquiridos e tão cedo abortados. Escolhi o caminho sem riscos, o porto seguro que me aguardava sorridente ao lado do Padre.
Os olhos, aqueles negros, continuaram seu louco e despudorado passeio através do meu corpo virgem, enquanto eu, pobre de mim, uivava, sem saber que aquela queimação entre as pernas seria, para o resto da vida, a mais fiel das companhias.

NOITE VADIA

Me leve para dançar esta noite,
em uma dessas casas noturnas,
e lá, ao me agarrar, indecente,
sorria atrevido a quem me cobice com fome.
Pague-me então uma bebida gelada,
finja calor, desabotoe a camisa
e peça ao garçom que coloque outra música.
Depois, afague-me as coxas, paquere com todas.
Trate-me assim, como se não se importasse;
confunda meu nome, me chame de Lúcia.
Deixe que eu ensaie um começo de briga,
gargalhe - insolente - e me sirva outra cuba.
E quando não mais agüentar de vontade,
peça a conta e, ao ouvido, me fale bobagens.
Sorrateiro, arraste-me para um canto escuro,
e sem aviso ou cuidados me erga o vestido.
E nessa hora perca de vez a cabeça,
me prometa o céu, diga que sou sua fêmea,
que no mundo não existe mulher mais gostosa.
Me lamba, brinque com meu delta, me beije,
e ao sentir que de mim nada restou,
a não ser um grito saciado de gozo,
diga que é tarde, que precisa ir embora.
E não ligue para a minha cara de espanto,
deixe de lembrança seu lenço, um nome,
e a jura de que um dia qualquer você volta.

DIÁRIO DAS HORAS
I
bateram duas vezes à porta e minha disposição em abri-la é tão miúda quanto a certeza de que sobreviverei a mais um processo de desconstrução. não quero coadjuvantes. minha dor é egoísta. solitária. aguda.
e de dor eu entendo como ninguém.
II
sou mulher de prantos.
choro por tudo e nada. e o nada tem sido bem mais que tudo. choro manso pra despistar os demônios. choro baixo pra enganar meus fantasmas. ninguém desconfia de nada. e o mundo segue - presumivelmente - feliz.
sem mim.
III
sinto faltas essenciais: de algum amor, de alguma paixão, de algum sexo. e de tempestades. o que antes era profuso agora é reto. e esta linearidade me apavora. não estou preparada para viver em calma perpétua. quase morta.
ainda não.
IV
passei metade da vida levantando bandeiras e tentando compreender meus abismos. passei a vida inteira carpindo a dor alheia e perdendo meus sonhos em qualquer lugar.
logo eu, que nunca soube advogar em causa própria, apostei todas as fichas no mesmo jogo.
e perdi.
V
confesso que fui muitas sem ser nenhuma. confesso que me apaixonei demais e amei de menos. confesso que não me lembro de alguns cheiros. de algumas carícias. e do meu primeiro beijo.
se, hoje, vomito lembranças é pra justificar esta minha condição de puta.
de um homem só.
VI
entre meus dedos, o terço - presença física de minhas crenças - queima. ando esquecida dos mandamentos. e já não sei onde foi parar meu último pecado. aquele do qual nunca me arrependi.
a imagem da Virgem me enxerga, entende e consola.
ah!, Senhora, estou nua. tem piedade de mim.
VII
foi por minha conta e calculado risco que me meti em claustro (mais uma vez) e calei a boca (mais uma vez).
batem novamente à porta. (estou assustada). do lado de lá esperam pela mulher de sempre. pelo riso fácil. pela boca pródiga em contar histórias.
do lado de lá esperam por respostas que não tenho.
nem pra mim.



POEMA ORDINÁRIO

Os dias são suportáveis,
mas as noites, meu senhor,
é que são elas:
sozinha nesta cama,
coração se faz de morto,
o corpo gela.
E qualquer coisa
além desta infeliz constatação,
se não dá letra de samba,
meu senhor,
que dirá um poema.


APELO

Faça em mim um carinho
que me acorrente à vida
sem me prender, em demasia,
a alma:
quero-a livre
para pousar em qualquer canto
desde que seja
en'canto e calma.



EXAUSTA

Calem
Calem o tempo
Despenquem do céu
Todas as estrelas
Encharquem-me a pele
Todas as línguas
Engolidos sejam
Meus espantos
Violados
Meus sonhos mais insanos
Abracem-me todas as ondas
Cavalguem-me, sem dor, as marés
E que, sob a minha vulva,
Mostre-me o mar
Toda a sua fúria.
Silenciem
Silenciem as horas
Deixem que desabe
Em qualquer colo
O despudor vermelho
Do meu corpo
Deixem
Que eu verta todo o sangue
Chore todas as lágrimas
Ria, trema e goze
Deixem-me
Porque hoje estou faminta
e
Exausta



VOCÊ VINHA

Você vinha e toda vez era a mesma coisa eu tremia feito vara verde daquelas de marmelo que mãe costumava pelar pra dar castigo na perna da gente e você vinha sempre assim com um jeito enrabichado de olhar me deixando com vontade de andar de roda-gigante só pra sentir gastura de tanto olhar as estrelas e assim você vinha cheio de música decorada da rádio só pra impressionar meu ouvido de moça acostumada com canto de igreja e era assim que sempre sempre você vinha trazendo sonho da padaria da esquina só pra me ver lamber os dedos e o creme que deixava escorrer de propósito pelo queixo e você vinha e vinha sempre fazendo barulho no portão só pra me ver abrir a porta e pulando no seu colo feito cabrita lhe dar beijo macio com gosto de doce de cidra e quando era noite de chuva então daquelas de trovoada você vinha e me arrastava para um canto escuro da varanda e sem pedir licença se enfiava entre as dobras da minha saia e era assim que você vinha e veio tantas e tantas vezes que já nem sei das contas de quantas luas me perdi nesse seu jeito de vir.



L´AMOUR

Começou a acordar com dores no peito — um certo desejo de morte — e antes que morresse de vez, sentiu ânsia de escutar canto de pássaro, de riacho desembocando no rio. Rumou para longe e foi morar numa casinha de roça. Comprou muda de flor e deixou aberta a janela para passarinho pousar.
Mas a dor retornou — sempre ela, a maldita — e nada dava cabo de tanta tristeza, nem riacho, passarinho ou flor.
— Isso é falta de amor, seu doutor. Isso é falta de amor!
Virou trapo de gente. Começou a ver anjo tirando leite das cabras. Era anjo mirrado, seis, sete anos, não mais.
Apaixonou-se e de paixão já não fazia mais nada.
Louco de dor, tomou decisão: colheu flor para coroar a cabeça do anjo.
O anjo assustado, seis, sete anos, não mais:
— Tio, assim me machuca.
Dos braços adultos não havia maneira de escapar. E com aquele delírio, só mesmo um, dois, mais de dez tiros puderam acabar.
E o amor terminou assim: sangrando no chão, sem dores no peito, sem visagens de anjos.
Como uma flor encarnada e aberta no ventre.



ESCRAVA

Teu poema, inclemente, me encarcera,
umedecendo, de gozo, os meus versos.
Espancando, com a pena, as minhas rimas,
se assanha, feito bicho, entre meus seios.
Teus dedos em tuas mãos; ágeis tentáculos,
aprisionam de vez minhas vontades,
deixando-me à mercê dos teus domínios,
amarrando-me os pulsos, como escrava.
O ar que me vem é da tua boca.
Meus gemidos quem sufoca é tua língua.
Teu verbo, desconexo aos meus ouvidos,
me faz louvar - indecente - o teu nome.
Em minha barriga, passeia impune o teu falo.
Sob teu corpo, o meu, é prazer e desgoverno.
Entre minhas coxas tu desenhas tua fúria,
em teu pescoço cravo dentes de poesia



ESCLAVE

Jurei nunca mais procurá-lo. Não, enquanto vivesse. Mas tenho vivido o suficiente para desistir de minhas juras.
de promessas e bons propósitos meu inferno está cheio.
Encontrei-o dormindo. Meu escravo. E, por Deus, não havia notado aquele jeito bonito de se espalhar pela cama. Tão vulnerável e à mercê de meu corpo posseiro.
como desejei ser apenas esquecimento. Esquecimento e perdão.
Despi-me de toda a roupa e em seu corpo rocei minha mágoa. E ele nem precisou abrir os olhos para reconhecer a saudade úmida que o tocava.
como ansiei ser somente boca. Boca e língua.
Vali-me de seu sono, admito, para cavalgar sua eterna disposição de macho. Ele sorriu. Ele gemeu. E eu o flagelei com os dentes, com a vulva. Com o verbo. Meu homem-objeto.
Sobre a pequena mesa deixei o envelope pardo. Sem nome. Lacrado. Em seu interior a quantia de sempre.
para o inferno com todas as juras. Ele me dá tudo o que quero...
O meu amado.



FIM
(pra nunca mais falar disso)

No começo era doce, feito delicada sobremesa que se saboreia com gosto e desliza garganta abaixo, aveludada e macia.
Mas a receita desandou sob as mãos pesadas de tanto mexer panelas. E os ouvidos, como os de um mercador, acostumaram-se à cantilena irritante de vincos tortos e colarinhos amassados.
Os olhos ficaram baços e os lábios perderam o brilho, esquecendo-se do primeiro beijo e dos agarramentos ao pé da escada.
E o que era doce acabou-se em travo, de fruto verde e amargo.
A casa, outrora alegre, abria-se agora aos conselhos de tia Dita, que, a pretexto de visita, só sabia contar do casamento desfeito de uma prima. E de como, na família, mulher largada tornava-se propriedade coletiva.
E o que era doce acabou-se em medo.
Todas as vontades de recomeços se perderam nos vãos ordinários das madrugadas e o que restou, foi lembrança pequena e morta, sepultada de qualquer jeito sob a lápide, muda, de um colchão de molas.
E o que era doce... acabou-se em nada...


O trabalho dela pode ser visto no seu blog Proseando com Mariza.




Ou na revista Germina Literatura.


Ou, ainda, no sítio Escritoras Suicidas.
Mas hoje é o aniversário dela. Daqui o nosso efusivo PARABENS, MARIZOCA!!!!


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MUSA DA SEMANA


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Dificuldades de aprendizagem da língua portuguesa aqui.
Itinerância, Albertus Magnus, Bruce Chatwin, Elias Canetti, Eça de Queiroz, Samantha Fox, Carlos Carrera, Nobuo Mitsunashi, Henri Rousseau & Políticas Públicas aqui.
As fases da persecução penal brasileira e o prazo razoável aqui.
Fecamepa: o descobrimento do Brasil aqui.
O direito penal do cidadão e direito penal do inimigo aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora comemorando a festa do Tataritaritatá!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


terça-feira, maio 27, 2008

ASCENSO, SLAVOJ ŽIŽEK, BACH, BURGESS, JUNICHIRO, ALAGOINHANDUBA & LITERÓTICA


 
A arte do artista japonês Junichiro Sekino (1914-1988).

O DESBRAVADOR DE ALAGOINHANDUBA – Ao abrir os olhos, viu-se aos farrapos à beira-mar. Girou as vistas, lugar desconhecido e exótico, aparentemente inóspito, mas tinha que se virar. E se virou como pode. Zanzou para lá e para cá, contornando ínvia floresta. Logo divisou nativos hostis e começou a falar, blábláblá. Contava ter sido vítima de naufrágio e enfrentou dragões e monstros mar afora para sobreviver; havia nadado não se sabe ao certo quantos dias, fora atacado por toda espécie de horror marítimo e, corajosamente, os enfrentou com destemida perícia. Quase se encantara por sereias, uma delas levou-o ao fundo do mar e, na horagá, não era sereia, era uma baleia assassina. Tudo dissera do que vira e enfrentara, rogou clemência. Os autóctones indiferentes aos seus lamentos mais se aproximavam infensos e ele lá gesticulando como um louco, explicando-se. E apelava com macaqueação: pulou num pé só, plantou bananeira, salto solto, bundacanasca. Armados de todo tipo de cotoco de pau e dentes rangendo, ameaçavam esquartejá-lo, pelo jeito. Cercaram-no. Foi aí que ele se espremeu todo, ajoelhou-se, clamou aos céus, imolou-se e não resistiu: um peido fedorentíssimo rasgou seu furico, acompanhado da maior trovoada vinda dos céus. Os primitivos se assustaram, fizeram a maior careta e avistaram algo lá no horizonte, arregalaram os olhos e danaram-se a correr. Que é que houve? Ele virou as costas e viu no céu uma nuvem negra imensa que vinha diligente aos raios e trovões. Eita, porra! Vôte! Pernas pra que te quero! Seguiu, às carreiras, os aborígenes. Os relâmpagos atacavam seus pés, ele pulando num e noutro, vixe!, livrava-se como podia do ataque insistente. Viu-se cercado por descargas elétricas, perdeu-se no caminho. E agora? Fechou os olhos, benzeu-se e entregou-se: fosse o que Deus quisesse. Ao despertar, constatou-se vivo. O temporal havia passado. Assustou-se ao se certificar de que a tribo toda estava ao seu redor: os homens ajoelhados, as mulheres alisando as mãos, todos nus. Danou-se! Levantou-se desconfiado e fez o que podia. Explicava o que lhe ocorrera, quem era e coisa e tal. Nem davam ouvidos. Percebeu que ao lado havia um enorme tacho, pensou: Vou ser comido vivo! E começou a fazer maluquices, já que ia morrer mesmo, danou-se mais em todo tipo de macacada. Os machos levantaram-se e os tambores rufaram. É agora. Um grupo de mulheres viera lambê-lo: Vão me comer vivo. Elas faziam cócegas nele e, aos peidos, se defendia. Um deles falou-lhe: Caga-raio! E disse coisas incompreensíveis. Ele respondia como podia: gestos, mugangas e borborigmos. Logo nuvens reapareceram, a tribo toda mirou o céu, medrosos se afastaram dele. Começou um ritual, o tempo nublou. Os tambores soavam alto, parece suspenderem relâmpagos e trovões; com o tempo se certificaram apenas o nublado mormaço. Não haveria tempestade, então. Levaram-no para a mata e lá deram banho de flores e matos, reza demorada. É agora. Ouviu de novo: Caga-raio! E todos repetiam, ecoava: Caga-raio! Era como o chamavam, parece. Outra conseguiu entender, algo parecido com Alagoinhanduba. O que queriam dizer, não sabia. Pelo menos, pelo jeito, não era a sua hora. Serviram-lhe comestíveis estranhos, varado de fome, fartou-se. Alguma coisa estranha ocorria dentro dele, o mundo girava. Conduziram-no para a rede, aboletou-se de dormir pesadelos infindos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui, aquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaqui & aqui.


DITOS & DESDITOSEstamos presos em uma competição doentia, uma rede absurda de comparações com os demais. Não prestamos atenção suficiente no que nos faz sentir bem porque estamos obcecados medindo se temos mais ou menos prazer do que o restante. Não precisamos de profetas, mas de líderes que nos incentivem a usar a liberdade. Um homem só é rei porque os seus súbditos se comportam perante ele como um rei. Após o fracasso, é possível seguir adiante e fracassar melhor; em vez disso, a indiferença nos afunda cada vez mais no pântano de ser estúpido. Você não pode mudar as pessoas, mas pode mudar o sistema para que as pessoas não sejam pressionadas a fazer certas coisas. Não confio nas máquinas. A tecnologia não é neutra. Não sou um ingênuo nem um utópico; eu sei que não haverá uma grande revolução. Apesar de tudo, podem ser feitas coisas úteis, como indicar os limites do sistema. Pensamento do sociólogo, filósofo e crítico social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Tive que trabalhar duramente. Quem trabalha assim duramente conseguirá chegar igualmente longe. Fui obrigado a ser esperto. Quem for igualmente esperto conseguirá… igualmente bem. O que consegui com a indústria e a prática, qualquer pessoa com talento e capacidade natural tolerável também pode alcançar. É fácil tocar qualquer instrumento musical: tudo o que você precisa fazer é tocar a tecla certa na hora certa e o instrumento tocará sozinho. A harmonia está próxima da piedade. Toco as notas como estão escritas, mas é Deus quem faz a música. A música é uma harmonia agradável para a honra de Deus e os prazeres permitidos da alma. Onde há música devocional, Deus com sua graça está sempre presente. Se eu decidir ser um idiota, serei um idiota com acorde próprio. Traga-me um pouco de café antes de eu me tornar um bode expiatório. Pensamento do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Veja mais aqui.

LARANJA MECÂNICA – [...] Alguns de nós têm que lutar. Existem grandes tradições de liberdade a defender. Não sou homem de partidos políticos. Onde vejo a infâmia, busco erradicá-la. Os partidos políticos não significam nada. A tradição da liberdade significa tudo. As pessoas comuns deixarão isso passar. Elas venderão a liberdade por uma vida mais tranquila. [...] Um homem que não pode escolher deixar de ser um homem. A tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluída e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios barbados de Deus no fim, afirmo que a tentativa de impor leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isso eu levanto minha caneta-espada. Será que eu serei apenas uma laranja mecânica? [...]. Trechos da obra Laranja Mecânica (A Clockwork Orange - Aleph, 1962), do escritor, compositor e critico britânico Anthony Burgess (1917-1993), levado para o cinema com direção de Stanley Kubrick. Veja mais aqui.


OROPA, FRANÇA E BAHIA

(Romance)

Para os 3 Manuéis:
Manuel Bandeira
Manuel de Sousa Barros
Manuel Gomes Maranhão

Num sobrado arruinado,
tristonho, mal assombrado,
que dava pros fundos da terra.
("Pra ver marujos,
Tirulilluliu!
quando vão pra guerra...")
E dava fundos pro mar.
("Pra ver marujos,
Tiruliluliu!
ao desembarcar").

...Morava Manuel Furtado
português apatacado,
com Maria de Alencar!

Maria era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços.
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar...

A vida de Manuel,
que louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda a noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de "Oropa, França e Bahia"!

— Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
— Estás idiota, Maria.
Essas naus foram vintena
que eu herdei de minha tia!
por todo o ouro do mundo
eu jamais as trocaria!

Dou-te tudo o que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra da Estrela,
perfumes de benjoim...

Nada.
A mulata só queria
que Seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a amais pichititinha,
pra ela ir ver essas terras
de "Oropa, França e Bahia"...

— Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da Quinta do Aguirre,
umas queijadas de Sintra,
só pra tu te distraíre
desse pensamento ruim...
— Seu Manuel, isso é besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!

"Ó lua que alumiais
esse mundo do meu Deus
alumia a mim também
que ando fora dos meus..."
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.

"Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são"...
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente no pilão...

Uma noite de luar
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul...
— Ah, Seu Manuel, isto chega...
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

— "Onde vais mulhé?"
— "Vou me daná no carrossé!
— "Tu não vais, mulhé,
mulhé, você não vai lá..."

Maria atirou-se n'água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
— Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido de minha tia!
Vêm dos confins do mundo...
De "Oropa, França e Bahia"!

Nadavam de mar em fora...
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia...
Fez-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia...
Seu Manuel era um "Boi Morto",
Maria, uma "Cotovia"!

E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

— Continuam mar em fora,
navegando noite e dia...
Caminham para "Pasárgada",
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

— As eternas Naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...

CARNAVAL NO RECIFE

Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister-de-sebo-quente em Pierrot!
E somente ficaram os máscaras da terra:
Parafusos, Mateus e Papanguas...
e as Bestas-Feras impertinentes,
os cabeções e as Burras-Calus...
realizando, contentes, o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo!
- Mulata danada, lá vem Quitandeira,
lá vem Quitandeira que tá de matá!
- Olha o passo do siricongado!
- Olha o passo da siriema!
- Olha o passo do jaburu!
- E a Nação-de-Cambinda-Velha!
- E a Nação-de-Cambinda-Nova!
- E a Nação-de-Leão-Coroado!
- Danou-se, mulata, que o queima é danado!
- Eu quero virá arcanfô!
Que imensa poesia nos blocos cantando:
"Todo mundo emprega
grande catatau,
pra ver se me pega
teu olho mau!"
- Viva o Bloco das Flores! - Os Batutas! - Apois-Fum!
(Como é brasileira a verve desse nome, Apois-Fum)
E o Clube do Pão Duro!
(É mesmo duro de roer o pão do pobre!)
Lá vem o homem dos três cabaços na vara!
"Quem tirar a polícia prende!"
Êh garajuba!
Carnavá, meu carnavá,
tua alegria me consome...
chegô o tempo das muié largá os home!
chegô o tempo das muié largá os home!
Chegou lá nada...
Chegou foi o tempo d'elas pegarem os homens,
porque chegou o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo!
- Pega o pirão, esmorrecido!

TREM DE ALAGOAS

O sino bate,
o condutor apita o apito,
solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar...
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Mergulham mocambos
nos mangues molhados ,
moleques mulatos,
vem vê-lo passar.
— Adeus!
— Adeus!
Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...
— Adeus, morena do cabelo cacheado!
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:
— Ali mora o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe...
No entanto avistamos
bem perto outro mar...
Danou-se! Se move,
parece uma onda...
Que nada! É um partido
já bom de cortar...
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Cana-caiana
cana-roxa
cana-fita
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...
— Adeus, morena do cabelo cacheado!
— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

FOLHA VERDE

Folha verde – meninice,
deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...
Cavalos correndo,
engenhos moendo,
Japarandubas, Trombetas, Pirangi...
Banhos no rio!
Lavandeiras!
Jangadas de bananeiras!
Pescarias de covo e de jequi...
Os sinos sonoros que falam do céu!
A feira, o mercado, bananas, cajus!
Imbaúbas macias como veludo,
Ingás mais macios do que veludo!
Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscus, “o homem dos caranguejo e dos siri”!
Lua cheia! Lua-pôr-sol! Desfazendo-se em luar...
-Manja Real!
-Saltar e pegar!
-Boca de forno!
-Forno!-
.......
Folha verde! Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti..."

A MULA DE PADRE

Um dia no engenho,
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão...
A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão...
Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho Alegria
É bom moedor...
Eh Andorinha!
Eh Moça-Branca!
Eh Beija-Flor. . .
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão...
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não...
— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço, Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã ...
E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar d'olhos
A maldita se encantou...
De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão!
....................................
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração

TRADIÇÃO

Terraço da Casa-Grande de manhãzinha, fartura espetaculosa dos coronéis:
— Ó Zé-estribeiro! Ó Zé-estribeiro!
— Inhôôr!
— Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
— 25, seu Curuné!
— E a vaca malhada?
— 27, seu Curuné!
— E a vaca Pedrês?
— 35, seu Curuné!
— Sóó? Diabo! Os meninos hoje não têm o qui mamar!

MINHA ESCOLA

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!
À sua porta eu estava sempre hesitante...
De um lado a vida... — A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
— O meu engenho de barro de fazer mel!
Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
— Quantas orações?
— Qual é o maior rio da China?
— A 2 + 2 A B = quanto?
— Que é curvilíneo, convexo?
— Menino, venha dar sua lição de retórica!
— "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
— Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
— Agora, a de francês:
— "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
— Basta
— Hoje temos sabatina...
— O argumento é a bolo!
— Qual é a distância da Terra ao Sol?
— ?!!
— Não sabe? Passe a mão à palmatória!
— Bem, amanhã quero isso de cor...
Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.

SUCESSÃO DE SÃO PEDRO

— Seu vigário!
Está aqui esta galinha gorda
que eu trouxe pro mártir São Sebastião!
— Está falando com ele!
— Está falando com ele!

GRAF ZEPPELIN

W Z! K D K A! U Z Q P!
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!
Usted me puede dar nuevas del Zeppelin?
Dove il Zeppelin?
Where is the Zeppelin?
Passou agorinha em Fernando de Noronha.
Ia fumaçando!
Chegou em Natal!
(Augusto Severo, acorda de teu sono, bichão!)
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!
Rádio, rádio, rádio!
W Z - Q P Q P – G Q A A ... = Jiquiá!
Apontou!
Parece uma baleia se movendo no mar.
Parece um navio avoando nos ares.
Credo, isso é invento do cão!
Ó coisa bonita danada!
Viva seu Zé Pelim!
Vivôôôô!
Deutschland über alles!
Atracou!

OS ENGENHOS DA MINHA TERRA

Os engenhos de minha terra
Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:
- Esperança !
- Estrela d'Alva !
- Flôr do Bosque !
- Bom-Mirar !
Um trino… um trinado… um tropel de trovoada…
e a tropa e os tropeiros trotando na estrada:
- Valo!
- Êh Andorinha !
- Ê Ventania !
- Ê...
"Meu Alazão é mesmo bom sem conta !
Quando ele aponta tudo tem temor…
A vorta é esta: nada me comove !
Trem, outomove, seja lá que for…"

"Por isso mesmo o sabiá zangou-se !

Arripiou-se foi cumer melão…
Na bananeira ela fazia: piu !
Todo mundo viu, não é mentira não…"
- Bom dia, meu branco !
- Deus guarde suasenhoria, Capitão !
......................................................................
Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:
- Esperança !
- Estrela d'Alva !
- Flôr do Bosque !
- Bom-Mirar !

GAÚCHO

Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das cochilhas!
Sai de meus pagos em louca arrancada!
— Para que?
— Pra nada!

NOTURNO

Sozinho
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?

O rio soturno,
tremendo de frio,
com os dentes batendo
nas pedras do cais,
tomado de susto
sem poder falar..
o rio tem coisas
para me dontar:

— Corrre senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!

Das casas fechadas
e mal-assombradas
com as caras tisnadas
que o incêndio queimou
pelas janelas esburacadas
eu sinto, tremendo,
que um olho de fogo
medonho me olho:

– Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!

Dos brutos guindastes
de vultos enormes
ainda maiores
nessa escuridão...
os braços de ferro,
pesados e longos,
parece quererem
suster-me no chão!

Ai! Eu tenho medo dos guindastes,
Por causa daquele bicão!

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Larga de ser vagabundo, Ascenso!

ASCENSO FERREIRA – poeta pernambucano que nasceu na cidade de Palmares no ano de 1895. Dizem que começou a atividade literária enganado, compondo sonetos, baladas e madrigais. Depois da "Semana de Arte Moderna" e sob a influência de Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira e de Mário de Andrade, tomou rumos novos e achou um caminho que o conduziria a uma situação de relevo nas letras pernambucanas e nacionais. Voltou-se para os temas regionais de sua terra que foram reunidos em seus livros "Catimbó" (1927), "Cana caiana" (1939), "Poemas 1922-1951" (1951), "Poemas 1922-1953" (1953), "Catimbó e outros poemas" (1963), "Poemas" (1981) e "Eu voltarei ao sol da primavera" (1985). Foram publicados postumamente, em 1986, "O Maracatu", "Presépios e Pastoris" e "O Bumba-Meu-Boi: Ensaios Folclóricos", em livro organizado por Roberto Benjamin. Distingue-se não pela quantidade, mas pela qualidade, atingindo não raro efeitos novos, originais, imprevistos, em matéria de humorismo e sátira. O poeta faleceu na cidade do Recife (PE), em 1965.

FONTES:
FERREIRA, Ascenso. Catimbó – Cana caiana – Xenhenhém: poemas de Ascenso Ferreira. Recife: Nordestal, 1981.
_________. Catimbó. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1988.
LUNA, Luiz. Ascenso Ferreira: menestrel do povo. Rio de Janeiro: Paralelo, 1971.
MAGALHAES JUNIOR. Antologia de Humorismo e Sátira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957.
SILVA, Jorge Fernandes da. Vidas que não morrem. Recife: Departamento de Cultura, 1982.

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LITERÓTICA
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Leitora comemorando a festa do Tataritaritatá!
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...