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quinta-feira, março 04, 2021

BERNANOS, BASSANI, IVAN ANTÔNIO, NOBUYOSHI ARAKI, KHALED HOSSEINI & LAYZA PEREIRA

 

 

TRÍPTICO DQC: O trâmite da solidão - Ao som de From My Life - String Quartet N.1 in E minor, de Bedrich Smetana. – Cada qual seu caminho, luzes acesas ou não, chuvadas ou estio, às tacanhices e reificações. Olho para céu recorrentemente, piso o chão atento às esquinas e a finitude se desenha nas estrelas inalcançadas e pelas estradas que não sei aonde vão dar. Persigo na passada a me desprender da redoma do que sou, a ponto de ser-me tão longe de sequer reconhecer-me. Ouso o impossível com a minha exiguidade, a ouvir do escritor francês Georges Bernanos (1888-1948): O acaso assemelha-se a nós. O pobre prefere um copo de vinho a um pão, porque o estômago da miséria necessita mais de ilusões que de alimento. Não me basta o que já foi percorrido, por mais andejo tudo foi muito pouco. O futuro? Ah, melhor diz Nikolai Gogol: A única coisa que vale a pena é fixar o olhar com mais atenção no presente; o futuro chegará sozinho, inesperadamente. É tolo quem pensa no futuro antes de pensar no presente. Quanto mais sublimes forem as verdades mais prudência exige o seu uso; senão, de um dia para o outro, transformam-se em lugares comuns e as pessoas nunca mais acreditam nelas. Sim, quantas mentiras que se passam por verdade, incautos ou estúpidos que se deixam levar. Retomo a caminhada e não haverá nunca camisa-de-força ou limite territorial, estou com Valery: Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade. E me recrio a cada instante enquanto voo sozinho.

 


DOIS: A cena solidária - Ao som das Afinidades Brasileiras (1985), do compositor e flautista belga Mathieu-André Reichert (1830-1880), na interpretação da concertista e flautista francesa Odette Ernest Dias e da pianista Elza Kazuko Gushikem. – Sozinho, vida aberta, mãos pelos bolsos, voo pelas calçadas. A noite é longa e deserta. De repente me deparo com alguém talvez perdido que recita um poema afetuoso a um ouvinte das ruas, assim me parece. Saúda a minha presença ali e sai por aí aos versos e cantos. Sigo seus passos pelas praças e periferias a poetar cantante. Há algo de íntimo de afinidade, como se fosse alguém que veio da caatinga e se tornou um operário da arte. No arruado da beira do rio me fala do Teatro da Solidão Solidária: método de inclusão social por meio da arte e da cultura da paz em prol da solidariedade humana, em suma: um método de mediação de conflitos e inclusão social através da arte, com a expectativa de protagonizar a interação entre empresários, pessoas em situação de rua, policiais, ex-presidiários, advogados, professores, estudantes, assistentes sociais, psicólogos, donas de casa, enfim, um conjunto plural e diversificado de pessoas. Ou como ele mesmo reitera: Fiz uma imersão nas dores e na desesperança de crianças, homens e mulheres em situação de rua numa pesquisa que durou dez anos. E passava dias embaixo das pontes e marquises, esmolando pelos albergues e recintos hospitaleiros. Ao percorrer o reino dos invisíveis nas cidades que são minhas e dele: São dezoito países da Europa, América Latina, além dos Estados Unidos, que vivencio na prática as dores e a desesperança de pessoas em estado de exclusão extrema, depois compartilho minha pesquisa com meus alunos de segmentos sociais diversificados (empresários, advogados, artistas, psicólogos, médicos, professores e estudantes) para juntos criarmos meios de amenizar as diferenças e as desigualdades entre todos nós. Dele ouvi canções de Eus... da fúria à ternura (2018) e poemas do seu Amor Revolução Silenciosa (Kalango, 2019) e doutras suas publicações poéticas mobilizando pessoas: para o socialmente mais justo e artisticamente mais pleno. E praticar o bem, sem olhar a quem. Quem era? O poeta, dramaturgo e compositor Ivan Antônio: A solidão em mim se faz tão companheira desde a minha infância, mesmo tendo ao meu redor pessoas que tanto amo e que sou amado, sinto uma “solidão do mundo,” desde cedo, inexplicavelmente ela me acompanha e percorre os mais submersos cantos da minha alma e a arte, a música tem sido ao longo da minha existência uma amiga que aponta caminhos e que tornando-se farol pra mim, me faz entender melhor esse processo de solidão. O interessante é que a mesma música que me salva da tristeza do sentir-se só, foi motivo de desespero e desesperança na minha infância (risos) por ser muito desafinado e mesmo assim amar tanto o “cantar”, o bullying era a festa dos meus amiguinhos na infância e depois na adolescência. No deserto da madrugada, era hora de voltar, me despedi e ficamos de nos cruzar em qualquer encruzilhada da vida deste mundão arrevirado e de porteira escancarada. Na volta para casa, me assustei com a aproximação de alguém desconhecido. Precavido, quase mudo de calçada. Uma mão ao meu ombro, temi pelo pior, dei de cara com o escritor italiano Giorgio Bassani (1916-2000): O medo sempre foi um mau conselheiro. Na vida, se você quer entender, realmente entender como são as coisas neste mundo, você tem que morrer pelo menos uma vez. Para quem já havia morrido duas vezes na vida, uma terceira morte seria um novo aprendizado para mim.

 


TRÊS: A Deusa da Lua - Imagens: a arte do fotógrafo japonês Nobuyoshi Araki, ao som do Konzert für Streichorchester und Zheng (2015), do compositor chinês Tan Dun, com a Frankfurt Radio Symphony Orchestra, Yuan Li & regência de Julian Kuerti. – Retomei a caminhada de volta para a casa e percebi que algo se movia no céu entre as nuvens carregadas. Estava prestes a chover e algo minimamente brilhante contornava o espaço aéreo. Era um ponto fulgente que, a cada volta, ampliava suas dimensões e ziguezagueava justamente acima do trajeto que eu percorria. Havia uma certa aproximação a cada giro, a ponto de atravessar a rua e pousar próximo na calçada na qual eu seguia. Logo foi se transformando em uma coisa parecida com uma árvore de cores vermelhas e, mais se transformando, por fim, tornou-se uma linda mulher de pele macia e vestido longo transparente com tonalidades de azul e prateado. Saudou-me e me disse ser Chang. Abraçou-me dizendo: Espero o meu amado há muito tempo, lá na Lua, sozinha. E contou-me que trouxe uma porção do elixir da eternidade que a Rainha Mãe do Monte Kunlun lhe dera para mim. Para mim? Sim, eu mesma tive que ir até ela, atravessando o Rio das Águas Afogadoras e a Montanha das Chamas Ardentes. Foi ela que me apontou e me mandou até você. Não beba toda a Poção da Imortalidade, só a metade, senão ficará condenado a subir ao céu como um imortal. Eu mesma derivei desolada para a Lua, onde passo o resto dos meus dias em meu palácio solitário, na companhia apenas do coelho de Jade. Foi a Rainha Mãe quem me indicou você: a minha salvação e não precisarei mais retornar para lá. Tome. Desconfiado, olhei pros lados e ela insistente: Tome. E mais se explicou ser a deusa guardiã da Lua e logo sentou ao meio fio, me puxou deitando minha cabeça sobre seu colo para contemplar tudo e todas as coisas. Vi-a acenar não sei para quem e riu com meu ar de interrogação: É o Coelho de Jade que está nos saudando de lá da lua, retribuí o gesto. E rimos. Acariciou meus cabelos, tateou minhas faces e me disse Ding Ling: Encontramos a felicidade lutando no meio de uma tempestade violenta, não tocando alaúde ao luar, ou recitando poesia no meio das flores. Olhou-me atentamente, alisou meus lábios e me beijou demoradamente. Depois levou-me a face aos seios e falou do escritor afegão Khaled Hosseini: De todas as dificuldades que uma pessoa tem de enfrentar, a mais sofrida é, sem dúvida, o simples ato de esperar. E seguir tocando a vida. Porque, no fundo, sabia que era tudo o que podia fazer. Viver e ter esperanças. E me beijou novamente por dias e noites sem fim. Acenou para mim de lá da Lua, jogando-me beijos e fazendo gestos de que vela por mim a todo instante. Chamei-a e veio, está aqui agora, amém. Até mais ver.

 

IANDÉ DE LAYZA PEREIRA



Iandé é um projeto desenvolvido pela fotógrafa Layza Pereira, que remete a “nós” e compartilha saberes ancestrais retratados no cotidiano e vivência da comunidade indígena Potiguara, da Paraíba. As obras da exposição foram destinadas à promoção de condições de vida para as famílias da etnia. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, março 01, 2009

TCHÉQUIA, ART&AMOR & CANTARAU

 
Art by Oleg Vakulin

TCHÉQUIA, O VOO DO BEIJO - Imagem: Kiss, arte do pintor checo Jiří Petr. – Ah, linda mulher! Olhos de céu, boca abissal, corpo de mar. O beijo dela me levou aos cumes de Krkonoše, um beijo de nobre Libuše no que sou nela de seu camponês Přemysl, entre os que falam com clareza pelas montanhas catando cogumelos ou pela cidade das cem torres. O que o amor não faz para quem aprendeu na dor. Só me restava a solidão queimando a pele, desfigurando a face, enquanto ela aliciava feito Lou Salomé, a fazer de mim entre mendigos dos dedos murchos. Eu, um artista da fome e desvalido pela geografia de sua carne caudalosa a me levar incólume pelas ruelas tortuosas com os fantasmas das belas jovens virgens e nuas sacrificadas do parque de Petřín, o humor farsesco dos charlatões e o jogo das três Marias. Agarrado nela eu nem via o fantasma de Horymír saltando as muralhas do castelo de Vyšehrad, montado no seu cavalo Šemík sobre a cidade, nem me lembrava dos meus pesadelos inquietantes de Samsa, a ver o diabo sair pelo teto da Casa de Faust na Cidade Nova, carregando não sei quem para as esculturas do Ossuário de Sedlec, em Kutná Hora, nem o lodo do horror em pleno meio dia entre apressados e belas beldades risonhas. Tinha apenas a força do desejo e nela a rápida respiração de zis ósculos, levantando a saia às minhas mãos frenéticas, era o que eu precisa para ganhar a vida por mim mesmo, desgarrado pelo bairro dos alquimistas ou pelas correntes do Elba, enquanto o vento trazia as labaredas queimando vivo Jan Hus, com o murmúrio de Tycho Brahe, o golem do rio Moldava, os fantasmas de Yakub Khadrava, os demônios de Vaclav Levy, a porta do inferno no Castelo de Houska e quase testemunhar defenestrações e a Primavera de Praga até a Revolução de Veludo, enquanto rapazes jogavam água às moças para baterem às suas pernas com uma trança de galhos de salgueiro com fitas coloridas. Além disso, ouvia de longe os sussurros desesperados de Kafka, o eco dos versos de Rilke. E ao me deparar com as cruzes brancas e a torre astronômica da Old Town Square, o braço mumificado e os berros do enterrado vivo conde Vratislav da Church of St. James the Greater, eu quase morri de medo.  Mas... Ah, o beijo dela e a minha fome, o labirinto do mundo e o paraíso do coração. Ah, esta mulher é um país. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A ARTE DE ALFONS MARIA MUCHA
Stars: The morning star (1902), do pintor, ilustrador e designer gráfico checo Alphonse Maria Mucha (1860-1939), um dos principais expoentes da Art Noveau. Veja mais:
A arte da pintora e escultora tcheca Anna Chromý aqui
A arte do pintor tcheco František Kupka (1871-1957) aqui
A arte do pintor tcheco Emil Orlik (1870-1932) aqui
A arte do pintor Karel Skala (1908-2001) aqui
&
A arte do gravador tcheco Václav Hollar (1607-1677) aqui.

A LITERATURA
Statue of Franz Kafka, do escultor David Černý.
A obra do escritor Franz Kafka (1883-1924) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A poesia de Rainer Maria Rilke (1875-1926) aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A obra do educador, cientista e escritor Comenius - Jan Amos Komenský (1592-1670) aqui, aqui e aqui.
A literatura do escritor e dramaturgo tcheco Václav Havel aqui.
A literatura do escritor tcheco Milan Kundera aqui.
A obra do escritor e jornalista húngaro Sándor Márai (1900-1989) aqui.

A FILOSOFIA DE KAREL KOSIK
A compreensão dialética da totalidade significa não só que as partes se encontram em relação de interna interação e conexão entre si e com o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interação das partes.
A obra do filósofo Karel Kosik (1926–2003) aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE MARKÉTA IRGLOVÁ
Tudo que ouço na minha cabeça é o que eu toco. Eu confio no fluxo da vida.
Curtindo os álbuns Anar (2011) e Live from San Francisco (2012), da cantora, compositora, musicista e atriz Markéta Irglová. Ela atuou e compôs a trilha sonora em parceria com Glen Hansard, no premiado drama/romance Once with Glen Hansard (Apenas uma Vez, 2007), dirigido por John Carney, que conta a história de um músico de rua que conhece uma imigrante tcheca que ganha a vida vendendo flores, também aspirante à compositora. Eles decidem trabalhar juntos e as músicas que compõem refletem o amor que cresce entre eles. A trilha sonora do filme homônimo, lançado pela Columbia Records, em 2007, traz as músicas do casal. Veja mais:
A música do compositor tcheco Leoš Janáček (1854-1928) aqui.
A música do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904) aqui e aqui
A música do compositor tcheco Bedřich Smetana (1824-1884) aqui.

O CINEMA DE VĚRA CHYTILOVÁ
Apreciando filmes da extraordinária cineasta tcheca Věra Chytilová (1929-2014): o interessantíssimo Ovoce stromu rajských jíme (Fruto do Paraíso , 1970), que foi inserido no ano de lançamento no Festival de Cannes, mostrando uma nova história de Adão e Eva, que também serve de alegoria para a invasão de Praga pelas forças soviéticas sob o Pacto de Varsóvia em agosto de 1968; a comédia dramática Sedmikrásky (1966), que marcou o cinema novo no país; o drama Necem Jinem (Algo diferente, 1963), o primeiro longa da diretora, narrando paralelamente o extenuante treinamento da rigorosa ginasta Eva Bosaka e o dia a dia de uma dona de casa tcheca ignorada pelo marido; e o incrível Vyhnání z ráje (Banidos do Paraíso, 2001), que conta a história de um cineasta, Rosta, que está dirigindo um filme chamado "Paradiso" em uma praia nudista e, desde o primeiro dia de filmagem, ele se encontra em situações de conflito com sua equipe, seu elenco e sua esposa.
&
Ectasy (1963), do cineasta, roteirista e ator tcheco Gustav Machatý (1901-1963) aqui
&
Goya´s Ghost (Sombras de Goya, 2006), do premiadíssimo cineasta, ator e roteirista tcheco Milos Forman (1932-2018) aqui.

A ESCULTURA DE DAVID ČERNÝ
A obra do escultor David Černý.

A ARTE DE JANA ANDERT
As vezes tenho medo, claro. É natural ter medo quando você sabe que pode ser morta a qualquer momento. Mas o medo também me mantém concentrada e alerta. Foi a minha primeira vez numa zona de conflito. Vi como a vida é difícil na guerra e que existem muitas histórias a serem contadas e registradas.
A arte da fotógrafa e documentarista Jana Andert.
&
A arte do fotógrafo tcheco Jan Saudek aqui e aqui




CANTARAU TATARITARITATÁ – O recital musical Cantarau Tataritaritatá – Vamos aprumar a conversa, reúne músicas e poemas que fizeram parte do show Tataritaritatá, com as músicas Nunca chore por mim (parceria gravada por Santanna, o Cantador), Aurora/Minha Voz (gravada pela cantora Sonia Mello), Cantador (gravada por Wilson Monteiro), Entrega (parceria gravada por Mazinho – Jucimar Luiz Siqueira), Sanha (gravada pelo saudoso Auri Viola), Desnorteio (gravada por Wilson Monteiro), Santa Folia (parceria gravada por Cikó Macedo), os frevos da Folia Caeté, Abusão (parceria com Gulu & Fernando Melo Filho), o cordel Tataritaritatá, entre outras. Confira os clipes aqui.




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Art by Karel Skala. Veja mais aqui e aqui.


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