Mostrando postagens com marcador Semprún. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Semprún. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, dezembro 09, 2020

CLARICE LISPECTOR, FRANCISCO NIEVA, PETRA COLLINS & LÍVIA FALCÃO


  

TRÍPTICO DQC: JANELINVENÇÃO, O SEGREDO DOS SONHOS - Ao som de Un dia de noviembre, de Leo Brouwer. – Vitalina trouxe da infância todos os medos: de papafigo a bicho-papão, da perna-cabeluda aos monstros embaixo da cama, sacis, gnomos e duendes. Isso afora a mãe: Não faça isso que o bicho vai lhe pegar! O pai: a La Ursa vai lhe levar, maluvida! Avós, parentes e aderentes: Deus vai lhe castigar sua traquina! Daí cresceu com medo de tudo: de altura, de ficar sozinha, de escuridão, de espelhos, de fechar o olho ao tomar banho, de trovões e relâmpagos, de neblinas ou sombras e réstias; de fantasmas e de carecas; de baratas e outros tantos insetos e besouros; de ventríloquos e manequins, de bonecos feios, de palhaços, de atravessar pontes, de pensar e ficar doida, de pecar e ficar mal falada, de ter sonhos ruins, de mergulhar em rio ou mar e ser devorada por um tubarão ou jacaré; de quem já morreu, das estrelas caírem do céu, da Terra despencar no abismo, de todo tipo de doença, de ser enterrada viva, de perder a virgindade e uma mania de perseguição de que seria estuprada pela ruindade de um velho estranho ou um maconheiro safado e desalmado, enfim, tinha pânico de qualquer coisa que não estivesse na sua zona de conforto. Para se precaver, tinha remédio para tudo: comprimido pra isso, cachete praquilo, drágeas praquiloutro, batesse a ansiedade ou depressão, qualquer mal-estar e já se automedicava, batendo o punho fechado três vezes na madeira e se benzendo mais de dez vezes com rezas de Pai-nosso, Creio-em-Deus-Pai e Ave-Maria. Era peculiar uma tremedeira de gasguita, mas a qualquer alerta de cuidado, ela: Ué, sou prevenida e saudável, oxente! E a parentalha, pelas costas, só nos cochichos: Coitado do Tomé! Nada, é outro esquisitão, Deus fez, o diabo ajuntou. Quem a visse dava logo por uma desequilibrada. Há quem dissesse que era uma quejuda porque a castidade encruou no quengo e deixou-la uma mal-amada sujeita a paroxismos inusitados. Dizem: Inda bem que casou, imagino e desmantelo de um casal tão temperante, avalie. Com o converseiro, dei as costas e voltei para a janela. Lá estava Clarice Lispector em riste: O que uma pessoa diz a outra? Fora 'como vai?' Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. Não tenha medo de meu silêncio... Sou uma louca mas guiada dentro de mim por uma espécie de grande sábio. Quero que tudo seja intenso, exagerado e louco. Porque só assim fico satisfeita! Dar a cara à tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim. Ah, Clarice, sempre duvidei da minha sanidade mental, principalmente agora, diante dos seus olhos.

 


TARTARUGAS, CREPÚSCULO E CORTINA – Ao som de Cantora de Yala, do álbum Junjo (2006), da contrabaixista e cantora estadunidense Esperanza Spalding. - Ela me levou para um teatro imenso. Era a minha primeira vez naquele local e muitas pessoas iam e viam, me cumprimentavam e eu a espera dela que me deixou ali de mão abanando. Virei a atenção para o ensaio de Tórtolas, crepúsculo y ... telón (Escelicer, 1972) porque o autor, o premiado dramaturgo espanhol, Francisco Nieva (1924-2016), apareceu explicando aos atores e atrizes no palco e na plateia: Sob o pretexto de manter uma quarentena, forçado pela propagação de um desconhecido vírus, uma companhia de teatro é sequestrada no próprio coliseu, onde tem que agir, sujeitá-lo - como ratos de laboratório - para experimentos cruéis, cujo objetivo é revolucionar e renovar o mundo da cena, até mesmo agindo e comportamento do público. Os incidentes que marcam esta situação são numerosas e adquirem diferentes ou seja, até terminar em uma espécie de festa, Dionisíaco e caótico, celebrando a próprio existência do teatro. Depois ele desceu do palco, cumprimentou alguns sentados na plateia e, em seguida, veio ao meu encontro e me falou: O teatro é uma vida alucinante e intensa. Não é o mundo, nem manifestação à luz do sol, nem comunicação a vozes da realidade prática. É uma cerimônia ilegal um crime voluntário e impune. É alteração e disfarce: Atores e público usam máscaras, maquiagens, eles usam fantasias diferentes... ou eles vão nus. Ninguém se conhece, todos são diferentes, todos são "os outros", todos são intérpretes do coven. O teatro é uma tentação sempre renovada, canto, choro, arrependimento, complacência e martírio. É a grande cerca orgiástica sem evasão; É o outro mundo, a outra vida o além de nossa consciência. É remédio secreto feitiçaria, alquimia do espirito, fúria jubilosa sem trégua. Fiquei admirado por ter tido contato com o seu teatro, aquela que já foi denominado tanto de furioso, como de farsa e calamidade, ou de crônica e selo. Ele me sorriu e saiu.

 


TRÊS PARA AS SEIS - Imagem: A arte da fotógrafa, modelo e artista canadense Petra Collins, ao som de Lacrimae, do compositor e alaudista britânico John Dowland (1563-1626), na interpretação do premiado musicólogo, professor, luthier e performer Christopher Morrongiello. - Ela retornou e era Nelly Sachs: Uma porta é uma faca: ela divide o mundo em duas partes. E me puxou apressada para saída do teatro, descendo a escadaria e seguindo pela descida da margem de um rio. Não é para irmos para lá? Não. E mais se aproximada das águas no íngreme declive até à beira. Que rio é este? O seu. O Una? Sim. Nunca o vi assim. E virou-se encarando-me e citando Jorge Semprún: Senti com a força do meu sangue que circulava rapidamente que minha morte não roubaria esta árvore de sua beleza irradiante, apenas roubaria o mundo de meu olhar. Olhei atrás de mim e havia sim uma árvore jamais vista. Venha, quero amar você e ser batizada neste rio secular! Seguiu saltitante por entre as pedras, e se despiu para mergulhar nas águas rasas. Vem! Ao sentir meu corpo no seu, disse-me Pierre Louÿs: Ninguém ainda afirmou que possuir o que desejamos é felicidade, ou prazer, ou bem-estar ou apenas equilíbrio. E beijou-me intensamente e me recitou Emily Dickinson: Tudo o que sabemos do amor, é que o amor é tudo que existe. E esqueci as dores do mundo. Ainda disse-me: O que você quer e o que você precisa: poesia no seu dia-a-dia. E amamos à noite alagados de prazer. Até mais ver.

 

A ARTE DE LÍVIA FALCÃO

A arte da atriz Lívia Falcão, que iniciou sua carreira no teatro e foi premiada como atriz revelação por sua atuação na peça A cantora careca, ainda adolescente, aos 17 anos de idade. Depois atuou em peças teatrais como Caetana, Mamãe Não Pode Saber, Lisbela e o Prisioneiro, e A Máquina, entre outros espetáculos. Em 1986 foi premiada com o monólogo Criadas da Glória, de João Falcão, no I Festival Nacional de Humor. Enveredou posteriormente pelo cinema atuando em vários longas-metragens e, também, pela televisão, atuando em novelas. Veja mais aqui e aqui.

 



quinta-feira, junho 07, 2018

SEMPRÚN, ADALGISA NERY, DAMÁSIO, GERALDO AZEVEDO, TOBIAS BARRETO, PAUL GAUGUIN & JOSÉ DURÁN Y DURÁN


DURÁN & AS NOITES DA CULTURA – Conheci José Durán y Durán quando ele chegou da Espanha, recepcionado pela edição inaugural do Jornal do Grêmio Cultural Castro Alves, que mantínhamos circulando entre os alunos do Colégio Diocesano dos Palmares. Fomos apresentados pela mão do então bispo de Palmares, Dom Acácio Rodrigues Alves, já me informando que seria o novo professor da minha classe, batendo o centro na nossa amizade. Como eu sempre vivia de papo com os professores nos finais de semana, o Pepe – como carinhosamente é chamado pela esposescritora Sororro Durán e os enxeridos mais achegados como eu -, me convidou para passarmos uma tarde de sábado conversando, ocasião que me presenteou com dois livros: La rebelión de las massas, de Ortega y Gasset (veja aqui) e a Antologia poética do poeta espanhol Antonio Machado (veja aqui), fato que me fez ser constante visitador de sua residência nas tardes de sábado, afinal presente desse não é pra todo dia. Foi por essa época que me falou do interesse de realizar reuniões artístico-culturais, que passaram a ser chamadas de Noites da Cultura Palmarense. Lá estávamos todos nós: Durán, Juareiz Correya, Paulo Profeta, Ângelo Meyer, os compadres Javanci Bispo & Sandra Lustosa, Jamilton Correia, Zé Ripe, Mauricinho Melo Filho, Fernandinho Melo, Ozi dos Palmares, Teles Júnior & Grucalp, Eliseu Pereira, Erivam Félix, Givanilton Mendes, Célio Carneirinho, Luis Gulu de França, Betania Pinheiro, entre outros professores, artistas e fazedores de arte. Dessas reuniões surgiram murais, exposições, recitais, melodramas, jograis, e a publicação do informativo Nova Caiana, que circulou por três edições. A primeira delas, em homenagem ao Poeta do Universo, com editorial de Durán e capa de Ângelo Meyer, a Revisão de Hermilo de Juareiz Correya, exposição de Teles Junior, poemas de Paulo Profeta & Betania Pinheiro, entre outras notícias e informações. A segunda edição foi em Homenagem ao Centenário de Emancipação de Palmares, com capa de Teles Júnior, entrevista com o poeta Raymundo Alves de Souza realizada por Givanilton Mendes, poema de Ezequias Pessoa de Siqueira, Durán, João Lins, Sandra Lustosa, Paulo Profeta, Betania Pinheiro, Valéria Lins, Javanci Bispo e Teles Júnior, entre outros registros informativos. A terceira edição traz o editorial de Durán, com destaque para biografia e poemas de Eliseu Pereira de Melo, Relato de Juareiz Correya, Lelé Corrêa por Hermínia Lúcia, Raízes de Palmares de Joaquim Nabuco, Cotidiano de Ângelo Meyer, poemas de Ezequias Pessoa de Siqueira, João Lins, Betania Pinheiro, Gerson Flávio da Silva, Antonio Araújo de Melo, e um melaço de notícias. Foram três edições mimeografadas e distribuídas em Palmares e região Mata Sul de Pernambuco, resultando nas conquistas que se sucederam após seu evento, como a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, a Revista A Região, as Edições Bagaço, grupo Terra Teatro, Associação Teatral Palmares (ATEP), IV Feira de Música, Circo Itinerante, revista em quadrinhos Aventureiros do Una, entre outros lançamentos de livros, encenações teatrais, shows musicais, exposições e eventos culturais e artísticos. A cidade ficou bem movimentada mesmo a partir de então. Os anos se passaram e ao visitar a escola do Instituto de Belas Artes Vale do Una, do poetamigo Paulo Profeta, tive uma grata surpresa: entre os alunos, Durán despontava já como promissor artista plástico, participando, inclusive, do Projeto Pintando na Praça, promovido pelo instituto mencionado. Como há mais de trinta anos não o via, ao realizar minha palestra sobre as Perspectivas Holísticas e Neurocientíficas na Contemporaneidade, no restaurante O Nordestão, em Palmares, tive a grata satisfação de abraçá-lo e, coincidentemente, comemorar o seu aniversário, regado a um bom papo, uísque pra mim e vinho pra ele. Conversamos e atualizamos as últimas novidades, quando fiquei sabendo de sua disposição em realizar uma exposição individual. Não deu outra, nem podia ser diferente, é que agora, vez em quanto, a gente se cruza e fiquei sabendo da sua exposição Em-Cantos de Palmares, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares. Fiquei bastante feliz de saber dessa sua realização. Mais ainda, por ter sido ele um dos precursores naqueles nublados anos 1970, responsável por tudo que surgiu em seguida na tumultuada década de 1980. Da minha parte, aplausos e admiração por seu talento artístico, comemorando, assim, a definitiva estreia com uma exposição individual homenageando a terra em que nasci. Salve, salve, Pepe, beijabração artistamigo! Sucesso do muito & vamos juntos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, cantor e violonista Geraldo Azevedo: Um geral do Azevedo, De outra maneira, Carnaval do Recife ao vivo, Especial, Especial Forró & Tanto querer & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIAÉ preciso pensar por nossa conta. Ninguém, mais do que eu, está sempre disposto a reformar, a abandonar mesmo, como imprestáveis, as opiniões mais queridas, quando recai sobre elas qualquer suspeita de erro. Mas, quero ver razões que me convençam. Pensamento do filósofo, escritor, crítico e jurista Tobias Barreto (1839-1889).

EMOÇÕES & CONSCIÊNCIA – [...] as emoções e os sentimentos podem provocar distúrbios nos processos de raciocínio em determinadas circunstâncias. (e sugere que) [...] certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. [...] Consciência é o termo abrangente para designar os fenômenos mentais que permitem o estranho processo que faz de você o observador ou o conhecedor das coisas observadas, o proprietário dos pensamentos formados de sua perspectiva, o agente em potencial. [...] Podemos educar as nossas emoções, mas não suprimi -las completamente, e os sentimentos interiores que vamos tendo são as melhores testemunhas do nosso insucesso. [...]. Trechos extraídos da obra O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano (Fórum da Ciência, 2000), do médico neurologista e neurocientista português Antonio Damásio. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SOBREVIVER - [...] Não modificou sua postura na cadeira dura e ereta. Era apenas em sua voz que se desvelavam as emoções demasiado fortes, como lâminas do fundo que viriam remexer a superfície de uma água aparentemente calma. O medo de que não se acredite nele, sem dúvida. Até de não ser ouvido. Mas era completamente crível. Nós o ouvíamos com atenção, este sobrevivente do Sonderkommando de Auschwitz [...] Ele falou demoradamente, nós o ouvimos em silêncio, paralisados no horror pálido de sua narração. Não havia, nunca haverá sobrevivente de câmara de gás nazista. Ninguém poderá dizer algum dia: eu estava lá. Estivemos em volta, ou na frente, ou de lado, como os homens do Sonderkommando. Por isso, a angústia de não ser confiável, pois ninguém de nós esteve lá, já que, justamente, sobrevivemos. [...]. Trechos extraídos A escrita ou a vida (Companhia das Letras, 1995), do escritor espanhol Jorge Semprún (1923-2011), reunindo as memórias sobre os anos que passou no campo de concentração de Buchenwald, durante a Segunda Guerra Mundial.

EU TE AMO - Eu te amo / Antes e depois de todos os acontecimentos / Na profunda imensidade do vazio / E a cada lágrima dos meus pensamentos. / Eu te amo / Em todos os ventos que cantam, / Em todas as sombras que choram, / Na extensão infinita do tempo / Até a região onde os silêncios moram. / Eu te amo / Em todas as transformações da vida, / Em todos os caminhos do medo, / Na angústia da vontade perdida / E na dor que se veste em segredo. / Eu te amo / Em tudo que estás presente, / No olhar dos astros que te alcançam / Em tudo que ainda estás ausente. / Eu te amo / Desde a criação das águas, / desde a ideia do fogo / E antes do primeiro riso e da primeira mágoa. / Eu te amo perdidamente / Desde a grande nebulosa / Até depois que o universo cair sobre mim / Suavemente. Poema extraído da obra Mundos oscilantes – poesia reunida (José Olympio, 1962), da poeta e jornalista do Modernismo brasileiro, Adalgisa Nery (1905-1980). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor francês Paul Gauguin (1848-1903). 
Veja mais aquiaqui e aqui.


Somos + 20 Autores Pernambucanos – Série Homenagens Vol. II & muito mais na Agenda aqui.
&
Liberdade de Imprensa aqui
&
Brasil a sério, não ria: a vida na bolsa & o mercado salvador, Vida para o consumo de Zygmunt Bauman & a escultura de Hiram Power aqui.


sexta-feira, outubro 09, 2009

SEMPRÚN, FOUCAULT, LEYLA PERRONE-MOISÉS, SAMUEL AMSLER, AUTISMO & EDUCAÇÃO INCLUSIVA, TATARITARITATÁ NA DIFUSORA.

 
A arte do gravurista suíço Samuel Amsler (1791-1849).

DITOS & DESDITOSEis-me aqui debruçada sobre o passado de alguém que não tem mais presente nem futuro. A compulsão ao “balanço” é inevitável e, ao mesmo tempo, antipática, por ser fácil a prepotência dos vivos sobre os mortos. Pensamento da escritora, professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés.

HOMENS INFAMES – [...] que não tenham sido dotadas de nenhuma das grandezas como tal estabelecidas e reconhecidas – as do nascimento, da fortuna, da santidade, do heroísmo ou do génio; que pertencessem àqueles milhões de existên cias que estão destinadas a não deixar rasto; que nas suas infelicidades, nas suas paixões, naqueles amores e naqueles ódios, houvesse algo de cinzento e de ordinário aos olhos daquilo que habitualmente temos por digno de ser relatado; e, contudo, tenham sido atra ves sa dos por um certo ardor, que tenham sido animados por uma violência, uma energia, um excesso na malvadez, na vilania, na baixeza, na obstinação ou no infortúnio [...] uma espécie de medonha e lamentável grandeza [...] Aquilo que as arran ca à noite em que elas poderiam, e talvez devessem sempre, ter ficado, é o encontro com o poder [...]. Trecho extraído da obra O que é um autor? (Les Cahiers du Chemin, 1992), do filósofo, historiador, filólogo, teórico social e crítico literário francês Michel Foucault (1926-1984). Veja mais aqui e aqui.

UM BELO DOMINGO ― [...] Estava tudo silencioso como hoje. Mas não era uma madrugada de junho, era uma tarde de outubro, em 1934. Portanto, não foi o silêncio da madrugada que me fez escutar o murmúrio das fontes. Foi um silêncio mais pesado. Um silêncio de morte, como se diz. E pelo menos dessa vez era verdade. Um silêncio, outrora, depois do estrépito das armas automáticas. Um cadáver fora deixado na praça. Um homem com um macacão azul de trabalho, abatido pelas rajadas da Guarda Civil. Uma de suas alpargatas rolou para longe, quando ele caiu [...]. Trecho extraído da obra Um belo domingo (Nova Fronteira, 1982), do escritor espanhol Jorge Semprún (1923-2011). Veja mais aqui.

 A arte do gravurista suíço Samuel Amsler (1791-1849).


AUTISMO & EDUCAÇÃO INCLUSIVA - O autismo é visto como um transtorno do desenvolvimento causado por uma disfunção neurológica de base orgânica, que acomete o ser humano e incluindo entre os portadores de necessidades especiais – PNE. Neste sentido, vê-se a necessidade de adoção de ações voltadas para a educação inclusiva, na qual proporcione à escola atender a todos indistintamente. Pretende, portanto, abordar a questão do autismo sob a ótica da educação inclusiva, atendendo a necessidade de que a educação deve promover a formação humana, sua preparação para a vida e para o trabalho, bem como propiciar a todos a dignidade humana e o exercício de cidadania.
AUTISMO - O autismo é conceituado, conforme Goldstein (2009, p. 9), como um transtorno caracterizado pelos “[...] aspectos da dificuldade na interação social, na comunicação e comportamentos  e interesses restritos e/ou repetitivos”. Segundo a autora mencionada, é classificado pela Organização Mundial da Saúde como uma síndrome presente desde o nascimento, e se manifesta antes dos trinta meses de idade e está associada a diversas síndromes, com sintomas que variam, tornando-se um transtorno que se manifesta de diferentes formas. Ou seja, identificado desordem abrangente do desenvolvimento, definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometimento que se manifesta antes da idade de três anos e pelo tipo de funcionamento caracterizado por déficits qualitativos na interação social recíproca e nos padrões de comunicação e por repertórios de atividades e interesses restritos, repetitivos e estereotipados. Para Lopes (1997), sob o ponto de Kanner de caráter lingüístico, apenas 1/3 dessas crianças aprendem a falar e as demais ficam, praticamente, em estado de mutismo. Desta feita, o autismo, segundo Mello (2004, p. 11), é “[...] um distúrbio do desenvolvimento humano que vem sendo estudado pela ciência há quase seus décadas”, tendo sua primeira descrição dada em 1943, por Kanner, que entendia sob a nomenclatura de Síndrome, como um desvio comportamental considerando todas as crianças que apresentassem inaptidão para desenvolver reações normais co outras pessoas, caracterizado como um isolamento. Porém, Kanner reconheceu mais tarde que o termo autismo não deveria se referir, nestes casos, à um afastamento da realidade com predominância do mundo interior, como se dizia acontecer na esquizofrenia. Também, conforme Mello (2004), em 1944, Hans Asperger publicou trabalhos com descrições detalhadas de casos de autismo, que ofereciam os primeiros esforços para explicar teoricamente tal transtorno. Denominado de transtorno, era vista como uma síndrome relacionada, caracterizada pelo comprometimento significativo da interação social e repertório de atividades e interesses restritos. Por esta razão, o Transtorno ou Síndrome de Asperger fixam seu interesse em um assunto e quase que vivem em função desse interesse. Enfim, o autismo, com base em Lopes (1997), é um transtorno de desenvolvimento causado por uma disfunção neurológica, que afeta a capacidade da pessoa de se comunicar, estabelecer relacionamentos e responder apropriadamente ao ambiente que a rodeia. Por sintomas, encontram-se que algumas parecem fechadas e distantes, outros presos a comportamentos restritos e rígidos padrões de comportamento. Por isso, é visto como um transtorno de desenvolvimento caracterizado por dificuldades e anormalidade em várias áreas: habilidades de comunicação, relacionamento social, funcionamento cognitivo, processamento sensorial e comportamento. Encontra-se na literatura revisada que o autista possui uma incapacidade inata para estabelecer relações afetivas, bem como para responder aos estímulos do meio. A grande dificuldade do autista é em relação à expressão das emoções, sendo, pois, um transtorno sem fronteira geográfica e social, isto é, pode ocorrer em qualquer classe social. Várias doenças, conforme Mello (2004), podem ocorrer associadas ao autismo, como infecções pós-natais (herpes simples), doenças degenerativas (Doença de Tay-Sachs), infecções pré-natais (rubéola congênita, sífilis congênita, toxoplasmose, citomegaloviroses, caxumba, herpes), alterações cromossômicas (Síndrome de Down ou Síndrome do X frágil (a mais importante das doenças genéticas associadas ao autismo), bem como alterações estruturais expressas por deleções, translocações, cromossomas em anel e outras); hipóxia neo-natal (deficiência de oxigênio no cérebro durante o parto), déficits sensoriais (dificuldade visual (degeneração de retina) ou diminuição da audição (hipoacusia) intensa), doenças gênicas (fenilcetonúria, esclerose tuberosa, neurofibromatose, Síndromes de Cornélia De Lange, Willians, Moebius, Mucopolissacaridoses, Zunich), espasmos infantis (Síndrome de West) e intoxicações diversas. Lopes (1997) identifica as características do autismo, vista em outros transtornos do desenvolvimento, tais como a deficiência mental, transtornos de aprendizagem e transtornos de linguagem. Alguns são vistos em algumas condições psiquiátricas, tais como transtorno obsessivo-compulsivo, personalidade esquizóide e transtornos de ansiedade. Muitos deles são vistos em pessoas consideradas normais, como em nós mesmos. O que distingue o autismo são os números, gravidade, a combinação e interação de problemas que resultam em deficiências funcionais significativas, tais como: Falta de conceito de sentido, Foco excessivo em detalhes, Distratabilidade, Pensamento concreto, Dificuldade de combinar ou integrar idéias, Dificuldades em organizar e Seqüenciar e Dificuldade em generalizar. Além dos déficits cognitivos múltiplos, o autismo apresenta alguns padrões de comportamentos característicos: Forte impulsividade, Ansiedade Excessiva, Anormalidade Sensório-perceptuais. Além disso, assinala Lopes (1997) que entre as características a criança não se mistura com outras crianças, age como se fosse surda, resiste ao aprendizado, não demonstra medo de perigos reais. resiste a mudanças de rotina, usa pessoas como ferramentas, tem risos e movimentos não apropriados, resiste ao contato físico, apresenta acentuada hiperatividade física, apega-se de maneira não apropriada aos objetos, gira objetos de maneira estranha e peculiar, às vezes, a criança é agressiva e destrutiva, não mantém contato visual, olha as pessoas "atravessado" e isola-se, tem comportamento indiferente ou arredio. Neste sentido, encontra-se em Mello (2004) e Lopes (1997) alguns aspectos ligados ao autismo como a Sindrome de Angelman, a Síndrome de Asperger, a Síndrome do X Frágil, a Hiperlexia, a Síndrome do Landau Kleffner, o Distúrbio Obsessivo-Compulsivo, o Distúrbio Abrangente do Desenvolvimento, a Síndrome de Rett, a Síndrome de Prader-Will e todo Transtorno de Déficit de Atenção / Hiperatividade. Na revisão da literatura realizada também foi encontrado que não há cura para o autismo, não existindo um tratamento específico, mas muitas abordagens individualizadas, e os resultados variam. Para os casos de tensões, alterações, compressões, disfunções existentes pode-se utilizar a Terapio Craneo Sacral ou Liberatção Miofacial. As drogas de efeito dopaminérgicos têm demonstrado algum efeito sobre a sintomalogia do Autismo Infantil. Alguns outros tratamentos são: psicoterapia individual, psicanálise, terapia familiar, modificação de comportamento, fonoaudiologia, educação especial, tratamentos residenciais, eletroconvulso-terapia, estimulação sensorial e isolamento sensorial, tratamentos medicamentosos com drogas diversas.
A ESCOLA INCUSIVA - A proposta de educação inclusiva, conforme Carvalho (2004, p. 81), traduz o embasamento dos princípios do direito à educação, do direito à igualdade de oportunidades, o direito às escolas responsivas e de boa qualidade, o direito de aprendizagem e o direito à participação. Tendo por base Sassaki (1997), Bueno (1997) e Stainback e Stainback (1999), o ensino inclusivo tem referência com crianças com deficiências, para que estas aprendam eficazmente, quando traz a concepção que se aproxima de eixos norteadores de educação básica, reconhecendo as diferenças humanas e tratando a aprendizagem centrada nas potencialidades individuais. Para Sassaki (1997), na educação inclusiva, todas as crianças aprendem juntas e as escolas respondem às necessidades diversas de seus estudantes com a incorporação de estilos e ritmos de aprendizagem por meio de arranjos organizacionais, currículos apropriados, estratégias de ensino, recursos e parcerias com as comunidades. E, neste sentido, conforme o autor mencionado, estudantes, professores, pais, técnicos, especialistas, agentes do poder público e comunidade, assumem o desafio da descoberta e a superação de limites, construindo novas competências referenciadas no paradigma da escola inclusiva. Assim, conforme Stainback e Stainback (1999), compreende-se que o papel da escola inclusiva compatível com a realidade é, principalmente o de acolher a todos indistintamente, de modo que todos possam participar do mesmo processo de aprendizagem, efetivando trocas interativas que fortaleçam a aceitação das diferenças.  Na visão de Sassaki (1999, p.87): Dentro deste novo conceito de escola, o papel do professor já não corresponde àquele que foi desempenhado no passado. Atualmente vive-se em permanente contato com o desafio, onde a informação corre por entre os dedos, quer através dos jornais, livros e revistas, quer pela televisão e outros meios audiovisuais, exigindo a este profissional uma capacidade de adaptação permanente, o que provoca por vezes um sentimento de instabilidade, gerando-se freqüentemente “stress profissional”. Por esta razão é importante conhecer e perceber quais são os fatores que estão envolvidos no processo de mudança para que de algum modo possamos usar estratégias que nos ajudem a contrariar a nossa tendência natural para a “rejeição à mudança”. Mediante o exposto, observa-se que uma escola inclusiva se mostra disposta ao oferecimento de uma educação de qualidade para todos, com uma boa organização da sala de aula com regras claras, na qual o processo de inclusão de portadores de necessidades especiais – PNE, seja amplamente discutido e reestruturando a sociedade para a possibilidade da convivência entre diferentes. No caso do Autismo, conforme Assumpção Junior (2010) e Fonseca (2009), é encontrado o modelo do método Teacch, pautado em principios educacionais que envolvem padrões cognitivos e comportamentais, desenvolvendo formas de ajudar as pessoas com autismo a funcionar inseridos na cultura à sua volta. É um método baseado em muitos princípios, envolvendo áreas de competência e interesses, avaliação cuidadosa e constante, assistência para a compreensão do sentido, tratando a resistência como resultante da falta de entendimento e atua com a colaboração dos pais. Tem por objetivo ensinar ao aluno o conceito de causa e efeito, a comunicação e planejamento para desenvolver habilidades úteis e significativas para a vida adulta.  
CONCLUSÃO - O autismo, representando a enfermidade patológica que é, requer da escola uma posição inclusiva. Esta educação inclusiva traz a necessidade de um sistema que integre e inclua o portador de necessidades especiais, fazendo intervenções e enfrentando os desafios para valorização das habilidades e potencialidades destes, reduzindo suas limitações, apoiando a inserção familiar, social e escolar, bem como preparando o PNE adequadamente para a dignidade humana, o exercício da cidadania e formação profissional. A escola inclusiva cumpre sua missão quando sua visão, política, princípios e ações se destinam a ofertar uma educação para todos.
REFERENCIAS
ASSUMPÇÃO JUNIOR, Francisco B. Autismo infantil. Emediz, 2009.
BUENO, J. G. S. A integração social das crianças deficientes: a função da educação especial. In: MANTOAN, M. T. E. et. Alii. A integração de pessoas com deficiência. São Paulo: Memnon., 1997
CARVALHO, Rosita Editer. Educação inclusiva: com os pingos nos “is”. Porto Alegre: Mediação, 2004.
FONSECA, Maria Elisa Granchi. O uso de agendas visuais: um guia para pais e educadores. Brasília: CEDAP, julho 2009.
GOLDSTEIN, Ariela. O autismo sob o olhar da terapia ocupacional. São Paulo: Casa do Novo Autor, 2009.
LOPES, Eliana Rodrigues Boralli. Autismo: Trabalho com a Criança e com a Família. São Paulo: EDICON/AUMA, 1997.
MELLO, Ana Maria S. ios. Autismo: guia prático. São Paulo/Brasília: AMA/CORDE, 2004.
SASSAKI, R. K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997.
STAINBACK, S. & STAINBACK, W. Inclusão: um guia para educadores. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. Veja mais aqui, aqui e aqui.



Veja mais sobre:
Querência & a arte de Mazinho, Fiódor Dostoiévski, Igor Stravinsky, Saulo Laranjeira, René Clair, Joseph Tomanek, Veronica Lake, Erich Sokol & Bioética: meio ambiente, saúde e pesquisa aqui.

E mais:
Leitura, escrita, aprendizagem & avaliação na educação aqui.
A arte de Rosana Simpson aqui.
Danos Morais & o Direito do Consumidor aqui.
Interpretação e aplicação do Direito aqui.
Direito como fato social aqui.
A arte de Di Mostacatto aqui.
Concurso de Beleza, Vinicius de Morais, Carlos Zéfiro & Nik aqui.
A arte de Lanna Rodrigues aqui.
Sindicato das Mulheres Feias, Saúde & Sexo, Humor, Papo vai & papo vem aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá
Veja aqui e aqui.


TATARITARITATÁ NA DIFUSORA: TODO DIA É DIA DA CRIANÇA - O Tataritaritatá esta semana é completamente dedicado à criançada. O programa na Rádio Difusora será excepcionalmente apresentado nesta segunda-feira, dia 12, a partir das 9 horas, onde estaremos reunidos eu, o jornalista João Marcos Carvalho e o professor e músico Guido Lessa dedicando todo o espaço até o meio dia com participação de valores artísticos infantis. Detalhes no Brincarte.Veja mais já está disponível para download de todas as edições do Tataritaritatá na Rádio Difusora de Alagoas no seu computador




CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...