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quinta-feira, junho 03, 2021

JEAN GENET, MAFFESOLI. PETER BROOK & EDWARD STEICHEN

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma: contar uma história... - Ao som do álbum Sequenza (Avi, 2019), da violinista alemã Franziska Hölscher, interpretando Heinrich Ignaz Franz von Biber, Luciano Berio e Salvatore Sciarrino. – Estou pronto, voo pro teatro da vida: a cada esquina um novo cenário. Percorro calçadas, atravesso ruas e minutos, encruzilhadas e horas, semáforos e dias que mais parecem décadas que passaram e não vi. A plateia parece indiferente, sempre. Basta pisar em falso, um tombo e a topada, um escorregão, logo o mundo desmorona com todos os olhos holofotes de soslaio e o meu calafrio, trejeitos de dor, saliva amarga, o talho sangrando, o inferno queimando por dentro. Morreu? Está bêbado, só sendo! Epilepsia? Caninos escarnecem ou abanam a cabeça negativamente, arrastam suas suspeitas com suas encaradas atrevidas, a descurar do enfermiço estrangulado pelo vexame, estropiado pela cama-de-gato da ocasião, abatido pela surpresa do vexame. Não menos doutos julgadores de plantão, emitem suas odiosas conjeturas nas feições perturbadoras de espíritos empobrecidos, como se eu fosse culpado de infringir toda etiqueta da moral e bons costumes. Falsos moralistas, hipócritas! E eu nem havia caído e Oliver Goldsmith foi logo me dizendo de cara: A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda. Mais irônico Schopenhauer salientou: Não nos deixar cair em tentação é o mesmo que dizer: não nos deixar ver quem realmente somos. Sorri. Não havia ninguém e o sol declinava na minha emaciada máscara em apuros. Tomara morresse repentinamente, pronto, tudo acabado e fim de papo. Mas não, há quem montado em certo apuro ouse verter aquilo tudo em discurseira de barata solidariedade. Tudo isso tem um não sei quê de desagradável, eu só queria era salvar a minha liberdade, nada mais que isso.

 


Duas: Na pele do escuro - Ao som de Introduzione All'Oscuro for 12 instruments (Ricordi, 1981), do compositor italiano Salvatore Sciarrino. – Salvei a minha liberdade e segui adiante mais perdido que nunca. Logo me vi na pele de Jean Genet: ele só tinha a mãe que era para muitos e sumira sem sequer nunca saber do pai, arrastado para a vida de um casal de Morvan, na Borgonha, e deles fugir para ser visitante assíduo de reformatórios e acolhimento prisional. No meio de seu labirinto eu me vi ao seu lado desonrando instituições e sendo caçado, enquanto compunha O Balcão – um bordel sob a ameaça de um levante revolucionário nas ruas, ou As criadas e as duas irmãs que planejavam matar a patroa. Lá estava eu cena e cenário, para me deparar com a estupefação n’O Ateliê de Giacometti, a sua fisionomia artística e logo o desejo de ser retratado e rascunhar suas impressões. Muito se passou e o encontrei na delinquência poética indultado de suas condenações, para me dizer com desleixo: Estou perdido, mas ai vem o desespero que é sempre de grande ajuda. Pude mergulhar nas muitas páginas de sua obra, até suas memórias de aventuras e andanças no Diário de um Ladrão (Europa-América, 1986). Depois que saí de todas as suas cenas, ele sussurrou apressado: Todas as minhas peças são, apesar de tudo, um pouco políticas, no sentido de abordarem obliquamente a política. Não são politicamente neutras. Relevei, afinal, ao meu lado estava Peter Brook que logo asseverou: O teatro deve ser o espelho da vida. O teatro deve acrescentar uma força revitalizadora... Mais me valesse viver, uma viagem no escuro.

 

Três: - A vida é um milagre... - Ao som do álbum New ressonances (EMA, 2018), da flautista italiana Sara Minelli. - As faces do escuro eram sombras de vozes indisfarçáveis, gemidos de dores. No meio de tantos soluços e gritos ouço Michel Maffesoli: Chora-se, ri-se, participa-se a vontade e sente-se assim em comunhão com a totalidade do corpo social. Lembrei o seu A transfiguração do político: a tribalização do mundo (Sulina, 2005), e tudo se parece medonho e indisfarçável. É como se me soasse em uníssono as tantas e muitas vozes de Colleen McCullough: Uma canção superlativa, a existência o preço. Mas o mundo inteiro ainda quer ouvir, e Deus em Seu céu sorri. Pois o melhor só é comprado às custas de uma grande dor… Ou assim diz a lenda. Imagens reproduziam as fotos dela de Edward Steichen que passou de quase nem vê-lo e me chamar a atenção: A fotografia é uma força importante para explicar um homem a outro. Eu sei, a vida é um milagre! Tudo o mais são delações e apostas, ilusões e engodo. Viva paz e amor, até mais ver.

 

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quinta-feira, dezembro 15, 2016

SCHOPENHAUER, CATHERINE RIBEIRO, NATALIA GONCHAROVA & MUITO MAIS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA! - A gente vê de tudo na vida: de farsante se passando por artista de cinema, de maloqueiro amostrado na maior de bicudo rico, manhoso dando jeito de conseguir de tudo na maior tramoia, até sabidos que levam tudo na pontinha do dedo da vantagem e, nenhum deles, dá pra checar uma topada boa ou tombo que seja. A qualquer reviravolta ou desmantelo, viram logo de casaca, cagam fora do penico e arrumam o jeito de se pendurar até no impossível pra dá volta e ficar por cima, sem ao menos dá a menor pinta de honradez, castigando no óleo de peroba e com a boca aberta nos bolsos e na braguilha dos maiorais. Ô gentinha que vende a alma – com a cantilena da fidelização ao cargo, nunca ao homem -, quando não negociam o alheio para não passarem nunca pelo aperto. Bastam fitar de longe um mata-burro de providenciarem imediatamente a remoção de óbice que houver, pra deixar tudo de porteira escancarada ao bel prazer. Eu mesmo fico só no conferido dos engodos e embustes que hoje são do tope das celebridades que desfilam bulhufas e fungados na telinha. Não são muito diferentes daqueles que no dia a dia da gente fingem ajudar, todos solícitos e cordiais escondendo o riso da cavilação e dando pitacos só pra ver a gente derrapar na curva, quando, na verdade, não passam de indiferentes desalmados e olvidam ou se fazem de moucos a qualquer pedido de socorro, na maior vista grossa ou lavando as mãos pra que a gente caia na primeira boca de caieira. Isso quando não são aqueles que são carne-de-pescoço e obstam com tudo, sempre do contra e botando o maior gosto ruim no dicomer, ou encarando a gente como se do pescoço pra baixo fosse tudo canela pro chute ou rasteira. Afora, aqueles que abrem os olhos de seca-pimenteira ao ver o da gente florindo de boniteza e findar murchando na hora, de só sobrar o desolado sem mais serventia pra nada. Ô-lá-lá. Tudo na base do lavou está novo, o que foi já era e o coro do vamos se arrumar. Se alguém lembrar de algo de alguns anos perto deles, na hora aparece apagador com a admoestação de que passado não move moinho. Sou mais a do George Santayana: Aqueles que ignoram o passado estão condenados a repeti-lo. Não seria essa a condenação de todos nós que somos o povo brasileiro? E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Vivre libre (Alby Music, 1995), da cantora e performer francesa Catherine Ribeiro. Veja mais aqui.

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Sanha, a história da canção, Bronislaw Malinowski, Wolfgang Amadeus Mozart, Paul Gustave Doré, Sharon Bezaly, Anna Wakitsch, Lendas Africanas, Jaci Bezerra, Silvio Rabelo, Bertrand Bonello, Clara Choveaux, Ivoneide Lopes, Ju Mota & A história de dois moços e quatro moças aqui.

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DESTAQUE: O SONO ININTERROMPIDO DE SCHOPENHAUER
[...] desviemos um instante os olhos de nossa própria indigência e de nosso limitado horizonte: levemo-lo sobre esses homens que venceram o mundo nos quais a vontade, atingindo a perfeita consciência de si, se reconheceu em tudo que existe e livremente renunciou a si mesma [...] então, em vez desse tumulto de aspirações sem fim, em vez dessas passagens constantes do desejo ao medo, da alegria ao sofrimento, em vez dessas esperanças sempre inalcançadas e sempre renascentes, que fazem da vida humana, enquanto animada pela vontade, um sonho ininterrompido, não perceberemos mais do que esta paz, mais preciosa que todos os tesouros da razão, a calma absoluta do espírito, esta serenidade imperturbável, tal como Rafael e Corregio a pintaram nas figuras de seus santos e cujo brilho deve ser para nós a mais completa e verídica anunciação da boa nova: a vontade desapareceu; subsiste apenas o conhecimento.
Trecho extraído da obra O mundo como vontade de representação (Die Welt als Wille und Vorstellung, 1919 - Unesp, 2005), do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da proeminente figurinista, artista gráfica e pintora do cubo-futurismo russo Natalia Goncharova (1881-1962)
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
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domingo, fevereiro 22, 2015

ANA BOŽIČEVIĆ, FANNIE HURST, KATHERINE ANNE PORTER & ESCURIDÃO DA NOITE

 


ESCURIDÃO DA NOITE... -O que fiz do dia quando era noite e eu vivia o meio da tarde em plena primavera. Se eu não fosse até onde fui, da aurora ao crepúsculo, quase não viveria o que vivi na escuridão das horas. Estar em casa era como se vivesse num lugar ermo alienígena e não era mais que o cotidiano de todas as vivências. Se queria estar no trono do momento era como se o destronado soubesse a derrota do ser e estar vivo. O que fiz foi sonhar de olhos abertos por todos os umbrais, como se fosse festa e eu me regozijava assim mesmo. Era mentira e o que não era àquela altura do campeonato, desequilibrado e com a autoestima nos cafundós, sem apoio algum. Eu era o solo improvisado do jazz que não sabia onde finalmente ia dar, porque o xote era a espoleta, o baião o gatilho e tudo o mais não tinha graça alguma, porque se era festa não sabia e todos sorriam quando eu entristecia de vez. A festa era como estar na missa domingueira tão chata e não me dizia nada que servisse, como a professora da escola, que era meu sonho de homem que adolescia, mas só queria que me encolhesse com a prima hora da excitação. Se tivesse que sair vitorioso, melhor perder nas preliminares, o pior era a expectativa dos outros pelas possibilidades que sequer eu podia almejar, me faziam outro que não eu mesmo, subjugado às derrotas dos que não tivessem onde cair morto. Fui ousado e até dava um passo maior que a perna, mas quantos não tornaram pelo tropeço quando não tinham mais que a vontade sem talento. Venci ao meu modo, derrotado em todas as ocasiões públicas, porque exigiam de mim o que nunca fui nem quis ser, no meu esconderijo onde sou o que sou, na intimidade, na minha inutilidade, porque não tenho brilho pra vender, nem potencialidades geniais dos salvadores. Sou o que me cabe, pobre do que tenho e todas as forças ao Sol comigo e todas as coisas. As pessoas se veem sozinhas e eu que sou muitos e tantos que nem sei nem quem sou, de verdade. Se estou aqui é por ali ou acolá que vou, aquém ou além, quando quiser, adiante ou atrasado, pouco importa. Sou solo de guitarra, boa firula do contrabaixo, baticum de bateria, percurso sou além dos ouvidos e a canção é a voz que salta do coração e vai pra longe, onde é dia que amanheceu sem pedir licença, ou pela noite que chega quando o cansaço não deixa ver nada além da solidão. Sou vivo e quase morto entre mortos que querem viver e já morreram porque se mataram antes pela escolha da servidão. Sou vivo entre mortos que se acordaram ainda respirando para sucumbirem aos mandos dos que sequer são senhores de si e só sabem subjugar para o gozo de suas masturbações. Não ouvem o choro e a lamúria dos que sofrem, são crianças e mães que não sabem o que fazer e vendem suas vidas à primeira oferta. É desgraça demais para gozo dos que se aproveitam da miséria de muitos. Para este mundo de idolatria e orações pros falsos, sou a ruptura do que não pode mais vicejar sobre lágrimas e a dor de inocentes, porque a boiada desmiolada à beira do abismo não sabe se saltar é a salvação ou se entregam à degenerescência de ser mais vil sem à descendência ou consanguinidade. Os antepassados estão mortos e não há ninguém que nos sirva maternal. Deterioraram geral e o que resta à humanidade perdida e seus resquícios no íntimo mais inocente do sorriso de boa-fé, na mão espalmada sem as escusas alopradas, ou famélicas olhadas de que tudo está perdido no apocalipse da própria estupidez. Salvem-se a si próprios, não há mais nos agarrar. A correnteza devastadora está nos levando ao precipício abissal, olhem pra dentro de si, feche os olhos, sinta, não se deixe levar: é tudo uma ilusão com todas as falácias e platitudes. A verdade está dentro de você! Só você poderá salvar a si próprio e todos os demais. Depende de você, de mim, de nós, de todos. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - O passado nunca está onde você acha que o deixou... Toda vida que vale a pena ser vivida é difícil, ninguém nos prometeu felicidade; ela não é uma mercadoria que você ganhou, ou ganhará. É um subproduto de uma vida corajosa, e nunca vem na forma que esperamos, ou na estação que esperávamos, ou como resultado do nosso planejamento para ela... Cada geração deve entrar no mesmo velho carrossel, só que disfarçado com uma nova camada de tinta... Pensamento da escritora, jornalista e ativista estadunidense Katherine Anne Porter (1890-1980), que no livro Pale Horse, Pale Rider (Mariner Books, 1990), ela expressa que: […] A morte sempre deixa um cantor em luto. [...] A estrada para a morte é uma longa marcha cercada de todos os males, e o coração falha pouco a pouco a cada novo terror, os ossos se rebelam a cada passo, a mente cria sua própria resistência amarga e com que finalidade? As barreiras afundam uma a uma, e nenhuma cobertura dos olhos bloqueia a paisagem do desastre, nem a visão dos crimes cometidos ali. [...] Também no livro Ship of Fools (Back Bay Books, 1984), ela expressa que: […] As pessoas não conseguem ouvir nada, exceto quando é bobagem. Então elas ouvem cada palavra. Se você tenta falar sensatez, elas acham que você não quis dizer isso, ou que não sabe de nada mesmo, ou que não é verdade, ou que é contra a religião, ou que não é o que elas estão acostumadas a ler nos jornais... [...]. Já no livro The Never-Ending Wrong (Little, Brown & Co., 1977), ela expressa que: […] É uma verdade simples que a mente humana pode enfrentar melhor o governo mais opressivo, as restrições mais rígidas, do que a terrível perspectiva de um mundo sem lei e sem fronteiras. A liberdade é um intoxicante perigoso e muito poucas pessoas podem tolerá-la em qualquer quantidade; ela traz à tona os velhos instintos de invasão, opressão e assassinato; a raiva por vingança, por poder, a luxúria por derramamento de sangue. O anseio por liberdade assume a forma de esmagar o inimigo - sempre há o inimigo! - na terra; e onde e quem é o inimigo se não há um estabelecimento visível para atacar, para destruir com sangue e fogo? Lembre-se de toda aquela oratória quando a liberdade é ameaçada novamente. Liberdade, lembre-se, não é o mesmo que liberdade [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: A arte transcende a guerra. A arte é a linguagem de Deus e a guerra é o latido dos homens. Beethoven é maior que a guerra... Prefiro me arrepender do que fiz do que do que não fiz... Não fico feliz quando escrevo, mas fico mais infeliz quando não escrevo... Algumas pessoas acham que valem muito dinheiro só porque o têm... Pensamento da escritora estadunidense Fannie Hurst (1889-1968), que na obra Imitation of Life (Duke University Press, 2004), ela expressa que: […] Nunca deve haver café derramado em seu pires, e seu milho deve sempre ser cortado da espiga para ele, e as meias devem ser dobradas do lado avesso, com a ponta do pé recuada para que ele possa calçá-las facilmente, e em dias chuvosos, quando meu pai caminhava até sua sede no Boardwalk Pier, deve haver jornal em suas borrachas para evitar possíveis vazamentos. [...]. Já no livro Back Street (Cosmopolitan, 1931), ela expressa que: [...] Certa noite, em um daqueles cafés Over-the-Rhine que eram abundantes na Vine Street, em Cincinnati, nos anos noventa, um vendedor ambulante se inclinou sobre sua caneca de Moerlein's Extra Light e acusou abertamente Ray Schmidt de ser inocente. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

A GUERRA NA PAUSA PRO ALMOÇO - O que é a guerra? Você não conseguir achar \ seu outro brinco de pérola escura e você não se importa, na verdade, só que: \ esse brinco é o teu irmão. Ele morreu,\ e só tinha um, você jamais\ vai ver ele de novo. O que é a guerra?\ Eterna apatridia.\ Poetisas que escrevem sobre rola,\ sem pensar em gênero. Meus amigos casados em Vegas\ bons velhos rapazes ou hipsters bateristas, só porque podiam, ou\ quando contemplo\ passar fome\ porque assim eu ficaria “um estouro”, ou. Desculpa\ não consigo parar de me virar & revirar. Meu ganha-pão aqui\ depende de gente que nunca provou da\ guerra, e se fazem de ofendidos quando você sai do trabalho\ no horário. Não que eu jamais tenha deitado escondida\ morrendo na vala, mas se eu tivesse, acho que\ entenderia muito da grama seca, o valor incrível que ela tem:\ só de ver os caules\ mexendo já bastaria.\ Queria ter tempo pra digitar isso,\ mas o dia todo lá estão eles espiando atrás do meu ombro.\ De fato\ sinto pena deles. Como deve ser\ se importar tanto com alguma coisa? Falar dia e noite\ a um deus-monitor, arrumar sua caixa de brinquedos antes de ir dormir:\ arranjar diplomas, ter interesses—\ isso é a antiguerra?\ É por isso que eu não consigo nem ler? Sei que tem guerra ao redor todo de mim,\ e dentro tem guerra: quem morreu, quem traiu,\ quando é que ela vai olhar pra mim daquele jeito,\ que idioma é este, espero que ninguém invada a casa e nos estupre.\ Nunca vejo a luz do sol.\ O sol no quintal é tão\ sem conteúdo, que ele quase sara.\ É uma série de câmaras\ em que me mostram\ o que de fato eu tenho: peso.\ Eletricidade. Uma sensação de equilíbrio. Isso basta?\ Não sei como encerrar:\ fadeout na grama? saída barata.\ Algo que alguma poetisa sexy diria, como\ “Os terroristas venceram, me acorde com um beijo”—\ pede bis, ergue a bota, mostre os peitos!\ estou cansada pra caralho do que é “sexy”\ ter que ser sexy, corpo de musa\ com a cara de lança-navios:\ não consigo ler porque estou morrendo, eis a verdade,\ prefiro apanhar este sol feito um cachorro.\ Você que dê um jeito de escapar desse saco de papel com teorias.\ O que é\ a guerra? Isto:\ sinto o sol mas fico perguntando o porquê. Poema da poeta croata Ana Božičević, autora dos livros Stars of the Night Commute (2009) e Rise in the Fall (2013).

 

CONTRIBUIÇÕES À DOUTRINA DO SOFRIMENTO DO MUNDO – Na obra Parerga e Paraliponema, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), especificamente no seu capítulo XII, dedicado ao tema das Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo, traz as seguintes ideias:  [...] Se o sentido mais próximo e imediato de nossa vida não é o sofrimento, nossa existência é o maior contrassenso do mundo. Pois constitui um absurdo supor que a dor infinita, originária da necessidade essencial à vida, de que o mundo está pleno, é sem sentido e puramente acidental. Nossa receptividade para a dor é quase infinita, aquela para o prazer possui limites estreitos. Embora toda infelicidade individual apareça como exceção, a infelicidade em geral constitui a regra. [...] Quem deseja comprovar em poucos termos a afirmação de que no mundo o prazer ultrapassa a dor, ou ao menos que se mantém em equilíbrio, que compare a sensação do animal que devora um outro, com a deste outro [...] O consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós: e isto é possível a cada um. [...] A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas, entreatos, uma vez aqui e ali. E de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua, porém não somente metafórica, com a necessidade ou o tédio; mas também realmente com outros. Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta, e morre de armas em punho. Também contribui para o tormento da nossa existência, e não pouco, o impelir do tempo, impedindo-nos de tomar folego, perseguindo todos qual algoz de açoute. Somente não o faz com aquele que se entregou ao tédio [...] Trabalho, aflição, esforço, e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas. Porém se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo crescesse sem ser plantado, as pombas revoassem já assadas, e cada um encontrasse logo e sem dificuldade sua bem-amada. Ali em parte os homens morrerão de tédio ou se enforcarão, em parte promoverão guerras, massacres e assassinatos, para assim se proporcionar mais sofrimento do que o posto pela natureza. Portanto para uma tal espécie, como a humana, nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

Imagem Figura Feminina – escultura em bronze, do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret (1894-1955). Veja mais aqui.

Ouvindo variações de God Save the King, do musicólogo, musicista e teórico alemão Johann Nikolaus Forkel (1749-1818), em recital da pianista Rebecca Cypes no Sara Levys Wold Music, Mason Gross School of the Arts in New Brunswixk, 2014.

SEGURA A ONÇA QUE EU SOU CAÇADOR DE PREÁ – No livro Os mágicos municipais (José Olympio, 1984), o escritor, advogado e jornalista José Cândido de Carvalho (1914-1989), traz a narrativa Segura a onça que eu sou caçador de preá, no qual podemos acompanhar o que segue: Não passava de um modesto caçador de preá. Era Bentinho Alves, dos Alves de Arió do Pará. Em dia de semana gastava os olhos no pilulador da Farmácia Brito. Em tempo de feriado consumia as vistas no rasto das preás. Até que resolveu caçar bicho de maior escama: - Comigo agora é na onça! Ou mais que onça! Na tal da pantera negra. Foi quando deu em Arió do Pará um doutor de erva aparelhado para fazer os maiores serviços de mato adentro. Mediante uns trocados, o curandeiro botava macaco para desgosta de banana e tamanduá correr com perna de coelho. Bentinho, exagerado, mandou que o especial em erva preparasse simpatia capaz de fazer morrer na pólvora de sua espingarda as caças mais grossas, coisa assim no montante de uma capivara de banhado ou uma onça das mais pintadas. E no ardume do entusiasmo: - Ou mais! É aparecer e morrer. O curandeiro tirou uma baforada do covil dos peitos e mandou que Bentinho largasse no rodapé do arvoredo mais galhoso uma figa de guiné de sociedade com fumo de rolo e pó de unha de tatu. Bentinho não fez outra coisa. E montado nessa simpatia, uma quinzena adiante, o aprendiz de botica entrava no mato. E bem não tinha dado meia dúzia de passos já o trabalho do curandeiro fazia efeito na forma de uma onçona de três metros de barriga por quatro de raiva. Bentinho, diante daquela montanha de carne e pelo, largou a espingarda para subir de lagartixa pelo primeiro pé de pau que encontrou na alça de mira. E enquanto subia Bentinho falava para Bentinho: - Curandeiro exagerado! Isso não é onça para aprendiz de farmácia. Isso é onça para doutor formado. Ou mais! E voltou para sua caça miúda de preá.  Veja mais aquiaqui.


BESTIÁRIO ALAGOANO – Uma das pessoas que mais admiro na terra alagoana é a da pessoa do jornalista, advogado e publicitário Iremar Marinho. Figura ativa, expoente do melhor das Alagoas, ele edita o extraordinário blog Bestiário Alagoano do qual sou constante apreciador. Além disso é conveniente mencionar que se trata de um excelente poeta. E dele destaco o seu Poema Improvável, entre tantos que muito aprecio de sua lavra, principalmente o II: Viver é sempre desdenhar a morte, / a que vence todos os torneios, / aquela adversária desonesta, / detentora de segredos, / aquela que faz jorrar / o sangue dos contendores, / aquela que abate toda / ansiedade do poema, / que destrói covardemente / toda teima de viver. /Oh! Morte! Basta! Veja mais aquiaqui.


O FANTASMA DA LIBERDADE – Outros dos filmes da minha predileção é O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la liberte, 1974), do cineasta espanhol Luís Buñuel (1900-1983). Trata-se de uma comédia dramática, com história dividida em 14 capítulos e que são unidos por uma personagem diferente, estrelado por Adriana Asti, Julien Bertheau e Jean-Claude Brialy. Tudo começa em Toledo com uma guerra, depois uma série de quadros vão mudando as cenas em situações surreais e sem narrativa em especial, com muitas situações marcantes, como a da senhora de meia idade que não quer ser vista nua, mas que o jovem lhe puxa os lençóis para revelação de um corpo de adolescente, bem como aquela dos convidados de um jantar sentados em vasos sanitários, definindo a genialidade e o espírito libertário do cineasta. Veja mais aqui, aquiaqui.



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segunda-feira, maio 16, 2011

ANTÔNIO MARIA, PAUL FORT, SCHOPENHAUER, MELCHIOR MEYER, GALENO DE PÉRGAMO, JEAN-JACQUES LEBEL, RETÓRICA & LITERÓTICA

A arte do artista, poeta e ativista político Jean-Jacques Lebel.

LITERÓTICA: SONSA – Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, ela agarra no tronco e me diz: toda sua. E se esfrega já nua, anjo e demônio. Maior pandemônio, maior ventania. Faço pontaria nela oferecida a me dá por guarida suas cercanias. Vou pra montaria e nela me atrepar e sem blá, blá, blá, no seu alvo alado. Apruma o rebolado com manha de sonsa, a me dá por responsa seus segredos guardados. E todo malcriado e perito artesão, predador e pagão, batizo os pecados. Nesse campo minado me faz candelabro esfregando o escalavro do seu poço imenso. E já me convenço de sua alma mundana que a safada sacana deixa descoberta. E mais inquieta me dá suas minas que queima a retina e cobiça o capacho. Se atreve o meu cacho, minha flecha na maçã, nem até amanhã não apaga o meu facho. O céu vai abaixo e não há nada igual. Nesse manancial o prazer não tem preço. Ela vira do avesso, o dedo na tomada, que atrevida e aprumada sobe todas as alturas. E cai na fundura me faz seu arrimo, me cobrindo de mimo e toda afogueada. Mais afeiçoada no nosso escambo, ela geme ao meu mando, toda ruidosa. E mais que gulosa arreia atiçada, toda engatilhada dos desejos maiores. E com garras piores, e doido varrido vou impor-lhe o castigo das ousadas vontades. E vou com alarde e com toda ganância vasculhar as instâncias ignotas do corpo. E vou com escopo na entrega gostosa a roubar seu cheiro de rosa e toda a sua essência. Vai fazer diferença pegá-la escrava, como enxada que cava seu lombo e costado. Eu puxo e puxado, arranco ferrolho, e descasco o repolho, do seu dorso o penhor. Eu me faço senhor a fincar as bandeiras nas entradas fagueiras do seu território. Sou dono meritório dessa graça opulenta, mais de oito ou oitenta, sou explorador. E ela só: sim, senhor! Rendida fremindo com tudo tinindo, maior saculejo. E me enche de beijo a quedar minguada, lambida e chupada até o último gole. E seu jeito me bole como bem a merece, me faz sua prece, seu altar e pastor. E do seu alcandor no fogo da paixão, me aperta um tempão a suspirar de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


DITOS & DESDITOSAqui meu coração desabafa quando está muito oprimido; porque há coisas que não se podem contar a ninguém. Pensamento do poeta e dramaturgo Melchior Meyer (1552-1619).

ALGUÉM FALOUVire a vagina para o lado de fora ou vire para dentro e dobre o pênis; você encontrará a mesma estrutura em ambos, em todos os aspectos. Pensamento do médico e filósofo romano Galeno de Pérgamo (129-217).

SOBRE A ERUDIÇÃO E OS ERUDITOS – [...] Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos nãop aprendem para ganhar conhecimento ou se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importância. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos. – Quanto aos estudos feitos simplesmente para granhar o pão de cada dia, nem os levei em conta. [...] Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto! [...] Só se dedicará a um assunto com toda a seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, com amore. É sempre de tais pessoas, e não dos assalariados, que vêm as grandes descobertas [...]. Trechos extraídos da obra A arte de escrever (L&PM, 2005), do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui.

SUICÍDIO – [...] Queria conversar sobre a morte, dentro da verdade irrefutável de que a vida, mesmo quando chega a ser uma delícia, é uma fascinante experiência de luta e coragem, bela não só nos momentos de intensa felicidade, como, e mais ainda, nos transes dolorosos, de que saímos mais livrese fortes. Não quero dizer com isso que sofrer seja bom. Boa é a nossa convicção de sobrevivência a todas as injustiças que nos fazem à carne e à alma. O suicídio contém uma desforra, e este é o seu lado fascinante. Mas o suicídio contém a morte, e esteé o seu defeito irreparável. Nunca morrer hoje, quando se pode morrer amanhã... ou daqui a cem anos. Há muito o que ver e sentir, há muito o que amar! Em mim e em meus semelhantes mais intranquilos haverá, um dia, aquela manhã clara e azul, e, com os olhos da alma sossegada, veremos toda a beleza da rosa, toda a luz do lago duro e prisioneiro, o sopro da manhã cheia de pássaros, o convitedo amor no ser que passa. Quantas vezes estive cansado, infeliz da minha completa impossibilidade, cativo da hora impenetrável, faltado de todo o bem-querer humano, faltoso a todos os meus compromissos e, mesmo assim, estive certo dessa manhã que nos aguarda a todos. Há uma série de acontecimentos recentes em minha vida, quesó por eles jamais cometeria a ingratidão de me matar. Poderia enumerar alguns: o caminho de Versalhes, a descida do tejo, a estrada de Teresópolis, a noite que acabo de dormir, pesadamente. Em tudo isto quanto apego a esta minha vida sem método, por este destino sem ponto de chegada, pelo meu coração, que só deseja o acaso dos homens e das coisas! Que incontida necessidade de confiar! Que lúcida noção de todas as minhas falhas... e, mesmo assim, viver! Ninguém recebeu o conselho dos mortos. Por isso, ninguém se deve matar. [...] Trecho da crônica Bilhete fraternal, talvez útil (Paz e Terra, 1996), do poeta, radialista e compositor Antônio Maria (1921-1964). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - É NECESSÁRIO AMAR-SE: Amemo-nos sem mistério, / aqui, na terra, triunfantes. / Devemos amarmo-nos antes! / Minha cinza e tua cinza serão espalhadas pelo vento. NOSSA CABANA EM YVELINE: Cabana, teus adornos são margaridas, rosas: / a teus pés suas alvuras, sobre ti suas cores / A natureza faz muito bem às coisas, / mesmo corações dentro de um ramo de flores que, / dura apenas quanto nossos amores. Poemas do poeta e dramaturgo francês Paul Fort (1872-1960).


A arte do artista, poeta e ativista político Jean-Jacques Lebel.



PRINCÍPIOS DE RETÓRICA - introdução: conceitos e definições: A retórica é a arte de exprimir-se, expressar-se, pela palavra.  Como disciplina ensinada e aprendida a retórica apresenta um sistema de formas de pensamento e de linguagem, que devem ser conscientemente utilizadas como fim de obter efeitos determinadas. Essas formas são definidas, reconhecidas e classificadas por terminologia específica. Existe entretanto uma retórica natural assimilada empiricamente junto com a língua. É patrimônio coletivo, embora não inteiramente consciente, de todos os membros de uma sociedade falante. A arte retórica nasceu na Sicília, em meados do século V ªC., quando a política dos tiranos cedeu lugar à democracia. Os primeiros profissionais retóricos foram Córax e Tísias, ambos sicilianos de Siracusa. Naturalmente, o ensino da dialética e o trabalho dos sofistas, no uso consciente da linguagem para convencer sempre o opositor de suas idéias, prepararam o campo de desenvolvimento da retórica. Em pouco tempo, já se aplicava a três situações diferentes de eloqüência necessária, que vieram a conformar três gêneros de discurso: o forense, o político e epidíctico. A arte da retórica foi sistematizada por Aristóteles (384-322 aC.) no tratado Arte Retórica em que recomenda como qualidades máximas para o estilo e clareza e a adequação dos meios de expressão ao assunto e ao momento do discurso. Relacionando os métodos de persuasão do júri e da assembléia, classifica-os em três diretrizes funcionais: os que produzem atitude favorável à pessoa do orador; os que produzem emoção; e os argumentos lógicos, exemplos e entimemas, isto é, unidades de silogismo retórico. A premissa básica da retórica é que todo discurso é feito com a intenção de alterar uma situação determinada. Por isso, sempre se insere no chamado ato processual, que é um conjunto de discursos de três tipos: a apresentação da situação feita por qualquer pessoa; os discursos partidários, pronunciados pelos interesses nas várias possibilidades de modificação da situação; e o discurso do árbitro, que apresenta a decisão. Princípios: A retórica, segundo Reboul (1998), para o senso comum é sinônimo de coisa empolada, artificial, enfática, declamatória, falsa. Segundo Charles Perelman e L. Olbrechts-Tyteca (apud Reboul, 1998:XIII), a retórica é a arte de argumentar e busca seus exemplos mormente entre os oradores religiosos, jurídicos, políticos e até filosóficos. Para Morier, G. Genette, J. Cohen e do Grupo UM, considera a retórica como estudo do estilo, e mais particularmente de figuras. (Reboul, 1998:XIII). A retórica clássica começa com Aristóteles e se prolonga até o século XIX. Ele fundou o Liceu, concorrendo com a Academia de Platão. Filósofo e sábio, soube conciliar duas tendências: o espírito de observação e o espírito de sistema. Para ele a retórica é útil, porque tendo o verdadeiro e o justo mais força natural que os seus contrários, se os julgamentos são proferidos como conviria, é necessariamente por sua única culpa que os litigantes são derrotados. Aristóteles (1972), consigna: "... é preciso ser capaz de persuadir dos prós e dos contras, como no silogismo dialético, para saber claramente quais são os fatos e para, caso alguém se valha de argumentos desonestos, estar em condições de refutá-lo. E assim ele argumenta sobre a retórica : 1.º  argumento: a retórica é útil, dela se pode esperar aquilo que se espera de todas as técnicas: um serviço. 2.º argumento: o verdadeiro e o justo são por natureza mais fortes que seus contrário. 3.º argumento: é preciso ser capaz de defender tão bem o contra quanto o pró, não para torná-los equivalentes, mas para compreender o mecanismo da argumentação adversária e assim a refutar. 4.º argumento: se a palavra é característica do homem, é mais desonroso ser vencido pela palavra que pela força física. Aristóteles notava que o exemplo é mais afetivo que o silogismo; o primeiro dirige-se de preferência ao grande público, enquanto o segundo visa a um auditório especializado, como um tribunal. (Reboul, 1998:XVII). Apreendemos, assim, que a retórica é a arte de persuadir pelo discurso. Por discurso entendemos toda produção verbal, escrita ou oral, constituída de uma frase ou por uma seqüência de frases, que tenha começo e fim e apresente certa unidade de sentido: (...) a retórica não é aplicável a todos os discursos, mas somente àqueles que visam a persuadir, o que de qualquer modo representa um belo leque de possibilidades. Enumeremos as principais: pleito advocatício, alocução política, sermão, folheto, cartaz de publicidade, panfleto, fábula, petição, ensaio, tratado de filosofia, de teologia ou de ciências humanas. Acrescente-se isso o drama e o romance, desde que "de tese, e o poema satírico ou laudatório. (Reboul, 1998:XIV). Persuadir é levar alguém a crer em alguma coisa. Alguns distinguem rigorosamente persuadir de convencer., consistindo este último  não em fazer crer, mas em fazer compreender. (Reboul, 1998:XV). A persuasão retórica consiste em levar a crer, sem redundar necessariamente no levar a fazer. Se ao contrário, ela leva a fazer sem levar a crer, então não é retórica. (Reboul, 1998:XV). O verdadeiro orador é um artista no sentido de descobrir argumentos ainda mais eficazes do que se esperava, figuras que ninguém teria idéia e que se mostram ajustadas; artista cujos desempenhos não são programáveis e que só se fazem sentir posteriormente. (Reboul, 1998:XVI). A primeira função da retórica decorre de sua definição: arte de persuadir. E os meios de competência da razão são os argumentos. Que são de dois tipos: os que se integram no raciocínio silogístico (entimemas) e os que se fundamentam no exemplo. A retórica apresenta algumas funções, dentre elas: Função hermenêutica: para ser persuasivo, o orador deve antes compreender os que lhe fazem face, captar a força da retórica deles, bem como seus pontos fracos. Esse trabalho de interpretação é feito por todos de modo mais ou menos espontâneo. Isto quer dizer que para ser bom orador, não basta saber falar; é preciso saber também a quem se está falando, compreender o discurso do outro, seja esse discurso manifesto ou latente, detectar duas ciladas, sopesar a força de seus argumentos e sobretudo captar o não-dito. Essa é a função hermenêutica da retórica, significando a hermenêutica a arte de interpretar textos. (Reboul, 1998:XIX). Função heurística: a arte de persuadir pressupõe que não estamos sozinhos. Portanto, essa a função da retórica que denominamos de heurística, do verbo euro, eureka, que significa encontrar. Em resumo, uma função de descoberta. (Reboul, 1998:XX). Função pedagógica: a arte do discurso persuasivo implica a arte de compreender e possibilita a arte de inventar. A retórica não é, pois, a prova do pobre. É a arte de defender-se argumentando em situação nas quais a demonstração não é possível, o que a obriga a passar por noções comuns, que não são opiniões vulgares, mas aquilo que cada um pode encontrar por seu bom senso, em domínios nos quais nada seria menos científico do que exigir respostas científicas. (Reboul, 1998:27). Mediante o exposto, o orador deve assumir posturas conhecidas como Etos, que é o caráter que o orador deve assumir para inspirar confiança no auditório, pois, sejam quais forem seus argumentos lógicos, eles nada obtêm sem essa confiança; e Patos, que é o conjunto de emoções, paixões e sentimentos que o orador deve suscitar no auditório com o seu discurso. O orador deve estabelecer regras, como introduzir um Exórdio, que é a parte que inicia o discurso, e sua função é essencialmente fática: tornar o auditório dócil, atento e benevolente. Inicialmente vem o exórdio, depois a narração, confirmação, digressão e peroração. (Reboul, 1998). A retórica é composta de dois elementos: argumentativo e oratório. A importância da oratória é maior quanto mais urgente for a questão, mas restrito o acordo prévio, e menos acessível à argumentação lógica o auditório. (Reboul, 1998:91). Argumentação: O argumento é uma proposição destinada a levar à admissão de outra. A argumentação dirige-se a um auditório, expressa-se em língua natural; suas premissas são verossímeis; sua progressão depende do orador; suas conclusão são sempre contestáveis. (Reboul, 1998:92). Enquanto isso, o que é verossímil é tudo aquilo em que a confiança é presumida. (Reboul, 1998:95). Uma boa argumentação precisa de uma causa, demonstrativa, lógica, agindo de tal modo que ela não seja sofisticada. (Reboul, 1998:100). Por outro lado, o Sofisma é um raciocínio cuja validade é apenas aparente e que ganha adesão por fazer crer em sua lógica. Pode servir assim para legitimar interesses, amor-próprio e paixões. Sofisma da argumentação seria dizer mais do que sabe. (Reboul, 1998:102). O Tratado de argumentação de Perelman-Tyteca distingue quatro tipos de argumento: 1. Os quase lógicos, do tipo um tostão é um tostão; 2. Os que se fundam na estrutura do real, como o argumento "a fortiori"; 3. Os que fundam a estrutura do real, como a analogia; 4. E os que dissociam uma noção, com o "distinguo" entre aparência e a realidade. (Reboul, 1998:164). Ou seja, mediante isso apreendemos que sempre se argumenta diante de alguém. Há de se considerar o auditório. É preciso ver a causa, fatos, verdades, presunções, os valores, os lugares. Nas classes de argumentos podemos encontrar: Argumentos quase lógicos que é aparentado com um princípio lógico, como identidade ou transitividade; e não fazem apelo à experiência (Reboul, 1998:168). Argumentos fundados na estrutura do real, que não se apoiam na lógica, porém na experiência, nos elos reconhecidos entre as coisas. (Reboul, 1998:173). Argumentos que é fundamental à estrutura do real, são empíricos, mas não se apoiam na estrutura do real: criam-na; ou pelo menos a completam, fazendo que entre as coisas apareçam nexos antes não vistos, não suspeitados. (Reboul, 1998:181). E os argumentos por dissociação das noções que consistem em dissociar noções em pares hierarquizados, como aparência/realidade, meio/fim, letra/espírito, etc. distinguem-se assim de todos os outros argumentos que associam as noções. Tudo isso nos habilita a fazer uma análise textual no sentido de compreender e encontrar as emoções e poder de persuasão de quem se manifesta através de um discurso, seja ele textual, seja oral.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1972
COSTA, Ana R. F. ett alli. Orientações metodológicas para produção de trabalhos acadêmicos. Maceió: Edufal, 1999.
MARI, Juliana De. Seja você mesmo. In: Revista Você s.a. 27:3. São Paulo: set./2000 p. 56-60
REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998
TONELLI, Maria José. Demissão. In: RAE- Revista de Administração de Empresas. Out./dez./2000, 40:4, p.103-108.
WELCH, Jack. A administração depois da Internet. In: Revista HSM Management, 22:4 São Paulo: set./out, p.6-12, 2000.




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