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sexta-feira, abril 26, 2019

WITTGENSTEIN, PEDRO NAVA, MICHELINY VERUNSCHK, ANA PAULA HOPPE & REVELAÇÃO ANAGRAMÁTICA.


REVELAÇÃO ANAGRAMÁTICA - Na cidade vizinha de Malrepas descobriram um livro que tomaram por mágico e que estava enterrado nos fundos do cemitério. Nada demais, evidentemente. Foi mão-de-obra para transportar a coisa, sem saber o que fazer com ela. Livro, nem deram bolas; antes fosse uma botija com muito ouro, isso sim, valeria. Mas livro, nenhuma serventia. Como parecia uma Bíblia, deram de início certa atenção, porém, como não era, caiu no desdém. Afinal, era só uma dessas coisas que aparecem do inopinado e, depois de matar a curiosidade, tornam-se banal. E tudo voltaria ao normal, não fosse o fato de, repentinamente, alguém enlouquecer. Como? Foi, birutou. Ninguém sabia o motivo. Como é que pode? É normal. Logo outro endoideceu assim do nada. De novo? Mais outro e outros tantos, muitos. Peraí, o que é que está havendo? Quem sabe! Ué, deram de desassisar, foi? Pois é. Por que será? Não se tinha a menor ideia. Investigações foram diligenciadas. Todos queriam saber por que, de um tempo para cá, as pessoas deram de amalucar sem qualquer motivo aparente. E foram juntando as pedras, montaram o quebra-cabeça e só deu uma por resultado: o tal do livro desenterrado. Vamos ver! O mistério se mantinha. Ué, mas fulano num foi com beltrano ver isso? Foram, endoidaram juntos. Como é que pode? E sicrano e outro mano também foram e piraram, outranos também. Vixe! Um a um na fila, encangados. O título, em letras de ouro: Revelação Anagramática. Com a ponta dos dedos, de um lado a outro, de cabeça pra baixo, a lombada, nada mais, só o título gravado em caligrafia artística numa capa dura de camurça escura, dumas mil páginas, 40x60 centímetros, difícil de apalpar e segurar de tão pesado e grosso. Quem abrisse em qualquer página, findava ruim da bola! Atenção redobrada. Receio, precaução. Ah, tem coisa. Tem. Que danado de livro é esse? Só vendo. Uma comitiva topou desvendar o mistério. Abriram. O primeiro: Oxe, isso sou eu? Como? Eita! Que foi? A minha vida! Como assim? O que estava lendo, fechou de repente e saiu sem falar. O que estava do lado, curioso, abriu: Ave, Maria! Depois de pregar as vistas na leitura, também saiu todo desequilibrado. Até alguém dizer: Ninguém abre, esse livro, é amaldiçoado. Já havia mais de duas centenas de hospedados no manicômio. Estava líquido e certo: quem abriu, acabou no hospício. E agora? O que havia de gente bisbilhoteira para saber detalhes do caso, não findava de chegar. Logo a notícia chegou à Alagoinhanduba, justo para saber do doutor Zé Gulu, o único que parou para pensar a respeito e deu uma resposta razoável para os incrédulos: Ah, deve de ser o fabuloso Livro de Areia que encontraram! O quê? Um livro diabólico que foi narrado por um escritor argentino chamado Borges. Hem? É um livro estranho, sem começo nem fim, carregado de fábulas! Mas fica pinel quem lê-lo? Sei não. Então, vamos lá! Ah, eu já li. E o que tem de tão apavorante de desaprumar a cachola do leitor? Só narrativas fabulosas. E por que quem bota o olho nele funde a cuca? Ué, eu li e não fiquei louco, vou lá saber por que estão perdendo a sanidade mental, ora! Ah, então vamos lá! Nada demais. Vamos, homem! Nada. Fizeram tudo para ele ir, não teve jeito. Ele amuou-se e não cedeu nem a rogos da população. Então, tá. Quem correu para saber detalhes de tudo foi o bispo que, aos cochichos, quis saber o que se sucedia. Padre Quiba que tinha visto o piripaque do padre novato, ficou na dele, nem chegou perto da suposta danação e narrou tintim por tintim ao superior. Pois, então, vamos abri-lo! Deus me livre! É uma ordem! Nem amarrado. Vamos os dois! Vou nada! Que é que tem no livro? Não sei, só sei que tem um monte de gente aí que abilolou só de ler a primeira página. Hummmmm. Só está salvo desse estrupício quem não leu, quem não abriu uma página sequer daquilo, só dizendo quem lia que era ele que estava lá escrito, a vida dele e saía todo desgovernado fazendo bilu-bilu. Ah, quero ver esse livro. Arrepara. Ao chegarem diante daquele volume ainda todo empoeirado, logo deram de cara com os juízes e delegados das duas cidades e doutras, confabulavam. Quem é maluco de abrir uma praga dessa? Procuraram voluntários, nenhuma iniciativa. Convocaram a polícia e elegeram um condenado a abrir na marra e dizer o que tinha escrito. Assim feito, amarrado, o sujeito dizia: Eita, sou eu! Vixe! E o cara abria um boticão de quase os olhos pularem fora. Fale! Ficou hipnotizado. Fale! Ele não tirava as vistas daquela página. O que está vendo, responda, é uma ordem! Nem batia as pálpebras, de boca aberta. Pronto, já era. O sujeito começou a gritar, espernear, tiveram de levá-lo pro sanatório. Logo estavam todos os prefeitos da região, deputados, senadores, pais de santo, fuxiqueiros, autoridades de todo tipo arrodeando a obra esquisita, sacudindo um pro outro a responsabilidade de abri-la e dizer o que é que tem nessa maldita publicação. Depois de muito puxa-encolhe, resolveram colocá-la numa redoma indestrutível e transparente, colocaram num altar para exploração turística, rendendo altas receitas até hoje. Pronto, resolvido. O que não querem saber é de leitura, tem feitiço no livro, dito e feito: quem lê perde o juízo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Abolida a escravidão e não se podendo mais comprar negro, as senhoras de Minas tomavam para criar negrinhas e mulatinhas sem pai e sem mãe ou dadas pelos pais e pelas mães. Começava para as desgraçadas o dormir vestidas em esteiras postas em qualquer canto da casa, as noites de frio, a roupa velha, o nenhum direito, o pixaim rapado, o pé descalço, o tapa na boca, o bolo, a férula, o correão, a vara, a solidão. Apesar disso, íntimas das sinhás, ajudando nos fuxicos, nas intrigas – servis, bajuladoras, vendo tudo, alcovitando namoros, sabendo dos podres e integradas em cheio nos complexos sexuais dos meninos da família. Em casa de minha avó materna, funcionava o sistema. Ela era mesmo tida como grande disciplinadora de negrinhas, disputando a palma dessa primazia, em Juiz de Fora, com D. Guilhermina do Dr. Rosa da Costa e a D. Clementina do Dr. Feliciano Pena. Para o arbítrio de Inhá Luisa, nem o batismo tinha barreiras. Ela revogava o sacramento quando a graça das negrinhas parecia de moça branca. O quê? Evangelina Berta? Absolutamente. Fica sendo Catita, que isto que é nome de negro! [...]
Trecho extraído da premiada obra Baú de Ossos (José Olympio, 1978), do escritor e médico brasileiro Pedro Nava (1903-1984), primeiro volume das memórias do autor. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE MICHELINY VERUNSCHK
PROPÓSITO: ela se abre / pétala a pétala / e branca é a sua carne / ela se abre / pétala a pétala / e exala a doce abacaxi. / ele duro e brilhante / mal sabe o que o traz aqui / mal sabe do pólen / que traz nas patas / no abdome / ele só sabe do que sente / do que o consome / a noite vem e ela se fecha / de novo / pétala por pétala / ele guardado dentro dela / ele luz e calor / quando ao dia mais uma vez chegar / ela será vermelha / ela será ele / ela será amor.
O CORPO AMOROSO DO DESERTO: Teu corpo / branco e morno / (que eu deveria dizer sereno) / é para mim / suave e doloroso / como as areias cortantes / dos desertos. / Que importa / que ignores minha sede / se tua miragem / é água cristalina. / E a miragem eu firo com mil línguas / e cada uma é um pássaro / a bebê-la. / Ferroam a minha pele / escorpiões de fogo e sol / com seu veneno / e vejo, / magoada de desejo, / os grãos tão leves / indo embora ao vento.
RÁPIDO MONÓLOGO DO CAÇADOR COM SUA CAÇA: Trago / Pardos / Os olhos / De cobiça / Que atiro / Sobre ti, / Teu verbo/teu sexo: / Tua presa / de / marfim.
Poemas da poeta e historiadora Micheliny Verunschk, autora dos livros Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme, 2010), Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida (Patuá/Petrobras Cultural, 2014) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Ela é mestre em Literatura e Crítica Literária, doutora em Comunicação e Semiótica e doutoranda em Letras pela PUC-SP. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escritora e artista visual Ana Paula Hoppe, co-autora da obra interativa Baleia Rosa: você está espalhando o bem? (Buzz,2017), em parceria com Rafael Tiltscher, construído com desafios lúdicos e práticos a partir de frases como: Seja você a mudança que deseja ver no mundo ou Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem para você, direcionadas para a alegria de viver, a autoestima e o sentimento de pertencimento. Veja mais aqui, aquiaqui.
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A OBRA DE LUDWIG WITTGENSTEIN
Os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias.
A obra do filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951) aqui, aqui e aqui.


terça-feira, junho 05, 2018

LORCA, FERENCZI, PEDRO NAVA, DUOFEL, DENNIS GABOR, ZUZU ANGEL, SILVIO HANSEN & FREDERICO SPENCER


O OLHO DO RINOCERONTE: O TRÂMITE DA SOLIDÃO - Lembro-me criança na escola, em dia de aula sobre o reino animal, apareceu-me a figura dum rinoceronte. Virei-me pra professora: Nunca vi, onde é que tem? A professora explicou e não entendi nada. Fiquei imaginando: o maior que já tinha visto era um boi, aí fiquei na ideia com o paquiderme. Coisa mais estranha, hem? Mais tarde, já beirando a adulteza, esse mesmo estranhamento ocorreu quando dei de cara com o cartaz de uma peça teatral que fui assistir cheio de curiosidade: era a comédia do absurdo de um patafísico e dramaturgo romeno, o Eugene Ionesco (1909-1994), escrita em 1950. Ora, ora, tratava-se de uma metáfora sobre a alucinação coletiva, a liberdade, o preconceito, a barbárie, a solidão, a desumanização, o conformismo, as contradições, a vida e a verdade no meio das metamorfoses. Ou como diz o próprio autor numa entrevista: “o absurdo está vivo. A prova é que estou aqui!”. Sobre os rinocerontes, na mesma entrevista, Ionesco disparou: “[...] me recuso a capitular perante o mito do mal. O rinoceronte representa um homem de ideias impostas, preconcebidas, sem julgamento próprio. As nossas sociedades modernas estão cheias de rinocerontes [...]”. Agora dou de cara com o de Frederico Spencer, O olho do rinoceronte (Tarcísio Pereira, 2018), poetamigo que conheci alguns anos atrás, por meio do seu Abril sitiado (Bagaço, 2011), integrante da equipe do Domingo com poesia e que nos encontramos pela última vez durante uma das edições da Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar), em Alagoas. Acabei de ler o livro do também sociólogo e psicopedagogo, agora incursionando pela prosa: reunião de contos prefaciados pelo psicólogo, escritor e doutor em Neuropsiquiatria, Spencer Júnior: “[...] do rinoceronte que habita a savana de sua poesia [...] um cógito mais spenceriano, ou seja, vejo, logo sou! [...] a brecha por onde nossa alma toca o mundo”. Em nota do próprio autor, ele destaca que os rinocerontes vivem geralmente isolados, remetendo à condição humana: “Todo o resto é mera ficção”. No livro, o trâmite da solidão: Tango para Nanci: tudo era solidão e silêncio; Nas entrelinhas: agora é apenas este vulto, ele a via e sentia sua falta; Dos santos domingos: ao final a solidão o fez voltar outras vezes, refém daquele desejo; Esfinge de barro: ninguém nas ruas – sentia um clima de tragédia no ar; Lola e Gina: não pregou o olho nesta noite, com os olhos inundados de chuva; Para o palhaço: uma última esperança de ressuscitação; A pele: toda a família já havia se perdido naquele amontoado de pele fina; Status quo: só um vazio; Os óculos: enfim, mais um dia havia acabado; Os pés: e tudo recomeçava, os anos eram seu carrasco; Amanhã não será o mesmo: precisava entender o fio da vida, preferiu ficar parado e ver tudo escorrer pelas mãos; O encontro: em sua solidão, jogado no sofá da sala, esperou que alguém batesse à porta e lhe tirasse daquele transe; O encontro II – na festa caem as máscaras: trancafiado naquele apartamento, retomar sua vida, coisas que moem o cotidiano, recluso em sua própria condenação; Pingo e Canivete: sempre foi assim; Conceda-me o prazer desta dança: passava as noites em claro, acometida por uma insônia – suada e inquieta na cama – rezava para os dias amanhecerem; Insolação: a tarde arde lentamente, parecem sedentas por um pouco de frescor; Oi, como assim?: ninguém sabe; A maldição das letras: pular pela janela e encontrar a saída – são só dez andares; O inventário: com ele descia a noite, os filhos, a mulher e a poesia o abandonaram; O pequeno conto de um reino: a carne de seus bichos em noites de lua cheia; O poder das armas: corri, me expus, até de bala me desviei; Com berro e saliva: vivia pelos cantos; Vamos de SMS: coisa longe, nem pensar; Na carne: acabou-se o homem; Recheio de coxinha: afinal somos uma família; A ligação: Às vezes falo comigo também, a gente só dá bom dia a quem conhece; Amor de plástico: gostava deste silêncio que reinava na casa; À luz de um sol impuro: chamar a atenção de todos que passavam, preferiu ficar quieto, ainda de pijama no terraço da casa. E na última orelha do volume, invoca Lukács: “[...] todo verdadeiro artista ou escritor é um adversário instintivo dessas deformações do princípio humanista [...]”. Gostei muito de ler a obra, tanto que fui de um fôlego só, do começo ao fim: narrativa sintética, concisão, maestria. Coisa de quem sabe. Da poesia pra prosa, riqueza metafórica. O que mais? Aplausos. Leia e saberá o que estou dizendo. Abração, escritoramigo, parabéns! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do Duofel - duo de violonistas formado pelo alagoano Fernando Melo e o paulistano Luiz Bueno: Plays Beatles, Espelho das águas com Badal Roy, Ao vivo – Partes 1, 2 e 3 & Surfando no trem com o Quinteto da Paraíba; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O futuro não pode ser previsto, mas pode ser inventado. É a nossa habilidade de inventar o futuro que nos dá esperança para fazer de nós o que somos. Pensamento do físico húngaro Dennis Gabor (1900-1979).

A MULHER & A PSICANÁLISE - [...] Estamos habituados desde longa data a admitir que somente os homens têm direito à libido sexual e ao orgasmo; estabelecemos e impusemos às mulheres um ideal feminino que exclui a possibilidade de exprimir e de reconhecer abertamente desejos sexuais, e só tolera a aceitação passiva, ideal que classifica as tendências libidinais, por muito pouco que elas se manifestem na mulher, nas categorias patológico e “vicioso”.  [...] Se os homens rompessem seu modo de pensar egocêntrico para imaginar uma vida em que lhes tocasse sofrer constantemente a interrupção do ato antes da resolução orgástica da tensão, dar-se-iam conta do martírio sexual suportado pelas mulheres e do desespero provocado pelo dilema que as reduz a escolher entre o respeito a si mesmas e a plena satisfação sexual. Eles compreenderiam melhor por que uma porcentagem tão importante de mulheres foge ao dilema através da doença. [...] A teleologia própria do raciocínio humano não se resigna facilmente ao postulado de que “no melhor dos mundos possíveis” um funcionamento orgânico tão elementar deve apresentar naturalmente igual diferença de duração para resultar na satisfação em ambos os sexos. E a experiência parece confirmar, com efeito, que não se trata de uma diferença orgânica nos dois sexos, mas de uma diferença de condições de vida e de pressão cultural, para explicar essa “discronia” na sexualidade dos cônjuges. [...] A maior parte dos homens casa-se após um número maior ou menor (geralmente bastante grande) de aventuras sexuais e a experiência mostra que, nesse domínio, o hábito não acarreta uma elevação do limiar de excitação mas, pelo contrário, propicia uma aceleração da ejaculação. Esse efeito aumenta consideravelmente se – como é indiscutivelmente o caso em 90% dos homens – a satisfação foi por largo tempo, obtida por via auto-erótica. Por isso, na grande maioria dos homens que se casam, a ejaculação é relativamente precoce. Em contrapartida, a mulher, durante sua adolescência, é metodicamente subtraída a toda e qualquer influência sexual, quer se trate do plano real ou do plano mental; e, além disso, os esforços tendem a fazê-la detestar e desprezar tudo o que envolva o domínio da sexualidade. Assim, pois, comparada com seu futuro esposo, a mulher que se casa é, do ponto de vista sexual, pelo menos hiperstésica, quando não anestésica. [...]. Trechos extraídos da obra Psicanálise (Martins Fontes, 1991), do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933), que expressa o pensamento de que: [...] o conhecimento de uma parte da realidade, talvez a mais importante, não pode se tornar uma convicção pela via intelectual mas apenas quando se faz conforme com a experiência afetiva [...].

BAÚ DE OSSOS - [...] A desorganização coletiva acarretada pelas migrações dos retirantes, a desgraça de cada um encarando a fome e as fúnebres companheiras do flagelo: epidemias de cólera e de bexigas. [...] Basta dizer que em dois meses, a capital cearense viu morrerem 27.378 vítimas da doença. Além de testemunharem essas cenas incomparáveis de passarem o dia à porta, socorrendo famintos, de verem na cidade a dança macabra dos esqueletos ainda vivos de uma população em agonia – meus avós tiveram o toque da doença em pessoa muito cara. Minha tia Marout foi atingida e ao levantar-se, era um espectro do que tinha sido. Seus imensos olhos escuros reduziram-se, apertaram-se e ficaram piscos de receberem a luminosidade que os cílios perdidos não amorteciam; suas tranças grossas como cordas e escuras com a noite, grisalharam e ficaram ralas; sua pele mais lisa que a dos jambos ficou toda áspera e lembrando casca de goiaba branca. cuspiu, um por um, trinta e dois dentes perfeitos que foram substituídos pela fosforecente dentadura dupla que, anos depois, eu a via lavar e escovar, ao mesmo tempo, se sentimento de pejo e de idéias mágicas e ancestrais [...] Não é difícil descobrir quais eram, diante dos laivos de positivismo e de fraternidade que transparecem na sua história e no seu modo de ser. Esses aspectos vinham de vogas da época. Comtismo. Maçonaria. É muito tênue o que se encontra como influência do primeiro e tudo talvez nem fosse intencional e tivesse tocado os padeiros como espírito do século [...]. Trechos extraídos da obra Baú de ossos: memórias (Sabiá, 1972), do escritor e médico Pedro Nava (1903-1984). Veja mais aqui e aqui.

PAISAGEM COM DUAS TUMBAS E UM CÃO ASSÍRIO - Amigo, / levanta-te para que ouças uivar / o cão assírio / As três ninfas do câncer estiveram dançando, / meu filho. / Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho / e uns lençóis duros onde o câncer estava dormindo. / O cavalo tinha um olho no pescoço / e a lua estava num céu tão frio / que teve de rasgar seu monte de Vênus / e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos. / Amigo, / desperta, que os montes ainda não respiram / e as ervas de meu coração encontram-se em outro lugar. / Não importa que estejas cheio de água do mar. / Eu amei por muito tempo um garoto / que tinha uma plúmula na língua / e vivemos cem anos dentro de uma navalha. / Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco. / O uivo / é uma longa língua roxa que deixa / formigas de espanto e licor de lírios. / Já vêm até a rocha. Não alargues tuas raízes! Aproxima-se. Geme. Não soluces em sonho, amigo. / Amigo! / Levanta-te para que ouças uivar / o cão assírio. Poema do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936). Veja mais aqui.

A ARTE DE ZUZU ANGEL
Em setembro de 1971, organizei um desfile de modas em Nova York. Na oportunidade, denunciei o que já sabia a respeito de meu filho, que já havia sido preso […], torturado e provavelmente assassinado pelo governo militar brasileiro.
Palavras da estilista Zuzu Angel (1921-1976), depois do assassinato do seu filho Stuart Edgar Angel Jones, torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira. Ela morreu em um suposto acidente automobilístico na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado, no Rio de Janeiro. A sua luta foi para o cinema por meio do drama biográfico Zuzu Angel (2006), do diretor Sérgio Rezende. Veja mais aqui.


A arte de Silvio Hansen & muito mais na Agenda aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, fevereiro 04, 2016

AMOR IMORTAL, CARNAVAL, CARYBÉ, NAVA, BANDEIRA, GOLDONI, CACÁ, SPOKFREVO, CLAUDIA MAIA & MUITO MAIS!!!!


FOLIA TATARITARITATÁ: AMOR IMORTAL (Imagem: Arte-vídeo da saudosa Derinha Rocha) Tinha eu um mote: essa vida é uma passagem que só o amor torna imortal. Um achado. Por outro lado, devia um frevo pra Folia Caeté – do acordo de quatro, só tinha três prontos. E a premência, em cima da hora: estúdio reservado, músicos contratados, poucas horas para gravação. E agora? Já estava prestes pro dia amanhecer e nada. O desespero do compromisso e a inspiração fizeram-me agir intuitivamente. Daí por diante, queimando as pestanas e, durante o trajeto do hotel pro estúdio, rabisquei e escrevi de uma leva só. Quando cheguei lá, músicos e orquestra a postos, produção, técnicos, enfim: - Cadê a música? Todos os olhos pra minha banda. Entrei no estúdio de gravação, papel com a letra na estante e comecei a tocar no violão. Cantei estribilhos e refrão. E avisei: - Pronto, essa é a voz guia. Ainda terão três partes do estribilho que vou recitar. Todos, caras de interrogação: - Esse cara é louco! Onde já se viu recitar num frevo?! Doidice pura. Saí dali e fui tomar umas e outras. Enquanto isso os músicos da orquestra viravam o dia e a noite. Quando já dia amanhecido, Vavá me liga para colocar a voz. Fui pra lá depois de uma noite de respeitável cachaçada. Foi duma vez só. Ficou valendo. E pronta, nasceu Amor Imortal: No mar com um navio a navegar / Um arco, uma flecha e um alvo lá / No presente só momento / A vida a mil por cento / Com sabor de litoral. / Sendo assim minha canoa vou lançar / Com coragem no pavio pra remar / Do passado eu deixo disso / Pro futuro eu corro risco / E faço o nosso carnaval / No mar que é coisa bacana / Coisa melhor dessa terra alagoana / Se quer amor de coisa boa / Mulher bonita tem da muita em Alagoas / Fui brincar meu carnaval, eu fui brincar / Quando a moça me chamou na horagá / Engatei nos passos dela / Que flor, que coisa bela / Mais bonita do que há / Eu pisquei então pra ela e ela de lá / Fez sorriso de menina enfeitiçar / E depois picou sumiço / Por favor, não faça isso / Que eu tô doido para amar / No mar que é coisa bacana / Coisa melhor dessa terra alagoana / Se quer amor de coisa boa / Mulher bonita tem da muita em Alagoas / Atrás dessa danada / Saí de Pernambuco em marcha arretada / E na maior pisada / Finquei pé lá em Sergipe / E já no Pontal do Coruripe / Ela só céu e mar. / Fui de Roteiro a São Miguel / Fiquei mais pinel / Na Manguaba do Pilar. / Aí abufelei em cima / E não deixei a menor cisma / Nosso amor atrapalhar / No mar que é coisa bacana / Coisa melhor dessa terra alagoana / Se quer amor de coisa boa / Mulher bonita tem da muita em Alagoas / Nesse carnaval maravilhoso / Me liguei nesse colosso / De não mais largar / Montei casa aprumada / Pra deixar mobiliada / Toda nos trinques de ufanar. / Comprei de ferro a fogão / Numa valsa demoradeira / Até um daquele colchão / Pra fofar namoradeira / Sem reclamo do bom e do melhor / Ela me livrou do caritó / E eu só a bebemorar / No mar que é coisa bacana / Coisa melhor dessa terra alagoana / Se quer amor de coisa boa / Mulher bonita tem da muita em Alagoas / Hoje a gente freva todo dia / De tarde, de noite, na freguesia / Tudo a maior harmonia sem par / E sei: melhor que mulher não tem / Nem prêmio com bolada de vintém / Vale o tanto para amar. / Seja céu, seja mar, seja terra / Seja até no topo da maior guerra / Nada vale ou tem igual / Nesse frevo faço homenagem / Que essa vida, essa passagem / Só o amor faz imortal / Fui brincar meu carnaval, eu fui brincar / Quando a moça me chamou na horagá / Engatei nos passos dela / Que flor, que coisa bela / Mais bonita do que há / No mar que é coisa bacana / Coisa melhor dessa terra alagoana / Se quer amor de coisa boa / Mulher bonita tem da muita em Alagoas. (Luiz Alberto Machado). Veja o videoclipe da música aqui e mais aquiaqui.

E veja mais:

PICADINHO
Imagem:Carnaval (1986), do pintor, pesquisador, historiador e jornalista brasileiro nascido na Argentina, Carybé (1911-1997). Veja mais aqui.

Curtindo Passo de Anjo Ao Vivo (Biscoito Fino, 2008), da SpokFrevo Orquestra. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE[...]. Quem cai no passo / Não quer mais parar... / Adeus, meu bem, eu vou / no frevo me espalhar, / Não precisa ter cuidado / Nem tampouco me esperar, / Compre fiado  / se o dinheiro não chegar, / Tome conta dos meninos  / Quarta-feira eu vou voltar!, trecho do frevo-canção Bom danado, do cantor e compositor Luís Bandeira (1923-1998). Veja mais aqui.

CARNAVAL – O carnaval é o período de três dias que precedem a quarta-feira de cinzas, dedicados às festas populares. Teve sua origem no Egito há mais de dois mil anos antes de Jesus. Nesse período os gregos festejavam Dioniso. Na Roma antiga, no dia 15 de fevereiro, realizam-se danças em honra de Pã, uma festa ao deus Baco, chamadas lupercais. Primitivamente, os cristãos começavam as festas do carnaval a 25 de dezembro, compreendendo os festejos do natal, Ano Bom e o de Reis. Jogos e disfarces predominavam nestas festas. No começo do cristianismo, a igreja deu nova orientação a essas festividades, punindo severamente aos que nelas se excediam. Na Gália tais foram os abusos, que Roma proibiu por longo tempo o carnaval. Na Idade Média reaparece em Veneza, Turim e Nice, festejado com delirante alegria e excitação popular. Os bailes de máscaras datam da corte de Carlos VI, numa dessas festas, esse rei foi assassinado por motivos políticos, quando se achava fantasiado de urso. O tempo carnavalesco começava com a festa de Santo Estêvão, em 26 de dezembro. Afirma-se que em festas religiosas como a de Epifania, se usavam máscaras. Em Veneza e Florença, no século XVIII, as damas elegantes fizeram delas instrumento de sedução. No Brasil, esses festejos tornaram-se os mais animados do mundo, tendo sua fama atraído as mais célebres personalidades cinematográficas e outras, que aqui vêm, a fim de assistirem e compartilharem da alegria que contagia a todos. Veja mais aqui.

CARNAVAL II – No livro Baú de Ossos: memórias, (Sabiá, 1972), do escritor e médico brasileiro Pedro Nava (1903-1984), encontro o texto: Água não era só de chuva e de enchente. Mais abundante era a dos entrudos. Carnaval. Passavam uns escassos mascarados, dominós de voz fina, diabinhos com que o Benjamim Rezende se divertia arrancando o rabos, quebrando os chifres. O Paulo Figueiredo, encantando minha avó com seu Pierrot recamado de lantejoulas. Os primeiros lança-perfumes — Vlan e o Rodo. Mas o bom mesmo era o entrudo. Havia instrumentos aperfeiçoados para jogar água, como os relógios, assim chamados porque esses recipientes imitavam a forma de um relógio fechado, com dois tampo metálicos flexíveis que, quando apertados, deixavam cair um delicado esguicho de água perfumada. Havia de todos os tamanhos, desde os pequeninos, que vinham no bolso, aos enormes, que ficavam no chão e eram acionados com o pé. Havia os revólveres — seringas que imitavam a forma da arma — cano metálico e o cabo de borracha que se apertava, apontando quem se queria molhar. Os limões de todos os tamanhos e de todas as cores que eram preparados com semanas de antecedência e em enorme quantidade. Continham água de cheiro, água pura, água colorida, mas os que caíam da sacada do Barão vinham cheios de água suja, de tinta, de mijo podre. Desciam ao mesmo tempo que as cusparadas das moças. Além dos relógios, dos revólveres, dos limões, eram mobilizadas todas as seringas de clister e improvisados seringões com gomos de bambu. Todos os pontos estratégicos da casa eram ocupados com jarras, baldes, latas e bacias para esperar os atacantes. Porque havia os assaltos de porta a porta. Éramos investidos pelos Pinto de Moura e depois do combate, já encharcados, confraternizávamos, para atacar a casa dos Gonçalves.  Logo depois já era um grupo maior que avançava sobre as fortalezas fronteiras dos Couto e Silva e do tio Chiquinhorta, onde nos esperavam valorosamente o Antonico e o Mário Horta. Meu pai comandava a refrega protegido nas dobras de um vasto macfarlane, cujas asas davam-lhe gestos de pássaro gigante. Acabava tudo numa inundação de vinho-do-porto, para rebater e cortar o frio. À noite meu Pai penava com asma… Veja mais aqui e aqui.

SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA – No livro Carnaval (Jornal do Commercio, 1919), do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968), destaco o poema Sonho de uma terça-feira gorda: Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, / e negras eram as nossas máscaras. / Íamos, por entre a turba, com solenidade, / Bem conscientes do nosso ar lúgubre / Tão contrastado pelo sentimento felicidade / Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo / Que nos penetrava... Que nos penetrava como / uma espada de fogo... / Como a espada de fogo que apunhalava as santas / extáticas. / E a impressão em meu sonho era que estávamos / Assim de negro, assim por fora inteiramente negro, /— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro / e luminoso! / Era terça-feira gorda. A multidão inumerável / Burburinhava. Entre clangores de fanfarra / Passavam préstitos apoteóticos. / Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas. / Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida, / De peitos enormes — Vênus para caixeiros. / Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas. / A turba, ávida de promiscuidade, / Acotevelava-se com algazarra, / Aclamava-as com alarido. / E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores. / Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade, / O ar lúgubre, negro, negros... / mas dentro em nós era tudo claro e luminoso! / Nem a alegria estava ali, fora de nós. / A alegria estava em nós. / Era dentro de nós que estava a alegria, / — A profunda, a silenciosa alegria... Veja mais aqui e aqui.

ARLEQUIM – Em 2003 tive a oportunidade de assistir no Teatro das Artes, em São Paulo, à montagem da peça Arlequim: servidor de dois patrões, do dramaturgo veneziano Carlo Goldoni (1707-1793), com direção de Luiz Arthur Nunes, contando as peripécias de Arlequim Batocchio, que não perde a oportunidade de trabalhar em Veneza para dois patrões diferentes, em troca de salário e comida em dobro, e à custa de quiprocós para não ser descoberto. Os desencontros de dois casais e outros personagens arquitipicos completam a comédia. O destaque do espetáculo fica por conta da atriz Ana Paula Bouzas. Veja mais aqui e aqui.

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR – O filme musical Quando o carnaval chegar (1972), dirigido por Cacá Diégues e com roteiro do diretor em parceria com Hugo Carvana e Chico Buarque, conta a história de um empresário de um grupo mambembe de cantores, que viaja pelo país num antigo ônibus dirigido por um certo motorista chamado Cuíca. Com a proximidade do Carnaval, o empresário consegue um contrato para o grupo e também Cuíca, para se apresentarem no evento "A festa do rei" (que depois se revela como Frank Sinatra, numa suposta viagem ao Rio). Mas uma série de desavenças e discussões internas, provocadas pelos romances inesperados entre eles, põe em risco o cumprimento do contrato para desespero de empresário, que avisa que o contratante é o chefão do crime organizado – um bicheiro que os ameaçará de diversas formas. A trilha sonora do filme é composta, em sua maior parte, por Chico Buarque, contando com a participação de Maria Bethânia, Nara Leão, entre outros grandes nomes da música brasileira, além Ana Maria Magalhães, José Lewgoy, Elke Maravilha, Wilson Grey, Luiz Alves, Odete Lara, Scarlet Moon, Joaquim Mota, Zeni Pereira, entre outros. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Niños em carnaval, da artista plástica salvadorenha Tatiana Cañas.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à advogada, funcionária pública e Secretária Executiva do Conselho Municipal de Saúde de Maceió na empresa, Claudia Maia.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Veja aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Sônia Mello, Paz, Jacques Prévert, Milton Hatoum, Monica Bellucci, Eric Fischl, Jonathan Larso, Madhu Maretiore & muito mais aqui.



SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...