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terça-feira, junho 05, 2018

LORCA, FERENCZI, PEDRO NAVA, DUOFEL, DENNIS GABOR, ZUZU ANGEL, SILVIO HANSEN & FREDERICO SPENCER


O OLHO DO RINOCERONTE: O TRÂMITE DA SOLIDÃO - Lembro-me criança na escola, em dia de aula sobre o reino animal, apareceu-me a figura dum rinoceronte. Virei-me pra professora: Nunca vi, onde é que tem? A professora explicou e não entendi nada. Fiquei imaginando: o maior que já tinha visto era um boi, aí fiquei na ideia com o paquiderme. Coisa mais estranha, hem? Mais tarde, já beirando a adulteza, esse mesmo estranhamento ocorreu quando dei de cara com o cartaz de uma peça teatral que fui assistir cheio de curiosidade: era a comédia do absurdo de um patafísico e dramaturgo romeno, o Eugene Ionesco (1909-1994), escrita em 1950. Ora, ora, tratava-se de uma metáfora sobre a alucinação coletiva, a liberdade, o preconceito, a barbárie, a solidão, a desumanização, o conformismo, as contradições, a vida e a verdade no meio das metamorfoses. Ou como diz o próprio autor numa entrevista: “o absurdo está vivo. A prova é que estou aqui!”. Sobre os rinocerontes, na mesma entrevista, Ionesco disparou: “[...] me recuso a capitular perante o mito do mal. O rinoceronte representa um homem de ideias impostas, preconcebidas, sem julgamento próprio. As nossas sociedades modernas estão cheias de rinocerontes [...]”. Agora dou de cara com o de Frederico Spencer, O olho do rinoceronte (Tarcísio Pereira, 2018), poetamigo que conheci alguns anos atrás, por meio do seu Abril sitiado (Bagaço, 2011), integrante da equipe do Domingo com poesia e que nos encontramos pela última vez durante uma das edições da Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar), em Alagoas. Acabei de ler o livro do também sociólogo e psicopedagogo, agora incursionando pela prosa: reunião de contos prefaciados pelo psicólogo, escritor e doutor em Neuropsiquiatria, Spencer Júnior: “[...] do rinoceronte que habita a savana de sua poesia [...] um cógito mais spenceriano, ou seja, vejo, logo sou! [...] a brecha por onde nossa alma toca o mundo”. Em nota do próprio autor, ele destaca que os rinocerontes vivem geralmente isolados, remetendo à condição humana: “Todo o resto é mera ficção”. No livro, o trâmite da solidão: Tango para Nanci: tudo era solidão e silêncio; Nas entrelinhas: agora é apenas este vulto, ele a via e sentia sua falta; Dos santos domingos: ao final a solidão o fez voltar outras vezes, refém daquele desejo; Esfinge de barro: ninguém nas ruas – sentia um clima de tragédia no ar; Lola e Gina: não pregou o olho nesta noite, com os olhos inundados de chuva; Para o palhaço: uma última esperança de ressuscitação; A pele: toda a família já havia se perdido naquele amontoado de pele fina; Status quo: só um vazio; Os óculos: enfim, mais um dia havia acabado; Os pés: e tudo recomeçava, os anos eram seu carrasco; Amanhã não será o mesmo: precisava entender o fio da vida, preferiu ficar parado e ver tudo escorrer pelas mãos; O encontro: em sua solidão, jogado no sofá da sala, esperou que alguém batesse à porta e lhe tirasse daquele transe; O encontro II – na festa caem as máscaras: trancafiado naquele apartamento, retomar sua vida, coisas que moem o cotidiano, recluso em sua própria condenação; Pingo e Canivete: sempre foi assim; Conceda-me o prazer desta dança: passava as noites em claro, acometida por uma insônia – suada e inquieta na cama – rezava para os dias amanhecerem; Insolação: a tarde arde lentamente, parecem sedentas por um pouco de frescor; Oi, como assim?: ninguém sabe; A maldição das letras: pular pela janela e encontrar a saída – são só dez andares; O inventário: com ele descia a noite, os filhos, a mulher e a poesia o abandonaram; O pequeno conto de um reino: a carne de seus bichos em noites de lua cheia; O poder das armas: corri, me expus, até de bala me desviei; Com berro e saliva: vivia pelos cantos; Vamos de SMS: coisa longe, nem pensar; Na carne: acabou-se o homem; Recheio de coxinha: afinal somos uma família; A ligação: Às vezes falo comigo também, a gente só dá bom dia a quem conhece; Amor de plástico: gostava deste silêncio que reinava na casa; À luz de um sol impuro: chamar a atenção de todos que passavam, preferiu ficar quieto, ainda de pijama no terraço da casa. E na última orelha do volume, invoca Lukács: “[...] todo verdadeiro artista ou escritor é um adversário instintivo dessas deformações do princípio humanista [...]”. Gostei muito de ler a obra, tanto que fui de um fôlego só, do começo ao fim: narrativa sintética, concisão, maestria. Coisa de quem sabe. Da poesia pra prosa, riqueza metafórica. O que mais? Aplausos. Leia e saberá o que estou dizendo. Abração, escritoramigo, parabéns! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do Duofel - duo de violonistas formado pelo alagoano Fernando Melo e o paulistano Luiz Bueno: Plays Beatles, Espelho das águas com Badal Roy, Ao vivo – Partes 1, 2 e 3 & Surfando no trem com o Quinteto da Paraíba; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O futuro não pode ser previsto, mas pode ser inventado. É a nossa habilidade de inventar o futuro que nos dá esperança para fazer de nós o que somos. Pensamento do físico húngaro Dennis Gabor (1900-1979).

A MULHER & A PSICANÁLISE - [...] Estamos habituados desde longa data a admitir que somente os homens têm direito à libido sexual e ao orgasmo; estabelecemos e impusemos às mulheres um ideal feminino que exclui a possibilidade de exprimir e de reconhecer abertamente desejos sexuais, e só tolera a aceitação passiva, ideal que classifica as tendências libidinais, por muito pouco que elas se manifestem na mulher, nas categorias patológico e “vicioso”.  [...] Se os homens rompessem seu modo de pensar egocêntrico para imaginar uma vida em que lhes tocasse sofrer constantemente a interrupção do ato antes da resolução orgástica da tensão, dar-se-iam conta do martírio sexual suportado pelas mulheres e do desespero provocado pelo dilema que as reduz a escolher entre o respeito a si mesmas e a plena satisfação sexual. Eles compreenderiam melhor por que uma porcentagem tão importante de mulheres foge ao dilema através da doença. [...] A teleologia própria do raciocínio humano não se resigna facilmente ao postulado de que “no melhor dos mundos possíveis” um funcionamento orgânico tão elementar deve apresentar naturalmente igual diferença de duração para resultar na satisfação em ambos os sexos. E a experiência parece confirmar, com efeito, que não se trata de uma diferença orgânica nos dois sexos, mas de uma diferença de condições de vida e de pressão cultural, para explicar essa “discronia” na sexualidade dos cônjuges. [...] A maior parte dos homens casa-se após um número maior ou menor (geralmente bastante grande) de aventuras sexuais e a experiência mostra que, nesse domínio, o hábito não acarreta uma elevação do limiar de excitação mas, pelo contrário, propicia uma aceleração da ejaculação. Esse efeito aumenta consideravelmente se – como é indiscutivelmente o caso em 90% dos homens – a satisfação foi por largo tempo, obtida por via auto-erótica. Por isso, na grande maioria dos homens que se casam, a ejaculação é relativamente precoce. Em contrapartida, a mulher, durante sua adolescência, é metodicamente subtraída a toda e qualquer influência sexual, quer se trate do plano real ou do plano mental; e, além disso, os esforços tendem a fazê-la detestar e desprezar tudo o que envolva o domínio da sexualidade. Assim, pois, comparada com seu futuro esposo, a mulher que se casa é, do ponto de vista sexual, pelo menos hiperstésica, quando não anestésica. [...]. Trechos extraídos da obra Psicanálise (Martins Fontes, 1991), do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933), que expressa o pensamento de que: [...] o conhecimento de uma parte da realidade, talvez a mais importante, não pode se tornar uma convicção pela via intelectual mas apenas quando se faz conforme com a experiência afetiva [...].

BAÚ DE OSSOS - [...] A desorganização coletiva acarretada pelas migrações dos retirantes, a desgraça de cada um encarando a fome e as fúnebres companheiras do flagelo: epidemias de cólera e de bexigas. [...] Basta dizer que em dois meses, a capital cearense viu morrerem 27.378 vítimas da doença. Além de testemunharem essas cenas incomparáveis de passarem o dia à porta, socorrendo famintos, de verem na cidade a dança macabra dos esqueletos ainda vivos de uma população em agonia – meus avós tiveram o toque da doença em pessoa muito cara. Minha tia Marout foi atingida e ao levantar-se, era um espectro do que tinha sido. Seus imensos olhos escuros reduziram-se, apertaram-se e ficaram piscos de receberem a luminosidade que os cílios perdidos não amorteciam; suas tranças grossas como cordas e escuras com a noite, grisalharam e ficaram ralas; sua pele mais lisa que a dos jambos ficou toda áspera e lembrando casca de goiaba branca. cuspiu, um por um, trinta e dois dentes perfeitos que foram substituídos pela fosforecente dentadura dupla que, anos depois, eu a via lavar e escovar, ao mesmo tempo, se sentimento de pejo e de idéias mágicas e ancestrais [...] Não é difícil descobrir quais eram, diante dos laivos de positivismo e de fraternidade que transparecem na sua história e no seu modo de ser. Esses aspectos vinham de vogas da época. Comtismo. Maçonaria. É muito tênue o que se encontra como influência do primeiro e tudo talvez nem fosse intencional e tivesse tocado os padeiros como espírito do século [...]. Trechos extraídos da obra Baú de ossos: memórias (Sabiá, 1972), do escritor e médico Pedro Nava (1903-1984). Veja mais aqui e aqui.

PAISAGEM COM DUAS TUMBAS E UM CÃO ASSÍRIO - Amigo, / levanta-te para que ouças uivar / o cão assírio / As três ninfas do câncer estiveram dançando, / meu filho. / Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho / e uns lençóis duros onde o câncer estava dormindo. / O cavalo tinha um olho no pescoço / e a lua estava num céu tão frio / que teve de rasgar seu monte de Vênus / e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos. / Amigo, / desperta, que os montes ainda não respiram / e as ervas de meu coração encontram-se em outro lugar. / Não importa que estejas cheio de água do mar. / Eu amei por muito tempo um garoto / que tinha uma plúmula na língua / e vivemos cem anos dentro de uma navalha. / Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco. / O uivo / é uma longa língua roxa que deixa / formigas de espanto e licor de lírios. / Já vêm até a rocha. Não alargues tuas raízes! Aproxima-se. Geme. Não soluces em sonho, amigo. / Amigo! / Levanta-te para que ouças uivar / o cão assírio. Poema do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936). Veja mais aqui.

A ARTE DE ZUZU ANGEL
Em setembro de 1971, organizei um desfile de modas em Nova York. Na oportunidade, denunciei o que já sabia a respeito de meu filho, que já havia sido preso […], torturado e provavelmente assassinado pelo governo militar brasileiro.
Palavras da estilista Zuzu Angel (1921-1976), depois do assassinato do seu filho Stuart Edgar Angel Jones, torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira. Ela morreu em um suposto acidente automobilístico na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado, no Rio de Janeiro. A sua luta foi para o cinema por meio do drama biográfico Zuzu Angel (2006), do diretor Sérgio Rezende. Veja mais aqui.


A arte de Silvio Hansen & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
&
Todo dia é dia do Meio Ambiente aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
&
O teatro de Eugene Ionesco (1909-1994) aqui e aqui.
&
A poesia de Frederico Spencer aqui e aqui.
&
Programa Tataritaritatá, a poesia de Allen Ginsberg, as esculturas de Jean-Michel Bihorel, o cinema de Ian McEwan & Keira Knightley aqui.
 

sexta-feira, junho 05, 2015

MEIO AMBIENTE, LORCA, NAVA, ZUZU, WHITMONT, ARGERICH, KENNY G & TEREZA COSTA REGO.


VAMOS APRUMAR A CONVERSATodos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações (art. 225, CF/99). O livro A questão ambiental: diferentes abordagens (Bertrand Brasil, 2007), organizado por Sandra Baptista da Cunha e Antonio José Teixeira Guerra, trata de temas como a sociedade e natureza, política e gestão ambiental, sustentabilidade e educação ambiental, perícia ambiental, turismo sustentável: planejamento e gestão, encostas e questão ambiental, canais fluviais e questão ambiental, entre outros assuntos. No prefácio os organizadores assim se manifestam de forma indagadora: A ecologia virou moda, matéria de escola, programa de TV, bandeira política e campo profissional. Como navegar nesses mares sem cair no reducionismo do senso comum, no tecnicismo dos burocratas ou na demagogia dos governantes de plantão? Como entender as causas econômicas e políticas das agressões à natureza e ao mesmo tempo capacitar-se para enfrenta-las no campo dos conceitos históricos e filosóficos, assim como nas trincheiras técnicas e das políticas ambientais? [...] nas faculdades, nas agências ambientais, nas ONGs sérias e na educação ambiental da nossa sociedade, capacitando-a para trilhar o caminho do desenvolvimento solidário, no combate à exclusão e às práticas predatórias, na defesa de todas as formas de vida e de cultura. Vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Mulher nua de costas, da pintora que retrata o imaginário popular pernambucano Tereza Costa Rego. Veja aqui e aqui.

Curtindo o álbum Kenny G Live no Concertos de Humphrey By The Bay, San Diego, Califórnia (Arista Records, 1989), do saxofonista estadunidense Kenny G.

RETORNO DA DEUSA – O livro Retorno da deusa (Summus, 1991), do psicoterapeuta da psicologia junguiana e homeopata MD Edward C. Whitmont (1912-1998), trata sobre a feminilidade, a agressão e a moderna busca da maturidade, abordando temas como o dilema e a teofania modernas, desejo, violência e agressão, mito e funcionamento psicológico, consciência em evolução, Dioniso e Apolo, os mitos patriarcais, o exilio humano, bode expiatório, a morte de Deus, o feminino e sua repressão, novos modelos de orientação, individuação e destino, ética e ritual, entre outros assuntos. Destaco o trecho a seguir: [...] O homem começou a arrastar-se na direção da mulher. Ela ficou paralisada em seu lugar. À medida que ele ia chegando mais perto, ela começou a mexer o corpo numa dança sinuosa, altamente convidativa. Quando ele estava suficientemente perto para alcançá-la, ela parou de repente e deu-lhe as costas. Ao ver que ele tentava, muito desajeitado, virá-la de frente para ele à força, ela voou para a garganta dele como se quisesse estrangulá-lo. No mesmo instante, entraram num combate violento, engalfinhando-se e rolando pelo chão. Depois disseram que aquela briga cheia de raiva estava repleta de nítidas implicações eróticas. Diante da descoberta da ambivalência, pararam e começaram a examinar o que tinha acontecido. Fora visível aos espectadores, assim como aos participantes, que a motivação da mulher era provocar a agressão do homem a qualquer custo. Ela se arriscava à violência, e talvez até mesmo a desejasse, para poder ser notada como mulher. Sentia-se negligenciada e inferior como mulher e precisava provar para si mesma que conseguia atrair os homens, pelo menos fisicamente. No entanto, quando teve sucesso nessas manobras, não estava mais disposta (na verdade, sentia-se incapaz) a encarar as consequências de sua provocação. Queria que a notassem como pessoa, e não apenas como corpo, e a aproximação física direta que ela provocava constantemente (embora de modo inconsciente) só intensificava seus sentimentos de inferioridade e a deixava cada vez mais irada [...] Então os papéis foram invertidos. Um reencenou e copiou o papel do outro [...] Ao reconhecerem o que tinha acontecido em suas experiências e feedbacks mútuos, ambos puderem ver os próprios problemas e começar a entender o outro, a simpatizar com ele. Abriu-se para eles um caminho de comunicação e de ajuda recíproca onde antes só tinha havido mútuos ressentimentos [...]. Veja mais aqui.

BAÚ DE OSSOS – O livro Baú de Ossos (Companhia das Letras, 2012), do escritor e médico brasileiro Pedro Nava (1903-1984), reconstitui a genealogia dos antepassados e os primeiros anos da infância do autor, uma testemunha privilegiada da história do Brasil no século XX, iniciado em 1968. Na obra o autor apresenta com maestria e precisão na reconstituição dos detalhes do passado mais remoto, realizando um vasto panorama da sociedade e da cultura brasileiras no século XIX e no início do século XX. Da obra destaco o trecho inicial: Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais. Se não exatamente da picada de Garcia Rodrigues, ao menos da variante aberta pelo velho Halfeld e que, na sua travessia pelo arraial do Paraibuna, tomou o nome de rua Principal e ficou sendo depois a rua Direita da Cidade do Juiz de Fora. Nasci nessa rua, no número 179, em frente à mecânica, no sobrado onde reinava minha avó materna. E nas duas direções apontadas por essa que é hoje a avenida Rio Branco hesitou a minha vida. A direção de Milheiros e Mariano Procópio. A da rua Espírito Santo e do Alto dos Passos. A primeira é o rumo do mato dentro, da subida da Mantiqueira, da garganta de João Aires, dos profetas carbonizados nos céus em fogo, das cidades decrépitas, das toponímias de angústia, ameaça e dúvida — Além Paraíba, Abre Campo, Brumado, Turvo, Inficionado, Encruzilhada, Caracol, Tremedal, Ribeirão do Carmo, Rio das Mortes, Sumidouro. Do Belo Horizonte (não esse, mas o outro, que só vive na dimensão do tempo). E do bojo de Minas. De Minas toda de ferro pesando na cabeça, vergando os ombros e dobrando os joelhos dos seus filhos. A segunda é a direção do oceano afora, serra do Mar abaixo, das saídas e das fugas por rias e restingas, angras, barras, bancos, recifes, ilhas — singraduras de vento e sal, pelágicas e genealógicas — que vão ao Ceará, ao Maranhão, aos Açores, a Portugal e ao encontro das derrotas latinas do mar Mediterrâneo. Além de dar assim leste e oeste para a escolha do destino, a rua Direita é a reta onde cabem todas as ruas de Juiz de Fora. Entre o largo do Riachuelo e o alto dos Passos, nela podemos marcar o local psicológico da rua do Sapo, da rua do Comércio, da rua do Progresso, da rua do Botanágua, com a mesma precisão com que, nos mapas do seu underground, os logradouros de Londres são colocados fora de seu ponto exato, mas rigorosamente dentro de sua posição relativa. É assim que podemos dividir Juiz de Fora não apenas nas duas direções da rua Direita, mas ainda nos dois mundos da rua Direita. Sua separação é dada pela rua Halfeld. [...]. Veja mais aqui.

PEQUENO POEMA INFINITO – O texto Pequeno Poema Infinito (Aplauso, 2004), do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936), é um espetáculo idealizado a partir de uma conferência do autor Como canta uma cidade de novembro a novembro (1933), em que ele fala de suas relações com sua terra natal, Granada, descrevendo o movimento contínuo das estações do ano, o folclore musical, as tradições populares e paisagens, revelando suas experiências de artista e cidadão. Destaco o Prólogo: Senhoras e senhores: Desde o ano de 1918, quando ingressei na Residência dos Estudantes de Madri, até 1928 ano em que a abandonei, terminados meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão onde a velha aristocracia espanhola ia para corrigir sua frivolidade de praia francesa , cerca de mil conferências. Com desejo de ar e de sol, eu me entediei tanto que ao sair me senti coberto por uma leve cinza quase a ponto de converter-se em pimenta de tanta irritação. Não. Não quero que entre nesta sala a terrível mosca do tédio que une todas as cabeças por um tênue fio de sono e põe nos olhos dos ouvintes uns grupos diminutos de pontas de alfinete. De modo simples, com o registro que em minha voz poética não tem luzes de madeiras nem ângulos de cicuta, nem ovelhas que subitamente são facas de ironias, vou ver se posso lhes dar uma simples lição sobre o espírito oculto da dolorida Espanha. [...] Como uma criança que mostra cheia de assombro a sua mãe vestida de cor viva para uma festa, assim quero lhes mostrar hoje a minha cidade natal. A cidade de Granada. Para isso tenho que usar exemplos de música e os tenho que cantar. Isso é difícil porque eu não canto como cantor mas como poeta, ou melhor, como um moço simples que vai guiando os seus bois. Tenho pouca voz e a garganta delicada. Assim, não há nada de estranho se me acontecer de desafinar como um galo. Mas se isso acontecer tenho certeza de que não será o galo corrosivo dos cantores, que lhes pica os olhos e destrói sua glória, mas eu o transformarei em um pequeno galinho de prata que porei amorosamente sobre o doce colo da garota [...] mais melancólica que exista neste salão. Um granadino cego de nascimento e ausente muitos anos da cidade saberia a estação do ano pelo que ouve cantar nas ruas. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ZUZU ANGEL – O drama biográfico Zuzu Angel (2006), do diretor Sérgio Rezende, contando a vida e a luta da estilista brasileira Zuleika Angel Jones (1921-1976), mãe do estudante de economia e militante político Stuart Angel Jones, torturado e assassinado pela ditadura militar, por integrar organizações clandestinas que combatiam a ditadura militar. Narra a busca dessa mulher por explicações e aparecimento do corpo do seu filho que só termina com a sua morte num acidente de carro na Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, ocorrida na madrugada de 14 de abril de 1976. Uma semana antes de sua morte, ela deixara um documento na casa de Chico Buarque em que se encontrava inscrito que: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho". Veja mais aqui.


IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia de homenagear a linda e uma das maiores virtuoses pianista argentina Martha Argerich.


Veja mais sobre:
Lugome, sua familia, seu infortúnio, Poesia erótica de José Paulo Paes, Fundamentos de história do direito, O combate à corrupção nas prefeituras do Brasil, Aracaju, a música de Gina Biver, a pintura de Sofan Chan, a arte de Eiko Ojala & Rudson Costa aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, A condição humana de Norbert Elias, O homem de outrora de Alexander Pushkin, O lugar do outro de Jean-Luc Lagarce, a música de Eduardo Camenietzki, a pintura de Paul Gauguin, o desenho de Luis Fernando Veríssimo & a arte de Flávia Alessandra aqui.
Espera, Iniciação filosófica de Karl Jaspers, A crise das ciências humanas de Hilton Japiassu, Memórias de um rato hotel de João do Rio, Manipulação da crise da arte de Dario Fo, Os contos proibidos de Marquês de Sade, a música de Regina Schlochauer, a escultura de Diogo de Macedo, a pintura de Ghada Amer, a arte de Anthea Rocker & Aaron Czerny, Kate Winslet, Jazz & Cia Grupo de Dança, a entrevista de Braulio Tavares, a fotografia de Herbert Matter, Dicionário Tataritaritatá, O que sou de praça na graça que é dela & O brasileiro é só um CPF Fabo arrodeado de golpes por todos os lados aqui.
De golpe em golpe a gente vai aprendendo, O coração humano de Goethe, Iniciações tibetanas de Alexandra David-Néel, Adeus ao proletariado de André Gorz, Sistematização da prática e da teoria de José Paulo Netto, a música de Franz Schubert & Mitsuko Uchida, a pintura de Lygia Clark & John Currin, a escultura de Horatio Greenough, a arte de Marina Abramović & Simone Spoladore, a fotografia de Carl Warner, a coreografia de Anna Halprin, entrevista de Tchello d’Barros, Oficina de Cordel, Laura Barbosa, O vexame da maior presepada & Do jeito que esse mundão vai só Deus na causa aqui.
Tantas fazem & a gente é quem paga o pato, Nietzsche & a psicologia, A condição pós-moderna de Jean-François Lyotard, Nova história de Georges Duby, a literatura de George Orwell & Alfredo Flores, a pintura de Balthus, a fotografia de Marta Maria Pérez Bravo & Richard Murrian, A dona história de João Falcão, a escultura de Marco Cochrane, a música de PJ Harvey, a entrevista de Virna Teixeira, O infortúnio da prima da Vera & Quando a bronca dá na canela, o melhor é respirar fundo à flor d’água pra não morrer afogado aqui.
Pra tudo tem jeito, menos pro que não pode ou não quer, Neuroeducação no processo de ensino-aprendizagem, a consciência fragmentada de Renato Ortiz, Procedimento histórico de Adalberto Marson, O caldeirão do diabo de Baldomero Lillo, a coreografia de Eugenio Scigliano, O narrador de Rubens Rewald, o cinema de Wayne Wang & Gong Li, Baghavad Gita, a escultura de Émile Antoine Bourdelle, a pintura de Katia Almeida & Lisa Yuskavage, a música de Paula Morelembaum, a fotoforma de Geraldo de Barros, a entrevista de Ulisses Tavares, a arte de Wanda Pepi, Zé Corninho & Quem sabe, sabe; quem não sabe tapia na gambiarra ou leva na marra pra engalobar os bestas aqui.
Tudo tem seu lado bom & ruim & vice-versa, A criança, Vygotsky e o Teatro, Brincar para Aprender, a filosofia de Hermes Trismegistos de Jean D’Espagnet, Linguuagem & vida de Ludwig Wittgenstein, O homem criador e sensato de Alan Watts, a música de Mozart & Alicia De Larrocha, Treva alvorada de Mariana Ianelli, a coreografia de Merce Cunningham, a escultura de Aristide Maillol, a pintura de Johfra Bosschart & Sharon Sieben, a fotografia de Luiz Cunha, a arte de Ana Starling & Rodrigo Branco, o teatro de Maria Adelaide Amaral & Marília Pêra, o cinema de Don Ross & Christina Ricci, a entrevista de Valquiria Lins, O evangelho segundo Padre Bidião & Jesus voltou aqui.
Brincar para aprender aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...