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segunda-feira, agosto 25, 2025

VERA IACONELLI, RITA DOVE, CAMILLA LÄCKBERG & DEMOROU MUITO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tempo Mínimo (2019), Hoje (2021), Andar com Gil (2023) e Delia Fischer Beyond Bossa (2024), da pianista, cantora, compositora e arranjadora Delia Fischer. Veja mais aqui & aqui.

 

Escotoma onírico (ou o testamento que entrou pra história)... - Quem da praça da matriz, virado pra banda da metade meridional da cidade, bandeando-se pro leste, vai pro arruado da usina e passa por ali. Isso mesmo. Lá adiante mais umas léguas é o cemitério, mas basta dobrar à destra pela esquina, 3 prédios depois, ou quase, lá está sem identificação alguma. E nem precisa, não tem errada: pros lados de cá até que é bem grandinho, ocupando um terreno largo e comprido, alvenaria tomada por um imenso salão com cadeiras e mesas, muitas prateleiras pelas paredes desbotadas quase sem reboco, todas preenchidas com garrafas numeradas e ao redor dum balcão enorme envidraçado, com a oferta de produtos e divisando o ambiente um tanto anacrônico, mas é ali mesmo. Logo verá um freguês se adiantado a soar seu sincero pedido e é lá que ele mesmo está, aquela figura de gente austera, perfunctório, aboletada na porta e nem um pouco extravagante: o dono da Carne-de-Sol de ZéMago. O próprio, sujeito franzino, cabeleira rala grisalha deixando à mostra a quase calvície, os olhos desconfiados, o bigode raspado embaixo da venta, sobressaindo-lhe apenas por sobre o beiço superior, a voz de soprano com sua modesta indumentária impecável, apesar de solteirão convicto – é que tirou sentido das coisas de amor depois de já madurão e foi o que-não-sei, coisa de coração enjaulado, olhos findantes e ela a dita era o caos e nunca mais. Até debaixo d’água sofreu a dor de amor e se refez nas espumas de espremido caracol: Em casa de amorante, solidão é o fim do mundo. Triste de quem foi e de lá voltou. Era ele praquela, nunca mais. No fundo do imóvel via-se duas portas pros sanitários e uma outra, mais estreita, com um cartaz garatujado: PRIVADO – Proibida a entrada de enxeridos. É lá, cochichavam, a cozinha da bruxa de fala fina. Logo na entrada parecia o cicerone aboletado no caixa-recepção, no qual pediam, pagavam e já pegavam, ao seu comando, a comida no prato, seguindo para se aboletar em qualquer mesa. Outra advertência: não fale fiado. Isso evita pandemônio de vitupério. Todo dia, às 11 em ponto, o povo chegava de faro atiçado pelos sabores acesos, tudo figurinha carimbada de décadas e até séculos – como Zalfredim encostado num canto a berrar: Tomara que dê uma cheia pra levar os cornos daqui! A esponsal dele, Bastiana, da janela vizinha alertava: Cala boca, véio fresco, tu num sabe nem nadar! Gargalham fregueses assíduos, fidelizados pelo paladar e ronco da barriga. Eram pseudoutos e desinformados, poetastros e linguarudos, probos e lesados, fiéis e descrentes, mutreteiros e detratores, polêmicos fuxiqueiros pervertidos; agiotas, barnabés e puteiros, manipuladores e bem-mandados, cornos e aduladores - uma mundiça inconformada de chatos devoradores, gente insossa e mal-nutrida, arre égua! Todos apreciadores da graça rústica do local. Do tipo Zé Borreia que morreu um dia desse e todos lamentavam: Ah, quem mandou ele peidar na venta dum demônio, bem empregado: findou com estridente enfiado no boga! Entalado? Iapois. E a próxima vítima? Ninguém escapa, meu. Os folgados pediam: Frango assado, Zé! Vá pedir à quenga da sua mãe! E uma cerveja gelada: Vá pedir ao corno do seu pai! Bora, bora! Quero meu pedido! Vá pro fim da fila pra deixar de ser entrão! Outros gaiatos pediam conhaque, rum, vermute, gin, cerveja ou até cachaça! Quando não fígado, peixes, crustáceos. Vão tudo se lascar! Modéstia à parte: aqui só tem o que é bom! Ah, vá sentar légua no cangote, seu fi-duma-égua! Magote de sonsos das matas finadas, mesmo assim, té hoje mando de cana mesmo sem ter quem moa. E tombávamos todos, gente de peripécia própria ou de diversificadas personas, diante do dicomer sustante, gostinho daquela comida caseira, todos servidos em pratos feitos de cascos de cágados, tartarugas e tatus; em cumbucas de barro, de pedra sabão ou louça cerâmica, coités, vasilhas, panelas, potes, tigelas, terrinas, cuias, o que tivesse à mão. Os talheres tudo de pau: garfos, facas, colheres. E todos matavam a sua fome às dentadas, engolidas, abocanhadas, cada garfada, colherada, facada; todo mundo já sabia, nem precisava de cardápio, expediente bem definido, a partir das 11 saía o rango: a afamada carne-de-sol é servida acompanhada de feijão-de-corda, com arroz, vinagrete e uma lapada de cortesia da abrideira Teibei – a segunda, por conta do freguês, acende o candeeiro; a terceira, paga por antecipação, pega o jipe de sair riscando tudo até desenvultar! Basta, então, a primeira golada e a ineivada entra rasgando tudo, do de cujus estalar os dedos, alvoroçado, sentir a fisgada no osso do mucumbu, do retrato da identidade se arrepiar todo. Aí o cabra entra em combustão, baixa o santo e incorpora logo uma entidade sã fazendo vulto capaz de adivinhar o futuro e o prêmio bolada da loteira. U-hu! Me dá uma meiota dessa disgrama, vai! Nem um quartinho sequer, tá doido! Há a opção para quem corajoso queira se deliciar com a incendiária Queima Toba – uma pimenta malagueta preparada para aparentá-la àquela ardida X, mais esquentada que a Carolina Reaper, como se fosse o cruzamento das fuderosas Habanero e a Naga Bhut Jolokia. Ou melar tudo com manteiga de garrafa, outra especialidade da casa. O almoço é servido até às 15, quando todos os presentes, tendo ou não concluído o repasto, é enxotado. Porta arreada só reaberta às 17, pros achegados da sopa Esquenta Peito, também acompanhada duma modesta talagada grátis da Teibei. Dizem que o sucesso da sopa é por conta daquele misterioso Osso de Hermilo. Sabiam? E ele bota nomes de tacacá, tacapitu e buré. Tudo encerrado sumariamente às 19, arriando as portas quando a noite vai subindo pro descanso diário. A partir da meia noite começa o serão, para o qual acorrem atraídos paisanos, dados por notívagos ou desencaminhados. É a hora do milagroso Mingau de Cachorro. Ô Zé me dá logo a gosma do guenzo que eu quero dar um plantão numa frochosa de Cantochão! Quem bêbado fica sóbrio; quem doente, curado; quem mortificado, salva-se uma alma! Glória, Deus! E para quem boiou ou caiou a noite toda, doses cavalares da Teibei para levantar a crista e ferver o juízo. Uma recomendação do proprietário: Beba com moderação, senão você sai do riscado todo triscado! Da sexta pro sábado o turno encomprida e vira noite adentro por causa da feira: Ô povo morto de fome! Só arriando as portas lá por volta das 13 e só reabrindo meia noite com o Festival Corujão-pra-que-te-quero. Esse é o estopô calango! É quando emenda ao domingo de porta-arreada às 5, só a portinhola do pega-bêbo aberta. É a hora do rega-bofe domingueiro, das garrafadas e doutras gororobas encomendadas durante a semana e só entregáveis aos domingos. As garrafadas Frevo Arrepia – a que levanta defunto de 7º dia, são muito procuradas e são preparadas pros fraquejados famélicos que encomendaram durante a semana e entregues inadiavelmente na hora aprazada: Esse xarope tônico é para tomar em jejum, tiro e queda! Ô bicha boa! No cardápio dominical pros perdidos e desencontrados, ele serve para pagar, pegar e levar: sopa da cabeça de peixe (camurins, acaris, jundiás, pirambebas, piabas, traíras, tudo do seu criatório no quintal de casa – ninguém nunca viu, quem vê morre!), pituzada, buchada de bode, a farofa - farinha assada na carapaça de tartaruga; afora cuscuz, salada de legumes e verduras, cobertura de queijo de coalho banhado por manteiga de garrafa; sem contar com cuscuz, canjica, xerém, munguzá, angu; ensopado de jerimum no queijo coalho, inhame, macaxeira, batata doce; tudo colorido com saladas de pimentão gigante, sementes e casca de romã ralada, castanha de caju, caroço de abacate, amendoim, casca e coroa de abacaxi, coco ralado, cebola, alho, tomate, limão, gengibre, outras ervas silvestres para dar mais gosto, como alecrim pimenta, aroeira, macela, cumaru e quebra-pedra; mais coentro, cebolinha, tudo ralado em pós, afora a coleção de pimenteira da sua flora diversa, mais as fruteiras de encher os olhos: maracujá, cereja, jaboticaba, tamarindo, cupuaçu, jaca, pitanga, acerola, graviola, caju, umbu, mangaba, jambo, siriguela, cajá, murici, cajarana, araticum; também licores de jenipapo, berinjela, caldo de cana, bolo de rolo, passa de caju, cocada, tapioca, arroz doce, munguzá, arrumadinho, escondidinho de charque, caldinho de peixe, peixadas, coalhadas, tudo com seus temperos poderosos nas receitas de sua própria experiência gastronômica. No balcão dos pega-bêbos só a teibei e pra tira-gostos na hora são tripa de porco ou salame, ou mesmo frutas que estão por ali perdidas para adoçar o paladar do recalcitrante. Às 18 fecha tudo e só segunda reabre, que ninguém é de ferro. É quando largam, às escondidas, a cozinheira e os auxiliares – lavadoras das louças, faxineira, copeira, os sobrinhos e afilhados: acima dos 10 anos ficam muito sabidos! Roubam que só a peste! O anfitrião ali ouve tudo e de tudo sabe, mas diz que não. Besta, nada. Ao ser perguntado: Não sei nada nem tenho tempo pra fuxico: futrica é na outra esquina. Foi o que respondeu certa vez pro delegado, que, já acometido pelas dores de um fecaloma desgraçado, emputeceu-se e destampou a bronca, de quase prendê-lo incomunicável. Ôpa! Deixa disso. Caso esclarecido. Morreu de quê mesmo? Ao delongar o tempo que nunca parou e choveu de doer horas inteiras terrafora, sem remorso, o frio novo madrugava, já manhã clara, ele lá no seu tanto vivido soçobrou. Às antes matas levitavam no solúvel do seu íntimo e calaram nele ao pé da cruz. Entregou-se sabe-se lá seus motivos e queixas, como um grito lavado pela lama empoçada no barro batido da rodagem pantanosa do choro. Foi-se triturado pela moagem barulhando esmagadora na moenda e o caldo do bagaço escorreu na veia estourada, o sangue e o piripaque no peito sem estrondo, de beirar o ostracismo com a alma nas trevas. Caiu do trono com uma ideia esquisita, doida, obstruindo embaixo, veia cardíaca lá do fundo onde guardava o resto da lembrança daquela de nunca mais e quixoteou súbita glória, era tarde, a incompletude do rastro na palma da mão, não havia mais aonde ia dar. Bateu biela, genuflexo: esvaziou-se no mata-borrão, olhos rasos d’água, caligrafia borrada, sem quê reinventar-se, desconchavado incólume e agora, não temia mais seus abismos, seus desertos segredos. Absorto, suspenso pela procissão de quelônios fantasmas, ai-de-quem, à tona incôngruo, seu tumulto foi maior. Foi-se com seus ais, quando lembrou de Deus e imergiu em zilhões de coisas ao mesmo tempo, difuso, despersonalizado, uno, foi-se. Era o tranquilo morrer-se enfim. Foi-se esquecendo pra renascer no epitáfio da lápide: Aqui jaz aquele que brindou a vida e tudo o que amealhou saiu gastando a peidar, arrotar, cagar e mijar; o amigo que lembrou dos vivos safados e dos que se foram... Eu também voo. Sepultado foi com um testamento emaranhado num nó cego da peste de bem dado que, até hoje, os parentes todos tentam desengachá-lo. Até mais ver.

 

Annie Ernaux: Procurei o amor da minha mãe em todos os cantos do mundo... A dor não pode ser mantida intacta, ela precisa ser “processada”, convertida em humor... Ela me ensina que o mundo foi feito para ser aproveitado e aproveitado, e que não há absolutamente nenhuma razão para se conter... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Coco Chanel: Não gaste tempo batendo em uma parede, na esperança de transformá-la em uma porta... O ato mais corajoso é ainda pensar por si mesmo... Como tudo está em nossas cabeças, é melhor não perdê-las... Veja mais aqui & aqui.

Dorothy Parker: Se você quer saber o que Deus pensa sobre o dinheiro, basta olhar para as pessoas que ele deu... A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

APOLOGIA ACONCHEGANTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu poderia escolher qualquer coisa e pensar em você \ — Esta luminária, a chuva parada pelo vento, o azul brilhante \ Minha caneta exala, secando fosca, sobre a página. \ Eu poderia escolher qualquer herói, qualquer causa ou época \ E, tão certo quanto atirar flechas no coração, \ Montado em uma égua malhada, pernas tão afastadas \ Quanto ficar em estribos de prata permitir \ — Lá estará você, com a testa franzida \ E a cota de malha brilhando, para me libertar: \ Um olho sorrindo, o outro firme no inimigo. \ Esta era pós-pós-moderna é só negócios: \ CDs e faxes, um evento do tipo "faça agora e não corra riscos". \ Hoje, um furacão está se aproximando da costa, \ Estranhamente masculino: o Grande Floyd Mau, que traz uma horda \ De devaneios: reminiscências constrangedoras \ De paixões adolescentes por garotos inúteis \ Cujo único talento era beijá-la até deixá-la sem sentido. \ Todos tinham nomes de maricas — Marcel, Percy, Dewey; \ Eram finos como alcaçuz e tão mastigáveis, \ Doces com um centro escuro e oco. \ Floyd Xingando sem parar. \ Você está enclausurado no seu Aerie, eu estou empoleirado no meu \ (Mesas gêmeas, computadores, pisos de madeira): \ Estamos contentes, mas ficamos aquém do Divino. \ Ainda assim, é constrangedor, essa felicidade \ — Quem se satisfaz simplesmente com o que é bom para nós, \ Quando o comum já foi notícia? \ E, no entanto, porque nada mais serve \ Para me livrar da melancolia (chame de tristeza), \ Preencho este tempo roubado com você.

Poema da premiada poeta e ensaista estadunidense Rita Dove (Rita Frances Dove), autora da obra On the Bus With Rosa Parks (1999).

 

GAIOLA DOURADA - […] Parece haver algum tipo de tristeza em você. Acho isso atraente. Desconfio de pessoas que andam por aí achando que a vida é só risadas o tempo todo. Pessoas que estão sempre felizes me entediam. Não deveríamos estar felizes o tempo todo, senão o mundo pararia. [...] O maior problema das pessoas, percebi, é que elas projetam sua própria tristeza nos outros. Tente compartilhá-la. Elas imaginam que, por compartilharmos o mesmo DNA, automaticamente nos sentiremos tristes com as mesmas situações. A tristeza não fica mais fácil de lidar simplesmente porque você a compartilha. Pelo contrário, ela se torna mais pesada. [...] A libertação de se encontrar no fundo do poço. Sem risco de cair ainda mais na merda. [...]. Trechos extraídos da obra Golden Cage ( Vintage Crime/Black Lizard, 2021), da escritora sueca Camilla Läckberg, que na sua obra The Cuckoo (Hemlock Press,2024), ela expressou que: […] Literatura é vida e morte. Pessoas vêm e vão. Nós vivemos. Nós morremos. Mas a literatura que criamos continua viva. [...]. Já no seu livro El espejismo - Planeta Internacional nº 3 (2024), ela registra que: […] Conceda-me serenidade para aceitar o que não posso mudar, coragem para mudar o que posso e sabedoria para saber a diferença. [...]. Também é autora de obras como: Women without mercy (2018), Buried Angels (2014), The Angel Maker's Wife (2011), The Ice Princess (2011), The Preacher (2011), Las hijas del frío (2011), The Hidden Child (2007), entre outros, sendo atrabuida a ela a frase: Se você não se permitir amar, correria o risco de perder tudo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ANÁLISE - [...] Muitos são os caminhos que nos levam a procurar a ajuda de um psicanalista, e todos passam por um certo caldo de cultura que entende que a psicanálise seria uma resposta para o sofrimento. Calhou de eu sentir uma tristeza enorme aos dezessete anos, e de conhecer uma psicóloga que conhecia uma psicanalista. Daí para cair de costas num divã foram dois palitos. Já o percurso que me levou a precisar de ajuda é bem mais custoso de descrever. Resisto o quanto posso. Essa história tem infinitas versões possíveis, e qualquer coisa que eu disser a partir daqui será mais uma delas, ou seja, construções e improvisos sobre um vazio original. Nasci a quinta filha em uma prole de seis — ou deveria dizer oito, uma vez que meu pai teve dois filhos fora do casamento, cuja existência só descobri na adolescência? [...] Freud diz que o trauma é precedido pela calmaria para a qual sonhamos voltar, na expectativa impossível de recolocar a pasta de dentes no tubo espremido. Buscamos refúgio nas cenas que antecedem o acontecimento trágico, recriando um momento idílico antes do mal súbito. É como se, no meio de uma guerra, sonhássemos com o tempo anterior ao fatídico bombardeio no qual perdemos um ente querido, sob a condição de esquecermos convenientemente que já estávamos em guerra. Mas há outras formas de lidar com a intensidade traumática. Uma paciente pode contar uma cena de abuso da qual só se lembra das cores do lustre que tinha ao alcance dos olhos. É como se, para suportar o insuportável, só lhe restasse reduzir-se a um olho que vê um lustre, deixando o corpo ausente de si enquanto o algoz desfruta dele. Os relatos de tortura dizem muito dos subterfúgios que usamos para preservar a alma frente ao horror. [...]. Trechos extraídos de Análise (Zahar, 2025), da psicanalista e psicóloga Vera Iaconelli, atuando como membro do Instituto Sedes Sapientiae e da Escola do Fórum do Campo Lacaniano, autora dos livros Mal-estar na maternidade: do infanticídio à função materna (Zagodoni, 2020) e Criar filhos no século XXI (Contextoi, 2020).

 

DEMOROU MUITO, DE ADMMAURO GOMMES

Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] Ninguém me avisou que eu teria \ que passar por lugares tão estreitos \ e íngremes e escorregadios \ e enfrentar perigos inúteis. \ Tudo era para ter o aroma da felicidade \ e beijos e flores e cores e afagos \ mas nada de fantasmas medievais \ nem internéticas assombrações. \ Era para ser o filme do ano \ a conquista sempre e inevitável \ e o renascer da esplendorosa manhã \ onde os campeões dão a volta olímpica \ com a taça na mão. [...].

Trecho do poema Demorou muito, do poeta, professor e revisor Admmauro Gommes, poema este que recebeu modestas considerações minhas e uma resenha crítica do poeta Vital Corrêa de Araújo. Veja o texto completo aqui & mais aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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quinta-feira, setembro 22, 2016

ROSAMUNDE PILCHER, SILKE AVENHAUS, NIETZSCHE, BETH MOYSES, MARCO POLO, KRIS & KURZ, ANTONIO SAURA & IDOSOS

INEDITORIAL: A GENTE TEM É QUE FAZER, NUNCA ESPERAR QUE FAÇAM POR NÓS – Salve, salve, gentamiga do meu Brasil varonil assaltado pelo golpe da pior moléstia política de então! Coisas do Brasil que quer ser Brazil só nas coxas, maior jeitinho pra engalobar os bestas. Se ditadura nunca mais, corja de temerosos muito menos. Não tem jeito, a gente só aprende mesmo apanhando. Assim foi e é desde 1500, verdadeiro Fecamepa! Mas mudando de assunto, hoje é o Dia Mundial Sem Carro! Eu mesmo, voluntariamente, ando a pé. Por isso não quero embananar mais o tráfego já tão engarrafado. Vôte! Quanta falta de educação. Todo motorista deveria fazer curso de direção defensiva e primeiros socorros quando fosse renovar a carteira, compulsoriamente. Com certeza, minimizaria a bronca que é trafegar nas ruas e avenidas desse país. Ah, mas vamos pras novidades que é melhor: hoje é de montão. Primeiro, o nosso Brasil que é um desamparado menino envelhecido! – Por favor, cuidemos dos nossos idosos! Pra quem não está lembrado, todo mundo começa como criança, cresce, cai no mundo, se fode e fode tudo, fica adulto e, depois, todo mundo passa pela velhice. Chegará a sua vez, viu? Ah, tem também a música da pianista alemã Silke Avenhaus, o enigma do artista extraído dos historiadores austríacos Ernest Kris e Otto Kruz, Os catadores de conchas da escritora Rosamunde Pilcher, as viagens de Marco Polo, mais um trecho da Gaia Ciência de Nietzsche, a arte performática de Beth Moyses e o artista espanhol Antonio Saura. No mais, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

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João sem terra de Hermilo Borba Filho, Miguel Angel Asturias, Gonzaguinha, Michael Faraday, Guy Green, Thomas Rowlandson, Teatro Infantil, Franz Russ Jnr, Yara Cortes, Anna Karina, Fernando Griz & Ideologias e ciências sociais aqui.
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Proezas do Biritoaldo: Quando o bicho é sonso tira fino até na beira do abismo aqui
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Proezas do Biritoaldo: Quando se dá corda, o bocó fica folgado que só boca de sino aqui.
O amor & as previsões do Doro aqui.
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DESTAQUE: BRASIL – O DESAMPARO A UM MENINO ENVELHECIDO
O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial. No Brasil o processo iniciou-se a partir de 1960 e as mudanças se dão a largos passos. Em 1940, a população brasileira era composta por 42% de jovens com menos de 15 anos enquanto os idosos representavam apenas 2,5%. No último Censo realizado pelo IBGE, em 2010, a população de jovens foi reduzida a 24% do total. Por sua vez, os idosos passaram a representar 10,8% do povo brasileiro, ou seja, mais de 20,5 milhões de pessoas possuem mais de 60 anos, isto representa incremento de 400% se comparado ao índice anterior. A estimativa é de que nos próximos 20 anos esse número mais que triplique. [...] Apesar de avanços, como a aprovação do Estatuto do Idoso, a realidade é que os direitos e necessidades dos idosos ainda não são plenamente atendidos. No que diz respeito à saúde do idoso, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não está preparado para amparar adequadamente esta população. Neste contexto, prevalecem as doenças crônicas e suas complicações: hipertensão arterial, doença coronariana, sequelas de acidente vascular cerebral, limitações provocadas pela insuficiência cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crônica, amputações e cegueira provocados pelo diabetes além da dependência determinada pelas demências. [...] Os profissionais da saúde tem olhar fragmentado do idoso e não foram capacitados para atendê-lo de maneira integral. As equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) e dos Núcleos de Apoios da Saúde da Família (NASF) por sua vez, estão incompletas e insuficientes para atender esta parcela da população. [...] Este é o retrato da saúde pública no Brasil, que apesar dos indiscutíveis avanços, apresenta um cenário de deficiências e falta de integração em todos os níveis de atenção à saúde: primária (atendimento deficiente nas unidades de saúde da atenção básica), secundária (carência de centros de referências com atendimento por especialistas) e terciária (atendimento hospitalar com abordagem ao idoso centrada na doença), ou seja, não há, na prática, uma rede de atenção à saúde do idoso. [...].
Trecho da Carta Aberta à População Brasileira, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

OS PASSOS DESEMBARAÇADOS NOS EMARANHADOS CAMINHOS - As cidades são quase as mesmas, genringonças amaldiçoadas com as suas mesmas dores: imposturas, relutâncias, belicosidades, gestões escusas e fraudulentas, exclusões, hipocrisia. Uma ou outra paisagem invoca a atenção: a insegurança, as filas, os protestos, as contestações, a marginalidade. O que aprecio mesmo são as pessoas: o jeito, o andar, o sorriso, a assimetria, a sisudez ou simpatia, a receptividade ou hostilidade. Dos lugares, rios, mares, matagais, praças, subúrbios, um ou outro patrimônio histórico mantido, abandonos e insensatez. São as pessoas que me chamam mesmo atenção. Sempre fui menino de quintal, o meu refúgio; fugia por portas encostadas, maçanetas entreabertas, frestas de nada, rua afora. Carregado de temores da infância: bichos, mortes, assombrações. Só dos quintais ou jardins lembranças livres prazerosas e esquecidas, ou dos engenhos com suas rodagens, carro de boi, brejos, caldo de cana. Por isso minha adolescência de caminheiro, paragens muitas, estradas sem rumo, limite no horizonte. Sempre voltei pra casa, pro inferno entre mortos vivos. Valha-me, o que não é pudico, engravatado, politicamente correto ou simplesmente dançante, não é arte, é kitsch, ou a minha arte por baixo da porta. Não sei como conseguem viver com o fedor da miséria, o dito submundo das periferias e dos excluídos dos guetos, esgotos e invisíveis do centro da cidade. Tudo é estranho, há os que se fecham nos seus nichos ou no bloco do eu sozinho – até os meus, nossa! Dou graças por ter sido excluído de todas as panelinhas, de todas as igrejinhas e de todos os clubes do Bolinha, taxado por promíscuo social, porque sou do intercâmbio e das trocas de experiências. Entenda como quiser. Não consigo viver nas redomas sectárias, dos escolhidos arrogantes e autossuficientes soberbos. Para fugir do tédio, nunca fiz uma coisa só – por isso nunca fiz nada que prestasse -, misturo coisas quando coisas misturadas sempre foram vistas como ilícitas ou deletérias. Falta de criatividade é ter reserva de mercado ou segredo industrial, copiar é um vício inevitável, é que teimam em homogeneizar o heterogêneo. Ninguém é igual, organizar o caos é uma imposição arbitrária. Por isso vivo no meio do escuro da mata densa dessas cidades irrespiráveis que querem perfumar pros olhos com os fedores de todos os desatinos. Eu sou a cidade e ela é minha, sangrando como eu, nojenta por descaso, podre por alheamento. E voo e ela vai comigo, meus passos desembaraços no emaranhado dos caminhos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo os álbuns Silke Avenhaus - Piano Songs (Cavi-Music, 2009), da pianista alemã Silke Avenhaus interpretando obras de Mendelssohn Liszt e Schubert.

PESQUISA: O ENIGMA DO ARTISTA COMO PROBLEMA SOCIOLÓGICO - [...] O enigma do artista, o mistério que o rodeia, e a magia que dele emana, pode ser encarado sob duas perspectivas. Pode-se investigar a natureza do homem capaz de criar obras de arte do gênero que admiramos – esta é a abordagem psicológica. Ou pode-se perguntar como é que tal homem, a cujos trabalhos é geralmente atribuído um valor particular, é avaliado pelos seus contemporâneos – a abordagem sociológica. Ambas as abordagens pressupõem que existe um mistérios – que certos traços e predisposições especiais, e por enquanto mal definidos, são necessários para a criação artística, e que certos períodos e culturas foram preparados para conceder um lugar especial, se bem que ambíguo, ao criador da obra de arte. As duas abordagens têm naturalmente muitos pontos de contatos; podemos supor, por um lado, que o modo como a sociedade reage ao artista é parcialmente determinado pelas suas características e dons pessoais, e, por outro, que essa reação tem necessariamente um efeito sobre o artista. [...] o modo como o artista foi julgado pelos seus contemporâneos e pela posteridade – a biografia do artista, no verdadeiro sentido da palavra. No seu âmago encontra-se a lenda sobre o artista. [...]. Trechos extraídos da obra Lenda, mito e magia na imagem do artista: uma experiência histórica (Presença, 1988), do psicólogo, psicanalista e historiador de arte austríaco Ernest Kris (1900-1957) e do historiador e professor austríaco Otto Kurz (1908-1975), tratando sobre o mistério que o rodeia e a magia que emana do artista por meio de duas perspectivas - a psicológica, a natureza do homem criador de obras de arte; e a sociológica, como é que tal pessoa, a cujo trabalho é atribuído um valor particular, é avaliada pelos seus contemporâneos, estudando as conexões entre a lenda e o artista.

UM LIVRO, UMA LEITURA: CATADORES DE CONCHAS
[...] Quando Melanie, a filha de Nancy, usava jeans, ficava com uma aparência terrível, por ter quadris tão grandes. Em Antônia, no entanto, os jeans ficavam fantásticos. Nancy concluiu que a vida era, de fato, muito injusta. [...] É impossível dizer-se ‘não posso suportar isto’, porque, quando não suportamos a situação, a única outra coisa a fazer é parar o mundo e desembarcar dele, porém não existe qualquer maneira prática de se fazer tal coisa. Para preencher o vazio, ocupar mãos e mentes, ela fazia o que as mulheres, quando tensas e em épocas de ansiedade, levavam séculos fazendo: imergir na domesticidade e na vida familiar. [...] Foi tudo muito bom, em cada sentido da palavra. E, nesta vida, nada que seja bom é realmente perdido. Fica fazendo parte de uma pessoa, torna-se parte de sua personalidade.[...] Felicidade é tirar o máximo proveito do que se tem, e riqueza é tirar o máximo proveito do que se conseguiu. [...].
Trecho extraído da obra Os Catadores de Conchas (Bertrand Brasil, 1995), dda escritora inglesa Rosamunde Pilcher, contando a história de uma jovem feliz por ser filha amada e infeliz por ter se casado com o homem errado que, depois, encontra o verdadeiro amor que mergulha em tragédias e problemas. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: AS VIAGENS DE MARCO POLO - [...] Sim, tive milhões e milhões de aventuras! [...] para a China como portador da”civilização” do Ocidente para os “bárbaros” do Oriente. Voltou para a Itália como mensageiro da boa vontade entre as raças igualmente civilizadas do Oriente e do Ocidente. [...] Da Regra de Ouro de Confúcio - não faças a outrem o que não queres que façam a ti – ao Sagrado Princípio de Taitsung – ninguém deve ser perseguido por causa da sua religião, pois há muitos caminhos para alcançar o céu. [...] É desejo de nosso papa – diziam-lhe – converter todos os idólatras à verdadeira religião. E quem é o vosso papa? É o vig´rio de Cristo, nosso Deus, na Terra. E como é que o vosso papa sabe que o vosso Deus é o Deus da única religião verdadeira? Não somos professores nem sacerdotes, mas simples negociantes. [...] notou um sistema ético baseado no mais arejado e sensível egoismo: Busca o teu proprio prazer, mas não interfiras nos prazeres dos outros. E descobriu na China a chave de uma verdade profunda, isto é, que no coração de toda grandeza repousa a simplicidade: O grande homem é aquele que nunca passa além do coração de uma criança. [...] A sudoeste da Armênia, no distrito de Mossul, uma fonte de óleo que jorra tão abundantemente que dá para carregar vários camelos. [...] Os nativos de Katdandan seguem um singular costume. Logo que uma mulher dá à luz, o marido ocupa o seu lugar no leito e cuida da criança por quarenta dias, enquanto a mulher atende aos seus deveres domésticos, leva comida ao marido na cama e dá de mamar ao filho a seu lado. [...]. Trechos extraídos da obra As viagens de Marco Polo (O Milhão - Descrição do mundo ou Livro das maravilhas do mundo, 1298), com os relatos do mercado veneziano Marco Polo (1254-1324), dividido em quatro livros com as suas aventuras na Ásia Central e no Extremo Oriente, durante a segunda metade do século XIII.

A GAIA CIÊNCIA
[...] a dor sempre pergunta pela causa, enquanto o prazer é propenso a ficar junto de si proprio e não olhar para trás. [...] Somente para os homens mais excitáveis e mais desejosos do sentimento de potência pode ser mais aprazível imprimir ao que lhes resiste o selo da potência; para aqueles a quem a visão do já submisso (que, como tal, é o objeto do bem-querer) é pesada e enfadonha. [...]
Trechos extraídos do Livro I, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte da artista plástica, professora e artista performática Beth Moyses, experimentando materiais que se relacionam com o afeto e se apropria do vestido de noiva como símbolo de fantasia da mulher.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Rabo de Touro, do artista espanhol Antonio Saura (1930-1998).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


sexta-feira, novembro 09, 2007

FANNIE HURST, SIMONE SABACK, ERMA BOMBECK, FRANKL & MINGAU DE CACHORRO


Imagem: Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato, adaptado por Maria R. do Amaral.

MINGAU DE CACHORRO


Gentamiga, tenho rascunhado sempre que possível, as mungangas de um amigo meu, o Doro. Eita! São tantas que imagino já um volume com mais de duas mil páginas, tamanho a doidice que ele é capaz de pregar. Sujeito esse prolífico em criar situações jocosas. Verdade. Para você ter uma idéia, Doro é o amigo que comumente menciono com cada tirada sem tino chega fico de queixo caído com o disparate. Peço, portanto, licença vênia, vez não querer ocupar a leitora com o inventário das estripulias dele aqui. Não, não daria. Vou relatar apenas, de vez em quando, uma ou outra, até se chegar ao rol das arteirices.
Esta que vou narrar de primeira mão foi a última que ele teve o desplante de cometer. À medida que eu for discorrendo nas próximas narrativas, com certeza, a distinta leitora irá construir a personagem com todos os pingos nos is, cagado e cuspido, talqualmente ele é, com certeza.
Bem, certa feita, Doro não tendo nada para comer o juízo dos outros, envolveu-se com a culinária feito perito nos maiores regabofes por onde foi penetra da cara lisa. Como possui a mania de explicar o inexplicável, ele foi formando um cardápio à base das imitações baratas de guloseimas que chegaram a se tornar um segredo irrevelável.
Pois é, das gororobas que inventara, uma já se tornou patrimônio nacional batizada, por ele mesmo, de mingau de cachorro. Patrimônio nacional porque todo bebum ou sujeito caiante no trato sexual faz uso e abuso de sua fórmula de norte a sul, leste a oeste do país. Como ele não registrou a patente, outros mais sabidos se apropriaram da receita e hoje comercializam a céu aberto para a indignação dele que, puto da vida, os taxa de aproveitadores inescrupulosos e de outros adjetivos infamentes e difamantes. E para não serem flagrados na apropriação indébita, o produto é vendido sob titulatura vária: pirão-do-que-foi-mas-voltou, purgante-de-enfermo, xoxotão, elixir-pra-defunto, lavagem-vitaminada, xarope-do-diabo, remédio-de-inválido, levanta-potência, solução-de-bateria, estricnina-vaselinada, bomba-da-peste, megatom-de-fuleiro, TNT-da-desgraça, tesão-garatida, bicada-da-foda, assanha-peia, vitamina-do-caralho, sopro-de-deus, reza-forte, suco-do-fogo, eita-porra, juízo-da-pomba, e por aí vai.
Em Afogados, bairro recifense, é vendido, por exemplo, como xoxotão mesmo. O cara toma, soa que nem tampa de panela fervente, fica lavado dos pés à cabeça, encharca, tem estrimilique e, depois, fica bonzinho na hora. Eu mesmo quando estou lavado de cachaça, corro atrás da panacéia para ficar sóbrio. Mas vamos lá. Esse milagroso mingau possui alguns ingredientes exóticos, aparentemente não comestíveis nem apreciáveis ao paladar muito menos digeríveis pelo metabolismo orgânico de qualquer indivíduo de sã consciência. Isto porque existem aqueles que comem merda e arrotam dinheiro. Esses, notadamente, ficam fora da ressalva. Já os que respeitam dietas, esses sim, carecem de não estranharem, visto que, garante Doro, todos os ingredientes estão hermeticamente harmonizados graças a engenharia gastronômica do gourmet descarado que se autodenomina envaidecido por nutricionista, e aos estudos ocultos de herbalismo que ele fizera pelo reembolso postal após contatos de quarto e quinto graus com sobreviventes de uma galáxia inominável nos quintos dos infernos.
Assevera mais ele que ninguém, ninguém mesmo possui a receita original. Coisa que agora, depois de repetidas vezes explicadas aos mínimos detalhes, resolvi exclusivamente colocar aqui para a felicidade geral da nação. Inclusive, vale salientar, ele prescreve tal baboseira para os maridos que não andam funcionando bem em casa, livrando-os de uma gaia florindo o quengo do sujeito. Claro, remédio desse tem que ser mesmo difundido.
Pois bem, vamos à receita: coloque um palmo de água potável no copo do liquidificador. Detalhe: ele também assevera que o copo deva ser enorme para caber o tanto de tranqueira necessária. Depois vá colocando bem devagarinho na água: pimenta do reino, malagueta e de cheiro. Em seguida, derrame uma colher de sopa de azeite. Misture tudo. Ponha bastante farinha de mandioca até tudo virar uma papa. Jogue dentro uns dois pedaços pequenos de macaxeira, inhame, batata doce e inglesa. Mexa tudo. Adicione duas ou três fatiazinhas de queijo de coalho. Acrescente uma xícara de chá de leite de coco. Mexa bem. Logo após do mexido, vá colocando molho inglês, mostarda e extrato de tomate. Derrame dentro duas mãos de sal. Esprema uma banda de limão. Use o olhômetro para derramar uma porção satisfatória de tempero e, depois, colorau para dar uma corzinha. Coloque uma prastada de manteiga. Para dar gosto jogue 1/4 do gerimum, mais dois quiabos, uma cebola, dois pimentões, um molho de coentro, salsa, caroba e cabacinha; maxixe, vagem, uma banda de chuchu, duas folhas de louro, dois dentes de alho. Bote força e mexa tudo. Para ficar delicioso, adicione uma lasca de gengibre, brócolis, uma folha de hortelã, cinco pétalas de cravo branco; encha a mão de ervilha e milho verde, jogue dentro; pegue umas três folhas de arruda; duas lasquinhas de entrecasco de caju; pegue manjericão; derrame meio copo de mel de uruçú; três colheres de chá de alfazema de caboclo; uma xícara de chá de farelo de arroz; meio-copo de amendoim; duas folhas de boldo; uma folha de alface; uma cumbuquinha de aveia, mexa tudo e deixe lá apurando. Para ficar mais saboroso acrescente a metade de uma berinjela, um nó-de-cana-de-açúcar, sacuda canela em cima, um taco de carqueja, uma folha de couve, uma de erva-cidreira, jogue umas sementes de girassol, forre tudo com pó de guaraná, bote umas jurubebas; um taco de romã; duas folhas de quebra-pedra; uma de urtiga; uma de camomila; um pedaço de beterraba, uma folha de sabugueiro e uma baga de jaca. Para ficar ainda mais palatável, some-se a tudo isso dois ovos com casca e tudo; dois bagos de laranja lima; uma banana-maçã; uma lasca ou de manga e outra de goiaba; meia xícara de leite de cabra; uma rodela de salame; e uma porção de feijão guandú. Coloque mais uma colher de chá de maizena, uma bicada de cachaça-de-cabeça; um punhado de fumo de corda; uma lapada de catuaba; dois ovos de codorna com casca e tudo; dois caquinhos de vidro, uma catota, duas tanajuras, dois pingos de suor, um cabelinho de sapo, um pouquinhozinho de espoleta, uma ruela plástica, uma prega virgem, uma capsulana, duas drágeas de vitamina de qualquer qualidade, dois comprimidos de cibalena, uma ampola de glicose, um olho de boi, uma porção de papoula ralada, um pingo só de creolina, um pentelho de virilha fêmea, faça o sinal da cruz em cima, tampe o caneco e reze para deus que tudo dê certo. Ligue o bicho e agarre o rosário em qualquer oração que souber de cor. Se o liquidificador não fumaçar, é sinal de que, ao cabo de cinco minutos o mingau está pronto. Distribua num copo grande e guarde o restante da pólvora na geladeira mode não haver estrago na sua casa. Uma coisa eu posso asseverar: pode dar ao seu marido, minha dileta leitora, e, com certeza, ele vai sair riscando fogo na parede e a madame sorrirá como há muito tempo não soubera. Hehehehehehehehehehehehe!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados do autor. Veja mais aqui e aqui


DITOS & DESDITOS - O homem já não se compreende senão como um ser da natureza, segundo a atitude naturalista, e entende o mundo como nada mais que um meio para um fim, de acordo com a posição técnico-utilitarista. Assim submete o mundo pela técnica. Ao mesmo tempo, enquanto o mundo se converte para ele em objeto de submissão, transforma-se ele mesmo, o homem, em seu próprio “oposto”: em objeto. Pensamento do neurologista e psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905-1997). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Uma mulher tem que ser duas vezes melhor que um homem para ir tão longe quanto ele. Sexo é uma descoberta. Algumas pessoas pensam que valem muito dinheiro só porque elas o têm. Pensamento da escritora estadunidense Fannie Hurst (1889-1968).

VOLÚVEL CORAÇÃO DE MÃECerta vez perguntaram a uma mãe qual era seu filho preferido, aquele que ela mais amava. E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu: “Nada é mais volúvel que um coração de mãe. E, como mãe, lhe respondo: o filho dileto, aquele a quem me dedico de corpo e alma… É o meu filho doente, até que sare. O que partiu, até que volte. O que está cansado, até que descanse. O que está com fome, até que se alimente. O que está com sede, até que beba. O que estuda, até que aprenda. O que está com frio, até que se agasalhe. O que não trabalha, até que se empregue. O que namora, até que se case. O que casa, até que conviva. O que é pai, até que crie os filhos. O que prometeu, até que se cumpra. O que deve, até que pague. O que chora, até que cale. E já com o semblante bem distante daquele sorriso, completou: O que já me deixou… até que o reencontre… Texto da escritora e humorista estadunidense Erma Bombeck (1927-1996).

PLANTA-ME - Aperta-me nas mãos / Busca as soluções. / Planta-me num jardim / Fora do alcance de qualquer ser. / Ali crescerá uma canção / Que dirá o que eu não posso. / Planta-me. / Mas antes retira minhas mágoas. / Seca o suor de minha pouca idade. / Antes purifica-me. / Antes, / Ama-me. Poema da escritora, jornalista e compositora Simone Saback.



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