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quarta-feira, outubro 04, 2017

CARLOS EDUARDO NOVAES, DAVID HARVEY, NICANDRO NUNES DA COSTA, DAVID SALLE, TRABALHO, CIDADANIA & DESIGUALDADE SOCIAL

DE REPENTE A CRISE - Imagem: arte do pintor, gravador e estilista estadunidense David Salle.- Uma pedra caiu na água, danou-se! Deu-se a crise: não era nem um pedregulho para tanto transtorno alardeado, era só um cascalho, coisinha miúda de provocar pequenas ondas, nadica de nada. Já viu: se é pra manter temores, é só boato de coisa ruim pra enganar tantos bestas que nem eu. Sei não. Já soube? Um touro fugiu do cercado – assim feito um leão furioso que escapuliu da jaula -, crise: não era nem um daqueles que bufam brabeza de se correr pé na bunda levantando poeira, nada, foi só pra testar a carreira, era um garrotinho crescido que vendiam por tragédia anunciada das lendas do arco da velha. Que coisa! Ah, tem mais! Mesmo? Foi. Fulano peidou na esquina, vixe! Pronto, já davam por terremoto ineivado, coisa de matar todo mundo com a fedentina, de se esperar explosões de armagedom. Dizem até que o provocante findou reduzido às cinzas pela combustão humana. Vai-te! Pois é, pras expectativas escatológicas um dia o mundo acaba ou de fogo, ou de água, ou do sei lá o quê, sabem apenas que acaba e fim de papo. Pois é, de nada, manobras e outras escusas práticas engalobadoras dão conta de cabelinho de sapo como se fosse o fim do mundo do estardalhaço. Assim é a crise que tanto falam: basta reduzirem um tiquinho de nada os lucros ou escassearem por instantinho de nada as entradas ou captações dos que querem tudo o tempo todo, logo se instala uma crise de plantão que já dura, pelo menos pra mim, mais de sessenta anos – eu nem era nascido quando falavam de tantas crises disso e daquilo. Qual a da vez? É só passar, entra ano e sai ano, crises e crises, uma atrás da outras, encangadas, quando não enroladas, inventadas, ou fabricadas na puxada do tapete geral, sempre para amarelar o riso da maioria que sonha ter um pouco de estabilidade. Quem mandou? A crise só se justifica para não haver um mínimo de dignidade, só para educação ínfima, saúde precária, segurança pro beleléu, prestação parcas ou nenhuma dos serviços públicos que já faltam, ineficiência, incompetência, enrolação e trambicagem. Vai se vê no apurado, crise mesmo é conversa pra boi dormir – e deixar a população insone. Porque basta um maioral anunciar a dita cuja, o efeito em cadeia nacional é avassalador. Só resta segurar o tombo, envergar de quase torar – segura a onda! -, equilibrista na corda bamba que é feita de areia movediça e ventania de temporal, essa é só a primeira, vem mais, pode esperar, afinal, de golpe em golpe a gente vai aprendendo – peraí, aprender mesmo o quê? -, vai apurando, na marra, às topadas, aos empurrões. Conto outra? Ah, destá. Um dia lá, não sei quando, a gente sai dessa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do artista e músico Antonio Carlos Nóbrega: Pernambuco falando para o mundo, Lunário perpétuo, Carrossel do destino, O romance de Riobaldo e Diadorim & Meu foguete brasileiro; da violoncelista britânica Caroline Dale interpretando Merlis Hate & Such Sweet Thunder; o músico e compositor estadunidense Lee Ritenour: World of Brazil, West Bound & Night Rythms; e a cantora, compositora, produtora musical e publicitária Rosana Simpson: Cigano, Só, Tela de Cinema & Tanta Agonia. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A CONDIÇÃO PÓS-MODERNA - [...] O retrato do pós-modernismo que esbocei até agora parece depender, para ter validade, de um modo particular de experimentar, interpretar e ser no mundo - o que nos leva ao que é, talvez, a mais problemática faceta do pós-modernismo: seus pressupostos psicológicos quanto à personalidade, à motivação e ao comportamento. A preocupação com a fragmentação e instabilidade da linguagem e dos discursos leva diretamente, por exemplo, a certa concepção da personalidade. Encapsulada, essa concepção se concentra na esquizofrenia (não, deve-se enfatizar, em seu sentido clínico estrito), em vez da na alienação e na paranóia (ver o esquema de Hassan). Jameson (1984b) explora esse tema com um efeito bem revelador. Ele usa a descrição de Lacan da esquizofrenia como desordem lingüística, como uma ruptura na cadeia significativa de sentido que cria uma frase simples. Quando essa cadeia se rompe, "temos esquizofrenia na forma de um agregado de significantes distintos e não  relacionados entre si". Se a identidade pessoal é forjada por meio de "certa unificação temporal do passado e do futuro com o presente que tenho diante de mim", e se as frases seguem a mesma trajetória, a incapacidade de unificar passado, presente e futuro na frase assinala uma incapacidade semelhante de "unificar o passado, o presente e o futuro da nossa própria experiência biográfica ou vida psíquica". Isso de fato se enquadra na preocupação pós-moderna com o significante, e não com o significado, com a participação, a performance e o happening, em vez de com um objeto de arte acabado e autoritário, antes com as aparências superficiais do que com as raízes (mais uma vez, ver o esquema de Hassan). [...] pós-modernismo tipicamente descarta essa possibilidade ao concentrar-se nas circunstâncias esquizofrênicas induzidas pela fragmentação e por todas as instabilidades (inclusive as lingüísticas) que nos impedem até mesmo de representar coerentemente, para não falar de conceber estratégias para produzir, algum futuro radicalmente diferente. O modernismo, com efeito, não deixava de ter seus momentos esquizóides - em particular ao tentar combinar o mito com a modernidade heróica -, havendo uma significativa história de "deformação da razão" e de "modernismos reacionários" para sugerir que a circunstância esquizofrênica, embora dominada na maioria das vezes, sempre estava latente no movimento modernista. Não obstante, há boas razões para acreditar que a "alienação do sujeito é deslocada pela fragmentação do sujeito" na estética pós-moderna (Jameson, 1984a, 63). Se, como insistia Marx, o indivíduo alienado é necessário para se buscar o projeto iluminista com uma tenacidade e coerência suficientes para nos trazer algum futuro melhor, a perda do sujeito alienado pareceria impedir a construção consciente de futuros sociais alternativos. [...]. Trechos extraídos da obra A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural (Loyola, 2001), do professor e geógrafo britânico marxista David Harvey, definindo os contornos culturais da 'condição' pós-moderna em seus aspectos estéticos, sociais, literários e filosóficos, observando as mudanças que ocorreram na experiência do espaço e do tempo, como uma conseqüência da atual crise do capitalismo, e não como um sintoma do surgimento de uma sociedade pós-capitalista ou pós-industrial. Veja mais aqui.

FIM DO TRABALHO – [...] A imprescindível eliminação do trabalho assalariado, do trabalho fetichizado e estranhado (alienado) e a criação dos indivíduos livremente associados está indissoluvelmente vinculada à necessidade de eliminar integralmente o capital e o seu sistema de metabolismo social em todas as suas formas. O que, entretanto, não deve impedir um estudo cuidadoso da classe trabalhadora hoje, suas principais metamorfoses. [...] Claro que esta crise é particularizada e singularizada pela forma pela qual essas mudanças econômicas, sociais, políticas e ideológicas afetaram mais ou menos direta e intensamente os diversos países que fazem parte dessa mundialização do capital que é, como se sabe, desigualmente combinada. Para uma análise detalhada do que se passa no movimento operário inglês, italiano, brasileiro ou coreano, o desafio é buscar essa totalização analítica que articulará elementos mais gerais desse quadro, com aspectos da singularidade de cada um desses países. Mas é decisivo perceber-se que há um conjunto abrangente de metamorfoses e mutações que tem afetado a classe trabalhadora, e para a qual é absolutamente prioritário o seu entendimento e desvendamento, para resgatar um projeto de classe capaz de enfrentar esses monumentais desafios presentes no final deste século. [...]. Trechos extraídos da obra Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho (Cortez, 2000), do sociólogo, filósofo e professor Ricardo Antunes. Veja mais aqui, aqui e aqui.

DESIGUALDADE E DIREITOS - [...] O grande desafio àqueles cuja matéria é, cotidianamente, lidar com as seqüelas decorrentes do processo de constituição da questão social a partir da lei geral da acumulação: conhecer as muitas faces da questão social no Brasil, das quais a mais perversa é a desigualdade econômica, política, social e cultural a que estão submetidas milhões de pessoas, o que requisita um grande esforço de pesquisa sobre o Brasil. É necessário e imprescindível conhecer profundamente nossa matéria: a questão social brasileira. [...] Falar sobre direitos e sua relação com a totalidade da vida social pressupõe considerar os indivíduos em sua vida cotidiana, espaço-tempo em que as expressões da questão social se efetivam, sobretudo, como violação dos direitos. A vida humana não é a mera reposição aleatória dos indivíduos ou explicitação de uma essência natural, mas expressa, além das respostas às demandas imediatas, vínculos com a produção da vida genérica, vida essa que se caracteriza pelo fato de os indivíduos serem relacionais, diversos e interdependentes. [...] Sabemos que, no desenvolvimento da sociabilidade, um conjunto de contradições e o antagonismo entre as necessidades do capital e as do trabalho frustraram amplamente as promessas de liberdade e de igualdade, bem como a efetivação de uma vida social sem dominação, exploração e opressão. Podemos, assim, afirmar que, no tempo presente, os segmentos do trabalho, ao invés de sujeitos de direitos, são sujeitos da desigualdade, que convivem nos cenários de violência endêmica e de barbárie a que fizemos referência anteriormente. Trechos do artigo Questão social e direitos (ABEPSS, 2006), das professoras Elaine Rossetti Behring e Silvana Mara de Morais dos Santos. Veja mais aqui e aqui.


CAPITALISMO PARA PRINCIPIANTES -  [...] A ideologia domina a sociedade, que por sua vez é difundida pela ideologia burguesa. Diante disso tudo, o mundo torna-se individualista. O que é passado pela ideologia dominante só fica na teoria. As camadas inferiores são consideradas mais solidárias. Portanto, percebe-se que o Capitalismo apesar de todas as crises e reformulações sofridas ainda assim é inviável. Torna os direitos humanos em negócios para garantirem lucros. [...]. Trecho da obra Capitalismo para principiantes (Ática, 1994), do advogado, cronista, romancista e dramaturgo Carlos Eduardo Novaes, com ilustrações do cartunista Vilmar Rodrigues.

QUEM É CATIVO NÃO AMA
Patrão não repara a sina
De quem vive escravizado,
Só lhe interessa o cuidado
De não cair na ruína
Convive com gente fina
Que tem talento e tem fama
Se o empregado reclama
Por viver do amor ausente
Ele responde imprudente
Quem é cativo não ama.
Mote de um pé, criação do grande cantador Nicandro Nunes da Costa (1829-1918).

Veja mais:
Dia Mundial da Natureza aqui, aqui & aqui.
A arte de Antonio Nóbrega aqui e aqui.
A arte musical de Caroline Dale aqui.
A arte de Lee Ritenour aqui.
O talento musical de Rosana Simpsom aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do pintor, gravador e estilista estadunidense David Salle.
Veja mais aqui.


segunda-feira, maio 04, 2015

MARCUSE, AMOS OZ, MACHADO, SAFO, DALE, HEPBURN, GOLIAS, CHURCH & HARING.

Imagem Sunset Jamaica, July 1865 - Oil on paper mounted on canvas, 12-1/8 x 18-1/8 inches. OL, do pintor estadunidense Frederic Edwin Church (1826–1900). Veja mais aqui & aqui

Todo dia o Sol se põe para uma nova alvorada...

Eu quero aurora dos meus olhos
Viver a eclosão do dia
Esse parto retratado
No rastro meu que se vadia
Pra lá das mãos
Pra lá do mar
Nas veredas desse céu
Que vai além do meu cantar
Da minha voz que traz
Esse céu que desvirgina
As entranhas do meu corpo
Que se perde pelos vales
E só me resta seguir, ir
As veias mornas da manhã
Até abrir as comportas do meu coração
(AURORA, música e letra de Luiz Alberto Machado).
Veja mais aqui e aqui.

Ouvindo o álbum musical Such Sweet Thunder (1999), com as performances da suíte Sarabande de Georg Händel (1685-1759) e a sonata em mi menor de Anton Vivaldi (1678-1741), da violoncelista britânica Caroline Dale. Veja mais aqui.
  
A UMA MULHER AMADA (Imagem: Sappho, do pintor francês François Gerard (1770-1837) - A poeta grega Safo (séc. VII-VI aC), considerada a décima musa pelo respeito que sempre lhe dedicaram é autora desse poema A amada: Ventura, que iguala aos deuses, / Em meu conceito, desfruta / Quem, junto de ti sentada, / As doces falas te escuta, / Goza teu mago sorrir. / Quando imagino em tal gosto / é minha alma um labirinto; / Expira-me a voz nos lábios; / Nas veias um fogo sinto; / Sinto os ouvidos zunir. / Gelado suor me inunda; / O corpo se me arrepia; / Foge-me as cores do rosto, / Como ao vir da quadra fria / Entra a folha a desmaiar. / Respiro a custo, e já cuido / Que se esvai a doce vida! / Arrisquemo-nos a tudo... / Contra uma angústia insofrida tudo se deve tentar. [...] Toca, minha amiga, / as cordas puras da tua lira. / Já a idade fez secar meu corpo, / embranquecendo-me os cabelos que eram pretos, / tornando-me os joelhos mais que frouxos. Também dela esse belo poema A uma mulher amada: Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro! / Quem goza o prazer de te escutar, / quem vê, às vezes, teu doce sorriso. / Nem os deuses felizes o podem igualar. / Sinto um fogo sutil correr de veia em veia por minha carne, / ó suave bem querida, e no transporte doce que a minha alma enleia / eu sinto asperamente a voz emudecida. / Uma nuvem confusa me enevoa o olhar. / Não ouço mais. / Eu caio num langor supremo; / E pálida e perdida e febril e sem ar, / um frêmito me abala... / eu quase morro... eu tremo. Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

O HOMEM UNIDIMENSIONAL NA IDEOLOGIA DA SOCIEDADE INDUSTRAL – No livro A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional (Zahar, 1973), do sociólogo e filosofo alemão pertencente à Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse (1898-1979), são abordados temas como a paralisia da crítica e a sociedade sem oposição, sociedade unidimensional, as novas formas de controle, o fechamento do universo político, a conquista da consciência infeliz e a dessublimação repressiva, o fechamento do universo da locução, o pensamento unidimensional, o pensamento negativo e a derrota da lógica do protesto, do pensamento negativo para o positivo e a racionalidade tecnológica e a lógica da dominação, a vitória do pensamento positivo e a filosofia unidimensional, a oportunidade das alternativas, o compromisso histórico da filosofia, a catástrofe da libertação, entre outros importantes assuntos. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] A ameaça de uma catástrofe atômica, que poderia exterminar a raça humana, não servirá, também, para proteger as próprias fôrças que perpetuam esse perigo? Os esforços para impedir tal catástrofe ofuscam a procura de suas causas potenciais na sociedade industrial contemporânea. Essas causas ainda não foram identificadas, reveladas e consideradas pelo público porque refluem diante da ameaça do exterior, demasiado visível do Oriente contra o Ocidente, do Ocidente contra o Oriente. f: igualmente óbvia a necessidade de se estar preparado, de se viver à beira do abismo, de se aceitar o desafio. Nós nos submetemos à produção pacífica dos meios de destruição, à perfeição do desperdício, a ser educados para uma defesa que deforma os defensores e aquilo que estes defendem. Se tentamos relacionar as causas do perigo com a forma pela qual a sociedade é organizada e organiza os seus membros, defrontamos, imediatamente, com o fato de a sociedade indus-trial desenvolvida se tornar mais rica, maior e melhor ao perpetuar o perigo. A estrutura da defesa torna a vida mais fácil para um maior número de criaturas e expande o domínio do homem sobre a natureza. Em tais circunstâncias, os nossos meios de informação em massa encontram pouca dificuldade em fazer aceitar interesses particulares como sendo de todos os homens sensatos. As necessidades políticas da sociedade se tornam necessidades e aspirações individuais, sua satisfação promove os negócios e a comunidade, e o conjunto parece constituir a própria personificação da Razão [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

DE REPENTE, NAS PROFUNDEZAS DO BOSQUE – No livro De repente, nas Profundezas do Bosque (Cia das Letras, 2007), do escritor e pacifista israelense Amos Oz, é contada a história de uma pequena aldeia atravessada por um rio cristalino e rodeada por um bosque frondoso, onde não há uma única vida animal e dois garotos Mati e Maia enfrentam a proibição de entrar no bosque para enfrentar o temível demônio das montanhas, Nehi. Da obra destaco o trecho: A aldeia era cinzenta e triste. À volta dela apenas montes e bosques, nuvens e vento. Não havia outras aldeias nas redondezas. Quase nunca chegavam forasteiros, nem sequer visitantes ocasionais. Trinta, talvez quarenta casas pequenas se espalhavam ao longo do declive, no vale fechado e rodeado por montes íngremes. Somente a oeste havia uma abertura estrita entre as montanhas, e por essa abertura passava o único caminho que levava à aldeia, mas não ia adiante, porque não havia nenhum adiante: ali terminava o mundo. [...] Vez por outra aparecia um vendedor ambulante, ou algum artesão, ou simplesmente algum mendigo perdido. Mas nenhum peregrino pemanência mais que duas noites, porque a aldeia era amaldiçoada: um “estranho silêncio” pairava sempre ali, nenhuma vaca mugia, nenhum burro zurrava, nenhum pássaro chilreava, nenhum grupo de gansos selvagens cortava o céu vazio, tampouco os aldeões falavam entre si, só o estritamente necessário. Veja mais aqui, aquiaqui.

NÃO CONSULTES MÉDICO – A peça teatral Não consultes médico (1896), do escritor Machado de Assis (1839-1908), conta a história de uma velha casamenteira que autointitula médica, D. Leocádia, curando as pessoas por meio do amor. Da obra destaco o trecho: MAGALHÃES — Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se e não curar, dar-te-ia alguma distração, e é o que eu quero. (Abre a charuteira que está vazia). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos. (Sai; Cavalcante pega num livro e senta-se). CENA V Cavalcante, D. Carlota, aparecendo ao fundo. D. CARLOTA — Primo... (Vendo Cavalcante) Ah! perdão! CAVALCANTE (erguendo-se) — Perdão de que! D. CARLOTA — Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de prima Adelaide; está aqui... CAVALCANTE — A senhora viu-me passar a cavalo, há uma hora, numa posição incômoda e inexplicável. D. CARLOTA — Perdão, mas... CAVALCANTE — Quero dizer que eu levava na cabeça uma idéia séria, um negócio grave. D. CARLOTA — Creio. CAVALCANTE — Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distração que me deu aquela postura inexplicável. Na minha família quase todos são distraídos. Um dos meus tios morreu na guerra do Paraguai por causa de uma distração; era capitão de engenharia. D. CARLOTA (perturbada) — Oh! não me fale! CAVALCANTE — Por que?Não pode tê-lo conhecido. D. CARLOTA — Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro à minha prima. CAVALCANTE — Peço-lhe perdão, mas... D. CARLOTA — Passe bem. (Vai à porta). CAVALCANTE — Mas, eu desejava saber... D. CARLOTA — Não, não, perdoe-me. (Sai.). CENA VI CAVALCANTE (só) — Não compreendo: não sei se a ofendi. Falei no tio João Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer... CENA VII Cavalcante, D. Leocádia D. LEOCÁDIA (ao fundo, à parte) Está pensando (Desce). Bom dia, Dr. Cavalcante! CAVALCANTE — Como passou, minha senhora? D. LEOCÁDIA — Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só? CAVALCANTE — Foi buscar charutos, já volta. D. LEOCÁDIA — Os senhores são muito amigos. CAVALCANTE Somos como dois irmãos. D. LEOCÁDIA — Magalhães é um coração de ouro e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado. CAVALCANTE — Disse-lhe ontem algumas tolices, não? D. LEOCÁDIA — Tolices, é muito; umas palavras sem sentido. CAVALCANTE — Sem sentido, insensatas, vem a dar no mesmo. D. LEOCÁDIA (pegando-lhe nas mãos) — Olhe bem para mim. (Pausa). Suspire. (Cavalcante suspira). O senhor está doente: não negue que está doente — moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos).CAVALCANTE — Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandíssimo desgosto D. LEOCÁDIA — Jogo de praça? CAVALCANTE — Não, senhora. D. LEOCÁDIA — Ambições políticas mal-logradas? CAVALCANTE — Não conheço política. D. LEOCÁDIA — Algum livro mal recebido pela imprensa? CAVALCANTE — Só escrevo cartas particulares. D. LEOCÁDIA — Não atino. Diga francamente; eu sou médico de enfermidades morais e posso curá-lo. Ao médico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?... CAVALCANTE (suspirando) — Trata-se justamente de amores. D. LEOCÁDIA — Paixão grande? CAVALCANTE — Oh! imensa! D. LEOCÁDIA — Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente bonita? CAVALCANTE — Como um anjo! D. LEOCÁDIA. — O coração também era de anjo? CAVALCANTE — Pode ser, mas de anjo mau. D. LEOCÁDIA — Uma ingrata... CAVALCANTE — Uma perversa! D. LEOCÁDIA — Diabólica... CAVALCANTE — Sem entranhas! D. LEOCÁDIA — Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas não acha casamento. CAVALCANTE — Já achou! D. LEOCÁDIA — Já? CAVALCANTE — Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo. D. LEOCÁDIA — Os primos quase que não nascem para outra coisa. Diga-me, não procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes? CAVALCANTE — Oh! não! Meu único prazer é pensar nela. D. LEOCÁDIA — Desgraçado! Assim nunca há de sarar. CAVALCANTE — Vou tratar de esquecê-la. D. LEOCÁDIA — De que modo? CAVALCANTE — De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. Penso em fazer-me frade. Há de haver em algum recanto do mundo um claustro em que não penetre sol nem lua. D. LEOCÁDIA — Que ilusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Há de vê-la nas paredes da cela, no teto, no chão, nas folhas do breviário. O silêncio far-se-á boca da moça, a solidão será o seu corpo. CAVALCANTE — Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento? D. LEOCÁDIA — Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remédio naturalmente indicado é ir pregar... na China, por exemplo. Vá pregar aos infiéis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez anos está curado. Volte, meta-se no convento e não achará lá o diabo. CAVALCANTE — Está certa que na China... D. LEOCÁDIA — Certíssima. CAVALCANTE — O seu remédio é muito amargo! Por que é que me não manda antes para o Egito? Também é país de infiéis. D. LEOCÁDIA — Não serve; é a terra daquela rainha... Como se chama? CAVALCANTE — Cleópatra? Morreu há tantos séculos! D. LEOCÁDIA — Meu marido disse que era uma desmiolada. CAVALCANTE — Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que ele adorava a V. Excia. D. LEOCÁDIA — Ah! ah! Já o doente começa a adular o médico. Não, senhor, há de ir à China. Lá há mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança em mim? CAVALCANTE — Oh! tenho; tenho. Mas ao doente é permitido fazer uma careta antes de engolir a pílula. Obedeço; vou para a China. Dez anos, não? D. LEOCÁDIA (levanta-se) — Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze está curado. CAVALCANTE — Vou. D. LEOCÁDIA — Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá; dez anos passam depressa. CAVALCANTE — Obrigado, minha senhora. D. LEOCÁDIA — Até logo. CAVALCANTE — Não, minha senhora, vou já. D. LEOCÁDIA — Já para a China! CAVALCANTE — Vou arranjar as malas e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China... Até daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão).D. LEOCÁDIA — Fique ainda uns dias... CAVALCANTE — Não posso. D. LEOCÁDIA — Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana. CAVALCANTE — Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico. D. LEOCÁDIA — Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico. O pior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre dele. CAVALCANTE — Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre! D. LEOCÁDIA — No fim de dois anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado e talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte. CAVALCANTE — Obrigado. Vou ter com seu sobrinho e depois vou arranjar as malas. D. LEOCÁDIA — Então não volta mais a esta casa? CAVALCANTE — Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou tomar passagem no paquete de amanhã. D. LEOCÁDIA — Jante, ao menos, conosco. CAVALCANTE — Janto na cidade. D. LEOCÁDIA — Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. Há pessoas que adoecem sem merecimento nenhum; ao contrário, não merecem outra coisa mais que uma saúde de ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediência ao médico! que facilidade em engolir todas as nossas pílulas! Adeus! CAVALCANTE — Adeus, D. Leocádia. (Sai pelo fundo). Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

Ô CRIDE, QUÊDI O BRONCO DINOSAURO? – Uma das figuras mais hilárias presentes desde a minha mais tenra meninice até os dias de hoje, é a do memorável ator e comediante Ronald Golias (1929-2005), que aprendi a assistir na extinta Tv Tupi, vez que ele foi considerado um dos pioneiros da televisão. Também vi e revi muitos dos seus filmes, não perdia um: Golias contra o homem das bolinhas (1969), O homem que roubou a copa do mundo (1962), entre outros, como também suas participações na Família Trapo, o seriado Bronco Total, o Superbronco, Bronco, a Escolinha do Golias e Meu cunhado. Morria de rir com sua irreverência e talento. Saudade do Golias, salve, salve. Veja mais aqui.

BREAKFAST AT TIFFANY´S – A memorável e premiada comédia e drama Breakfast at Tiffany´s (Bonequinha de luxo, 1961), dirigido por Blake Edwards ao roteiro adaptado por George Axelrod do livro homônimo de Truman Capote, com música de Henri Mancini, traz a presença marcante e bela da premiada atriz e humanista inglesa de origem belga Audrey Hepburn (1929-1993), que povoou meus sonhos e imaginário da infância e adolescência. Tanto é que tanto vi e revi a película, dias e dias, sempre curtindo a faceira e belíssima expressão da atriz, dando pausa a cada jeito seu e a cada detalhe de sua exposição na cena. Sonhos de infância e adolescência que passaram a me perseguir por toda vida. O filme conta a história da socialite Holly Golightly que sonha casar-se com um homem rico e tornar-se uma estrela de Hollywood. Com esse desejo ela passa a ser apadrinhada por um mafioso e ela começa a trabalhar rumo aos seus sonhos. Imperdível. Veja mais aqui


IMAGEM DO DIA
A arte do artista gráfico e ativista estadunidense Keith Haring (1958-1990)
Veja mais aqui.
   
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Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.

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Todo dia é dia dos namorados: crônica de amor por ela aqui.
O amor dos namorados, A arte de amar de Erich Fromm, Sonetos de amor de Pablo Neruda, Cânticos de Salomão, a música de Edith Piaf, o cinema de Derek Cianfrance & Michelle Williams, a arte de Cornelis le Mair, Grupo Femen, a pintura de Julia Watkin & Henry Asencio aqui.
Todo dia é dia dos namorados, Inteligência do amor de Ledo Ivo, Diário de Anne Frank, A ética do anarquismo de Luce Fabbri, A prisão de São Benedito de Luiz Berto, A filha de Solveig Nordlund, a música de Geraldo Azevedo, a pintura de Wellington Virgolino & a arte de Carmem Verônica aqui.
A arte no horizonte do provável de Augusto de Campos & Falando com as paredes de Jacques Lacan aqui.
Sistema tributário & A gramática em cordel de Janduhi Dantas Nóbrega aqui.
Nunca fui e quando inventei de ir não era pra ter ido, Pedagogia dos sonhos possíveis de Paulo Freire, A árvore das estrelas vermelhas de Tessa Bridal, O narratário & teoria da literatura de Vitor Manuel de Aguiar e Silva, a música de Quinteto Violado, a escultura de Pedro Figueiredo, a pintura de Victoria Selbach & a arte de Marcela Tiboni aqui.
A menstruação mental do Robimagaiver puto da vida, Realidade & sonhos de a Muriel Spark. A construção social da realidade de Peter Berger & Thomas Luckmann, Redes & sociologia econômica de Cristina Braga Martes, a arte de Marina Abramović, a música de Han-Na Chang, a fotografia de Greg Gorman & Alfred Cheney aqui.
A correnteza do rio me ensinou a nadar, A flor azul de Penelope Fitzgerald, Entretenimento & tecnologia de Beatriz Polivanov & Vinicius Pereira, Interações & redes na sociedade de Denise Najmanovich & Elina Dabas, a música de Karlheinz Stockhausen & Suzanne Stephens, a pintura de Sue Halstenberg, a arte de Yayoi Kusama & Robert Rauschenberg, Anita Berber & Otto Dix aqui.
O amor todo dia e o dia todo, O homem ativo & intelectual de Antonio Gramsci, Dialética do concreto de Karel Kosik, Contos & novelas de Samuel Rawet, a pintura de Serge Marshennikov & Amélia Toledo, a música de Madeleine Peyroux, a fotografia de Rory Banwell & a arte de Luciah Lopez aqui.
Entre topadas e escorregões, eu insisto, persisto, resisto e até persevero, O discurso e a cidade de Antonio Cândido, História de um louco amor de Horacio Quiroga, O olhar de Marilena Chauí, a música de Catherine Ribeiro, a coreografia de Caralotta Ikeda, a fotografia de Maureen Bisilliat & Spencer Tunick aqui.
Poesia não deu, só noutra, Para além do bem e do mal de Friedrich Nietzsche, O engate de Nadine Gordimer, A gaia ciência de José D 'Assunção Barros, a música de Dulce Pontes, a fotografia de Kharlos Cesar, a arte de Giovanna Casotto & Jeju Loveland aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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