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sexta-feira, março 05, 2021

BYUNG-CHUL HAN, MARK DANIELEWSKI, LACEY LEWIS, SIMON BISLEY & CÍCERO DIAS

 

 

TRÍPTICO DQC: Janelavai... – Ao som do álbum Études, preludes, choros (RRMR, 1986), de Heitor Villa-Lobos, na interpretação do violonista Turíbio Santos. Da janela a hora e já vou: a indiferença grassa, o morticínio tornou-se insuportável e a mordaça da negação ousa coibir a gritaria dos que sucumbiram e dos que escaparam aflitos. Recolho todos os meus mortos: os da convivência, os que se foram das mais longínquas plagas e todas as vítimas do irresponsável Genocídio do Fecamepa, que Mario Sergio Cortella flagra na tragédia: ... tem levado a população a uma situação de agonia cada vez mais forte. Na educação, na saúde, na cultura e na economia, a gestão federal tem sido desastrosa. E vem levando algumas instituições, como as Forças Armadas, à total desmoralização. Sensação das cinzas, dói demais e quem culatreia ou acuado na condução persecutória, salve-se quem puder ao deus dará. É o que se pode fazer pregados olhos no artigo O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, do filósofo Byung-Chul Han: Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos nós, pessoas dotadas de razão, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta. É o que nos resta depois de uma espiada aguda na sua obra Sociedade do cansaço (Vozes, 2015), na qual assevera: A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos. Enfim, observa ele: O homem não nasceu para o trabalho. Quem trabalha não é livre. Respiro fundo e voo: a minha liberdade é inegociável, sou ave Patativa de Assaré: Onde a verdade aparece a mentira é destruída. E se eu tivesse que morrer hoje ou agora mesmo, tudo já teria valido a pena. Para onde vou será sempre dia; e o anoitecer, descanso. Por isso levo todos e quem quiser comigo bem dentro do coração: já nela vou lá.

 


DOIS: Escrita das imagens dos pedaços – Imagens: As heroínas do quadrinista e artista visual britânico Simon Bisley, ao som da Cello Sonata in C-Major, op. 119 (1949), de Sergey Prokifiev, na interpretação da pianista Sol Gabetta e da cellista Polina Leschenko (2016). – E vai a vida e gira e voo estrada afora sem contar as pedras dos caminhos, já foram tantas rolando ribanceira abaixo e nunca tive medo de me perder, quantos labirintos desatei das tocaias da legião de minotauros e sicários em série, desencantados nas rebarbas escatológicas do ermo real, fabricados pelas cloacas desiguais. Havia de me salvar não sei das quantas e sempre ela assomava do inopinado no valhacouto das circunstâncias, a me dizer Rosa Luxemburgo: Não estamos perdidos. Ao contrário, venceremos se não tivermos desaprendido a aprender. Há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos... Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem. A Liberdade é quase sempre, exclusivamente a liberdade de quem pensa diferente de nós. E era o pão de cada dia, fome saciada com migalhas agarradas pela mão. Lá estão estradas erradias e uma esperança indelével recolhida dos olhos do coração dela.

 


TRÊS: Olhar a alma de todos os sobreviventes - Imagem: a arte da artista visual estadunidense Lacey Lewis, ao som do álbum Satie: Complete Piano Works Vols. 1 e 2 (Brilliant Classics, 2010), de Erik Satie, na interpretação da pianista italiana Christina Ariagno. – Solidária solidão, não tinha mais onde ficar sequer para onde ir. Quando ela desaparecia, errava às cabeçadas muros e paredões, até ver-me sacudido pelas aversivas condições, a tê-la ao lado, arrimo de todas as horas, recitando Anna Akhmátova: Eu, como um rio, / Fui desviada por estes duros tempos. / Deram-me uma vida interina. / E ela pôs-se a fluir num curso diferente, passando pela minha outra vida, e eu já não reconhecia minhas próprias margens. O que se perde não ganha, mas o achado quando menos se espera. Quando não, no meio da tarde ela me dizia um trecho do House of Leaves (Pantheon, 2000), do escritor estadunidense Mark Danielewski: Paixão tem pouco a ver com euforia e tudo a ver com paciência. Não se trata de se sentir bem. É uma questão de resistência. Assim como a paciência, a paixão vem da mesma raiz latina: pati. Não significa fluir com exuberância. Significa sofrer. E para quem sofreu além da conta e ainda achava pouco, nunca demais, o cansaço e ela, era o que tinha mais haver, não mais. Ela ausente sequer imagina viver em mim, mesmo que nem me dê conta por onde anda ou vai, vive inteira e real em mim. É hora de prosseguir, mesmo que as tardes sejam madrugadoras ou as manhãs anoitecidas, ziguezague e vice-versa, eu voo: não passei do ponto, a hora é esta. Até mais ver.

 

A ARTE DE CÍCERO DIAS



Num clarão estranho, rompendo tudo, num ruído metálico de suas grandes asas, os poderosos arcanjos vão paliando pelas costas do Nordeste os corais. Corais e mais corais. Belos, rosas, vermelhos. Sabiam da luz das estrelas. Estrelas cadentes, bem vivas, a mostrar o caminho da vida eterna. E, ao abrigo de uma esfera celeste, colorida de um azul de anil, as formas e as cores se ajustavam.

A arte do artista plástico do Modernismo brasileiro Cícero Dias (1907-2003). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


 


terça-feira, junho 26, 2018

AKHMÁTOVA, SÁBATO, POSTMAN , GILBERTO GIL, VICO, IMOGEM CUNNINGHAM, VIOLETTE & CLAUDE CHABROL


MADAME PUXENCOLHE – Imagem: arte da fotógrafa estadunidense Imogem Cunningham (1883-1976) - A madame acordou infeliz. Nada faltava, o mundo ao seu gosto, a vida ideal. Mas, estava infeliz. O prazer da solidão, a angústia de tudo nos conformes. Olhou do lado, todo conforto! Pensou em mudar as persianas, depois de tantas, convenceu-se: melhor não há. Ah, mudar o teto, esse o último escolhido entre centenas de outros, não, não. Podia trocar a cama e todos os utensílios do quarto, quantos não foram testados e usados, não. Ah, melhor outro cenário: uma paradisíaca vista pro mar: não há mais bonito depois de tantas moradias nos quatro cantos do mundo. Foi pro guarda roupa infinito: todas as vestes glamorosas e até as que não sabia possuir, nada mais, por enquanto. Foi pro espelho: cabelos de um lado pro outro, o penteado ideal: e se ficasse careca? Não, não. As faces, quantas plásticas, nada mais por mudar: lábios, nariz, os olhos, nenhum ruga, a maquiagem, não, nada, tudo ao seu gosto. O corpo conferido: e se diminuísse aqui ou aumentasse ali, tudo de novo e outra vez; não, estava no que ela queira, por enquanto. A casa, os empregados entre tantos substituídos, mordomos, governantes, serviçais, todos escolhidos a dedo a qualquer mínima destoada, adorava ser sinhazinha, mandona, servida. Os jardins, os cômodos, os automóveis, iates, aeronaves, os cartões de crédito, a vizinhança, os móveis, as obras de arte, os prazeres da estima, os cantos e recantos entre zis moradias, a cortesia dos ao redor, nada por mudar. E a madame infeliz. O céu, o sol, quantos enquadrados entre a harmonia de nuances, texturas, tonalidades e a madame infeliz. Assim a manhã: esse o lugar dos seus sonhos, enfim, e a madame infeliz. Será que enlouquecera? Pior, está envelhecendo, não, só sendo. Ora, alguma coisa roubava sua satisfação. A tarde, o desjejum, as amigas, os telefonemas: cabelereiros, manicures, ginástica, cinema, café e conversa em dia, requintes, o ápice da elegância, o poder, as posses, e a madame infeliz. Será que enlouquecera mesmo? Quantas extravagâncias, adorava excentricidades e mais o quê. Até isso agora a fazia infeliz. Já anoitecia e o tédio levou a perceber que ainda não havia feito: Paris, Quinta Avenida, os Alpes, todas as maravilhas, os amantes ocasionais, os casamentos desfeitos, as lembranças oníricas e a madame infeliz. Revistas, passeios, viagens, entretenimentos e ela infeliz. Tinha de fazer alguma coisa, motorista vai ali, volta, não, pra lá, direita, esquerda, gira: estou de saco cheio. Não devia ter dito e disse entre semáforos, viadutos, retornos. Nas proximidades de um supermercado, descobriu nunca ter ido. Ah, isso! Animou-se. Entra aí, pare e me espere. Pela primeira vez seguiu sem saber pra onde, pegou um carrinho entre gôndolas, gostou de se sentir só, escolhendo, dispensando, simpatias e ascos, desistiu de bebidas, comidas, de tudo. Um lixo. Foi pro caixa, nada pra pagar nem levar. Não queria nada. Queria saber quanto o passeio, pelo menos, abriu a carteira, nada para pagar, nada? E ficou mais infeliz. Saiu, dirigiu-se ao estacionamento e ordenou abrisse a mala do carro. Ao vê-la aberta e agora? Nada para fazer. De repente, começou a brincar de abre e fecha: puxa e encolhe, couro de pica. E repetia, abria e fechava, puxa e encolhe, couro de pica. E mais repetiu até gritar. Eis que notou alguém nas imediações assistindo a tudo. Envergonhou-se, fechou a mala com raiva, abriu a porta, acomodou-se e ordenou ao motorista que zarpasse e já, não antes passar pelo transeunte que havia testemunhado sua brincadeira. Ao se aproximar, ela baixou o vidro e gritou pra ele: puxa e encolhe, couro pica! E foi-se. Ah, a madame, finalmente, estava feliz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor cultural Gilberto Gil: Live Festival Montreux, MTV Unplugged, Gilbertos Samba ao Vivo & Kaya n’Agadaya Vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Pois foram os próprios homens que fizeram este mundo de nações (que foi o primeiro princípio incontestável desta Ciência, desde que nos desesperamos de encontrá-la nos filósofos e nos filólogos); mas este mundo, sem dúvida, saiu de uma mente frequentemente diversa e, às vezes, de todo contrária e sempre superior a estes fins particulares que os homens se haviam proposto; desses fins restritos, feitos em parte para servir a fins mais amplos, se serviram sempre para conservar a humana geração nesta terra. Por isso, querem os homens usar a libido bestial e dissipar seus benefícios, e fazem a castidade dos matrimônios, onde surgem as famílias; querem os pais exercerem desmedidamente os impérios paternos sobre os clientes, e sujeitá-los aos impérios civis, donde surgem as cidades; querem as ordens reinantes dos nobres abusar da liberdade senhorial sobre os plebeus, e tornam-se escravos das leis, que fazem a liberdade popular; querem os povos livres livrar-se do freio de suas leis, e seguem sujeitos aos monarcas; pois querem os monarcas, com todos os vícios que lhe assegurem a dissolução, aviltar seus súditos, e os dispõe a aceitar a escravidão de nações mais fortes; querem as nações dissiparem a si próprias, e vão salvar seus restos nas solidões, donde, como fênix, novamente ressurgem. O que fez tudo isso foi na verdade, a mente, pois que fizeram-no com inteligência; não é questão de destino, porque o fizeram com livre escolha; nem foi acaso, pois que com perpetuidade, sempre assim fazendo, chegaram às mesmas coisas. Assim pois, de fato, é refutado Epicuro, que defende o acaso, e seus seguidores, Hobbes e Maquiavel; é também refutado Zenão, e, com ele, Spinoza, que defendem o destino: ao contrário, foram confirmados os filósofos políticos, de que é príncipe o divino Platão, que estabelece como reguladora das coisas humanas a providência.[...]. Pensamento extraído da obra A ciência nova (Record, 1999), do filósofo e historiador italiano Giambattista Vico (1668-1744). Veja mais aqui.

ESCOLA & APRENDIZAGEM - [...] Para que a escola tenha algum sentido, os jovens, seus pais e professores precisam ter um deus a quem servir, ou, ainda melhor, vários deuses. Se não têm nenhum, a escola é inútil. O famoso aforismo de Nietzsche é pertinente aqui: ‘Quem tem um porquê para viver pode suportar bem um como.’ Isto se aplica tanto à aprendizagem como à vida. Para dizê-lo com simplicidade, não há meio mais seguro de pôr fim à escola do que não lhe atribuir um fim [...] o deus da Utilidade Econômica é impotente para criar razões para a escolaridade. Pondo de lado sua pressuposição de que educação e produtividade andam de mãos dadas, sua promessa de prover emprego interessante é, como tudo o mais, exagerada. Não há dados sólidos para acreditar que empregos bem renumerados e estimulantes estarão à disposição da maioria dos estudantes após a formatura [...]. Se soubéssemos, por exemplo, que todos os nossos estudantes desejavam ser executivos de grandes empresas, nós os treinaríamos para bons leitores de memorandos, relatórios trimestrais e cotações de papéis na Bolsa e não inquietaríamos a cabeça deles com poesia, ciência, história? Eu penso que não. Toda gente que pensa, pensa que não. A competência especializada ó pode vir por meio de uma competência mais generalizada; isto quer dizer que a utilidade econômica é um subproduto de uma boa educação. Qualquer educação voltada principalmente para a utilidade econômica é limitada demais para ser útil, e, de qualquer modo, amesquinha tanto o mundo que acaba zombando de nossa humanidade. No mínimo, amesquinha a ideia do que é bom aluno. [...] virtuoso é quem compra coisas, pecador é quem não compra. A semelhança entre este deus e o deus da Utilidade Econômica é flagrante, mas com esta diferença: este último postula que você é o que você faz para ganhar a vida, aquele diz que você é o que você acumula. [...]. Trechos extraídos da obra O fim da educação: redefinindo o valor da escola (Graphia, 2002), do professor crítico social e teórico da comunicação estadunidense Neil Postman. Veja mais aqui.

HEROIS & TUMBAS – [...] Uma energia atroz me possuía, eu me sentia uma mistura de força cósmica, de ódio e de indizível tristeza. Rindo e chorando, abrindo os braços, com essa teatralidade que temos quando adolescentes, gritei várias vezes ao alto, desafiando a Deus que me aniquilasse com seus raios, se é que existia. [...] Sim, mas podia ser um Deus imperfeito. Um Deus que não consegue controlar muito bem as coisas, que não consegue impedir os terremotos. Ou um Deus que dorme e tem pesadelos ou acessos de loucura: seriam as pestes, as catástrofes [...]. Trecho extraído da obra Sobre heróis e tumbas (Sudamericana, 1977), do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011), romance que conta a devastadora paixão de Martin por Alejandra, o nascimento traumático de uma nação e a história da Seita Sagrada dos Cegos, decompondo o ciúme corrosivo de Martín, as pulsões incestuosas de Fernando, a radiografia da demência da família Olmos e o ódio fratricida dos caudilhos na luta pela emancipação da pátria. Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUATRO POEMAS - CANÇÃO DE NINAR - Longe mata adentro, / Atravessando o remoinho, / Um chalé sem acalento, / Um lenhador bem pobrezinho. / O caçula reclamava por papá, – / De que forma fazê-lo parar? / Dorme, meu filhinho, dorme, / Eu sou uma mãe má. / Ouve cantar o passarinho / Que pousou nestes umbrais… / Foi dada uma cruzinha, / De presente, a teu pai. / A fome vem, a fome vai, / E fome em casa se aloja. / Que São Jorge / Livre e guarde teu papai. II - Torço as mãos sob o negro xale… / “Por que tanto te censuras?” / – Fiz que me ouvisse até deixá-lo / Embriagado de amargura. / Como esquecer? Ele saiu, cambaleando, / Nos lábios uma horrenda contorção… / Desci correndo, sem pegar no corrimão, / E no portão segurei ele pela manga. / Sufocada, eu gritei: “O que se deu / Foi brincadeira. Se tu fores, não agüento.” / Ele então com toda calma respondeu / E com frieza: “Não te exponhas tanto ao vento”. III -  Naquele tempo eu era hóspede na terra. / O nome que me deram de batismo – Anna, / Era doce aos ouvidos e aos lábios dos humanos. / Assim eu por milagre vi o júbilo terrestre / E, nem sequer contando vinte aniversários, / Eram tantas minhas festas quantos dias há no ano. / Obediente a certo ímpeto secreto, / Elegendo um desprendido pretendente, / O sol, apenas, eu amava, e as árvores. / Encontrei, certo verão, uma estrangeira / E àquela hora nas marés de águas quentes / Em que juntas nos banhávamos / Estranho pareceu-me o seu traje de banho / E mais estranhos os seus lábios e palavras – / Raras, como estrelas cadentes em setembro. / Delicada, ensinava-me a nadar / Com sua mão me apoiando por debaixo / O corpo inábil sobre as ansiosas ondas. / De repente estatelei naquelas águas azul-claras / Calmamente ela a mim se dirigiu, / E pareceu-me que a floresta com as frondes / Farfalhava, que a areia abria fendas / Ou que o fole de uma gaita, num assobio, / Anunciava a despedida, pois o sol ia se pondo. / Suas palavras, não podia me lembrar, / Caía a noite sombreando seu perfil, / O cabelo molhado circundando seu olhar, / Uma frestra que na boca entreabriu. / Como perante uma divina mensageira, / Supliquei para a menina: “Diz-me, / Para quê me surrupias a memória, / E sussurras-me ao ouvido, se a glória / De cantar o que ouvi, tu retiraste-a de mim?” / Só uma vez, eu passeando na vindima, / Enchi o meu de estimação cesto de vime / E, bronzeada, me sentei sobre o capim. / Pálpebras cerradas, os cabelos destrançava, / Lânguida estava e dos perfumes estafada / Que exalavam desde os figos azulados / E do hálito picante das silvestres hortelãs. / Do relicário da memória aproximou-se, / Essa delícia de palavras derramou, / E o cesto cheio eu lançando pelos ares / Para a terra me joguei como se fosse / Certo amado, a quem canta meu amor. REQUIEM: EM LUGAR DE UM PREFÁCIO - Nos anos desgraçados da iejóvtchina eu passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Certa vez alguém me “identificou”. Então atrás de mim uma mulher de lábios azuis e que, é claro, nunca na vida ouviu falar meu nome, despertou do torpor, peculiar a todas nós, e me perguntou ao pé do ouvido (lá só aos sussurros se falava): – E isso, tu és capaz de descrever? E eu disse: – Sou. Então algo semelhante a um sorriso passou por aquilo, que algum dia foi seu rosto. [...]. Poemas da poeta acmeísta russa Anna Akhmátova (1889-1966). Veja mais aqui.

VIOLETTE NOZIÈRE
O drama Violette Nozière (1978), dirigido pelo cineasta francês Claude Chabrol (1930-2010), é inspirado na historia real da francesa Violette Nozière (1915-1966), que foi manchete da crônica judicial e criminal nos anos de 1933-34. Trata-se de uma jovem adolescente que se prostitui em segredo na década de 1930, fato ignorado pelos pais que acreditavam na criança brilhante que se tornou gradualmente rebelde. Em revolta contra o seu estilo de vida e mentalidade reduzidos, ela se apaixona por Jean Dabin, um jovem fisiculturista que vive praticamente graças a pequenos roubos na casa dos pais e ao benefício da prostituição ocasional. Enquanto isso, seus pais são informados pelo médico de Violette que ela tem sífilis. Ela consegue convencer mais ou menos sua mãe, ainda desconfiada, e seu pai, mais indulgente, do que de uma forma ou de outra, é virgem e deles que ela herdou a doença. Graças a esse pretexto, ela os leva a tomar uma droga que é realmente veneno. Seu pai morre, mas sua mãe foge e ela presa e acusada de assassinato. Para se defender, ela afirma que seu pai abusou dela. Condenada por envenenamento e parricídio, Violette Nozière é condenada à morte. Sua sentença foi gradualmente liberada com base em uma acusação que ela fez sobre o abuso dela por parte do pai. O destque do filme fica por conta da atuação da premiada atriz francesa Isabelle Ann Huppert.


O livro Borges & Eugénio & muito mais na Agenda aqui.
&
As drogas e as campanhas antidrogas aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa estadunidense Imogem Cunningham (1883-1976).
Veja mais aqui.
&
Pelas ruas onde andei: Pra quem vem ou vai, mesmo caminho, diferentes vivências aqui.
&
O plenilúnio do amor (ou os arquétipos de Luciah Lopez), a literatura de Jorge de Lima, a poesia de Ana Cristina Cesar, o pensamento de Ernest Hans Gombrich, O mundo da leitura de Marisa Lajolo, A mudança tecnológica de José de Mello Júnior, a arte de Wendy Arnold & Agostino Carracci, Literótica: O amor mais que de repente, A paixão de Aristóteles & As previsões do Doro para Touros aqui.
&
Biritoaldo vai ao inferno, A música de Gilberto Gil & a arte de Tchello D’Barros aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

quarta-feira, janeiro 24, 2018

CORTÁZAR, AKHMÁTOVA, MILLÔR, CORALINA, DUFRENNE, CRISTINA ORTIZ, MODIGLIANI, YAMANDU, DEBORAH AZZOPARDI, MEIO AMBIENTE & XEMENEXEM

JERRY XEMENEXEM – Imagem: arte da artista britânica Deborah Azzopardi. - Xemenexem parece que pirou de vez! Mesmo com a boataria de que ele já era aluado desde nascença, a desconfiança crescera depois que ele assistiu uns filmes do Bruce Lee e passou a dar golpes no vento a torto e a direito, passando-se por lutador de boxe. Como? Pois é, dizia ele imitar em tudo o seu ídolo, enchendo as paredes do quarto, o guarda-roupa, a cama, o teto, a porta, tudo com pôsteres do sagrado lutador, não invadindo a casa toda por conta da admoestação gentil da cara de xícara da sua santa mãe, carinhosamente chamando-o na grande para o razoável, enquanto segurava uma mão de pilão e ameaçava umas caçaroladas no quengo. Dizia ele: Isso dói, já vi estrelas meio dia em ponto! Recolheu-se aos seus aposentos, aceitando o conselho materno. Assim foi incorporando o seu herói, passou à prática do halterofilismo, conferindo diariamente os músculos e invadindo as esquinas com golpes e macaquices que tanto assustavam como corroboravam o falatório da sua doidice. Pois bem, estava ele um dia lá em uma das muitas esquinas gesticulando como se estivesse no meio de uma luta no ringue, até chamar a atenção do coronel do Exército, Jabão Eckchavarre (nomezinho desgraçado esse, hem?), que passava no seu luxuoso automóvel. O patenteado na hora viu nele um espécime ideal para as fileiras da coporação, resolvendo capturá-lo imediatamente: Sentido, recruta. Xemenexem deu uma continência desastrada e ficou imóvel, de não mexer nem olhos nem respirar, estático. Enquanto o militar conferia a estatura, a musculatura, o porte, o perfil, o corte de cabelo, a panturrilha, ele lá ficando lívido, assustando-se com o berro no ouvido direito: Descansar! Tonteou, botou as mãos ao peito, sem fôlego, com dificuldades para respirar. Já ia desmaiando quando ouviu: Levanta, molenga! Quase morria asfixiado, todo mole que nem um boneco inflável furado se esvaziando. Aí um grito: Qual sua idade, recruta? Dezessete, senhor! – mentira, tinha dezesseis, ainda, mas no aperto gritou o que lhe viera na telha! Alistamento militar? Em dia, senhor. Vai servir a pátria? Com orgulho, senhor. Então vamos! Sim, senhor! E foram. Aboletou-se no banco do passageiro e desapareceu por mais de vinte dias. Só notícias dele mais de mês de depois, quando reapareceu apresentando-se no destacamento 14RI, na capital, para exame, juntamente com outros aspirantes. Foi empurrado numa sala que tinha mais ou menos uns outros trinta ou mais, sei lá, tudo nu, ele vestido de blusão, gorro e luvas. Um oficial aproximou-se e ordenou: Tire a roupa! Ele abriu um sorriso largo e abanou o dedo indicador em sinal de negativa. É uma ordem! Ah, patrão, não vai dar preu enrabar esses caras todos duma vez não, quer me matar é? Quer tirar a roupa ou quer ficar nu na marra? Ele riu e ameaçou correr. O oficial ordenou: Pega! Oxe, agarraram na marra e deixaram-no nuzinho. Empurraram-no pra junto dos outros, ele desconfiado, uma mão na frente e outra atrás, enquanto os demais eram atendidos um a um, ele o último da fila, assustado sem saber o que fazer. Sua vez, venha! Ele encostou-se na parede, olhando de um lado a outro para ver como escapar. Novamente, seguraram o rapaz e examinaram do jeito que deu. Depois do exame, jogaram-no pro oficial do comando: Nome? O meu? Sim, idiota! O meu nome é Jerry com ipsilone no fim e Ximenexem com dois “xis”. Isso é nome ou apelido, seu porra! É meu nome, tá na identidade. Mostre! Não sei onde vocês botaram meus documentos, do jeito que me pegaram, nem eu sei mais se sou eu mesmo. É assim que você quer servir a pátria, seu calhorda? Na verdade? Sim. Olhe só, autoridade, na verdade eu queria ser cantor, pois sou compositor de memoráveis músicas como... O meu carro tem o retrovisor bordado para eu ver o meu amor na esquina... e começou a cantarolar, vozeirão impostado. Que merda é essa? Todos caíram na gaitada, nem o superior se aguentou de tanto rir. Isso é um desacato! Não, seu polícia, essa eu não compus, mas tem essa aqui: Mulher de compensado, veja... e danou-se a se esgoelar, maior mangação. O superior com uma risada forçada: Isso é uma palhaçada! Ah, isso eu não sei fazer não, mas canto, danço, toco guitarra, dou karatê e luto boxe. Você é demente ou o quê? Nada, senhor, é só armar o ringue que eu mando ver! Esse cara é pinel! Não senhor, sou Bruce Lee, o cantor lutador! E danou-se a cantarolar e se aproximar do comandante, passar a mão na sua papada e segurar-lhe o queixo para mandar-lhe um beijo. Foi o fim da picada. Levou um peteleco de ficar mouco, de nem ouvir: Isso é um porqueira! E general partiu pra cima dele com a tropa toda, no maior quebra-pau, findou levado à força pelas orelhas. Ao recobrar os sentidos: Onde estou? Na Tamarineira. Que é isso? Manicômio. Nome bonito prum hotel, gostei. E tem muita gente preu mostrar meu talento. Era aqui mesmo que eu queria viver, tô feito! E saiu cantarolando. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o violonista Yamandu Costa ao vivo & In Concert, a pianista Cristina Ortiz com Alma Brasileira & Ciclo Brasileiro Heitor Villa-Lobos & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A criança é uma coisa assim bem depressa, assim bem macia, cheia de muitas palavras erradas que todo mundo ri. Elas gostam bastante só de brincar e têm medo de apanhar porque estão sempre fazendo aquilo que não devem. Elas querem tudo que vêem e pedem com a mão e com o olho. É muito difícil obrigar uma criança a se lavar, agora a se sujar não é não. Criança é muito teimosa e nunca faz o que os mais velhos mandam de modo que tem muita que ninguém quer. É por isso que eu nunca vi pai e mãe sem filho mas tem muito filho sem pai nem mãe. [...]. Trecho de Conpozissõis imfãntis, extraído da obra Trinta anos de mim mesmo (Nórdica, 1974), do escritor, dramaturgo, tradutor, desenhista, humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui e aqui.

ESTÉTICA & FILOSOFIA - [...] o a priori afetivo na experiência estética qualifica tanto o sujeito quanto o objeto. É por isso que ele está implicado na noção de intecionalidade: a relação entre o sujeito e o objeto, denotada por essa noção, pressupõe não somente que o sujeito se abre ao objeto ou se transcende para ele, mas também que algo do objeto está presente no sujeito antes de toda experiência e que, em troca, algo do sujeito pertence à estrutura do objeto anteriormente a qualquer projeto do sujeito. [...]. Trecho extraído da obra Estética e filosofia (Perspectiva, 1998), do filósofo e esteticista francês Mikel Dufrenne (1910-1995). Veja mais aqui.

MEIO AMBIENTE - [...] A contaminação das águas, tanto as de superfície – rios, lagos, represas – como as subterrâneas, é uma constatação em todo o mundo. [...] As águas dos rios brasileiros, de igual forma, encontram-se degradadas pelos esgotos sanitários não tratados e pelo lançamento generalizados, pelo menos até recentemente, de esgotos industriais, in natura. [...] A prevalecerem os índices elevados e crescentes de consumo de água que vêm sendo registrados pela humanidade nas últimas décadas, a carência de água potável nas regiões mais densamente povoadas, mesmo naqueles países ditos desenvolvidos, se tornará um problema político- social grave, a exemplo do que já se constata no Oriente Médio e em algumas regiões desérticas da África. [...] Os grandes acidentes ambientais podem ocorrer por causa de uma decisão errada, em dissonânica com as leis da natureza e as boas práticas da engenharia. [...] Mas esses grandes acidentes podem ser também atribuídos ao somatório de muitas ações isoladas, desvinculadas dos princípios que regem a conservação do meio ambiente, seja por incúria, seja por desconhecimento. [...] As decisões erradas, mencionadas no primeiro caso, podem ser evitadas pelo emprego das ferramentas adequadas do planejamento regional e dos estudos de impacto ambiental bem conduzidos. Já no segundo caso, são requeridas atitudes individuais, calcadas na educação e na conscientização ambientais e em mudanças tecnológicas e legais que podem significar alterações profundas no padrão de vida das populações. Somam-se aqui, aos casos citados, os dois termos de um dos princípios que conduzem ao desenvolvimento sustentável: pensar globalmente + agir localmente. [...] Extraído de Meio ambiente: acidentes, lições, soluções (Senac, 2003), de Cyro Eyer do Valle e Henrique Lage. Veja mais aqui e aqui.

JOGO DE AMARELINHA - [...] Cada reunião de gerentes de multinacionais, de homens-de-ciência, cada novo satélite artificial, hormônio ou reator atômico esmagam um pouco mais estas faltas esperanças. O reino será de plástico, sem dúvida. E não que o mundo venha a se converter em um pesadelo orwelliano ou huxleyano; será muito pior, será um mundo delicioso, à medida de seus habitantes, sem nenhum mosquito, sem nenhum alfabeto, com galinhas enormes e provavelmente com dezoito coxas, todas deliciosas, com banheiros telecomandados, água de distntas cores segundo o dia da semana, uma delicada atenção do servoço nacional de higiene, com televisão em cada quarto, por exemplo grandes paisagens tropicais para os habitantes de Reijavik, vistas de iglus para os de Havana, compensações sutis que conformarão todas as rebeldias, etecétera. Quer dizer, um mundo satisfatório para pessoas razoáveis. E haverá nele alguém, um só, que não seja razoável? [...]. Extraído da obra Jogo de amarelinha (Civilização Brasileira, 1982), do escritor argentino de origem belga Julio Cortázar (1914-1984). Veja mais aqui.

DOLORI – Criança pobre / de pé no chão. / Suja, rasgada, despenteada. / Desmazelada./ Criada à toa, de roldão. / Cria de casebre, / enxerto de galpão. II – Não faz anos. / Não tem bolos de velinhas. / Não tem natal. / Não tem escola. / Não tem banheiro. / Não tem cuidados. / Não tem cantinho. / Só tem milhões de vermes / de amarelão... III – Assim, vive um pedaço do tempo. / Depois, morre. / No cemitério da cidade, / a quadra de ciranças / se enche logo / do comorozinhos / iguais, iguaizinhos - / de crianças pobres, densutridas / (pasto de vermes na vida) / que vão morrendo / de desnutrição. Extraído do livro Meu livro cordel (Global, 2001), a poeta Cora Coralina (1889-1985). Veja mais aqui e aqui.

MODIGLIANI DE AKHMÁTOVA
Imagens: a poeta russa Anna Akhmátova na arte do pintor italiano Amedeo Modigliani.
[...] O sopro da arte ainda não reduzira a cinzas, não transformara essas duas existências, aquilo deveria tornar-se uma hora leve, luminosa, antecedendo o amanhecer. Mas o futuro que, como se sabe, projeta sua sombra muito antes de entrar, já batia na janela, escondia-se atrás dos lampiões, interpunha-se nos sonhos e assustava com a terrível Paris baudelairiana, que se ocultava em alguma parte ao lado. E tudo o que havia de divino em Modigliani somente soltava fagulhas de não sei que treva. Ele não tinha nada de parecido com alguém no mundo. Sua voz de certo modo se conservou para sempre em minha memória. Quando eu o conheci estava na indigência, e não dava para entender do que ele vivia. Como pintor, não tinha nem sombra de aceitação. [...] Ele me parecia rodeado pelo anel apertado da solidão. Não me lembro de que ele cumprimentasse alguém no jardim de Luxemburgo ou no Quartier Latin, onde todos eram mais ou menos conhecidos entre si. Eu não ouvi dele nome algum de amigo ou conhecido, nenhum nome de pintor, e não o ouvi dizer nenhuma brincadeira. Nunca o vi bêbado, e ele não cheirava a vinho. Pelo visto, passou a beber mais tarde, mas o haxixe já surgia de algum modo em seus relatos. Segundo parecia, não tinha companheira. Ele nunca relatava novelas sobre paixões anteriores (o que, infelizmente, fazem todos). Comigo ele não falava de nada terrestre. Era cortês, não em conseqüência de formação familiar, mas devido à superioridade de seu espírito. Naquele tempo, ocupava-se de escultura, trabalhava no patiozinho, junto ao seu ateliê, e no beco deserto ressoava o seu martelinho. As paredes do ateliê estavam cobertas de retratos de um comprimento incrível (tenho agora a impressão de que iam do chão ao teto). Nunca vi reproduções deles – teriam sobrevivido? Ele chamava sua escultura de la chose; ela foi exposta, se não me engano, nos Indépendants, em 1911. Pediu-me que fosse vê-la, mas não se aproximou de mim na exposição, porque eu estava com amigos. No período das minhas grandes perdas, desapareceu também a fotografia dessa obra, que ele me dera. Nessa época, Modigliani delirava com o Egito. Ele me levava ao Louvre para olhar a seção egípcia e me assegurava que tudo o mais (tout le reste) não merecia atenção. Ele desenhava minha cabeça com adereços das rainhas e das dançarinas egípcias e parecia completamente tomado pela grande arte do Egito. Ao que parece, o Egito foi a sua última paixão. Logo depois, ele se torna tão singular que não dá vontade de lembrar nada ao olhar suas telas. Agora chamam este período de Modigliani de période nègre. [...] A propósito da Vênus de Milo, dizia que as mulheres muito bem feitas de corpo e que valia a pena pintar ou esculpir, sempre pareciam desajeitadas quando vestidas. [...] Posso, e considero indispensável, testemunhar que Modigliani já era igualmente culto muito antes de conhecer Beatriz X, isto é, em 1910. E é pouco provável que uma dama capaz de chamar o grande pintor de porquinho pudesse instruir alguém. [...] Certa vez, ao que parece, não combinamos bem o encontro e, tendo ido chamar Modigliani, não o encontrei; resolvi esperar alguns minutos. Tinha nas mãos uma braçada de rosas vermelhas. Estava aberta a janela em cima do portão trancado. Não tendo o que fazer, fiquei jogando as flores para dentro do ateliê. Visto que Modigliani não aparecia, fui embora. Quando nos encontramos, mostrou-se perplexo: como eu poderia ter entrado no quarto trancado se ele estava com a chave? Expliquei o ocorrido. "Não pode ser, elas estavam colocadas de modo tão bonito ...". Modigliani gostava de vagar à noite pela cidade e, com freqüência, tendo ouvido os seus passos na quietude sonolenta da rua, eu ia até a janela e, pelas persianas, seguia sua sombra que se demorava sob ela. [...] Modigliani sentia muita pena de não poder entender meus versos. Suspeitava que neles se ocultassem não sei que maravilhas, mas eram apenas as minhas primeiras tímidas tentativas (por exemplo, no Apolon de 1911). Quanto à pintura no espírito do Apolon (Mir iskustva), Modigliani simplesmente ria. Fiquei surpresa quando Modigliani achou bonito certo homem de feiúra notória e insistiu muito nisso. Foi então que pensei: ele certamente vê tudo diferente de nós. Em todo caso, Modigliani nem notava aquilo que em Paris chamam de moda, enfeitando tal palavra com epítetos magníficos. Ele não me desenhava do natural, mas quando ficava em casa, e me dava esses desenhos. Foram 16. Ele me pediu que os enquadrasse para o meu quarto em Tzárskoie Sieló. Eles se perderam naquela casa, nos primeiros anos da Revolução. Sobrou aquele em que se pressentem, menos que nos demais, os seus futuros nus. Conversávamos principalmente sobre versos. Ambos conhecíamos muitíssimos versos franceses: Verlaine, Laforgue, Mallarmé, Baudelaire. Ele nunca me leu Dante. Talvez porque eu então ainda não conhecesse o italiano. [...] Nos anos subseqüentes, quando eu, certa de que uma pessoa como aquela deveria brilhar, perguntava sobre Modigliani aos que chegavam de Paris, a resposta era sempre a mesma: não sabemos, não ouvimos falar. [...] Pareceu-me, durante muito tempo, que eu nunca mais ouviria nada a seu respeito ... Mas acabei ouvindo muitíssimo ... [...] Mas, ainda bem recentemente, Modigliani tornou-se também herói de um filme francês bastante vulgar, Montparnasse 19. Que amargura! Bólchevo, 1959 – Moscou, 1964.
Texto da poeta acmeísta russa Anna Akhmátova (1889-1966), sobre o pintor e escultor italiano Amedeo Modigliani (1920-1884), extraído de Estudos Avançados (jan/apr, 1998), tendo aparecido em 1967 no anuário Dien Poésii (Dia da Poesia), com materiais de um encontro periódico em Moscou, dedicado à poesia. Veja mais aqui e aqui.

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