segunda-feira, maio 02, 2016

AS DROGAS & AS CAMPANHAS ANTIDROGAS



AS DROGAS & AS CAMPANHAS ANTIDROGAS - Têm-se registros de que a droga apareceu na China com as plantas da alegria e o papiro Ebers e que era usada para fins religiosos, magias e iniciações nos mistérios culticos nas diversas culturas antigas, como a chinesa, a grega, a egípcia, a romana e a árabe, há mais ou menos uns cinco mil anos. Também é de muito tempo atrás o uso dela entre as primitivas comunidades indígenas, como o é até hoje, juntamente com o uso do café, da coca e de outras substâncias por parte de algumas populações do planeta. Um dado importante foi destacado no século XVII, durante o combate à malária, suscitando o aparecimento do fumo do ópio que, a partir de então, começou a ser traficado por mercadores portugueses e ingleses, sobretudo com os registros históricos das vitórias inglesas e a luta dos imperadores chineses contra o tráfico: não podia ser permitido na China o que era proibido na Grã-Bretanha. O resultado a que se chegou o impasse nessa época é o mesmo dos tempos atuais: não se podia abrir mão dos lucros da Companhia das Índias. E assim foi. Deu-se então o surgimento da morfina em 1806, de um poderoso analgésico denominado de heroína em 1898, vindo depois os barbitúricos, a cannabis sativa, a cocaína – o ídolo universal, o alcalóide da felicidade -, o LSD-25, as pílulas do amor, o crack e o ecstasy nas ultimas décadas do século XX e todo o pocesso de drogadicção formada por opiáceos, psicoestimulantes pesados e leves, psicodepressores, alucinógrenos, solventes e inalantes. Além do tráfico, o uso foi disseminado por meio de prescrições médicas – que o diga Freud -, e as estratégias militares nas guerras – vide depoimentos dos pilotos do Enola Gay, que fizeram uso delas para terem coragem de jogar a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, na segunda grande guerra, ou o documentário Viagem ao inferno a Edgewood. A gravidade foi detectada quando apareceram os casos de dependências psíquicas e físicas, a síndrome de abstinência, redundando no que hoje se convencionou chamar de dependência química, que tem devassado famílias e causado grandes problemas à saúde pública. O combate ao uso das substâncias psicoativas começou faz tempo e até hoje está amargando um resultado de fracasso retumbante nas suas campanhas, por conta da hipocrisia de discriminação arbitrária, da indiferença geral, das sanções excludentes, do policonsumo e das falsas premissas, simplistas e redutoras do pragmatismo esclarecido. Ninguem é tão bobo o suficiente nem precisa ser tão sabido para saber que nessa bronca há mais coisas implicadas do que possa prever nossa vã presunção. Enfrenta-se o problema como quem, num campo de batalha, só desse conta do inimigo pelo pelotão aparente no front, ignorando-se que ele também tem estratégias, recursos e um grandioso arsenal escondidíssimo. Como sempre, voltamos praquela velha questão dos chineses: quem pode enfrentar o poder econômico e os lucros advindos do tráfico das drogas? Aí eclodem campanhas só pra tapiar, chamando pela moralidade mais fajuta e com a hipocrisia mais sem-vergonha de que se deve reprimir violentamente para salvar a humanidade dessa praga. Aí se deu o impasse do discriminar e descriminar. Discrimina-se as pesadas das leves, lícitas das ilícitas, e se esqueceram do chocolate, do café, tabaco, álcool e medicamentos como os soníferos, tranquilizantes, excitantes e os estupefacientes. Ou seja, repartiram o bolo e se esqueceram do prejuízo individual, das famílias e de toda sociedade. Por outro lado, se a ONU fosse de verdade, fecharia um pacto planetário pela descriminação, com uma campanha maciça educativa de prevenção sob a perspectiva da medicina e psicologia sociais no mundo todo. Aí sim, poder-se-ia augurar êxito para enfrentar o tráfico e, ao mesmo tempo, conscientizar individual e coletivamente os malefícios das drogas. Todavia, faz-se necessário evidenciar a vetusta e repetida pergunta que não quer calar: quem vai abrir mão dos lucros do tráfico das drogas? Afora isso, pelos estudos e leituras que fiz, o problema tem que ser visualizado a partir de determinadas óticas para que não sejamos tão canhestras quanto hipócritas. A primeira ótica necessária é de que o problema envolve desde os danos causados ao Sistema Nervoso Central, como as questões da tolerância, dependência e gratificação, afora o entendimento de cada casa é um caso, não se deve generalizar. Outro ponto que merece ser levado em conta é que a dependência química é oriunda de problemas pessoais complexos, relacionais e psicoafetivos que levam à fuga diante do enfrentamento de condições aversivas inexoráveis e sofrimentos ocultos causados pelo despreparo dos pais, pela destruição das relações familiares, pelo desafeto e indiferença nas relações comunitárias, pelo individualismo possessivo transformado no umbigocentrismo das líquidas relações da hipermodernidade, promovendo a banalização do catastrofismo, da espetacularização da repressão inócua e midiática como respostas que não passam de paliativos insignificantes, desinformação, alheamento e ineficientes ações preventivas numa sociedade que se apresenta como da performance e da aparência, constatando os mais desastrosos efeitos. Esse conjunto de erros só conduz a uma fonte de confusão e equívocos. A grita pela prevenção é unânime, porém na prática só se ataca uma das múltiplas faces do problema. É preciso educação sim, sobretudo na orientação do uso de qualquer dessas substancias de forma abusiva e que seu uso não resolverá os conflitos internos de ninguém, devendo ser dito ao dependente que não basta escapar de uma realidade insuportável, criando uma distorção da realidade. É preciso entender, reitero, que cada caso é um caso e que os pais são os principais atores na prevenção e que esta precisa ser aplicada com diálogo, afeto, sorriso, tolerância e confiança diante do riso desolador, e de que se faz necessário ser amável e amar para ser amado como se deseja ser amado. Afinal, o problema do dependente não é só ele nem só dele, tem profundezas subterrâneas bastante complexas, que me levam até a constatação de que a gente já nasce drogado ou com predisposição para tal, quando por conta de qualquer mal-estar mais ou menos sério, os médicos entopem nossas mães na gravidez, afora nos certificar do uso desde o útero de diversas drogas e de que vivemos nos autodrogando a cada iniciativa de automedicação. É evidente que não sou o dono da verdade, muito menos uma estudiosa autoridade sobre o caso em tela, apenas um simples beletrista pesquisador cidadão que busca a verdade. Por conta disso, dou minha contribuição honesta metendo o meu bedelho sobre o assunto. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor simbolista alemão Carlos Schwabe (1866-1926).


Curtindo o álbum Tales from Topographic Oceans (Atlantic Records, 1973), da banda britânica de rock progressivo Yes, formada Jon Anderson (vocal), Chris Squire (baixo), Rick Wakeman (teclados), Steve Hove (guitarra) & Alan White (bateria). Veja mais aqui e aqui.

PESQUISA
A droga é só um pretexto (Loyola, 2005), do médico, psiquiatra clínico, perito de tribunais e especialista em problemas ligados à droga, Francis Curtet. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE
“As drogas são uma tragédia para os toxicômanos. Mas a criminalização de seu uso foi desastrosa para a sociedade, para os usuários e os não-usuários. Se as drogas tivessem sido legalizadas há dezessete anos, o crack jamais teria sido produzido – os elevados custos das drogas ilegais fizeram da produção do crack um negócio rentável, por se tratar de uma droga mais barata -, e hoje haveria bem menos viciados, um contingente menor de pessoas estaria encarcerado e menos presídios teriam sido construídos”, do economista, estatístico, escritor estadunidense, Prêmio Nobel de Economia de 1976, Milton Friedman (1912-2006).

LEITURA 
On the road (Pé na estrada – Cultural, 1986), do escritor estadunidense Jack Kerouac (1922-1969). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Como já dizia o cientista espanhol especialista em Bioética, Javier Gafo Fernández (1936-2001), O grau de satisfação do indíviduo depende de sua capacidade de consumo. Ou seja, a felicidade hoje está reduzida à capacidade de consumir cada vez mais e, como nem todo mundo tem condições de acompanhar as descartáveis e constantes novidades tecnológicas, muito menos tem acesso a esse consumo desenfreado, sentem-se todos profundamente insatisfeitos e frustrados. Uma bronca da porra! É como eu digo: ou pra nossa infelicidade tudo está com preço conforme as nossas impossibilidades de compra, ou a gente deve adotar uma conduta consumerista. Vou na segunda.

Veja mais Antonio Carlos Nóbrega, Darel Valença Lins Aristóteles, John Donne, Henrik Ibsen, Marquês de Sade, Luis Buñuel, Hieronymus Bosch & Marilene Alagia Azevedo aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

La Tentation de saint Antoine (desenho em pastel, 1878), do pintor, desenhista, ilustrador e gravador belga Félicien Rops (1833-1898).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele ...