quarta-feira, julho 25, 2018

GABRIELA MISTRAL, ARTAUD, ANA MIRANDA, CANCLINI, LUCIEN SFEZ, ROCCO & ADRIANA FARIAS


PROSINHA PARAMIOLÓGICA – Imagem: A jangada e o céu amarelo, art by Liu Kojima. - Igarapeba de rio, ubá pelo mar. Ou vice-versa. Pescador de respeito, não deixa o barco virar. Quem me ensinou a nadar eu não sei, nunca aprendi. O que é que o rei vê só uma vez, o homem toda vez e Deus nenhuma? Dá-me só uma, pão-por-Deus! Um pé lá, outro cá: pés em duas canoas. Quem por gosto corre não se cansa. É só livrar de boca ruim, praga rolou, capaz de pegar mesmo, avalie, que se espalha feito um rastilho de cobra. É, coisa malfazeja nunca vem sozinha. Melhor guardar do bem, cumulado de votos amáveis. E a mula-sem-cabeça? Ah, moça donzela, bonita de se ver. Perdeu-se tão jovem, caiu na falação. Por causa disso, não pode mais casar. Como é que pode? Foi feito a comadre e o compadre. Vixe! Pior aquela que se perdeu com o padre e virou burrinha. Isso é lá coisa que se conte? Oxe, toda sexta-feira, meia noite em ponto, é a hora dela. Não diga isso. Esconda as unhas e os dentes, senão ela ataca, chupa os olhos, começa por aí. Se passar correndo por uma cruz, ela logo aparece. Deite-se de bruços e esconda as mãos. Quando chegar em casa, não acenda as luzes; espere o dia nascer. Eita, isso é coisa de Trancoso. Minha porta está aberta, ninguém vem me ver, da janela estreita, tudo ao redor, rumores de passos na rua, as palavras voam: conversa vai, conversa vem, as parlendas na boca da noite. Nenhum motivo pra queixa, a farra loquaz: eu quero que me venha contar o que foi que viste ontem na feira! Deixe de vexame, ora, parece mais que vai tirar o pai da forca! Eu, não. Esse não entende patavina, não sabe pataca de qualquer coisa. E a feira tem de tudo, de fruta ao que ver, de tudo que quiser! Não visse mais nada? Só a mulher buchuda com a barriga pela boca. Se ela soprar no cangote do marido, ele que enjoa. Não diga isso. E pra melhorar a situação, ela deve ficar de cócoras e o marido tem que dar três voltas no oitão. Segura o fandango: caindo no goto de todo mundo! E bate o coco: Papai me dê dinheiro pra comprar um cinturão que a vida de solteiro é andar mais Lampião! Não é coisa que se diga: pior do que pé com calo em sapato novo! Mindinho falou pro Seu Vizinho: jangadeiro de rio veleja pro mar! A pipa pinga, o pinto pia, quanto mais o pinto pia, mais a pipa pinga! Orvalho não enche poço, rapaz! E se procuram porcos até as moitas roncam! A voz do populário dos rincões bafejados pelo ditos e sobreditos, destravou a língua com os adágios a desforra de trancoso: mande lá adivinhação! Uma anedota que seja, homem! Seu Vizinho falou pro Maior de todos: Coco pelado, caiu no melado! Quando Deus andou no mundo onde pôs as mãos na mulher? Segura a munheca, lá vem travalíingua: corrupaco papaco, a mulher do macaco, ela pita, ela fuma, ela toma tabaco debaixo do sovaco! Ah, morena, eu apago os faróis e teu fogo. Una, duna, trena, catena, bico de pena, essa sim, essa não. Escolha muito não. Maior de Todos pro Fura Bolos: Conheço o pau pela casca, a mulher peça feição, eu sei, olhando a fumaça, que pau que deu o tição! O infortunado de fadiga no seu eito penoso, no ponto mais alto do verão: que Deus torne a vida fácil, chuva para a plantação. Fura Bolos pro Cata-Piolhos: Sou lá pau de dá em doido, hem! Enquanto isso o papa-figo corre solto no matão. Soa acalanto altas horas, entonações melífluas da beira do rio para ultramar. Uma noite dentre as noites, as águas calmas escondem o remexido do fundo. Parece mais cavilação. Não é isso, não. Reme direito, ué! Eu remo que remo e torno a remar, um dia esse rio vai me levar além mar. Vai que se perde pelas parêmias. Quer que conte outra vez? Ah, era uma vez pra quem vai, um filho de qualquer pai, vai pelo mundo sem fim: ganhará a sorte quem disser sim, a sorte pra quem só diz sim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora, violonista e violeira Adriana Farias: Beleza rústica, Viola minha viola, Canarinho do peito amarelo & Galopeira & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Nos centros urbanos se dramatiza uma tensão chave: entre totalizações do saber que as descrições das ciências sociais duras produzem e as destotalizações que geram o movimento incessante do real, as ações imprevistas, aqueles ocos ou fraturas que obrigam a desconfiar dos conhecimentos demasiadamente compactos oferecidos pelas pesquisas e estatísticas. [...]. Trecho de Imaginários culturais da cidade: conhecimento/espetáculo/desconhecimento (Iluminuras, 2008), do antropólogo argentino Nestor Garcia Canclini. 

A TÉCNICA, A COMUNICAÇÃO & A VIDA – [...] Desde o começo da humanidade sonha-se com isso. Nunca sofrer e nunca morrer. Ou seja, obter a imortalidade. É o que precisamente a técnica pretende poder dar ao homem. [...]. Trecho de entrevista concedida pelo escritor e professor tunisiano Lucien Sfez à Revista Famecos (abril, 2008), que em sua obra Crítica da comunicação (Instituto Piaget, 1994), assinala que: [...] A comunicação morre por excesso de comunicação e se acaba em uma interminável agonia de espirais [...], ao denunciar que um Frankstein tecnológico está ameaçando por se viver num mundo de máquinas, para fabricar, transportar, pensar, contando-se com a comunicação, vista como um conceito mágico, um agente invasor ou uma nova ciência litúrgica do século XXI, para evitar a catástrofe iminente. Para o autor, na sociedade atual já não se sabe comunicar consigo mesma, por conta dos valores alterados cujas leis se dissipam e cuja coesão interna é posta em questão. Para ele, o fator comunicação assume uma relevância inédita em termos históricos por ter a tarefa desesperada de religar os diversos setores da sociedade mergulhados na cegueira da especialização, da fragmentação e da confusão dos valores. 

O RETRATO DO REI – [...] Nenhuma mulher devia temer um homem [...] juntou um arsenal que daria para prover um grande exercito. Estão todos armados. Não há mais autoridade. Sem comando não há paz. Prenuncia-se ali o fim da sociedade humana. [...] isso ainda vai acabar em desgraça. [...] Vista de longe, parecia uma cidade limpa, inocente, em estado de graça, sem seus moradores, seus pecados, suas intrigas. [...] Sua vida era uma sucessão de perdas. [...] Muitos homens acreditavam ser pecado manter conversação com mulheres. E talvez fosse mesmo. [...] Desde criança Francisco demonstrara vocação religiosa [...] dissera a mão que queria ser padre. Mas não sonhava apenas ser padre. Queria ser bispo, quem sabe arcebispo, cardeal, ou até mesmo papa. O pai, ao ouvir a expressão dos desejos do menino, dissera: És apenas uma fruta podre nos galhos da nossa família. [...] ajoelhou-se ao lado da cama, postou as mãos e rezou, piedosamente, pedindo a Deus que realizasse seu maior desejo: mandar todos os paulistas para o inferno. [...]. Trecho extraído da obra O retrato do rei (Companhia das Letras, 1991), da escritora Ana Miranda. Veja mais aqui e aqui. 

COPLAS – A tudo, em minha boca, / um sabor de lágrimas se acresce; / a meu pão cotidiano, a meu canto / e até à minha prece. / Eu não tenho outro oficio, / depois do silente de amar-te, / que este oficio de lágrimas, duro, / que tu me deixaste. / Olhos apertados / de candentes lágrimas! / Boca atribulada e convulsa, / em que prece tudo se tornava! / Tenho um vergonha / deste modo covarde de ser! / Nem vou em tua busca / nem consigo também te esquecer! / E há um remoer que me sangra / de olhar um céu / não visto por teus olhos, / de apalpar as rosas / sustentadas pela cal de teus ossos! Poema da poeta chilena Gabriela Mistral (1889-1957), Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE ARTAUD
[...] Se sou poeta ou ator, não o sou para escrever ou declamar poesias, mas para vive-las. Quando recito um poema, não é para ser aplaudido mas para sentir os corpos de homens e mulheres, disse os corpos, tremer e rodar em uníssono com o meu, rodar como se roda da obtusa contemplação do Buda sentado, pernas cruzadas e sexo gratuito, para a alma, quer dizer para a materialização corporal e real de um ser integral de poesia [...] tornem-se verdadeiros, e que a vida saia dos livros, das revistas, dos teatros ou das missas que a retêm e a crucificam para captá-la, e que passe para o plano desta imagem interna de corpos [...].
Pensamento do escritor, dramaturgo e diretor de teatro francês de aspirações anarquistas Antonin Artaud (1906-1948), extraído da obra Valise de cronópio (Perspectiva, 2008), de Júlio Cortázar. Imagem: Evocation d’Antonin Artaud, de Masson Andre (1886-1987). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Jornadas de Economia Política, História Econômica e Social (III Jephes) & muito mais na Agenda aqui.
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A arte do pintor ítalo-brasileiro Antonio Rocco (1880-1944) aqui.
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Renascer na manhã, a poesia de Manoel de Barros, a universidade de José Arthur Giannotti, a arte de Marcel Gromaire, a música de Toninho Horta, Badi Assad, Max Richter e Charlotte Gainsbourg aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

terça-feira, julho 24, 2018

JOÃO CABRAL, CARRIÈRE, TRUFFAUT, RENATO BORGHETTI, ANTONIO CÂNDIDO, JULIO UGARTE, GEORGE RODGER &DORO


O VEXAME DE DORO - Imagem: arte do fotojornalista britânico George Rodger (1908-1995). - Doro não sabe mais o que fazer. De tanto se agoniar com a campanha, quase nada mais resta da sua cabeleira. Ele já fez de tudo: despacho, promessa, simpatia, orações, ginástica a quatro e nada. Os cabelos é que pagam o pato: está quase careca. Se a borreia da candidatura não pega nem no empurrão, ele não tem mais a quem recorrer para não se espatifar mais uma vez no desmanche. Das tantas quedas, jamais aprendeu a botar a mão na massa e acertar a roda. Haja desenfreio ladeira abaixo. Sem um cabo eleitoral para remédio, nem a favor algum que o ajude a sair desse imprensado, ele está que nem louco que deu baixa na sanidade e prestes a dar entrada num hospício qualquer. Destá. Com toda meleca, ele ainda insiste. Tanto que, diante da Igreja Bidiônica dos Finais do Tempo, resolve, então, apelar pro padre Bidião. Cadê-lo? O suposto santo há dias que não dá as caras. Sebo nos cambitos, meu. Doro mesmo quase seca as canelas de tanto procurar por ele, resultado algum, nenhuma notícia, só a informação de que anda na sua nave com seus clones galáxia afora. Sem perder as últimas esperanças, para ele o templo do padre é a sua última alternativa e ajoelha-se de espremer-se todo numa oração sem fim, começada de manhãzinha, emendada à tarde toda e entrando pela noite, infinitamente. Reza de chorar, espernear, peidar e se lascar todo de vexame. Na sua agonia, uma mão pousa sobre seu ombro. Faz que nem é com ele. Ouve a voz que lhe soa bem aos ouvidos, mantendo-se cabisbaixo: Qual o seu problema, meu senhor? Estou embroncado! Nada é impossível aos olhos de Deus. Eu sei, mas o troço que eu quero é o mais impossível dos impossíveis. Possivelmente o senhor não está acertando na dose. Eu já esborrei de tanta coisa certeira que só dá errado. Realmente o senhor está atrapalhado. Estou mais que isso, estou fodido e mal pago. Por que o senhor não tenta o Confessionário dos Desejos? Ele, então, levanta os olhos rasos d’água, encara a beata e se assusta, dizendo pra si: Eita, essa é jeitosa, ô pirão dos deuses, a mais cobiçada de todas. É Magnalícia, uma das beatas secretas do padre, a enclausurada que jamais aparece para os fiéis. Na hora esquece o seu propósito e já animado com a presença dela, indaga: O que tenho que fazer? Vá pro confessionário, narre todos os seus pecados e peça com fé. Já fui e não deu jeito. Vá de novo. Será que estou fazendo errado? Pode ser, não custa nada tentar de novo, vá! Só se a senhorita for comigo, me acompanhar ajudando-me a realizar meu pedido. Ela aquiesce e vai à frente encaminhando-o para o recinto sagrado. Ao chegar, abre a porta e manda-o entrar. Só se a senhorita entrar primeiro. Anuindo ela adentra convidando a segui-la. Pronto, agora se ajoelhe e proceda conforme o ritual. Como? Solícita, ela explica como proceder nos mínimos detalhes, como manda o figurino. Posso me ajoelhar aos seus pés? Ela senta-se ao trono e ele genuflexo aos seus pés. Ela ordena: Vamos, confesse e peça! Ele bota pra chorar descontroladamente, lamentando sua falta de sorte, seu sofrimento constante, sua vida desgraçada. Chora de não ter mais quem o console. Magnalícia diante daquela lamurienta miserabilidade, comisera e põe uma das mãos sobre sua cabeça: Acredite, meu filho, você alcançará. Manteve-se desolado com seu plangente martírio aos pés da beata piedosa. Ele aumenta a dose do berreiro, num plangor de causar piedade extrema na devotada que alisa seus cabelos para animá-lo da sua desdita. Lá pras tantas, depois de se esgoelar todo, enxuga as lágrimas com a manga da camisa e tentando esconder sua lamúria, pergunta: Posso beijar seus pés, irmã? Pode, irmão, se isso alivia sua dor, pode sim. Ele se aproveita e beija os pés dela de forma tão afetuosa, dela suspirar tocada. Beija-lhe muitas vezes os calcanhares, o tornozelo, as pernas, os joelhos, e vai avançando embaixo da batina e começa a lamber suas coxas, dela se arrear prazerosa. Na horagá, quase pronto para a investida e se arremessar sobre a beatificada, surge do inopinado o vigilante guardião do templo, o cão Cérbero que ao vê-lo arriar as calças, coloca os dentes nos seus testículos rosnando bravo. É só uma ameaça, mas mete um medo da peste. Ele toma um susto com o bafo da brabeza na porta do seu procto, dele sair pulando segurando as calças e a intimidade excitada. E berra: Que é que isso, meu? Cérbero late para que a irmã se recomponha e o intruso caia fora do sagrado confessionário. Com os latidos volumosos do cão, logo acorrem outros devotos que encaram Doro com reprovação. Agora deu. A irmã imobilizada pelo susto, choraminga baixinho. Um dos interventores grita com ele: Como é que pode, irmão? Ele profanou o templo. Entendendo que ela havia sido atacada, todos arregaçam as mangas e prometem uma surra no Doro que, diligentemente, sai de fininho com tudo de fora, às carreiras, pé na bunda. Pega! Pega! Pega! Eita! Bronca da peste! Se ele pensava em resolver seus problemas, ganhou mais um pras suas costelas. Agora, lá vai ele cheio de nó pelas costas, sal pisando na moleira. Esse não tem jeito mesmo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico instrumentista e acordeonista Renato Borghetti: com Hermeto Pascoal, Este Tal de Borghettinho, Gaita Ponto Com & álbum de estúdio & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ninguém pode alcançar a Verdade sem lutas. Para tudo requerem-se esforços tenazes; sem perseverança ninguém pode ver o fruto do seu labor. [...]. Pensamento extraído da obra As duas grandes leis espirituais (ICR, 1977), do filósofo e mestre espiritual peruano Julio Ugarte y Ugarte (1890-1949). 

RECADO AOS BRASILEIROS - [...] Pensem nisso tudo os eleitores. Pensem na necessidade de assegurar a continuidade do seu esforço, contra os que desejam a volta dos maus hábitos e do descaso. Pensem no trabalho que regenera e nas reações que enxovalham. Pensem no poder do dinheiro e na limpidez das convicções desinteressadas. Depois, votem sabendo o que desejam de melhor para a sua cidade. [...]. Trecho extraído de Eleição e cultura (Folha de São Paulo, 1992), do sociólogo e crítico literário Antonio Cândido (1918-2017). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui. 

DIANTE DO OCEANO – [...] Uma história persa muito antiga mostra o narrador como um homem isolado, de pé diante do oceano, Ele conta sem parar, história atrás de história, mal fazendo uma pausa para beber, de vez em quando, um copo d‘água. O oceano, tranquilo, o escuta fascinado. E o autor anônimo acrescenta: - Se um dia o contador se cala, ou se fazem com que ele se cale, ninguém pode dizer o que fará o oceano. [...] Trecho extraído da obra O círculo dos mentirosos: contos filosóficos do mundo inteiro (Códex, 2004), do escritor, roteirista, diretor e ator francês Jean-Claude Carrière.

DESCOBERTA DA LITERATURA - No dia-a-dia do engenho, toda a semana, durante, cochichavam-me em segredo: / saiu um novo romance. / E da feira do domingo / me traziam conspirantes / para que os lesse e explicasse / um romance de barbante. / Sentados na roda morta / de um carro de boi, sem jante, / ouviam o folheto guenzo, / a seu leitor semelhante, / com as peripécias de espanto / preditas pelos feirantes. / Embora as coisas contadas / e todo o mirabolante, / em nada ou pouco variassem / nos crimes, no amor, nos lances, / e soassem como sabidas / de outros folhetos migrantes, / a tensão era tão densa, / subia tão alarmante, / que o leitor que lia aquilo / como puro alto-falante, / e, sem querer, imantara / todos ali, circunstantes, / receava que confundissem / o de perto com o distante, / o ali com o espaço mágico, / seu franzino com o gigante, / e que o acabassem tomando / pelo autor imaginante / ou tivesse que afrontar / as brabezas do brigante. / (E acabaria, não fossem / contar tudo à Casa-grande: / na moita morta do engenho, / um filho-engenho, perante / cassacos do eito e de tudo, / se estava dando ao desplante / de ler letra analfabeta / de curumba, no caçanje / próprio dos cegos de feira, / muitas vezes meliantes. ). Poema extraído da obra A escola das facas (José Olympio, 1980), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui.

 

FARENHEIT 451
O drama Farenheit 451 (1966), do cineasta francês François Truffaut (1932-1984), é uma adaptação da obra homônima do escritor estadunidense Ray Bradbury (1920-2012), sobre uma sociedade do futuro que baniu todos os materiais de leitura e o trabalho dos bombeiros de manter as fogueiras a 451 graus: a temperatura que o papel queima. Um bombeiro começa a repensar sua função ao conhecer uma jovem encantadora que adora livros. Veja mais aqui.

Colóquio de Fotografia de Caruaru & muito mais na Agenda aqui.
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As trelas do Doro aqui, aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotojornalista britânico George Rodger (1908-1995).
Veja mais aqui.
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Diário de bordo, a poesia de Edoardo Sanguineti, o cinema de Ken Loach, a escultura de Philippe Faraut, a arte de Eugene J. Martin, a música de Hermeto Pascoal, Jocy Oliveira, Laurie Anderson, Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

segunda-feira, julho 23, 2018

CORTÁZAR, SCHOPENHAUER, CALVINO, COLERIDGE, MARISA MONTE, LENIR DE MIRANDA, SINHÁ TERTA & VITAL CORRÊA


AS ANJAS DA MORTE - Arte da artista visual Lenir de Miranda. - Teté e Loló, ou melhor Terezilda e Bromelinda no registro civil e batismo, nem são parentes, dão-se por irmãs, carne e unha. Para ter uma leve ideia, Teté é até hoje amansadora profissional, fera das mais brabas findam mansinha na mão dela. Pega cobra pelo gogó dela ficar molinha e virar bisquí. Ah, desata qualquer bronca, nó que se apresente, desmancha na hora com tudo preto no branco. Espevitada, bote brabeza pra ver e depois só o estrupício na parada. Já Loló é um pouco mais presepeira: campeã alagoiandubense de tiro ao alvo e de muitos Álvaros de Adoniran, coleciona apaixonados: uma ruma de ex-maridos e quase outros enrolamentos de se perder a conta. Afora isso e muito mais no rol do inenarrável, luta karatê e outras tantas artes marciais de deixar qualquer macobeba estirado no chão. É perita em quebra-de-braço, parrudo que apareça, ela só tiro e queda. As duas juntas, por mais simpáticas que se pareçam, já botaram muito macho para correr, avalie. Por aí, pronto, dá pra se ter um resumo dessas beldades. Compararam juntas um DKW – Wemag Belcar 67, Rabo de peixe, só pra desolarem os corações enamorados, arre égua! E até agora só engordam os boatos. Das muitas que contam, a pior é que são chamadas de Anjas da Morte. Por que? Bem, dizem que visitaram seu Joãozito de Trapiche, visita assim de cortesia. Três dias depois, o homem estava sepultado no cemitério da cidade. Tá, morreu de quê? De tanto rir. Como? O mesmo se deu com Joaquinildo Pezão que, talqualmente o anterior, gozava de suas plenas saúdes físicas e mentais. Três dias depois, foi pro saco. Seu Arquimenildo de Piruela, nunca se soube de homem mais sadio; tiro e queda: findou de pés juntos com dizeres numa lápide linda de morrer. Ah, Dona Carmelindonha fez até uma festa quando elas chegaram, de juntar gente no fuzuê da risadagem. Não deu outra, morreram todos os comparecentes, um atrás do outro, encarreados. Daí, não demorou muito, as duas passarem por famigeradas Anjas da Morte. Quem era doido de querer visita das duas? Pois bem, de tanto pintarem e bordarem de tudo juntos só no amiudado: Desaperrei, véio! Morriam de rir. Tem mais: depois de trocentos contatos de quinto grau com uma tuia de alienígenas doutras tantas galáxias, casarem e descasarem com seus respectivos maridos em divórcios ruidosos e cheios de perdas e danos, se apaixonarem por Josés e Manoéis que vieram e passaram batidos, tudo no descanso do além. E elas soltando as maiores pinoias da paróquia. Daí de anjas pras viúvas, elas se viram mortas passeando na cidade. Como é que pode? Não havia ninguém por onde passassem. Inicialmente achavam-se invisíveis, ninguém mais as viam. Será mesmo, mulher? Vamos ver. Encontraram um sujeito estranho e perguntaram se ele estava vivo: Eu? Já fui. Num disse, mulher, a gente está mortinha da silva, tais vendo? Zanzaram que só, não havia um pé de gente na rua. E, quem encontrassem, passava de nem vê-las. Deram, enfim, num bar que abria e encostaram à garçonete: Minha filha, traga logo uma cerveja que quero ver se é igualzinha a da gente. Era. Dali mais um pouco, encostaram à garçonete aos cochichos: Você está viva? A garçonete encarou e disse pra si: Duas bêbadas uma hora dessa da manhã, não pode. Entrou na jogada, sacou. Não, morri no ano passado. Teté e Loló entreolharam-se e caíram na gaitada. Beberam tanto e só acordaram dias depois num velório. Eita! De quem? Da garçonete. Morreu de quê? Ah, ela teve uma crise de riso e babau. Valha-me! Até ela. Vôte. Elas querem falar comigo, uma visitinha de nada. Eu, hem? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora, compositora, instrumentista e produtora musical Marisa Monte: Memórias, crônicas e declarações de amor, Inteira, Diariamente & Bem que se quis & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando observamos a quantidade e a variedade de estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoa que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios da sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos – Quantos aos estudos feitos simplesmente para ganhar o pão de cada dia, nem os levei em conta. Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto, essa é a maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica. [...]. Trecho de Sobre a erudição e os eruditos, extraídos da obra A arte de escrever (L&PM, 2017), do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui e aqui.

DO SENTIMENTO DE NÃO ESTAR DE TODO – [...] Sempre serei como um menino para muitas coisas, mas um desses meninos que, desde o começo, carregam consigo o adulto, de maneira que, quando o monstrinho chega verdadeiramente a adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e nel mezzo del cammin dá-se uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo. Pode-se entender isso metaforicamente porém indica, em todo caso, um temperamento que não renunciou à visão pueril como preço da visão adulta. E essa justaposição, que faz o poeta e talvez o criminoso, e também o cronópio e o humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentido de não estar de todo em qualquer das estruturas, das teias que a vida arma e em que somos simultaneamente aranha e mosca. [...]. Trecho extraído da obra Histórias de cronópios e de famas (Civilização Brasileira, 1972), do escritor argentino de origem belga Julio Cortázar (1914-1984). Veja mais aqui e aqui.

CONHECER A CIDADE - [...] Essa cidade que não se elimina da cabeça é como uma armadura ou um retículo em cujos espaços cada um pode colocar as coisas que deseja recordar: nomes de homens ilustres, virtudes, números, classificações vegetais e minerais, datas de batalhas, constelações, partes do discurso. Entre cada noção e cada ponto de itinerário pode-se estabelecer uma relação de afinidades ou de contrastes que sirva de evocação à memoria. De modo que os homens mais sábios do mundo são os que conhecem. [...]. Trecho extraído da obra As cidades invisíveis (Folha, 2003), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

O TRABALHO SEM A ESPERANÇA - Inteira movimenta-se a Natureza. As lesmas suas tocas deixam. / Movimentam-se as abelhas – os pássaro voos alçam – / E o Inverno, dormitando ao ar livre, /Exibe, no sorriso do rosto, de Primavera um sonho! / Enquanto isso, eu apenas algo inútil represento. / Mel não faço, nem caso, nem crio, nem canto. / Sei, contudo, que as margens, nas quais amarantos desabrocham, / A fonte encontraram, da qual fluem os arroios. / Desabrochai vós, ó amarantos! Desabrochai pra quem puderdes. / Pra mim, não desabrochais! Ricos arroios, pelo vosso curso deslizai! / Com lábios ofuscados, caminho com desgrinaldada fronte./ Entenderíeis os encantos que minha alma entorpecem? / O trabalho sem a Esperança néctar extrai numa peneira. / Sem um objetivo a Esperança morre. Poema do poeta, crítico e ensaísta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834).

SINHÁ TERTA
Desde pequenos meus três filhos ouviram minhas “histórias de Trancoso”. Usava das mesmas artimanhas de Sinhá Terta. Sentados à minha volta, eu dramatizava as falas, os gestos e saía contando fábulas, histórias de reis, rainhas, fadas boas e más, palácios encantados e lindas princesas. Era uma tranquilidade: de olhos esbugalhados, concentrados, acompanhavam todo o desenrolar das narrativas. Perguntavam e riam muito. Já existia a televisão mas era importante para mim, como mãe, repassar para eles as fantasias, sonhos e aventuras por mim vivenciados na infância. agora, a mesma dedicação tenho com Fausto, meu querido netinho, que ouve atentamente historias criadas ao saber da minha imaginação com os personagens que ele mais gosta: Lulu, Lele e Lili. E Sinhá Terta, para você que não tiveram o privilégio de conhecê-la, foi a fada boa que me viu nascer e aos meus irmãos [...] e com bondade e meiguice, nos fez viver uma infância feliz, plena e cheia de amor. [...].
Trecho de Uma forte presença na minha vida: Sinhá Terta, extraído da obra O príncipe do reino das sete luas e outras histórias (CEPE, s/d), da jornalista, advogada, escritora e jardinista Tereza Figueiredo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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A poesia absoluta, o destino poético e o futuro da poesia & muito mais na Agenda aqui.
&
A redenção do amor, o pensamento de Etienne Souriau, a arte de Leila Diniz & Luciah Lopez, a música de Edu Lobo, Chiquinha Gonzaga, Renato Borghetti & Zélia Duncan aqui.
&
Você tem medo de quê?, O medo líquido de Zygmunt Bauman, O santuário do eu de Ralph M. Lewis, A arte de Sophia Narrett, a música de Quinteto Violado, Rachel .Podger, Duofel & Meredith Monk aqui.

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sexta-feira, julho 20, 2018

CERNUDA, BAUMAN, AHMED SEFRIOUI, SANTANA, ACKERMAN, DAVID GISTA & BIBLIOTECA


OS FANTASMAS DA BIBLIOTECA – Imagem: Him Again, do pintor francês David Gista. - Ao regressar para minha terra, resolvi fazer uma residência voluntária na Biblioteca Pública: unia, assim, o útil ao agradável. Sempre fui refém dos livros, desde menino. Ficava maravilhado com as estantes abarrotadas do meu pai e adorava, às escondidas, surrupiá-los, folheá-los, lê-los e descobrir narrativas, como as de Borges, Bachelard, Nejar, Eco, Canetti, Alberto Manguel, Carlos Dominguez, Bonnet, o mundo de Midlin, a autobiografia de Andrea Kerbaker, outros muitos. Nunca fui bibliômano, esses são os que compram livros e livros e não lêem nem deixam ninguém sequer abrí-los, servindo só para enfeite e vaidade. Curioso de gente que compra livros e os mantém intactos, ou abrindo-os com todo cuidado, um ritual de não deixar uma página sequer machucada nem com rugas a lombada. Sempre fui desajeitado, gosto de dobrá-los, riscá-los, relê-los, assíduo visitante de sebos, livrarias e bibliotecas. Reúno alguns poucos volumes em algumas estantes. Quando me convidam para uma visita, a primeira coisa que me chama atenção em qualquer lugar são os livros. Os curiosos que me chegam, perguntam logo: já leu isso tudo? Quem lê muito fica doido. Sou doido de nascença mesmo, advirto, e até os meus livros possuem um pacto entre eles de nunca me deixar achar aquilo que procuro, afora os que dão cria, de um só volume viram muitos exemplares, como o esfíngico Assim falou Teles Júnior. Também já dei de cara com maníacos outros, como o intelectual de sovaco: só os compra para acomodá-los às axilas e se passar por contumaz leitor, sem nunca ter lido além da capa e orelhas, quando muito, mais nada. Voltando ao papo da Biblioteca, pois bem: lá estava eu no habitat mais aprazível para mim, o paraíso. Ao cabo de alguns meses, como eu era o primeiro a chegar e o último a sair de lá, o diretor me confiou as chaves. Ao acordar por volta das cinco da manhã, eu ia pra lá. Chegando mais cedo que de hábito, ao abrir a porta tomei um susto: fui recepcionado pelo patrono. Como pode? Pode entrar, disse-me. Um carrancudo dramaturgo que matava todo mundo nas cenas, exceto o ponto porque fugia antes do final. Convidou-me e fui arrepiando dos pés à cabeça. Parecia haver uma reunião: vi de cara Ascenso que se aproximou e me puxou pelo braço falando das ladainhas do invisível que influenciam o sangue e o mau tempo, dizia: Todos os fantasmas moram no Rio Una. É de lá que eles saem todas as noites para os festejos daqui, do Clube Literário. Logo se aproximou o comediógrafo Lelé Correa que me chamava atenção com piadas que conjuravam desgraças, apontando para o Jayme Griz a recitar uma poesia com a participação de Eliseu Pereira que solfejava uma ópera, ao som do piano do Dery, regidos pelo maestro Zé da Justa. Ao lado, João Costa balbuciava frases sobre as trevas da noite e os seus mistérios, virando um copo de bebida, acompanhado de Abel e Raymundo que soltavam lorotas para Elita, Stella e Julia Leite. Sentado mais adiante estava Artur Griz obstinadamente fechado folheando sua enciclopédia, enquanto Calazans largava trovas para Amaro Matias. Dei por conta a chegada de Hermilo com uma estatueta cheia de escoriações, a me dizer que verei tudo que terei de ver, e me conduziu a um copioso repasto às maiores abluções, nas quais proclamavam ser aquela a verdadeira realidade, enquanto nós, os que se dizem vivos, todos vivíamos no embuste dos sentidos. Levou-me por um tapete bonina que mais parecia uma passarela para desfiles. Todos estavam ali, vi. Não os temia mais, até colaborava com as façanhas deles. A imaginação ditava as regras: contavam de um beiçudo caeté que vivia no fundo do sétimo mar que vez em quando aparecia para nos ensinar a vida; ou de um insurreto oculto na solidão do deserto, e dos personagens que saltavam dos livros para conversarem conosco. Cochichou-me Hermilo dos livros que encontrei escondidos entre uma estante e outra. Sim, isso ocorria com frequência, não sabia que era iniciativa deles, para me perturbar. Isso dissipava meus temores já achegado ao circulo habitual. Passei a entender o pacto dos livros em me tapiar: procurava ao máximo colocá-los nos lugares devidos e, no dia seguinte, deparava com prateleiras desorganizadas, assuntos misturados, tudo fora de ordem. Eram eles que faziam a confusão. Hermilo então me confidenciou sobre a assiduidade de determinados visitantes diários, também fantasmas enlouquecidos e ocultos em formas humanas: o que furtava livros todos os dias, sem saber a causa, disse-me: Ele fugiu de uma história e se perdeu. Por isso todo dia rouba um livro para voltar, mas a maldição não permite. Falou-me daquele mitômano que senta todo santo dia como entretido na leitura que não faz, passa a manhã todinha e no início da tarde sai na sua loucura de misturar ideias à realidade. Entre outros haviam os obcecados que chegavam ali para encontrar suas próprias doidices nas leituras de terror, ou crimes hediondos, psicopatologias e os mais diversos horrores da humanidade. Alguns apareciam na veneta, carregados de remorsos a espremer seus íntimos e soltar suas enfermidades em conversas longas e demoradas comigo, relatando coisas como se fossem de outras pessoas quando, na verdade, eram seus próprios desatinos. Todos eram fantasmas que vagavam pelos dias, esses os condenados à vida que, a exemplo de Bonnet, me apresentavam curiosidades estranhíssimas recolhidas de suas próprias vidas como se recolhidas das epopeias, como a da morte do compositor Charles Alkan, esmagado pelos livros da sua própria biblioteca; o poeta Gilbert Lély que só reunia cem volumes, ou aqueles que apareciam com cortes de vítimas de bordeline ou Síndrome de Lesch-Nyhan, utilizando-se das páginas de livros para autogolpes; aqueles que utilizaram de grossíssimos volumes para abater seus alvos humanos; aqueles que foram atacados pelos personagens revoltosos que emergiram das histórias lidas, ou os que misturaram suas vidas entre os relatos ficcionais, os que assumiram a personalidade de seus heróis históricos, os que enlouqueceram com o volume de informação de suas leituras, os que mergulharam nos cenários narrativos para nunca mais voltar, os que viraram verbetes de dicionários e enciclopédias, enfim, não sabia que vivos e mortos pagavam suas contas à revelia. Era adorável, pois, durante oito meses convivi antes e depois do horário de funcionamento com os fantasmas do Una, benfeitores que apenas gozavam da outra vida deles; era doloroso, durante o expediente, encontrar outros tantos disfarçados de gente que me exaltavam qualidades e virtudes que nunca tivera, teimando ambíguos em transitar entre a minha atenção e os logradouros, com pinoias e lamentações inaceitáveis, os menores que seu próprio tamanho. Oito meses inesquecíveis nos labirintos da biblioteca. E a minha história acabou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e multi-instrumentista mexicano Carlos Santana: Concert Live, Shaman, Supernatural & Abraxas & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os perigos dos quais se tem medo (e também os medos derivados que estimulam) podem ser de três tipos. Alguns ameaçam o corpo e as propriedades. Outros são de natureza mais geral, ameaçando a durabilidade da ordem social e a confiabilidade nela, da qual depende a segurança do sustento (renda, emprego) ou mesmo da sobrevivência, em caso de invalidez ou velhice. Depois, vêm os perigos que ameaçam o lugar da pessoa no mundo – a posição na hierarquia social, a identidade (de classe, de gênero, étnica, religiosa) e, de modo mais geral, a imunidade à degradação e à exclusão social. [...] E, como você deve ter adivinhado, não há como revogar totalmente as expulsões. A questão não é se, mas quem e quando. As pessoas não são eliminadas por serem más, mas porque faz parte da regra do jogo que alguém deve ser eliminado e porque outras pessoas se mostraram mais habilidosas na arte de se descartar de outras como elas; ou seja, eliminar outros jogadores do jogo que todos jogam, os que expulsam e também os que são expulsos. Não é que as pessoas sejam expelidas por terem sido identificadas como indignas de permanecerem. É exatamente o contrário: as pessoas são declaradas indignas de permanecerem porque há uma cota de eliminações que deve ser cumprida. [...] Trechos da obra Medo líquido (Zahar, 2008), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Veja mais aqui e aqui.

O AMOR – [...] Ao contrário daquilo que filósofos, moralistas, teóricos, afins e psicólogos sempre afirmaram, o amor não é um escolha. É um imperativo biológico. E assim como a evolução favoreceu seres humanos capazes de fincar de pé, ela favoreceu os seres humanos que sentiam amor, porque o amor possui um grande valor de sobrevivência. Aqueles que sentiam amor asseguravam a sobrevivência de sua prole, essa prole herdou a capacidade de amar e viveu mais tempo e teve mais filhos seus. Com o decorrer do tempo, a tendência ao amor tornou-se parte de nossos dotes genéticos, por fim tornou-se mais profundamente inata do que uma simples tendência, aptidão ou legado, e sua riqueza passou a subsidiar todas as iniciativas de nossa vida. Os seres humanos tornaram-se capitalistas aventureiros emocionais. [...] Quando amamos com todo nosso coração, com toda nossa alma, com toda nossa vontade, trata-se de uma paixão elétrica. O amor desenvolve-se nos neurônios do cérebro, e sua maneira de crescer depende de como esses neurônios foram treinados quando éramos crianças. [...] Nossa maneira de amar é uma questão de experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui e aqui.

A PORTA ILUMINADA – [...] Aqui não se deve morrer. [...] No rês-do-chão habita um sujeito chamado El Alami; homem de cinquenta anos, sempre de mau humor que aterroriza sua jovem mulher, ameaçando-a todos os dias de repúdio. Mas eu amo esta pobre Aicha que se ouve chorar com soluços de criança e fungos de menina ranhenta. Eu a amo porque ela é sempre limpa e canta com gorjeios de andorinha: Amor! Amor! / Abriste meu coração / para aí te alojares. / Nem médico nem fqih / podem nada contra ti. Minha não compartilha da minha simpatia para com a jovem. [...] Aicha! Sonho para ti uma existência melhor, saturada de perfumes e flores, acalentada de cantos de pássaros. Com gorjeios de andorinha cantarás todo o dia atrás das árvores do jardim [...] Aicha reina neste palácio e canta sobre as romanzeiras em flor [...] Esta canção me vem aos lábios; não compreendo o seu sentido, mas há necessidade de que uma canção tenha sentido? [...] Aicha, não chores mais com teu soluço de criança, teus fungos de menina nervosa. Os escravos preparam caçoilas de perfume; estendem tapetes da Pérsia para receber-nos. Vem, vem, para nós nenhuma porta ousará permanecer fechada. Todos os dias, através dos maciços jasmins, cantaremos com gorjeios de andorinha [...]. Trecho de conto do escritor marroquino Ahmed Sefrioui (1915-2004).

SE O HOMEM PUDESSE DIZER - Se o homem pudesse dizer o que ama, / Se o homem pudesse levantar seu amor pelo céu / Como uma nuvem na luz; / Se como muros que se derrubam, / Para saudar a verdade erguida no meio, / Pudesse derrubar seu corpo, deixando só a verdade de seu amor, / A verdade de si mesmo, / Que não se chama glória, fortuna ou ambição, / Mas amor ou desejo, / Eu seria aquele que imaginava; / Aquele que com sua língua, seus olhos e suas mãos / Proclama ante os homens a verdade ignorada, / A verdade de seu amor verdadeiro. / Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso em alguém / Cujo nome não posso ouvir sem arrepio; / Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha, / Por quem o dia e a noite são para mim o que quiser. / E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito / Como troncos perdidos que o mar afoga ou levanta / Livremente, com a liberdade do amor, / A única liberdade que me exalta, / A única liberdade por que morro. / Tu justificas minha existência: / Se não te conhecer, não vivi; / Se morrer sem te conhecer, não morro, porque não vivi. Poema do poeta e critico literário espanhol Luis Cernuda (1902-1963). Veja mais aqui e aqui.

FANTASMAS NA BIBLIOTECA
[...] os livros eram onipresentes e formavam verdadeiras florestas com alamedas, avenidas, bosques, caminhos, nos quais se tropeçava nas pilhas e nos montes que transbordavam das prateleiras, abarrotavam as mesas, os móveis, os assoalhos... [...] Curiosamente, a fonte infinita de informações que constitui a internet não tem para mim o mesmo estatuto mágico que a minha biblioteca. Estou diante de meu computador, graças ao qual posso chegar a todas as informações imagináveis, ainda mais mestre do tempo e do espaço, e, no entanto, falta aí o "divino". Talvez se trate de uma questão corporal: faço isso com a ponta dos dedos, e tudo permanece exterior, passando por uma máquina e uma tela. Nada a ver com minhas paredes atapetadas de livros que eu conheço — quase — de cor. De um lado, tenho a impressão de estar no comando de um braço articulado capaz de todas as performances no vazio sideral exterior, de outro, num útero cujas paredes são atapetadas de prateleiras cujo arquétipo romanesco poderia ser o Nautilus. Como se vê, a questão não é apenas de racionalidade. [...].
Trechos extraídos da obra Fantasmas na biblioteca (Civilização Brasileira, 2013), do escritor francês Jacques Bonnet. Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor francês David Gista.
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Amizade & dos amigos & amigas, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a literatura de Ana Maria Machado, a arte de László Moholy-Nagy, a música de Tom Jobim, Guiomar Novaes, Sebastião Tapajós & Teca Calazans aqui.

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Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...