DO QUE VAI ATÉ SER – Imagem: Beautiful Tulip (2018), do artista visual russo Slava Fokk. - Decildita, a Dinha pros de casa e achegados, sonhava
muito, demais até de olhos abertos, abstraída em seus pensamentos. Era a caçula
de seu Moedicio e dona Juvitacia, casal mais tratado por Juva e Momó, os que
mimavam a menina que vivia de conversa com bichos e coisas, tinha até uma pedra
de estimação, a comadre Ita, em altos papos, diziam dela não bater bem da bola,
pois ela queria ser cientista desde que articulou a primeira frase da infância.
Tanto é que ao falar pela primeira vez na vida, ao invés de mencionar papai ou
mamãe, ela chamou por Mogéria e todos caíram o queixo no chão: era o nome da
irmã dela que morrera com um ano de idade e com os dedos enfiados na tomada
elétrica. Na verdade, antes dela, os cônjuges tiveram três filhos: a Mogéria
que morreu eletrocutada, a Mobutéria que morreu afogada no tanque do quintal, e
o Mojuvigênio que nasceu de parto complicado, morre mas num morre acometido de
não sei quantas enfermidades, até se segurar na vida lá pela adolescência.
Razões essa de mudarem o nome da ultimogênita, em princípio nomeada Modecilda,
mas na última hora fora registrada em cartório como sendo Decildita,
providência que acham os esposos justamente por ela ter vingado, senão, senão.
Para eles, mesmo assim, ela não escapou de umas esquisitices, logo levaram-na aos
médicos de todas as especialidades e não havia diagnóstico pras doidices dela,
talvez mitomania, não era, só numa sessão espírita descobriram: era a
reencarnação de uma grande benfeitora. Deixaram no de menos e vigiavam os
sonhos da menina que voava de olhos abertos ou fechados, e via as maravilhas e
as misérias do mundo: Minha nossa! Coisas reais a assustavam: a mediocridade, a
mesquinharia e o retrocesso, dela constatar em conversa miúda com os pais que a
espécie humana, desde o Homo Sapiens, não havia evoluído nada, cada vez mais
agarrada às coisas materiais e às turras uns com os outros, cada qual com sua
idolatria milenar por deuses, anjos e arcanjos forjados na mentira e só pelo
poder, nada mais, quanta intolerância, quanto ódio e impostura, sempre a mesma
coisa, entra ano e saem décadas, séculos, milênios. Os genitores
entreolhavam-se desconfiados para a tagarelice: seria genialidade ou doença mental,
quem sabe. Ela acordava no meio da noite com pesadelos terríveis por enfrentar exércitos
de zumbis num charco que era o quintal de casa que dava pro mundo, sabia ali o
inferno que era aqui mesmo e não onde diziam os religiosos, ou com íncubus que
lhe atentavam a carne com ameaça de morte, ou ainda, com a Perna Cabeluda, o
Boitatá, Sacis e outros monstros que estavam escondidos embaixo da sua cama
para atanazá-la. Haviam de confortá-la, protegê-la luz acesa a noite toda, agarrados
nela, cantando e dengando para ver se dormia e ela não pregava o olho, assim,
todo dia até já madura de anos. Já balzaquiana teve o primeiro aneurisma.
Internada, sonhou a morte do pai. Queria por que queria sair dali pra saber
dele que não aparecia às visitas. Um drama que durou bom tempo. Ao ter alta,
convalescente: Cadê pai? Viajou, já era pra ter chegado. Ela pôs-se a chorar, a
mãe e o irmão condoeram-se: Que houve, menina? Pai morreu. É impressão sua. Não,
pai morreu, não temos notícias dele. Foram ver: o genitor agonizava indigente
num hospital não sei onde. Num disse? Dias depois, o sepultamento. Aí ela
passou um tempo sem sonhar, olhos abertos dias, meses, anos, pervigil: estava
alerta sem pregar os olhos. Uns três ou quatro anos assim, até que teve o
segundo aneurisma, sonhava caindo num buraco sem fim e foi bater no centro da
Terra: era como o Verne tinha dito. E era atacada por cobras que voavam, por piranhas
que emergiam do chão, presa num redemoinho a naufragar. Viu-se no centro do
nada, quando uma esfinge viera anunciar a morte da sua mãe. Agoniou-se demais
aos gritos à procura da figura materna que não aparecia para amainar sua dor.
Despertou repentinamente chamando por ela e nada. Logo o irmão apareceu
mencionando que a mãe estava internada no hospital e passava bem. Ela não
aceitou, insistiu e, por mais que ele tentasse apaziaguá-la, irredutível,
seguiram pro hospital: ela havia falecido durante a madrugada. Depois disso,
outros tantos anos de vigilância sem conciliar o sono, até que numa tarde
primaveril deitou-se e teve o terceiro aneurisma e sonhou que ia a Marte e de
lá foi levada pelos planetas, fora da Via Láctea, e conhecido outros sóis e
galáxias, até visualizar lá no finzinho do horizonte, seu irmão ser esmagado
pelo tempo. Ela grita inutilmente. Ao se restabelecer corre pra casa e encontra
o irmão sentado no batente: Sai daí, mano, sonhei você morrendo! Besteira,
sonhe com os números da loteria pra gente ganhar uma bolada! Saia daí, mano.
Deixa disso, mana. E ficaram nisso, até ela sair desconsolada. Mal dobrou a
esquina, só ouviu o estrondo e o povo gritando: a casa desabou sobre o irmão,
Mojuvigênio. Restava agora ela sozinha pelo mundo, procurando sentido pra vida,
nem pode mais pintar os cabelos, acometida de uma tuia de aneurismas que não a
deixa em paz, mesmo assim, feliz da vida e sorrindo à toa, só o que lhe resta,
nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, outubro 04, 2018
CAMUS, ANTÓNIO JACINTO, MARCO PEREIRA, CIDADE & SAÚDE, JAGODZINSKI, SLAVA FOKK & DECILDITA
DO QUE VAI ATÉ SER – Imagem: Beautiful Tulip (2018), do artista visual russo Slava Fokk. - Decildita, a Dinha pros de casa e achegados, sonhava
muito, demais até de olhos abertos, abstraída em seus pensamentos. Era a caçula
de seu Moedicio e dona Juvitacia, casal mais tratado por Juva e Momó, os que
mimavam a menina que vivia de conversa com bichos e coisas, tinha até uma pedra
de estimação, a comadre Ita, em altos papos, diziam dela não bater bem da bola,
pois ela queria ser cientista desde que articulou a primeira frase da infância.
Tanto é que ao falar pela primeira vez na vida, ao invés de mencionar papai ou
mamãe, ela chamou por Mogéria e todos caíram o queixo no chão: era o nome da
irmã dela que morrera com um ano de idade e com os dedos enfiados na tomada
elétrica. Na verdade, antes dela, os cônjuges tiveram três filhos: a Mogéria
que morreu eletrocutada, a Mobutéria que morreu afogada no tanque do quintal, e
o Mojuvigênio que nasceu de parto complicado, morre mas num morre acometido de
não sei quantas enfermidades, até se segurar na vida lá pela adolescência.
Razões essa de mudarem o nome da ultimogênita, em princípio nomeada Modecilda,
mas na última hora fora registrada em cartório como sendo Decildita,
providência que acham os esposos justamente por ela ter vingado, senão, senão.
Para eles, mesmo assim, ela não escapou de umas esquisitices, logo levaram-na aos
médicos de todas as especialidades e não havia diagnóstico pras doidices dela,
talvez mitomania, não era, só numa sessão espírita descobriram: era a
reencarnação de uma grande benfeitora. Deixaram no de menos e vigiavam os
sonhos da menina que voava de olhos abertos ou fechados, e via as maravilhas e
as misérias do mundo: Minha nossa! Coisas reais a assustavam: a mediocridade, a
mesquinharia e o retrocesso, dela constatar em conversa miúda com os pais que a
espécie humana, desde o Homo Sapiens, não havia evoluído nada, cada vez mais
agarrada às coisas materiais e às turras uns com os outros, cada qual com sua
idolatria milenar por deuses, anjos e arcanjos forjados na mentira e só pelo
poder, nada mais, quanta intolerância, quanto ódio e impostura, sempre a mesma
coisa, entra ano e saem décadas, séculos, milênios. Os genitores
entreolhavam-se desconfiados para a tagarelice: seria genialidade ou doença mental,
quem sabe. Ela acordava no meio da noite com pesadelos terríveis por enfrentar exércitos
de zumbis num charco que era o quintal de casa que dava pro mundo, sabia ali o
inferno que era aqui mesmo e não onde diziam os religiosos, ou com íncubus que
lhe atentavam a carne com ameaça de morte, ou ainda, com a Perna Cabeluda, o
Boitatá, Sacis e outros monstros que estavam escondidos embaixo da sua cama
para atanazá-la. Haviam de confortá-la, protegê-la luz acesa a noite toda, agarrados
nela, cantando e dengando para ver se dormia e ela não pregava o olho, assim,
todo dia até já madura de anos. Já balzaquiana teve o primeiro aneurisma.
Internada, sonhou a morte do pai. Queria por que queria sair dali pra saber
dele que não aparecia às visitas. Um drama que durou bom tempo. Ao ter alta,
convalescente: Cadê pai? Viajou, já era pra ter chegado. Ela pôs-se a chorar, a
mãe e o irmão condoeram-se: Que houve, menina? Pai morreu. É impressão sua. Não,
pai morreu, não temos notícias dele. Foram ver: o genitor agonizava indigente
num hospital não sei onde. Num disse? Dias depois, o sepultamento. Aí ela
passou um tempo sem sonhar, olhos abertos dias, meses, anos, pervigil: estava
alerta sem pregar os olhos. Uns três ou quatro anos assim, até que teve o
segundo aneurisma, sonhava caindo num buraco sem fim e foi bater no centro da
Terra: era como o Verne tinha dito. E era atacada por cobras que voavam, por piranhas
que emergiam do chão, presa num redemoinho a naufragar. Viu-se no centro do
nada, quando uma esfinge viera anunciar a morte da sua mãe. Agoniou-se demais
aos gritos à procura da figura materna que não aparecia para amainar sua dor.
Despertou repentinamente chamando por ela e nada. Logo o irmão apareceu
mencionando que a mãe estava internada no hospital e passava bem. Ela não
aceitou, insistiu e, por mais que ele tentasse apaziaguá-la, irredutível,
seguiram pro hospital: ela havia falecido durante a madrugada. Depois disso,
outros tantos anos de vigilância sem conciliar o sono, até que numa tarde
primaveril deitou-se e teve o terceiro aneurisma e sonhou que ia a Marte e de
lá foi levada pelos planetas, fora da Via Láctea, e conhecido outros sóis e
galáxias, até visualizar lá no finzinho do horizonte, seu irmão ser esmagado
pelo tempo. Ela grita inutilmente. Ao se restabelecer corre pra casa e encontra
o irmão sentado no batente: Sai daí, mano, sonhei você morrendo! Besteira,
sonhe com os números da loteria pra gente ganhar uma bolada! Saia daí, mano.
Deixa disso, mana. E ficaram nisso, até ela sair desconsolada. Mal dobrou a
esquina, só ouviu o estrondo e o povo gritando: a casa desabou sobre o irmão,
Mojuvigênio. Restava agora ela sozinha pelo mundo, procurando sentido pra vida,
nem pode mais pintar os cabelos, acometida de uma tuia de aneurismas que não a
deixa em paz, mesmo assim, feliz da vida e sorrindo à toa, só o que lhe resta,
nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.quarta-feira, fevereiro 24, 2016
BURNOUT, CLÁUDIO MANUEL DA COSTA, KYLIE, FRAYN, LOU DE OLIVIER, LUCILENE MACHADO, EDUCAÇÃO, FECAMEPA & MUITO MAIS!
A SÍNDROME DE BURNOUT - A
Síndrome de Burnout apareceu como consequência de excesso de expectativas e
alto nível de estresse sofrido por profissionais que se envolviam no
atendimento de terceiros. Nas últimas décadas, diversos estudos psicológicos
foram desenvolvidos buscando uma maior compreensão acerca do tema,
concluindo-se ser identificada como uma reação orgânica às pressões incidentes
nas relações e atividades trabalhistas. Ela aparece quando o profissional se
sente pressionado, levando-o a sentir-se vazio e exausto, até chegar ao
esgotamento psicológico, impedindo de lidar com as atividades laborais.
Trata-se, portanto, de uma enfermidade que se manifesta a longo prazo, e surge
quando o profissional se sente subestimado pela organização ou possui mais
encargos e atividades do que consegue lidar, identificada com o surgimento de
conflitos nas relações com os colegas de trabalho. Entre os sintomas da
Síndrome de Burnout, estão o estresse, queda de cabelo, dor de estomago,
enxaqueca, sudorese, taquicardia, palpitações, medo, condição arredia,
angústia, apatia, úlcera, hipertensão, dores de cabeça, insônia, consumo
exagerado de medicamentos e álcool, e sensação de impotência para realização da
atividade laboral. A exposição a situações estressantes desencadeia essa
síndrome, vez que este fenômeno possui vinculação às ocorrências de riscos de
natureza psicossocial na área laboral. Tal enfermidade acomete aqueles que
atuam diretamente e de forma constante com o emocional. O seu diagnóstico apresenta
perfis específicos, tanto como aquele que ocorre diante da presença de condutas
e sentimentos vinculados ao estresse no trabalho, culminando no mal-estar não
invalida ou incapacita para o desenvolvimento das atividades, ou quando há
incidência de maior dano laboral, apresentando problemas que significativamente
incidem sobre o desempenho e execução de suas atividades, provocando ausências
até de longo prazo e comorbidades psiquiátricas. Entre os problemas mais
constantes para os que são acometidos estão aqueles de natureza cognitiva,
acrescidos de queda no desempenho, problemas de relações interpessoais que
levam ao retraimento, a ausência de cuidados pessoais, as preocupações com o
trabalho fora dele, satisfação reduzida, entre outros problemas de saúde
oriundos do estresse crônico, como complicações digestivas e intestinais,
problemas cardíacos, obesidade e depressão. Por conta disso, ela é constituída
a partir de um modelo teórico formado por quatro dimensões que envolvem a
ilusão pelo trabalho, o desgaste psíquico, a indolência e a culpa. É no
ambiente laboral em que se encontram as probabilidades de ser o local no qual
ocorre a manifestação do estresse em sua maior frequência, por causa das
atividades e situações vivenciadas na rotina de trabalho, que são, muitas
vezes, recheadas de adversidades que incidem e possuem maior repercussão na
qualidade de vida profissional. As suas consequências são identificadas na
insatisfação direta de execução das tarefas e atividades, notadamente com
relação ao trabalho desenvolvido, influenciando, por consequência, a qualidade
do desempenho e das atividades no ambiente educacional. Além disso, leva à
apatia, desumanização, alienação, problemas de saúde, pensamento de abandono e
recusa da profissão, absenteísmo, entre outros problemas. De forma geral, ela é
vista como um problema de natureza social que possui uma grande relevância,
razão pela qual passou a ser estudada nos mais diversos países, especialmente,
em razão de sua incidência e vinculação ao peso de suas consequências no
custeamento organizacional. O seu tratamento considera algumas estratégias que
devem incidir sobre a melhoria da qualidade de vida no âmbito laboral,
procurando transformar o ambiente em contexto saudável, propiciando o
fortalecimento individual e coletivo, desenvolvimento de capacidade para lidar
com o estresse e situações de conflito, criação de redes de apoio social,
promoção de reflexões sobre a temática para troca de informações e
experiências, ênfase na promoção de valores humanos e adoção de valores
coletivos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.
DO CORAÇÃO DE UMA MULHER – Entre os trabalhos literários da
escritora, professora doutora em Literatura, blogueira e membro da Academia
sul-mato-grossense de Letras, Lucilene Machado, destaco o seu texto Do coração de uma mulher: A bem da verdade, não sou
essa mulher fatal que você pensa que sou. Aquelas histórias de sedução foram
todas inventadas e esse ar superior, de quem sabe lidar com a vida, é apenas
autodefesa. Aquelas frases filosóficas? foram só para lhe impressionar, pra
passar essa ilusão de intelectual, na verdade, eu nem sei se acredito nos
valores que me ensinaram, quanto mais em frases feitas e opiniões formadas. Senta
aí, vai. Deixa eu tirar os sapatos, desmanchar o penteado, retirar a
maquiagem... Quero mostrar que assim de perto não sou tão bonita quanto pareço,
por isso uso todos esses artifícios. É que no fundo tenho um medo terrível de
que você me ache feia, de que você encontre em mim uma série de imperfeições.
Sabe, não quero mais usar essa máscara de mulher inatingível, de mulher forte
com punhos de aço. No íntimo, sinto-me uma pequena ave indefesa, leve demais
para enfrentar o vento e que deseja ficar no aconchego do ninho sendo mimada
até adormecer. Olha pra mim, às vezes minha intimidade não tem brilho algum e
você terá que me amar muito para suportar essa minha impotência. Deixa-me tirar
o casaco, tirar o cansaço... Essa jornada dupla me deixa tão carente. A
convicção de independência afetiva? É tudo balela! Eu queria mesmo era dividir
a cama, a mesa, o banho... Queria dividir os sentimentos, os sonhos, as
ilusões, um pedaço de torta, uma xícara de café, algum segredo... Ah, eu tenho
andado por aí, tenho sido tantas mulheres que não sou! Quantas vezes me
inventei e até me convenci da minha identidade. Administrei minha liberdade.
Tomei aviões, tomei whisky... troquei a lâmpada, furei a parede, abri sozinha o
zíper do vestido. Decidi o meu destino com tanta segurança! Mas não previ que
na linha do meu destino estivesse demarcada uma paixão inesperada. Agora, cá
estou eu, quarenta e poucos anos e toda atrapalhada, tentando um cruzar de
pernas diferente, um olhar mais grave, um molhar de lábios sensual... Mas não
sei direito o que fazer para agradar. Confesso que isso me cansa um pouco.
Queria mesmo era falar de todos os meus medos. “Dos seus medos?” você diria,
como se eu nunca tivesse temido nada. Queria falar das minhas marcas de
infância, dos animais que tive, do meu primeiro dia de aula... queria falar
dessas coisas mais elementares, e levá-lo à casa de minha mãe, mostrar meu
álbum de retrato (eu, me equilibrando nos primeiros passos ), ah, queria lhe
mostrar minha primeira bicicleta, com truques. Ela ainda existe! Queria mostrar
as árvores que eu plantei (como elas cresceram!) e todas essas coisas que são
tão importantes pra mim e tão insignificantes aos outros. Ah, você queria falar
alguma coisa? Está bem! Antes, só mais uma coisa: estou morrendo de medo que
você saia desta cena antes de mim, que você saia à francesa desta história e eu
tenha que recolocar minha máscara e me reinventar, outra vez. Veja mais aqui.quarta-feira, abril 30, 2014
LILLIAN HELLMAN, SÔNIA CHOCRON, ANA KATZ & LINDA LOVELACE
REMEXENDO AS CATRACAS DO QUENGO E QUEIMANDO AS PESTANAS
COM COISAS, COISITAS E COISÕES!!!!!! – O que aprendi nos volteios da vida, coisas
que nem sei, coisitas que passaram, coisões que deixaram quase danos
irreparáveis. Foi, nada mais. De bom ficou o menino travesso da beira do rio
engolindo sapos, atravessando brejos e mares imensos, quase não tinha mais como
catar pra contar história. Sempre quase o menino cresceu, pintou e bordou. Fez quase
tudo: copista dos tomos e leis, bancário relapso, radialista folgazão e sorria
driblando com jeito quedas e escorregões, barreiras intransponíveis, bunda arrastada
no chão, esfolando a carne, livrando-se das lapadas, escapando aqui e acolá,
escorregando quase ileso, quase condenado, sobrevivendo e coexistindo com
desertos e infernos. Aprendeu um bocado, parece. Leitor compulsivo de horas a
fio sem bater a pestana e era nos livros o melhor de tudo. O que imaginou quase
tudo deu certo. Quase. Depois da escola caiu na vida e pras bancas retornou um
tanto de vezes para sacar o que havia dado errado. Virou mundo, conheceu muita
gente, muitas ou quase todas se foram ou deram as costas, restando alguns gatos
pingados na consideração. Parentes tudo longe ou do outro lado das coisas e do
mundo. Teve que aprender por si só: levando tudo nos peitos e na raça, do jeito
que desse. De relevante mesmo quase nada restou aqui ou ali uma coisinha que
seja. Recomeçou um tanto de vezes, ainda hoje, todo dia parte da estaca zero. Assumiu
fracassos, cônscio de sua inutilidade pro que prestasse. Bom de conversa e
serventia pra mais nadica. Falante que só o homem da cobra, até que impressionava,
mas é só: nada mais que só primeira impressão. Com o eterno retorno vai e
volta, nunca é tarde para reaprender. O que fez e o que foi feito, a mesma
coisa que não fizesse. Vale o que viveu e se aprendeu, pelo menos, parece que
leva jeito para contar hestórias. E só. Jogar conversa fora. Afinal tudo é
efêmero: a vida passa, a gente não sabe de onde veio nem pra onde vai, e o que
fica, no fim mesmo, lembranças e aprendizagens que um dia virarão cinzas e
ninguém mais nem saberá. Veja mais aqui, aqui e aqui.
DITOS
& DESDITOS –O mundo com suas regras, cada vez mais rígidas, e as
pessoas pequenas ou anãs tentando realizar um sonho. Resumindo, acho que os
problemas não são tantos, o problema é como nos imergimos neles e a sinceridade
com que os enfrentamos... O
tempo é um elemento fundamental para mim: ir, voltar, mudar, retomar… Mas estou falando de um período ativo em que muito trabalho é
feito. Gosto de pesquisas aprofundadas, não dou muito espaço para desculpas:
que ontem tive frio, que hoje estou atrasado, que não voltarei amanhã...
Procuro sempre sair desses lugares que te atolam, aquelas áreas superficiais
que costumam ser encontradas com frequência no teatro independente. Não gosto
nada desses lugares opacos. A gestão deve ser um lugar de compreensão, mas
também de promoção do trabalho com consciência... O teatro é
um compromisso constante, mobiliza, aproxima as pessoas com quem você trabalha
e longos períodos de pesquisa e busca. Preciso de tempo para desenvolver um
projeto de teatro. Pensamento da escritora, atriz e diretora
argentina Ana Katz. Veja mais aqui e aqui.
ALGUÉM
FALOU: Se não gerarmos resposta, as sacolas não ficarão tão
cheias na despensa... Pensamento da atriz e ativista estadunidense Linda
Lovelace (Linda Susan Boreman - 1949-2002), que no seu livro Ordeal
(Citadel, 2006), expressa: [...] Quando alguém precisa de ajuda, é
hora de ajudar. Não no dia seguinte. Não quando é seguro. [...] Ela
fez coisas para manter seu homem feliz. Fiz coisas para evitar que meu homem
me matasse [...] Eu era o tipo de garota que gostava de ir à
beira-mar e dar as mãos. Eu ainda estou. [...] Embora
eu tenha ficado terrivelmente decepcionada depois disso, houve um lado bom na
experiência. Quanto mais as pessoas decentes se
interessavam por mim por razões decentes, mais forte eu me tornava. [...]. A vida
dela foi uma tragédia: aos 19 anos, ela engravidou sem querer e teve o
bebê, que sua mãe repressora entregou para adoção. Pouco depois, sobreviveu a
um terrível acidente de carro. Foi aí, enquanto se recuperava do acidente, que
a deixou com um fígado em frangalhos, costelas e mandíbula quebradas, que ela
conheceu Chuck Traynor, seis anos mais velho que ela. Ela se casou outras duas
vezes e teve dois filhos, mas sempre enfrentou problemas de saúde. Em 87,
precisou fazer uma mastectomia dupla para retirar os seios, contaminados pelo
silicone que Chuck a forçou a colocar antes de Garganta. Durante a
preparação para a mastectomia, os médicos perceberam que seu fígado não dava
mais, consequência da transfusão de sangue após o acidente de carro de 69. Ela
teve que se submeter a um transplante de fígado. Um só remédio para a
não-rejeição do novo órgão custava 2,500 dólares por mês, que Linda não tinha
como pagar. Afinal, tudo que Linda havia recebido pela super bilheteria de Garganta
foi US$ 1,250 -- que foi direto pro bolso de Chuck. Sem ter como pagar as
contas, sem conseguir emprego por causa de sua fama/infâmia, Linda tentou
ganhar um pouco de dinheiro vendendo produtos referentes à Garganta,
como uma camiseta escrito "I made Linda Lovelace gag". Linda morreu
em 2002, num outro acidente de carro. Ela tinha apenas 53 anos. Veja mais aqui.
PENTIMENTO – [...] A tinta velha sobre uma tela, à
medida que envelhece, às vezes torna-se transparente. Quando isso acontece é possível, em
algumas fotos, ver os traços originais: uma árvore aparece através do vestido
de uma mulher, uma criança dá lugar a um cachorro, um grande barco não está
mais em mar aberto. Isso se chama pentimento porque o
pintor “se arrependeu”, mudou de ideia. Talvez fosse melhor dizer que a
concepção antiga, substituída por uma escolha posterior, é uma forma de ver e
depois ver novamente. Isso é tudo que quero dizer sobre as
pessoas neste livro. A tinta envelheceu e eu queria ver o
que estava lá para mim uma vez, o que está lá para mim agora. [...]. Trecho
extraído da obra Pentimento (José Olympio, 2010), da escritora estadunidense Lillian
Hellman (1905-1984). Veja mais aqui.
DOIS POEMAS - COMO UMA
NUVEM - Estou passando sem passar \como uma nuvem \Leve, tênue, insubstancial \
como uma nuvem \ Fazendo uma sombra fugaz \ como uma nuvem \ Mudando minha
solidão \ como uma nuvem \ Vaga muito branca \ como uma nuvem \ Estou passando
sem passar. ORDEM - Você tem que arrumar a casa \ lavar os azulejos vestir a
cama \ você tem que arrumar a casa \ plantar as flores de abóbora \ apagar o
rastro do mato \ procurar a música das coisas \ fazendo ordem arrumando a casa \
com as palavras para formá-las \ colocar a ordem \formar a casa \ com um
exército de palavras \ que ninguém sabe que ninguém vê \ que os gazebos estão
caindo \ temos que colocar ordem na casa \ para que o pássaro da tristeza \ vá
ao parque ou à avenida \ colocar ordem dentro de casa \ e que deixa crescer a
angústia \ cega que cresce nela quando amanhece, banha cada fenda dos cantos \ com
açúcar e sangue ímpio. Que Deus a proteja e a favor da melancolia traiçoeira do
mau-olhado e da vilania que deve ser cometida, \ ordenar, tirar o rastro, varrer
a poeira todos os dias \ limpar a casa dar a ordem que se nos derrotar \ nos
venderia a morte eterna a pena na vida matar a ordem cegar a ferida. Poema da
escritora, dramaturga e roteirista venezuelana Sônia Chocron.
GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.
Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...
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Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...
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O CATIVEIRO AMOROSO DA TEIMOSIA DELA - Toda sexta-feira, meio dia em ponto, eu armo meu conto e me faço vigário. Eu domino o cenário,...
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TATARITARITATÁ: PROJETO CORDEL NA ESCOLA - Trata-se de um projeto que envolve palestras e oficinas sobre Literatura de Cordel para estu...
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PRIMEIRO DE MAIO - O melhor dia de trabalho é o primeiro de maio porque é feriado, isso quando não cai num dia de domingo, senão é mesmo...
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DITOS & DESDITOS - Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber . Pensamento de Paulo ...















