Mostrando postagens com marcador Marco Pereira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marco Pereira. Mostrar todas as postagens

sábado, setembro 24, 2022

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

 

 Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do violonista, arranjador e compositor Marco Pereira.

 

TRÍPTICO DQP: - Vida de sonheiro... - Amanheceu e a maravilha de viver cheia nos olhos e coração. Uma comemoração alheia e descabida atravessou a noite alfinetando minha madorna assaltada pela madrugada afora: era como a assombração de inimigo insone ao arrebol, com o eco da balbúrdia dos alto-falantes. Na verdade mais parecia a festa do obituário na fúria de nauseantes desumanos engrossando o alarido farsante dos fetiches na festa da derrocada e do patético. A cidade não era outra senão a vista por Adorno: ...reproduz a fachada na tarefa de enganar. O engodo iminente saltitava a revelar pistas falsas na hora suspensa: alarmes latentes na paisagem nublada. Já não tenho tanta certeza de nada, aliás, nunca tive de mesmo. Escapei por pouco e vivo porque sorvi as três mil hóstias n’O Lugar do Sonho de Rosana Palazyan: Na arte, era um perigo de exclusão e não aceitação. Mas insisti e resisti. Nunca esquecida, hoje cada vez mais essa memória reacende, a cada notícia de vitimas. Não dá pra viver na cidade linda que amo tanto e que nunca abandonei, sem fazer nada... Eu acredito no amor, como forma de cura e resistência... Esses os nossos sentimentos, muito embora intramuros tudo seja tão crucial quanto pungente: uma vaguidade empalidecente ornada de prudência e covardia. Já perdi minha certidão de nascimento, quem disse que seria agora ou para hoje: o passado tem o gosto das coisas perdidas. Não estremeci, nem estou morto. Eu escrevo enquanto ouço de Martin Amis: Escrever é um ato de liberdade. Sim, a minha vida de sonheiro: o esperançar é maior que o deserto do real...

 


De passadas e tropeços... - Imagem: Cabeças & Boca do Inferno (Galeria Vermelho/Bienal de São Paulo, 2021), da pintora, escultora, artista visual, desenhista, gravadora, professora e artista multimídia Carmela Gross. - Falta pouco, espero. Está tão irrespirável nas tardes de todos os dias noite adentro por dilúculos sombrios. Mas sei, falta muito pouco, tomara. Todavia, as circunstâncias arranham a pele com o tempo obnubilado. Não fosse a surpresa eu teria talvez sucumbido ao desengano. Apareceu-me Beatrice – não apenas a perseguida amada de Dante, e que antes já estivera no altar sagrado como serva de Afrodite para se entregar ao primeiro que aparecesse com moeda em troca. E que depois se passara por Cenci para assombrar Paris e o mundo todas as noites de 11 de setembro. E que depois de musa se tornara renascente Filha da Dor pelos séculos pretéritos e crástinos. Com seu jeito aconchegante de recém-chegada, ela me contou de quando foi Rūpiikā do Kathāsaritsāgara e do quanto sofrera por ontens de repetidas cenas milenares. E mais dissera do sonho recorrente da infância de se ver leitora pras crianças e aflitos, e escrever poesias no seu diário interminável, e vestir-se para o domingo como uma moça qualquer da vizinhança e não pudera jamais, nem agora que nada mais a atemorizava. Mais disse entre fumaças e goles, soluços e revelações. Mais que sonolenta levantou-se, apagou a luz, despiu-se para deitar e, pela luz lunar dos seus olhos fechados, expôs o torso colossal da Freira de Monza, para me recitar os últimos versos do Poema Limpo de Paula Berinson: ... Vomito as almas dos meus filhos / e os devolvo à trincheira / do nada materno. Silenciou aninhand0-se ao meu lado e esforçando-se por esconder as lágrimas que se precipitavam na cachoeira do peito. Eu sentia e afagava seus braços suaves. Enfim aquietou-se para que minhas mãos solidárias acariciassem suas faces sedosas, quando enfim me acomodou nela para o nosso solidário adormecimento. Era onírico demais para ser verdade. Duvidei até do que sou. Só sei que ao despertar o canto mais limpo, ela se fora e a sensação das trevas cobriu-me as direções como se não mais tivesse bússola nem para onde ir, como o que se fez de espera nos desencontros tácitos pelas saídas de emergência.

 


Outro tempo inexistente... - Imagem: Jardim dos Pássaros, da série A noite, no quarto de cima, O cruzeiro do sul, lat. Sul 23 32 36, long. W. Gr. 46 37 59, 1973 – 2010: Revisão (Livraria e Galeria Seta), do pintor, gravador e desenhista Evandro Carlos Jardim. – As horas passavam e tive a sensação de que tudo se parecia tão urgente quanto o que calei fundo indesejavelmente. E tudo de mim fosse levado pela ponta do improvável não sei para onde, na previsão do amorável se esgarçando na ponta dos dedos - mesmo que meu coração insistisse entre todas as possibilidades de comunhão e harmonia. Estava tão absorvido pela confusão que nem percebi o seu retorno inesperado. Novamente chegara e me fitou assustada como se tivesse acometida pela Síndrome de Stendhal, desmaiando voluptuosamente em seguida. Tentei socorrê-la, mesmo que me visse incapaz da sobrevida desejada. Tentei reanimá-la sem saber nem como, mãos à cabeça e agora, o que fazer sumindo das ideias. Felizmente ela deu sinal de vida ao se mexer timidamente. Fiz o que pude para que se sentisse confortável para completo restabelecimento. Aos poucos foi retomando os sentidos e quase refeita fitou-me lindamente. Tentou dizer-me algo e ousou como se fosse Eleanor Catton esforçando-se ao máximo: Experimentar a beleza natural sublime é enfrentar a total inadequação da linguagem para descrever o que você vê. Palavras não podem transmitir a escala de uma vista que é tão impressionante que é sentida. Tentei melhor ampará-la e não pude esconder o regozijo com o que dissera ali. Sabia-me Golem e lhe recitei o Autorretrato de Bandeira assim, todinho de cor, em retribuição. Se o que vale é o teor dos sentidos na horagá, fiz-me solícito e firmei o que mais adequado haveria de ser feito: sentir suas pulsações e reter ao máximo o prazer de tê-la o mais próximo que pudesse enquanto possível. Até mais ver.



 
Ler sempre foi minha tábua de salvação – uma fuga para aquele mundo imaginário onde as mágoas eram fictícias e os finais felizes...

Pensamento da escritora estadunidense Phyllis A. Whitney (1903-2008). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



quinta-feira, outubro 04, 2018

CAMUS, ANTÓNIO JACINTO, MARCO PEREIRA, CIDADE & SAÚDE, JAGODZINSKI, SLAVA FOKK & DECILDITA


DO QUE VAI ATÉ SER – Imagem: Beautiful Tulip (2018), do artista visual russo Slava Fokk. - Decildita, a Dinha pros de casa e achegados, sonhava muito, demais até de olhos abertos, abstraída em seus pensamentos. Era a caçula de seu Moedicio e dona Juvitacia, casal mais tratado por Juva e Momó, os que mimavam a menina que vivia de conversa com bichos e coisas, tinha até uma pedra de estimação, a comadre Ita, em altos papos, diziam dela não bater bem da bola, pois ela queria ser cientista desde que articulou a primeira frase da infância. Tanto é que ao falar pela primeira vez na vida, ao invés de mencionar papai ou mamãe, ela chamou por Mogéria e todos caíram o queixo no chão: era o nome da irmã dela que morrera com um ano de idade e com os dedos enfiados na tomada elétrica. Na verdade, antes dela, os cônjuges tiveram três filhos: a Mogéria que morreu eletrocutada, a Mobutéria que morreu afogada no tanque do quintal, e o Mojuvigênio que nasceu de parto complicado, morre mas num morre acometido de não sei quantas enfermidades, até se segurar na vida lá pela adolescência. Razões essa de mudarem o nome da ultimogênita, em princípio nomeada Modecilda, mas na última hora fora registrada em cartório como sendo Decildita, providência que acham os esposos justamente por ela ter vingado, senão, senão. Para eles, mesmo assim, ela não escapou de umas esquisitices, logo levaram-na aos médicos de todas as especialidades e não havia diagnóstico pras doidices dela, talvez mitomania, não era, só numa sessão espírita descobriram: era a reencarnação de uma grande benfeitora. Deixaram no de menos e vigiavam os sonhos da menina que voava de olhos abertos ou fechados, e via as maravilhas e as misérias do mundo: Minha nossa! Coisas reais a assustavam: a mediocridade, a mesquinharia e o retrocesso, dela constatar em conversa miúda com os pais que a espécie humana, desde o Homo Sapiens, não havia evoluído nada, cada vez mais agarrada às coisas materiais e às turras uns com os outros, cada qual com sua idolatria milenar por deuses, anjos e arcanjos forjados na mentira e só pelo poder, nada mais, quanta intolerância, quanto ódio e impostura, sempre a mesma coisa, entra ano e saem décadas, séculos, milênios. Os genitores entreolhavam-se desconfiados para a tagarelice: seria genialidade ou doença mental, quem sabe. Ela acordava no meio da noite com pesadelos terríveis por enfrentar exércitos de zumbis num charco que era o quintal de casa que dava pro mundo, sabia ali o inferno que era aqui mesmo e não onde diziam os religiosos, ou com íncubus que lhe atentavam a carne com ameaça de morte, ou ainda, com a Perna Cabeluda, o Boitatá, Sacis e outros monstros que estavam escondidos embaixo da sua cama para atanazá-la. Haviam de confortá-la, protegê-la luz acesa a noite toda, agarrados nela, cantando e dengando para ver se dormia e ela não pregava o olho, assim, todo dia até já madura de anos. Já balzaquiana teve o primeiro aneurisma. Internada, sonhou a morte do pai. Queria por que queria sair dali pra saber dele que não aparecia às visitas. Um drama que durou bom tempo. Ao ter alta, convalescente: Cadê pai? Viajou, já era pra ter chegado. Ela pôs-se a chorar, a mãe e o irmão condoeram-se: Que houve, menina? Pai morreu. É impressão sua. Não, pai morreu, não temos notícias dele. Foram ver: o genitor agonizava indigente num hospital não sei onde. Num disse? Dias depois, o sepultamento. Aí ela passou um tempo sem sonhar, olhos abertos dias, meses, anos, pervigil: estava alerta sem pregar os olhos. Uns três ou quatro anos assim, até que teve o segundo aneurisma, sonhava caindo num buraco sem fim e foi bater no centro da Terra: era como o Verne tinha dito. E era atacada por cobras que voavam, por piranhas que emergiam do chão, presa num redemoinho a naufragar. Viu-se no centro do nada, quando uma esfinge viera anunciar a morte da sua mãe. Agoniou-se demais aos gritos à procura da figura materna que não aparecia para amainar sua dor. Despertou repentinamente chamando por ela e nada. Logo o irmão apareceu mencionando que a mãe estava internada no hospital e passava bem. Ela não aceitou, insistiu e, por mais que ele tentasse apaziaguá-la, irredutível, seguiram pro hospital: ela havia falecido durante a madrugada. Depois disso, outros tantos anos de vigilância sem conciliar o sono, até que numa tarde primaveril deitou-se e teve o terceiro aneurisma e sonhou que ia a Marte e de lá foi levada pelos planetas, fora da Via Láctea, e conhecido outros sóis e galáxias, até visualizar lá no finzinho do horizonte, seu irmão ser esmagado pelo tempo. Ela grita inutilmente. Ao se restabelecer corre pra casa e encontra o irmão sentado no batente: Sai daí, mano, sonhei você morrendo! Besteira, sonhe com os números da loteria pra gente ganhar uma bolada! Saia daí, mano. Deixa disso, mana. E ficaram nisso, até ela sair desconsolada. Mal dobrou a esquina, só ouviu o estrondo e o povo gritando: a casa desabou sobre o irmão, Mojuvigênio. Restava agora ela sozinha pelo mundo, procurando sentido pra vida, nem pode mais pintar os cabelos, acometida de uma tuia de aneurismas que não a deixa em paz, mesmo assim, feliz da vida e sorrindo à toa, só o que lhe resta, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista, arranjador e compositor Marco Pereira: Bons encontros com Cristóvão Bastos, Instrumental com Ulisses Rocha, Ao vivo com Nico Assunção & Free Jazz Festival In Concert & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Metade da população mundial vive em áreas urbanas e suburbanas. Este fato tem sido causa frequente de preocupação, pois nas cidades há mais pobreza e exclusão social, fatores de iniquidade nos cuidados de saúde por maior dificuldade de acesso e também no bem-estar pelas condições inerentes ao ambiente urbano. [...]. Extraído da obra A cidade e a saúde (Almedina, 2007), coordenado por Paula Santana, evidenciando cientificamente a associação entre os problemas de saúde e o ambiente humano construído, ao apresentar que a cidade é ao mesmo tempo refúgio e ameaça, união e discriminação, proteção e agressão, procurando com isso morfologias e funcionalidades urbanas que ajustem a cidade ao homem.

GLOBALIZAÇÃO – [...] reconhecer a globalização das aparições humanas universais democráticas de justiça, igualdade, liberdade e independência para todos, isto é, uma cidadania planetária na qual o imperialismo, nas suas formas pós-coloniais, o patriarcado, os problemas ecológicos, as distinções de classes forjadas pelo capitalismo transnacional e os direitos de preferencias sexuais permaneçam em evidencia na pauta educacional. [...]. Trecho de As negociações da diferença: arte educação como desfiliação na era pós-moderna, do autor e professor PhD, Jan Jagodzinski, extraído da obra O pós-modernismo (Perspectiva, 2005), de J. Guinsburg & Ana Mae Barbosa.

O ESTRANGEIRO – [...] Então, não sei por quê, qualquer coisa se partiu dentro de mim. Comecei a gritar em altos berros, insultei-o e disse-lhe para não rezar. Agarrara-o pela gola da batina. Despejava nele todo âmago do meu coração com repentes de alegria e de cólera. Tinha um ar tão confiante, não tinha? No entanto nenhuma das certezas valiam um cabelo de mulher. Nem sequer tinha certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e da morte que se aproximava. Sim, só tinha isso. Mas, ao menos, agarrava essa verdade, tanto como essa verdade se agarrava a mim. Tinha tido razão, ainda tinha razão, teria sempre razão. Vivera de uma certa maneira e poderia ter vivido de outra. Fizera isso e não fizera aquilo. Não fizera determinada coisa, ao passo que fizera outra. E depois? Era como se, durante todo o tempo, tivesse esperado por esse minuto e por essa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância, e eu sabia bem por quê. Também ele sabia por quê. Do fundo do meu futuro durante toda aquela vida absurda que eu levara, subira até mim, através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava, à sua passagem, tudo o que me haviam proposto nos anos, não mais reais, que eu vivia. Que me importavam a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importavam o seu Deus, as vidas que se encolhem, os destinos que se elegem, já que um só destino devia eleger-me a mim próprio e, comigo, milhares de privilegiados que, como ele, se diziam meus irmãos [...]. Trecho extraído da obra O estrangeiro (Círculo do Livro, 1957), do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMASO GRANDE DESAFIO: Naquele tempo / A gente punha despreocupadamente os livros no chão / ali mesmo naquele largo – areal batidos dos caminhos passados / os mesmos trilhos de escravidões / onde hoje passa a avenida luminosamente grande / e com uma bola de meia / bem forrada de rede / bem dura de borracha roubada às borracheiras do Neves / em alegre folguedo, entremeando caçambulas… / a gente fazia um desafio… / O Antoninho / Filho desse senhor Moreira da taberna / Era o capitão / E nos chamava de ó pá, / Agora virou doutor / (cajinjeiro como nos tempos antigos) / passa, passa que nem cumprimenta / – doutor não conhece preto da escola. / O Zeca guarda-redes / (pópilas, era cada mergulho! / Aí rapage – gritava em delírio a garotada) / Hoje joga num clube da Baixa / Já foi a Moçambique e no Congo / Dizem que ele vai ir em Lisboa / Já não vem no Musseque / Esqueceu mesmo a tia Chiminha que lhe criou de pequenino / nunca mais voltou nos bailes de Don´Ana, nunca mais / Vai no Sportingue, no Restauração / outras vezes no choupal / que tem quitatas brancas / Mas eu lembro sempre o Zeca pequenino / O nosso saudoso guarda-redes! / Tinha também / tinha também o Velhinho, o Mascote, O Kamauindo… / – Coitado do Kamauindo! / Anda lá na casa da Reclusão / (desesperado deu com duas chapadas na cara / do senhor chefe / naquele dia em que lhe prendeu e lhe disparatou a mãe); / – O Velhinho vive com a Ingrata / drama de todos os dias / A Ingrata vai nos brancos receber dinheiro / E traz pro Velhinho beber; / – E o Mascote? Que é feito do Mascote? / – Ouvi dizer que foi lá em S. Tomé como contratado. / É verdade, e o Zé? / Que é feito, que é feito? / Aquele rapaz tinha cada finta! / Hum… deixa só! / Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava / vertiginosamente até na baliza. / E o Venâncio? O meio-homem pequenino / que roubava mangas e os lápis nas carteiras? / Fraquito da fome constante / quando apanhava um pinhão chorava logo! / Agora parece que anda lixado / Lixado com doença no peito. / Nunca mais! Nunca mais! / Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!… / Era bom aquele tempo / era boa a vida a fugir da escola a trepar aos cajueiros / a roubar os doceiros e as quitandeiras / às caçambulas: / Atresa! Ninguém! Ninguém! / tinha sabor emocionante de aventura / as fugas aos polícias / às velhas dos quintais que pulávamos / Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha… / e a gente fazia um desafio… / Oh, como eu gostava! / Eu gostava qualquer dia / de voltar a fazer medição com o Zeca / o guarda-redes da Baixa que não conhece mais a gente / escolhia o Velhinho, o Mascote, o Kamauindo, o Zé / o Venâncio, e o António até / e íamos fazer um desafio como antigamente! / Ah, como eu gostava… / Mas talvez um dia / quando as buganvílias alegremente florirem / quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais / quando a sombra das mulembeiras for mais boa / quando todos os que isoladamente padecemos / nos encontrarmos iguais como antigamente / talvez a gente ponha / as dores, as humilhações, os medos / desesperadamente no chão / no largo – areal batido de caminhos passados / os mesmos trilhos de escravidões / onde passa a avenida que ao sol ardente alcatroamos / e unidos nas ânsia, nas aventuras, nas esperanças / vamos então fazer um grande desafioPOEMA DA ALIENAÇÃO - Não é este ainda o meu poema / o poema da minha alma e do meu sangue / não / Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema / o grande poema que sinto já circular em mim / O meu poema anda por aí vadio / no mato ou na cidade / na voz do vento / no marulhar do mar / no Gesto e no Ser / O meu poema anda por aí fora / envolto em panos garridos / vendendo-se / vendendo / “ma limonje ma limonjééé” / O meu poema corre nas ruas / com um quibalo podre à cabeça / oferecendo-se / oferecendo / “carapau sardinha matona / ji ferrera ji ferrerééé…” / O meu poema calcorreia ruas / “olha a probíncia” “diááário” / e nenhum jornal traz ainda / o meu poema / O meu poema entra nos cafés / “amanhã anda a roda amanhã anda a roda” / e a roda do meu poema / gira que gira / volta que volta / nunca muda / “amanhã anda a roda / amanhã anda a roda” / O meu poema vem do Musseque / ao sábado traz a roupa / à segunda leva a roupa / ao sábado entrega a roupa e entrega-se / à segunda entrega-se e leva a roupa / O meu poema está na aflição / da filha da lavadeira / esquiva / no quarto fechado / do patrão nuinho a passear / a fazer apetite a querer violar / O meu poema é quitata / no Musseque à porta caída duma cubata / “remexe remexe / paga dinheiro / vem dormir comigo” / O meu poema joga a bola despreocupado / no grupo onde todo o mundo é criado / e grita / “obeçaite golo golo” / O meu poema é contratado / anda nos cafezais a trabalhar / o contrato é um fardo / que custa a carregar / “monangambééé” / O meu poema anda descalço na rua / O meu poema carrega sacos no porto / enche porões / esvazia porões / e arranja força cantando / “tué tué tué trr / arrimbuim puim puim” / O meu poema vai nas corda / encontrou sipaio / tinha imposto, o patrão / esqueceu assinar o cartão / vai na estrada / cabelo cortado / “cabeça rapada / galinha assada / ó Zé” / picareta que pesa / chicote que canta / O meu poema anda na praça trabalha na cozinha / vai à oficina / enche a taberna e a cadeia / é pobre roto e sujo / vive na noite da ignorância / o meu poema nada sabe de si / nem sabe pedi / O meu poema foi feito para se dar / para se entregar / sem nada exigir / Mas o meu poema não é fatalista / o meu poema é um poema que já quer / e já sabe / o meu poema sou eu-branco / montado em mim-preto / a cavalgar pela vida. Poema do poeta angolano António Jacinto (1924-1991).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual russo Slava Fokk
Veja mais aqui.

AGENDA
Mostra Peibê de Zines e Publicações Independentes – 25/26 out, na Fanzinoteca do IF-Fluminense – Campus Macaé (RJ) & muito mais na Agenda aqui.
&
Muitas & tantas vezes, Fernando Pessoa, Zygmunt Bauman, George Orwell, Pablo Palazuelo, Roberto Sousa Causo, Janilson Sales, Milton Nascimento, Viktoria Mullova, Joe Satriani & Marianna Leporace aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...