quinta-feira, dezembro 06, 2007

CAMUS, JORGE AMADO, SAUSSURE, ANTONIO MARIA, WALLY SALOMÃO, FILOSOFIA, OLIMPIA ZAGNOLI & BIRITOALDO


 
A arte da ilustradora italiana Olimpia Zagnoli.


PROEZAS DO BIRITOALDO - VI - Quando o Sol Raia Depois da Trovoada, o Dengoso Tem Que Agarrar a Ocasião Pelo Cabelo - Imagem: Descanso, de Cícero Dias. -  Ilmena nunca fora daquelas de andar se arrastando atrás de macho, não. Muito menos de dar bola ou brecha para que qualquer adiantado se insurgisse surpreendendo sua fascinante beleza. Ao contrário, os marmanjos que perseguiam suas formas generosas, graciosas por demais da conta, ficavam a ponto de doidinho da silva, alguns até comendo merda e rasgando dinheiro. Dela e da irmã gêmea, Ilvete, lindíssimas e responsáveis por muito desenlace matrimonial sólido de anos e de muito nego pirar catando góia de cigarro nos acostamentos das rodovias.  Verdade. Era cada exagerada paixonite do negócio pedir até a intervenção da segurança nacional. Foi: até o exército se aquartelou nas imediações para afugentar dos intrometidos. O pior que foi oficial, soldado e recruta como a gota perseguindo aquela faceirice de mulher. E bote intriga nesse meio, considerando malquerenças entre as desafetas invejosas que viam seus maridos ruírem embasbacados no cós das saias voluptuosas das irmãs. De fato, Ilmena entrou na estória por dois motivos: pela loucura infantil que causara no arrebatado coraçãozinho tosco do Biritoaldo e pelo que ela mais tarde se tornará para a formação adulta dele. Não só ela, incluindo a irmã gêmea, Ilvete, ambas uma tentação até para párocos os mais ortodoxos e intransigentes de perderem a batina logo que tomassem conhecimento da exuberante beleza das privilegiadas. Inclusive, corre-se às soltas, que fora o Padre Bidião, um lá não muito fanático pelos dogmas do Vaticano, quem, sob astúcias, preces apócrifas e sob efeitos etílicos de orações escabrosas, deflorara as duas na maior enrolança, escafedendo-se depois de um flagra da beata Maria-do-céu-de-Jesus. Elas, depois do aproveitamento do farsante, tornaram-se abstêmias e atenderam à heterodoxia do pai. Eram, as duas, filhas de um cidadão que fora teatrólogo de algum renome, aportando na terra natal depois de ruidoso sucesso em muitas platéias brasileiras. Elas mesmas participavam com o pai das bufas e picantes comédias que resgatavam o pastoril, chamando atenção onde chegassem. Uma no cordão azul; a outra, no encarnado. Era um colosso! E o sucesso de ambas em todos os cenários, não deixavam o velho pai se desligar da arte dramática. O maior azáfama. Era convidado a encenar em todo tipo de efeméride: nego num se enterrava sem um esquete onde o pai e as filhas representassem uma comédia sobre a vida e a morte - muitas vezes o defunto ficava insepulto pela hipnose de todos com a pantomina. E assim, num havia graduação, recepção, confraternização, comício, baile, aniversário, solenidade que fosse, estavam lá mais pela graciosidade maravilhosa das duas que por cultivo artístico dos presentes. Quando surgiam no proscênio, era a turma do gargarejo de queixo caído, levando beliscada e desafiando a ciumeira das esponsais. Ficavam todos anestesiados com a dupla dose de sedução. Para se ter idéia da encrenca, elas eram beligerantemente insultadas onde chegassem pelas mais gasguitas das madames locais. Claro, corpos como aqueles, sem sombra de dúvida, Deus houvera caprichado na concepção. Tudo nos conformes, alimentando a luxúria dos atrevidos. Biritoaldo mesmo já estava franzino malemolente, tísico de tanta punheta no afã de esfalfar-se naquelas carnes idolatradas. Tudo isso sem contar com a mundiça da macharia toda se delirando pelas coxudas, tesudas, bundudas, quartudas, sonhadas teúdas e manteúdas de qualquer cristão ou ateu, fazendo o enamorado do coração um tapete suntuoso para que passeassem, presenteando com amostramentos descabidos tornando a rua da residência delas a mais movimentada da província. O desafio dos bigodudos mais machos pela conquista de cair na graça de uma que sejas - e tinha até quem quisesse papar numa mancebia bígama, causava um buliçoso alvoroço de atordoado amor por aquelas belezuras. Um vexame, de bruguelo a decrépito ancião nas portas da morte. Tudo metido às pregas, num dando sossego aos devaneios das desejadas. Ilmena era a mais comedida, recatada. Noivara certa vez com o filho do usineiro, mas acabou devido amor de infância que lhe corroía por dentro: amava desmedidadamente Necelso, um barnabé da Coletoria, devidamente casado com uma megera que morria de ciúmes dela. Era quem remexia seus sentimentos, apenas. Ilvete, não, era mais largada, mais afeita a um achegamento delicioso no escurinho do cinema. Não de costume, mas passasse inadvertidamente via-lhe atracada com um sortudo lá no fundo, embaixo da escada do cinema, no maior fungado, só amainado quando o tarado do proprietário acendia a lanterna para ver-lhe as fuças. Era um escarcéu. Ilvete, nem aí. Essa era toda moderninha, inventou até todas as modas femininas no lugar para sapecar a concupiscência dos engalfinhados. Quem chegasse por aquelas bandas não poderia deixar de conhecer a verdadeira maravilha do lugar: Ilmena e Ilvete. Ôxe, sujeito que fosse gastava o que tinha e o que não podia para levar o pai e as filhas para a representação numa saleta qualquer, com o fito de revirar os olhos com tanta sedução junta.
O velho não se dava conta, mas as duas, sabiam que abafavam. E eram ramalhetes de flores, versinhos, juras de amor, suspiros dos mais descabidos mequetrefes que endoidavam em possuí-las. Todo homem para ir aonde fosse, tinha por obrigação passar pelo caminho que dava na casa delas, para satisfazer-se à curiosidade. Na escola onde elas lecionavam, era pai como a praga para buscar os meninos e meninas das classes, uns barruando nos outros, só para testemunhar in loco aquela belezura. Não era à toa que Biritoaldo andasse exageradamente afeiçoado pela professora. O perigo já chamava a atenção de todos: o bicho estava quase invisível de tanto se afogar na bronha, de quase ninguém ver nem mais identificar a sua cara. Quando aparecia, nossa, estava afinando de desaparecer. O vício atormentado sedento por Ilmena. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIAUma história se conta, não se explica. Pensamento do escritor e dramaturgo Jorge Amado (1912-2001). Veja mais aqui.

LINGUAGEM & LINGUISTÍCAA linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro. [...] A cada instante, a linguagem implica, ao mesmo tempo, um sistema estabelecido e uma evolução. [...]. Trecho extraído de Curso de linguistica geral (Cultrix, 1971), do linguista suíço Ferdinand Saussure (1857-1913), defendendo que a língua é distinta da la e representa a parte social da linguagem, exterior ao individuo que por si só, não pode modificá-la. Veja mais aqui.

O SER & O MEIO - [...] à medida que os seres humanos estabelecem relações entre si e com a natureza, ocasião em que vivenciam emoções e sentimentos, isto é, reagem efetivamente aos acontecimentos [...], extraído da obra Filosofando: introdução à filosofia (Moderna, 1998), de Maria Lucia Aranha e Maria Helena Martins, entendendo que o ser humano é um ser desejante, toda ação humana se explica em suas motivações básicas: a falta e o desejo de supri-la. Veja mais aqui.

MITO DE SÍSIFO – [...] O absurdo nasce da confrontação entre os anseios humanos e o silencio iniquo do mundo. É isso que não se pode esquecer. É disso que é necessário enganchar-se porque toda a consequência de uma vida pode brotar disso. A irracionalidade, a nostalgia humana e o absurdo que surge de seu confronto são portanto os três personagens do drama que deve necessariamente acabar com toda a lógica de onde uma existência é possível. [...] A partir do momento em que ela é reconhecida, a absurdidade é uma paixão, a mais dilacerante de todas. [...]. sua grandeza é sua inconsequencia. A prova de sua existência é sua inumanidade. [...] Viver é fazer viver o absurdo. Fazer viver é antes de tudo olá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo não morre quando a gente olha para trás. [...] Trecho da obra O mito de Sísifo (Livros do Brasil, 2002), do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960). Veja mais aqui e aqui.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORTEA humanidade embarca, em levas, para a vida, à medida que o alto-falante anuncia: “passageiros para a morte e escalas”... As alegrias e sofrimentos, o amor, a Loteria Federal, a traição, a falência, o título protestado, o soco na cara, a impotência, a ascensão do dólar, a carta anônima, essas coisas tantas e bilhões de outras são escalas obrigatórias ou fortuitas, curtas ou duradouras postas no caminho da morte. Embora esteja farto de saber disso, o homem, dotado de artificiosas ideias, vem lutando, há milênios, para inventar coisas de matar e de sobreviver. Para matar, inventou: a ajuda do parto, a faca, o revolver, a espingarda, a metralhadora, o canhão, as bombas (algumas de São João), o formicida, o permanganato, o arsênico, a empada, os aviões, os navios, os trens, os automóveus, as motocicletas, os vigésimos andares, o gás, o banho de mar, o chumbo derretido (no ouvido, em colherinhas), as doses mais altas de Alonal e Heroina. Para viver, foramm inventadas roupas, injeções, xaropes, operações cirúrgicas e bancárias, fricções, transfusões de sangue e, recentemente, os antibióticos que, até ao tempo em que sua falsificação não seja abusiva, até quando certos micróbios não se puserem em condições de vitória contra a ação da penicilina e das estrepto, aureio e terra (micina) – os antibióticos, dizíamos, nos livrarão de certas mortes antigas, como septicemia, pneumonia, etc. Como vemos, as invenções para matar são muito mais numerosas e quase sempre mais eficazes (no sentido de ação rápida) que as invenções para viver. Todo esse esforço inventivo, porém, resulta em inutilidade, porque o homem vai morrer de qualquer jeito. O suicídio tão frequentado pelos que se sentiram fracassados ou por aqueles que se fatigaram mais depressa, é uma forma enganosa de fuga. O que se mata foi levado ao extermínio de si mesmo quando sentiu que “se” podia ver-se livre daquela dor, daquele ajuste de contas ou daquela canseira. Mas, antes de cortar os pulsos ou atirar-se ao mar, é necessário que o suicida se pergunte: serei livre onde? A que horas? Com que sensibilidade para acolher o meu alívio? Se a fuga é a busca do refugio, não haverá instante, nem haverá pouso, para se gozar o ludíbrio da pena, depois que a vida parar. Se fizesse este fácil raciocínio, só assassinaria a si mesmo aquele que se conformasse com a mera insensibilidade da morte, em troca de todos os seus medos, apreensões e dores. [...]. Extraído de Pernoite: crônicas (Martins Fontes/Funarte, 1989), do poeta, radialista e compositor pernambucano Antônio Maria (1921-1964). Veja mais aqui e aqui.

POEMA - Criar é não se adequar à vida como ela é / nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas / que não sobrenadam mais / nem ancorar à beira-cais estagnado / nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa / nascer não é antes, nem é ficar a ver navios / nascer é depois, é nada após se afundar e se afogar / (sargaços ofegam o peito opresso) / bombear o gás do tanque de reserva localizada em algum ponto / do corpo / e não parar de nadar / nem que se morra na praia antes de alcançar o mar. Poema do poeta Wally Salomão (1943 – 2003). Veja mais aqui.


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