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domingo, março 13, 2022

GANDHI, EMILIO SALGARI, RICARDO ANTUNES, IVONALDO PORTO & XEXÉU

 

 

TRÍPTICO DQP: Esquinas sou possibilidades - Ao som da Sinfonia em sol menor (1893), de Alberto Nepomuceno, com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, diretta da Benito Juarez. - Da morte, outra vida – falimos e ressoamos a cada instante. O que fomos, não mais; o que somos, adiante. Se de um lado, um monturo dos que sucumbiram nas estatísticas do desgoverno genocida no Fecamepa e da pandemia; do outro, uma porta: fechadaberta, a contingência. Se do lado de fora, destroços sob o Sol: a cidade terrestre com todos os pecados – herança do escravagismo e das quarteladas; aqui dentro, uma vontade imensa de viver – seja como se fosse n’O tratado de harmonia (Unesp. 2002) de Schönberg, ou como A relação entre o físico e a moral do homem (Rapports Du Physique Et Du Moral de l'Homme, 1797 - Hachette, 2017), do fisiologista francês Pierre Cabanis (1757-1808), ou mesmo no meio da The Voyage to Icaria (Au Bureau du Populaire, 1842), do filósofo francês Étienne Cabet (1788-1856). Seja como for, dixit Caio Fernando Abreu: porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas. E cada um siga seu caminho, atento ou não, escolhas inevitáveis. Alguns, nesta hora, rompem lacres; outros não. Um aviso do sociólogo Ricardo Antunes n’O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital (Boitempo, 2018): Se o mundo atual nos oferece como horizonte imediato o privilégio da servidão, seu combate e seu impedimento efetivos, então, só serão possíveis se a humanidade conseguir recuperar o desafio da emancipação. Pelo sim, pelo não, só nos restam as panaceias de amar e sorrir, o que levará deste mundo. Voo ao sabor dos devires e esquinas.

 


O bico do adeus...– Imagem: Uma quina, duas: para lá ou para cá (AcervoLAM). - A cidade é a ilusão de uma névoa numa quarta-feira de cinzas, imagens distantes reduzidas à quina de um cubículo no salão onde festas centenárias para a cura das almas ambulantes foram sepultadas pelas platitudes anquilosas duma rainha neanderthal: memória apagada, páginas rasgadas, historias arrancadas e vidas perdidas para nunca mais. Se tudo foi passado a limpo, na verdade restou a experiência esvaziada: o veneno e o lixo no sangue, para que tudo se tornasse postiço, haja resiliência. Não estou falando daquela Cinchona do Mapuche nem da Quila do misterioso Lago Lácar, não nasci do nada, minha senhora, estou do lado que não é visto ou não se quer enxergar. Quase não ouço Ivonaldo Porto falar dos Homens de Plástico (Igarapé, 2020): ...Torturas, prisões ilegais, desaparecimentos – as vítima jamais retornavam ao seio de suas famílias... – eram corriqueiros. Por isso mesmo, todo o cuidado era pouco. Fazia-se necessário ter cautela quanto a com quem se relacionar e principalmente quanto ao que proferir... Cenas de um filme que já vi aqui mesmo. Nem deu tempo para que eu me despedisse dele como Joel Silveira: Para que saiba como ando em matéria de amizades, basta dizer que já perdi de vista o meu amigo mais próximo. A despeito de todo flagelo, foi um ato de quantas adagas, cimitarras, iatagãs, não, não era hora de haraquiris coletivos, era ausência de quem esqueceu e demoliu, perdeu-se o que não pode ser mais guardado: histórias que foram contadas e se esgarçaram na indiferença. Logo me vi na pele do Emilio Salgari: A vocês, que se enriqueceram com a minha pele, mantendo eu e minha família em contínua semi-miséria ou pior ainda, só peço que em compensação pelos lucros que lhes proporcionei, cuidem as despesas dos meus funerais. Eu saúdo você quebrando a caneta. Pronto. Saí de cartaz, outros virão. E se me tornei ensimesmado por tapumes, gessos, lajes, incomunicabilidade, como se nada tivesse ou fosse nada, enxotado como um êmbolo emperrado ou fumaça intragável, circunscrito ao léu da rua, saravá! A festa dos cirenaicos dagora: a estupidez virou moda, pelas passarelas a história se repete.

 


Canto & sou xexéu... - Era aquele sentimento de quem deposto do que sequer possuía e reduzido à escória dos corroídos sonhos invertidos, em pleno exílio e imposta penitência. Era de novo o castigo de quem vivia no céu cantando para Tupã dormir. E só quando a peste se alastrou pela tribo desci de lá para consolo deles, pousando em cima da oca central da aldeia para cantar e expulsar todos os malefícios. Assim fiz e se deu, a tristeza demovida e todos se curaram, graças! Fiquei com eles como se fosse o protetor da floresta e cuidei de encantar seringueiros, ribeirinhos, quebradeiras-de-coco, quilombolas e outros no meio de trovões, relâmpagos, ventos, arco-íris, eclipses. E me trataram como seu eu fosse o dono daquilo tudo, o rei. E folgado mais brincava, e protegido fiz pouco caso dos outros, até o inconveniente das queixas gerais. Foi Câmara Cascudo quem denunciou: iludiu a sabidíssima raposa que o levava para os filhos. E juntaram outras façanhas do inadequado. Por causa da empáfia, a punição: De hoje em diante, perderás o teu canto e só poderás imitar o canto de outras aves. Além disso, todos os pássaros hão de te odiar e de te perseguir. Assim e fui expulso. A minha cidade não existe mais no voo pelas bordas das várzeas e matas onde posso ser cacique do caribe espanhol, corcel grego, o preto de Möhring, ou apenas um Passeriformes da Icteridae. Na verdade, Japuíra catando gravetos, João-conguinho juntando capim pro ninho nas palmeiras. Maribondamigo levou-me pros seus e me deu guarida lá pelas bandas de Macaco na povoação de Aurora dantanho e pelas mornas terras dos Campos Frios pude sobreviver remediando as dores – era bonito ver o dia nascer ali. Hoje não sou só tema das lendas e mitos de Teobaldo Miranda (Nacional, 1985) e o assovio da canção do maestro Waldemar Henrique (1905-1995): Por isso, meu branco eu lhe aviso / Não mate mais Japiim / Anhangá que zela por ele / Persegue a quem lhe der fim. Sou o que restou do cochicho no trâmite da solidão: desafinado e sozinho, poligínico papa-banana, onívoro pelos mangueirais urbanos, nenhum despojo para revolver, bagagem extraviada, a vida qualquer hora depois de zero. Até mais ver.

 


A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer atualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor que o livro da humanidade?

Pensamento do advogado e fundador do Estado moderno indiano Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948). Veja mais artigos, resenhas e dicas sobre Educação aqui, aqui, aqui e aqui.

 



quarta-feira, outubro 07, 2020

AMIRI BARAKA, ULRIKE MEIHHOF, TOULOUSE-LAUTREC, ANNA POLITKOVSKAIA, WALDEMAR HENRIQUE, URÂNIA & RECIFE.


  

TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... TATÁ-MANHA, MBOITATÁ & QUEIMADAS - Ora, ora, queimada não é fogo-fátuo! É fogo ateado por jagunços com leniência militar na piromania da monocultura! Está vendo a clareira? É só para concentração fundiária e predatória, desmatando tudo. É de temer a savanização, a desertificação! Já se devastou a Mata Atlântica, agora estão consumindo a Amazônia e o Pantanal no maior fogaréu incontrolável. Ah, não! O fogo! Desde criança aprendi a respeitá-lo, tanto pelo ardume que deixa bolhas dolorosas, como pelo braseiro que só deve ser usado por quem sabe direito o que fazer. Se para adustão, só na fogueira junina e de longe, com cuidado; pior a ignificação: Olha o fogo, menino! Isso queima, desgraçado! Quer ficar tostado, é? Não cuspa nele senão fica tísico! Só apague com galhos, nunca com os pés ou com água, senão, senão, ora! Tem que prever a reviravolta da sorte, avalie. É com ele que se assa, coze, ferve e celebra o culto dos mortos e antepassados, deuses larários e penates, reminiscências ao calor reconfortante que aquece no frio: Sustente direito o tição fumegante que é a custódia contra os assombros dos matagais! É dele aquelas labaredas que afugentam fantasmas noturnos e segue feito facho cintilante que vira méuan, o fogo corredor que ataca e mata os incendiários, que são levados para Mboitatá, a cobra-de-fogo que mora na água e vai praquela que sustenta e dirige, a imponderável Mãe-do-fogo, Tatá-Manha. Das chamas emerge o alarme da jornalista russa Anna Politkovskaia (1958-2006): Estamos voltando para o abismo, para um vácuo de informações que significa a morte de nossa própria ignorância. Assustado eu quase nem me contive, não fosse a intervenção severa de Ulrike Meihhof: Protesto é quando digo que isso não me agrada. Resistência é quando eu garanto que o que não me agrada não ocorre mais. É o que me faz deste chão que sou lavado pela água e levado pelos ventos no fogo da vida. Alertas para a ganância demais no Fecamepa.

 


DOIS PASSOS & LÁ VOU EU NO EMBALO DA CHULA MARAJOARA – Para me recuperar do susto ela me levou à Ilha de Marajó, onde mulheres descalças dançavam a chula das Taieiras, ao som de tambores, maracás, banjo, flautas, reco-recos e ganzás. Tudo em louvor de divindades que ignoro quais sejam, carregando água da Cachoeira do Arari para as casas dos seus senhores, cantando Morena: Deixei cabana / Deixei meu gado / Pra ver morena / Do meu cuidado / Morena bela / Que tanto amei / A fé mais pura/ eu te jurei / Eu já fui preso / Por uma açucena / Só por gostar / Da cor morena / A cor morena / É cor de prata / A cor morena / É que me mata. Era essa a chula marajoara do compositor, maestro, pianista e escritor Waldemar Henrique (1905-1995). PS: material extraído do livro Waldemar Henrique – O Canto da Amazônia (Funarte, 1978), de Claver Filho; do livro Waldemar Henrique – Compositor Brasileiro (Falangola, 1979), de Ronaldo Miranda; do livro Waldemar Henrique – Só Deus Sabe Porque (Fundação Cultural do Pará, 1989), organizado por Sebastião Godinho; da dissertação de mestrado Waldemar Henrique folclore, texto e música num único projeto – a canção (Unicamp, 2005), de Maria de Fátima Estelita Barros; do artigo Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique (Estudos Avançados, 2005), de Márcia Jorge Aliverti; e do artigo Canção Morena do compositor brasileiro Waldemar Henrique: um estudo analítico e interpretativo (DAP-Pesquisa, 2018), de Luciana Pereira da Costa e Silva.

 


TRÊS GINGADAS NA SERPENTINE DANCE – Imagem: poster Loïe Fuller, de Henri Toulouse-Lautrec, retratando a arte da atriz e bailarina estadunidense Loïe Fuller (1862-1928), pioneira das técnicas da dança moderna e da iluminação teatral, inventora da serpentine dance. – No meio da festa, eis que ela sob mil véus luminosos de seda multicolorida serpenteava arrebatadora Urânia nua com suas magias fantásticas no Folies Bergère do meu coração vulnerável entre asteroides e cometas, surreais lembranças, astrologia matemática. Envolveu-me em si com seu manto azul transparente para que eu pudesse usufruir de sua deidade estelar e oceânida, a se entregar inteira a recitar os versos de Três formas de história e cultura, de Amiri Baraka: Eu penso no tempo / em que estarei tranquilo... / Quando as vaidades / e as paixões fúteis se consumirem, / e os meus olhos, minhas mãos / e minha mente / poderão enternecer... / Finalmente... / E as canções serão suaves / e flutuarão no ar... E a vida pode ser vivida da melhor forma possível. Até mais ver.

 

HISTÓRIAS MEDONHAS D’O RECIFE ASSOMBRADO

[...] O desejo foi, sempre, registrar, sem compromisso, o imaginário popular sobre o assunto. E contá-lo, fazendo arrepiar cabelos, como faziam os contadores de “causos”, tempos atrás, gastando as noites com as suas narrativas nas todas de cadeiras nas calçadas (tão ao gosto do recifense antes da televisão e da violência atual). Histórias que fariam, mais tarde, as crianças procurarem a cama dos pais e muitos adultos “se esquecerem” de apagar a luz. [...].

Trecho extraído da apresentação da obra Histórias medonhas d’O Recife Assombrado (Bagaço, 2002), organizada por Roberto Beltrão, reunindo relatos sobre o casarão de Setúbal, encontro com papa-figo, prédio do Espinheiro, o homem da capa preta, o fantasma carinhoso, madrugada no quartel, a perna cabeluda, entre outros contos sobre Monga, pastoril, maldições e outras arrepiantes histórias. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 



MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...