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sexta-feira, junho 08, 2018

YOURCENAR, MASLOW, RUTH BERNHARD, IVAN LESSA, NARA LEÃO, AURELIO GRIMALDI & EDUARDO STERZI


JÁ DIZIA FREUD: TODO ENCONTRO É UM REENCONTRO – Imagem: Milkweed - aka: Hand with Dandelion, da fotógrafa alemã Ruth Bernhard (1905-2006). - Confesso, perdi o senso, também sangro toda noite à janela, cabeça ao vento, frio na carne, e uma estrela luzente, lá longe de nem saber, infere minhas inquietações e só ela me entende ao sussurrar, suave e docemente, não é nada fácil, e eu nem sei que céu é esse, um Brasil escurecido no azul das trevas, se ela fala da fresta na porta do meu pálido claustro, e não faço a menor ideia porque a saída é logo ali e minha cabeça rola na praça para que eu morra nos olhos do filho sepultado. Sabia de tempos que todo encontro é um reencontro, e ela reitera o que quero, nada mais que isso, pouso amigo pra quem não tem mais nada além de uma sombra no chão, pra respirar a música devagar enquanto o tempo arde na terra inocente e já nem sei que horas são corridas no calendário. Se me esquivo é porque sempre só a noite é longa, e ela fala pra que eu não durma páginas viradas em que fui longe demais, até perder a noção de lugar algum, com a perseverança feita um epitáfio no dilema à queima roupa, e tudo por um fio nos campos minados pro meu entusiasmo espremido dentro de uma redoma menor que um segundo expirado. Insisto na resilência e ela lembra os trêmulos acenos bem-vindos por ínvios percursos entre a fome e a saciedade, enquanto eu errava a tontura dos labirintos e o poço sem fundo com seu silêncio hostil de afiados dentes na minha ventura, e não era ninguém, só miragem no deserto do exílio. Bem sei que perdi as digitais, pudera, embaraçado no quebra-cabeça dos percursos, nos quais as entregas queimaram o ser ao risco do desejo amontoado na lembrança isolada das horas não fruídas, como se o luto pesasse na tragédia sem nome, como se encarasse a ameaça e não tivesse nada a dizer, de mãos vazias cúmplices dos lábios mudos nesse lugar circunscrito ao nó apertado, sem dar a entender que não é e os estilhaços denunciavam não haver comando, porque havia hoje quem vivesse na Idade da Pedra, ou no século XVI ou sei lá quando de tão passado, chega nem saber se no mundo da lua ou dos sonhos do umbigo, se não perdeu a placenta ou se foi pro mundo sem sair de casa. E ela riu da minha toleima mania de acreditar no amanhã e ter pra dar apenas o que de mim resta, nada mais tendo que a reserva dos afetos, desamparado por muito pouco não ter descambado com saldo zero, numa imensidão oceânica, pra nunca mais achar o caminho de volta e a razão pelos ares de tão ensandecido. Ela mais riu e quase emudeci diante do escárnio, não era nada disso, disse ela, era a minha ingênua teimosia pelo desconhecido, eu sabia. Um dia direi o homem envelhecido no poema: vivo porque o outro existe e a servi-lo, as minhas intenções, não sabe, nunca saberá contaminada por dores, juízos, valores, e terei sempre de partir sem nada dizer, sem pátria e coisa nenhuma, jamais esperar de nunca voltar, somente a lei da chama inextinguível do amor acesa no peito alumiando o negrume da solidão erradia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da saudosa cantora, compositora e sambista Nara Leão (1942-1989): Os meus amigos são um barato, 10 anos depois, Opinião, Nara, Garota de Ipanema & Mambembe & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] acho, sim, que o homem é estranho na terra. Deve manter, por uma questão de saúde mental, essa sensação de ser um estrangeiro aqui, no meio de árvores, pedras e seja lá o que for. Os alienígenas somos nós! É isso mesmo, é isso mesmo: manter a sensação de ser um estrangeiro tem um lado muito saudável. Não há motivo nenhum para você ficar muito à vontade no mundo! Não há motivo para que se diga ‘’estou à vontade’’. Não, não. Fique com uma certa timidez. Isso é bom: manter uma certa distância’.[...]. Pensamento do jornalista e escritor Ivan Lessa (1935-2012), extraído de uma entrevista concedida em 1999, ao jornalista e escritor Geneton Moraes Neto (1956-2016) e que, certa vez, mencionou: Não quero entrar com meu plangente violão do saudosismo, mas o nosso jornalismo piorou. Muito mesmo. Veja mais aqui e aqui.

DESEJO & MOTIVAÇÃO – [...] O típico impulso, ou necessidade ou desejo, não está e provavelmente nunca estará associado a uma base somática específica, isolada. [...] Considerando todas as evidências que temos em mãos, é muito pouco provável que compreendamos totalmente o desejo de amar, não importa o quanto saibamos sobre o impulso da fome. [...] O homem é um animal desejante e raramente atinge um estado de completa satisfação exceto por um curto período de tempo. Assim que um desejo é satisfeito, outro explode e assume o seu lugar [...]. Trechos extraídos da obra Motivation and personality (Harper & Brothers, 1954), do médico e psicólogo estadunidense Abraham Maslow (1908-1970), que noutra obra, Eupsychian management: a journal (Richard Irwin, 1974), expressou que [...] Como podemos evitar as situações industriais que denigrem a dignidade humana e a tornam menos possível? Em situações inevitáveis na indústria, como as linhas de montagem, como se pode descontaminá-las de forma a manter a dignidade do trabalhador e sua autoestima, tanto quanto possível, dadas as circunstâncias? [...] e autor de frases como: Um músico deve compor, um artista deve pintar, um poeta deve escrever, caso pretendam deixar seu coração em paz. O que um homem pode ser, ele deve ser. A essa necessidade podemos dar o nome de autorrealização & Experimente a vida como fazem as crianças, com total entrega e concentração. Experimente algo novo ao invés de prender-se ao que ó seguro e certo. Ouça seus próprios sentimentos para avaliar as experiências ao invés da voz da tradição, ou da autoridade, ou da maioria. Seja honesto; evite fingimentos ou "jogos". Esteja preparado para ser impopular se suas opiniões não coincidirem com as da maioria. Assuma a responsabilidade. Trabalhe muito por tudo que decidir fazer. Procure identificar suas defesas e tenha coragem de abrir mão delas. Veja mais aqui e aqui.

A OBRA EM NEGRO – [...] Mas tu, a que nenhum confim delimita, por teu próprio arbítrio, entre as mãos daquele que te colocou, tu te defines a ti mesmo. Te pus no mundo, a fim de que possas melhor contemplar o que contém o mundo. Não te fiz celeste nem terrestre, mortal ou imortal, a fim de que tu mesmo, livremente, à maneira de um bom pintor ou de um hábil escultor, descubras tua própria forma... [...] Naquela manhã, os ceifeiros haviam encontrado uma feiticeira a urinar maliciosamente no campo afim de conjurar a chuva sobre o trigo já parcialmente apodrecido por aguaceiros intempestivos; lançaram-na ao fogo sem outra forma de processo [...]. O cônego explicava que o homem, ao infligir aos perversos o suplício das chamas, que dura apenas um momento, não faz senão conformar-se à lei de Deus, que os condena ao mesmo castigo, só que para sempre  [...] Foi de coração confiante que, uma noite, ele (Simão) observou seus miseráveis comensais a enterrar os gorros até os olhos e a envolver o pescoço com trapos aproveitados de uma echarpe de lã, caminhando lado a lado sobre lama e neve, prontos a se arrastar juntos até Münster de seus sonhos [...] Quando afinal Joana falou, o que lhe saiu dos lábios foi uma torrente de torpezas e obscenidades que sabiam ao mesmo tempo a esgoto e a Bíblia. O Rei (de Münster – Cidade de Deus) não fora jamais para a velha hussita senão um indigente a quem se concedia comer na cozinha e que ousou dormir com a mulher do patrão [...] sonhava com fogueiras, tais como as que vira por ocasião de um auto-de-fé numa pequena cidade de León, durante o qual pereceram quatro judeus acusados de haver hipocritamente abraçado a religião cristã sem antes renunciarem à prática dos ritos herdados de seus pais, além de um herético que negava a eficácia dos sacramentos. Ele imaginava aquela dor damasiado aguda para a linguagem humana [...] A rigor, quase a contragosto, esse peregrino ao fim de um percurso de mais de meio século obrigava-se pela primeira vez n a vida a recompor em pensamentos os caminhos palmilhados [...] empenhando-se em fazer a escolha entre o pouco que parecia advir de si e o que pertencia ao acervo comum da sua condição humana [...]. Trechos extraídos da obra A Obra em Negro (Nova Fronteira, 1981), da escritora belga de língua francesa Marguerite de Yourcenar (1903-1987). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - LIÇÃO DE ESCRITA - Não meça / a temperatura: pouco / importa se o corpo / dá-se, agora, / em forma / de colapso. / Esqueça / a máscara tesa / que sequestra o sorriso / por sob / a pele. / Releve / a agulha inclusa / que te paralisa / beijo e protesto. / Reserve / uma hora diária / para afagar tua miséria. / Ou resista: / não vale a escrita. UTRUM DEUS SIT SUBIECTUM HUIUS SCIENTIAE - Uma voz não sei de Quê / de Quando escondido e Onde pouco nítido / pede-me que esqueça / que é forma não formada / Mas não Não caio / na lábia do poema / seu não ter / De Quê nem Porquê / Aqui se faz Aqui / se prega (O que se arrasta sobre as águas e às vezes se afoga?) / É antes uma íngua na fala / uma pedra debaixo da língua. Poemas extraídos da obra Aleijão (7Letras, 2009), do poeta, jornalista e crítico literário Eduardo Sterzi.

A ARTE DE AURELIO GRIMALDI
Na obra cinematográfica do cineasta e roteirista italiano Aurelio Grimaldi, destaco os drama Le Buttane (1994) e La Ribelle (1993), como também o drama erótico Il Macellaio (1998) e a comédia La divina Dolzedia (2017), entre outros.


Arraial dos Alunos do Colégio Nossa Senhora de Lourdes & muito mais na Agenda aqui.
&
Todo dia é Dia Mundial do Oceano aqui e aqui
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa alemã Ruth Bernhard (1905-2006).
Veja mais aqui.
&
Assim ou vai ou racha, a literatura de Antonio Callado, a poesia de Adalgisa Nery, a arte de Paul Gauguin & Programa Tataritaritatá aqui.
&
Dança do amor, o pensamento de Paramahansa Yogananda, a fotografia de Joyce Tenneson, a arte de Luciah Lopez & Programa Tataritaritatá aqui.
 

segunda-feira, janeiro 19, 2015

BETINA GONZÁLEZ, CLARIBEL ALEGRÍA, CLÉMENTINE FAÏK-NZUJI, BAKHTIN, BENJAMIN & YVONNE DE CARLO

 


UMA VEZ, YVONNE... – O sonho da mãe que fugira adolescente para se tornar dançarina, malogrou. E do Canadá uma ingênua sonhadora reduziu-se a vendedora apaixonando-se por um charmoso golpista insensível, o seu pai que, ao descobrir a sua gravidez a enxotou de casa. Aos três anos de idade era Peggy ainda criança quando o pai desapareceu de vez. A mãe então regressou à casa dos pais com um sonho a tiracolo - a filha seria uma estrela de balé e seria a sua redenção: Margaret Yvonne Peggy. Os avós religiosos incutiram-lhe uma educação rígida. E foi a escola o seu refúgio: destacava-se nos eventos com sua graça e voz. Por conta disso ansiou tornar-se atriz famosa e respeitada. Levada por seus sonhos a mãe mudou-se para Los Angeles e lá, enquanto trabalhava de garçonete, a filha estudava balé. E aos 17 anos, a pequena Peggy já crescida, abandonou a escola e tornou-se Yvonne, ganhadora de um concurso de beleza na Califórnia – a Miss Venice Beach. Daí conseguiu um papel mínimo em Havard Here I Come. Foi para as telas em westerns e com a eclosão da segunda grande guerra entretia com sua dança as tropas, até conseguir um papel em Route to Morocco. Depois participou de Por Quem os Sinos Dobram, logo em seguida, Salomé. O sucesso bateu-lhe à porta com Frontier Gal, Slave Girl e Lawless and Soulless. Tornou-se uma estrela e foi A Noiva do Pirata, A Águia Deserta, Hotel Sahara, Pescadores de São Francisco, Capitão Furacão, The Keys to Paradise, Sea Devils, foi a esposa de Moisés n’Os Dez Mandamentos e My Sin Was Being Born. Passou a ser confundida com a grande estrela Dorothy Lamour e, enquanto sua carreira decolava, encontrou não só homens dispostos a pagar para vê-la dançar, como ricaços sangue azul a disputavam. Quantos amantes e, mesmo assim, o destino parecia-lhe miserável. Amou e casou-se, teve dois filhos. Chega a ser considerada A Mulher Mais Bonita do Mundo, a ponto de inspirar Rimsky-Korsakov e Wagner. Para quem já fora a bela Scheherazade, ela confundia seus detratores com hábeis atuações cômicas, esbanjando beleza e talento. Veio Real Man e o cuidado com o marido enfermo. Foi a vez de Família Munsters e ela já era a adorável mãe vampira Lily para sempre. Chegou a vez do divórcio e o brilho na Broadway com Follies. E foi impetuosa em Tânger e acolhedora em Gibraltar, foi sensual artista de café caribenho em Flame of the Islands, foi tanto beldade sulista como Maria Madalena, afora ter sido uma atraente viúva governanta que causou ciúmes até na esposa de John Wayne e superava a velhice com a magnitude de cantar Can that Boy Fox-Trot e I'm Still Here: Estou quase terminando minhas memórias...Yvonne: An Autobiography... Premiada voltou a atuar no cinema e na televisão e interpretar a Lily Munster e mais de 100 filmes nos costados. Morre o seu filho caçula, ela sofre um derrame e vai para uma casa de repouso para virar uma lenda: Yvonne De Carlo! Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Acho que tenho uma vida dupla e confesso que estou feliz com ambos. Gostei de fazer comédias porque o riso é universal e acredito que é importante levar alegria à vida das pessoas. Descobri que tinha a capacidade de fazer comédia. Meu timing foi realmente inato. Nunca me senti glamorosa, ainda não me sinto. Nunca me senti uma beldade e particularmente não acho que o seja. Sempre acreditei em ser verdadeiro consigo mesmo. É importante manter os pés no chão e lembrar seus valores. Capacite sua mente em qualquer lugar, a qualquer hora. É importante valorizar as pequenas coisas da vida, porque são elas que lhe trazem a verdadeira felicidade. Não tenho medo de envelhecer. A idade traz sabedoria e experiência, e isso não tem preço. Pensamento da atriz canadense Yvonne De Carlo (Margaret Yvonne Middleton – 1922-2007).

 

ALGUÉM FALOU: É importante estar satisfeito com os próprios dons, porque o que alguém faz bem para si mesmo pode servir aos outros de uma forma ou de outra. Nenhum ser humano pode começar a sua vida fora de si mesmo. É suspeito ver alguém negligenciando sua casa para fazer trabalhos de caridade. Quando escrevo algo que me satisfaça espero que meu vizinho ou meus amigos queiram ler, e é assim que acontece. Pensamento da escritora congolesa Clémentine Faïk-Nzuji Madiya.

 

GÊNEROS DO DISCURSO – [...] Todo estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e às formas típicas de enunciado, ou seja, aos gêneros do discurso. Todo enunciado oral, e escrito, primário e secundário e também, em qualquer campo de comunicação discursiva_ é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve), isto é, pode ter estilo individual [...] Quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade (onde isso é possível e necessário), refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular da comunicação, em suma, realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso [...]. Trechos extraídos da obra Estética da criação verbal (Martins Fontes, 2003), do filósofo e pensador russo teórico da cultura e das artes Mikhail Bakhtin (1895-1975). Veja mais aqui.

 

NARRADOR – [...] Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. Antes de tudo, não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo [...]. Trecho extraído da obra O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura (Brasiliense, 1992), do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui.

 

ARTE MENOR - [...] Tudo passou a ser uma questão de saber ou não saber, à medida que o roteiro foi substituído por uma cascata de improvisações. Cortes de cabelo, dietas, músicas gravadas nas rádios, os ritmos desobedientes do meu corpo, o avental por cima da túnica, a praça vazia, as minas nos peitos nas revistas, o rímel contrabandeado apesar da mãe, a ginástica na frente da televisão, Mazinger e o Hardy Rapazes, o Papa visto através de um pequeno dispositivo de papelão com um espelhinho na ponta, a multidão aquecida por volumes de papa evangelizadora. Sombra azul clara até as sobrancelhas, ausculta de virilhas, sutiãs para sapatos de verniz, hinos de TV como Sancor mas pior, a praça cheia, mais Hardy Boys, tateando, os primeiros assaltos com Coca Cola, saias lisas, comunicações de milhares de figuras , minas de tanga, praça cheia, americano best-seller, minissaias, escudos, beijo e matança de pintinhos, meias de náilon para tiaras, fim dos Trigêmeos de Ouro, pichações silenciadas, domingos eternos da juventude. As instruções sonâmbulas dos meus professores, mais minas em bolas, bandeirinhas, preto e branco, mais instruções, procedimentos, azul claro e branco, DNI, mais papéis, menos papéis, fuga no século 23, anéis de plástico para anéis de ouro, professores isso nos mostrou – como se em vez de uma cartilha de defesa civil estivessem seguindo um manual de demonologia – como qualquer tipo de perigo poderia ser evitado se alguém conseguisse ficar sob o batente de uma porta. [...] A escola nunca foi importante para papai. Mamãe nos plantou e transplantou seguindo o ritmo de seus diagnósticos e convicções, enquanto ele permaneceu em seu universo privado e inacessível, onde suas filhas entravam de vez em quando como pequenos motivos de um quadro maior que só ele conhecia. Sempre deixei essas decisões nas mãos de minha mãe, que travava guerras incompreensíveis com os padres e freiras nas escolas, alimentava ressentimentos com pais e professores dos quais éramos exilados para um novo círculo de estranhos. Longe de serem traumáticas, estas migrações escolares foram para mim como pequenas excursões nas quais logo aprendi o valor do anonimato; Gostei de me sentir distante das brincadeiras das outras meninas, sabendo que era transitória naquele lugar. Conhecer os ritmos e formas de outras escolas me fez sentir superior, além das brigas e medos particulares que tanto poderiam preocupar os outros. Senti que o verdadeiro perigo era não conhecer o roteiro ou não executá-lo com eloquência suficiente. Com uma arrogância protectora que por vezes se manifestava como isolamento e outras vezes como momentos esporádicos de liderança, surpreendi os meus professores com a minha capacidade de adaptação e de fazer novos amigos quando para mim eles eram na verdade como bonequinhas recortadas em papel: perfeitos no seu mundo . circular, todos iguais, todos descartáveis. [...]. Trechos extraídos da obra Arte Menor/ Through My Father's Art (Alfaguara, 2007), da escritora argentina Betina González, que na sua obra Las poseídas (‎Tusquets, 2013), expressa que: [...] As coisas tendem a quebrar, a se separar, a se dissociar naturalmente. Nada do que fazemos tem outra função senão acelerar esse processo. São muito raros os casos em que ocorre o contrário – qualquer aproximação, qualquer intimidade carrega consigo a semente potencialmente destrutiva do amor. A depravação absoluta não está reservada aos demônios. A deprevação absoluta é a aceitação daquela verdade que o rodeia com sua rara beleza. Não é necessário compreender mais do que essa lei para entrar sem problemas na música do mundo e na sua constante negação da vida. [...]. Ela também é autora de obras como Jogos de praia (Clarín-Alfaguara, 2008), El amor é uma catástrofe natural (Tusquets, 2014) e América alucinada (Tusquets, 2013).

 

FLORES DO VULCÃO - Quatorze vulcões surgem \ no meu país lembrado, \ no meu país mítico. \ Quatorze vulcões de folhagem e pedra \ onde estranhas nuvens seguram \ o guincho de um pássaro sem lar. \ Quem disse que meu país era verde? \ É mais vermelho, mais cinza, mais violento: \ ruge Izalco, ceifando mais vidas. \ O eterno Chacmol coleta sangue, \ os órfãos cinzentos, \ o vulcão cuspindo lava brilhante \ e o guerrilheiro\ morto e os mil rostos traídos, \ as crianças que observam \ para contar. \ Nenhum reino nos restou. \ Um por um, eles caíram \ por todas as Américas. \ O aço ressoou nos palácios, \ nas ruas, \ nas florestas \ e os centauros saquearam o templo. \O ouro desapareceu e continua \ desaparecendo nos navios yanquis, \ o café dourado misturado com sangue. \ O padre foge gritando \ no meio da noite, \ chama seus seguidores \ e eles abrem o   peito do guerrilheiro\ para oferecer ao Chac \ seu coração fumegante. \ Em Izalco ninguém acredita \ que Tlaloc esteja morto, \ apesar da televisão, \ das geladeiras, \ dos Toyotas. \ O ciclo está se fechando, \ estranho o silêncio do vulcão \ desde a última vez que respirou. \ A América Central tremeu, \ Manágua ruiu. \ Na Guatemala, a terra afundou. \ O furacão Fifi arrasou Honduras. \ Dizem que os ianques o rejeitaram, \ que ele estava se movendo em direção à Flórida \ e o forçaram a recuar. \ O café dourado é descarregado \ em Nova York, onde \ é torrado, moído \ e dado um preço. \ Siete de Junio \ noche fatal \ bailando el tango \ la capital.\ Dos terraços sombreados\ O vulcão de San Salvador sobe. \ Mansões de dois andares \ protegidas por muros de \quatro metros de altura \ sobem pelos seus flancos, \ cada uma com grades e jardins, \ rosas da Inglaterra \ e araucárias anãs, \ pinheiros uruguaios. \ Mais acima, na cratera \ dentro das paredes da cratera \ vivem famílias camponesas \ que cultivam flores que \ os seus filhos podem vender. \ O ciclo está se fechando, \ as flores de Cuscatlecan \ prosperam nas cinzas vulcânicas, \ crescem fortes, altas, brilhantes. \ Os filhos do vulcão \ descem como lava \ com seus buquês de flores, \ como raízes serpenteiam \ como rios o ciclo se fecha. \ Os donos de casas de dois andares \ protegidas dos ladrões por muros \ espiam das suas varandas \ e vêem as ondas vermelhas descendo \ e afogam os seus medos em whisky. \ São apenas crianças em farrapos \ com flores do vulcão, \ com Jacintos e Pascuas e Mulatas\ mas a onda está aumentando, \ o Chacmol de hoje ainda quer sangue, \ o ciclo está se fechando, \ Tlaloc não está morto. Poema da escritora nicaraguense Claribel Alegría (1924-2018). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

SACADOUTRAS

 

A CARTA ROUBADA – O conto A carta roubada, do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840) é tema de um dos capítulos dos Escritos do psicanalista Jacques Lacan. A história narra a engenhosa ação de personagens na reconquista de uma carta roubada, assinalando o mistério que “[...] é a posse da carta, e não qualquer emprego da mesma, que lhe confere poder. Se ele a usar, o poder se dissipa”. A arte de Poe nesse conto é extremamente potencializada, quando ele coloca na voz de um dos personagens que: “[...] Quando quero saber até que ponto alguém é inteligente, estúpido, bom ou mau, ou quais são os seus pensamentos no momento, modelo a expressão de meu rosto, tão exatamente quanto possível, de acordo com a expressão da referida pessoa e, depois, espero para ver quais os sentimentos ou pensamentos que surgem em meu cérebro ou em meu coração, para combinar ou corresponder à expressão [...]”. Mais adiante encontramos: “[...] O mundo material contém muitas analogias estritas com o imaterial e, desse modo, um certo matiz de verdade foi dado ao dogma retórico, a fim de que a metáfora, ou síntese, pudesse dar vigor a um argumento, bem como embelezar uma descrição”. Um primor de arte. Confira mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: The Large Bathers (Les Grandes baigneuses), do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906). Veja mais aqui.

Ouvindo: o Concerto nº 3, C major, op. 26, de Sergei Prokofiev, com a pianista brasileira Magda Tagliaferro (1893-1986) e L´Orchestre National  del´RTF, com direção de Francesco Mander. Veja mais aqui.


NARA: A ETERNA MUSA DA BOSSA NOVA – A cantora e musa da Bossa Nova, Nara Leão (1942-1989) apareceu para mim com aquela vozinha linda cantando A Banda, de Chico Buarque, num dos festivais. Aquele rostinho lindo tocando um violão sobre as pernas bem torneadas me seduzia a ponto de virar fã de carteirinha e não deixar de ouvi-la noitedia na vitrola cada um dos seus LPs, do primeiro disco até o memorável My foolish hear. Guardo na lembrança o maravilhoso talento dessa artista e minha eterna homenagem. Veja mais aqui.


JANIS: A FOTO DA PAIXÃO – Estava eu saindo da infância pra adolescência quando vi essa foto da cantora norte-americana Janis Joplin (1943-1970): eu me apaixonei por ela na hora. Primeiro a foto da rainha do Rock and Roll; depois que foi a música e o seu jeito de cantar que me cativaram com blues, soul e muito rock. Era um tempo da gente manifestar nosso desejo de paz, amor e muita porralouquice. Já era tarde e, parodiando Cazuza, a minha heroína havia morrido de overdose. Só me restava curtir a sua foto e a sua voz. Minhas homenagens sempre. Veja mais aqui.
E como todo dia é dia da mulher, a minha homenagem diária pra ela com a Fashion Rio, do Miguel Paiva.


Veja mais sobre:
O Cravo e a Rosa, Clitemnestra – Oréstia & a trilogia de Orestes, Antônio Torres, Elis Regina, Bernardo Bertolucci & Maria Schneider, Clara Redig & Antônio Maria, Antoine-Jean Gros, Pierre-Narcisse Guérin & Programa Tataritaritatá aqui.

E mais:
Nietzsche & a Música, Luis Soles & as raízes árabes da tradição poético-musical do sertão nordestino, Otto Maria Carpeaux & a História da Música, José Ramos Tinhorão, Edigar de Alencar & O carnaval carioca através da música aqui.
Platão, Albert Sánchez Piñol, Aracaju, Toninho Horta, Amos Gitai, Cia. Cenica Nau de Ícaros, Paul Helleu, Ricardo Cabús, Helena Yaralova, Biritoaldo & Cidadania e Direitos Políticos aqui.
Paz & Alberto Enstein, Jiddu Krishnamurti, Alexander Scriabin & Paul Gauguin aqui.
Gaia – Mãe Terra, Isaac Asimov, Caetano Veloso, Teresa Filósofa & s Jean Baptiste de Boyer aqui.
Buda, Darcy Ribeiro, August Macke & Yes aqui.
Christian Bernard, Isaac Newton, Casimiro de Abreu, Keith Jarrett, Carlos Saura & Mia Maestro, Julio Hübner & A lenda da criação no gênese africano aqui.
Umberto Eco, Friedrich Dürrenmatt, Abelardo da Hora, Humberto Teixeira & Eliane Ferraz aqui.
Litisconsórcio, Tavito, Bruno Vinci & Teco Seade aqui.
Psicologia na Educação, Eek, Gato Zarolho & Palhaço Paranoide aqui.
Decameron, João Albrecht & Jiddu Saldanha aqui.
Riacho Salgadinho, Eliezer Setton, Zé Barros, Naldinho Freire, Wilson Miranda & Webrádio Maceió aqui.
Hermilo Borba Filho & Sônia van Dijck, Teoria da Literatura, Solange Palatnik, Constituição, Psicologia, Dialogicidade & Representações Sociais aqui.
A vontade, Amanda Garruth, Deborah Rosa, Luciana Soler, Bete Sá, Vanessa Morais & Cantora Sol aqui.
Afetividade, Lília Diniz, Lucinha Guerra, Thathi, Ezra Mattivi, Juliana Sinimbu & Anna Ratto aqui.
Dos destroços pra solidão criativa, Fabian Dobles, Rosa Passos, André De Dienes, Joan Fullerton & Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui.
É ela a soberania do mar na foz do meu rio, Naura Schneider, Marianna Leporace & Luciah Lopez aqui.
Cenário em ebulição: pra quem vai do lado de lá ou quem vem do lado cá & vice-versa, Hélène Bernard & As grandes iniciadas, Willem de Kooning, Arabella Steinbacher & Rubens Gerchman aqui.
Os dois mundos de quem vive de um lado só, Angelo Agostini, Juliette Herlin, Hannah Wilke, Fernando Botero, Nik Helbig, Doro, Robimagaiver & Zé Corninho aqui.
Reflexões de jornada à sombra da amendoeira, Albert Einstein, William Byrd, Jeff Kolker& Otgo aqui.
A miséria obscena da avareza & Zinaida Evgenievna Serebryakova aqui.
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Fecamepa aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...