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terça-feira, setembro 01, 2020

TARSILA DO AMARAL, MILLÔR, PINKER, SERRES, CENDRARS, ROSEMBERG CARIRY, SONIA EBLING & LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DECÁLOGO DO IMBROCHÁVEL COISONÁRIO – Nas últimas horas foram anunciadas as últimas medidas do governo em cadeia nacional e que ninguém viu! Lá vai para ciência de todos. Primeiro: Todo problema será resolvido por bem ou por mau! Não teve acordo, já era, pro saco! Essa a solução socioeconômica para tudo e todos, viva o consumo! Segundo: Todo concurso público só terá provas que avaliem a fé em Deus e o patriotismo. Entre os escolhidos, só os medíocres e chatos (do lado da gente, né?). Esta a nossa e verdadeira meritocracia. Às mulheres acrescente-se prova de remexido dos quadris e nenhum conhecimento, tenho dito! Afora isso, é fundamental que todos façam silêncio, vamos organizar esta porra de zona. Terceiro: Todos terão que trabalhar até os 100 anos ou mais! Aposentados e vagabundos serão metralhados em praça pública! Quarto: A moeda corrente nacional será o jeitinho: uma mão lava a outra e todo mundo resolve as coisas. Quem quiser estudar que pague! Será lançado um Guia Educacional só com uma regra: é pau pra lamber sabão e pau pra saber que sabão não se lambe, assim! Livro é um bocado de letras só pra fazer confusão e os dicionários não mais terão palavras difíceis que serão erradicadas para descomplicar as coisas. Quinto: A história terá apenas feitos militares e todo o resto queimado e esquecido para sempre. Todas as ruas, avenidas e logradouros voltarão a ter apenas nomes de heróis soldados e santos, chega de lugar disso ou daquilo, pronto, assim todo mundo saberá a quem obedecer e apelar. Sexto: Todos terão uma renda básica de 200 coisonários para morrer aos pouquinhos e ninguém ficará pra semente (e que morra logo, de preferência). Além do mais, viver é caro pra dedéu, só pros ricos. Sétimo: Não haverá mais fábricas brasileiras, todas serão americanas pra gente usufruir tudo do bom e do melhor dos United States. E só. Oitavo: Revoguem-se as disposições em contrário e fim de papo! (Ei, mas são dez, tem que ser dez! Por que? Porque é um decálogo. Por que? Como os 10 mandamentos, ora! Ah, é. Então bota aí...) Nono: A democracia será como as lições práticas do quartel, escreveu e não leu, o pau comeu. Pronto. (Falta uma! Taoquei, porra! Bota aí...) Décimo: Assino e determino, assim será a minha democracia de hoje em diante. (Ah, mas é a mesma coisa do nono! É isso mesmo, fechaí. Ponto final e vá pra porra!). Aí com essa, até Millôr ressuscitou: Conseguiram o que queriam: transformar o povo num cão que não morde. (Mas também não abana o rabo.) Ser brasileiro me deixa muito subdesenvolvido. Agora, pausa para o intervalo comercial! Click.

DUAS DEDADAS NO ESCURINHO DO CINEMA – Naquela noite eu caminhava à toa quando ela passou por mim. Ôpa, para quem já vinha ponteando a trilha dela, não poderia jamais deixar passar. Ela se virou e sorriu a mais linda noite enluarada. Era como se a Lua em forma de mulher me fizesse enamorado Selenito, enfeitiçado por seus encantos. Vai pra onde? Passeando. Papo vai, papo vem. Estávamos próximo do cinema. Que tal? Vamos! Nem sei que filme passava, comprei os ingressos. Já começou a sessão? Já. O porteiro cochilava, entrei no meio da escuridão medonha, um zoadeiro incrível na tela. Aboletados, logo me acheguei cochichando ao seu ouvido, até ousei o braço por cima dela para facilitar a conversa, ela aquiescente, atenta. Não prestávamos atenção no filme, só um ao outro. Ao gesticular na conversa íntima, inadvertidamente rocei a mão ao seio, a outra em sua nuca, ela envolvida, achegada, virou-me a face e não pestanejei: um beijo demorado, mãos buliçosas percorrendo toda sua geografia. Foi, fomos fundo, quase às vias de fato, não fosse acenderem as luzes e me flagrarem com a mão e tudo mais na botija dela, era o fim da sessão. Não havia outra, era a última. Buscamos outra guarida, lavamos a égua. O filme? Só anos depois soube: Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1986), do Rosemberg Cariry, só revisto um dia quando resolvi ver Corisco & Dadá (1996), Pedro Oliveira, o cego que viu o mar (1999), Lua cambará, nas escadarias do palácio (2003), Patativa ave oupoesia (2007) e Os pobres diabos (2013), entre outros que vi dele e não lembro. Não sei qual a razão, mas toda vez que os filmes dele passavam, me vinha a imagem de Tarsila do Amaral me dizendo: Minha força vem da lembrança da infância na fazenda, de correr e subir em árvores. E das histórias fantásticas que as empregadas negras me contavam. Não sei, coisas muito próximas da minha existência, revejo em cada uma de suas cenas.

TRÊS ESTALOS & A EXTINÇÃO DE TUDO - (Imagem: arte da escultora Sonia Ebling Kermoal) - Apesar da pandemia e dos reiterados alertas dos cientistas sobre a proximidade da extinção humana, nem só indiferentes desfilam, como os que jogam contra contribuindo para o desaparecimento definitivo de mamíferos, inclusive humanos, pelo desmatamento, poluição e aquecimento global, conforme aquela Torre de Babel de Steven Pinker, desde os de antes dele e até agora. Como parece que o Brasil e o planeta entraram num apagão sem fim, na verdade esgotamos o planeta. E a nós apenas cabe assistirmos a tudo isso de forma passiva e conivente, enquanto poderosos estúpidos mandam e desmandam passando boiadas e tocando fogo para a ganância deles e desertificação de tudo. O que nos resta fazer senão a nossa própria parte. Resta-nos a utopia da transformação, ou como diz Michel Serres: Não há progresso sem utopia. A maioria das grandes descobertas ou a maioria dos progressos locais que fazemos vem, sem dúvida, do sonho de alguém que nos precedeu, como uma espécie de utopia. E a minha é escrever, quem sabe, alguém leia e comigo possamos fazer alguma coisa juntos. Afinal, como bem diz Blaise Cendrars: Escrever é uma percepção do espírito. É um trabalho ingrato que leva à solidão. Sim, à solidão criativa, capaz de mudar em mim e em todos nós. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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A GARÇA MAL FERIDA
[...] - Anna, chamava Gisbert. Anna, bem te acostar. – Logo vou. Mas só dali a muito minutos chegava e se aprestava para o sono, para o amor. Naquela noite eles se haviam amado muito. Nos gestos, nas palavras, na entrega que se escapava e se dava; Gisbert reconhecia a sua Anna, acrescida de uma doçura nova, mesclada a uma tristeza que ele nunca vira nela. As mãos de Anna, o rosto de Anna, o corpo de Anna, falavam, falavam. – Te amo, diziam os lábios. – Te amo, diziam as mãos. Quando se esgotara o desejo, os dois estendidos lado a lado, os olhos no teto de treliças, Anna lhe havia tomado a mão. E após um longo silêncio falara: - Eu te amei muito, Gisbert. [...]
A obra A garça mal ferida: a história de Anna Paes D’Altro no Brasil Holandês (Lê, 1995), da escritora, professora, feminista e pesquisadora Luzilá Gonçalves Ferreira, trata de uma brasileira do século XVII, cuja vida era dividida entre o sentimento da terra e suas ligações de amor com os cavalheiros flamengos, trazendo o incêndio de Olinda e a criação de Recife, a administração de Nassau com sua grande tolerância religiosa frente a um catolicismo marcado pela inquisição que fazem o pano de fundo ao exercício de amor da heroína, o qual se dá em outro plano, diferente do mundo dissoluto da colônia, que libera todo pecado ao sul do equador. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, janeiro 23, 2019

RUBEM ALVES, MICHEL SERRES, O DIÁRIO DAS FRUTAS, IANGAÍ & ALAGOIANHADUBA


PEDAÇO DE HISTÓRIA – Para quem não sabe Alagoinhanduba não está no mapa porque não entrou na história. Qual a razão? Seguinte: em 1535, o capitão-donatário Duarte Coelho assumiu a Capitania de Pernambuco, tratada por ele por Nova Lusitânia. Tudo recebeu do rei de Portugal, de mão beijada, por seus serviços prestados. Todo engalanado ele chegou acompanhado de sua fidalga esposa, Brites de Albuquerque, do seu cunhado Jerônimo e de uma parentela que não tinha mais fim, todos tentando a sorte, imagine. Dessa vez era diferente de outra viagem que ele mesmo fez em 1503, quando aqui esteve, então filho bastardo de membro duma antiquíssima família da nobreza agrária do Entre-Douros e Minho, criado por uma tia materna que era prioresa do Mosteiro de Vila Nova de Gaia. Veio, então, na companhia do pai que era escrivão da Fazenda Real e que se tornou comandante da expedição, juntamente com a plebeia Catarina Anes, sua mãe. Logo retornara. Passaram-se os anos e, agora sim, como um nobre que conseguira apagar as máculas do passado, ele desembarcava de nariz empinado e senhor de todas as ordens, manda-chuva da administração geral e do cultivo da cana-de-açúcar, instalando engenhos de açúcar, tabaco e algodão, botando ordem e pintando o sete, tendo por financiamento a garantia do capital judeu e protestante, oriundo do tráfico de escravos da Guiné. Mas, tinha uma bronca: a arenga entre ele, índios e colonos só veio mesmo amainar, com a união do seu cunhado Jerônimo com Maria, a filha do cacique Arcoverde dos tabajaras. Uma dor-de-cabeça a menos, pois ainda restavam caetés e franceses, o que já era uma barra pra lá de braba. Pois bem, contando com a ajuda dos céus, foi isentado de prestar contas ao governador geral da Bahia, Tomé de Sousa, o que quase mata o maioral do coração. Por conta disso, mandou ver na capitania e tome trupé. Foi por esse tempo que teve um confronto com um grupo de aguerridos caetés, e disso foi atingido por uma flecha. Que coisa! Porém, ao se recuperar recebeu o chefe tabajara, Tabira, que trouxe os prisioneiros com pedido para sacrificá-los. Aproveitando-se da captura deles, sua intenção era outra, vez que, entre eles, estava ela, Iangaí, Ó linda. Apenas ela foi poupada, os demais foram pros quintos dos infernos ou sabe-se lá pra onde. A prisioneira passou a ser o centro das suas atenções, estava, deveras, perdidamente apaixonado. Ela, nada, virada na capota choca, revoltada, era só desprezo porque seu coração estava destinado a Camura, o seu amado caeté. O donatário usou de seus poderes e, como não poderia ser diferente, partiu pra cima dela, incontrolável, vuque-vuque e a estupra, mesmo com os protestos e rejeições dela. Ó linda, assim seviciada todas as noites, até o dia em que a índia Maria de Jerônimo confidenciou: Ela vai matá-lo. Ele ignorou, estava apaixonado demais para ser tocado pela repulsa da amada, mas precaveu-se. Passou-se o tempo e após muitas fungadas e teitei, ela pariu seu filho que é tomado por Maria para o donatário. Aí, ela foge e se mata, encontrada morta dias depois e envolta em folhas de timbó. Oh não! Em sua homenagem ele funda Olinda da Nova Lusitânia, que até então não tinha esse nome não, era local onde se instalava a aldeia Marim dos Caetés. A criança desapareceu e ninguém sabia nada do paradeiro dela. Como é que pode isso? Babau. Tome anos. A povoação é promovida a vila em 1537, em uma grande festa para o poderoso. E tudo correu normalmente até ele bater as botas em 1554, lá em Portugal, sem saber notícias do filho perdido. D. Brites que assumiu tudo por aqui, não queria ouvir falar nem de longe do bastardinho sumido, apenas dos dois filhos, Duarte e Jorge, que estavam estudando na metrópole e logo retornariam para o seu seio. Pois foi. Sem que ninguém desse por nada, o adulterino cresceu ninguém sabe como e tornou-se o destemido mameluco que arrasou sesmarias e fortunas, dizimou índios, brancos e negros que encontrasse pela frente, adultos, meninos e velhos, tudo sacrificado; apenas por cativeiro as mulheres, senhoras e filhas dos subjugados. Formou um verdadeiro harém, formado por um plantel de brancas, negras e índias para suas orgias por noites e dias. Mais tivesse ou desse. Desconhecia da honra, ignorava sentimentos e apenas matava só por prazer e festa, pois pegava bicho que fosse de mão – jacaré, tubarão, coisa ruim, o que fosse -, enfrentava cruzeta na caixa dos peitos, e tinha por café pequeno quebrar o pescoço alheio. Vôte! Diziam: Esse tem parte partes com o tinhoso! Se não for o próprio, gente! Muitas diziam dele de corpo fechado, pactuado com o demo, espírito ruim, coisas e tais. Parentes, para ele, não tinha, nem se identificava com branco ou índio, muito menos com qualquer semelhante na face da terra, passasse, matava. Teve por alvo a vida toda, afora abusar das mulheres que emprenhavam bruguelos aos montes, sacrificar quem atrapalhasse seu passeio, desbancar qualquer pé de gente metido a besta, principalmente, o de retomar todas as sesmarias doadas pelo pai, assumindo para si toda a capitania e até terras outras mais para as bandas do norte e de outras capitanias. Isso nem contava vitimar-se numa noite invenosa de priaprisma, no meio de um coito ineivado em cima de uma índia tarada, morrendo a bem da salvação dos que conseguiram escapar de seu poder e fúria. Todos os seus domínios foram resgastados um por um pelo primeiro que chegasse, restando, coitada, à Alagoinhanduba, simplesmente, aquele que ninguém queria por ser amaldiçoado e que ainda hoje é demarcado como seu espaço territorial, tão ínfimo, chão esse esconjurado secularmente por ter sido a sede do poderio desse insano. Por conta disso, a cidade sequer figura no mapa, justo porque foi ignorada pela história. E vamos aprumar a conversa, meu! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
O amor, não a guerra. [...] O amor, não a guerra, isso requer talento demais. Um poder que se acha no povo, uma relação positiva com a vida que falta aos intelectuais, burgueses, militares e políticos. Àqueles que impuseram uma cultura da sexualidade torta, sadismo, masoquismo e não sei mais que outras máquinas de evitar os exauridos; àqueles que ensinam às crianças a patologia do erotismo para esconder as delícias delicadas da normalidade. É preciso aí uma forma tranquila, quieta, sem vontade, estável e serena como uma árvore. A ternura. É preciso um saber, esta felicidade vital que dá tudo num sorriso, a gentileza, esta alta genialidade de grandeza dentro da relação corporal. [...] A filosofia se faz precisa por completo, a verdadeira, aquela que temos pés na terra e que se decifra como sabedoria do amor, uma percepção atual da onitude do cosmos, todo o saber humano, mesmo se o ignoramos e o ensinamos, mais o incêndio ardente do patético. [...] Ela não tem nem mesmo necessidade de reprimir a sexualidade, isso acontece espontaneamente. Como se, ao contrário, a maioria não fosse levada a isso, poucos terão tido a primeira ideia de fazê-lo. Vamos, vós não pensais nisso; se os poderosos do Eros chegassem amanhã ao poder, a humanidade padeceria de vergonha. Uma tal transvaloração, hoje em dia salvadora, obrigaria todos os dominadores da história a se esconderem nos canaviais.
Trechos de Traição: a tanatocracia, extraídos da obra Hermes, uma filosofia das ciências (Graal, 1990), do filósofo francês Michel Serres, evocando a figura do deus grego Hermes, o mensageiro, intérprete da vontade dos deuses, deus dos viajantes. Ressalta o autor que dois aspectos de Hermes são essenciais simbolicamente na filosofia: a sua mobilidade em viajar pelos mais diversos lugares e o seu dom de invenção, representando assim as relações ou redes ou passagens que os diversos ramos do conhecimento, das ciências às artes, devem ter, chamando atenção para a filosofia da invenção que se encontra nas intersecções, nos caminhos terceiros, nos terceiros lugares, lugares de contato entre ciência e poesia, lugares mestiços. Veja mais aqui e aqui.

O DIÁRIO DAS FRUTAS DA CAIS CIA DE DANÇA
O espetáculo O diário das frutas (2017), da Cais Companhia de Dança, foi inspirado no conjunto de crônicas do jornalista, escritor e antropólogo Bruno Albertim e que deram origem a uma série de pinturas de Tereza Costa Rêgo. Este espetáculo marcou a estreia do conceituado e premiado bailarino e coreógrafo Dielson Pessoa como diretor da nova companhia em Campina Grande. O coreógrafo pernambucano já participou da Companhia de Dança Deborah Colker e Balé da Cidade de São Paulo, apresentando-se em grandes palcos do cenário internacional, tais como Uruguai, Chile, Argentina, EUA, Itália, Áustria, França, Inglaterra, Alemanha, Singapura, ao mesmo tempo em que interpretou trabalhos de célebres coreógrafos, como Ohad Naharin (Israel), Mauro Bigonzzetti (Italia), Itzik Galili (Holanda), Luiz Arrieta (Argentina), Cayetano Soto (Espanha), Jorge Garcia e Deborah Colker (Brasil). Veja mais aqui e aqui.

O ENTERRO DA PERNA, DE RUBEM ALVES
[...] Aos olhares dos pranteadores, cujo pranto era interrompido pelo espanto, explicava com voz pausada e grave, própria de alguém que conhece os segredos da morte: “Uma perna, para o sepultamento cristão...” Com mãos firmes e palavras claras de alguém que sabe o que está fazendo, abriu seu livro de ofícios fúnebres, e começou: “O Senhor a deu; o Senhor a tirou. Bendito seja o nome do Senhor.  Queridos irmãos: estamos aqui reunidos para devolver à terra a perna de um nosso irmão ausente...” O coveiro, solene, escutava em silêncio as palavras sagradas que saíam da boca do reverendo e enchiam o espaço crepuscular do cemitério. Já as havia ouvido vezes incontáveis e quase as conhecia de cor. “E agora devolvemos esta perna à terra, até a ressurreição do último dia, enquanto a sua alma retorna a Deus, que a criou, para o descanso reservado aos justos”. Com tais palavras, fez o gesto sobejamente conhecido de todos os coveiros. Chegara a hora para o morto fosse baixado á sepultura. Finalmente, estava tudo terminado. “Eu podia jurar que enterro protestante era mais comprido. Este acabou depressa...”, disse o coveiro ao se despedir do reverendo. “De fato é mais comprido”, confessou o reverendo. E explicou: “Mas enterro de uma perna só pode ser um quatro do oficio inteiro. Quando vier o resto do corpo vou ler os outros três quartos do oficio que eu pulei...”.
Extraído da obra O sapo que queria ser príncipe - adolescência e juventude (Planeta, 2009), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.
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A lenda de Iangaí, ó linda aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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terça-feira, agosto 16, 2016

TABUCCHI, MICHEL SERRES, VIANNA MOOG, MUNDO LIVRE S/A, AJA-ANN TRIER, HAUSMANN & GUARNACCIA


E LÁ VOU EU NOUTRAS VOLTAS - Saber de mesmo, a gente nunca sabe. Tudo pode acontecer a qualquer momento. O que não pode é ficar sentado esperando cair do céu uma benesse que seja – um bilhete premiado, ou um negócio da China, por exemplo – ou, até mesmo, a morte chegar. Vai saber. Afinal, na vera, a gente nasce pra morrer. O resto é festa. De fato, a gente tem que justificar essa passagem: descobrir a missão e mandar ver. A vida não é brinquedo. A gente não está aqui pra passar umas férias ou coisa que valha: viver é coisa séria. Tem que fazer alguma coisa. Tem que correr atrás da sobrevivência. Acertar ou não, isso é outra conversa. Já diz o ditado: cobra que não anda, não engole sapo. E morre de fome, ora. Então é seguir em frente, driblar as broncas, escapar dos malefícios e chegar inteiro pra descansar e recomeçar tudo de novo no outro dia. É certo que tem gente que tem o ganhador aberto, salve! Vai ser sortudo assim lá em casa, deixando um tiquinho que seja sem cobrar juros ou correção monetária. De mão beijada assim, até injeção na testa, né não? Quem não é achegado a um 0800, frete FOB ou de grátis? Não é todo dia que chove na horta. Aí falam de sorte e isso eu não sei nada. Sorte pra mim é ter escapulido no meio de uma tuia de espermatozoide e chegar primeiro no óvulo: eu nasci. Viva! Por esse ângulo, viver já é levantar o troféu no primeiro lugar do pódium. O resto, a gente traça. Errando e aprendendo. Topada aqui, uma queda ali, um escorregão, uma relada, aí a gente faz que não houve nada: sacode a poeira e dá volta por cima. Uma hora a gente acerta na veia de novo. E se não deu nessa, vamos pra outra. Escada de um só degrau não leva a lugar nenhum. E prêmio sem camisa suada quase não vale nada: qual a história pra contar e cadê o gostinho da façanha? Eu mesmo acho pra lá de arretado quando conto das minhas e morro de rir com as besteiradas. É gostoso poder rir de si mesmo. E disso sou hoje o maior mangador. Quando lembro que futucava pelo lado errado, nossa!?! Nada mais hilário que ver eu mesmo coçando o quengo sem saber o que fazer. Quando descobria o certo, os gritos de eureka eram poucos. Virava menino de novo e lá ia remexer noutra coisa outra vez. Penava, pelejava de arrancar os cabelos e de quase perder a paciência. Contudo, persistia, perseverava, insistia, até que o intransponível e o inalcançável eram superados. Na verdade eu superava a mim mesmo. Palmas e salves pra mim: fazendo do pelejado causos pros outros rirem. E lá vou eu noutras voltas, cheio de nó pelas costas, pro que der e vier, por bem ou por malmequer, pelas raias dos ventos. E haja o que houver, até que a vida se esvaia na navalha do tempo. E vamos aprumar a convers & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Não existe guerra alguma, apesar de todo esse barulho infernal, é só capital cruzando o mar, hoje ele voa mais rápido que qualquer míssil e quando retorna da missão, tudo o que deixa é terra arrasada, pois seu poder de destruição é muito mais fulminante do que duradouro.
Curtindo a música Caiu a ficha e todo álbum O outro mundo de Manuela Rosário (Candeeiro Records, 2004), da banda Mundo Livre S/A.

PESQUISA:
 Se como um pecado original, a violência, companheira da imitação na origem da aprendizagem, continua como uma das últimas e melhores realizações do saber, nós, filhos de Hiroshima, de Seveso e das tentativas de eugenia não podemos nos surpreender. A violência do conhecimento decorre menos de suas relações com o poder, como se acreditava, do que do próprio nascimento do saber.
Trecho extraído da obra Variações sobre o corpo (Bertrand Brasil, 2004), do filósofo francês Michel Serres.

LEITURA
[...] É por isso, como diria o meu amigo, que escolheram o silêncio as pessoas que na vida de um modo ou de outro escolheram o silêncio porque intuíram que falar, e sobretudo escrever, é sempre um modo de chegar a um acordo com a falta de sentido da vida. [...].
Trecho extraído da obra Está ficando tarde demais (Rocco, 2004), do escritor Antonio Tabucchi.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Um anúncio falso numa entrevista apressada, dada às vésperas do meu primeiro embarque para os Estados Unidos, comprometeu-me irremediavelmente a viagem. Tanto a havia desejado, tanto a havia prelibado, tantos planos tinha feito para aproveitá-la ao máximo, e na hora de gozá-la em sua plenitude, uma estupidez, uma leviandade, acaba transformando a árvore de dourados pomos com que eu sonhara em laranjeira carregada de beira de estrada: as laranjas estavam a azedas ou a árvore coberta de marimbondos. [...].
Trecho extraído do romance Uma jangada para Ulisses (Delta, 1966), do escritor, jornalista e advogado Vianna Moog (1906-1988), ressaltando aquele ditado popular imortalizado no samba do cantor e compositor Ataulfo Alves (1909-1969): Laranja madura na beira de estrada, tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé.

IMAGEM DO DIA: 
A arte do escritor, artista plástico e fotógrafo austríaco Raoul Hausmann (1886-1971).

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DESTAQUE
A arte do artista visual e historiador italiano Matthew Guarnaccia.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte da pintora Aja-ann Trier.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...